■ Capítulo 7: Oni Branco e Oni Maligno

 

 

 

​◆ Quinta Camada da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka

 

​Após passar pelo portal de teletransporte, o que nos aguardava era uma área interna na penumbra.

O chão estava descascado. Um cheiro de ferrugem pairava no ar. Pilares de pedra expostos erguidos a intervalos regulares, e um teto coberto por manchas escuras que se espalhavam.

As velhas paredes de pedra não tinham janelas, e a única fonte de luz eram as chamas roxas e misteriosas tremeluzindo dentro de lampiões, além do brilho do portal de teletransporte instalado lá no fundo.

No geral, um campo com uma atmosfera perfeita para que alguma coisa assustadora apareça.

Oooh! Parece até aquelas atrações de terror de parque de diversões!

​Haruka diz a sua impressão sincera enquanto olha atentamente ao redor.

Escuro, úmido e, pra piorar, sem lugar pra fugir. Ei, ei, Kyou-san. O que será que vai acontecer com a gente agora?

As suas falas não combinam com o tom da sua voz.

​Você tá mega empolgada. Ou melhor, conseguir ficar ansiosa num cenário desses já é um caso grave.

Você não tem medo de fantasmas ou de lugares escuros?

Ué, mas fantasmas são só um tipo de espírito, né. E se a visão ficar ruim, é só fortalecer com a Expansão de Visão Noturna, não acha?

...É, pois é.

​Pensando bem, ela tem razão.

Num mundo onde espíritos existem e você pode lutar normalmente contra eles em Dungeons, a alma de um humano não tem nada de irreal.

Então, a Haruka não tem medo de nada?

​Pergunto a ela enquanto concentro poder espiritual no nervo óptico e ativo a Arte de Expansão de Visão Noturna.

Coisa que eu tenho medo, é? Humm, acho que não muito. Se for pra citar algo, talvez eu não goste muito de bonecas. Ah, e máscaras de Noh e modelos anatômicos. Talvez eu não goste de coisas com expressões fixas.

Te entendo. Coisas que são perfeitinhas demais ou muito parecidas com humanos dão uma certa repulsa, né.

​O chamado fenômeno do Vale da Estranheza. Os humanos tendem a criar laços afetivos com “coisas” que têm comportamentos parecidos com os nossos, mas quando isso atinge um certo limite, eles desenvolvem o instinto de sentir repulsa.

O fato de passarmos a odiar as coisas justamente porque elas se parecem pela metade, prova como nós, humanos, somos criaturas complicadas.

O fato de que o papel de assustar em filmes de terror geralmente tem formato humano talvez seja porque eles se aproveitam dessa nossa psicologia.

Ah, agora que você falou... Eu tenho muito mais nojo de um monstro meio humano do que de um cara que é cem por cento monstro. Kyou-san, você tem umas sacadas boas, hein.

​Avançando pelo mundo que ficou nítido graças à Expansão de Visão Noturna, nós nos divertíamos com essa conversa fiada.

Como eu esperava, ter alguém ao lado é uma bênção. A Haruka parece não ligar, mas eu sou do tipo de pessoa que não se dá bem com assombrações nem com o escuro, então só de ter alguém para conversar eu já sou salvo.

O orgulho masculino me impede de dizer isso em voz alta, mas valeu, Haruka. Graças a você, o escuro não me assusta.

Fufun. Se você tem medo do escuro, pode se apoiar mais em mim, zamasu~

​Ela leu a minha mente com perfeição. Que merda, como eu odeio essa minha constituição física!

Mas o mid-boss tá demorando pra aparecer, né.

​Lamenta a espadachim do sistema estelar com uma voz insatisfeita.

Quando será que ele vai dar as caras, hein?

Bem, em noventa por cento dos casos, é quando nos aproximarmos do portal de teletransporte lá no fundo.

​Longe à nossa frente, na área ao redor do portal de vórtice roxo instalado no fundo desse prédio, não há nada bloqueando a visão.

