■ Capítulo 22: Keraunos

  

 

Cidade Dungeon Ouka · 336ª Dungeon Tokoyami 15º Andar

 

O último ataque de todas as forças do Camac, disparado em troca da sua própria vida.

O impacto da bola de fogo gigantesca, que parecia a personificação da condensação do ódio puro, passou raspando de leve por mim, que estava no estado da Defesa(Force) Quadridimensional(Field).

Ferrou.

Agindo com esse instinto, cancelei a Defesa(Force) Quadridimensional(Field) na mesma hora e fui para o recovery.

Jupiter!

“Por favor, que dê tempo”, rezava na minha cabeça enquanto me virava pra trás.

Eu não acho que um ataque desse nível faria algum mal para a Jupiter.

Mas o problema é se ela tiver a mínima noção ou percepção de que “foi atacada”. Isso não pode acontecer.

Não se trata de conseguir defender ou não.

Não tem a ver com a quantidade de dano.

O gatilho é apenas o instante em que “a filha, Jupiter, se sentir em perigo”...

Ah...

──── Aquilo entra num estado de fúria cega.

AWOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

Um rugido de ira ecoou pelo mundo.

Os céus se tingiram de preto e raios de um breu absoluto despencaram na terra.

A entidade que se manifestou foi uma fera negra como a noite. A encarnação de um ancestral que aniquila sem exceções qualquer coisa que ouse causar mal ao seu mestre, não, à sua própria filha.

O Poder Divino modificado por um grupo de cientistas hereges sem alma, que teve a instalação forçada exclusivamente da emoção da Paternidade, acabou de ser liberado no pior timing de todos.

(Ferrou de vez.)

Eu me apressei para passar os comandos pra Haruka, mas foi tarde.

Ou melhor, acho que nesse caso a reação daquele bicho foi infinitamente mais rápida.

Com uma velocidade literal de um relâmpago, o cenário de todo o 15º Andar virou de cabeça para baixo.

Como primeiro movimento, a fera engoliu a Jupiter para dentro do seu próprio corpo.

Ela abriu aquela boca enorme tomada pelas trevas e abocanhou sem piedade o corpo inteiro da garota, que estava num estado de choque e vazia.

Mas isso não era predação. O objetivo da ação era exatamente o oposto.

Ele estava substituindo a nossa incompetência para proteger a sua amada filha.

Ele a engoliu para o interior do ser mais forte que existia naquele exato momento, numa tentativa de blindá-la de absolutamente todo e qualquer inimigo externo.

De certa forma, é uma façanha causada pelo ápice do amor paterno. Mas claro, ali não havia vontade nenhuma da filha. Um instinto de proteção deturpado, num monólogo puramente de mão única.

WOOOOOOO!

Junto a um relinchar negro, a bola de fogo suicida que a ave gigante havia lançado foi esmagada como se não fosse nada.

Com a mesma facilidade de uma escavadeira tratorando um palito de fósforo aceso, o Last Attack da Ave Monstruosa do Dilúvio foi sumariamente apagado.

O ataque suicida apostando a própria vida desabou diante de um mero pisar das patas dianteiras ──── uma disparidade de força que trazia o puro desespero. De forma extremamente fácil, irracional e absurda, a resistência final do Camac chegou ao fim.

E então...

AWOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

E então, finalmente, o expurgo dos culpados começou.

Ao mesmo tempo que Aquilo ergueu o seu segundo rugido, todos os raios negros que despencavam do céu se transformaram em armamentos com foco direcional cravado num alvo.

Os estrondos dos raios vorazes estavam sendo engolidos pelos alvos odiosos e inimigos que ousaram mirar na filha dele.

Os inúmeros pedaços de carne que um dia atendiam pelo nome de Camac, cada um deles foi impiedosamente calcinado pelo fogo e pelos raios furiosos e reduzidos a pó.

O clima estava ensandecido e a terra ficava cada vez mais devastada.

A causa daquela calamidade que não seria exagero nenhum chamar de catástrofe natural continuava disparando a sua “Ira” mesmo depois que os culpados já não existiam mais.

Era uma fera gigantesca.

Com um comprimento que ultrapassava de longe um caminhão de grande porte, ela carregava uma forma bizarra que misturava as características de diversos carnívoros.

Se não fosse por causa daqueles pelos eriçados totalmente enegrecidos de um breu absoluto e da enorme quantidade de relâmpagos negros emanando dela, seria fácil classificar aquilo como uma criatura quadrúpede super feroz, mas...

