Capítulo 1: A Vida de um Oji-san Sem Destaque

❶ O Cotidiano de um Salaryman

Ano de 2025, em algum lugar de Tóquio, Departamento de Vendas da Editora Bouken.

“Satou Keita”

O mundo parece ser meio falho, mas na verdade é bizarramente bem estruturado.

Por exemplo, o sistema de saúde. O valor mensal do seguro é absurdamente alto, e eu me sinto um idiota por pagar tudo quietinho.

Porém, na hora em que você fica doente e precisa ser examinado por um médico, tanto os ricos quanto os pobres são chamados em uma ordem parecida, recebem o mesmo tratamento e, além disso, a conta sai de forma bem barata e te deixa aliviado...

(No fim das contas, isso aqui(trabalho) também deve ser a mesma coisa)

O trabalho diário é um porre. É doloroso, sufocante, acumula estresse e o salário não compensa.

Mas, enquanto você se mantiver embarcado nesse sistema, dá para ir vivendo de alguma forma, e se você pular fora, outras dores de cabeça e ansiedades vão desabar com tudo em cima de você, então, no final das contas, deve dar na mesma.

Noite. Em um canto de um prédio comercial alugado, na extremidade de um local de trabalho que não é amplo, nem limpo, e muito menos elegante.

Em uma mesa cercada por itens voltados para pessoas de gostos peculiares — como materiais impressos em mídia física nos dias de hoje, produtos promocionais e amostras de brindes —, Satou Keita passava os poucos minutos que faltavam até o fim do expediente enquanto pensava nessas bobagens.

(Dizem que “de barriga vazia não se vai à guerra”, mas...)

Se isso vale para os samurais, para um salaryman a história é bem parecida.

Se fosse um jovem, talvez conseguisse compensar isso com paixão ou força de vontade, mas um homem que completa quarenta e um anos este ano já não tem mais esse tipo de energia sobrando. Até por conta do terno de tamanho folgado, ele parecia flácido e derretido como um sorvete de casquinha.

Ele é alto. Também não é gordo. O cabelo é perfeitamente dividido na proporção sete por três, e ele tem uma aparência limpa, sem barba por fazer.

Também usa óculos. Ele costuma parecer e ser visto como um burocrata de baixo escalão, um homem excessivamente sério e inflexível ―― mas seus olhos turvos por trás das lentes clamavam de forma franca: “Que saco”.

(A culpa é dos vizinhos, do departamento editorial)

Tem cheiro de comida chinesa barata. E é um cheiro que está impregnando tudo.

Vem do outro lado da divisória vizinha, separada apenas por uma parede que serve de divisória. Óleo de gergelim torrado e alho, delivery da vizinhança, um prato feito de gyoza. Nesse horário pouco antes do jantar e logo antes do fim do expediente, isso beira a tortura, estimulando o apetite de um jeito insuportável.

Aqui, a Editora Bouken é uma editora de médio porte. O tamanho do escritório em si é pequeno, mas eles publicam uma revista semanal própria e lançam desde light novels até mangás. Satou era do departamento de vendas, um funcionário comum.

(De qualquer forma, eu não tenho chance nenhuma de promoção, não teria problema se eu queimasse a largada e fosse embora mais cedo, né?)

Satou sentia que aqueles poucos minutos que faltavam até poder bater o ponto no horário eram tão longos que davam para refletir sobre metade da sua vida.

Satou não era de forma alguma incompetente. Nos dias de hoje, com a recessão atingindo o seu auge, o motivo de ele ter conseguido se agarrar à empresa até passar dos quarenta anos sem virar alvo de demissões em massa, foi puramente porque ele conseguia fazer o seu trabalho de um jeito “mais ou menos”.

Não é que ele fosse incrivelmente bom. Era apenas, estritamente, “mais ou menos”.

Desde o trabalho de vendas passando pelas livrarias, ajudando no serviço interno de escritório, até o entretenimento de autores e o planejamento de campanhas promocionais; por serem uma empresa de pequeno e médio porte, os trabalhos chegavam de forma caótica, mas, em termos de taxa de conclusão, ele finalizava tudo sempre com um B.

Não era o D de “Vamos nos esforçar mais”, nem o A de “Muito bem”. Era um B.

Provavelmente por isso, quer um chefe que tirava um S de conclusão com facilidade subisse na vida conseguindo uma transferência com promoção ou um novo emprego de sucesso, quer um colega com D de conclusão acabasse adoecendo do corpo e da mente, ele continuou vivendo de forma evasiva, permanecendo exatamente o mesmo.

Não tem nenhuma paixão especial pelo trabalho. Ele separa as coisas, encarando estritamente como negócios. É um salaryman extremamente comum, que tem como diversão um hobby modesto, as refeições diárias e uma bebedeira de vez em quando.

(No passado, houve uma época em que eu desejei uma transferência para o departamento editorial, mas...)

Na época em que ele entrou na empresa como recém-formado, romances e mangás de fantasia eram incrivelmente populares, vendendo como água.

Logo depois que entrei na empresa, o salário também era alto, e eu fiquei aliviado por ter conseguido emprego numa empresa tão boa, porém ――

(Eu mesmo me dou vontade de socar a minha própria cara por ter sido tão ingênuo)

Uma tempestade de excesso de trabalho, excesso de trabalho e mais excesso de trabalho para conseguir lucrar pegando carona no boom.

Se a empresa de hoje continua existindo, é em grande parte graças à imagem de marca construída após muitos sacrifícios, onde os chefes da época trabalharam até a exaustão e sacrificaram os subordinados que haviam se transformado em escravos corporativos.

Qualquer ingenuidade ou sonho em relação ao trabalho foi completamente pulverizado. Olhando agora, que as coisas estão bem mais tranquilas de longe, foi um trabalho escravo tão absurdo que nem dá pra imaginar. Hoje em dia, isso já virou uma “história sombria” completa.

Click, o ponteiro do relógio avança. Faltava um minuto para o fim do expediente.

(O jantar vai ser gyoza. Dois pratos de gyoza e arroz, com meia porção de mabo tofu ou fígado com cebolinha ――)

O trabalho já não importava mais. Naquele exato momento em que ele preenchia a cabeça com o menu do jantar.

―― Hã!? Cancelamento de última hora na programação do evento!?

Da mesa da chefe, um pouco mais afastada, soou uma voz que ele não podia simplesmente ignorar.

(Ah, tenha santa paciência...)

Faltava só um minuto. Se atrasasse só mais um pouquinho, ele já teria ido embora.

O pior momento possível ―― e, por já ter ouvido, ele não podia simplesmente levantar da mesa e ir embora. Então, enviou um olhar de relance.

A chefe. Um pouco mais nova que o Satou, ele não sabe a idade exata, mas está na segunda metade dos trinta. Uma mulher que mudou de emprego vindo de outra empresa do mesmo ramo há alguns anos e rapidamente foi promovida a Chefe de Vendas. Ele se lembra de ela ser solteira.

Mas nós organizamos o orçamento com a premissa de que os bilhetes de sorteio pro evento do Very Good estariam inclusos, sabia!?

Ainda assim, não lhe importava se ela era solteira ou não. Se o subordinado demonstrasse interesse na vida privada da chefe, seria o primeiro passo para o assédio sexual. Era mais fácil desencanar e dizer que não tinha absolutamente nada a ver com ela, do que assumir riscos desnecessários.

Nós já fizemos todo o trabalho de campo nas livrarias, um cancelamento agora seria impossível... hã!?

(......Então ferrou mesmo, né?)

Enquanto ele pensava nessas coisas como forma de fugir da realidade, a conversa da chefe, que ainda continuava, terminou de forma abrupta com a outra pessoa desligando o telefone na cara dela.

O tempo, infelizmente, não para. Ele só tinha premonições de problema. Só de imaginar dava preguiça, mas nada mudaria se ele fugisse. Ou seja, aceitar as coisas ali mesmo ainda renderia menos prejuízo.

MERDA!!

Paaan, olhando de lado para a chefe que bateu o telefone com força, o Satou começou a organizar as informações.

(Very Good...... Um grupo de streamers(Dungeon ) de exploração(Liv) de labirinto(ers) de garotos bonitos que é popular entre os jovens)

O grande desastre mundial que ocorreu há exatos dezoito anos, logo após o Satou entrar na empresa.

Uma profissão que surgiu após o aparecimento das chamadas “Dungeons”. Distribuir vídeos se aventurando dentro de Dungeons, entretendo os espectadores e ficando famoso ―― uma profissão da qual o Satou não conseguia entender absolutamente nada da graça, mas...

(Ter que me envolver com isso obrigatoriamente por causa do trabalho é um porre)

No momento em que deixou de conseguir entender a cultura dos jovens, Satou provavelmente se tornou um “ossan” completo.

(O líder do Very Good já causou flamewars nas redes sociais várias vezes, né. Será que fez merda de novo?)

Satou não usa redes sociais. Ele genuinamente pensa: de que adianta ficar transmitindo o diário de um ossan para o mundo inteiro? Mesmo ouvindo falar de coisas como flamewars ou ser “cancelado” na internet, era difícil de entender, mas ele também já tinha separado as coisas e aceitado que é assim que funciona.

 

O ano é 2025 d.C. O mundo vive literalmente na Era das Grandes Aventuras――.

O desastre dos labirintos que ocorreu há dezoito anos; o que restou depois que o choque do surgimento simultâneo das Dungeons em todo o mundo diminuiu, foi um avanço avassalador que deveria ser chamado de revolução.

(O renascimento da magia. O “level up” das pessoas, o fenômeno da super-humanização)

Monstros que brotam infinitamente de espaços de outras dimensões chamados de Dungeons.

Criaturas que se assemelham de alguma forma aos seres vivos da Terra, ou que não se parecem com absolutamente nada, ou coisas que só podem ser consideradas humanas. Ao lutar contra esses misteriosos invasores de diversas formas e vencer, as pessoas obtiveram novos poderes.

Habilidades físicas sobre-humanas parecidas com a dos super-heróis dos quadrinhos. O poder psíquico de causar livremente fenômenos paranormais que parecem ignorar as leis da física ―― habilidades especiais chamadas de Magia e Skills.

Recursos, tecnologia e Itens Mágicos obtidos ao derrotar monstros nas Dungeons. As pessoas, tendo vislumbres desses benefícios colossais, começaram a desafiar as Dungeons de forma fervorosa.

(Parece que no mundo todo, a maioria dos países queria regulamentar essa super-humanização... a transformação em Aventureiros)

O que é natural, por assim dizer. O sistema da sociedade moderna é baseado no senso comum de um ser humano comum.

E se as pessoas se tornassem super-humanas e aumentasse o número daqueles que obtivessem um poder com o qual nem a polícia conseguiria lidar? As leis que servem como força de dissuasão, a manutenção da ordem pública e o monopólio do poder militar que são a base disso entrariam em colapso, abalando os próprios alicerces da nação.

Por isso, em muitos países, foi estipulado que apenas militares, policiais ou Aventureiros que possuem licença ganhariam o direito de desafiar as Dungeons, e isso não é exceção aqui no Japão.

(Apesar disso, parece que dá um bom dinheiro, né...)

