Capítulo 2: Uma colaboração repentina com o Oji-san simples

  

A origem do Oji-san

 

2007 – Em um Batting Center (Centro de Rebatidas) qualquer em Shinjuku, Tóquio.

Satou Keita

Os especialistas dizem que as regras mudaram.

Dezoito anos antes de 2025. O ano era 2007... Satou Keita, 23 anos.

Em várias partes do mundo, surgiram subitamente as Dungeons(Labirintos). Como resultado da sobreposição da Terra moderna com um mundo diferente existente em outro espaço-tempo, as terras transformadas em Dungeons sofreram grandes mudanças, influenciadas pelas leis da física desse outro mundo.

A confirmação da existência de magia, antes considerada um produto impossível de contos de fadas; o fenômeno de “despertar”, onde pessoas ganham capacidades sobre-humanas ao derrotar monstros; e os diversos avanços tecnológicos graças à atualização dessas leis da física.

Essa revolução trouxe o caos. Muitos cidadãos ficaram presos nas Dungeons — que poderiam muito bem ser descritas como territórios ocupados por outro mundo —, e várias nações concentraram todos os seus esforços na manutenção da ordem pública e na libertação de seus territórios através da subjugação desses labirintos.

As pessoas, tremendo de medo, deixavam-se levar por teorias da conspiração idiotas sobre profecias apocalípticas de cultos bizarros, armas causadoras de terremotos ou ações de alguma organização secreta, enquanto a internet e a mídia faziam o escândalo que bem entendiam.

E o Japão, considerado um país relativamente pacífico, não foi exceção――.

Um estudante de ensino médio qualquer escapando de uma escola que virou Dungeon com sua amiga de infância, um yakuza lendário aposentado repelindo monstros na base do soco, ou uma garota que dizia ter um forte sexto sentido ascendendo como uma maga.

Uma época repleta de uma tensão bizarra, onde histórias heroicas como essas vazavam de não se sabe onde.

 

――Enquanto isso, os escravos corporativos do Japão continuavam trabalhando como sempre.

 

”Você consegue lutar 24 horas por dia?”... Essa já tá bem ultrapassada, fala sério...

Enquanto repetia uma música antiga de comercial em loop na mente, o jovem com olhos de peixe morto murmurava.

Cheiro de sujeira e miojo, um escritório mal iluminado. Na baia designada para ele, documentos não processados se empilhavam, e garrafas vazias de energético rolavam pelo chão, preenchendo os espaços.

Na Editora Bouken onde foi contratado logo após se formar, o departamento de vendas da época tinha o trabalho exploratório como padrão. A política do chefe do departamento era de um foco extremo em resultados: quem não batesse a meta era exposto na reunião matinal para ter sua dignidade esmagada. E o pior é que o próprio chefe não sujava as mãos, o executor disso tudo era um supervisor que já tinha sofrido uma lavagem cerebral pesada.

(...Que merda. Não aguento mais. Ah, que inferno.)

O estômago dói, uma dor aguda e constante. Todo mês, o trabalho de vendas parecia andar na corda bamba.

Um colega que deu a vida e ultrapassou a meta por uma margem enorme em um mês, morreu no mês seguinte. Tudo porque, a partir do mês seguinte, a meta dele foi aumentada. Como se a empresa dissesse: “Se você conseguiu fazer uma vez, consegue fazer duas, é o natural.”

(Bom, não é que ele tenha morrido literalmente...)

Não bater a meta por três meses seguidos, tomar insultos pesados que destroem a dignidade, desenvolver depressão e tirar licença médica.

Na prática, foi a morte dele como um Salaryman ―― na era Reiwa atual, ele poderia ter feito um exposed nas redes sociais causando o maior flame, recorrido às leis trabalhistas, contratado um advogado e lutado contra a empresa. Mas, naquela época, não existia essa rota de fuga.

Mesmo que biologicamente não estivesse morto, era o tipo de dia a dia onde você sentia que estava morrendo como ser humano.

(No dia que o Desastre da Dungeon aconteceu, pra ser sincero, eu até criei expectativas...)

Falando a real, eu pensei: “Acho que a empresa vai fechar e vamos ter folga, né?”.

Mas as coisas não foram bem assim. No primeiro dia, permitiram que o pessoal saísse mais cedo, os trens pararam, e deu pra sentir uma certa vibe de evento extraordinário. Mas, no dia seguinte, tudo voltou ao normal sem cerimônia, e os escravos corporativos já estavam de volta ao trabalho como se nada tivesse acontecido.

E então, veio a mudança de política do chefe ―― um buff massivo no sistema de empresa exploradora.

Aproveitando-se do surgimento das Dungeons e do fenômeno de Despertar, que faziam parecer que um RPG de Fantasia tinha virado realidade, e usando o histórico da empresa de publicar Light Novels e mangás desse mesmo gênero, ele convenceu a diretoria e mudou o foco.

Lançaram rapidamente livros compilando informações sobre as Dungeons e estratégias contra monstros ――.

No começo, eram só livros de resumos no nível de Doujinshi. Depois, foram aumentando o número de páginas aos poucos, continuando até o presente ano de 2025.

Foi a fundação da Advestance, a revista carro-chefe da Editora Bouken, algo que o Satou daquela época não tinha como saber.

Num momento em que o sistema de “Aventureiros” ainda nem estava estabelecido e tanto o governo quanto a população sofriam com a falta de informação, isso foi um sucesso absoluto.

Uma demanda colossal, uma enxurrada de vozes de pessoas buscando informações. A capacidade de produção de uma empresa de pequeno e médio porte deu PT num instante. E a onda de choque do excesso de trabalho não estourou só no departamento editorial, que cuidava da produção, mas sobrou em cheio pro departamento de vendas.

(Se a gente recusasse... bom, era tratado como lixo)

É um desastre sem precedentes! Estado de emergência! Uma grande calamidade! Por isso, trabalhem! Pelo bem de todos ――!”

(Já faz uns seis meses que eu não tenho uma vida digna de um ser humano... eu acho)

Sofrendo uma pressão psicológica pesada o tempo todo, não era permitido nem choramingar que queria uma folga ou que a meta tava duro demais. Falavam na nossa cara: “Tem gente numa situação muito pior, você nem foi vítima do desastre direto e já tá assim porque é da ‘geração Yutori’ (mimada)”.

No meio desse trabalho escravo que usava uma “causa nobre” como escudo, a única opção era se desgastar como a sola de um sapato.

(Não tenho mais hobbies... quer dizer, pra ser exato, eu tinha)

Não tem espaço mental, nem tempo.

(Eu só descobri depois de adulto que pra brincar e se divertir, você precisa de tempo e de energia)

Os hobbies em que eu era viciado... Card Games e montar Plamodels, estão pegando poeira no armário da casa dos meus pais.

A última gota de humanidade que sobrou depois de ser raspado até o limite. Se houvesse apenas uma coisa da qual ele não conseguiria abrir mão até o final.

―― Isso. Eu vou pra lá.

 

 

No dia seguinte... domingo no final da tarde, finalmente tive permissão para ir para casa.

(Para começo de conversa, isso não deveria ser a minha folga?)

Como é inútil falar qualquer coisa, não digo nada e saio logo da empresa.

Trabalho acumulado. Sob o pretexto de “comparecimento voluntário”, mandam não bater o ponto, e até os sábados e domingos, que originalmente seriam dias de folga, são esmagados por tarefas menores que transbordam do trabalho diário.

Final da tarde, cinco horas. O horário de entrada no dia seguinte é às sete e meia da manhã ―― pelo regulamento da empresa é às nove, mas, inventando qualquer desculpa, os novatos recebem ordens para chegar mais cedo que os veteranos. Obviamente, o ponto só pode ser batido às nove.

(Não tem adicional de fim de semana, não tem hora extra, mas o trabalho continua aí)

Morram.” Todo mundo pensa isso, mas ninguém tem coragem de falar. Esse é o típico escravo corporativo japonês bem domesticado.

Esse curto tempo livre. Nesse pequeno intervalo até a manhã do dia seguinte, se eu não me recuperar o máximo possível, eu morro de cansaço.

(Minha cabeça... tá zonza. É sono? Não, sinto que eu tô meio acelerado também...)

Excesso de energéticos entupidos de cafeína.

A energia que peguei emprestada estourou o limite, me deixando em um estado de zumbi atolado nos juros do cansaço. Com passos lentos e exaustos, Satou seguiu em direção a um certo lugar bem perto de Kabukichou, em Shinjuku, que estava no meio de todo o caos de ter se transformado em uma Dungeon.

(O certo era ir pra casa e dormir logo, não é? É loucura ir bater bola num Batting Center cansado desse jeito)

Mas isso, apenas isso.

(Eu não posso abrir mão. Não quero abrir mão. No meio da minha vida inteira sendo desgastada, foi a única coisa que sobrou no fim)

O meu último recurso para extravasar todo esse estresse acumulado.

É aqui.

―― Batting Center (Centro de Rebatidas).

Eu tô fazendo uma idiotice”, Satou pensou.

Não é como se ele gostasse de beisebol. Nem mesmo as regras ele conhece. Não tem nenhum apego especial, nem é fã de algum time ou jogador. E, no entanto, depois de ter desistido de todos os outros hobbies, apenas isso lhe restou.

Uma hora por favor...

Entendido.

Passo pela porta, vou até o balcão e pago o proprietário.

Não conversamos. Eu odeio quando os funcionários da loja lembram do meu rosto ou tentam puxar papo sobre a minha vida pessoal. Eu prefiro ser tratado como apenas um cliente anônimo, o cliente número tal. Gosto de como o som das máquinas de arremesso, o som da bola cortando o ar e, de vez em quando, o som satisfatório de uma rebatida perfeita ressoam, tornando as conversas dos outros clientes em um barulho de fundo agradável.

(Ah, é aqui).

Eu gosto dessa sensação de misturar suavemente a mim mesmo, como um coquetel que foi habilmente agitado.

Pego um taco de metal, um simples, não aqueles para profissionais, e sigo para a cabine mais ao fundo.

(Esta aqui. Só esta aqui. Eu ainda não bati nesta).

Eu frequento esta loja de vez em quando, desde os tempos da faculdade.

No dia em que tirei notas ruins em uma prova importante, no dia em que terminei com a namorada com quem as coisas iam bem, no dia em que falhei feio em um trabalho de meio-período... Quando eu colocava toda a minha frustração no taco e batia com todas as forças na bola, eu sentia que conseguia descarregar tudo e resetar a minha mente.

Foi na mesma época em que Satou entrou na editora que o proprietário da loja trouxe repentinamente uma máquina nova.

(A mais rápida de Kanto!! Desafio para os Profissionais - Curso de Desafio de 160km/h. Certificado de Reconhecimento emitido com um Home Run...).

A placa que estava pendurada na rede do fundo dizia exatamente isso.

Eu penso nisso toda vez, não é que eu queira muito esse certificado. Não é algo que eu possa me gabar, nem tenho amigos para me parabenizar.

Só que eu consigo rebater todas as outras máquinas, menos essa. É a única que eu não consigo dominar. Eu não consigo me sentir satisfeito enquanto não conseguir. Quando eu derreter essa máquina com as minhas rebatidas, mandar um Home Run lá pro fundo e conseguir o certificado, eu sinto que tudo o que eu acumulei até agora vai ser zerado e eu vou ficar totalmente aliviado.

Tirei o paletó do terno e coloquei-o em um banco próximo.

Bom, vamos lá...

(160km/h é absurdamente rápido. Bom, para alguém com experiência em beisebol, talvez eles consigam rebater).

Isso é algo que eu também penso. Para um amador, o rápido é rápido, e leva tempo para os olhos se acostumarem. O problema não é só a velocidade, mas o fato da máquina não lançar bolas fáceis de rebater. Pela fofoca dos outros clientes que frequentam o mesmo Batting Center, e pelas conversas dos tiozões orgulhosos de suas habilidades no beisebol e dos jovens, eu entendi que era esse o caso.

(Não tem técnica).

Satou não tem nenhuma técnica dessas. Eu só venho aqui, olho para a bola e balanço o taco. É só isso. É diferente de um arremessador humano arremessando, a programação da máquina de arremesso é fixa, ela segue o padrão estabelecido, intercalando entre bolas retas e bolas curvas.

(O que me falta é alguma coisa).

Mesmo que eu me acostume com a velocidade, se eu "deixar" o taco na trajetória da bola, eu deveria conseguir rebater. Eu só preciso ajustar o timing e balançar. Como eu já dominei o jogo de rebatidas de outros Batting Centers, o certo é eu conseguir conquistar essa máquina também. Mas é diferente. Tem alguma coisa errada. Eu não sinto que venço ela com essa estratégia. Mesmo se eu conseguir rebater a bola dessa máquina, não tenho a sensação de que eu poderei me gabar de tê-la conquistado. Se eu não der um Home Run, com um swing perfeito que use toda a energia do meu corpo e da minha alma, não vale a pena.

(Eu não sinto que venci).

Entro na cabine de rebatidas. O interruptor já está ligado.

A máquina de arremesso começa a operar. No momento em que estava focado, minha visão ficou embaçada, meus olhos estavam vermelhos e lacrimejando por causa de uma crise de rinite. Como eu não tive tempo nem de lavar o rosto direito, a remela seca nos cantos dos meus olhos estava pinicando e me irritando. Estava na pior condição física possível.

Todos os pensamentos mundanos são varridos da mente; uma consciência vazia que espreme até a última gota de concentração apenas para o taco e para a bola.

Gyaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!

Que barulheira, pensou Satou.

(Será que tão assistindo a algum filme de terror por aqui?)

Ignorando esse pensamento, seu olhar continuou cravado perfeitamente na máquina de arremesso, sem se mover um milímetro.

Concentração perfeita. Foco absoluto. O ambiente ao redor faz barulho, e os clientes começam a fugir em pânico.

Um som de explosão em algum lugar distante. Gritos. Através da rede de proteção, vejo fumaça e as ruas da cidade em chamas.

So, socorro!!! Socorro... higya!!!

Da cabine ao lado, um estrondo que ecoa no fundo do estômago.

Um zuban ou zudon, um som explosivo que parecia quase um tiro de arma de fogo.

Ao lado de Satou, a bola rápida lançada pela máquina de arremesso voou em uma direção completamente absurda e atingiu em cheio um dos clientes que tentava fugir. Um buraco se abriu no torso do homem, como se ele fosse um tomate, e ele morreu instantaneamente.

(――Mas que diabos é aquilo. Tô tendo umas alucinações estranhas)

Satou não acredita nos próprios olhos.

Ele está exausto. Nem se lembra de quantas dezenas de dias seguidos está trabalhando sem folga. Por isso, não deposita um pingo de confiança no próprio cérebro.