Haaah, sinceramente.

...Velho do Trovão!

Se possível, eu realmente não queria te ver.

Mas, no fim das contas, nós o trouxemos pra fora. Acabamos fazendo com que ele saísse.

E a simples e exata tradução disso é o atestado de que não conseguimos proteger a Jupiter até o fim. Uma sombra sombria e pesada desabou no meu coração. Me deu vontade de me dar um soco ali na mesma hora por ser tão patético. Mas...

Haruka, vem pra cá enquanto intercepta os raios negros que caem de cima!

Entendido!

Diante de uma situação de emergência dessas, eu não tenho a mínima folga de tempo pra ficar bancando a vítima com pena de mim mesmo.

Nós corremos no meio daquele campo de batalha cruzando a chuva de raios negros até conseguirmos reagrupar, e logo em seguida ficamos lado a lado pra fechar a formação defensiva.

Eu fico responsável por anular os ataques que vierem de frente com a Defesa(Force) Quadridimensional(Field). Haruka, você cuida da defesa contra os relâmpagos de cima usando a Soukyuu. Pra sua própria autodefesa, não esquece de aplicar o Shelled(Fortalecimento de Armadura) e a Reflect(Mitigação de Impacto) nos ouvidos, tá? Bom, alguma dúvida até aqui?

Tudo bem, Kyou-san? Sua cara tá pálida.

Deve ser a falta de sono cobrando o preço. Foi mal. Da próxima vez eu vou me cuidar mais.

Com uma desculpa furada só pra mudar de assunto, eu ergui a Defesa(Force) Quadridimensional(Field) na mesma hora. O mundo ficou pintado em monocromático e o meu corpo transitou para uma forma quadridimensional.

Levantei a Eckesachs na forma de Lâmina Grande num ângulo acima e à frente para expandir a área e reforçar a hitbox do escudo, fazendo a Haruka recuar para estarmos preparados para a ofensiva do bicho, não importava quando viesse.

(Pode vir, seu bicho feio!)

E, como o esperado, a fera se moveu.

A boca do Keraunos foi tomada pelas trevas. Um feixe de clarões explodiu. Um relâmpago rasgou os céus. Trovoadas ecoaram.

Um raio de breu, de tamanho colossal e com uma energia espiritual tão densa que era visível a olho nu, começou a ser carregado nas presas dele. O Velho do Trovão abaixou a postura rente ao chão, virando a bocarra direto pra nossa cara, e...

AWOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

E no exato momento em que o poder espiritual chegou ao nível crítico, a minha visão em preto e branco foi totalmente engolida pelo negro.

O sopro de raios negros disparado pela besta para esmagar e aniquilar qualquer coisa que respirasse e tivesse uma barra de HP.

Não existe capacidade de separar o certo do errado ou amigos de inimigos dentro do Velho do Trovão.

A regra é o wipe out imediato; se a filha tomou um susto ou sentiu estresse, a carnificina é o sistema de resposta.

Intenção Assassina. Intenção Assassina. Uma vontade assassina abissal e sem fundo.

Eu só podia receber de frente e aguentar toda aquela sede de sangue esmagadora disparada pelo animal, preenchida até o talo com uma densidade e quantidade absurda de calor.

Dentro de um espaço onde as cores morreram e o som era inexistente, travado no lugar sem poder mover um único dedo.

​​Entendo, um Pai Tóxico ainda pior do que dizem os boatos, pelo visto.

Uma voz bela e afiada atravessou a minha mente, que estava completamente preenchida pelas leis da quarta dimensão.

Himinglaeva Albion. Como a deusa do tempo, apenas ela consegue se mover livremente até mesmo dentro deste mundo.

Eu respondi. Não com a garganta, mas fazendo a minha própria alma vibrar para devolver as palavras à Al.

Mais do que Pai Tóxico, eu pessoalmente acho que o termo Monster Parent encaixa muito melhor.

Monster Parent. Se não me engano, vocês abreviam isso para “Monpe”, não é? Humm. Para o meu Master, até que você fez um comentário bem cirúrgico.

Ela é sempre assim, tem que soltar uma frase a mais do que devia.

No entanto, na situação em que estamos agora, até mesmo as ofensas dessa deusa maligna são motivo de gratidão.

O mundo da Defesa(Force) Quadridimensional(Field) é solitário.

Não há sons, e a visão é monocromática.

Não tem absolutamente nada aqui.