É uma flag de combate descarada até demais.

Aah, eu queria uma entrada mais elaborada. Tipo, se aproximando silenciosamente por trás?

Não peça coisas absurdas para um Corpo Reproduzido.

​Diferente dos espíritos selvagens pelo caminho, a classe boss tem a sua existência presa à Dungeon.

Por isso, quando são derrotados uma vez, é o fim deles, mas a Dungeon cria uma nova provação baseada nos registros de quando eles estavam vivos.

Essa é a Batalha de Reprodução. Uma pequena consideração por parte da Dungeon para garantir que todos os aventureiros tenham a chance de lutar contra a classe boss.

Bem, poder lutar contra caras fortes a qualquer momento é ótimo. Mas é que eu queria ficar mais arrepiada, sabe.

Você é bem maso... quer dizer, bem severa consigo mesma, hein.

Será? Eu mesma não entendo muito bem.

​A Haruka responde como se não fosse nada, tombando levemente a cabeça.

Não, não. Ficar decepcionada por não ter sofrido um ataque surpresa em uma batalha de mid-boss significa que ou você é uma viciada em batalhas grave ou uma louca por adrenalina com os freios quebrados, qual das duas? Bem, no caso dela, provavelmente são as duas coisas.

Não trata as pessoas como pervertidas! Eu sou só uma estudante inocente que está buscando fortes emoções e──── Opa, vieram!

​A mudança ocorreu quando a distância até a porta passou a ser menor do que vinte metros.

A luz roxa que descia do teto formou duas colunas simétricas. E, ao mesmo tempo, um poder espiritual afiado como agulhas estimulou os nossos sentidos espirituais.

Formação de batalha. São dois oponentes. Use o mínimo de skills de buff para não sermos esmagados logo de cara.

Já tô fazendo!

​A Haruka-san emite uma aura azul ao mesmo tempo que abre um sorriso cheio de alegria. A garota já ligou totalmente a chave do modo combate.

Sendo assim, eu também────

BUMOOOOOOOOOOOO!

EEEMEEEEEEEEEE!

​Exatamente na hora em que eu estava usando as minhas skills, os excelentíssimos mid-bosses fizeram a sua aparição.

Membros incrivelmente musculosos, um porte físico abençoado que facilmente ultrapassava os três metros de altura. E a coisa que mais chamava a atenção eram as feições assustadoras deles.

Primeiro, o monstro que apareceu do nosso lado esquerdo.

Ele tinha chifres e olhos que lembravam um bode, e a metade superior do rosto estava coberta por pelos brancos. E a metade inferior restante era apenas de um carmesim profundo.

Não havia nem pele; a figura com uma enorme boca rasgada e exposta, se abrindo como uma lua crescente, era puramente grotesca. Um design que desperta nojo só de entrar no campo de visão.

E o monstro que apareceu do nosso lado direito era ainda mais bizarro.

Em contraste com o parceiro ao lado, a pelagem que cobria o corpo inteiro dele era de um negro puro. Ele não tinha a boca exposta como o “cara branco”, e talvez por ter olhos e nariz arrumadinhos, o seu rosto era ligeiramente mais próximo ao de um humano.

Mesmo considerando os chifres enrolados como os de um búfalo crescendo nas laterais da cabeça, as feições dele, em si, entravam na categoria de algo relativamente comum.

────O problema é que havia rostos iguais a esse por toda a parte do seu corpo.

Dois nos ombros. Dois nos braços. Dois nas coxas. Dois nas canelas. No tronco, três rostos enfileirados como um espetinho de dango. Nesse ritmo, provavelmente deve ter rostos socados por todas as costas dele também.

Por um lado, um monstro de pelos brancos e boca rasgada, pelo outro, um demônio de pelos negros e múltiplas faces. Com exceção dos chifres, são personagens bizarros que vão em direções opostas, mas a origem deles é a mesma e são da mesma raça. Ou seja:

Onis, né.