Mesmo que tenha alguém morrendo na cabine ao lado, não havia nenhum senso de realidade naquilo, parecia até que estava assistindo a um filme.

(Mas... estou conseguindo enxergar)

Satou não percebeu absolutamente nada.

De que, do cadáver estendido bem perto dele, uma bola prateada rastejou para fora de forma escorregadia.

Uma lesma prateada ―― quando enrolada, o tamanho era quase idêntico ao de uma bola de beisebol. Tinha um corpo de aspecto metálico, úmido e escorregadio, com uma boca redonda cheia de presas sinistras, devorando o corpo humano fazendo um som crocante, como se estivesse mastigando repolho.

O nome que Satou não conhecia era: Metal(Lesma de) Slug(Mercúrio) ――.

Um monstro do tipo mineral que absorveu a mana da Dungeon em abundância. Ostentando flexibilidade e uma resistência equivalente a uma liga de titânio, ele praticamente anula qualquer tipo de ataque.

Um Rare(Monstro) Monster(Raro)que, ao ser derrotado, concede um Despertar capaz de pular etapas e transformar a pessoa diretamente em um Aventureiro de Alto Nível de uma só vez.

(……Vem)

O Satou daquela época não tinha como saber de nada disso.

A lesma de mercúrio camuflada de bola de beisebol é carregada na máquina de arremesso.

Uma bala de canhão assassina com a dureza do aço é disparada como uma bola rápida de 160km/h, mirando diretamente nele.

Vem……!

A consciência desperta.

Os pensamentos ficam acelerados.

O cérebro é ativado intensamente.

O pulso da máquina distante é transmitido até mim. O som do aço novo rangendo, o som de explosão do ar comprimido, a vibração do ar no instante em que o monstro disfarçado de bola foi disparado, uma intenção assassina nítida que se transformou em uma trajetória, e que eu pude enxergar.

Em menos de um segundo, meu corpo se moveu por reflexo.

Dando um passo para fora da batter box (caixa de rebatida), eu me posicionei a meio passo da rota de impacto direto daquela bola rápida pesada.

(Best Position)

Todo o meu corpo se moveu em conjunto como uma única engrenagem, o centro do taco capturou o monstro e bateu.

 

Kokkiiiiiiiiiiii――n!!

 

Bel……ezaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!

No instante em que a bola foi rebatida para longe, as emoções de Satou explodiram.

Ele fez uma pose de vitória e acompanhou a trajetória da rebatida. A bola absurdamente prateada e estranha atingiu em cheio o alvo de “Home Run”, esmagou com um som grotesco de “Gucha!”, e espalhou fluidos corporais de uma cor metálica.

Muchi-muchi, os músculos doíam, fazendo sons de estalo.

Quando notei que a minha camisa suada estava terrivelmente apertada, vi que as mangas e o colarinho estavam estourando de tão justos. No instante em que ele derrotou o monstro, a enorme quantidade de poder(exper) mágico(iência) que o monstro raro acumulava derramou-se por todo o seu corpo, e ele alcançou o Despertar.

Chefe, o certificado de reconhecimento――

Mas Satou se virou com um sorriso de orelha a orelha, sem perceber.

……Ué?

Os olhos turvos do escravo corporativo finalmente reconheceram a realidade.

O balcão estava vazio. O proprietário deve ter fugido há muito tempo, e apenas os certificados de reconhecimento baratos estavam jogados no chão.

Corpos de vítimas espalhados por todo lado. Lesmas de mercúrio amontoadas sobre os cadáveres ensanguentados, o som nojento delas mastigando carne e ossos como se fosse repolho, o som de explosões ao longe, gritos, berros ―― o tumulto de um verdadeiro campo de batalha.

 

Mas que porra é essaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!?

 

Um grande desastre sem precedentes que seria contado no futuro.

Mortos e desaparecidos: aproximadamente 380 mil pessoas ―― número de feridos e o total de vítimas, incalculáveis.

Este foi o início da Grande Invasão da Dungeon de Shinjuku Kabukichou.

 

 

​❷ Não consigo trabalhar 24 horas por dia
Quando éramos jovens, perdi a conta de quantas vezes colegas de classe que se apaixonaram por ela me pediram para fazer a ponte para eles se declararem. Mesmo agora, ela é tão jovem que não parece ter passado dos quarenta, desde a firmeza da pele até a linha do corpo, não há sinal de decadência. 

 

Novamente 2025 – Em algum lugar de Tóquio, quarto da casa de Satou.

Satou Keita

Ugh...

Satou Keita acorda com o som irritante do alarme do smartphone ao lado do travesseiro.

O que se reflete em sua visão embaçada é o quarto de seis tatames onde vive desde criança.

“Tiozão do quarto de criança” ―― houve uma época em que essa expressão desagradável virou moda, e ele se sentia estranhamente constrangido com isso. Mas agora, tendo passado dos quarenta anos, esse sentimento de vergonha diminuiu, e depois de algumas redecorações, o quarto ficou com uma aparência um pouco mais aceitável.

Um sonho, hein... Uwaa, tô ensopado de suor...

Esquecendo o tom polido de vendas, ele usa seu linguajar rude natural e sai do futon levemente úmido.

Sua roupa de dormir é sempre apenas uma regata e um short. Ele achava que era assim que um homem deveria dormir, mas agora que sua família aumentou, há certos inconvenientes, então ele pensa em comprar um pijama qualquer hora dessas.

(No fim das contas, ainda não comprei)

Ele tem consciência de que usa a falta de tempo como desculpa e sente uma leve pontada de culpa por isso.

Era um quarto sem decorações. Tendo a cama onde dorme como centro, paredes brancas sem nenhum atrativo.

Um certificado de reconhecimento emoldurado num porta-retratos ―― a prova barata de um Home Run.

Equipamentos de musculação que ele usa de vez em quando, um videogame para passar o tempo e um monitor dedicado a ele.

Na mesa baixa, latas de cerveja vazias e salgadinhos de batata de petisco. A cerveja já devia estar choca e as batatas murchas, então ele não tinha mais vontade de comer. Dito isso, também era um desperdício jogar fora.

(Acho que vou empurrar isso goela abaixo como acompanhamento pra bebida de hoje à noite)

Pensando assim, ele se levanta e sai do quarto.

A casa dos Satou tem dois andares, uma casa pré-fabricada bem comum.

Ele usa apenas o próprio quarto no segundo andar, e cedeu o resto inteiro para sua irmã e sua sobrinha.

No segundo andar, o quarto ao lado do dele era o que sua irmã usava antigamente, e agora é da Hikari.

A irmã usa o andar de baixo, o antigo quarto dos pais, mas o trabalho dela é tão corrido que ela praticamente só usa o espaço para dormir.

(O ideal seria eu me mudar para o primeiro andar e ceder o meu quarto para a minha irmã, mas...)

Seria perfeito se o segundo andar ficasse apenas para as mulheres da casa. Mas, o trabalho de trocar os quartos é muito chato.

Ele ficou empurrando com a barriga, pensando “vou ver isso quando tiver tempo livre”, e no final as coisas continuaram do mesmo jeito.

A limpeza das áreas comuns, incluindo cozinha, banheiro e sala de estar, e as tarefas domésticas são feitas num sistema de rodízio. Embora sinta um pouco de inconveniência às vezes, considerando o trabalho que dá manter uma casa inteira, ele na verdade acaba saindo no lucro.

――Descendo as escadas, de repente.

(A bola que eu rebati por acaso era um monstro)

Ele se lembra do milagre que aconteceu dezoito anos atrás, no meio de uma grande catástrofe.

(Parece uma história idiota, mas é a pura verdade)

Um grande caos digno de um filme de pânico. Um Batting Center (Centro de Rebatidas) da morte, onde se você tentasse fugir sem cuidado, seria atingido nas costas.

A única maneira de sair vivo dali era rebater tudo o que aparecesse pela frente ――.

(Até eu acho meio bizarro, mas na hora achei que era uma ótima ideia)

O fato de não ter outras opções também influenciou, é claro.

Ele rebateu implacavelmente os monstros-lesma que eram disparados um após o outro pela máquina de arremesso.

(Embora, no fim das contas, se eu tivesse saído de lá, ia ser a mesma merda lá fora)

Mesmo depois de garantir a segurança e sair do Batting Center, o lado de fora continuava sendo um campo de batalha, não deixava de estar bem no meio de um inferno. Eu não quero nem lembrar do que aconteceu lá. No fim das contas, Satou só conseguiu escapar para uma zona segura de verdade mais de um mês depois, e a empresa tratou isso como falta injustificada. Não fui demitido, mas minhas férias remuneradas foram pro espaço.

Como se quisesse lavar essas memórias ruins, tirei rapidamente as roupas suadas e entrei no banheiro. Girei o registro e tomei um banho quente no corpo todo ―― que sensação refrescante.

Hoje tem trabalho de novo, não posso ir pro escritório com cara de sono. Tenho que esquecer isso e virar a chave.

(Level? Skills? Isso não tem nada a ver com o meu trabalho atual)

O indicador de força dos Aventureiros ―― dizem que é um padrão unificado calculado com base na skill de Avaliação.

Satou nunca mediu a sua. Ele não é um Aventureiro, é um salaryman. O motivo de ir para a Dungeon toda vez que acumula estresse é simplesmente para suar e extravasar, é um hobby.

(Eu sou, acima de tudo, um salaryman... sólido e medíocre)

Lutar carregando o destino do país e das pessoas nas costas, como o herói de um RPG, ou coisas do tipo.

A juventude de um aventureiro que desafia o perigo em busca de sonhos e romance já murchou faz tempo.

Mesmo que um milagre tenha acontecido por acaso, não é como se a minha vida fosse mudar por causa disso ―― no fim, voltei para o meu trabalho de sempre, e entre a aniquilação dos meus colegas de turma e o gerente explorador largando a vida corporativa, aconteceram várias turbulências até chegar aos dias de hoje.

Ao terminar o banho e sair do banheiro, peguei a muda de roupa que sempre deixo pronta perto da máquina de lavar.

Isso também é graças à minha irmã e sobrinha que moram comigo, posso me trocar por roupas limpas na mesma hora.

(Tenho que mandar o terno de ontem pra lavanderia logo)

É um terno barato. Tenho vários conjuntos iguais e vou revezando o uso.

Como eu me sujo muito de suor e sangue respingado toda vez que vou extravasar o estresse, não posso usar um terno de alta qualidade. Antigamente, eu até trocava por roupas de ginástica antes de ir, mas logo desisti porque esse esforço extra era muito chato.

(Por isso, bom, eu também saio ganhando em vários aspectos)

Dando os toques finais enquanto raspo a barba rala com o barbeador.

(Se elas não se importarem, por mim não tem problema nenhum que essa convivência com a minha irmã e a filha dela continue para sempre)

No entanto, há uma garota na flor da idade aqui. A minha irmã, bem, essa tanto faz.

Também me sinto mal de depender delas para as tarefas domésticas e acabar sendo um peso, então, é melhor eu chegar a uma conclusão logo ――.

Keita... Kei!

Ah. Nee-san.

Tava mergulhado no seu próprio mundo de nooovo? Isso dá um pouco de medo, sabia...

Sem que eu percebesse, tinha alguém em pé atrás de mim.

Desliguei o barbeador elétrico e, ao me virar, vi a Nee-san com uma cara de tédio. Cabelos pretos e compridos, traços faciais afiados. Uma atmosfera de verdadeira “irmã mais velha mandona”, quarenta e três anos, dois anos mais velha que o Satou ――.

Ainda não tomou café da manhã, né? Passei um café, vem logo.

Tá.

Saí do banheiro e fui para a sala de estar.

No meio do cheiro fraco do curry que sobrou da noite passada, senti um vapor fresco subindo suavemente no ar. Não que eu seja exigente, mas mesmo sendo grãos baratos, ainda tem aquele cheiro bom de café recém passado no filtro.

(Amahara Akari ―― nome de solteira, Satou Akari)

Sendo bem direto, ela é uma mulher bonita.

(A mãe da Hikari-san, uma pessoa divorciada que voltou para a casa dos pais. E ―― um gorila disfarçado de irmã mais velha)

Em todas as épocas e lugares, irmãs e irmãos mais novos são assim, ou é o que dizem.

Sendo gentil, ela age como uma verdadeira irmãzona; sendo sincero, ela é violenta e dominadora. O esquema clássico do irmão mais novo obediente a esse tipo de irmã se aplica perfeitamente à família Satou, e Satou ainda não sente que tem a menor chance de vencê-la.

Hm.

Obrigado. Vou aceitar o café.

Ao receber a caneca, a Akari acena com a cabeça de forma um pouco carrancuda.

Até aí tudo bem, mas... você tá meio distante. Será que afinal foi um incômodo eu ter voltado pra cá?

De forma alguma. Somos família e, para ser sincero, eu não sabia muito bem o que fazer com tanto espaço nesta casa.

É isso aí, isso aí, esse seu jeito polido de falar. Você não era assim antigamente, né.

É porque a Hikari-san está aqui.

Meia mentira ―― é um hábito enraizado nele como um escravo corporativo.

A sua verdadeira personalidade transparece nos seus resmungos internos e monólogos, mas as palavras que saem da sua boca saem primeiro em linguagem formal. Padronizar a fala deixa as coisas mais seguras.

Como o mais velho da casa, não posso usar um jeito de falar infantil. É vergonhoso.

Haa, olha só como você ficou todo respeitável. Aliás, onde você foi ontem à noite, hein?

Ontem, tarde da noite. Quando ele voltou para casa depois de passar na loja de conveniência, deu de cara com a irmã.

Como já era bem tarde, ele encerrou a conversa dizendo que falariam na manhã seguinte, mas parece que isso foi o motivo do mau humor dela.

Quando eu cheguei, a casa inteira tava vazia e eu me senti suuuper solitária, sabia~~!!

Com os olhos levemente marejados, a mulher linda beirando a metade dos quarenta anos grita.

Esteja aqui!! Na casa! Diga ‘bem-vinda de volta’ pra mim~!!

......Nee-san. Isso já é meio......

Satou a entende bem: ela é esse tipo de pessoa.

Com uma aura afiada e traços que a fazem parecer uma mulher de gênio forte no estilo yankee(ex-delinquente), uma mulher em quem se pode confiar... é como ela costuma ser vista, mas na verdade, ela é surpreendentemente sensível. Principalmente, ela ama muito a família, e chora se for deixada de lado.

(Desde que ela voltou, de vez em quando ela fica assim, né)

Depois de se casar, o alvo desse apego dela havia se voltado para a nova família, mas.

Separação ou viuvez.

Satou não sabe de nada sobre a situação do casamento da irmã.

Considerando que ela ainda usa o sobrenome de casada Amahara, ela não deve ter se divorciado, mas――.

