■ Capítulo 9: Vamos Caminhar à Noite

 

 

 

Primeiro Ponto Intermediário da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka – “Área Residencial”

 

​Após terminarmos a vistoria da casa alugada, decidimos escolher os nossos quartos e nos dedicar a montar o nosso “ninho”.

O surpreendente foi que a Haruka escolheu um quarto de estilo ocidental.

A casa dos Aono deveria ser um prédio de estilo puramente japonês, então eu tinha certeza de que ela escolheria o quarto de tatame japonês, mas...

Você não entende mesmo, Kyou-san. Em casa, querendo ou não, a vida é dormir no futon no chão. Então, seria um desperdício não descansar numa cama pelo menos enquanto estivermos aqui, não acha?

​Disse a Haruka-san brincando em cima da cama alugada, como se fosse uma criança.

Acho que esse tipo de coisa não é uma questão de ganho ou perda, e sim de afinidade, mas bom, se ela mesma está se divertindo, então está tudo bem.

Então, daqui a uma hora na sala de estar.

Aye, aye.

​Marcamos o nosso encontro e fechei a porta do quarto suavemente.

Pois bem, a partir de agora temos um tempo de ação livre.

Após terminar de colocar a minha bagagem no quarto que a Haruka não escolheu, decidi sentar na cama que já vinha instalada e relaxar.

Eu disse para ela “montar o ninho”, mas, na verdade, já tínhamos deixado preparado todo o conjunto de móveis necessários nesta casa alugada ainda na fase do contrato.

Cama, escrivaninha, geladeira, local para guardar os equipamentos e até mesmo purificador de ar e ar-condicionado. Este quarto simples, com tudo isso equipado, é como se fosse um pequeno reino.

Tiro uma água com gás que já estava completamente quente da bolsa, abro a tampa e coloco na boca.

Aaah, que cansaço.

​Solto um suspiro misturado com o gás da bebida e me encosto na parede pintada de branco.

O poder das palavras realmente parece existir. A partir do momento em que eu disse em voz alta que estava cansado, senti o meu corpo ficar estranhamente pesado.

E não é para menos.

Afinal, das nove da manhã até agora, fiquei explorando uma Dungeon enorme o tempo todo com uma bagagem pesada nas costas.

Por mais que o meu corpo tenha ultrapassado um pouco os limites humanos graças ao contrato com o espírito (além do treino diário de musculação), a fadiga se acumula de qualquer jeito, e o sono também bate.

Por isso, esta hora é um momento de descanso que finalmente chegou depois de muito tempo, e...

Ora, você ainda estava vivo, Mestre?

​...eu acho que nem mesmo a majestosa Deusa do Tempo tem o direito de atrapalhar isso. E vocês, o que acham disso, hein?

Oh, oh, a sua aparição foi bem tardia, Al-san. O clímax de hoje já passou faz muito tempo, sabia.

Durante o encontro com a Fumika, eu não queria contemplar cenas de batalhas sangrentas, então cortei a conexão. Não me leve a mal, por favor.

E além do mais, disse a mente da Al transmitida pelo Compartilhamento de Pensamentos.

Fui eu que passei mais de um ano treinando você. Não existe a menor possibilidade de o Master ter dificuldade contra inimigos de uma camada inferior a esta altura do campeonato.

...É, pois é.

​O que foi isso do nada me elogiando? Chega a dar uma coceira na espinha.

Continua sendo tão fácil de agradar como sempre, Master. O fato de ser tão fácil de lidar com você me ajuda muito.

Cala a boca.

​Eu ainda vou crescer daqui pra frente, beleza?

E como foram as coisas por aí? A Nee-san se divertiu?

Sim, maa. Nós pulamos de um restaurante de alta classe famoso para o outro, e ela estava comendo de forma que parecia estar muito delicioso.

Uhum, uhum.

No entanto, a quantidade de um prato naqueles estabelecimentos é muito pequena para satisfazer os nossos estômagos. Mas considerando que fazer pedidos em quantidades absurdas seria uma quebra de etiqueta, nós fomos em direção a um restaurante de ramen da linha selvagem que já conhecíamos.

​...Hã?