O risco de vida existe. A bem da verdade, a exploração de Dungeons é algo próximo aos caçadores ou mineiros da antiguidade.

Diz-se que, no passado, as pessoas arriscavam suas vidas para caçar feras, ou mineravam recursos apenas com os próprios corpos enquanto se expunham a perigos de desmoronamentos, gases tóxicos e inundações, obtendo grandes recompensas em troca disso.

Os super-humanos da sociedade moderna... os Aventureiros, desafiam os labirintos no lugar de minas, e ao derrotar monstros, elevam suas próprias habilidades enquanto trazem os recursos obtidos de volta; eles são os caçadores e os heróis da era moderna.

Uma recompensa colossal que nem sente os ventos de coisas como a recessão. Uma emoção eletrizante, um poder sobre-humano.

É natural que a geração mais jovem seja obcecada pelos Aventureiros, e hoje em dia, a geração que já nasceu com as Dungeons existindo — os nativos das Dungeons — chegaram ao ponto de consumir a aventura como mero entretenimento.

(E por causa disso, tanto nas redes sociais quanto nos sites de vídeo, o conteúdo principal são as transmissões de aventuras. E os streamers de labirinto que fornecem isso se tornaram o alvo de admiração dos jovens, como os grandes astros, as celebridades ou atletas do passado. ......Ou pelo menos, é o que dizem)

As publicações da Editora Bouken, onde Satou trabalha, também são todas focadas em pegar carona no apelo comercial dessas estrelas.

As vendas das light novels e mangás com as quais eles trabalhavam no passado despencaram drasticamente. Para sobreviver, a empresa se aproximou dos streamers de labirinto populares, e agora publicam livros escritos por eles, álbuns de fotos, artigos de fofoca, produtos oficiais ―― bom, é esse o tipo de coisa que eles vendem.

(Não entendo nem um milímetro do porquê isso é bom. O que é isso?)

Stands de acrílico de garotos bonitos fazendo pose, bonecos de pelúcia... que eles chamam de nui.

Ele até conseguia entender como um mero conhecimento técnico o fenômeno que os jovens chamam de “oshi-katsu” (apoiar/idolatrar ativamente seus favoritos), mas a compreensão não vinha acompanhada de convencimento nenhum.

(Não tenho confiança de que estou conseguindo contribuir com a empresa. Mas... bem, de alguma forma eu estou conseguindo levar, então deve estar tudo bem)

Pensando dessa forma, ele colocou o PC para suspender.

Os ponteiros do relógio já haviam passado do horário de fim do expediente, e ele não tinha mais nenhum trabalho que precisasse fazer agora.

E quanto ao problema que ele acabou ouvindo de tabela, o responsável não era ele, e sim um colega de trabalho do mesmo departamento ――.

Bom, então, bom trabalho a todos

Espera um pouco, Satou. Você tá pensando em ir embora?

Sim, bem. O trabalho do qual estou encarregado já terminou, e já deu a hora, então...

Quando o Satou fez uma cara que praticamente dizia “E tem algum problema?”, a chefe franziu as sobrancelhas com uma expressão de mau humor.

Você ouviu, não ouviu? O líder do Very Good, o Potato, causou uma flamewar na internet de novo.

Hã.

Isso me dá um mau pressentimento”, pensou Satou.

Se fosse apenas uma reclamação comum da chefe, terminaria se ele a acompanhasse por alguns minutos, mas...

Graças àquele moleque de merda, nós vamos ter que fazer uma ronda pedindo desculpas para todas as partes envolvidas. A nossa programação foi pro saco.

O responsável era a Ukai, não era?

Sim. Mas está faltando gente, então você vai ajudar também.

―― Lá vem.

Diante do desenrolar exatamente como esperado, Satou deixa os ombros caírem internamente.

O departamento de vendas da Editora Bouken é formado por um pequeno grupo de elite, ou melhor, condizente com o tamanho minúsculo da empresa, atualmente eles são apenas três pessoas.

(Nós conseguimos os anunciantes bem naquela vibe de “Atenção em alta com artigos relacionados ao famoso streamer!”, né...)

Satou também se lembrava de ter feito algumas vendas comerciais assim.

Do ponto de vista dos anunciantes, eles pagaram o dinheiro mas não vão obter o efeito esperado, então é natural que fiquem putos da vida.

N-Não, isso já é demais!

Do lado do Satou, que pensava dessa forma, uma voz em pânico o interrompeu.

Essa parte é da minha responsabilidade, eu não posso envolver o meu senpai nisso...!


Uma funcionária que se levantou empurrando a cadeira para trás. Aquele traje social bem ajustado combinava perfeitamente com palavras como asseio e integridade. Os seios, tão fartos a ponto de serem desproporcionais ao seu corpo magro, eram um veneno para os olhos.

(Opa, não pode, isso vira assédio sexual. Eu não quero ser processado nem ferrando)

Ao desviar o olhar que estava prestes a se fixar em uma área sensível, ele viu a mesa dela ―― a mesa de Ukai Madoka.

Um energético bebido pela metade.

Um onigiri de loja de conveniência com apenas uma mordida; provavelmente aquele seria o seu jantar.

(Não tem tempo nem para comer... ou melhor, parece mais que ela tá sem apetite mesmo)

Ukai está no seu segundo ano após a formatura, o que a torna uma kouhai (subordinada/júnior) para o Satou, mas ela é uma funcionária efetiva.

Apesar de ter pouca experiência, ela foi encarregada dos assuntos relacionados aos streamers de labirinto sob a justificativa de que, por pertencer à mesma geração dos Nativos das Dungeons, a comunicação fluiria melhor, e ela carrega muito mais as expectativas da chefe do que o Satou, que é um funcionário raso e estagnado para sempre.

O cancelamento repentino de publicidade devido a uma flamewar. Quem está errado é o streamer que causou a confusão, e a Ukai não tem culpa de nada.

Ver a figura da garota que, com o cabelo bagunçado e os olhos marejados de lágrimas, parecia estar tão angustiada a ponto de não conseguir sequer engolir a comida, fez o peito dele doer.

(Esse tipo de gente, gente que não foge)

Pelo que o Satou sabe, quando a situação vira um inferno, são os primeiros a ――

(Adoecerem na mente e pedirem demissão. ......Eu já vi muitas pessoas assim)

Ao lembrar dos inúmeros sacrifícios causados pelo trabalho escravo que ele mesmo já havia vivenciado no passado, não havia a menor chance de que ele pudesse simplesmente ir embora para casa deixando as coisas daquele jeito.

Entendido. Vou entrar como suporte.

S-Senpai...! Me desculpe, me desculpe!

Não se preocupe. Se fizermos em dois, podemos dividir o fardo.

Diante do Satou que havia desistido de se preparar para ir embora, Ukai abaixou a cabeça repetidas vezes, no entanto.

Isso, isso, assim que se faz.

Comparada à kouhai honesta, a chefe calejada não tinha nada de adorável.

Sem demonstrar nenhuma reserva em relação ao Satou, que era mais velho que ela, a chefe continuou falando com um tom levemente sarcástico.

Afinal, você é um velho encostado que normalmente só faz o trabalho que mandam. Deixe que ele pelo menos faça o trabalho de abaixar a cabeça e pedir desculpas.

Chefe, isso não seria power harassment (assédio moral)?

Pelo menos memorize o rosto e o nome dos streamers famosos antes de falar isso. É negligência da sua parte.

Ah. É que, para mim, os jovens parecem quase todos iguais.

É por causa disso que... Seja um pouco mais firme, você é o meu senpai, não é?

Mesmo com o tom de voz sarcástico da chefe, Satou não se abalou nem um pouco.

(Afinal, é um fato que eu não entendo do assunto)

Se você admite isso para si mesmo, não tem motivos para ficar irritado. Ao ver Satou retornar para sua mesa com toda a calma do mundo, Ukai, pelo contrário, sentiu-se constrangida.

V-Você não precisava falar desse jeito com ele...

Eu não me importo com isso.

Parando de forma seca a Ukai, que tentava forçar um apoio para defendê-lo, Satou continuou:

É um fato que a Ukai-san contribui muito mais para as vendas da empresa do que eu.

Ficar ouvindo as pessoas diminuírem você irrita, mas quando é você mesmo quem se rebaixa, não é algo tão ruim assim.

Se uma mera dogeza servir para ajudar, é um preço bem barato a se pagar.

?

Dando um sorriso gentil, Satou levantou o dedo indicador da mão direita, como se estivesse contando.

Ukai, que olhava fixamente para ele com uma expressão de culpa, notou rapidamente aquele gesto sutil e fez uma cara de confusão, mas, talvez achando que não era hora para focar naquilo, logo abaixou a cabeça profundamente.

Muito obrigada! Ah, e eu que vou fazer o dogeza, então está tudo bem!

É brincadeira. Hoje em dia, não existem tantos clientes tão problemáticos a ponto de obrigarem a outra pessoa a fazer dogeza.

Se fosse na época da Era Showa, tudo bem, mas estamos na Era Reiwa.

Um cenário onde você encurrala o seu parceiro de negócios, pisa na dignidade dele e, no fim, acaba sendo exposto na internet e sofrendo uma flamewar colossal... está sujeito a acontecer em qualquer lugar. Os homens de negócios de hoje em dia não correm esse tipo de risco.

Levante a cabeça, por favor. É o nosso trabalho.

Satou indicou com a mão, sem tocá-la diretamente, e fez com que Ukai levantasse o rosto.

Vamos começar. Você tem a lista de anunciantes e parceiros de negócios que podem estar envolvidos?

Sim, hã, vou pegar agora mesmo!

Ukai revirava a mesa às pressas e em pânico. Em seguida, Satou começou a pensar em medidas para contornar a situação.

Depois disso, o assunto sobre o dedo indicador que Satou havia levantado não surgiu na conversa dos dois.

 

(...... 1)

 

Satou, fez a contagem.

Algo que moveria a história estava, silenciosamente, se acumulando dentro do homem.

 

 


 

❷ O Oji-san e a Sobrinha

 

Em algum lugar de Tóquio, próximo à estação mais próxima da Editora Bouken.

“Satou Keita”

 

Devo me alegrar por ter terminado inesperadamente cedo?

Saindo do velho edifício comercial que abrigava o escritório da Editora Bouken e caminhando silenciosamente em direção à estação.

Ou devo amaldiçoar o fato de ter sido forçado a fazer hora extra até às nove e meia... eis a questão.

Satou Keita olhou para o relógio de pulso levemente caro que o acompanhava em suas vendas e conferiu a hora atual.

Ukai, que é a encarregada oficial, ainda não havia ido embora. Ela tinha dito que passaria a noite no escritório hoje, e embora ele tivesse assumido metade do trabalho, Satou, que desde o início não tinha nenhuma responsabilidade naquilo, não poderia fazer muita coisa mesmo se ficasse.

Seu estômago já havia passado do limite e agora entrava na fase de calmaria.

Ele estava com fome, mas não sabia dizer se estava sem apetite ou se a sensação de fome havia se transformado em uma espécie de torção; a vontade de comer gyoza que o dominava perto do fim do expediente havia desaparecido completamente enquanto era bombardeado pela tarefa de pedir desculpas às partes envolvidas.