Se ele perguntasse, ela provavelmente contaria, mas será que é bom se intrometer? Ele não conseguia entender direito a distância que deveria manter.

Ontem à noite, eu estava um pouco estressado, então......

Ele pausa as palavras, pensa um pouco e continua.

Fui suar um pouco no Bassen (Batting Center), comprei cerveja e petiscos na conveniência e, quando estava voltando, esbarrei com a Nee-san.

Ah, um pouco antes disso. A Hikari voltou.

Ela tinha saído, a Hikari-san? Quando eu cheguei, parecia que ela estava dormindo.

Logo depois que eu cheguei na casa vazia, um pouco antes de você voltar, eu acho. Quando eu perguntei onde ela tinha ido àquela hora da noite, ela me disse que tava fazendo stream na Dungeon.

Hã? ......No meio da noite?

Imediatamente antes do Satou chegar, significa que era madrugada, o dia já tinha virado.

Os últimos trens já tinham parado, não é um horário para uma mulher andar por aí. “É perigoso demais”, Satou franziu a testa.

Isso é perigoso. Não seria melhor impedi-la?

Eu também acho. Mas hoje em dia, um trabalho que dá muito dinheiro é ser Liver(streamer).

Aventureiro, e especialmente streamers, são o sonho dos dias de hoje.

Dizem que você pode subir na vida com habilidade e sorte, independentemente de formação acadêmica, idade ou posição social.

(Quem diria que a Hikari-san também tava nessa. ......Não, será que isso é o natural para os jovens de hoje?)

Iene desvalorizado, recessão, ansiedade em relação ao futuro. É uma sociedade moderna exposta ao estresse.

É natural que os jovens sonhem em ficar ricos da noite para o dia, tornando-se populares como aventureiros ou streamers.

A propósito, este é o canal da minha filha. Eu consegui arrancar isso dela ontem à noite, sabe?

......Eu não conheço muito bem o mundo dos streams, mas

Quem cuida dessa área é a Ukai. O trabalho de Satou sempre focou em visitas a livrarias físicas e vendas de publicidade, então ele raramente interagia diretamente com streamers. Seu conhecimento sobre o assunto é o de um público geral desinteressado.

Esse número de inscritos é... muito?

O canal de vídeos exibido no smartphone da irmã tinha cerca de 1.500 inscritos.

É difícil julgar se é muito ou pouco, mas os parceiros com os quais a Ukai costuma lidar no trabalho geralmente têm canais com centenas de milhares de inscritos! Isso não era algo raro.

Pelo que eu pesquisei, é bem mixuruca.

Né......

Voltando ao seu tom normal sem perceber, Satou bebeu de uma vez o café que já estava meio frio.

Como se fosse para quebrar o silêncio constrangedor que o smartphone havia causado, a irmã continuou falando.

Quando a minha filha tem um sonho e está tentando fazer o que quer

......Sim.

Eu não quero ser o tipo de mãe que simplesmente manda parar.

O sentimento de querer apoiar o sonho da filha, misturado com a preocupação pura de mãe sobre a segurança dela.

Diante daquele rosto que transmitia o quanto ambos os sentimentos eram importantes, Satou concordou com a cabeça num tom mais compreensivo.

Nee-san......

Até que você fala umas coisas bonitas de vez em quando, Irmã-Gorila, ele pensou intimamente, quase se emocionando, mas logo em seguida.

Por isso, é você quem vai parar ela.

Vê se não joga só o papel de vilão pra cima de mim, tá bom?

É isso, pensei. Os irmãos mais novos pelo mundo afora são usados pelas irmãs mais velhas desse jeito.

Ainda assim, como acabei simpatizando com a causa, também não podia simplesmente ignorar.

Eu já vou pro trabalho hoje, mas... outro dia, eu tento conversar com a Hikari-san.

Entendi. Mas ‘agora mesmo’ é bem cedo, hein. Não vai tomar café da manhã?

Minha irmã abriu a geladeira dizendo que podia pelo menos torrar um pão rapidinho, mas respondi de forma seca.

Eu passo numa loja de conveniência ou algo assim. Por favor, não se preocupe com isso.

Não é que eu esteja negligenciando a alimentação, mas o trabalho é a prioridade.

Depois de ir e voltar algumas vezes entre o meu quarto e a sala para terminar de me arrumar, saí pela porta da frente.

.........

Enquanto batia a ponta do sapato no chão para tentar encaixar o pé que não queria entrar direito, olhei para o segundo andar.

Duas janelas com as cortinas totalmente fechadas. Uma era o quarto do Satou, e a outra ao lado era――,

(Deve ser bem desconfortável, né)

Uma garota na flor da idade, dormindo e acordando com apenas uma parede separando ela de um tiozão como eu.

Ela não deve conseguir relaxar em momento nenhum. Como eu imaginava, não deveria ter usado a falta de tempo como desculpa para adiar isso; deveria ter trocado de quarto ou me mudado de vez. Depois de pensar nisso, de repente desviei o olhar.

Pouco antes de desviar o olhar.

Tive a impressão de que a cortina fechada do quarto da minha sobrinha balançou levemente.

De manhã cedo, comecei a caminhar em direção à estação mais próxima pelas ruas onde os pardais cantavam.

(Eu me lembro do dia em que reencontrei a Nee-san e a minha sobrinha)

No meio de uma madrugada qualquer, o interfone tocou de repente.

Pensando no que poderia ser, Satou abriu a porta e ali estavam ―― sua irmã, que não via há muito tempo, e sua sobrinha.

(Elas pareciam gatos abandonados)

Como mãe solteira, ela deve ter passado por muitos perrengues financeiros.

Era o extremo oposto do sorriso alegre da minha irmã que eu tinha na memória, e da aparência bochechuda da Hikari quando era bebê. Magras, com roupas um tanto sujas, e a forma como estavam de pé se apoiando uma na outra as fazia parecer terrivelmente abatidas.

(......Nee-san?)

Minha primeira reação foi uma pergunta hesitante.

Mesmo entendendo que as pessoas à minha frente eram minha irmã e minha sobrinha, a discrepância com a impressão que eu tinha na memória me fez colocar um ponto de interrogação.

Nossos pais já haviam falecido, o funeral e a herança já estavam resolvidos, então não havia motivo para ela vir de longe só para mostrar o rosto da neta.

Já fazia mais de dez anos desde que ela se casou, mudou de sobrenome e se mudou para longe com o marido. Trocávamos cartões de Ano Novo, mas o contato era quase inexistente. Lembro-me de me sentir um pouco solitário, pensando: “Acho que a vida adulta é assim mesmo”.

Desculpa. ......Cheguei

Foi a primeira vez que vi o rosto de choro da minha irmã.

A irmã que, quando éramos pequenos, sempre arrastava o Satou para brincar, com um rosto terrivelmente lamentável.

A garota que parecia ser minha sobrinha, de mãos dadas com ela, também estava parada silenciosamente ao lado, de cabeça baixa e com uma expressão sombria.

Como uma criança antes de levar uma dura. Como se tentasse proteger o coração para não ser destruída, mesmo que as próximas palavras que ouvisse fossem duras. Diante daqueles rostos que pareciam suportar tudo desesperadamente――,

Bem-vindas de volta. Entrem, por favor

『「......!?」』

No instante em que ouviram as palavras de Satou, as duas ficaram caladas, em choque.

Ele abriu a porta para deixá-las entrar. Como Satou estava bem no meio do seu drink noturno após o trabalho, ele estava com uma roupa totalmente desleixada ―― uma roupa de ficar em casa barata, comprada há uns dez anos, toda cheia de bolinhas de lã. Ele se sentiu um pouco envergonhado, mas abriu do mesmo jeito.

Vocês estão com fome? Só tenho restos de comida, mas...

...A gente pode, entrar?

É claro que pode, Nee-san. Se quiserem tomar banho, eu aqueço a água agora. Vai demorar um pouco, mas...

Como se as palavras dele fossem o gatilho, um sorriso explodiu.

Obrigada~~~~~~~~~~~~!!

Opa!? Tá me sufocando! Nee-san...... ugh!! Os ossos, estão quebrando......!

Fui abraçado com uma emoção transbordante e minhas costelas rangeram.

Satou pensa que a Akari deveria ter um pouco mais de consciência de que ela é um gorila, mesmo sendo sua irmã.

Um poder de gorila inigualável. Ela continua a mesma depois de mais de dez anos, e a força do abraço era tão grande que mais parecia um golpe de submissão (um bear hug) tentando quebrar minha coluna. Por ser uma cena tão emocionante à primeira vista, a Hikari, que assistia tudo de lado, também não fez nada para parar a mãe, e eu achei que fosse morrer.

Obrigada...... obrigada, tio............ você...... lembra de mim!?

Eu lembro!! Eu lembro, então para, por favor, sua gori...... gah!!

Que exagero! Tá com vergonha? Vou te abraçar ainda mais forte, toma essa!!

Por isso mesmo eu vou morrer!! Tô falando que eu vou morrer!! Agagaga......!

 

――Enquanto caminhava em direção à estação mais próxima relembrando essas memórias.

A Hikari-san, ainda bem que ela não puxou você, né. ......Sério

Lidar com dois gorilas seria puxado até pra mim. Se a Nee-san já é um gorila e a sobrinha também fosse, a casa não seria mais uma residência, mas sim uma jaula de gorilas. A única contramedida seria usar bananas.

Ainda assim, é verdade que ele tem problemas para saber qual é a distância certa para manter de uma sobrinha dessa idade.

(Como eu deveria falar, ou interagir com ela? ......Não faço ideia)

Foi a primeira vez que ele ouviu falar que ela era uma streamer, e o fato de ela sair no meio da noite também é preocupante.

Ele precisa fazê-la parar, mas também não pode simplesmente dizer “não” logo de cara. É preciso conversar, mas como ele deveria tocar no assunto? Será que, afinal de contas, o certo seria fazer um PowerPoint e usar os slides para explicar por que ela deve parar?

......Seria uma grande ajuda se aparecessem opções na minha frente, como nos jogos antigos

Por mais que ele quebrasse a cabeça, as respostas não apareciam. Por enquanto, Satou foi trabalhar.

 

 

Cerca de trinta minutos depois ――.

Em algum lugar de Tóquio, ao entrar no escritório do departamento de vendas da Editora Bouken, ele sentiu cheiro de mulher jovem.

(......Vai parecer assédio sexual, então não vou falar nada)

Um cheiro meio adocicado.

Cerca de vinte minutos de trem na hora do rush é um privilégio, pensava Satou.

A vantagem de morar na casa dos pais dentro da cidade metropolitana permite um deslocamento em pouco tempo, e em vez de alugar um apartamento longe com um salário baixo, isso lhe dava uma folga considerável tanto de tempo quanto de dinheiro.

Dito isso, para funcionários novos que não têm esse tipo de coisa ―― a Ukai, que aluga um apartamento um tanto longe por causa do preço do aluguel, às vezes desiste de ir para casa e dorme na empresa quando o trabalho acumula muito.

Shenpai....... Bom difff......

Bom dia. Você virou a noite?

Enquanto colocava a comida que havia comprado na loja de conveniência em cima da sua própria mesa, Satou olhou para a mesa ao lado.

Ukai Madoka. Ele tem a impressão de ter ouvido dizer que ela foi eleita “Miss alguma coisa” na época da faculdade, mas ele não se lembra direito.

De qualquer forma, a garota que normalmente passaria por uma bela mulher, estava debruçada na mesa ―― cheirando levemente a suor, com a marca do relógio de pulso bem marcada na bochecha enquanto me cumprimentava, o que me fez recuar um pouco.

A Very Good ...... coletiva de desculpas...... cancelamento na internet ...... patrocinadores furiosos....... E-mail, e-mail, e-mail....... Pedido de desculpas...... Sinceridade...... Desta vez...... desta vez a gente vaiiiii......!!

Ela deve ter ficado lidando com problemas até tarde da noite. Entrego a sacola da loja de conveniência, que eu tinha acabado de colocar na minha mesa, para a funcionária novata que atualizava freneticamente o software de e-mail, onde se enfileiravam títulos desagradáveis como URGENTE e EMERGÊNCIA.

Tem certeza meshmo!? Não é o café da manhã do senpai......

Pular uma refeição não vai me matar. Depois que comer, é bom tirar um cochilo e trocar de roupa.

De noite, o ar-condicionado da empresa é desligado, então....... Eu tô fedendo, não tô?

Um pouco.

Satou fica perplexo ao ver Ukai cheirar o próprio colarinho e as axilas fazendo barulhos de sniff sniff.

(Ela tem um forte senso de responsabilidade, ou melhor, é do tipo que só sai perdendo, né?)

Mas como ela tem uma vitalidade estranhamente forte, parece estar aguentando no limite. Se ela tivesse a constituição delicada de uma garota normal de hoje em dia, já teria pedido as contas ou adoecido há muito tempo.

Onigiri...... que felicidade. Bebida esportiva também. Senpai, você gosta de atum com maionese?

Sim. É bom porque vende em qualquer lugar, e as chances de ser ruim são quase nulas.

Através da blusa levemente suada de Ukai, era possível ver uma roupa íntima escura por baixo.

Com medo de ser acusado de assédio sexual, Satou desviou o olhar rapidamente. Felizmente, Ukai estava tão concentrada em desembalar o onigiri de atum com maionese que não percebeu nada disso.

Ou melhor, o que a gente vai fazer pra substituir a Very Good......?

Que tal pedir para a DOOM Pro? Se for a maior agência, não teremos que nos preocupar com cancelamentos

Com o nosso poder de vendas lixo, duvido que a gente consiga sequer entrar em contato com eles......

......Isso é verdade, mas, por precaução, como é sobre o nosso departamento, não saia falando isso lá fora.

A tristeza de uma empresa de pequeno ou médio porte: falando a real, não tem quase nada de orçamento.

A única mídia impressa deles tem a vantagem de ser uma revista especializada em informações de Aventureiros e Dungeons, mas nesta era digital, ela não conseguiu se tornar a principal fonte.

Para aumentar as vendas da revista, a gente pede para streamers com grande poder de alcance......

E então somos rejeitados porque a remuneração é baixa. Esse é o fluxo padrão até aqui, né.

No passado, quando Satou era mais jovem, as coisas ainda eram diferentes.

(Tinha época em que bastava mostrar o nosso cartão de visitas e a gente conseguia fechar acordo na hora...)

Numa época em que os cidadãos comuns não tinham meios de transmitir informações, não era incomum a mídia ser implorada com um “Por favor, publiquem sobre nós”. No entanto, com o passar do tempo, a direção do vento mudou gradualmente e, agora, as posições se inverteram completamente.