Por isso, num estado dominado por esse silêncio negro, o simples fato de poder conversar com alguém já me traz um alívio enorme.

A ponto de me dar vontade de desabafar as minhas fraquezas.

Eu falhei.

O meu coração aperta. Uma sensação de impotência e culpa transborda de mim como lágrimas.

Não consegui parar o Keraunos.

Depois de ter pagado de machão e falado tudo aquilo pra Jupiter ontem, acabo entregando esse papelão.

Fico com nojo de mim mesmo por ser tão patético.

​​Ei, Al.

Eu perguntei.

Mesmo que a gente consiga sobreviver e passar por esse aperto, o que é que eu vou dizer para ela?

Preso naquela escuridão sem saída, fiz à Al uma pergunta que não tinha resposta.

Não vou dizer que é uma regra absoluta, mas o tempo de duração da skill de Manifestação, onde o espírito aparece com um corpo físico, geralmente é bem curto.

Se a gente colocar na conta os ataques em área indiscriminados caindo do céu e a ativação múltipla desse Sopro de Relâmpago Negro com um poder destrutivo colossal, dá pra prever que a Manifestação dele deve durar no máximo uns poucos minutos.

Com a minha Defesa(Force) Quadridimensional(Field) no nível atual, que foi ainda mais fortalecida depois das experiências na dungeon e do combate mortal contra o Sillard-san, as chances de eu conseguir tankar e vencer na resistência são bem altas.

Mas, infelizmente, isso só serviria como um tapa-buraco temporário.

Mesmo que a gente aguente dessa vez, assim que o poder espiritual e o estresse da Jupiter se acumularem de novo, ele vai se manifestar novamente.

Se isso acontecer, a Jupiter vai se culpar ainda mais do que já está se culpando agora.

Se ela se culpar, obviamente, o estresse vai se acumular.

Se o estresse se acumular, o Velho do Trovão vai ficar ainda mais ativo.

Isso é andar em círculos. Um loop infinito de um ciclo vicioso que não tem fim.

Só de pensar, já me dá calafrios.

Tudo vai ficar bem. Sendo você, Master.

A resposta que voltou foi incrivelmente irresponsável.

Tudo bem o cacete!

Um sentimento parecido com o de querer descontar a raiva em alguém transbordou. As palavras que eu falava na minha mente naturalmente se tornaram ásperas.

Não tá nada bem, porcaria nenhuma! Palavras vazias minhas não vão conseguir secar as lágrimas dela. Mesmo ganhando habilidades cheat, eu não consigo proteger o sorriso de uma única garota... por que eu sou um mob tão inútil!?

Mesmo sabendo que eu estava só descontando a minha frustração, o meu coração estava descontrolado de um jeito patético.

Eu sei disso. Tudo isso é culpa da minha fraqueza.

Droga, se pelo menos eu tivesse um pouco mais de aptidão para longa distância...!

Isso mesmo. É exatamente isso, Master.

?

A voz da Al ressoou nos meus pensamentos.

Diante daquela afirmação sem pé nem cabeça, a minha mente irritada se encheu de pontos de interrogação.

O que diabos seria “isso”?

Por causa da imaturidade da sua própria força, você acabou machucando os membros da sua party ──── e é por isso que o Master está amaldiçoando a si mesmo, e ela também sofrerá com esse mesmo tipo de ferida daqui para frente. Sendo assim, as palavras que você deve dizer são óbvias. Dê a ela exatamente o mesmo consolo que você deseja para si mesmo agora. Fazendo isso, conflitos desnecessários serão evitados.

Aquilo foi um conselho de ouro que abriu os meus olhos.

Uma ideia tão genial que nem parecia ter saído da boca de uma mulher que, normalmente, só sabe cuspir ofensas.

Felizmente, você ainda tem um tempinho de sobra para ficar remoendo os seus pensamentos. Trate de pensar desesperadamente nas palavras que vai dar a essa garota ferida.

É... tem razão.

Enquanto encarava aquele mundo tingido de negro, dei um longo e profundo suspiro mental.

 

...Eu me acalmei um pouco.

Com isso, talvez eu consiga pensar numa ideia um pouco melhor.

Segurando a minha mente febril, pensei fortemente na Jupiter.

Uma garota de um país estrangeiro que sempre foi atormentada pelo terror de acabar machucando alguém por causa do descontrole do Velho do Trovão.

A culpa e a sensação de impotência de ferir alguém pela própria falta de força ──── agora, eu entendo os seus sentimentos de um jeito que chega a doer.