(Já que estou com fome, o que devo comer? Engulo qualquer comida rápida que combine com meu humor, ou... decido chutar o balde e ter uma refeição luxuosa?)

Era o centro de Tóquio. As noites eram claras e havia muitos estabelecimentos comerciais ao redor. Enquanto caminhava lentamente até chegar à estação mais próxima, apinhada de restaurantes, pensando no que comeria, seus olhos sentiram um repentino ofuscamento.

 

―― A única flor à beira d’água

Da agência BZK Livers de Dungeon Oficiais da Associação de Aventureiros do Japão, eu sou a Siren!

 

Em um enorme monitor instalado num prédio vizinho, o rosto de uma garota perfeitamente maquiado era exibido em proporções gigantescas.

Enquanto olhava para cima, iluminado por uma forte luz de fundo, a garota virou-se no vídeo e saltou em direção a um mundo vasto. Um céu de cor vermelha e negra misteriosa, escombros de edifícios modernos e máquinas――

(Dungeon de Kabukicho, em Shinjuku. Nas Camadas Rasas, não é?)

Uma lei sobre labirintos deduzida empiricamente pelos aventureiros desde o desastre das Dungeons há dezoito anos.

A regra que indica o tamanho e o nível de dificuldade do labirinto, a Profundidade(Level).

Se considerarmos a força de uma pessoa comum recém-despertada como 1, diz-se que o nível serve como um guia. Enquanto uma pequena Dungeon do interior possui cerca de 10 a 50 Níveis de profundidade, quando se trata da Dungeon de Kabukicho em Shinjuku ―― que tomou conta bem no meio de Tóquio ―― sua escala é uma das maiores do mundo, abrigando até o Nível 200.

O início dela, compreendendo mais ou menos os Níveis 10 a 50, é chamado de Camada Rasa. As áreas urbanas antigas e novas de Shinjuku que foram engolidas pela Dungeon são as partes principais. Sendo um local que fica na superfície, mas que ainda assim possui o espaço distorcido, diz-se que ultrapassar essa linha é o que separa os profissionais dos amadores.

(Como esperado, um vídeo promocional patrocinado por uma grande empresa é bem feito e custa caro)

Diferente das gravações que poderiam ser feitas com o orçamento de uma editora de pequeno e médio porte, filmar locações dentro de uma Dungeon.

(Ao invés de usar algo como um smartphone ou um drone de gravação comum, eles devem ter enviado um cinegrafista profissional para a Dungeon, a fim de conseguir imagens bonitas, com certeza. Os custos com pessoal devem ser absurdos, não é?)

Apesar de serem as Camadas Rasas, ainda é uma Dungeon. Obviamente há risco de vida, e requer uma determinação semelhante à de um esquadrão suicida para ir a uma locação levando uma equipe de cinegrafistas e equipe técnica. O orçamento também é colossal, e se tem uma agência capaz de fazer isso...

Transmitir é impossível! Conquistar Dungeons é perigoso, você não acha isso?

Sobrepondo-se à figura de Siren, que afastava monstros com muito estilo, a sua própria voz foi adicionada.

A DOOM Productions oferece equipamento inicial, apoio total para o seu “debut”, incluindo o encontro com companheiros confiáveis! Nós produzimos a melhor aventura para você!

Uma pose fofa. Uma logo chamativa cobriu a tela.

Tesouros colossais. A empolgação de ficar rico da noite pro dia. Uma batalha verdadeira que fará o seu sangue ferver! Faça com que o mundo conheça você! A DOOM Productions está recrutando sua 3ª geração de streamers!

Satou assistia ao vídeo promocional onde um grupo de streamers garotos e garotas bonitos e famosos faziam pose.

(Isso é bem mais voltado para ficção científica do que para fantasia, né, como sempre)

Satou apenas pensava daquela forma.

(A Siren da DOOM Pro, se não me engano, ela é a pessoa mais popular hoje em dia, não é?)

Ele sabia pelo menos aquilo. Um cidadão comum que fosse um pouco mais antenado provavelmente saberia muito mais.

Os estilos dos aventureiros são variados.

Pessoas equipadas com os itens encontrados nas Dungeons exatamente como são, possuem um visual clássico de guerreiros robustos ou magos que parece ter saído de uma obra de fantasia antiga, mas esses são considerados “focados em hobbie”, não sendo os mais comuns.

Assim como a top streamer Siren ―― equipamentos que unem a capacidade técnica moderna aprimorados através da magia são o principal modelo atual. O foco parece ser ter aquele toque característico da fantasia ao mesmo tempo em que transmitem uma sensação de ficção científica, e o impacto visual da moda desses figurinos modernos é avassalador, mesmo perdendo em pura capacidade defensiva, e sendo muito populares com os jovens.

Apenas por enfeitar os já belos aventureiros com trajes com uma pitada a mais de exposição, isso atrai uma grande multidão, mas ――.

Tô falando, fazer live de boa dá muito mais engajamento!

Qual a graça de viver direitinho pra acabar virando um salaryman fracassado e sem futuro nenhum!

Eram os chamados Shinjuku Kids, se é que posso chamá-los assim. Ultimamente, vê-se muitos deles.

Dezoito anos após o surgimento das Dungeons, as Camadas Rasas da Dungeon de Kabukicho em Shinjuku já foram completamente conquistadas. Hoje em dia, qualquer pessoa que tiver vontade de lutar, desde que olhe a “Wiki” e siga os padrões, consegue ganhar um bom dinheiro por lá.

Para aumentar o número de aventureiros, o processo de verificação de licenças também é bem flexível. Por conta disso, jovens com problemas familiares falsificam o consentimento dos responsáveis para se tornarem aventureiros, e não faltam exemplos de garotos que ganham o pão de cada dia na Dungeon e vivem nas ruas.

Os olhos rebeldes desses jovens vagaram ao redor e pararam repentinamente em uma direção.

Olha lá, tem um ossan moscando ali. Um ossan encarando o letreiro do Yoshinoya.

Credo. Parece que ele tá sem dinheiro.

Eu não quero virar um ossan daqueles. Ele parece que não tem nem sonhos, sabe? Ele tá vivo só por estar vivo?

O olhar indiferente de Satou se cruzou com as lentes dos smartphones que os garotos apontavam para ele com sorrisos de deboche.

(......Ah, estão falando de mim?)

Ao perceber isso, Satou virou as costas para os jovens com um movimento natural.

E se afastou lentamente. Talvez por parecer que ele estava fugindo, as vozes provocativas vieram atrás dele.

Ele fugiu. Que nojo

Aquele tipo de cara é o que chamam de ‘cão perdedor’? Bom, diferente de nós, jovens, ele não tem mais futuro mesmo.

Pois é. Vamos ganhar muito dinheiro e curtir a vida!

Ir em restaurante é caro, vamos comprar bebida na loja de conveniência e ficar por ali mesmo ――

As vozes das conversas foram ficando cada vez mais distantes. Satou acabou perdendo a chance de comer e sentiu o seu estômago vazio doer.

(Ah, que fome)

Não fazia o menor sentido se irritar e bater de frente ali, e não valia a pena arranjar briga.

Na verdade, para os jovens que vivem na sociedade moderna de iene desvalorizado e preços altos, é muito mais lucrativo e atraente ser um aventureiro do que um salaryman. E para aliviar o estresse pelo qual passam, eles gastam dinheiro a rodo.

(A vida deles é a vida deles. A minha vida é a minha vida)

Mesmo se ele fosse dar um sermão neles, não havia garantia de que eles iriam ouvir, e ele não tinha energia para isso.

“As coisas não eram assim antigamente”, dizer isso só soaria como a reclamação rabugenta de um velho.

(No fim das contas...... acabei sem comer nada. Será que tem alguma coisa em casa?)

O seu estômago estava no fundo do poço, mas ele não tinha nem mesmo energia para passar em um fast food.

Enquanto passava pelas catracas da estação mais próxima e caminhava de volta para casa, torcendo ainda mais a sua vontade de comer reprimida.

Satou, naturalmente, ergueu mais um dedo, como se estivesse contando “2”.

 

 

A casa de Satou ficava na região norte de Tóquio, quase na periferia.

O tempo de deslocamento para o trabalho era de quinze minutos de trem. A casa térrea, de tamanho razoavelmente grande, era herança de seus falecidos pais; e embora ele não precisasse pagar aluguel, o peso do IPTU anual e das reservas acumuladas para a deterioração do imóvel não era brincadeira.

Havia uma pequena rua de comércio e alguns bares por perto, o que o tornava um local conveniente para um homem que morava sozinho, mas como quase tudo fechava depois das dez da noite, passar na única loja de conveniência que ficava aberta era algo melancólico.

......Cheguei.

Bem-vindo de volta, tio. Chegou tarde, né?

Ao abrir a porta da entrada, segurando a fome, o cheiro suave de sabonete pairou no ar.

​​Você estava no banho? Desculpe, quer que eu espere um pouco lá fora?

Eu já terminei de tomar, não precisa se preocupar com isso! E eu já tô com roupa de ficar em casa.

Entendo. Sendo assim, com licença.

Tirando os sapatos de couro e afrouxando a gravata, ele entra na sala de estar.

Uma garota, envolta em um leve vapor, estava vestida de forma bem à vontade, com uma camiseta e um hot pants de ficar em casa.

Enquanto deitava no sofá balançando as pernas, ela mexia em um smartphone grande.

Isso não é um celular, é um tablet, tio.

Achei que fosse a mesma coisa. ......Você entende bem o que eu tô pensando, né.

É porque você é fácil de ler, tio.

Enquanto pensava “Será que é assim mesmo?”, Satou observava a garota que olhava para ele ainda deitada.

Uma beleza saudável que ofuscaria os olhos de qualquer homem. As coxas como as de uma jovem corça, e o corpo esguio envolto na camiseta levemente suada dariam uma bela foto de revista (Gravure) do jeito que estavam ali.

Mesmo tirando a perspectiva de serem da mesma família, ela era uma garota bonita.

Obviamente, não havia nenhum tipo de relação indecente entre eles; a pele recém-saída do banho e o cheiro de xampu eram apenas parte do dia a dia. Encarando a situação de forma estritamente racional, apenas como família, Satou observava com indiferença os pés descalços da garota que balançavam no ar.

Você não vai parar? É indecente.

Tá tudo bem, não tem ninguém aqui além do tio. Você não vai ficar me olhando com um olhar pervertido, né?

Lógico que não. Afinal, por que eu faria isso?

Amahara Hikari, dezesseis anos. A família com quem Satou começou a morar recentemente ――.

A filha da irmã mais velha de Satou, ou seja, sua sobrinha. Era uma distância delicada, não eram próximos o suficiente para ele agir como um guardião superprotetor, mas também não era possível separar completamente os laços de sangue; era difícil ter qualquer reação além de apenas vigiá-la.

Tio, você tá com fome? Tem janta, é curry de queijo.

Obrigado. ......Eu tava com fome por causa das horas extras, então tô muito ansioso pra comer.

Você não precisa falar tão formal assim, sabe? Sou mais nova que você.

