■ Fragmento: Declaração de Guerra

 

 

 

​◆

 

Tenho um sonho.

Um sonho onde alguém puxa a minha mão.

Uma mulher sorri e diz “Desculpe”.

Um homem me encara e diz “Você não tem o direito de nos odiar”.

Estava nevando muito.

Estava muito, muito frio.

A partir daquele dia, eu sempre estive sozinha.

 

​◆ Cidade Dungeon Ouka · 336ª Dungeon Tokoyami 3º Ponto Intermediário

 

Já passava das vinte horas quando a Jupiter acordou.

Onde... eu tô?

A garota disse.

QUEM é você?

A garota me perguntou.

Tá dormindo acordada, Jupiter? Sou eu, eu. Shimizu Kyouichirou.

EU não conheço ninguém com esse nome.

............Hã?

Eu não entendi o que ela quis dizer. Não havia nenhum sinal de que fosse brincadeira. Os olhos da garota estavam genuinamente apavorados, como se realmente...

...Não, eu conheço. KYOUICHIROU, e essa é a HARUKA.

O calor horrível que havia se acumulado nas minhas costas se dissipou na mesma hora. Que susto, ela só estava grogue de sono mesmo.

Bom dia, Jupiter. Tá tudo bem? Digo, com tudo.

Tudo b... Ah.

Os olhos vermelhos da garota se arregalaram aos poucos.

Aparentemente, as memórias nebulosas estavam voltando pouco a pouco.

EU ... EU, o Keraunos...

Um fraco relâmpago negro percorreu o corpo da garota. Uma péssima tendência. No entanto, já era um desdobramento que eu tinha previsto.

(Vou ter que mandar aquela logo de cara, é?)

Só havia uma coisa a se fazer. Antes que a Jupiter explodisse de culpa, eu iria jogar um evento totalmente diferente...

E é por isso, Yaldas-san────!

...direto em cima dela!

Tratem de dar as melhores boas-vindas possíveis para a nossa garota!

O comando que eu me esforcei para soltar num tom bem alegre chegou instantaneamente aos alienígenas gelatinosos pela área.

Gelatinas vibrando. Gelatinas se aproximando de todas as direções. O clima tenso foi pro espaço num piscar de olhos!

Hospitalidade~! Vamos oferecer hospitalidade~!

Eu não entendi muito bem, mas parabéns, Jupiter-san!

Este humilde samurai irá apresentar uma canção para comemorar, de gozaru.

Saltitando animadamente num alvoroço, os alienígenas gelatinosos roxos partiram pra cima da cama onde a Jupiter estava deitada.

E aí, Jupiter? Cercada por um exército de cabeças-de-vento desses, duvido que até mesmo você consiga ficar se remoendo de culpa tão fácil.

KYOU... KYOUICHIROU, o que é tudo isso!?

O que é? É uma festa, ué. Eu já tinha pedido antes pros Yaldas-san prepararem uma recepção calorosa para a MVP de hoje.

Não, EU não────!

Paaara tudo! Se quiser que a gente te ouça, primeiro enche essa barriga. No momento, você tá com uma falta gravíssima de carne e açúcar no organismo!

No momento que eu estalei os dedos, os alienígenas gelatinosos segurando espetinhos assados começaram a atacar a boca da Jupiter com um “diga aaaa” em sincronia.

Pa-para! Eu entendi, eu como, eu vou comer... mas me deixa comer no meu próprio RITMO...!

Vamos oferecer hospitalidade~!

Wasshoi! Wasshoi!

Incontáveis cópias de mascotes brincando (unilateralmente) com a garota de cabelos prateados.

Literalmente, um momento de glória para os supremacistas da hospitalidade.

Que cena relaxante, né.

Pois é.

E nós dois ficamos apreciando a Jupiter sendo cercada por eles de uma distância um pouco mais afastada.

 

 

​◆

 

Qual é... a INTENÇÃO de vocês...?

Após a refeição, a primeira frase que saiu da boca da Jupiter continha um tom claríssimo de protesto.

Intenção? Do quê?

EU causei um problema gigantesco para VOCÊS dois. Então, por quê?

Hmm. Troquei olhares com a Haruka ao meu lado e tombei a cabeça de um jeito exageradamente teatral.

Problema? Do que é que você tá falando?

Eu não tô lembrada de nada... Kyou-san, você sabe de alguma coisa?

Não. Lógico que não.

Uma farsa na cara dura.

Porém, metade daquilo era sincero.

E para provar isso, eu emendei mais algumas palavras.

Ah, por acaso, Jupiter, você tá encanada com aquele pai Monster Parent? Nossa, aquele cara, é? Foi mal, ele tinha tão pouco impacto que eu tinha esquecido dele completamente até agora.

O que VOCÊ... tá dizendo...

Os olhos vermelhos da Jupiter se arregalaram o máximo que podiam.

E não era pra menos.

Ela jamais deve ter imaginado nem nos seus sonhos mais loucos que o símbolo da calamidade, que passou a vida inteira jogando uma sombra escura sobre ela, seria tratado com tanta leviandade.

Dava para ver claramente que ela estava quase entrando em pânico, mas por um motivo bem diferente de quando tinha acabado de acordar.

É óbvio que o Keraunos atacou VOCÊS...

Atacou? Opa, opa, você quis dizer “brincou”, né? Como você pode ver, eu e a Haruka estamos ilesos. Não conseguir dar um pingo de dano sequer nuns novatos... esse seu Velho do Trovão é bem manso, hein.

...Ah.