Uma montanha de vegetais, uma torre de carne de porco cozida, um mar de gordura nas costas do porco e um all-star do menu de acompanhamentos. O macarrão era grosso e ondulado, e o sabor era um shoyu com base em osso de porco. Obviamente, pedimos tudo com o extra do extra, no talo, e também pedimos o Arroz Frito Deluxe e o Gyoza Jumbo Giga, então o meu estômago ficou razoavelmente satisfeito.

Ei, espera aí. Por acaso a Nee-san pediu a mesma coisa?

O da Fumika foi diferente.

​Que alívio. Solto um suspiro e acaricio o peito.

Claro, né. Recentemente andaram surgindo várias suspeitas, mas a minha Nee-san é só uma colegial normal. Não tem como ela fazer uma imitação de competidora de comida dessa...

A Fumika é a Campeã(Fast) Absoluta(Recorder) daquele restaurante, afinal. Naturalmente, o prato que ela pediu foi o menu de desafio.

​...fazer uma coi...

A figura dela devorando aquele ramen gigante, que ocupava facilmente uma mesa inteira de forma elegante e fluida, era pura arte de artesã. Como alguém que ama comida, não posso fazer nada além de reverenciar o estilo de comer da Fumika, não, da FUMIKA.

​…………

Provavelmente, nesta cidade, a única pessoa que se compara a ela é a recordista do maior número de vitórias em comer rápido, o Meteoro Azul. O poder da gula da Fumika é assim tão tremendo e grandioso.

Dá pra gente parar com esse assunto!?

​Merda, que sensação bizarra é essa de ver todas as pontas soltas se conectando? Ou melhor, por que diabos as rainhas do “comer rápido” e “comer muito” estão todas reunidas ao meu redor? Os gêneros são diferentes demais, poxa!

...! Espere um momento, por favor. O que significa essa memória, Master? A Haruka é... o Meteoro Azul...?

Não tenta prolongar a conversa!

​A situação saiu de controle. Saiu completamente de controle.

 

 

Iae, iae, Kyou-san. Quanto tempo, faz uma hora já.

​Uma hora depois, pontualmente, a Haruka apareceu na sala de estar.

Foi se trocar?

Ué, é claro~. Até a Haruka-san aqui tira o equipamento de defesa quando tá de folga, sabe.

​Sorri a estrela cadente que havia se arrumado.

Uma calça chino cor de linho claro, uma regata branca e uma jaqueta com o seu azul favorito. A sua aparência, embora casual, tinha uma certa classe, ressaltando o encanto natural da Haruka.

Isso deve ser porque a matéria-prima é muito boa, mas toda vez, toda vez me surpreendo com o quão excelente é o seu gosto pra escolher roupas.

Ehehe~, obrigada. Eu acho que essa parte sua é muito legal, Kyou-san~.

​Senti que meu rosto ia ferver, então virei o rosto para o lado às pressas. Tem vezes que essa garota solta umas coisas que fazem meu coração dar um aperto.

Ah, bem... então, vamos comer alguma coisa?

Vamos~.

​Trancamos as portas, verificamos as carteiras e partimos para fora.

Essa situação parece tão nova pra mim.

Bem, estudantes do fundamental alugando uma casa numa Dungeon é um caso extremamente raro, afinal.

​Devem haver muitos aventureiros que tiraram a licença mais cedo do que nós, mas esses novatos prodígios geralmente são recrutados pelos grandes clãs.

Por isso, chegar até aqui sendo só uma party de moleques do fundamental e sem apoio de ninguém pelas costas é algo de certa forma impressionante.

Porém, o “nova” que ela mencionou parece carregar um significado diferente.

É, tem isso também. É que eu não tenho experiência nenhuma de caminhar assim por uma cidade à noite com alguém da minha idade.

​Disse Haruka, coçando a bochecha com vergonha.

Seu rosto iluminado pelas luzes da rua continha uma amargura suave, como chocolate amargo derretendo.

Mesmo sendo noite, os ponteiros do relógio ainda não marcavam oito horas.

Com certeza não é um horário que faria alguém elogiar um aluno do terceiro ano do fundamental por estar na rua, mas também não é uma madrugada ao ponto de levarmos uma bronca da polícia.

O caminho de volta do cursinho ou do clube da escola, um lugar distante aonde você foi com os amigos pra tentar parecer mais velho, e, apesar de eu não querer admitir, se a pessoa for um “normie” com vida social rica, até mesmo um encontro com a pessoa de quem se gosta não estaria fora de cogitação.