Quando a gente se acostuma a tratar as pessoas com essas distinções, acaba saindo sem querer quando falo com gente mais jovem no trabalho. E pelo meu trabalho, eu converso bastante com a geração mais jovem.

As pessoas são sensíveis em perceber a chamada “atitude de menosprezo”. Como antigamente, não é mais aceitável ser autoritário com os mais novos apenas por ser mais velho, e o Satou acabou criando o hábito de manter uma atitude que não atraísse problemas no seu dia a dia.

Você é tão distante, tio. É do tipo gato, né? Parece que não se apega.

É isso? Acho que comparar um ossan a um gato é errar feio o alvo. Não tem nada de fofo nisso.

Ah é? Eu acho que tem um lado fofo que surpreende. Como tem curry, vou esquentar, espera aí~

Tirando o paletó do terno e pendurando-o num lugar adequado, ele lava as mãos e faz gargarejo no banheiro.

Enquanto Satou realizava a sua rotina de chegar em casa, ele ouviu os passos leves de Hikari pela sala de estar.

O som de passos rápidos da garota, indo para a cozinha, servindo o curry e ligando o micro-ondas. Ao ouvir aquele leve som mecânico da campainha do micro-ondas, o coração de Satou, que estava áspero e espinhoso, sentiu-se aliviado.

(Como eu imaginava, ela é uma boa menina. Ela tem um tom meio provocador às vezes, mas)

Faz pouco tempo que a Hikari e sua mãe, a irmã mais velha de Satou, voltaram para a casa dos pais.

Ele não havia perguntado os detalhes da situação. Mesmo sendo sua irmã, ele não tinha o hobby de fuçar a vida privada alheia, e não queria machucá-la.

(De qualquer forma, é uma casa grande demais para morar sozinho)

Não era nada de mais, mas ele tinha espaço de sobra para usar sozinho. A irmã e a sobrinha moravam juntas e cuidavam de todas as tarefas domésticas, o que era uma ajuda e tanto, e ele nunca sentiu que houvesse problemas de privacidade.

Ele não tinha vontade de se casar, nem tinha nenhuma mulher com quem estivesse se relacionando. Mas, mesmo assim.

(―― Morar junto com uma sobrinha adolescente)

Ao sair do banheiro, ele viu a Hikari, que havia colocado um avental por cima das roupas de ficar em casa. Ela estava com as duas mãos levantadas tentando prender o cabelo com um elástico para que não caísse na panela, o que fazia com que suas axilas lisinhas ficassem bem à vista.

(Isso é um pouco problemático)

Não é como se ele tivesse fetiche por esse tipo de coisa, e nem tinha interesse em crianças.

Mas ele sentia que era um veneno para os olhos. Mesmo que não houvesse margem para que acontecesse algum mal-entendido, ainda havia a questão da opinião pública; ele se perguntava se não seria melhor alugar um apartamento e entregar a casa da família para a irmã e a sobrinha.

Aqui, tio. O curry de hoje. Tá gostoso?

Muito obrigado. Hikari-san, você é boa na cozinha, isso me ajuda muito.

Hehe~, sério?

Chegar tarde em casa e mesmo assim ter uma refeição quente preparada.

Apenas por elas dividirem os afazeres da casa, o ambiente ficava mais aconchegante, o que era um problema.

Sentando-se à mesa, ele expressa de forma honesta o que achou do sabor após dar uma mordida no arroz com o molho de curry e o queijo derretido.

Uma quantidade certa de pimenta e a riqueza da cebola. Como era de se esperar, não era um sabor autêntico feito do zero com especiarias, mas o sabor caseiro maravilhoso que tirava o melhor proveito dos tabletes de roux vendidos no mercado o fez estalar a língua em aprovação.

Até mesmo o jeito como os ingredientes foram cortados era diferente do que um homem de meia-idade cozinharia para si mesmo. A fofura das cenouras cortadas em formato de estrela suavizou seu coração calejado e o deixou aquecido.

De nada. É que você come com tanta vontade que dá até gosto de fazer a comida pra você, tioー」

As refeições são um dos poucos prazeres em uma vida monótona, então... Hehe.

...... V-você tá bem, tio? Isso não é meio pesado?

Ele sentiu que ela deu uma leve recuada com aquele sorriso sombrio dele, mas para Satou, aquela era a mais pura verdade.

Ele gosta de comer. Mas não é do tipo que fica pulando de restaurante em restaurante, saindo pra beber ou esbanjando em restaurantes de luxo. Comida de loja de conveniência ou comida caseira, tanto faz, apenas...

Eu gosto de comer o que eu quero, na hora que eu quero.

E, pelo contrário, ele sente um estresse enorme quando não consegue fazer isso.

Exatamente por ter sido forçado a desistir do gyoza e do Yoshinoya em sequência, que agora esse curry caseiro adorável estava tão profundamente delicioso.

Você melhorou na cozinha, Hikari-san.

Hehe~. Mas é claro, afinal, eu coloquei todo o meu LOVE pro meu tio aqui, né?

Fazendo um sinal de coração com as mãos, ela pisca com um sorriso. Diante daquele gesto natural digno de uma idol, ele não sentiu o coração bater mais forte, mas sim um calor reconfortante. A alegria de vê-la crescer tão bem, e então.

Em especial, essa cenoura está ótima. Muito fofinha.

É aí que você se emociona!?

Diante do elogio fora de foco, Hikari retruca com uma cara de quem teve as expectativas frustradas.

Satou mastigava a cenoura cozida bem macia, e assentiu com uma leve expressão de satisfação.

Achei que ia ficar meio infantil~. Você curte esse tipo de coisa, tio?

Eu diria que é uma beleza formal; é uma sensação boa quando os padrões são seguidos.

Por isso, Satou acredita que a cenoura do curry deve ser em formato de estrela e a salsicha deve ser frita em formato de polvo.

Sendo sincero, não faz diferença nenhuma no sabor. Mas poder prestar atenção nesses pequenos detalhes, ter essa consideração. Ele sente que isso representa ter uma folga na vida, e que é esse tipo de espaço mental que cura a alma.

Você é estranho de um jeito inesperado, tio.

Dizendo isso com cara de espanto, Hikari tira o avental e senta de frente para Satou.

Ela já devia ter jantado há muito tempo. Não havia prato na frente de Hikari, apenas um copo d’água. Ele achou que ela queria conversar sobre algo, mas sem dar sinais de que iria começar a falar, ela começou a mexer no smartphone de novo.

Tio, você conhece o Very Good? É um grupo de streamers de labirinto super popular agora.

……É, conheço.

Dando uma resposta vaga, Satou pegou uma colherada de curry e levou à boca.

Você conhece bem, hein.

O motivo dele ter sido forçado a fazer hora extra pesada foi justamente para limpar a bagunça deles. Como não podia trazer o estresse do trabalho para casa e também não queria ficar reclamando, ele ficou calado, até que...

Eu não ligo muito, mas minhas amigas adoram~. Parece que elas curtem uns caras bonitos.

Entendi.

Você pareceu odiar. Parece que agora eles tão fazendo tipo uma coletiva de imprensa pra pedir desculpa em live? Olha.

……Hã!?

Ele não tinha ouvido falar disso. Absolutamente nada, não ouviu.

Segurando a todo custo a vontade de cuspir o curry, ele espiou o smartphone da Hikari.

Um quarteto de garotos bonitos apareceu na tela pequena. Para Satou, que não conhecia nenhum corte de cabelo além da clássica divisão de lado, aqueles jovens com cabelos estilosos dos quais ele não sabia os nomes oficiais, estavam largados no sofá, jogando todo o peso do corpo ali.

……Eles não parecem nem um pouco arrependidos.

É por isso que eu disse tipo uma coletiva de desculpas, sabe?

Ao ponto de dar vontade de colocar um ponto de interrogação de propósito, o quarteto ―― especialmente o cara que parecia ser o líder sentado no meio ―― exibia abertamente uma cara emburrada e de mau humor, encarando a câmera com um olhar severo.

Cooomo eu disseee! Eu não concordo com essa flamewar de agora, sacô?

É responsabilidade de cada um, né. A gente assumiu um risco de leve pra tentar algo e fomos esmagados.

Isso, isso! Um Japão assim é muito sem noção, namoral. Tipo, sabe.

Enquanto observava as caras de superioridade dos jovens, a luz ia sumindo cada vez mais dos olhos de Satou.

Até a mão que levava a colher à boca ficou mecânica, e ele fazia uma expressão como se estivesse mastigando areia.

Ei, tio. O que esses caras fizeram?

「《Cultivo dentro da Dungeon. É uma das chamadas ações proibidas, mas...

O próprio Satou não sabia dos detalhes e tinha acabado de receber a explicação da Ukai.

Utilizar armadilhas e truques para atrair monstros e derrotá-los em grandes quantidades ―― como o número de monstros aumenta demais, é chamado de Cultivo. Parece que existem vários métodos, mas há uma alta probabilidade de se multiplicarem e saírem completamente do controle.

Ao subirem de nível a uma velocidade anormal e entrarem para a elite dos streamers em menos de um ano desde a estreia, se descobrissem que por trás disso havia atos que ignoravam a ética, as críticas do público seriam inevitáveis.

Eles foram vistos fazendo isso escondidos quando não estavam em live, e quando chamaram a atenção deles, ainda foram arrogantes. E como mesmo depois de causar um cancelamento absurdo não demonstraram nenhum sinal de arrependimento, eles deveriam ter recebido uma advertência severa, mas...

Eles tão é jogando mais lenha na fogueira, né.

As fãs mulheres e outros que os apoiam estão defendendo eles. Dizem que, como eles derrotaram todos os monstros, ainda não causaram problemas a ninguém, e que é uma estratégia legítima para ficarem fortes, que é parte do esforço deles.

……Sei não. Isso foi só sorte, não foi? É perigoso de qualquer jeito.

Sim. Por isso mesmo, se eles tivessem se arrependido e se esforçado para evitar que acontecesse de novo, estaria tudo bem, maaaaaas ――……

As palavras de Satou foram em vão, e o líder do Very Good, Potato, mostrou a língua de forma provocativa.

Não causamos problema pra ninguém e fomos cancelados, não faz o menor sentido! Estamos arrependidooos, tsc!!

Nossa... como eles se acham.

Hikari tocou no smartphone com cara de tédio e parou a transmissão.

Não entendo nadinha do que as pessoas veem neles. Né, ti…… o?

…………

Satou não respondeu, estava quieto como o vento.

Mas, reparando bem, uma veia saltava em sua testa. Ele exalava uma aura intimidadora e indescritível — algo assustador —, fazendo com que Hikari, que estava logo ao lado, prendesse a respiração ao sentir aquela pressão.

T-Tio...!? O que foi? Você tá me assustando...

Não. ...Não é nada.

Aconteceu alguma coisa sim”, era o que o rosto de Hikari parecia gritar, mas ela preferiu ficar calada.

Agradecendo internamente à sobrinha por ter percebido o clima e não insistido, Satou levantou o terceiro dedo da mão direita.

……3……!

Esse era o seu próprio tipo de rotina, uma espécie de regra pessoal.

