■ Capítulo 8: Primeiro Ponto Intermediário ~ A Cidade Dentro da Dungeon

  

 

​◆ Quinta Camada da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka

 

Você fez um estrago, hein~.

​Uma voz despreocupada ecoou nos meus ouvidos após eu terminar o trabalho. Sem precisar pensar duas vezes, é a Haruka-san.

Talvez por estar um pouco satisfeita depois de decepar a cabeça do Oni Maligno, por algum motivo, a pele dela parecia estar até brilhando.

Eu só errei um pouquinho a mão na força.

Ooh! Tá exalando uma aura de cara forte! Se você abrir e fechar a mão direita sem motivo nenhum, vai parecer mais ainda.

​Tentei fazer para atender ao pedido dela. Abre, fecha. “Kyaaa! Kyou-san, que incrível!”, recebi de volta como um incentivo fingido. Eu sei que é zoeira, mas mesmo assim, a minha necessidade barata de aprovação acaba sendo misteriosamente saciada, então eu sou mesmo um cara muito fácil de agradar.

Mas, deixando isso de lado, o fato de eu ter errado a mão na força também é verdade.

Uma grande cratera se abria aos meus pés. Várias pilastras de pedra voaram longe com a onda de choque do impacto. A parede mais próxima virou uma pilha de escombros de dar pena só de olhar.

Essa foi a potência do golpe, mesmo depois de ter pulverizado o crânio do mid-boss sem deixar vestígios. Que absurdo. Absurdo demais. Não é, nem de longe, o poder de fogo que deveria ser usado contra um mid-boss de tutorial. Desse jeito, eu não sou o Kyouichirou, sou o KYOUICHIROU. ……Que diabos é um KYOUICHIROU? Será que ele conquista a heroína principal só com um sorriso e faz o sexo oposto entrar no cio só com um cafuné na cabeça? Não, não, aí já é demais...

Fazer carinho na cabeça sem permissão é assédio puro e simples, afinal...

Kyou-san, você tá pensando em alguma coisa estranha de novo, né?

Não, de jeito nenhum? Não tô pensando nisso nem em um nível de micro-fragmento.

​Balanço a cabeça de qualquer jeito e corto a linha de raciocínio.

Isso mesmo. A culpa não é minha. A origem de todo o mal está nesta arma de força de massa.

A gente tende a focar na habilidade conveniente de transformação, mas a verdadeira essência dela está na sua dureza e peso; isso ficou bem claro na luta de agora.

Principalmente a sinergia com o uso empilhado do Fortalecimento de Força Arms, é nojenta de boa. Usando a lógica simples de bater em algo com algo muito pesado e muita força, dá pra dar one-punch num mid-boss do tipo corpo-a-corpo.

Ou melhor, pela sensação na hora do impacto, se eu não tivesse usado a Reflect(Mitigação de Impacto), eu também estaria bem ferrado. ……É, de agora em diante, vou pensar melhor na dosagem do Arms(Fortalecimento de Força).

E como foi do seu lado, Haruka?

Ehehe~. Bem, foi dentro do possível?

​A Haruka dá um sorriso tímido. À primeira vista, é um gesto adorável, mas eu sei a verdade.

Essa garota do sistema estelar, enquanto encorajava o pobre Oni de múltiplas faces com palavras positivas, foi cortando e arrancando a pele dos rostos dele, um por um.

É uma psicopata. Ela é uma Super Psicopata Positiva-san.

N-Não é isso~. Aquilo foi só o resultado de eu ter levado o combate a sério até o fim...

​A alegação da réu era a seguinte:

Parece que o Oni Maligno que ela enfrentou era um usuário de armas bizarro que tirava armas de osso das bocas dos seus vários rostos, segurando e manipulando-as com a própria boca.

Além disso, cada um dos rostos do Oni Maligno funcionava como um sensor independente de alta performance e, somado à habilidade dele, parece que no começo ele estava conseguindo defender os cortes da Haruka.

Ooh! Eu achei incrível. ‘Ele consegue defender direitinho’, eu pensei. Por isso.

​“Por isso, subi uma marcha”, justificou a espadachim do sistema estelar.

Segundo ela mesma, ela parou de balançar a espada de qualquer jeito e decidiu lutar para valer.

A Haruka-san parou para pensar. ‘Onde será o melhor lugar para mirar num Demônio que luta aproveitando um monte de sensores e braços [bocas]?’

​E a resposta foi encontrada rapidamente.

Pontos fortes e pontos fracos são duas faces da mesma moeda. O fornecimento e manuseio de armas, além de ser uma base importante equipada com sensores de alto nível ──── ou seja:

Eu decidi arrancar os rostinhos dele, ora essa.

​Foi isso que aconteceu.

E, a partir daí, já virou um trabalho braçal, sabe~. Quanto mais eu arrancava os rostos, mais ele ficava fraco, o que é óbvio, mas... tava meio sem graça, não acha?