Caminhar pela cidade à noite enquanto joga conversa fora de forma casual, às vezes brigando, recebendo conselhos ou sentindo o coração palpitar.

Não ter esse tipo de experiência é, talvez, algo um pouco solitário.

Pelo menos os sentimentos grudados na beleza da Haruka com certeza invejavam isso.

“Que inveja”, uma garota azul dentro de uma gaiola escura observando a primavera azul se espalhar lá fora.

Eu consegui imaginar nitidamente aquela figura e por isso levantei a voz na mesma hora.

Se é assim, é só a gente aumentar essas experiências daqui pra frente.

​Dei uma risada de brincadeira e falei com um tom de voz como se não fosse nada demais.

Não precisa ser por um motivo importante. Vamos caminhar à noite por um capricho que nem chega a ser motivo, tipo “bateu uma fominha” ou “quero tomar um ar”. A gente já vai pro ensino médio logo, logo; tentar parecer um pouco mais velho não vai fazer a gente sofrer castigo divino nenhum.

​Isso mesmo, Haruka. Você já conquistou a sua liberdade. Deve ter um monte de coisas que te deixam empolgada e com o coração batendo forte, né? Se é assim, vamos realizar tudo isso, um por um. Se precisar, eu te dou uma força.

...Uhum, uhum! Essa parece ser uma ideia incrivelmente maravilhosa, sabe.

Pois é, com certeza vai ser divertido.

​Concordamos com acenos curtos e, rindo um com o outro, um pouco envergonhados, nós começamos a caminhar pela cidade à noite.

 

​Os edifícios da cidade de Tokoyami não têm nenhuma padronização, no bom sentido. Prédios quadrados, prédios redondos, imóveis alugados do tipo apartamento e até aquelas “casas grandes com telhado vermelho” que parecem ter saído de uma pintura. Os designs misturam estilos japoneses e ocidentais e não tem nenhum daqueles condomínios arranha-céu caríssimos. Apenas um prédio residencial ligeiramente maior que mal poderia ser chamado de mansão isolado na periferia da cidade; e, no geral, tudo tinha uma cara de cidade do interior.

Tudo o que existe aqui foi feito de forma artificial. As construções, as árvores, os riachos e até este céu estrelado.

Foi tudo muito bem feito, não é~.

Pois é.

​Um céu estrelado desabrochando no falso céu noturno. Caminhamos pela rua pavimentada aproveitando a atmosfera, como se estivéssemos passeando dentro de um planetário.

As estrelas artificiais são um pouco ofuscantes. Tem um número excessivo delas. É claro demais para a noite, me deixando um pouco tonto. Girando, rodando. Uma sensação muito bizarra.

Mas, como as luzes de rua coloridas que iluminavam a cidade eram ainda mais vibrantes, aos poucos nos acostumamos com o brilho das estrelas artificiais.

Vermelho, azul, amarelo, laranja, verde, rosa, branco e roxo.

Luzes de várias cores iluminavam a cidade de forma esplêndida, e eu acabei tendo a ilusão de estar participando de um festival de verão do meu bairro.

Não é como se desse para ouvir músicas de festival, e as pessoas andando pelas ruas estão vestidas normalmente, mas tem uma “vibe” muito forte disso. Humm, que estranho.

Depois de passarmos pela área residencial e cruzarmos a ponte sobre o rio artificial (ou melhor, que utiliza a função de manipulação de terreno do Ponto Intermediário) entrando na área de entretenimento, essa tendência se tornou ainda mais evidente.

Chega mais, chega mais! Tô vendendo poção sabor maçã do amor!

E aí, cliente, a nossa loteria de Pedras Espirituais não tem bilhete em branco! E o prêmio principal é um lançamento daquela Corporação Aleister! Loteria de Pedra Espiritual com zero risco e alto retorno, se você não jogar, vai sair perdendo com certeza~!

O local de formação de party é por aqui! Atualmente estamos com falta de Healers, então por favor, participem! Aventureiros de outras funções também são muito bem-vindos!

​Barracas de comida, vendedores de feira e agências de recrutamento de membros de party se amontoavam ao longo da rua, e se você ampliasse um pouco a visão, dava para ver mágicos e palhaços fazendo apresentações de rua.