Um truque para sobreviver na sociedade moderna, cheia de estresse. Era um ritual para liberar a irritação absurda e a raiva incontrolável que caíam sobre ele apenas por viver cada dia, em vez de reprimi-las, acumulando-as até o limite e então as soltando.

Gogogogogogogo, junto com uma aura negra e espessa, algo parecido com um estrondo na terra ecoou. Provavelmente, era apenas a imaginação egoísta de Satou, e aquilo na verdade não existia.

 

Um salaryman não emite uma aura misteriosa. Também não faz nenhum som parecido com um tremor de terra.

O fato da sua sobrinha estar recuando chocada, ou melhor, parecendo apavorada, provavelmente era só impressão dele.

Não, tio, tem alguma coisa saindo de você sim, sabia!? O que é essa fumaça toda, parece que faz mal pra saúde!

Não tem nada. Pra começar, salarymans não soltam fumaça.

Tá saindo sim, eu tô vendo! Parece até fumaça de peixe assado! Que medo!

Deve ser impressão sua. Mas se é o caso, vou dar uma saída rápida.

Diante de Hikari, que pegou um jornal ali perto e começou a abanar na direção dele para espantar a fumaça, Satou recolheu a louça.

Ainda envolto pela aura negra, ele colocou o prato na pia, deu uma enxaguada rápida, enxugou as mãos e se virou.

Me deu uma vontade repentina de movimentar o corpo.

H-hã? É mesmo? Já passou das dez e meia, tá tudo bem?

Os trens ainda estão rodando, não tem problema. Na volta eu posso pegar um táxi.

Deixando até mesmo a sua pasta de trabalho que ele carregava pelo escritório de lado, ele voltou para a entrada de mãos vazias e calçou os sapatos.

Ele mesmo pensava que era uma atitude repentina. Mas essa era uma rotina de dezoito anos, que manteve sua mente a salvo do trabalho excessivamente problemático. Uma regra absoluta. Não era algo que pudesse ser quebrado.

Mas tio, pra onde você vai?

Vou fazer um exercício pra ajudar na digestão. Não se preocupe.

Sair de madrugada... de terno... exercício. Isso é muito suspeito, tio. Você não tá indo cometer nenhum crime, tá?

Pode ficar tranquila. Tenho uma reputação estabelecida de bom comportamento desde os tempos do ensino fundamental. Não tenho antecedentes criminais, e nunca tiveram que tirar minhas impressões digitais na polícia. Acho que eu poderia ser chamado de um cidadão exemplar.

A autoavaliação de Satou é baixa. Ele se considera um homem mediano em tudo, alguém sem nenhuma qualidade especial.

Mas ele tinha confiança na sua seriedade e no seu espírito de cumprir a lei, que eram suas poucas qualidades. Ele sempre atravessa na faixa de pedestres, e nunca ignorou um semáforo sequer. Não anda mexendo no celular e os crimes estão fora de cogitação.

Quando um homem que tem apenas a seriedade como qualidade é exposto aos absurdos da sociedade――.

Bom, então, eu já vou.

Ele tinha um lugar para o qual não podia evitar de ir.

 

 

❸ A Sobrinha e o Oji-san

 

Em algum lugar de Tóquio, entrada da casa dos Satou

“Amahara Hikari”

Na entrada, logo após Satou Keita sair.

Aproveitando a breve brecha enquanto ele se preparava para sair, ela pegou apenas a sua carteira e o smartphone.

Amagahara Hikari segurou levemente a barra da sua roupa de ficar em casa e, sem hesitar, tirou tudo de uma vez.

Sus... pei... to. ......Tôu!

Sua pele ficou exposta, mas logo foi coberta num piscar de olhos. A garota que havia jogado a roupa de casa na sala de estar agora estava vestida com uma roupa de baixo de malha que, embora finíssima, tinha a resistência do aço, além de um equipamento com visual cyber.

Sub-skill Ninjutsu B Técnica de Troca de Roupa! É tão prático~, troca rápida!

Embora não fosse nada muito chamativo, não deixava de ser um esplêndido avanço da nova era, uma Magia.

A magia de tirar a roupa apenas puxando, sem rasgá-la. E a conveniência de vestir automaticamente as roupas e equipamentos predefinidos naquele exato instante possibilitava uma troca rápida digna de um herói de transformação.

Tudo pronto Booora, tenho que ir atrás do tio!

Rindo feito um diabinho com um “nishishi”, a garota disparou para fora.

Ela o alcançou em menos de um minuto.

Avistou as costas de Satou, que andava devagar. Avaliando cuidadosamente como ficar de fora da zona de detecção da percepção absurdamente aguçada dele, ela fez sinais de mão cujo significado nem ela mesma entendia direito e elevou algo que parecia com chakra. E então.

Aventureira Kunoichi Hikari ―― Main Skill Furtividade SSS, ativar!

O traje de ninja cibernética ficou transparente em um instante e sumiu.

A figura dela transpareceu e refletiu a paisagem ao redor, camuflando-se perfeitamente, e até mesmo o som dos seus passos desapareceu.

Era uma skill de furtividade de nível máximo que apaga todos os vestígios: não apenas a forma, mas o som, o cheiro e até mesmo a própria presença.

Se ela ignorasse as condições necessárias, como ter que desarmar armadilhas e derrotar monstros chefes, era uma skill rara com uma capacidade absoluta de ocultação que lhe dava a possibilidade de chegar até as camadas mais profundas de um labirinto. Ao ativá-la...

Você não vai escapar de mim. É hoje que eu descubro o seu segredo ―― tio

Nome de registro, Kunoichi Hikari... Aventureira Nv. 15.

A aventureira iniciante, que também era uma streamer de labirinto praticamente desconhecida, começou a seguir o seu tio sorrateiramente.


 

 

Próxima parada: Shinjuku, Shinjuku~. O desembarque é pelo lado esquerdo.

Junto com esse anúncio, o trem próximo do horário da última viagem para.

Vestindo apenas uma camisa social sem paletó, Satou, que estava com roupas leves demais até mesmo para um salaryman voltando de uma bebedeira da firma, andava tranquilamente por dentro da estação de Shinjuku com a carteira enfiada no bolso de trás.

Ele não parecia estar minimamente em alerta. E com razão, afinal, não há motivo para um homem sem nada a esconder andar prestando atenção desnecessária a perseguições ou stalkers, e é exatamente por isso.

―― Ele não percebeu a sua sobrinha ninja invisível que o seguia furtivamente com um smartphone na mão.

(Meu tio é muito estranho)

Faz cerca de um mês desde que começaram a morar juntos. Hikari estava surpresa consigo mesma por ter se apegado e passado a admirar de forma tão natural um tio do qual antes era distante, nunca tinha visto nem conversado.

(Ele sai com frequência em horários estranhos, e volta com o terno todo sujo de lama)

Toda vez que isso acontecia, atuando como substituta de seu tio ocupado, ela levava a roupa para a lavanderia, mas ――.

Havia manchas pretas respingadas pela camisa, paletó e calças. Às vezes exalava um cheiro bizarro, definitivamente não era algo comum.

Ela já chegou a perguntar diretamente para ele uma vez, mas ele apenas deu uma desculpa esfarrapada de que tinha caído.

Embora fosse a casa dos pais da sua mãe, ela tinha ido morar lá de favor... sendo essencialmente uma hóspede, não podia investigar muito a fundo. Mesmo achando estranho, ela deixou passar várias vezes, até que um dia as suas suspeitas chegaram ao ápice.

Tio, o que é isso que saiu do seu bolso?

Ah... eu tinha deixado isso aí? É lixo, pode jogar fora.

Sério? É tão bonito, será que não dá pra vender num mercado de pulgas ou algo assim? Posso tentar?

Por mim tudo bem. Acho que não vai vender, mas se conseguir, pode usar como mesada

Antes de levar o terno sujo para a lavanderia, ela vasculhou os bolsos dele.

Ela ficou fascinada com a estranha placa do tamanho da palma da mão que saiu de lá. Era de um vermelho quase transparente, brilhava como um arco-íris quando a luz batia, e ao tocar, sentia-se um calor suave como o de brasas.

(Isso é uma escama? Não me diga que é... de um Dragão!?)

Para os aventureiros, o abate de um dragão é uma prova de status.

Se o título especial Matador de Dragões for reconhecido pela Guilda, o aventureiro ganha o direito de aceitar quests de alta dificuldade. Era muito parecido com o item chave necessário para obter essa qualificação dificílima, que era dura de conseguir até mesmo para a nata dos aventureiros profissionais da Classe Platina.

(Não pode ser. Mas só por precaução, acho melhor dar uma pesquisada, né?)

Ela levou o item timidamente para ser avaliado na Associação de Aventureiros e...

U-Um... Um milhão de ienes!?

De acordo com o histórico de lances do último leilão oficial da Associação, esse seria o valor. Não há dúvidas.

Um guichê sem graça parecido com o de uma repartição pública. Ao ver que um material de fantasia, deixado sozinho em cima da bandejinha de moedas, valia o mesmo que um maço imenso de notas de dez mil ienes, Hikari arregalou os olhos.

『《Escama de Dragão de Fogo... Um item de excelente qualidade. Desculpe a intromissão, mas a Hikari-san está atualmente no Nv. 15, correto?

Ah, sim, estou...

Este item só é dropado por monstros da linhagem dragão entre os Nv. 120 e 140. Onde você conseguiu isso? Hum, você não... roubou isso, certo?

E-Eh, bem... eeeeeehh... eu achei! Na, na Dungeon!

Então, por favor, preencha o formulário de achados e perdidos. Contanto que não tenha sido obtido ilegalmente, não haverá problema.

A-Ah, ok.

Como não há suspeita de crime, se o dono não aparecer em seis meses, será seu.

Pode ser assim, de um jeito tão casual como se fosse só uma carteira perdida!? É um milhão de ienes, sabia!?

Se o dono aparecer, você recebe 10%. Vou trazer os documentos agora mesmo.

Fui tratada de forma absurdamente burocrática e, sinceramente, cheguei a questionar se aquilo estava certo.

Daqui a seis meses, um milhão, ou no mínimo cem mil ienes garantidos. Enquanto preenchia o assustador formulário de achados e perdidos, Hikari pensava.

(O... o... o que... O que você tá fazendo, tiiiiiiiiio!?)

Tratando como lixo um item de drop valiosíssimo que só pode ser obtido ao derrotar um monstro super poderoso.

Um mero funcionário comum de uma empresa de pequeno ou médio porte que joga isso fora como se fosse um pedaço de papel higiênico amassado. O que uma existência bugada dessas estaria fazendo por trás dos panos? Sendo família, mesmo que fosse só no papel, ela não podia deixar de querer saber.

(Não acho que o tio esteja fazendo algo de ruim, mas)

Ela tinha pelo menos esse nível de confiança nele. Ele nunca havia lançado sequer um olhar pervertido para ela, uma garotinha que era praticamente uma estranha.

Pelo contrário, ele até chegou a propor ceder a casa da família para a irmã... ou seja, a mãe de Hikari, e se mudar para um apartamento. Ele parecia quase um deus desprovido de desejos, alguém distante da realidade mundana.