(Os streamers que têm o poder de divulgar nas redes sociais e sites de vídeo são os Fortes)

Enquanto enganava o estômago vazio com um café em lata que havia comprado separadamente do café da manhã, Satou pensava.

(Hoje em dia, é o lado das editoras, da TV... a mídia que implora para deixarem eles fazerem um projeto)

Não há sequer orçamento para conseguir um streamer substituto.

(Como vamos tapar o buraco daquela Very Good que fez essa cagada...)

Se não encontrarem alguém urgentemente, os patrocinadores vão retirar os anúncios, o projeto de destaque que estava planejado para ser publicado vai pro espaço, resultando no pior combo possível de queda nas vendas e, no fim das contas, o departamento de vendas seria massacrado levando toda a culpa pelo fracasso.

Um streamer que aceite o nosso orçamento e que tenha números. Será que não tem ninguém!?

Falando nisso, ouvi dizer que a minha sobrinha também começou a fazer streams, mas...

A encurralada Ukai fez uma cara igual à do Kandata se agarrando ao fio da teia de aranha.

......Posso perguntar o número de inscritos?

Mil e quinhen......

Desculpe, é impossível.

(Quando ouvi isso)

Senti que era algo um pouco sem sentido.

Como esperado, um canal com 1.500 inscritos tinha muito poucos dígitos. Eu queria que tivesse dez, cem vezes mais que isso. No momento atual, mesmo que fosse um número razoável para uma pessoa comum, ainda estava longe do nível em que se pudesse monetizar.

Haa...... Será que não tem em algum lugar uma ação promissora que a gente sinta que vá decolar a partir de agora?

Um talento tão bom assim, os grandes já devem ter chamado faz tempo.

É verdade, mas......!! Shinjuku Bat-san, será que você não vai responder as minhas mensagens!?

Um nome que eu nunca ouvi na vida, Satou pensou.

Responde a minha mensagem, responde a minha mensagem, Ukai implorava para o software de e-mail enquanto Satou lançava a dúvida para ela do jeito que estava pensando.

「《Shinjuku Bat?

Ontem, ele virou o assunto do momento nesse meio. Não chegou a virar notícia, mas passou de 10 mil inscritos logo na primeira stream. Para um talento individual Indie sem o apoio de uma grande agência, é uma velocidade inicial absurda.

Hee......

Como se dissesse “Dá só uma olhada nisso”, Ukai se inclinou para frente e empurrou o smartphone na cara dele.

Talvez por estar num estado de euforia por ter virado a noite, ela estava muito perto.

(Por isso que eu digo, você tá perto demais)

Isso é difícil. Justamente por ser algo inconsciente, se ele chamasse a atenção dela e ela retrucasse com um “Isso é assédio sexual!”, seria um desastre. Num departamento de vendas com apenas os três, sendo duas mulheres e um homem, seria uma derrota certa por dois a um.

(Seria melhor não falar nada de forma descuidada... vou olhar só pra tela)

O aplicativo de vídeos que Satou também estava acostumado a ver ―― O nome do canal era Shinjuku Bat, com dez mil inscritos.

O ícone era uma ilustração que parecia claramente um desenho feito à mão por um amador, o desenho de alguém rebatendo uma caveira com um taco de metal.

Parecia que ele só havia postado um vídeo da stream ao vivo na noite anterior, e realmente devia ser a primeira transmissão.

O que foi que essa pessoa fez?

Na primeira transmissão, ele foi para uma camada profunda. E para completar, fez uma subjugação solo do Diamond(Serpente Gigante de) Boa(Diamante),, um monstro Classe SSS!

―― ué?

Satou foi tomado por uma momentânea sensação de déjà vu.

Ontem, a Diamond(Serpente Gigante de) Boa(Diamante),, em Shinjuku, e um taco?

As palavras que saíam batiam perfeitamente com ele mesmo.

(Mas eu não faria uma transmissão nem a pau)

Desejo de aprovação e coisas do tipo eram zero. Ser o centro das atenções era uma tortura. Ele tinha discernimento suficiente para entender o quão patético seria um tiozão tentando se misturar na cultura dos jovens. Por mais bêbado que estivesse, por mais empolgado que estivesse na Dungeon, suas memórias daquele dia eram claras.

Era impossível que ele tivesse ficado louco a ponto de fazer uma stream.

Deve ser uma pessoa parecida. Afinal, se você pensar bem e for atrás de um método eficiente de subjugação para a Diamond(Serpente Gigante de) Boa(Diamante),, qualquer um chegaria a uma conclusão parecida――.

Pensando assim, Satou apagou a dúvida que havia surgido em sua mente.

E continuou a conversa.

Ah, aquela cobra... Ela é tão forte a ponto de fazerem tanto barulho?

Satou-san, você realmente não entende nada disso, né...

Ela fez uma expressão de decepção, mas não tinha como evitar não saber de algo que ele realmente não sabia.

Para Satou, que continuou calmo sem se sentir constrangido por sua ignorância, Ukai falou com um certo orgulho.

Lembra daquele monstro que destruiu a Very Good antes? Ele tem a skill de defesa Diamond(Poder de) Power(Diamante), que corta 90% do dano físico, é um inimigo formidável que exige no mínimo trinta aventureiros de primeira classe para desafiá-lo.

Enquanto falava, Ukai voltou para a tela inicial do aplicativo e tocou em outro vídeo.

Alguns com ficção científica, outros com tema militar, outros vestidos com equipamentos fantásticos. Jovens com expressões desesperadas desafiando a cobra gigante com escamas de diamante, travando uma batalha intensa.

(Hee, então as pessoas acham que esse bicho é tão forte assim? É porque a fraqueza dele ainda não foi descoberta?)

Enquanto assistia ao vídeo de uma batalha acirrada e cheia de impacto, Satou pensou.

(O Diamond Power é uma skill de defesa poderosa, mas tem uma fraqueza fatal)

As escamas em formato de joia possuem uma dureza tremenda, repelindo armas e magia, o que corta o dano.

(Dá pra chamar de armadura invencível, mas―― não importa o quão resistente sejam as escamas que a cobrem, o interior ainda é carne viva.)

(Só o lado de fora é duro. O impacto é transmitido para dentro, e repelir também funciona.)

Energia potencial... impactos de queda e dano de colisão no corpo inteiro são super eficazes.

Armas de ataque contundente, como martelos, não funcionam. Com um tamanho que um humano consegue manusear, o impacto se dispersa. No entanto, ser arremessado de um lugar alto ou bater com tudo contra a parede transforma o próprio peso do monstro em uma armadilha fatal.

Morrer instantaneamente após bater o corpo todo com força―― algo mundano como um acidente de trânsito, essa era a melhor jogada para derrotar a criatura.

(Eu não sei se as pessoas têm esse tipo de skill por aí, mas é um oponente fácil)

Se você mandar uma rebatida forte, ele morre. É só gigante, a dificuldade em si é baixa, um adversário igual a uma bola(slow) lenta(ball).

Para os padrões da faixa de onde eu consigo mergulhar saindo do meu bassen (Batting Center) de sempre, ele até que é fortinho, mas falta diversão.

Ou melhor, esses números como ‘corte de 90%’, como foi que tiraram isso?

Parece que os aventureiros que têm skills de avaliação, os da linhagem de Scouters, estão se esforçando para descobrir. Sempre tem esse tipo de pessoa, sabe, gente que quer criar enciclopédias de monstros ou compêndios de skills.

...Se fosse antigamente, a nossa empresa com certeza publicaria isso como um livro.

Hoje em dia, em vez de arriscar e gastar com mídia impressa, dá muito mais dinheiro publicar no próprio site ou vender digitalmente, então ninguém mais quer publicar livros físicos.

Enquanto Satou pensava nisso, Ukai olhou para o smartphone com uma certa inveja e disse.

Normalmente, os streamers postam vídeos de resultados depois da aventura, mas essa pessoa nem isso fez. Tá rolando o boato de que ele deve ser um aventureiro durão das antigas, o que é raro de se ver hoje em dia.

Ah, aquela parada de ficar exibindo os itens e moedas que pegaram do chão, é isso?

É sim, mas fala de um jeito com um pouquinho mais de sonho, poxa... Da Diamond(Serpente Gigante de) Boa(Diamante)tem até os drops raros. Se sair um deles, é uma coisa absurda de incrível.

Os vídeos de balanço de resultados são um dos maiores clássicos na comunidade de aventureiros.

Muitas vezes, são gravados logo após terminar a stream e concluir a aventura, ou no dia seguinte. Neles, a pessoa anuncia os tesouros, moedas de ouro e itens mágicos que conseguiu, e às vezes até revela o valor convertido em ienes japoneses. Porém.

Drop raro... deve valer uns mil ienes no Magic(Leilão) Auction(Mágico)?

De jeito nenhum que seria tão barato assim!? Não tem valor como joia, mas serve como catalisador mágico, sabe.

Hee, Satou resmungou sem perceber.

(Um material parecido apareceu no Magic Auction antes, mas não vendeu de jeito nenhum.)

E ele lembrava muito bem disso, porque, afinal, quem colocou o item à venda foi ele mesmo.

Toda vez que ele ia rebater para aliviar o estresse, moedas de ouro, armas e materiais se acumulavam na sua mão, e isso era um problema.

Ele amontoava tudo e jogava num quartinho de bagunça, mas ocupava espaço demais, então tentou se desfazer de tudo, no entanto.

Foi denunciado várias vezes por fraude, e a sua conta foi suspensa.

Ahaha. Com certeza era um item falsificado.

Sem nem imaginar que estava ouvindo a experiência real do próprio colega a quem se dirigia, Ukai deu uma risada seca.

Bem no começo das Dungeons, parece que as revendas e fraudes usando itens falsos saíram do controle. Por isso, itens de drop de alto valor como esses não podem ser anunciados em nenhum lugar que não seja o leilão online oficial da Associação de Aventureiros. Se não, você leva bronca.

Entendi.

Com razão que tomei um BAN, ele pensou.

(É uma pena, já que no meu caso o item era genuíno, mas se existe um motivo assim, não tenho escolha a não ser obedecer. E para usar o leilão oficial, é preciso se registrar.)

Obviamente, é preciso notificar a Associação de Aventureiros e obter uma licença para se tornar um aventureiro reconhecido.

O exame em si parece ser tão fácil quanto tirar carteira de motorista de scooter; dizem que se você pesquisar, memorizar as provas anteriores que estão na internet, ou estudar só um pouquinho com uma apostila, você passa na certa.

Mas isso era simplesmente chato demais.

(Para começo de conversa, a nossa empresa proíbe trabalhos paralelos)

Mesmo sendo uma empresa quase exploradora, já estou trabalhando aqui há quase vinte anos.

Procurar emprego depois dos quarenta é um saco, e eu já estou até esquecendo como se escreve um currículo.

(No fim das contas, para mim, frequentar a Dungeon é...... um Hobby)

Apenas um hobby que de alguma forma continuou desde aquele dia em que a Grande Invasão da Dungeon de Shinjuku Kabukichou aconteceu até hoje.

(Os monstros não passam do nível de um bassen onde eu posso rebater bolas vivas)

Jogo a lata de café vazia na lixeira ao lado da mesa.

Ligo o PC que estava no modo de suspensão, enquanto organizo mentalmente as tarefas do dia.

(Eu não sou mais tão jovem a ponto de ficar obcecado em salvar pessoas ou fazer conquistas heroicas a essa altura do campeonato ――)

Foi bem nessa hora, enquanto eu pensava nisso num canto da mente.

Satou, Ukai!

Ban, o som leve de um tapa na mesa interrompe meus pensamentos.

Ao erguer os olhos, vi a minha chefe(Buchou), que aparentemente já havia chegado para trabalhar.

Diferente da Ukai, que virou a noite, ela parecia ter ido para casa descansar, já que suas roupas e maquiagem estavam perfeitamente em ordem.

(Ela parece sutilmente cansada. A maquiagem tá mais pesada que o normal)

Provavelmente para disfarçar a cor do rosto, ela passou uma camada grossa de base.

S-sim! Aconteceu alguma coisa, Buchou?

Bom dia. Por favor, pare de bater na mesa, isso é assédio moral.

A chefe suspira profundamente para a Ukai, que responde em pânico, e para o Satou, que responde no seu próprio ritmo.

Desculpem. ......Vocês viram a coletiva de desculpas da Very Good?

Aquilo não pode ser chamado de pedido de desculpas, né.

Eu fiquei puta da vida assistindo aqui na empresa.

Eu também cuspi meu vinho de raiva à noite. Aqueles moleques de merda já deram o que tinham que dar, vou cortar.

É natural que ela se irrite, pensou Satou.

O espaço concedido ao departamento de vendas é apertado. Enquanto são esmagados diariamente pelo departamento editorial ao lado, a chefe marca um implacável (X) vermelho no quadro branco usado para anotar o cronograma mensal geral e as saídas a trabalho.

......A gente ia continuar empurrando a Very Good até o mês que vem......

A situação tá feia aqui nas vendas, mas o departamento editorial ali do lado também parece estar lascado.

Se fossem artigos na web, poderiam ser corrigidos em tempo real, mas com mídia impressa a história é outra.

Talvez por não terem nem energia para fazer barulho, do outro lado da divisória só se ouvia o som silencioso de teclas sendo pressionadas (pechi-pechi) e, de vez em quando, vozes fantasmagóricas conversando ao telefone. Parecia o clima de um velório.

Os planos foram todos pro espaço. O cancelamento do evento também já foi oficializado.

Substituição de matérias. Anúncios, panfletos, eventos, mercadorias... todos os planos ganham um (X).

(Indenizações por danos e afins, isso vai dar uma merda colossal...... Fizeram uma baita cagada)

Só no cálculo rápido de Satou, valores de sete dígitos (milhões de ienes) seriam movimentados.

E isso era apenas o prejuízo que envolvia a Editora Bouken, então o valor total no mercado deveria ser muito pior.

Mas por que será que eles fizeram uma coisa dessas?

Ukai perguntou, parecendo intrigada.

Eles caíram do top 10 do ranking oficial da Guilda, mas...... ainda assim são da camada superior de conquistadores. Em termos de beisebol, seria o equivalente aos jogadores titulares de um time profissional de primeira linha, não é?

Renda, status social, ambos estão no nível das grandes estrelas da era antiga.

O grupo que causou todo esse cancelamento, a Very Good ―― Ao que parece, a prática de atrair grandes quantidades de monstros dentro da Dungeon era algo que eles já faziam antes, mas o que os denunciou foi o fato de, dessa vez, terem feito de um jeito muito forçado.

Reunir inimigos que não estão à altura da própria força sem tomar o devido cuidado se devia ao fato de aventureiros sem capacidade ou experiência estarem desesperados, ignorando os perigos e metendo os pés pelas mãos.