Mas, mesmo assim, você deu o sangue e se esforçou pra caramba para continuar olhando para frente, né.

Mesmo sendo só uma pirralha, se esforçando sozinha para não ser um peso para ninguém... ah, que merda! Um mundo onde alguém que se esforça tanto assim não é recompensado é completamente doente!

A família! A sociedade! Os espíritos! Ninguém, absolutamente nenhuma alma sequer, tratou ela como um ser humano de igual para igual!

...Crianças não são brinquedos, porra.

Por que ninguém reconheceu alguém tão incrível assim?

Por que não deram um lugar para ela pertencer?

Por que não acreditaram nela até o fim?

No mundo do passado, o motivo da Jupiter ter segurado a mão da Organização não foi por passar necessidades.

Foi porque ela sempre esteve sozinha.

Vendida pelos pais, transformada em cobaia por pesquisadores hereges, tratada como um lixo radioativo na terra estrangeira em que foi parar... se um demônio aparecesse sussurrando “você não tem culpa de nada” numa hora dessas, qualquer um iria querer se agarrar a ele, não é?

Se existisse pelo menos uma única pessoa que servisse de porto seguro para ela, com certeza ela não teria acabado daquele jeito. E mesmo assim, por que...

...Entendi.

Click. Senti uma peça se encaixando na minha cabeça.

Tive a sensação de que uma pequena luz se acendeu naquele mundo tingido de negro.

Mas o quê, era uma coisa simples assim?

Chega a ser idiota eu ter ficado esquentando a cabeça.

É isso aí. Se ela não tem um porto seguro, é só eu criar um.

...Al. Eu encontrei. As palavras que eu tenho que dizer.

Sou toda ouvidos.

E assim, eu────

 

 

Haruka!

Eu gritei. No mundo que havia recuperado suas cores, na terceira dimensão onde pairava o gosto de sangue.

Ainda... ainda dá pra continuar!?

O Sopro de Relâmpagos Negros já havia cessado. Por ter spammado ataques supremos, o poder espiritual necessário para manter o estado de Manifestação estava quase zerado. O Keraunos não movia um músculo. Ele apenas nos encarava com ambos os olhos.

Uma expressão que parecia dizer: “Vou deixar passar por hoje”. O olhar de um dominador, que misturava ódio, zombaria e pena, soprou um ventinho de covardia no meu coração.

Não, para falar a verdade, se eu fosse pensar na eficiência e em salvar a minha própria pele em primeiro lugar, acho que eu só deveria ter aceitado o silêncio dele.

Se eu ficasse encolhido de medo, se eu caísse no chão, ou até se eu simplesmente agisse para não cutucar a onça com vara curta e não atiçar o Velho do Trovão enfurecido... Todos esses arrependimentos que passavam na minha cabeça eram lógicos, corretos e muito, muito tentadores.

Porém.

Vamos derrotar aquilo ali.

Se for assim, não dá. Não serve. Eu, nós, não conseguimos parar o descontrole do Keraunos. Fizemos a Jupiter machucar os próprios companheiros. Com certeza, quando ela acordar, vai se culpar. Vai pedir desculpas um milhão de vezes.

──── Eu tenho que ser capaz de dizer pra ela que “não foi nada demais”. Eu preciso rir na cara dela e dizer que “chutei a bunda dele facinho”.

Como se eu fosse deixar uma cópia barata produzida em massa dar o fora e me poupar.

Eu não vou deixar ele dar quit e fugir com a vitória. Nós vamos esmagar esse Velho do Trovão com as nossas próprias mãos.

Um impacto como um relâmpago percorreu as minhas costas. O som de um tapa estalado, uma resposta enérgica bem a cara dela.

Bem falado!

A Haruka, que estava escondida atrás de mim, ficou do meu lado.

Esse sim é o Kyou-san! Ficar esperando aquele bicho dar despawn sozinho não tem a menor graça!

Com um sorriso feroz, mas ao mesmo tempo lindo como o gelo, o sistema estelar empunhou a espada.

Vamos lá derrubar ele.

Pode apostar.

Eu arrumei uma parceira realmente confiável. Se eu estiver com ela, sinto que consigo fazer qualquer coisa. O meu coração acredita firmemente que podemos rir e superar qualquer obstáculo.

A barra de MP dele já tá praticamente morta. É quase impossível ele disparar outro ataque do nível daquele Sopro gigante de agora há pouco.

Ao olhar para a frente, a besta de relâmpagos negros estava em silêncio. Fazendo pequenos raios estalarem ao seu redor, apenas nos olhando de cima... olhando de cima.