​A dedução da Haruka ganha um aceno de concordância meu em resposta.

Isso mesmo. Eles são Onis. Monstros entre os monstros que possuem corpos imponentes, chifres de animais e rostos que se assemelham aos humanos, mas que, ao mesmo tempo, são definitivamente aberrantes.

Seus nomes são Oni Branco e Oni Maligno.

Um cheiro de sangue enjoativo e respirações animalescas que vazavam. Caramba, qual é a tecnologia usada para fazer um Corpo Reproduzido com esse nível de realidade... deu ruim.

Eles vêm aí, Haruka! Vamos dividir para a direita e esquerda e destruir um de cada vez!

É assim que se fala!

​Tendo terminado a nossa curta reunião tática, começamos a correr de costas para criar distância. Eu para a esquerda, Haruka para a direita. Encarando os dois onis que se aproximavam, preparamos as nossas armas e armamos a nossa defesa. E então:

EEEMEEEEEEEEEE!

​A fim de nos atacar após a separação, os dois onis foram soltos em cada um dos seus campos de batalha.

A aberração de pelos brancos avançou com a ferocidade de um carro sem freios.

A forma como aquele oni da boca rasgada, com a metade inferior vermelha e inflamada, se movia loucamente parecia uma cena de um filme categoria B.

Beleza, pode vir. Vou te descer a porrada.

Primeiro, vamos de test drive!

​Com o braço direito carregado de poder espiritual, puxei o gatilho da Eckesachs.

O bastão negro mudou de forma em um piscar de olhos para uma lâmina espessa, trocando de roupa para a forma de espada negra. Perdi um pouco de poder espiritual, mas a Troca Instantânea funcionou direitinho.

MEEEEE!

​Em resposta, o Oni Branco enfiou a mão na sua enorme boca rasgada e tirou um cutelo de carne gigantesco de dentro do próprio corpo. Urgh, que nojo. Só de olhar, os meus pontos de Sanidade já caem.

Segurando a vontade de vomitar, manifestei o Shelled(Fortalecimento de Armadura), a Reflect(Mitigação de Impacto) e, para não esquecer do nosso professor, o Stride(Fortalecimento de Pernas), para ajeitar a minha condição.

O adversário é do tipo corpo a corpo. O primeiro movimento vai ser com um set de segurança, já preparado para a trocação de golpes.

Aqui vou... eu!

​Revertendo a corrida de costas e usando os pilares de pedra ao redor para correr em zigue-zague a fim de confundir levemente a visão do inimigo, invadi o alcance dele de uma vez.

!

Raaa!

​Dois poderes estrondosos.

O golpe descendente do Oni Branco e o meu corte ascendente se chocaram. Um som metálico de perfurar os ouvidos, a pressão do vento, e o mais importante, o peso descarregado nos meus ombros não era brincadeira.

Dou um passo para trás, dou um sidestep para confundi-lo ──── e logo em seguida, outro corte.

Mas ele rebateu isso também sem o menor problema.

Junto com o som desagradável aos ouvidos, a pressão pesada se espalhou pelos meus ombros de novo. Isso é ruim. Eu tô completamente perdendo na disputa de força bruta.

Sendo assim!

​Entendendo a situação atual, tentei dar um backstep para me reorganizar e tentar de novo.

Mas parece que o desgraçado também entendeu a diferença de força muscular entre nós dois.

EME! MEEEEE! EEEMEEEEEEEEEE!

​O bode da enorme boca rasgada me presenteia com uma dança caótica do seu gigantesco cutelo de carne, enquanto suas presas sujas de sangue brilham.

Merda, eu achava que tinha confiança nos meus músculos, mas como esperado, contra uma espécie Oni de três metros de altura eu acabo sendo empurrado pra trás.