(Não há dúvidas. O tio está fazendo algo, está metido em alguma coisa. Algo incrivelmente absurdo!)

A fim de descobrir esse segredo, Amagahara Hikari, também conhecida como Kunoichi Hikari, estava seguindo seu tio no meio da noite.

(Sinceramente, me sinto um pouco mal com isso, mas se eu perguntar de frente, ele vai desconversar...)

E ela não conseguia fazer isso com medo de que, se o pressionasse muito, recebesse uma resposta perigosa, ou antes disso, que acabasse irritando aquele tio que sempre foi tão gentil.

(É hoje que eu pego ele no flagra...! Eu acredito em você, tio!)

A forma como Shinjuku era antigamente, ela desconhecia.

Antes do Desastre das Dungeons, essa cidade prosperava como um dos maiores centros comerciais do Japão, ao que parece.

(Desde antes de eu nascer já era assim. Não acho que tenha nenhum lugar pra se divertir por aqui, mas...)

Uma enorme muralha de ferro que bloqueava as frestas entre os prédios.

As barricadas que foram erguidas para isolar a área urbana ocupada pela Dungeon foram sendo reforçadas com o tempo e agora eram uma verdadeira fortaleza.

Despertados e aventureiros pertencentes às Forças de Autodefesa continuam a fazer a segurança 24 horas por dia, existindo ali como se o extraordinário estivesse imprensado no meio de uma paisagem urbana aparentemente normal. Nos vários portões existentes, há balcões da Guilda de Aventureiros, que recebem aqueles que desafiam o labirinto e os guiam para as ruas caóticas e repletas de monstros.

(Mesmo sendo noite, está super movimentado. É a tal... cidade que nunca dorme?)

A Dungeon é cheia de mistérios. Existem monstros que só aparecem em horários limitados, armadilhas que só podem ser desarmadas à noite, e também tesouros, então os aventureiros tentam testar todo tipo de condição.

Por um motivo completamente diferente do seu passado como área de lazer e compras, a Dungeon de Kabukicho em Shinjuku brilhava intensamente como um castelo sem noite.

A multidão de salarymans que saía da estação e caminhava pelas ruas noturnas; a figura de Satou se misturava e desaparecia no meio deles.

Por cima daquelas costas, um pôster desbotado na parede saltou aos olhos dela.

――Vamos recuperar a nossa Shinjuku. Associação de Aventureiros de Todo o Japão

――Libertem a Dungeon! O futuro está nas mãos dos aventureiros

――Não se esqueçam das 37 mil vítimas! 18 anos desde o Desastre das Dungeons ~Aquele momento é agora~

(Sinceramente, isso não me diz muita coisa)

Para a geração de nativos das Dungeons como a Hikari, o labirinto é algo que existe desde que nasceram.

Aquele sentimento que deixava os aventureiros da geração anterior, da mesma idade do seu tio, com sangue nos olhos ―― os slogans como “Libertem a Dungeon, recuperem nossas terras, vinguem as vítimas”, embora fossem compreensíveis na teoria, não ressoavam nela.

Dezenas de anos se passaram desde a última guerra que apareceu nos livros didáticos. A longa paz gerou desigualdade, e a diferença entre os ricos e os pobres é gritante, refletindo-se não apenas no ambiente educacional, nível cultural e senso de moralidade social, mas chegando até mesmo à aparência e ao porte físico.

Porém, a Dungeon é diferente. Os monstros atacam tanto os ricos quanto os pobres da mesma forma, e a recompensa obtida ao derrotá-los também é a mesma.

Por isso, para os jovens de hoje, a Dungeon... ser aventureiro, é superar a desigualdade social para alcançar o atalho mais rápido para subir na vida. É por isso que os streamers, os porta-bandeiras dessa nova era, são apoiados pelos jovens e banhados de elogios.

(Ser paparicada por gente que não conheço não me deixa feliz. ……Mas eu quero muito, dinheiro)

Esse é o motivo de Hikari ter se tornado uma aventureira. Simplesmente, ela quer dinheiro.

Sua mãe, que é mãe solteira, trabalha todos os dias até tarde da noite, mas não há folga no orçamento de casa.

Elas não vivem com luxo, mas pagam uma mensalidade escolar um pouco puxada, e pensando na vida depois disso, ela quer ter uma quantia considerável guardada. Um bilhete para comprar o futuro, comprar o amanhã, isso é ――.

(Dinheiro. E para isso também, sobre o meu tio...... eu quero saber mais!)

Nesse momento, Satou parou de andar de repente.

Aquele lugar, um pouco afastado da muralha de contenção da Dungeon de Shinjuku, era ――

(……Um centro de rebatidas?)

Os equipamentos pareciam bem antigos, mas continuavam operando na ativa.

Ela seguiu Satou e, calculando o timing certo, entrou logo atrás dele. Havia clientes em algumas das cabines, e o som das máquinas arremessando as bolas, junto com o som ocasional de um taco rebatendo uma bola, podia ser ouvido.

O de sempre. Por uma hora.

Beleza, 500 ienes.

Após pagar as moedas no guichê, Satou caminhou com um ar acostumado em direção à cabine nos fundos.

Ao passar, ele puxou um dos tacos de metal de aluguel alinhados no suporte.

Sem parecer se importar, ele não fez questão de escolher. Pegou de qualquer jeito o primeiro em que tocou e entrou na cabine bem no fundo ―― onde havia uma placa indicando 140km.

Ué, aquela ali... não tá quebrada?

Dizem que é exclusiva para clientes frequentes. Eu também tentei usar antes e levei bronca do pessoal do caixa.

Aaah, que babaquice. E um ossan daqueles consegue rebater, por acaso?

A conversa dos clientes próximos chegou aos ouvidos dela. Naquele momento, Hikari sentiu um calafrio percorrer seu corpo.

(Mentira, isso é...!?)

Sem soltar a voz, ela ficou atônita. A figura de Satou, que havia entrado na caixa de rebatidas, sumiu sem que ela percebesse.

À primeira vista, uma cabine perfeitamente comum. Mas, olhando com atenção, havia algo negro girando como um vórtice em seus pés, e a luz rodopiava brilhando como uma nebulosa vista por um telescópio.

Uma galáxia cortada do céu noturno caída no chão como se fosse uma poça d’água. Hikari ―― que agora era a aventureira Hikari ―― reconhecia aquele objeto bizarro. Um fenômeno paranormal que passou a ser visto apenas em áreas específicas há dezoito anos ――.

(――A entrada de uma Dungeon!?)

Um Warp Gate que cruza o espaço para conectar coordenadas.

Algo cujo princípio a humanidade ainda não conseguiu desvendar, que teletransporta para a Dungeon os humanos que o tocam.

Aproximando-se às pressas, a pequena placa pendurada na cabine de antes saltou novamente aos seus olhos. 140km ―― de longe, não parecia nada além de um indicador da velocidade do arremesso, mas olhando de perto, a tinta usada emitia um brilho estranho.

Ao se dar conta, Hikari apontou o smartphone. Um aplicativo de informações de Dungeons voltado para aventureiros. Como a entrada da Dungeon é uma fronteira com uma dimensão paralela, é instável, e incidentes onde monstros quase surgem e são repelidos pelos aventureiros encarregados da segurança pública acontecem de vez em quando. Esse app foi desenvolvido porque as informações escritas em placas físicas ficavam sujas ou eram destruídas toda vez que ocorria uma confusão dessas, tornando tudo um ciclo sem fim.

Se você apontar o smartphone perto de uma Dungeon, pode ver as informações em AR(Realidade Aumentada). O sistema funciona de modo que, se você configurar a informação AR sobreposta a uma placa, mesmo que a placa seja destruída, a informação continuará lá nos dados. O local onde os dados são deixados varia de acordo com o lugar, mas aparentemente, neste centro de rebatidas, foi configurado para se sobrepor à placa de velocidade da bola.

(Não é 140 km. ……140 Lv!?)

Falar em Profundidade de Dungeon Nível 140 significa que é voltado para veteranos de alto nível. É um lugar onde apenas os que estão no topo vão.

Até mesmo para a classe mais forte, o Rank Platina, conquistar o labirinto sozinho(solo) é extremamente difícil. É a área de dificuldade máxima, permitida apenas para os escolhidos, que precisam formar parties(grupos) e montar um sistema de suporte impecável para que a exploração se torne minimamente possível.

(Mentira. O tio entrou? Sério? ......Não, não, não, não, não... espera!?)

Até para a Hikari, que possui a skill de furtividade, é um território que exige muita coragem e preparação.

Se por um acaso a skill for interrompida, ou se houver um monstro capaz de enxergar através da sua habilidade de furtividade absoluta, ela — que tem uma capacidade de combate muito inferior como preço por ter uma skill de ocultação tão poderosa — morreria quase instantaneamente.

Dá medo ―― mas não há tempo para hesitar!

(Eeeeei!! Se der ruim, eu vou guardar rancor de você, tio!?)

Reunindo uma coragem desesperada, ela mergulhou na cabine atrás de Satou.

Ao leve sinal de movimento, o dono do estabelecimento que estava de vigia ergueu as sobrancelhas com um “Hm?”, mas não percebeu a presença da intrusa. Hikari pisou direto na zona de teletransporte e foi arremessada numa sensação de flutuação que a fazia parecer estar caindo em um buraco.

(Hiiiii!? Que sensação horrível!!)

Um desconforto parecido com uma tontura.

Embora os pés estivessem no chão, era a sensação de ser lançada no ar junto com o próprio chão.

A inércia de movimento vertical sentida em um elevador, somada à sensação de tremor lateral de um terremoto, enquanto o corpo era girado e rodopiado... Uma embriaguez que faria qualquer um com o labirinto sensível vomitar escureceu sua visão por um instante.

 

 

Quando Hikari abriu os olhos, ela estava em um outro mundo.

(Que clima pesado... isso com certeza é um lugar super perigoso!)

Um céu semelhante ao crepúsculo. Como um cenário de teatro sem nenhuma nuvem, brilhava um vermelho suave.

Um falso céu com um fim ―― aquele espaço em outra dimensão, que às vezes se estende por dezenas de quilômetros quadrados, era, segundo as teorias, uma Shinjuku de um mundo paralelo.

Acessível apenas pelos Warp Gates que conectavam os espaços, aquele era um lugar onde rochas naturais e estruturas artificiais pareciam ter se misturado.

Ruínas ao redor. Prédios destruídos e letreiros de restaurantes, que guardavam os resquícios do antigo centro comercial, distorciam-se de forma assustadora. Misturados a máquinas estranhas e pedaços de carne que se contorciam como seres vivos, eles pulsavam com uma batida repulsiva.

Uma pressão opressiva que não se comparava em nada com as Camadas Rasas da Dungeon que Hikari conhecia.

Seria essa a sensação de ser jogada no ninho de um urso pardo selvagem ou de um leão? A impotência de não ter como se defender, e a presença de algo que ela sentia mesmo usando sua skill de furtividade, faziam o terror subir pela sua espinha.

(Que medo, que medo, que medooo...! Eu tô bem porque tenho a skill de furtividade, mas e o tio!?)