Olhando alternadamente para os nossos corpos iluminados pela fogueira, ela finalmente pareceu entender a situação.

Isso mesmo. Nós não estávamos feridos.

Normalmente, se você tomasse um banho daqueles relâmpagos negros — que possuíam o atributo duplo de eletricidade e miasma —, não sairia inteiro, mas nós estávamos estupidamente inteiros.

O que isso significa é que...

Sério que vocês passaram por aquilo ilesos...?

E não é isso que eu tô dizendo?

E foi super empolgante, né!

Não foi nem um pouco empolgante, mas eu concordei para acompanhar o sistema estelar.

Graças a isso, a Jupiter deu uma leve recuada estranhando a gente, mas, fazer o quê, é como se fossem despesas operacionais necessárias. Eu aceito de bom grado.

Mas, é um fato que por MINHA causa, EU causei problemas extras pro KYOUICHIROU e pros outros...

Se você for falar isso, a culpa também é minha. Se eu tivesse defendido direito a bola de fogo daquele maldito pássaro desde o começo, a gente não teria chegado nessa situação.

Eu não devia ter só rasgado ele em oito pedaços, devia ter picado bem miudinho, isso sim. Desculpa, Jupi-chan.

Nós dois abaixamos a cabeça numa reverência.

É isso aí. O que rolou no 15º Andar não é responsabilidade só da Jupiter.

Mesmo sabendo das circunstâncias, a responsabilidade de ter deixado o ataque passar e acertá-la também é nossa.

Por isso, os erros a gente divide certinho entre nós três.

Dar uma de vítima está fora de cogitação, de jeito nenhum.

Ninguém se machucou, e a cagada foi uma falha de todos nós.

Por isso que a Jupi-chan não precisa carregar tudo sozinha.

A boca da Jupiter se abriu, boquiaberta, como se tivesse perdido a alma.

Por que vocês fariam tanto assim... por alguém como EU...

”Alguém”, uma ova. Você é a nossa esplêndida Atiradora.

Na batalha de hoje, a gente foi muito salva graças à Jupi-chan. Então agora, é a nossa vez de ajudar a Jupi-chan.

Fazendo cafuné, as palmas aparentemente macias da Haruka acariciaram a cabeça da Jupiter gentilmente.

EU... não conheço esse tipo de coisa.

A garota fez a garganta tremer, como se estivesse espremendo as palavras.

Todo mundo, todo mundo tem medo de MIM. Todo mundo, todo mundo ME afasta.

A gente vai ficar com você.

O MEU poder machuca os outros, e é por isso que EU sou a culpada...

Não tem uma única pessoa sequer aqui e agora que foi machucada pelo seu poder. Por isso, a culpa não é sua ──── não, na verdade, você nunca teve culpa de nada em momento nenhum.

Vendida pelos pais, forçada a carregar um poder que não queria, mas se não dependesse desse poder, não conseguiria sequer sobreviver.

Quem é que teria coragem de te tratar como a vilã depois de você suportar tanta merda dolorosa até agora?

EU sempre tenho um sonho... Um sonho onde um homem e uma mulher que não conheço ME levam andando pela neve... No final, as pessoas da instalação sempre aparecem, e aí...

Foi tão difícil, você sofreu tanto, né...

EU estou sempre sozinha.

Com força, os dois braços da Haruka abraçaram apertado o corpo frágil da garota.

A Jupi-chan não tá mais sozinha! A gente vai estar sempre do lado da Jupi-chan! Vamos nos aventurar muito, vamos brincar muito, tá bom? Muito, muito mesmo...!

As costas do sistema estelar tremiam sutilmente.

Ah, cara... Até onde você consegue ser uma mulher tão incrível?

Por causa disso, até os meus olhos tão começando a... merda!

Resumindo a ópera, a gente encerra esse assunto por aqui. Daqui pra frente, você continua sendo a Atiradora da nossa party. Pode tratar de ter um desempenho impecável na nossa próxima batalha também!

Até eu reconheço que estava com uma voz anasalada terrível de choro.

Mesmo assim, a mensagem deve ter chegado nela. O rosto inexpressivo da Jupiter, no fim, concordou brevemente com um “Uhum”.

Beleza! Então, com isso a nossa sessão de autoavaliação tá encerrada. Vamo fazer o briefing pra nossa próxima luta!

Batalha...? A conquista do 20º Andar...?

Não, não.

No meio da escuridão, balancei as mãos exageradamente para que ficasse um pouco mais fácil de me enxergar.

Nós vamos dar um tempo antes de conquistar o 20º Andar. Nesse meio-tempo, apareceu um inimigo que eu quero derrotar de qualquer jeito, então a gente vai priorizar derrubar ele.

Inimigo... quem...?

Os olhos vermelhos sem muita expressão se cruzaram com a minha cara de malfeitor.

Um monstro que você conhece muito bem. Um pai patético que exagerou tanto na superproteção que virou um lixo tóxico completo.

............!

Parece que ela sacou.

Era óbvio que ela ia saber. Afinal, no momento atual e nessa situação, só existe um ser que pode ser chamado de nosso inimigo em comum.

É o Keraunos. Vamo amassar aquele Velho do Trovão surtado e botar ele no devido lugar pra ele aprender a lição.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

​◆

 

Eu já havia feito a minha declaração de guerra.

Então agora, só resta lutar.

Com a nossa força, e a da Jupiter...

Nós vamos virar esse destino de merda do avesso, sem falta.

 

Nós vamos agarrar o nosso futuro.

Fim do Volume 2

Continua no Volume 3

 

 

 

 

 


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