Dizem que foi isso, e a gota d’água foi a falha na subjugação da Diamond Boa》」

A Very Good tomou a liderança, formou múltiplas parties e tentaram uma conquista nas camadas mais profundas, parece. Mas o resultado foi um fracasso total. Longe de conseguirem a subjugação, eles foram aniquilados, e parece que cortaram apenas os piores momentos da vergonha deles, espalharam, e isso causou um puta dano na imagem deles...... pelo que disseram.

Eu não assisti a esse vídeo, mas o que disseram que causou o fracasso......?

Ah, eu só dei uma olhada, mas o que posso dizer......

Ukai disse com uma expressão desanimada.

Parecia que eles não tinham uma boa relação com o pessoal com quem colaboraram. Tinha um clima pesado......

......Ah, então foi por isso que deu merda, sem sombra de dúvidas.

Mesmo pela minha própria experiência, é o tipo de caso em que a ruína é certa.

(No mínimo, se eles pudessem se coordenar mutuamente, a situação ficaria um pouco melhor)

Prazos muito curtos, condições que se complicam ou relações que se enrolam.

Quando as relações humanas desmoronam por causa desse tipo de problema, a dificuldade de qualquer trabalho dispara.

Satou achava que eles falharam porque precisavam falhar. Ele não tinha espaço para simpatizar com eles.

Eles já eram um grupo que ignorava o nível apropriado e aumentou o número de inscritos fazendo coisas absurdas. No começo, o título do vídeo que deu muitas visualizações era algo como Invasão em Camada Rasa – RTA Tá Começando~!, né......

Deu certo, isso aí?

O que veio depois desse primeiro e virou a marca deles foi contar muito com a ajuda de outras pessoas habilidosas pra dar um jeito na situação. Parece que virou assunto porque era engraçado de assistir, mas não passou de um empurrão para a fama.

Provavelmente, a força original deles não era suficiente.

No começo, talvez eles tenham conseguido por causa do esforço das pessoas pacientes que os ajudaram, e por terem tido sucesso, viraram heróis. Mas a sorte só funciona uma vez, duas não dá.

Se fosse só com eles, até vai, mas acabaram arrastando todo mundo ao redor, né. Por isso foram massacrados quando cometeram o erro.

É verdade. Se fosse dizer se é natural, seria natural

Pois é. Depois eles não podiam errar, e, não aguentando essa pressão, tentaram um aumento forçado de força tramando um farm absurdo e foram descobertos. Dizem que foi assim que aconteceu, mas como pessoas, as personalidades deles eram só as piores possíveis.

(Eu entendo)

Embora Satou não tenha dito em voz alta, concordou profundamente com a opinião da chefe.

Mas, mesmo assim, para nós, eles eram streamers valiosos para os quais podíamos passar os projetos.

O fato de dependermos de gente assim já mostra que estamos no fundo do poço desde o começo, não é?, Satou pensou.

Satou, Ukai, vão com urgência procurar streamers “que pareçam ter um grande futuro”! E até acharmos um substituto para a Very Good, já fiquem sabendo que as horas extras vão continuar por um bom tempo. Foi mal.

Hã?

Bishiri, ouviu-se o som de uma rachadura abrindo no espaço.

Claro que era apenas a imaginação de Satou, mas foi um anúncio chocante a esse ponto.

Tá falando sério...... E o que a gente deve fazer?

Eu entendo que estou pedindo um absurdo, mas se não elaborarmos uma contramedida de qualquer jeito, a nossa empresa vai quebrar. Não é só tapar o buraco nas páginas da revista, se não convencermos os anunciantes e as redes de lojas de conveniência, corremos o risco de todos eles pularem fora de vez.

Qualquer leigo conseguiria entender que, se isso acontecesse, seria xeque-mate.

As vendas das publicações impressas fornecidas para as livrarias comuns eram apenas razoáveis, não é como se dessem um lucro exorbitante. Na prática, operavam no vermelho, e as vendas das revistas colocadas nas lojas de conveniência, bem como as taxas de publicidade obtidas através delas, eram praticamente a corda de salvação da Editora Bouken.

Claro que eu também vou fazer tudo que estiver ao meu alcance. ......Vai ser duro, mas vamos dar o nosso melhor.

Olhando para o rosto da chefe, que já tinha se preparado para o pior, dava vontade de dizer “Por favor, me poupe disso”.

Não dá. Não tem pra onde fugir, mesmo odiando a ideia. Hora extra? Oh, que palavra repulsiva. A minha crença sagrada de sair no horário fixo está desmoronando aos pedaços, é o estopim para o trabalho escravo. Eu odeio, odeio demais...... mas.

......Enten, dido......!

Conto com vocês.

A conversa devia ter terminado, e a chefe voltou para a sua mesa.

Ukai também olhou para cima com uma expressão um pouco preocupada, mas Satou não tinha cabeça pra isso.

1...... Não, 2...... talvez

?

Enquanto sentia uma raiva sem ter onde descontar e um estresse agudo batendo.

Ukai inclinou a cabeça sem entender, observando Satou contar nos dedos.

 

 


 

​❸ A Sobrinha, a Melhor Amiga e o Viral de Dez Mil

 

 

Em algum lugar de Tóquio. Uma sala de aula de uma escola metropolitana de ensino médio.

Amahara Hikari

 

Tio, você é o melhooooor!! Sério, te amo muito!

Isso é Sugar Daddy?

No mesmo dia e horário em que Satou sofria com o anúncio de horas extras.

Num canto da sala de aula de manhã, duas garotas de uniforme escolar se encolhiam juntas secretamente.

Tipo, não pode, né, expor ele numa stream sem permissão. Acho que ele vai descobrir na hora e a gente vai levar bronca

Colegas de carteira, uma ao lado da outra. Aproximaram as cadeiras e as duas olhavam para um único smartphone. O smartphone guardado numa capinha fofa é propriedade dela (Hikari).

A outra é uma garota de óculos com um visual mais discreto, Onoya Miyako  ―― apelidada de Miya.

O relacionamento das duas não é longo. Quando Hikari se transferiu de escola, calhou de sentarem lado a lado, e esse foi o gatilho. A primeira impressão não foi boa de ambos os lados, mas agora elas se abriram completamente e se tornaram melhores amigas.

(Nossas personalidades não batem de jeito nenhum, mas é isso que é bom, né)

Hikari tem a autoconsciência de que é o que chamam de Extrovertida. Em contrapartida, a colega é uma Introvertida esplêndida. Originalmente, elas teriam se repelido, mas havia um grande ponto em comum.

Ehhh, relaxa, tá tudo bem. Por isso, vamos nos aventurar juntas? Eu garanto que vai ser divertido!

Interesse em transmissões de aventureiros. Assim que descobriram isso, as duas abriram um canal juntas.

(Eu com certeza acho que a gente é fofa~. Seria um desperdício não fazer, né)

Aproveitando sua aparência e uma personalidade destemida que não conhece o medo, Hikari sai na frente com alta motivação.

Já te falei várias vezes, minha ambição é ficar nos bastidores. Tenho interesse na equipe técnica e nas configurações.

Com a Miya, que entende de várias configurações e conhecimentos.

O canal que as duas criaram tinha acabado de começar, então o número de inscritos era meio fraco. Mas segundo ela Miya, que entende bem desses números, parecia estar na “categoria de um ótimo começo”, mas...

(Ainda não! Ainda não dá, não conseguimos monetizar! Quero números, e se der sorte, quero viralizar!)

O que mudou drasticamente o destino dela, foi a transmissão surpresa de ontem à noite.

Mandar eu criar um canal novo às pressas foi um absurdo. Eu fiz, mas né.

Sério, muito obrigada meeesmo. Ainda bem que deu tempo de fazer o logo e tals.

É nível de hobby. Só desenhei qualquer coisa a partir das informações que a Hikari me passou.

Não é nada incrível, disse a melhor amiga de forma casual. Não, é absolutamente incrível, pensou Hikari.

É um canal novo, separado do canal conjunto delas.

Na transmissão surpresa da noite anterior, só colocaram um nome provisório feito de qualquer jeito, e não tinha logo, muito menos uma edição mínima. Mas, como resultado dela ter ouvido a situação e arrumado o visual mínimo em poucas horas――.

Viralizar foi bom, mas. Vou perguntar de novo: o que você vai fazer se o seu tio descobrir?

Meu tio tem uma constituição que o faz morrer de vergonha alheia se for exposto à cultura dos jovens! Ele com certeza não assiste a streams nem nada, não vai descobrir, não vai.

...Alergia à juventude, hein. Parece difícil viver assim, o tio da Hikari.

Enquanto se grudavam numa distância curta como filhotinhos de gato íntimos, as duas conversavam baixinho.

Eu dei uma pesquisada por precaução, mas

Apontando para um logo que parecia um redemoinho num aplicativo de mapas do smartphone, ela fala com Hikari.

O aplicativo de mapas ―― ao redor da fechada Dungeon de Shinjuku Kabukichou, o Batting Center nas redondezas.

Esse Bassen Batting Center, ouvi dizer que foi atingido pelo desastre há dezoito anos.

Você quer dizer o Dungeon Disaster?

O desastre secundário dele, aquela coisa de quando os monstros transbordaram da dungeon, a Grande Invasão.

Foi uma tragédia repentina que ninguém poderia prever, é o que dizem os livros de história.

Junto com o surgimento do Dungeon Disaster que havia ocorrido antes disso, a dungeon foi bloqueada pela polícia e pelas Forças de Autodefesa. Uma equipe especial foi formada para resgatar as pessoas presas, e embora tenham tentado desafiá-la através de muita tentativa e erro ――.

As regras da dungeon, o conceito de níveis e a forma de usar as skills, coisas que hoje são senso comum, naquela época ainda estavam sendo descobertas às cegas. E com um método que priorizava a segurança acima de tudo, a única opção era evitar o combate o máximo possível.

A dungeon continuou gerando monstros.

Como se fosse um único organismo vivo, como um enxame com estrutura social. Como resultado de continuarem evitando as lutas priorizando a segurança, o número de monstros que nasciam superou esmagadoramente o número dos que eram derrotados, e finalmente, como uma represa que estourou, eles transbordaram da dungeon.

No auge, toda essa área de Shinjuku, que era o dobro do tamanho atual, foi engolida inteira... né.

Sim, sim. A polícia e as Forças de Autodefesa lutaram desesperadamente e conseguiram fazer as coisas voltarem ao que são hoje.

Mesmo assim, grande parte da área urbana teve que ser isolada do jeito que estava.

A party de aventureiros formada por ex-policiais e membros das Forças de Autodefesa que mais se destacou na época se tornou um grupo de heróis. As lições de combate deles se tornaram o núcleo da atual Associação de Aventureiros, e o nome deles, Aventureiros do Início, continua sendo passado de geração em geração até hoje.

O portão que o seu tio frequenta é um resquício disso. Ele continuou ali mesmo depois do isolamento.

Eu não conheço muito bem, mas isso é comum?

Tem um monte por toda a área de Shinjuku. Os pontos principais onde os aventureiros entram e saem são apenas uma parte.

As condições de surgimento dos portões, as entradas para esses espaços alternativos chamados Dungeons, não são compreendidas.

Além disso, suas propriedades variam imensamente: existem aqueles por onde apenas aventureiros podem entrar e sair, aqueles por onde apenas monstros passam, vias de mão única, ou lugares que se conectam aleatoriamente.

Em particular, as bases utilizadas por muitas pessoas foram fortificadas, sendo equipadas com balcões de recepção, panfletos que distribuem as informações mais recentes, armas, armaduras, remédios e até mesmo a compra e venda de itens.

Esse que o tio da Hikari usa é um portal muito perigoso: entrada e saída livre só para aventureiros, e vai direto pras camadas profundas.

No mapa de desastres, ela toca no ícone de redemoinho que indica o portão.

A indicação complementar de Lv 75~140 mostrava o destino para onde aquele portão levava.

Parece que ele sai bem no limite entre a camada profunda e a média, no ponto intermediário. Se avançar da área de surgimento, é a profunda; se recuar, é a média. Parece que streamers também entram e saem por aí de vez em quando, mas...

A sensação é de que ninguém avança mais pro fundo?

Mesmo uma party de elite do topo morreria se corresse pra lá sem defesa, não é? É perigoso nesse nível.

A maior dificuldade do ambiente atual, uma linha reta para a linha de frente.

O tio que entra sozinho num lugar desses, e volta com a maior cara de tranquilidade――.

O que eu faço? O meu tio é OP demais.

Começou a falar coisa que parece tirada de anime...

Apesar de dizer isso, ela sentia que aquela destruição toda só podia ser descrita como Musou(Inigualável).

(Sendo tão forte daquele jeito, por que você não virou profissional, hein, tio......)

Sinceramente, parecia um desperdício. Só de ter sido exposto um pouquinho, ele virou o centro das atenções, quebrando a marca de dez mil espectadores simultâneos logo na primeira transmissão. Se o tio que conseguiu arrancar números tão absurdos jogasse sério, ele poderia se tornar um verdadeiro herói.

Como se lesse esses pensamentos, Miyako sussurrou para Hikari.

―― Ele é o seu benfeitor que te acolheu sem fazer cara feia nenhuma quando você estava numa situação difícil, não é? O seu tio.

Sim......

Expor uma pessoa dessas na internet sem permissão... eu acho que é o mesmo que retribuir um favor com traição. Tudo bem pra você?

Ugh~~~~~~~!

Era um argumento tão correto que não havia desculpas a dar, e Hikari gemeu, angustiada.

Não pode, eu sei que não pode, mas......! Jogar fora essa chance de um mega viral é um desperdício enorme!

Bem, é como se uma bolada de dinheiro estivesse caída no chão, eu até entendo, mas sabe...

Para um streamer, viralizar é tudo. A primeira conquista solo nas camadas profundas, uma subjugação de Raid Boss com um único golpe.

Esse impacto é surreal. Uma joia da era moderna que não se pode comprar nem empilhando maços de dinheiro, um bilhete para o sucesso. Moralmente, ela precisava jogar isso fora, e estava sofrendo exatamente por ter consciência disso.

Eu sei que é maldade, mas como sua amiga, achei que tinha o dever de te falar isso.

Sim...... eu sei. Obrigada, Miya.

Hikari responde, cheia de remorso.

Sim, era isso que eu deveria ter feito desde o começo...... pensou ela.

Eu vou falar direitinho com o meu tio. Vou pedir desculpas e dizer que sinto muito.

Não é melhor assim?

......Pra começar, depois da gente faturar uns cem milhões!

Você ainda vai lucrar com isso?!

Para a amiga que retrucou perplexa, Hikari não voltou atrás na sua decisão, mesmo estando em conflito.