Dando uma olhada rápida ao redor, ela logo viu as costas da camisa branca.

Com o taco de metal em uma mão, como se estivesse apenas dando um passeio, Satou caminhava tranquilamente pelo labirinto.

(Será que ele vai ficar bem andando tão desprotegido assim...? Na pior das hipóteses, talvez eu tenha que entrar pra ajudar?)

Sem fazer ideia da preocupação de sua sobrinha, foi quando Satou pisou dentro de uma certa ruína.

(Ué? Tem alguma coisa... ali!?)

A maioria dos aventureiros compartilha informações sobre armadilhas e monstros que aparecem no labirinto.

Antigamente isso dava trabalho, mas hoje basta escrever na Wiki pelo smartphone. Estando todos arriscando suas vidas, é um fluxo natural se unir para reduzir os riscos o mínimo que seja.

Claro, também há grupos que tentam monopolizar as informações. Especialmente sobre os monstros de alta dificuldade ―― da área profunda que passa do Nv. 100. Como os aventureiros capazes de mergulhar tão fundo são limitados, as informações costumam ser apenas fragmentadas.

(Aquele é... o Sapo(Dia) Gigante(mond) de Diamante(Frogs)!)

Um monstro sobre o qual os aventureiros que desafiam as profundezas compartilham informações e ficam em alerta máxima antes de qualquer outra coisa.

A aparência é de um sapo gigante. Seu peso exato é de aproximadamente 2000 kg. O tamanho de uma vaca inteira, e além disso, a sua pele é coberta por cristais transparentes, o que deu origem ao nome que carrega o termo “Diamante”.

Aquele brilho possui uma dureza impressionante, concedendo uma resistência física excepcional a um animal selvagem que já é incrivelmente duro na queda por natureza.

E como se não bastasse, por ser incolor e transparente, ele permite que a luz do ambiente o atravesse, escondendo literalmente a sua silhueta.

Seu ataque surpresa usando uma skill de furtividade equivalente ao Rank A, além de sua super resistência física e tenacidade igual à de um touro furioso, sem contar o seu body press lançado de um salto com suas pernas traseiras super fortes e seus ataques de investida, não devem ser subestimados.

(Dizem que até a linha de frente(Vanguard) de Classe Platina sofre pra lutar contra ele... um monstro brutal!)

E ele estava bem acima da cabeça de Satou, grudado na parede externa de uma casa de pachinko caindo aos pedaços.

Ele estava transparente e não podia ser visto.

Um território que só Hikari, possuidora da skill superior Furtividade SSS, conseguia perceber. Naturalmente, Satou também ――,

Tio! Cuida...!

Foi bem no momento em que Hikari estava quase gritando.

 

......KOKKIIIIII――――――NNN!!

 

Hã!?

Sem conseguir entender o que tinha acabado de ver, Hikari soltou isso sem querer.

Felizmente, Satou não havia percebido sua presença. Ainda de costas, ele relaxava calmamente, imerso no ressoar do taco que acabara de balançar.

……Haaaa~~~~~~~~~……

Um suspiro de quem estava profundamente emocionado.

Uooooooh, que som bom. Tá no peso ideal como sempre, esse Sapo......!

(Super sorridente!? Eu nunca vi uma cara dessas, tio!?)

Ao lado do rosto do Satou, que estava com um sorriso de orelha a orelha enquanto observava ao redor sem ainda conseguir entender o que havia acontecido, Hikari processou as informações.

O Sapo Gigante se espatifou na parede do prédio.

O monstro de diamante, que havia ganhado aceleração na queda livre, tinha uma força de impacto quase igual à de uma bola de demolição. Se tomasse um golpe direto, seria o suficiente para esmagar até um tanque de guerra, e o Satou simplesmente o rebateu de frente.

(Não entendi, não entendi. O que foi isso!? Um golpe e ele...... foi destruído de um jeito nojento!)

Ela se lembrou de um vídeo de um dos streamers de labirinto que está no topo da elite atual, o Presidente Owari ―― alguém cujo nível de poder é absurdamente superior ao de uma novata em lives como a Hikari.

(Não tô entendendo nada, não faz o menor sentido. O que foi aquilo!? Um golpe só... é apelão demais!!)

Hit KillFiz uma espada gigante de 300 milhões de ienes kkkkkk”, acho que era esse o título. Se não me engano, com aquilo foram precisos... dois golpes.

Uma arma totalmente voltada para gerar conteúdo, forjada despejando materiais super raros nela.

Mesmo sendo a espada suprema, feita com Orichalcum — que ostenta a maior resistência já registrada em termos de dureza pura — e imbuída com a poderosa propriedade de perfurar defesa física, além de possibilitar dano massivo contra monstros de todos os atributos: terra, água, fogo, vento, luz, trevas, voadores, feras, zumbis e dragões... ainda assim, foram necessários dois ataques para derrubar o Sapo(Dia) Gigante(mond) de Diamante(Frogs).

E no entanto... agora.

(Ele tá morto! Aquilo lá tá mortoooo!?)

O Sapo Gigante que o Satou rebateu com o taco virou uma poça esmagada contra os escombros.

Ignorando completamente a noção de tamanho, a forma como ele foi esmagado, demonstrando o impacto da colisão, só podia ser vista como... um acerto crítico de um golpe só Hit Kill.

(Ainda não! Aquele sapo, o motivo de ser chamado de Diamond Frogs no plural é......!)

Eles não pensam em exclusividade, é por isso que são a ameaça que fez os aventureiros de alto nível compartilharem informações logo de cara.

(Eles andam em bando......! São monstros que agem em grupo!)

Gekogekogekogeko, Gekogekogekogeko, Gekogekogekogeko......!

Um som que parecia o estrondo da terra.

Embora estivessem invisíveis, camuflados no cenário, os sapos escondidos por toda a parte emitiam sons ameaçadores. Estufando a garganta e as bochechas como balões, todos se viraram para o único inimigo que estava ali!

 

KOKKIIIIII ―― NNN!! KAKIN!! KUAKKIIIIII ―― NNN!!

 

(......Mentira!?)

Os sapos que caiam como uma avalanche, um após o outro, saíam voando.

Ele não estava fazendo nada de especial.

Rebatidas perfeitamente normais ―― com uma postura bonita aos olhos de qualquer amador, transferindo toda a energia do corpo para o taco como se fosse uma mola, fazendo um balanço perfeito swing. Com movimentos tão fluidos que poderiam ser confundidos com os de um jogador profissional de beisebol!

Isso é pela minha chefe insuportável!!

……KAKIN!

Isso é por aqueles moleques de merda super desrespeitosos!!

KOKKIIIIII ―― NNN!!

E isso é

Dando um tempo, ele acumulou força e atacou vários de uma só vez!

Bando de lixos egoístas que só pensam em si mesmos enquanto causam problemas pros outros, toma issssoooo!!

KUAKKIIIIII ―― NNN……!!

Pedaços de carne de 2000 kg eram rebatidos e arremessados longe como se fossem balas de canhão. Os sapos rebatidos voavam desenhando uma parábola no ar: alguns explodiam no céu, outros se chocavam violentamente contra os escombros e eram esmagados, enquanto outros cravavam no chão de ponta-cabeça.

Pareciam marcas de um bombardeio.

No labirinto, que não deveria ser destruído com facilidade, enormes buracos se abriam toda vez que um sapo — fazendo as vezes de bola rebatida — atingia a estrutura em cheio. Embora Hikari estivesse a salvo escondida atrás de Satou, ela via a multidão de monstros diminuir em um piscar de olhos.

(O que é isso, o que é isso! Isso não faz sentido nenhum, não importa o quanto você olhe, ele é forte demais!?)

Pelo que a Hikari sabe, não existe nenhum aventureiro capaz de lidar com um bando de Sapo(Dia) Gigante(mond) de Diamante(Frogs) nessa velocidade.

Nem mesmo o Presidente Owari, um aventureiro de elite, conseguiria, mesmo usando equipamento especializado exclusivo e recebendo suporte da retaguarda.

A arma é um taco de aluguel do centro de rebatidas, um mero artigo esportivo comum. A armadura é uma camisa social barata que não exala nenhum pingo de fantasia ou misticismo, e ele está obliterando tudo (fazendo um musou) com um beisebol que não tem nada de mágico. Uma visão tão sem sentido que faz o cérebro dar tela azul.

Hahaha――!! É rebatida à vontade, yahooo――!!

(Ele tá com uma cara ótima, o tio. Empolgado até demais!)

Será que ele estava acumulando tanto estresse assim? Satou continua rebatendo os sapos furiosamente. Pensando que às vezes ele voltava tarde do trabalho, será que era assim que ele aliviava o estresse esse tempo todo? Se for o caso, aquele item de drop de um milhão de ienes que ele tirou do bolso do nada, a escama de Dragão de Fogo, passa a fazer todo o sentido.

(Não me diga que ele foi jogar beisebol com um dragão em algum lugar? Não, do jeito que as coisas estão, ele conseguiria fazer isso brincando)

Incompreensível, incompreensível, incompreensível.

Enquanto observava perplexa aquelas imagens chocantes que fariam a cabeça de qualquer um ferver, de repente Hikari se deu conta.

(Ué? Peraí......?)

Ninguém nunca viu uma cena dessas.

(Será que...... isso não ia viralizar horrores!?)

Sua ação após perceber isso foi muito rápida. Ela sacou o smartphone num instante e começou a filmar pelas costas, tomando o cuidado de não mostrar o rosto do seu tio. Apontando a câmera, ela abriu o aplicativo de vídeos, criou uma conta nova e iniciou a transmissão.

(Não posso usar o meu canal oficial, né. Iam descobrir na mesma hora quem eu sou)

Embora os procedimentos tivessem levado um tempinho, o massacre imparável do Satou não tinha hora pra acabar.

 

Bem no meio daquele massacre impiedoso onde ele rebatia os sapos como se fossem uma cortina de balas, a câmera capturou as costas dele.

 

Pão de Melão Anônimo Oh, novato? Parabéns pela primeira live.

Suichan LOVE É na Camada Profunda. Ele tá lutando contra os Diamond Frogs.

Ministro Sapo Sério? Não é na Camada Rasa?

Pão de Melão Anônimo Eu vi na live de conquista da Siren-chan. É aquele bicho com uma resistência física absurda, né?

Suichan LOVE Ela teve que encher eles de debuff com magia de água pra finalmente conseguir derrotar. É um bicho muito perigoso porque aparece em bando.

Ministro Sapo Eu queria ter visto a Siren-chan ficar toda gosmenta com os sapos...

MikoMiko Proibido falar de fetiche na primeira oportunidade [NG].

KOUJI Fazer a primeira live direto na Camada Profunda, o cara ou é um gênio ou um idiota completo, não tem meio termo, né?

Pão de Melão Anônimo Falando nisso, não tem uns monstros ainda mais perigosos mais pra frente?

 

(Hahahaaaa! Tão comentando pra caramba! Incrível!)

Logo após começar a transmissão, umas quatro ou cinco pessoas logaram. Era madrugada, fora do horário de pico, mas por ser uma primeira transmissão, os “escavadores” (scoopers / caçadores de canais desconhecidos), o chamado público de primeira viagem que surge do nada, pareceram ter mordido a isca.