──── Hã?

O Keraunos se moveu.

Rugindo, a pata dianteira direita, balançada com força e com uma velocidade desproporcional àquele corpo gigantesco, criou uma sombra ao nosso redor e colidiu.

「【Defesa(Force) Quadridimensional(Field)!

Contra aquele ataque primitivo, a nossa abordagem foi evasão e defesa. A Haruka saltou no ar como um coelho, e eu recebi o golpe de frente. Um pisão descendo com força total. Com o ímpeto de quem parecia querer punir o insolente que desprezou a sua misericórdia, a pata dianteira dele esmagou o meu corpo, e então...

(Se destrói aí, seu idiota.)

A pata dianteira direita do Keraunos, que pisou no meu corpo — o qual havia ganhado uma rigidez imbatível graças à Defesa(Force) Quadridimensional(Field) —, obviamente se esmigalhou inteira.

Cancelando a magia na mesma hora, levantei a minha espada grande para mandar um contra-ataque massivo no Velho do Trovão que, literalmente, desmoronou a própria perna, e...

AWOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

No instante seguinte, incontáveis relâmpagos negros choveram por toda a área ao redor. As “sementes” das magias que ele tinha deixado em prontidão em volta explodiram. Meu coração gelou e um suor frio brotou nas minhas costas. Recuei estalando a língua. Com um segundo de atraso, os relâmpagos negros atingiram o lugar onde eu estava, e, com mais um segundo de atraso, as seis cópias da Soukyuu bateram de frente com a grande tempestade varredora de raios negros.

Esse bicho, esse Keraunos, não é o original. É uma falsificação. Um produto inferior feito em massa usando as emoções negativas da Jupiter como catalisador. Porém...

(Eu não achei que ele fosse chegar a tanto... Eu avaliei ele mal pra caramba.)

O Keraunos tinha muito mais poder espiritual do que a minha estimativa. Ele possuía um ego sólido e a inteligência para agir após julgar a nossa situação com frieza.

Esse cara não é só um simples “Pai que se importa com a filha”. Aquela cara que tentou nos “deixar passar” obviamente carregava emoções de menosprezar o nosso lado, e quando nós recusamos aquilo na marra, ele mudou para um estado de fúria cega, igual a um idiota.

Falso e egocêntrico, paranoico, hipócrita e altamente agressivo; na sua essência, ele é a encarnação distorcida de um ancestral que quer “destruir tudo o que é precioso para a filha para que ela dependa só dele”. Essa é a verdadeira identidade desse pedaço de merda vivo chamado Keraunos.

E, ao pensar na Jupiter, que sofreu por tanto tempo nas mãos desse monstro, eu naturalmente franzi a testa com força. Não posso perder. Não posso perder de jeito nenhum. Meu coração estava fervendo num nível de me fazer pensar “se não for pra mostrar a minha garra agora, vai ser quando?”. Mas, deixando isso de lado...

Ugh...

A minha visão girou. Eu já quase não tinha poder espiritual para direcionar às skills. O recuo da Defesa(Force) Quadridimensional(Field) já estava chegando num nível perigoso. É patético dizer isso, mas sendo sincero, eu mal estava conseguindo me manter de pé.

Firme!

As minhas pernas bambas que não me obedeciam direito foram apoiadas pelos braços quentes do sistema estelar. Gotas de suor escorriam pela sua pele branca e linda, e, talvez por impressão minha, a respiração dela também estava pesada. Mas apenas aqueles olhos brilhavam sem uma única nuvem de dúvida.

A gente ia derrotar ele ileso, não é?

As seis Soukyuu flutuando pelo céu.

Você não quer que a Jupi-chan vire a agressora da história, né.

Leves como borboletas e emitindo uma luz intensa como estrelas cadentes, as lâminas duplicadas fatiaram e abriram caminho através da chuva de raios negros.

Aquela severidade dela agora era o que eu mais agradecia.

──── Obrigado, Haruka. Eu dou graças a Deus por você ser a minha parceira.

É.

Concordando com a cabeça, encarei o Velho do Trovão de volta. Aquele Monster Parent estava mandando poder espiritual para a pata que tinha acabado de ser esmagada, tentando forçar a regeneração do membro.

Quantas vezes será que a autossatisfação desse cara machucou ela? Quantas vezes será que o coração dela foi estilhaçado por isso? Quanto mais eu pensava naquilo, mais a minha consciência ficava clara, afiada, perfeitamente nítida, e...