E por isso você decidiu dar uma de líder de torcida e incentivar ele?

Uhum!

​Que absurdo fazer isso com um Corpo Reproduzido. Ou melhor, no fim das contas você continuou arrancando os rostos dele enquanto o encorajava, sua psicopata de merda.

De qualquer forma, nós dois saímos ilesos. Não vamos ligar pra pequenos detalheeess~.

O fato de você conseguir resumir aquilo tudo com a frase ‘pequenos detalhes’ é, por si só, impressionante. ……bem, que seja. Ficar escutando a sua historinha full psicopata num lugar sombrio desses me parece péssimo para a saúde. Vamos logo pra próxima.

Mas é claro meu senhor

​Por que de repente um tom de madame chique...? Não, com certeza não tem nenhum significado profundo nisso. A Haruka-san sempre foi um espírito livre.

Upa, lá vou eu.

​Pego a mochila que eu tinha jogado no chão antes da batalha e sigo para o portal de teletransporte. Comparado com antes de entrar na Dungeon, a bagagem ficou bem mais pesada. Queria chegar logo no Ponto Intermediário e me livrar desse peso.

Um banho quente. Água com gás estupidamente gelada e uma comida bem quentinha. E, para finalizar, um “boa noite” numa cama super macia. O fim de uma jornada de aventura divertida tem que ser assim, afinal.

Aaah, não aguento mais de ansiedade.

​Com passos de quem está prestes a correr, atravesso o portal de vórtice roxo. Adeus, escuridão. Lá vamos nós para o caminho da luz.

E assim, após o nosso sexto teletransporte espacial do dia, o que vimos foi...

 

 

 

 

​◆ Primeiro Ponto Intermediário da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka

 

Uaaaaa!

​Junto com a exclamação de alegria da Haruka, o que saltou aos meus olhos foi ──── ah, que saudade ──── as atividades humanas.

Ruas pavimentadas, um mercado movimentado, casas enfileiradas. Bancos, ruas arborizadas, e até uma praça chique com uma fonte; tudo muito agradável aos olhos.

E falando em agradável, a cor do céu também era.

No céu cor de rubro, vividamente tingido, não havia nem sombra ou forma daquela cor roxa venenosa típica da Dungeon Tokoyami, e a luz do sol suave do entardecer nos observava gentilmente.

E acima de tudo, as pessoas, as pessoas. Pessoas passando nas ruas, multidões por todo o lado quando se olha em volta.

E o melhor, com rostos em modo completamente “off”. Ninguém estava com as armas em punho ou com expressões tensas. Em outras palavras, este lugar é seguro.

Incrível! Isso aqui já é uma cidade inteira!

Pois é. ……O que é isso, a empolgação tá batendo forte, né?

Tá batendo!

​Nós dois demos um high-five sem motivo nenhum e rimos segurando a barriga.

É loucura. Antes mesmo de eu conseguir entender o motivo, uma alegria infinita começava a transbordar de mim.

Ficamos longe por apenas algumas horas, e pensar que eu sentiria tanta saudade de ver o movimento das pessoas assim.

É engraçado, né~.

É, mas não é uma sensação nem um pouco ruim.

​Nos olhamos e caímos na gargalhada em voz alta de novo.

Por um bom tempo, continuamos transbordando com essa emoção esquisita.

 

​◆ Primeiro Ponto Intermediário da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka – “Área Residencial”

 

A partir de hoje, aqui será a nossa base.

​Apresento à Haruka a casa independente com escadas externas que se ergue à nossa frente. Uma casa de estilo ocidental, com paredes pintadas de branco e um exterior muito bem cuidado. Essa foi a nossa primeira impressão da casa alugada.

Oooh! Tem uma cara de casa normal mesmo, né~. Eu jurava que a gente ia ficar num lugar tipo hotel.

Hotel também não é ruim, mas fazer o Registro de Housing no Ponto Intermediário e alugar uma casa acaba sendo mais conveniente de várias formas, sabe.

​Vou fazer vista grossa pro fato de que eu expliquei tudo isso com antecedência e, mais do que isso, enviei vários documentos pra ela assinar.

Tinha a assinatura da mãe dela na coluna do fiador, então deve estar absolutamente tudo bem... não é?

Tudo ceeerto! Eu pedi pra minha mãe escrever tudo!

​A Haruka-san responde fazendo um “V” de vitória com os dedos e uma cara de convencida. Por que essa garota é tão cheia de confiança, hein?

 

​……E sobre o que a gente tava falando mesmo? Ah, isso, isso. As vantagens da casa alugada, as vantagens.

Explicando de forma simples, se você tiver uma moradia no Ponto Intermediário, você passa a ter a sua própria base na Dungeon.

Você pode deixar bagagens volumosas, fazer estoques de suprimentos, e também tem a vantagem de não precisar se preocupar com outras pessoas ao redor.

Principalmente na Dungeon Tokoyami, que ainda só tem este Primeiro Ponto Intermediário liberado, né.