Isso já era, sem dúvida, aquela sensação de festival.

Que incrível, Kyou-san, tá rolando um festival! Hoje é algum dia especial? Se for, a gente deu muita sorte, né.

Não sei, não. Eu também não sei os detalhes, mas acho que isso deve ser o dia a dia dessa cidade.

​A Tokoyami é uma Dungeon onde o Segundo Ponto Intermediário ainda não foi liberado porque o boss merda da décima camada tem padrões de ataque injustos e roubados.

Provavelmente por causa disso, os aventureiros, que normalmente se dividiriam entre os vários Pontos Intermediários, acabaram se reunindo todos neste distrito.

Uma Dungeon que não é concluída por um motivo específico ──── no DunMagi, isso é uma história comum.

Eles não conseguem avançar, mas querem coletar um monte de Pedras Espirituais especiais que só caem aqui. Aventureiros presos nesse dilema acabam abrindo lojas como um trabalho paralelo; essa é a minha opinião.

Oooh! Ou seja, todo dia é uma festa, né!

...Pois é.

​Eu gosto dessa sua forma resumida de ver as coisas, Haruka.

Ei, ei, já que estamos aqui, vamos dar uma volta e olhar tudo!

Claro. Se bobear, a gente pode até jantar por aqui mesmo.

Aí sim, aí sim! Só por hoje vamos fazer isso, né!

​E foi assim que o meu jantar e o da Haruka acabou sendo um banquete de rua nas barracas.

Takoyaki, espetinho de carne, yakisoba, kebab, batata assada com manteiga, yakitori, taiyaki, maçã do amor, milho assado e algodão-doce. Nós dominamos tudo isso, devorando até banana com chocolate, biscoito de arroz com molho e raspadinha de gelo. Eu acho que fomos nós quem mais aproveitou a cidade neste dia.

Pelo menos a comilança do Meteoro Azul estava num nível que entraria para a lenda.

Aaah, se eu soubesse que ia ter um evento tão divertido assim, eu teria trazido o meu yukata de casa~.

​Dando tapinhas na boneca do Senhor Chonchon que ela ganhou de prêmio na barraca de tiro ao alvo, a Haruka cerrou os olhos de forma decepcionada.

Sério? Mas o pessoal daqui não estava vestindo yukata, não.

Você não entende mesmo, Kyou-san. É a essência do clima. Não importa o que os outros estão fazendo, eu que quero sentir o clima.

​Humm. Eu não entendo absolutamente nada sobre o padrão desse “clima”. Se parecer com isso, tá bom, é?

Então, o que acha de fogos de artifício? O senso de estação é zero, mas passa a sensação de um festival, não acha?

Fogos de artifício são o maior hype! Tipo, bem aqui, um rojão subir e estourar ‘BOOM’, e de lá, um de coroa de brocado explodindo ‘Paaah’ e deixando uma trilha longa... uhum, para mim isso tem muito a essência do clima.

​Olhando com as bochechas coradas e os olhos vidrados para o céu, com certeza uma ilusão de fogos de artifício desabrochava lindamente na visão da Haruka.

Você é do tipo que tem apegos inesperadamente fortes a certos detalhes, né, Haruka.

Será? Mas eu dou bastante importância à forma das coisas, talvez.

E, além disso, é uma romântica incurável.

Pois é~. Eu amo ficar empolgada.

​Isso é algo bom. Continue crescendo diretamente de forma saudável assim mesmo, Haruka.

Por algum motivo, o Kyou-san tá soando igual a um velho.

O que você tá dizendo? O meu coração vai estar para sempre na oitava série (segundo ano) .

Por que no segundo ano do fundamental (Chuuni)? O Kyouichirou tem a mesma idade que eu, não é?

Ah, uhum. Quando eu digo ‘Chuuni’, é porque tem aquela gíria de ‘Síndrome da Oitava Série’ (Chuunibyou), sabe────

​Explicar a etimologia do termo Chuunibyou para uma aluna do fundamental. Será que existe play de humilhação maior do que esse?

Hã? E por que essa pessoa, sem ter habilidade nenhuma, saiu espalhando aos quatro ventos que era a reencarnação do Anjo Sombrio das Trevas? Isso não traz nenhum benefício prático, né.

Na hora a pessoa achou que isso era legal!

​Não, não existe.

  


 





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