(A velocidade de regeneração tá lenta. O número e a qualidade dos raios negros dele também tão longe dos 100%. ...Tranquilo, tem bastante brecha pra a gente explorar.)

Ambos os lados estávamos no limite do corpo. Eu não podia ficar dormindo no ponto.

Haruka.

Hm!

Naturalmente, as nossas duas mãos se estenderam de lado uma para a outra.

Vamos lá. Tá na hora de caçar coroa.

Pfft. Olha o jeito que você fala.

Nossos punhos se bateram. Rimos juntos enquanto olhávamos para frente. Puxei o ar, regulei a respiração e, após uma única batida de tempo:

VAMO LÁ, PORRAAAAAAAAAAAAA!

Nós corremos.

Ela foi pela esquerda e eu pela direita. Espalhando as direções do ataque para dar um overload na capacidade de processamento do inimigo.

AWOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!

A fera de relâmpagos negros rugiu. Ele ergueu à força a perna direita que ainda estava no meio da cura e girou. De relance, parecia ser um ataque apelando puramente para a força bruta, mas nós percebemos na mesma hora que aquele era um movimento milimetricamente calculado.

(Esse merda, tá me evitando de propósito de um jeito muito esperto.)

Ele deve ter aprendido com a troca de golpes de agora há pouco. O Keraunos continuava a mudar o posicionamento da perna de apoio e o timing dos movimentos de forma meticulosa, focando a mira única e exclusivamente na Haruka.

Claro que não era só isso.

Não havia a menor chance desse Velho do Trovão insano simplesmente recuar mansinho de mim — o cara contra quem os ataques de contato direto eram um pesadelo total —, então...

Eu sabia que você ia mandar essa!

O Keraunos lançou a sua intenção assassina inesgotável sob uma forma diferente.

Incontáveis relâmpagos negros dispararam dos “estalos” espalhados ao redor dele. Esses relâmpagos tinham um formato linear. Para dizer a verdade bem nua e crua, eram lasers negros. Um total de dez feixes. Dava para saber que eu não ia sair ileso nem se passassem de raspão, não precisava nem testar para descobrir.

(Defesa(Force) Quadridimensional(Field))

Eu a ativei por um mero instante. Um cast instantâneo assim que li a janela de tempo do impacto no último limite possível. Os dez feixes de luz disparados pelo corpo da fera de relâmpagos negros se chocaram no meu corpo invulnerável e, em seguida, foram rebatidos. A Defesa(Force) Quadridimensional(Field) não deixa absolutamente nenhum ataque passar. Não deixa, mas...

Ugh... guh...

Eu estava no limite. Antes do meu corpo ceder, a minha energia espiritual zerou. Literalmente todo arrebentado. As únicas cartas na mão que me sobravam agora eram os resquícios de alguns feitiços de buff que eu ativei durante a luta contra o Camac, a minha arma equipada, e, além disso, a minha parceira incrivelmente confiável e o meu espírito ardente.

(Já é o suficiente.)

Forçando um sorriso de canto de boca, coloquei absolutamente toda a força que eu tinha nas mãos para apertar as duas armas que empunhava.

Na mão direita, a espada negra superpesada de forma variável; na mão esquerda, a lâmina branca que corta a causalidade.

Confiando a minha vida a essas espadas gêmeas totalmente desbalanceadas em tamanho e uso, eu mergulhei de cabeça no corredor da morte com toda a coragem.

HYAAAAHAAAAAAAAAAAAAAAA!!

Aquele grito de guerra carregado com a paixão ardente que jorrava de dentro de mim era metade puro blefe, e metade um aviso de ataque.

Fatiei a pata dianteira da besta gigante com a Laevateinn e, na junta que ficou exposta, martelei um ataque de massa bruta com a Eckesachs.

AWOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

Clarão(Steropes). Relâmpagos(Arges). Trovões(Brontes).

Junto a um estrondo que parecia rasgar os tímpanos, a besta de trovões liberou o fogo dos relâmpagos da sua fúria.

Clarões negros vomitados pelos Pontos de Erupção espalhados nas dez direções ao redor. Com o meu poder espiritual esgotado e, pior ainda, tendo mergulhado fundo direto no alcance de ataque corpo a corpo dele, as minhas opções de romper essa rede de cerco já não existiam mais.

Ei, seu vira-lata.

Mas a possibilidade de eu bater as botas bem aqui...

É só isso que você tem?