Dizer que ter uma base construída no único Ponto Intermediário onde os humanos transitam é essencial para a conquista futura da Dungeon não seria nenhum exagero.

Ou seja, é a nossa base secreta.

Se for pra falar de um jeito que deixe a gente empolgado, acho que é por aí. Então, vamos logo explorar o interior da base?

Uhum!

​Subo as escadas com corrimão e insiro a chave de metal, que eu já tinha pego no mundo de lá com antecedência, na fechadura.

Gachari, um som de destrancar que vibra nos ouvidos. Que bom. Parece que a chave era daqui mesmo.

Com licenç──── hum? Será que é melhor falar ‘cheguei’? Ou será que é ‘muito prazer’?

Fala como você quiser. Epa, o quadro de energia é aqui, né.

​Movendo os olhos com a Expansão de Visão Noturna ativada, aperto de leve o interruptor perto da entrada.

No instante seguinte, as luzes de teto acima de nós começaram a brilhar.

Era uma luz de tons quentes, agradável aos olhos. Sentindo uma sensação de alívio com aquela luz, tiro os sapatos cuidadosamente.

Por enquanto, deixa eu só te explicar a planta da casa.

​Depois de falar com a Haruka, que chutou os sapatos de qualquer jeito, eu pisei lentamente no degrau da entrada. ……Umu. O som está abafado. É um piso flutuante com um bom isolamento acústico, como deveria ser.

Primeiro, logo à direita ao entrar pela porta, temos o banheiro com chuveiro. O vestiário é separado, então pode ficar tranquila. E do lado dele, é o banheiro com o vaso. Depois, os quartos que ficam um de frente para o outro, um pouco mais afastados, são os quartos de dormir. A ideia é separar em quarto dos garotos e quarto das garotas, então você pode escolher o que gostar mais e usar primeiro.

Incrível! Eu já ganho um quarto só pra mim logo de cara!?

Se o número de membros femininos na party aumentar, vocês vão ter que dividir o quarto, mas por enquanto, você pode usar como quiser, Haruka.

​“Ebaaa!”, a Haruka-san demonstrava a sua alegria enquanto saltava pelo piso flutuante de madeira. Pelo visto, na casa dos Aono, ela divide o quarto com a irmã mais nova. Não, dividir o quarto com a Kanata é um bilhão de vezes mais invejável pra mim!

Ahem. E, abrindo a porta no fim deste corredor, temos a sala de estar.

​Enquanto explico, acendo a luz da sala.

O grande cômodo de cerca de vinte tatames tinha todos os móveis alugados que eu havia encomendado.

Um sofá verde-musgo. Uma mesa de jantar de madeira com cantos arredondados, cadeiras de encosto alto, e lá no fundo, do outro lado da cozinha aberta, uma geladeira e prateleiras com vários utensílios de cozinha organizados, dispostos lado a lado como velhos amigos.

Que incrível, Kyou-san. A gente realmente tem uma casa!

Passando por aquela porta de correr ali tem um quarto em estilo japonês também, então você deveria dar uma olhada.

Vou dar uma olhada!

​Com uma resposta super animada, a Haruka-san foi andando totetotetote em direção ao quarto em estilo japonês. Fico feliz que ela tenha gostado.

Isso faz valer a pena ter pago os vinte e tantos mil ienes mensais de aluguel, hum.

Mas é realmente uma liberdade absurda o fato de que, se você tiver uma licença de aventureiro, até um menor de idade pode assinar um contrato de aluguel neste mundo. Se você alugar no nome da party, todos os membros podem ficar lá o quanto quiserem, o que é maravilhoso ao extremo.

……bem, sendo franco, não posso deixar de sentir que isso é um pouco favorável demais para os aventureiros, mas vou relevar isso com maestria com a mentalidade de “Em Roma, faça como os romanos”. Infelizmente, deixarei esse problema em espera até o dia em que eu tiver tempo e folga para pensar profundamente sobre as contradições da sociedade.

Ei, Kyou-san.

​A espadachim do sistema estelar, que apareceu de repente colocando a cabeça para fora do quarto japonês, falou com os olhos brilhando kirarin.

Nós vamos rachar.

​Julgando pelo contexto, ela devia estar falando do aluguel daqui. Sendo que eu só aluguei isso por conta própria, então ela não precisava se preocupar.

Rachar o aluguel, ouviu?

​Era um tom que não permitia contestações. Eu podia dar uma de durão e recusar, mas pareceria chato se isso virasse uma briga boba, então, por enquanto, vou entrar na onda.

Eu entendi. Obrigado.

É a nossa base secreta, afinal. Nada mais justo, não acha?

​O rosto da Haruka, que estava com a cabeça esticada pra fora, abriu um sorriso que desabrochava como uma flor.

Essa garota do sistema estelar tem um senso de dever e honra em momentos bem peculiares.

 


 







Comentários