Ela sabia que era uma atitude desonesta. Podia ouvir uma voz xingando a si mesma: Sua covarde! Idiota!. Mas, pensando em se tornar independente o mais rápido possível, em acabar com aquele estado de parasitismo e pagar as mensalidades da escola no futuro, ela simplesmente não conseguia abrir mão daquilo.

(Usar o meu tio para isso é uma coisa super errada, mas~~! Eu sinto uma culpa enorme. Eu até faria dogeza e pediria perdão, mas, e se. E se ele não me perdoar?)

Se aquele tio tão gentil a olhasse com desprezo e dissesse algo como “Saia da minha casa”.

(Impossível, impossível, impossível, impossível, impossível! Eu morreria! Só me restaria morrer!)

Pensar em um Bad End desses era assustador demais, então a única opção era adiar isso por enquanto. E além do mais.

(O meu tio é, na verdade, incrível!)

E também, mesmo que soe como uma desculpa esfarrapada inventada depois, Hikari tinha o sentimento de querer que outras pessoas soubessem o quão incrível seu tio era, ela queria exibi-lo.

Quando ele volta para casa, o tio sempre traz consigo uma atmosfera sombria.

Na empresa, no caminho de ida e volta do trabalho, ele com certeza deve ter passado por situações terríveis, dá para ver só de olhar para o rosto dele.

E então, ele se deprecia. Como ele não é um carente de atenção, ele não faz piadas autodepreciativas de um jeito desagradável, mas nas entrelinhas de suas palavras, em seus pequenos comportamentos, na sutil distância que ele mantém, a baixa autoestima do tio transborda. Hikari percebeu que isso era uma forma de autodepreciação e aceitava isso.

Por exemplo, a forma como ele mantém distância da própria Hikari. Normalmente, ele parece traçar uma linha para não causar desconforto, achando que ele é o tipo de existência que jovens mulheres detestariam. Sendo que a Hikari, muito longe de detestá-lo, na verdade sente puro LOVE por ele.

Mesmo ele sendo tão gentil, uma pessoa tão boa. Vendo-o viver se encolhendo com uma autoestima tão baixa, ela sentia indignação pela irracionalidade da sociedade que o forçou a adotar essa postura.

O tio não tem motivos para ficar com aqueles olhos de peixe morto por causa de exploração no trabalho, ele é um figurão de primeira classe.

Qual seria a recompensa equivalente à sua verdadeira força? Se o seu tio se mudasse para os Estados Unidos e virasse um aventureiro, ganharia no mínimo 100 milhões de dólares. É o quanto o mundo anseia por aventureiros poderosos, por heróis.

(Eu só queria que vissem o quanto o meu tio é incrível. Será que isso... é egoísmo da minha parte......?)

Como se lesse o interior do coração de Hikari, a amiga lançou-lhe um olhar úmido de exasperação.

Por mais que você tente, isso é impossível, né. Continuar fazendo streams em segredo.

Com a força de lerdeza(insensibilidade ) do meu tio, a gente dá um jeito. Eu acredito nisso!

Que confiança terrível...... Bem, eu já ativei a configuração de mosaico automático para rostos e informações pessoais, então.

É uma função básica incluída nos aplicativos de transmissão de aventuras.

Exige configurações meio complicadas, mas, deixando assim, no momento em que o vídeo é enviado ao servidor, ele é corrigido automaticamente e, por exemplo, pedestres não autorizados, marcas registradas ou streamers que não mostram o rosto (NG – Not Good) recebem um mosaico em cima.

Daqui pra frente, mesmo que a gente grave de surpresa, quando subir pro servidor não vai dar pra reconhecer o rosto nem a voz.

Aí sim! Você é demais, como esperado de uma garota especialista em internet!

Será que isso é um elogio......?

Tô te elogiando pra caramba! Quando a gente conseguir monetizar, eu te pago um salário direitinho!

Não vou criar expectativas. Ou melhor, o canal é seu, não precisa dessas coisas não.

Mas eu vou pagar, eu quero pagar! ……se eu te der dinheiro, a gente vira cúmplice, né?

Eu ouvi isso, viu. Ei!

Kyaa!, ela gritou, e as duas começaram a se agarrar de brincadeira. Nesse momento, o smartphone vibrou de repente.

Ué? Pera aí, tô recebendo uma chamada. ……Meu tio!? Alôôô!

Ela pegou o smartphone apressada, afastou-se da amiga e atendeu a ligação.

Com uma voz animada e um sorriso que deixavam claro na hora o quanto ela adorava a pessoa do outro lado da linha, Miyako murmurou.

Você gosta mesmo do seu tio, né.

Shh! Shhh~~~~!

……Bom, você deve gostar de dinheiro na mesma proporção……

Para o seu próprio desespero, Hikari não podia retrucar.

Enquanto a culpa de guardar um segredo a deixava paralisada, a voz charmosa do tio fez cócegas em seus ouvidos.

Hoje à noite vou fazer hora extra.

Direto ao ponto, ele começou pelo assunto principal.

A aparência dele podia ser sem graça, mas Hikari achava o seu tio muito maneiro.

(Especialmente a voz. É muito grave e charmosa, me dá até arrepios!)

Ele mesmo com certeza nunca acreditaria nisso, mas só ela entendia o verdadeiro charme do tio.

Acho que vou chegar tarde, então…… achei melhor avisar.

Ehhh, é mesmo? Que solitário. E o jantar?

Não precisa se preocupar com o jantar. Eu vou rebat…… digo, vou sair para beber, então vou comer qualquer coisa por aí.

Captando uma leve irritação no tom de voz indiferente dele, a intuição de Hikari apitou.

(Erro de pronúncia? Não mesmo, o que ele queria dizer de verdade era que ia “rebater”. Ou se-jaaaaa……!)

Niyari, seus lábios se curvaram naturalmente em um sorriso.

Um sorriso de quem ronrona como um gatinho, segundo ela mesma. Um sorriso de diabinha, segundo Miyako.

O pior é que ela é fofa de verdade, isso que quebra……

Aí, cala a boca! ……Ei, ei, tio. Você usa o GPS do seu smartphone?

Depois de repreender Miyako baixinho pelo comentário, ela falou com uma voz doce como mel.

No entanto, até onde Hikari sabia, Satou não reagia de forma alguma a esse tipo de charme ou voz manhosa. Sem dar a mínima pista do que estava pensando por dentro, a resposta veio no mesmo tom indiferente de sempre, parecendo um atendente de guichê de prefeitura.

Aquela coisa que mostra a localização do dono? Não uso, por quê?

Se você vai chegar tarde, me ajudaria bastante se você deixasse ligado~. Dá pra saber quando você vai voltar, e também

Enquanto imaginava o rosto do tio do outro lado da linha.

Ela fez o seu pedido com todas as forças, sendo extremamente doce, sussurrando no smartphone de um jeito capaz de derreter o coração.

É que eu me sinto sozinha quando você não tá, tio. ……Não pode?

…………

O rosto de Satou, em apuros, surgiu na mente de Hikari.

Dava para imaginar perfeitamente. Embora suas respostas fossem secas, Satou era bastante mole com a sobrinha.

Quando ela fazia um pedido manhoso desse jeito, a menos que fosse algo muito grave——.

Entendido. Se é o caso, deixarei ligado de agora em diante.

Obrigadaaa, tio

Claro, era mentira. Para ser mais exata, era 60% mentira e 40% verdade, não é que ela não se sentisse solitária, mas a verdade é que as segundas intenções falavam mais alto.

Naquele plano de induzi-lo a ligar o GPS, havia uma segunda intenção ainda maior.

Bom, vou desligar agora. Boa sorte com os estudos.

Uhum, você também, tio Tchauzinhooo!

Assim que ela desligou o telefone, Miyako a encarou com um rosto aterrorizante.

O motivo dela franzir a testa e fazer uma cara de quem acabou de chupar uma ameixa extremamente azeda era:

Nyufufu, com isso a gente já sabe a localização do meu tio......

Sua demônia!

Niyari. Transmissão de Emergência! Anúncio de stream surpresa do Shinjuku Bat~, e postar!

Dizendo “Niyari” em voz alta de propósito e com um sorriso destemido, ela posta nas redes sociais.

A conta oficial que haviam criado na noite passada. Apesar de ter sido aberta há tão pouco tempo, talvez pelos inscritos do canal estarem migrando para lá, já havia conquistado um bom número de seguidores.

Tem certeza de que é uma boa anunciar? Não é garantido que o seu tio vá pra Dungeon, né.

Ele vai com certeza. A voz do meu tio tava perdendo a energia vital de um jeito bem sutil.

Então esse é o seu critério......

Pensando bem agora, havia dias em que ele voltava tarde da rua ocasionalmente.

Ele sempre dava a desculpa de que tinha ido beber ou estava entretendo clientes da empresa, mas toda vez pedia para ela mandar um terno imundo para a lavanderia. Os sapatos também voltavam sempre sujos, e ela vivia se perguntando o que diabos ele andava fazendo.

(Aquilo tudo era a Dungeon, né. Ou se-já, hoje também vai rolar. Não tenho a menor dúvida!)

Ignorando o rosto de choque da amiga, Hikari olhava empolgada para a tela das redes sociais.

A timeline atualizada. O post já estava sendo compartilhado, e os espectadores começavam a fazer alvoroço.

 

Inumajin Sério, hoje à noite?

Madao Postando em dias seguidos, o cara tá se achando~. Bom, eu vou assistir.

Kobayashi Hajime Parece que vai ser interessante, minhas expectativas tão altas.

 

Mufufu, aaaaah, que ansiedade

Lendo as respostas, Hikari deu um sorriso largo e satisfeito.

O que será que ele vai mostrar pra gente hoje? Nós vamos poder nos aventurar juntos, né, tio

Se Satou espirrou no escritório por estar sendo alvo de fofoca, isso é um mistério.

Colocando expectativas ainda mais doces do que as de um fã de verdade, Hikari estalou os lábios levemente, como se estivesse mandando um beijinho.

 

 


 

​❹ Os Homens de Mau Caráter

 

 

No mesmo horário. Nas redondezas das camadas profundas da Dungeon de Shinjuku Kabukichou.

O grupo “Very Good”.

 

A maior parte da Dungeon de Shinjuku Kabukichou é composta por ruínas isoladas.

Prédios engolidos por outro mundo devido ao Desastre da Dungeon ―― de Host Clubs a Girls Bars, de bordéis suspeitos a restaurantes. O antigo distrito de entretenimento se tornou um cadáver lamentável, transformado numa zona de perigo infestada de monstros.

Mesmo considerando apenas a parte onde a exploração avançou e o mapeamento foi concluído, a área total é dezenas de vezes maior do que era antes.

A Kabukichou roubada pelo outro mundo se ramifica infinitamente, como uma imagem virtual em espelhos paralelos. Os espaços duplicados servem de habitat para os monstros e, inclusive, as figuras das antigas vítimas, que já não são mais humanas, foram confirmadas por lá.

Como eu imaginava... pra aliviar o estresse, isso aqui é o melhor. Dá uma aliviada boa.

Setor de Nível 75 da Camada Média ―― Dungeon of Temple.

O setor especial, cujo acesso é restrito pela Associação de Aventureiros, é completamente diferente da dungeon normal. Construções bizarras que lembram um estilo japonês, cenários de novelas de época, se alinham ali, e os monstros que aparecem também são diferentes do normal.

Os quatro aventureiros que estavam naquele lugar. Todos eram bonitões, com traços bem definidos e rostos belos.

O homem que parecia ser o líder usava uma jaqueta de couro e acessórios de prata. Um traje que parecia saído de um RPG de antigamente.

Um estilo que, se errassem a mão, daria muita vergonha alheia, mas que combinava surpreendentemente bem com ele, dando-lhe um ar maneiro de modelo. Os outros membros também usavam equipamentos que pareciam cosplay, mas a atmosfera imponente deles apagava qualquer traço de bizarrice.

Oooh... oooooh...!

Cala a boca. Seu boneco de madeira inútil.

Gori, o calcanhar da bota esmagou o chão com força.

Os inúmeros cadáveres caídos ali ―― o líder ignorava friamente as vozes de ressentimento emitidas por aqueles que ainda respiravam.

Eles não eram cadáveres ambulantes, os chamados zumbis; eles claramente tinham a forma de humanos.

A gente não pode estuprar essas coisas, né? Pega doença se fizer?

Sei lá. Quer fazer, faz.

O fim trágico das antigas vítimas, cujas almas foram aprisionadas no labirinto ――.

Os Dungeon Believers , como são presumivelmente chamados, misturam armas e armaduras geradas pela dungeon com as roupas que usavam na época do desastre. Eles atacam os aventureiros junto com os monstros enquanto murmuram delírios de loucura.

Como eram originalmente humanos, sua capacidade de combate é menor que a dos monstros puros, mas como despertaram skills quase iguais às dos aventureiros, existe a possibilidade de terem trunfos problemáticos, tornando-os uma ameaça que não se deve subestimar... no entanto.

Mas é meio nojento. São humanos, não importa como a gente olhe.

Isso é conveniente porque afasta os outros aventureiros e ninguém vem pra cá, não acha? O que, vai dar uma de coitadinhos agora?

O homem com estilo de ladrão cutucava macabramente os cadáveres dos cultistas com pequenos chutes.

O homem que parecia ser o braço direito do líder, um ikemen musculoso da linha de frente, deu de ombros de forma exagerada.

Não são humanos, é só a aparência. É igual zumbi, né? O que cê tá falando a essa altura do campeonato?

Pois é... Mas tipo, aliviar o estresse é legal e tals, Potato. O que a gente vai fazer no fim das contas? O projeto de patrocínio foi pro buraco. O cancelamento nas redes sociais não para, se a gente continuar assim vai dar muita merda, né.

Diante das palavras do homem com estilo de clérigo, o homem chamado Potato bufou e riu pelo nariz.

Que babaquice. Abaixar a cabeça pra eles é fácil. Mas não acha que isso é patético demais?

É patético pra caralho, com certeza. Se a gente deixar quieto, vão continuar tirando a gente pra otários.

Pois é. Não vou ficar puxando o saco desses figurantes lixos que só sabem falar merda de um lugar seguro.

O Líder, Potato.

O homem estilo guerreiro, Mash.

O homem estilo clérigo, Salt.

O homem estilo ladrão, Vinegar.

(Nota: Batata, Purê, Sal e Vinagre. Formando o combo da Very Good Chips!)

Os nomes, é claro, não são os verdadeiros. São nomes que eles inventaram de qualquer jeito para causar uma impressão memorável como streamers. Em contraste com a facilidade de lembrar e o som alegre dos nomes, a atmosfera que eles exalam é desleixada e agressiva.