...era mais nula ainda.

Hyaa-haaa, viu!

Um adorável grito de guerra fluiu pelos meus ouvidos. Aquele som de uma fofura tão aconchegante fez o meu coração esquentar sem que eu pudesse evitar.

Mas, no que eu deveria focar a minha atenção não era na voz de idol do sistema estelar, e sim nas habilidades dela.

Meteoros azuis rasgando o preto. Pelas seis Soukyuu que nadavam no ar e pela própria lâmina da Haruka, os clarões de raios negros foram fatiados um por um a partir das pontas.

Não era pra menos. Diante das Soukyuu, que tiveram a sua capacidade de cortar energia multiplicada em sete vezes graças ao combo de cópias da Futsunomitama, um relâmpago desse nível não passava de um pedaço de tofu macio. Com os ataques do Keraunos agora — que além de estarem num estado incompleto, já tinham torrado a maior parte da sua força —, ele era completamente incapaz de causar sequer um arranhão na Aono Haruka.

O seu poder espiritual tá só o pó, e você não consegue mais lançar ataques de grande porte. Que cena patética, hein, seu vira-lata! A gente não é do tipo que vai se deixar machucar por um Velho do Trovão de coração podre feito você!

Cortando o vento, rugindo para o trovão. Fatiei as pernas dele com a Laevateinn, que atravessa qualquer defesa, e apliquei um atropelo brutal batendo a ponta da arma de massa contra o corpo da besta que desmoronava.

As sinapses acelerando. A adrenalina começando a perder os freios. Dentro do extremo de um transe em êxtase, apenas a sensação das minhas duas mãos balançando as armas era perfeitamente nítida.

E aí.

Nossos olhares se cruzaram. Os dois olhos da besta de relâmpagos negros desceram até a mesma altura da minha linha de visão. Tendo perdido os quatro membros e estatelado no chão, o Keraunos abriu a bocarra enquanto soltava um rugido de puro rancor. Sem nenhum eufemismo, a nossa distância era de palmos. Eu agarrei as lâminas branca e preta, e o Velho do Trovão tentou me receber com as presas afiadas como as pontas de uma lança renomada forjada com maestria. E, exatamente nesse limiar...

Ei, Keraunos.

​Um instante mais rápido, a boca do Velho do Trovão se fechou.

Queimou a largada? Errou o ataque por afobação? Não, não é nada disso.

O Keraunos não é um mero animal selvagem que só sabe causar estrago.

Ele é um espírito que possui hostilidade, malícia e uma inteligência inegável.

E foi por isso que ele hesitou no momento decisivo.

Calculando os riscos de tomar a magia da Defesa(Force) Quadridimensional(Field) na cara.

O que aconteceria se ele fizesse contato físico direto ──── o inteligente Keraunos guardava esse resultado na memória.

O fato de que “eu usei a habilidade de novo como um simples meio de defesa, mesmo depois daquele contra-ataque”, sustentava a falsa dedução dele de que “eu ainda tinha poder espiritual de sobra”.

E o resultado de um acúmulo de pensamentos racionais, porém distorcidos, como “a humilhação de perder ao ser esmagado pela minha defesa inquebrável” ou “é impossível que ele não use a Defesa(Force) Quadridimensional(Field) numa hora dessas”, culminou nessa exata situação.

Foi uma escolha extremamente inteligente. Ler as magias do adversário e a própria situação para tomar uma decisão fria e calculada.

Pode ser um cenário hipotético, mas se eu fosse colocado na mesmíssima posição que a dele, com certeza teria tomado a mesma decisão.

Mas, em outras palavras, isso significa...

Você ficou com medo de mim agora, não foi?

A declaração de dose letal o perfurou, dando ao rosto do Keraunos a humilhação extrema da qual não havia como escapar.

Fugiu de um duelo de homem pra homem, não foi.

O Keraunos produzido em massa. Um corpo virtual que se manifesta toda vez que as emoções da Jupiter se descontrolam. É imortal, é indestrutível, e a sua mente está conectada ao original.

Ah, era exatamente essa a cara que eu queria ver.

Um rosto feio carregado de dor, vergonha e medo. A encarnação irada do ancestral, o governante supremo que esmaga tudo em seu caminho, não apenas falhou em afugentar os insetos irritantes que rondavam a Jupiter, como também sentiu medo.

Ele jamais esqueceria esse fato, a agonia de ter sido obrigado a reconhecer isso.

Foi um momento memorável, em que o imortal Keraunos sofreu uma ferida que não poderia ser curada.