(Na minha vez não veio tanta gente assim~!! Que injusto, tio!)

Por via das dúvidas, Hikari também é uma streamer. Ela já fez sua estreia e atua nas horas vagas da escola.

Porém, devido a certas circunstâncias, ela nunca viralizou e está longe de conseguir monetizar o canal.

Mas agora, com um ímpeto que superava em muito o canal da Hikari, os números de visualizações cresciam sem parar, e o show de rebatidas pesadas de poucos minutos ia cativando o público.

MikoMiko Sério isso, aquele sapo desgraçado tá morrendo com um hit só!?

KOUJI Não faz sentido nenhum... hã, é montagem? Não é CG ou algo assim?

Pão de Melão Anônimo Se o cara conseguisse fazer um vídeo fake tão incrível assim, já daria pra lançar um filme.

Suichan LOVE Deve ser alguma skill... mas eu nunca vi nada igual!

Ministro Sapo Será que ele não vai gritar “Skill ativar!” ou algo assim? Todos os grandes streamers fazem isso.

MikoMiko Isso aí, no começo eu achava meio idiota, mas é bem mais fácil de entender pra quem tá assistindo...

KOUJI Pior que é. Mas dizem que se você fizer isso contra monstros que entendem a linguagem, acaba revelando seus truques...

Sem saber de nada do que estava sendo falado sobre ele daquele jeito, Satou continuou caminhando.

Em algum momento, o ataque dos sapos cessou, e por toda parte espalhavam-se pedaços de carne esmagada, enquanto um forte cheiro de sangue empesteava o ar.

Os cadáveres dos monstros aniquilados viram poeira após um certo tempo, deixando para trás os itens de drop ―― moedas de ouro, joias, armas, ferramentas e, às vezes, partes do corpo que servem como materiais.

Que trabalho do cão... mas, também não posso simplesmente deixar esse lixo abandonado por aí.

Dizendo isso com uma clara expressão de preguiça, Satou procurou nos bolsos.

Uma sacola plástica de loja de conveniência dobrada ―― com a logo de uma loja próxima estampada nela, e ele começou a jogar os itens espalhados lá dentro. Diz-se que as relíquias das Dungeons não são matéria pura, mas sim coisas virtuais formadas por poder mágico que alterou sua forma.

A teoria exata ainda não foi esclarecida, mas uma quantidade absurda de moedas de ouro foi recolhida de uma só vez com as mãos e despejada com um som metálico para dentro da sacolinha. Armas e armaduras deslumbrantes, além de itens cujo uso era desconhecido, tiveram o mesmo destino.

 

Etsutarou Incrível... Ele vai catar o loot todo pra ele. O cara não tá lucrando pra caralho?

MikoMiko Ele tá solo, né. Tenta imitar se for capaz, você vai morrer na hora.

Pão de Melão Anônimo É um mundo onde se tira milhões por hora. Pelo que eu tô vendo, é real, ele tá conquistando tudo na raça e sozinho.

Suichan LOVE E tá ignorando até o cameraman, né. O tiozão solitário...

 

Os itens que ele recolhia com tanta preguiça renderiam uma fortuna incalculável se fossem vendidos pelos meios legais. Porém, Satou não tinha a menor noção de que estava manuseando rios de dinheiro, tratando tudo de forma desleixada, quase como se fosse lixo.

Esse comportamento passava uma aura de veterano que passava longe de um amador, atiçando cada vez mais a curiosidade dos espectadores que não paravam de chegar.

Acho que é só isso. ……Hm?

Quando já tinha praticamente terminado de recolher o “lixo”, Satou parou de andar de repente.

As ruínas retorcidas acabavam abruptamente ali. Uma montanha de escombros que se abria em um formato circular, lembrando um antigo coliseu. E logo além daquilo, estendia-se um imenso lago subterrâneo, com a superfície da água perfeitamente serena.

……SPLAASH!!

Bem no centro do lago subterrâneo ―― ondulações se espalharam, e de repente uma quantidade absurda de água espirrou para o alto.

E aí. Quanto tempo.

Satou levantou uma das mãos e falou como se estivesse cumprimentando um velho conhecido.

Uma Serpente Gigante de Diamante. Não, o tamanho daquilo já a classificava como um Kaiju Monstro Gigante. Com um tronco tão grosso quanto o de um caminhão de grande porte, seu corpo era completamente coberto por escamas cristalinas cintilantes, possuindo resistência contra qualquer tipo de ataque físico ou magia.

As presas enfileiradas na mandíbula roxa, que se abriu bruscamente, gotejavam um veneno letal de outro mundo que desafiava as leis da física.

O pior status negativo, odiado e temido pelos aventureiros tanto quanto a Morte Instantânea: a Petrificação. Se alguém sem resistência ou imunidade fosse atingido, seu corpo enrijeceria na mesma hora, transformando-se completamente em pedra e ficando incapacitado.

E, acima de tudo, um poder colossal condizente com seu corpo gigantesco. A força de um único golpe de sua cauda era suficiente para partir um prédio ao meio; se por um acaso essa criatura fosse solta fora da Dungeon, causaria um efeito dominó de destruição catastrófico.

O Guardião de Andar Nv. 140 Area Boss, Serpente(Diam) Gigante(ond) de Diamante(Boa).

Um monstro colossal que exigiria que os aventureiros formassem uma Raid(Grupo de Incursão) ultrapassando os limites de uma simples party, precisando de dezenas de pessoas atacando juntas para ter chance de derrotá-lo ――.

(Gigaaaaaaante!! Não, é impossível, por mais forte que o tio seja, isso é impossível!?)

Escondida, Hikari perdeu até as palavras, apenas tremendo sem parar.

A imagem capturada pelo smartphone trêmulo foi transmitida com alguns segundos de atraso, e a multidão mob que assistia teve a mesma reação.

Ministro Sapo Tá de sacanagem!? Grande demais, é quantas vezes maior que os sapos!?

Pão de Melão Anônimo Umas 100 vezes maior, eu acho. Só no olhômetro.

MikoMiko Não manda a real agora que fode a piada... mas sério, é impossível aquilo!

Suichan LOVE Alguém traz um robô gigante! O que um tiozão armado com taco de beisebol vai fazer contra... isso!?

 

Os comentários confusos inundaram a tela como uma tempestade de balas.

Diante da Serpente Gigante, Satou assumiu silenciosamente a sua postura de rebatida ―― e, virado de costas para o público onde ninguém podia ver, ele deu um sorriso diabólico.

Eu vou com tudo. ……Me diverte um pouco!!

SHAAAAA!!

A serpente rugiu enquanto passava a língua pelos lábios. Não era um som vocal, mas sim um ruído intimidador feito pela vibração de sua cauda.

Arreganhando as presas, ela deu o bote, avançando com força suficiente para arrancar todo o chão onde Satou estava pisando.

Na tela, a silhueta do homem foi engolida, parecendo ter se tornado uma presa indefesa…… ou foi o que pareceu, até uma fração de segundo depois.

――Hah!!

No instante em que ele apertou a mão ao redor do taco, os músculos de todo o seu corpo incharam.

O paletó barato, que ele usava propositalmente um tamanho maior para ficar folgado, esticou até o limite, quase estourando. Na camisa manchada de suor e sangue respingado, veias grossas e feixes de músculos saltaram com violência.

 

No exato momento em que as presas avançaram sobre o homem, o taco de cor dourada opaca ――

 

GOH…… KIIIIIIIIIIING!!

 

Muito mais pesada que a dos Sapos Gigantes, mas ainda assim, o som estrondoso e satisfatório de um impacto bem no centro ecoou pelo ar.

 

Ministro Sapo Hã?

Etsutarou Ahn?

 

Incapazes de processar a situação, a tela foi inundada por comentários que mal conseguiam expressar a total perplexidade do público.

O corpo colossal da serpente gigante, cuja cabeça por si só já era do tamanho de um caminhão grande, foi literalmente jogado longe.

Arremessado com uma força que parecia ter vindo de um motor de foguete, o monstro quicou pela superfície do lago subterrâneo e colidiu com força total na margem oposta. Afundando nos escombros de forma a desenhar um “S” com o próprio corpo, ele foi esmagado, com os ossos estilhaçados rasgando a carne e saltando para fora por toda a parte.

Um golpe ―― apenas um golpe.

Apenas aquilo foi o suficiente para a morte instantânea, e logo o cadáver destroçado começou a virar poeira. Assim que a névoa escura que cobria a área se dissipou junto com ele, uma quantidade colossal de moedas de ouro e pedras preciosas, que superava de longe a de todo o bando de sapos somado, transbordou e se espalhou até os pés de Satou.

(Haaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!?)

Hikari cobriu com as duas mãos a boca que estava prestes a soltar um grito a plenos pulmões e, com os olhos arregalados, berrava internamente.

Ele é forte. Não, “forte” não chega nem perto. Era literalmente uma outra dimensão ―― uma anomalia extremamente brutal, como se tivessem enfiado um game de simulação de beisebol profissional no meio de um mundo de RPG de fantasia.

Bom, acho que é isso. ……Meio leve demais pra um golpe final, né.

O mais assustador de tudo é que, enquanto curtia a sensação de ter feito o swing perfeito com o taco, Satou soltou essa frase com uma voz levemente insatisfeita.

 

Fã da Sena-sama O que foi isso agora, que absurdo!? Deu um barulho muito foda!!

Aaaaa Fakezada, pqp. Fazer isso aí com edição de vídeo é fácil. Nem ferrando que ele mataria aquilo com um taco desses.

Gallleo ……Usar deepfake em live stream em tempo real é meio impossível, não? O bagulho é ao vivo.

Pão de Melão Anônimo O cara tomando hate do nada logo na primeira live, lol(rachei). Temos um novato promissor na área!

Suichan LOVE Mais pra um tiozão do que pra um novato!

 

Ooooh……i-isso é!?

Na tela do smartphone em suas mãos, Satou recolhia as moedas de ouro do chão com a maior preguiça do mundo.

Uma live que fugia de qualquer senso comum. A lenda insana e absurda do abate de um Boss nível Raid com um hit kill solo estava se espalhando com tudo, e bem agora...

...estava atraindo atenção como se tivesse pegado fogo, com o número de inscritos no canal e de espectadores simultâneos só aumentando.

O milagre…… com o qual todos os streamers sonham e almejam desesperadamente!

 

(Aí siiiiiiimmmmmmmmmm!! Viralizou pesado!! Você é o melhor, tio! Isso é, isso é……!!)

 

O número de inscritos ultrapassou os 10 mil e continuava subindo.

Uma imagem que não tinha nada de especial de se ver ―― moedas de ouro, tesouros e um tiozão “catando lixo”. Aquela visão distante das costas de um homem cujo rosto sequer dava pra ver direito tinha prendido a atenção de mais de oito mil pessoas simultaneamente.

 

(Esmagador!!! É o cheirinho do dinheiro!!!)

 

Enquanto quebrava a cabeça pensando em como diabos iria encerrar uma live que estava viralizando daquele jeito...

Hikari apenas continuou ali, fascinada pelas costas daquele herói.






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