A Party de Aventureiros Bonitões Very Good é formada por esses quatro, e eles vinham conquistando espectadores enquanto frequentemente sofriam cancelamentos por suas atitudes radicais. No entanto, o cancelamento desta vez não parecia que ia se resolver como de costume.

Derrotar um único monstro da camada profunda já é perigoso pra caralho, imagina ficar matando vários pra subir de nível? O risco é alto demais.

Seguindo Salt, que tinha uma aura pesada de quase-delinquente, Vinegar, que tinha um rosto andrógino, concordou.

Pois é. Juntar um monte de monstros lixos da camada média e matar tudo de uma vez é bem mais eficiente. Por que a gente tá sendo cancelado por isso? Todo mundo devia fazer igual, a galera que tá só cagando de medo.

Stampede(Estouro de Manada)? Fica descontrolado se juntar demais? A gente não tava nem aí, já fizemos isso um monte de vezes. Waooo!

Mash, com estilo de guerreiro, exclamou de forma exagerada com gestos de americano. Era só uma atuação para o personagem de streamer, mas como ele fazia isso até quando não tinha espectadores, parecia que estava virando um tique natural.

Além disso, se aparece um bicho novo e chato, a gente já conseguiu escapar.

A Dungeon de Shinjuku, claro, assim como muitas outras, tem sinal de 5G.

Dizem que a maior parte dos lugares transformados em labirinto eram originalmente áreas urbanas, e como as antenas de celular e outras infraestruturas foram engolidas para o interior do outro mundo e se tornaram parte da Dungeon, elas continuam mantendo suas funções.

Por isso, o smartphone que Potato tirou do bolso também estava conectado ao canal do aplicativo de vídeos.

......É esse Shinjuku Bat aí. Esse merda tá chamando muita atenção!

Encarando a figura do tiozão esmagando geral no arquivo da stream, Potato gritou.

Não dá pra ficar do jeito que tá. A gente tem que bolar um projeto pra fazer esse cancelamento voar pelos ares. Vamos fazer isso.

Você tem alguma ideia? Se a gente soltar um vídeo de desculpas meia-boca daqueles, não vai rolar.

Parece que vai viralizar, mas né. Se a gente só passar vergonha e tomar um banimento(BAN), aí fudeu. Por isso eu pensei em uma coisa diferente. Numa hora dessas, uma colaboração(collab ) é o melhor caminho, e não é melhor fazer isso agarrando a carona de alguém gigante?

Ah, boa ideia. É hoje que a Siren vai fazer stream, né?

Convencido, Salt assentiu.

Isso mesmo. Ela é gata, vamos colar nela e participar. Uma super ação para fazer o cancelamento desaparecer... É isso aqui!

Potato sorriu com malícia, e os cultistas que começavam a desaparecer aos poucos foram revistados de forma implacável enquanto se transformavam em montanhas de moedas de ouro e itens.

Ao ver que algumas reluziam com as cores do arco-íris, tornando-se velhos baús de tesouro, ele deu um sorriso enviesado.

Bem no meio da transmissão ao vivo... a gente aparece de forma heroica e salva a top streamer que tá num baita perigo. Não é foda?

 

Com o seu belo rosto contorcido de forma horripilante, Potato falou.

 

 

 

​❺ O Oji-san Simples e a Jovem Subordinada

 

Em algum lugar de Tóquio. Em frente à entrada da Editora Bouken.

“Satou Keita”.

 

―― 3

Saindo pela porta da frente da empresa enquanto contava nos dedos, já era o meio da noite.

O horário era nove e meia da noite. Dizer que era igual a ontem seria verdade, mas uma sensação de esforço inútil pesava muito sobre mim.

Satou-san, aconteceu alguma coisa?

Eu já estava preparado para isso, mas pensei em como fiquei com mais raiva do que imaginava.

Afastando-se do local de trabalho, enquanto caminhavam lado a lado pela rua que levava à estação mais próxima, Satou disse isso a Ukai.

Por enquanto, nós falamos com todos os streamers do mesmo nível da Very Good, mas――

Fomos esplendidamente rejeitados por todos. Coisas como ‘Hoje em dia, sem cachê por entrevista, é sério isso!?’

Ouvi tanto isso que até criou calo no ouvido. Da parte deles não deve haver maldade, mas

Meu MP é drenado, drenado pra caramba. Mind Point, a minha paz de espírito diminui drasticamente.

Se você quer usar as pessoas, pague o preço justo, isso é óbvio, né.

Se for para dar trabalho a pessoas que conseguem trazer números(visualizações), mais ainda. Exatamente por pagar o preço é que se obtém um resultado à altura. No entanto, a situação financeira miserável da nossa empresa exige que façamos um shibari play (jogar com restrições severas) bem no meio de uma situação que já é difícil por si só.

......É tipo, ‘Não usem ninguém além de talentos com bom custo-benefício’, né. Eu entendo que o orçamento tá apertado

Quando penso que, como resultado disso, estamos sendo forçados a fazer horas extras que originalmente seriam desnecessárias, como esperado

......Haa......

Sem dizer mais nada, suspiro junto com Ukai, que caminhava ao meu lado.

Ainda daria para aguentar se a hora extra fosse paga integralmente. Mas, mesmo com a chefe junto, agora que se tornou hora extra não remunerada com a desculpa da crise econômica, eu sentia que a minha motivação para o trabalho, que já era pouca, estava secando ainda mais.

O que vamos fazer? Será que a nossa empresa vai falir?

Existe a possibilidade. Se os patrocinadores nos abandonarem pra valer, vai ser bem ruim.

Dito isso, um funcionário comum que nem cargo de chefia tem, não deve ter como assumir essa responsabilidade.

Estamos fazendo o trabalho que nos foi exigido. Não precisamos carregar esse fardo.

Isso eu entendo, mas...... quando penso que é algo do qual eu estou encarregada, acabo......

Sim. Nessas horas, é bom comer alguma coisa. Ajuda a mudar o humor.

Uma frase famosa de uma avozinha que li num certo mangá antigamente.

Dizem que o infortúnio chega nesta ordem: “Estou com frio, estou com fome, quero morrer”

Se eu me manter aquecida e comer bastante, vou ficar bem...?

Paradoxalmente, é isso aí. ......Hn?

Enquanto caminhava no mesmo ritmo de Ukai, que me seguia com passos curtos, de repente senti um cheiro apetitoso.

Uma loja de lámen na rota até a estação mais próxima. Não é o tipo de lugar que forma fila, nem um dos populares estilos Iekei ou Jirou-kei. Era um chuuka soba (lámen chinês) que parecia um fóssil, administrado por um velhinho aposentado que estava lá há meio século.

(Ah. Me deu fome......)

O lámen daqui é o clássico dos restaurantes chineses de bairro, um sabor de shoyu bem comum.

Os acompanhamentos são menma (broto de bambu), naruto (massa de peixe), um pouco de cebolinha e espinafre, e fico um pouco feliz por ter um pedaço de fu (glúten de trigo) e duas fatias de chashuu (carne de porco). Não é que seja uma obra-prima absurda, mas às vezes, combinado com uma cerveja, fica estranhamente delicioso.

Aigatooo g’samasu (Nota: ‘Arigatou gozaimashita’ falado de forma bem arrastada/murmurada pelo velhinho)

Obrigado pela comida~!

Moradores da vizinhança, talvez. Abrindo a barulhenta porta de correr, um casal sai do estabelecimento. A forma como caminham de braços dados e sorridentes transborda felicidade, e isso fazia...

(......Isso é ruim. Pela situação, parece terrivelmente delicioso......!)

Meu estômago está prestes a roncar. No entanto, enquanto caminho com uma colega, dizer algo como “Vou comer um lámen aqui, tchau!” e ir embora, como isso soaria em termos de comunicação?

Ah, Satou-san. Lámen! Como pedido de desculpas, eu pago, não quer passar lá?

......Não. Não precisa fazer isso.

Com essas palavras, a fome de Satou foi para o espaço.

Ela não tem más intenções. Isso ele entende. Mas comer em algum lugar próximo com uma colega de trabalho mais nova, e ainda por cima do sexo oposto, só de imaginar já dá preguiça. Se algum conhecido os visse, os boatos se multiplicariam de forma absurda.

(E eu detesto que paguem as coisas para mim)

Existe aquele meme de internet que diz “Quero comer churrasco com o dinheiro dos outros”, mas Satou não gosta disso.

No trabalho escravo corporativo, ter algo pago pelo chefe é quase sinônimo de ter trabalho empurrado para você até a morte. Pensando no trabalho irritante de lidar com as consequências depois, ele definitivamente não quer que paguem nada para ele.

Homem e mulher comendo juntos também é um problema de compliance (NG), vamos deixar pra lá.

......Nós dois somos solteiros, acho que não precisa se preocupar tanto com isso.

Todo cuidado é pouco. Você é uma mulher atraente, então tome cuidado especialmente com isso.

Eh?

Deixando a Ukai parada, Satou apertou o passo.

Satou não tinha como saber como as palavras que ele soltou inconscientemente ―― com a intenção de repreender a sua kouhai que era descuidada com a distância entre homens e mulheres ―― chegaram aos ouvidos de Ukai Madoka, e naturalmente, ele também não percebeu que as bochechas dela coraram levemente.

Bem, por hoje é só. Bom trabalho.

Ah, sim. Bom traba, lho......!

Sem perceber o calor contido na resposta dela, Satou devolveu uma leve reverência e se despediu.

(Isso é o melhor. É uma pena não comer o lámen, mas se eu fizesse alguma coisa estranha e virasse fofoca dentro da empresa, seria um desastre)

Para começo de conversa, um tiozão da minha idade ir comer com uma garota jovem é uma tremenda falta de noção do próprio lugar.

A época de sonhar com momentos doces entre homem e mulher já passou há muito tempo. O prazer que um garoto na puberdade deseja não é necessário para o Satou de agora.

(O que combina comigo, afinal, é ficar sozinho. ......Aquele lugar)

 

O Bassen (Batting Center) de sempre.

A emoção catártica de rebater bolas(mons) vivas(tros) para longe, é isso que combina com um tiozão como Satou.

 

 


 

​❻ O Stalking do Oji-san na Dungeon

 

 

Em algum lugar de Tóquio. Dentro do Batting Center de Shinjuku, perto do Portão Lv 140.

“Amahara Hikari”.

Chefe, o de sempre. Por uma hora.

......Beleza.

(O tio, chegoooou!!)

O tio que apareceu no Bassen cheirava a soba de barraca de rua.

Com a gravata frouxa, o peito da camisa aberto e segurando o paletó que havia tirado. Fingindo mexer no smartphone, Amahara Hikari observava essa figura do tio com os olhos brilhando intensamente.

(Tudo graças ao GPS! Peguei os movimentos dele direitinho, preparação para a stream pronta)

Com o GPS que ela o convenceu a ligar de manhã com um monte de desculpas, os movimentos de Satou eram fáceis de rastrear. Por precaução, ela tinha feito uma tocaia um pouco mais cedo e, como esperado, Satou apareceu no local.

.........

Ao pagar a taxa, Satou pegou um taco de metal para alugar sem nem hesitar na escolha.

Hikari também tinha pesquisado por precaução, mas todos eles eram apenas artigos esportivos comuns, sem nada de especial.

Ou seja, o fato de ele espancar sem parar inimigos formidáveis que seriam difíceis de derrotar mesmo empunhando espadas mágicas ou sagradas, era puramente a sua verdadeira força, uma unique skill que, até onde ela sabia, nenhum aventureiro de primeira linha possuía.

Espiando de fininho com o coração cheio de expectativas, ela viu Satou ir direto para a cabine do fundo.

Não 140 km/h, mas sim 140 Lv, o atalho para a dificuldade mais extrema. Calculando o momento exato em que Satou desapareceu, ela ativou sua skill, derretendo-se na paisagem ao redor e ficando completamente invisível, seguindo-o furtivamente.

(Esta noite também estou com altas expectativas de conteúdo, viu, tio ―― Ninjutsu B Shikigami Drone!)

Ela tirou o disfarce e trocou de roupa rapidamente.

Ao chegar na dungeon que parecia uma ruína, a aventureira Nindou Hikari ativou mais uma skill.

(Vaaaaamoooos, pessoal! Procurem o tio, Let’s goooo!)

A Arte Ninja Shikigami Drone é uma magia conveniente que invoca pequenos drones do tamanho da palma da mão.

Se o rank fosse alto, seria possível equipá-los com armas e fazê-los procurar inimigos para atacar com bombardeios automaticamente, usando-os de forma parecida com drones militares; mas no caso dela, eles serviam puramente para fins de reconhecimento.

No entanto, a sua skill principal ―― Furtividade SSS, permitia um compartilhamento de invisibilidade perfeita.

Graças a essa habilidade anormal que apagava não apenas a presença, mas até o som dos rotores, o bando de drones shikigami atuava como os Olhos dela para captar a situação ao redor e, conectando-se à rede 5G, permitia até mesmo a transmissão de vídeos.

(Configurações de transmissão, ok. Então, Start!)

A skill de furtividade é poderosa, mas a própria Hikari é fraca demais.

Se, por um acaso, ela fosse atacada por um monstro de nível profundo, a morte instantânea era certa. Balas perdidas, sem dúvida, mas ataques em área que ignoram furtividade também aterrorizavam demais; se possível, ela não queria se aproximar de jeito nenhum.

(Com os shikigamis que podem compartilhar a skill, deve dar pra filmar com segurança......!)

Escondendo-se nas sombras, ela encostou as costas na parede da ruína e fechou os olhos, fazendo a visão dos drones se expandir em sua mente.

Eram 5 shikigamis equipados com câmeras. Se olhasse por todos ao mesmo tempo, o cérebro de Hikari não conseguiria processar. Alternando as câmeras enquanto procurava ao redor, ela buscou a figura do tio que havia perdido de vista ao cruzar o portão, e então ――?

(――Gyaah!?)

Os olhos se encontraram, e ela acabou soltando um grito estranho sem querer.

No instante em que ela alternou a visão para um dos drones, a figura de Satou, que olhava para cima naquela direção com a testa franzida, apareceu na tela.

Talvez por ter tirado os óculos, ele estava com uma expressão um tanto intimidadora. Ela não sabia dizer se ele a havia detectado ou não, mas ele fez uma sombra sobre os olhos com a mão e os apertou, como se estivesse procurando por algo.

Tive a sensação de sentir um olhar... será que é impressão minha?

(Puta merdddaaaa!! Por pouco eu não soltei um grito de verdade!! Que tipo de sentidos são esses que você tem, tio!?)

Cobrindo a boca com as duas mãos, ela continuou escondida nas sombras.

Satou estava muito perto de onde Hikari se escondia, praticamente logo do outro lado daquele obstáculo.