Agora engole essa, Keraunos. A vergonha, a dor, o terror e, por fim, a derrota.

Se prepara, seu pai de merda.

Na mão direita, eu empunhava a espada negra superpesada de forma variável Eckesachs; na mão esquerda, estava em guarda com a lâmina branca que corta a causalidade Laevateinn.

Pra um lixo feito você...

Aquilo foi uma declaração de despedida e, ao mesmo tempo, uma declaração de guerra.

A nossa Jupiter...

Nem pra você, nem pra uma organização maligna, e muito menos pra um destino de ruína de merda, eu definitivamente...

Eu não vou entregar ela de jeito nenhum!

E assim, jurando aos céus que num futuro próximo eu arrastaria o corpo original dele para baixo sem falta, cravei o golpe das duas lâminas bem na cara daquele desgraçado.



​◆ Cidade Dungeon Ouka · 336ª Dungeon Tokoyami 3º Ponto Intermediário

 

A ave monstruosa pereceu, e a fera também afundou.

A primeira coisa que fizemos após finalmente botarmos um ponto final real na batalha do 15º Andar foi garantir a segurança da nossa companheira desmaiada e garantir o 3º Ponto Intermediário.

De qualquer forma, a gente só queria respirar um pouco. O corpo tava só o pó. O poder espiritual, raspando o fundo do tacho. Tudo tava no limite, e se me perguntassem o que eu queria fazer agora, a única resposta possível era dormir ──── e, no entanto, a minha mente estava surpreendentemente de boa. Tanto a minha, quanto a da Haruka.

Wahaa! A gente passou por uma experiência surreal, hein!

O sistema estelar parecia um tanto feliz.

Conseguir se manter tão positiva assim mesmo depois de tudo o que aconteceu, sem brincadeira, eu acho que é um baita talento.

Dito isso, com certeza também foi uma batalha pesada para a Haruka, e eu não deixei passar despercebido o leve cansaço que transparecia naquele sorriso ensolarado dela.

O fato de eu ter tomado a iniciativa de carregar a Jupiter, que estava caída e inconsciente, também teve a ver com isso.

Eu queria aliviar o cansaço da Haruka nem que fosse um pouquinho.

Você é bem gentil, né, Kyou-san.

Amaldiçoando um “cala a boca” sem força nenhuma para a Haruka-san, que deu um sorriso de quem tinha lido a minha mente inteira, eu cruzei o Portal Gate.

No fim das contas, todo mundo saiu são e salvo.

No saldo total, dá para chamar essa aventura de um sucesso.

Não foi um sucesso! Foi um grande sucesso!

Recebendo a recepção calorosa dos alienígenas gelatinosos, a Haruka soltou essa.

Uma nova companheira, nossa revanche contra um inimigo forte, e a gente ainda conseguiu alcançar a marca do andar mais profundo com maestria! Se a gente não se orgulhar disso, vai se orgulhar do que, Kyou-san?!

O perfil do sistema estelar iluminado pela fogueira estava mais bonito do que qualquer céu estrelado.

Ah, cara. Ficar perto dela realmente me enche de energia.

Você é a melhor.

Ei, Haruka. Tem uma coisa que eu queria conversar com você sobre os nossos próximos passos, tem um minuto?

Se for alguma proposta para deixar a Jupi-chan de fora, eu vou ser totalmente contra, tá?

Os olhos cor de safira se estreitaram de leve.

Teria sido uma cena bem intimidadora se ela não estivesse segurando um monte de espetos com marshmallows nas duas mãos.

Não vou. Na verdade, é o exato oposto. Eu quero conversar sobre como a gente vai fazer pra não deixar ela ficar sozinha.

Nesse caso, eu quero muito ouvir.

Eu expliquei o resumo da ópera para a Haruka e, de quebra, para os Yaldas 336 que tinham se juntado ali.

Uhum! Eu acho uma ótima ideia. Como esperado do Kyou-san.

A gente não entendeu muito bem, mas a gente também tá torcendo por vocês~!

Deixando de lado os alienígenas gelatinosos que faziam festa e comemoravam animadinhos, ganhar o selo de aprovação da Haruka foi um golpe de sorte maravilhoso.

Beleza, então agora só falta...

Eu olhei para a cama de madeira que havia sido feita um pouco mais afastada da fogueira.

Em cima da cama novinha feita sob medida pelos alienígenas gelatinosos, a garota de cabelos prateados repousava.

 

 

 

 


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