......Sinto uma presença, mas ao mesmo tempo parece não ter nada. ......Ué......?

Sniff, sniff, Satou cheirou o ar.

Não tem cheiro. Nem mudança de temperatura, nem figura...... e ainda assim, sinto que estou sendo observado......?

(Como eu ia dizendo, que raios de sentidos você tem!? A minha skill tá funcionando, mas você ainda tá me detectando!?)

Apesar de confuso, Satou esticou o taco de beisebol e começou a sondar, cutucando o espaço vazio.

Hikari apenas se encolheu. Mesmo sabendo que estava perfeitamente oculta pela skill, prendeu a respiração e ficou paralisada. Ela teve um péssimo pressentimento de que, se movesse um músculo sequer, seria descoberta na hora.

―― Munyu. (Aperto macio)

Ué? Essa parede...... é macia

(Nyaaaaaaaaaaaaa!!)

O taco de Satou, que tateava os arredores, acabou acertando o peito de Hikari, que estava escondida.

Não foi forte. Também não doeu. O taco apenas afundou levemente num ponto sensível, brincando e apertando (guni-guni) como se estivesse sondando o local.

A voz quase saiu, mas ela engoliu. A vergonha e o desejo obstinado de não ser descoberta entraram num conflito terrível, e então......!

(Migyaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa~~~~~~!!)

Apenas um grito desesperado ecoando dentro da própria mente.

Ignorando Hikari, que continuava escondida e ficando vermelha até as orelhas, Satou, que não fazia ideia da presença dela, tentava investigar detalhadamente aquela parede suspeita e, mesmo cauteloso, pressionou o taco com um pouco mais de força.

Essa textura...... Um Slime com skill de ocultação? Um monstro que eu não conheço, é um tipo Raro?

(Isso é o meu peito, tioooooooooo!!)

Satou murmurou aquilo com uma cara extremamente séria, e Hikari retrucou mentalmente sem soltar a voz. Foi exatamente nesse momento.

 

―― Jiriririririririririririri............!!

 

Ultrapassando até mesmo os limites da área de restrição de nível, o som estridente de um Alarme de emergência ecoou pelo local.

 


 

​❼ À Beira d’Água e num Grande Aperto

 

Ponto intermediário do Setor Lv 75~145 na Dungeon de Shinjuku Kabukichou.

Transmissão ao vivo de Siren / DOOM ProductionOficial】〟

A maior empresa da indústria de transmissões de conquista, a galinha dos ovos de ouro da DOOM Pro.

Em suas transmissões regulares, que continuam desde a sua estreia com intervalos de um a dois dias, ela reúne mais de vinte mil fãs a cada live. Graças à sua beleza e às batalhas de ação usando skills poderosas, ela ostenta uma popularidade esmagadora.

A cada transmissão, os Super Chats arrecadados beiram a casa dos sete dígitos (milhões de ienes). Uma verdadeira Top Idol da era moderna. Ela era, sem dúvida, o maior nome entre os aventureiros conhecidos como a “Galera da Dungeon de Shinjuku”.

Nessa Live, um alarme metálico ecoou de forma estridente.

Armadilha!? Por que, por queeeeee!?

Em seguida, um grito agudo, límpido e belo começou a ser reproduzido nos smartphones e PCs dos espectadores.

Os drones de câmera para a transmissão e as múltiplas câmeras escolhiam os melhores ângulos de imagem e gravavam o rosto choroso da Top Streamer.

Esses não eram itens invocados por skills, mas sim Itens Mágicos dedicados, os queridinhos dos profissionais. Atuando de forma autônoma através de uma IA interna, eles colocavam mosaicos em imagens perigosas e mantinham a câmera rodando o tempo todo.

Ferrou, Siren! A gente já tem o maior trabalho com um desses sozinho......!

Quantos tem aquiiii~!? Ferrou, a gente vai morrer, vai morrerrrr!!

A bela streamer, Siren. Uma “Princesa Prateada” vestida com uma armadura parecida com a de um RPG de fantasia; no centro, ela e dois companheiros preparavam suas respectivas armas.

Os três encurralados, e os monstros que os cercavam eram――!

Gekoh

Gekogekogeko

Gekogekogekogekogerogeh~~~~~~!!

 

O saa~poo~ estááá~ che~gaaan~dooo~... é essa a sensação, agora!

É hora de cantar!? Quer dizer......

Por que raios apareceramDiamond(Sapo Gigante de) Frogs(Diamante)~!?

Sapos gigantes, do tamanho de touros ferozes, com uma pele que parecia uma joia transparente.

Eles atacavam os aventureiros em bando com uma durabilidade e peso esmagadores. Originalmente, eles não deveriam aparecer na área onde Siren e seu grupo estavam. Eles estavam no ponto intermediário entre o Setor Lv 75 da camada média e a camada profunda, no meio da exploração da Área de Conexão Hub.

Um ponto de junção onde vários territórios se conectam, um espaço onde portões estão espalhados. Quer estivessem caçando de forma leve usando aquele lugar como base, ou tivessem a intenção de avançar ainda mais fundo a partir dali, os planos já tinham ido para os ares por causa do baú do tesouro caído aos pés dos três streamers.

 

Pão de Melão Sem Nome Pisaram numa armadilha? Mas por que diabos tinha um baú caído ali?

Sui-chan LOVE Quer dizer, baú do tesouro, o quê? Tem item dentro, é isso?

Kazu Não sabe de nada nem um milímetro. Se não assiste às transmissões não tem como saber, mas de vez em quando um monstro dropa um.

Sui-chan LOVE Eu só assisto a Sui-chan, afinal. Balançou o pei

Sui-chan LOVE (Este comentário foi apagado automaticamente pela IA de moderação)

Enquanto os comentários da multidão rolavam, a câmera focou no baú do tesouro.

O interior estava vazio. É um consenso nas dungeons do mundo todo desde o início do Desastre da Dungeon, que monstros derrotados dropam moedas de ouro, itens ou materiais exclusivos, e em uma probabilidade ainda menor, às vezes dropam um baú do tesouro.

O que tem dentro varia. Pode ser moedas de ouro, itens ou materiais.

Em comum, a qualidade do conteúdo é sempre superior à do monstro que derrubou o baú. Raramente, diz-se que é possível até mesmo obter uma Unique Skill com propriedades inigualáveis, o que o torna uma chance de enriquecer da noite para o dia――.

 

Karasumo Baús são basicamente gostosos lucrativos. Dá pra sentir que vem material ou arma de um rank acima do local onde apareceu.

Kyle Se não tiver alguém com skill da classe Ladrão na party, a coisa aperta, as armadilhas são fodas.

Kazu Mesmo tendo um, às vezes eles erram, né.

Karasumo Se tirar a pior sorte, rola morte instantânea ou algo do tipo. Um alarme até que é uma das coisas mais de boa, mas logo numa Área de Conexão(Hub)...

 

Sem exceção, baús de tesouro possuem armadilhas cruéis para proteger o conteúdo.

Desde mecanismos de defesa simples como explosões e gás venenoso, até maldições que destroem equipamentos ou reduzem a vida. O alarme é uma das armadilhas mais ortodoxas.

O efeito é simples ―― através de um barulho estrondoso, ele reúne monstros das áreas ao redor.

Naturalmente, em condições normais, apenas os monstros que habitam aquela área específica apareceriam. Mas, ali, num ponto de conexão Hub de áreas que se estende por vários territórios, existe uma exceção à regra.

 

Pão de Melão Sem Nome Isso tá bem ruim, né? Melhor ligar pra emergência?

Ladrão Oshi (Fã) O ponto aqui é camada média, mas o limite é com a camada profunda, é por isso que tá saindo sapo da profunda.

Sábio da Floresta Se o alarme tocar num Area Hub, vai brotar monstro da média ou da profunda de qualquer jeito, é uma dica de conhecimento inútil.

Fenda da Bruxa é a Melhor Sério isso? É um jogo de azar total, então.

PP Aventureiros dão respawn mesmo se morrerem, não é? Então tá de boa.

Sui-chan LOVE Pelo contrário, eu quero ver a Siren-chan sendo violentada pelo sapo.

Kyle →Sr. IA, dê BAN nesse cara, por favor.

 

Vocês falam cada merda livremente aí~~~~!!

Os streamers conseguem ver os comentários postados pelos espectadores.

Lendo as pequenas mensagens exibidas no canto do campo de visão, responder ou interagir com elas para se comunicar com os espectadores é o ponto-chave para aumentar a audiência simultânea, mas mesmo nessa situação de carnificina, Siren continuava fazendo isso.

Eu vou sobreviver antes de morrer!! ―― Doryaaa!!

Com um grito cheio de energia, ela pisoteou e esmagou o baú do tesouro que continuava tocando o alarme com a sola da bota.

 

Karasumo Evasão estilo gorila kkkkk. A Sui-chan às vezes é mó violenta, né.

Kyle Escapou do perigo com essa?

Pão de Melão Sem Nome Não, impossível. Parar o alarme não faz os inimigos sumirem.

Kazu Acho que essa dá 1 morte na certa, hein. Lembrancinha de melhoras~ 30000

 

Como o comentário disse, o alarme parou.

No entanto, os sapos gigantes coaxavam gekogeko, espiando as garotas que agora consideravam como presas, com seus olhos redondos.

Obrigada pelas condolências(doação), mas eu tô vendo, tá! Eu tô vendo esse comentário e nós não vamos morrer, tá bom!?

Não é hora de ficar respondendo o chat! Ferrou de vez, para com iss—Gyaaa!?

Ah, ela foi engolida!! Seu desgraçado, cospe, cospe, cospeee!!

No momento em que Siren reagiu ao Super Chat enviado com o comentário, o sapo se moveu.

Abrindo a boca enorme, ele esticou a língua e engoliu uma das companheiras.

Agarrada pela cintura fina, ela foi puxada junto com a mochila grande que carregava nas costas, sendo engolida quase pela metade pela boca do sapo gigante.

Siren não forma parties com membros fixos.

Ela atua fazendo collabs ativamente com outros streamers, ou adicionando aventureiros registrados na agência como suporte para a equipe, trocando quase todos os membros a cada vez.

Uma composição para não entediar os espectadores ―― mas agora isso se virou contra ela. A integrante que estava quase sendo engolida atuava como a classe Ladrão, focada em habilidades de exploração, e sua capacidade de combate era bastante pobre.

Seu desgraçado! Desgraçadoooooo!! ......Não dá, ele não se mexe, sério isso!?

A outra garota, que foi ajudar a Ladra, era uma guerreira com armadura pesada. Apesar de ser uma lutadora experiente, que ficou no Top 4 do torneio nacional de karatê sendo uma colegial ativa, a afinidade dela contra o sapo, que possui alta resistência a ataques físicos, era péssima demais.

Ativando Main Skill Magia de Água SSS―― Megaton Pump!!

Para salvar a companheira que estava quase sendo engolida, Siren gritou.

Uma aura pálida subiu na palma de sua mão levantada. A magia foi convertida em água, atingindo o sapo como uma torrente extremamente grossa.

Uma pressão de água absurda que beirava um máximo instantâneo de cinco toneladas. A poderosa magia de ataque com atributo de água, que converte a enorme massa de água em poder destrutivo, possui força para perfurar e destruir facilmente até mesmo uma parede grossa de concreto. No entanto――.

 

Gekogekogekogekogeko

Uwaa, ele tá de boa~~~~!?

 

Água na cara de sapo, literalmente. Siren gritou para o sapo que coaxava de forma relaxada, ainda segurando a companheira na boca.

 

Kyle Não foi muito efetivo... parece!

Pão de Melão Sem Nome Pô, é um sapo, é tipo água. Magia de água não vai dar dano em tipo água, né.

Gato do Balde Quando eles mataram um antes, não foi spamando debuff de ataque pra anular o bicho? Demoraram umas três horas pra raspar o HP dele, e ficaram sem ar no meio, mas conseguiram no sufoco.

 

Para a Siren, que tem como trunfo sua Main Skill de rank máximo Magia de Água SSS, eles eram inimigos naturais.

Uma parede da camada profunda que ostenta resistência avassaladora a magia de água e ataques físicos; os monstros Diamond(Sapo Gigante de) Frogs(Diamante). Como se tivessem certeza da superioridade do seu bando, eles se aproximavam passo a passo, tentando devorar as garotas.

A beleza marcante e o rosto maneiro de Siren tremeram de pavor.

O chat pegou fogo. Os espectadores não são apenas fãs torcendo de forma pura ―― também espreitam por lá aqueles que se deliciam com a queda das garotas, com as mortes inerentes às dungeons, com sacrifícios e sofrimento.

Gekoh!!

.........!!

O sapo saltou e seu corpo gigantesco choveu sobre Siren.

Um Body Press (Esmagamento Corporal) mortal com um peso super-pesado mais do que suficiente para esmagar o corpo inteiro da garota, cujo corpo já estava semiparalisado de medo.

Foi no exato momento em que ela se preparou para a morte pela enésima vez ――.

 

―― Kakkii~~~~~~~n!!

 

Um som agradável ecoou, e o sapo voou pelos ares.

Hã?

Eh?

Mu~~~~~!?

 

Siren, sem conseguir processar o que acabara de acontecer. A Ladra que mal havia sido resgatada de quase ser engolida, e a Guerreira que a puxou pelas pernas como se arrancasse um rabanete gigante do chão, levantaram vozes atônitas uma após a outra.

O taco de metal que acaba de mandar o sapo para longe brilhava com uma cor dourada opaca. O drone de câmera focou num homem que havia se intrometido em super-velocidade, e as costas de uma camisa suada dominaram a tela.

Tá atrapalhando.

As breves palavras ecoaram de forma estranha, metálicas, processadas a ponto de não dar para distinguir o gênero.

E mesmo quando ele virou o rosto, não deu para ver nada. O rosto de um aventureiro não autorizado na transmissão recebe automaticamente um mosaico, então não há como os espectadores verem o rosto dele, e não havia pistas para descobrir a sua verdadeira identidade...... no entanto.

 

Vazamento de Informações Esse cara, não é aquele? Terno, taco de beisebol...... não pode ser.

Baladeiro Ligeiramente Ácido É ele mesmo, o cara que viralizou ontem!

 

―― Um novato (Rookie) que virou o assunto do momento no mundo das streams.

Uma individualidade esmagadora que torna qualquer mosaico ou alteração de voz sem sentido. Qualquer um saberia quem é depois de ver uma única vez ――.

 

Pão de Melão Sem Nome Não é o Shinjuku Bat!?

 

Logo em seguida, gritos de alegria e espanto, aprovação e críticas; todo tipo de comentário se transformou numa barragem de texto que soterrou a tela da transmissão.

 




Voltar|Menu Inicial|Proxima


 

Comentários