Se fosse possível, eu queria tê-lo esmagado numa disputa de pura força bruta, mas não tem jeito. Vamos mudar de estratégia.

Não fica... se achando!

​Manifestei o Arms(Fortalecimento de Força) junto com um rugido. Num instante, a balança de poder entre mim e o Oni Branco se inverteu.

O enésimo choque entre a Eckesachs e o cutelo de carne foi uma vitória esmagadora do meu lado──── e não parou por aí, consegui fazer o corpo gigante do Oni Branco se curvar violentamente para trás.

Hah-há! Você tem ótimos músculos, bonitão! Se você estivesse vivo, eu adoraria ter perguntado o seu segredo pro treino de musculação.

​Mas isso não vai se realizar. O Oni Branco original foi derrotado há muito tempo, e o que está aqui é só um Corpo Reproduzido que o imita.

Portanto.

Que se dane a pose ou o orgulho, daqui pra frente eu vou botar tudo no talo. Poder espiritual, músculos e a massa da arma. Vou te esmagar com esses três.

​Avanço enquanto meto uma marra desgraçada. Sacando a Eckesachs no estado de espada negra, aplico mais um Arms(Fortalecimento de Força).

O oni bode branco, em resposta, ataca com o cutelo junto de um grito de quebrar a alma, mas dessa vez ele voou grandiosamente para trás sem nem conseguir amortecer a queda direito.

EEEMEEEE!

​O Oni Branco voava cada vez mais para o fundo, levando várias pilastras de pedra junto com ele.

Corri pela parede para persegui-lo.

As paredes de pedra sem janelas e as fracas chamas roxas entravam no meu campo de visão e ficavam para trás. No meio da minha investida direta, verifiquei a situação no lado direito por um breve instante, mas a coisa lá já tinha virado um desastre.

BUMOOOOOOOOOOOO!

Isso aí, isso aí! Você consegue fazer muito melhor!

​O oni de múltiplas faces e pelos negros balançava desesperadamente uma naginata feita de osso, e a espadachim do sistema estelar desviava os golpes facilmente junto com palavras que pareciam uma bronca de incentivo.

Se quase metade dos inúmeros rostos do Oni Maligno não tivessem sido belamente fatiados até a morte, a minha impressão com certeza teria sido muito diferente.

Ah, que saco. Os meus pontos de Sanidade continuam caindo! Na moral, ter alguma habilidade só resulta numa desgraça dessas? Não era muito melhor ser morto num hit só?!

Haruka! Eu vou terminar a minha parte daqui a pouco, ouviu!

​Não espero por resposta. Ouvi uma voz meio emburrada vindo lá de trás, mas a ignorei.

Se não quer que eu me intrometa e preste assistência, é melhor dar logo o golpe de misericórdia.

……Sendo assim.

Vou acabar com isso!

​Mexo no cilindro, equipo a Lógica de Combate(Cartridge) com o kanji Golpe escrito e puxo o gatilho. A Eckesachs, devorando o meu poder espiritual, transformou-se em um gigantesco martelo de guerra num piscar de olhos.

A cabeça do martelo, de um tamanho que parecia ter saído de um mangá, possuía peso e poder de destruição suficientes para abater um monstro de três metros de altura.

E, a isso────

「《Arms(Fortalecimento de Força).

​Adicionei um terceiro Fortalecimento de Força.

Juntando com a Expansão de Visão Noturna para garantir a visão, um total de sete skills básicas percorriam o meu corpo.

Obviamente começou a ficar um pouco pesado, mas para o meu eu de agora que subiu de nível, acho que ainda aguento mais uma ou duas.

De qualquer forma, isso é o suficiente para a batalha de agora. Poder espiritual, músculos e a massa da arma. Engula com vontade esse ataque combinado dos três.

EEEMEEEEEEEEEE!

​O Oni Branco tentava de alguma forma recompor o corpo que havia sido jogado longe, buscando partir para o contra-ataque.

Mas, foi mal. A hora de medir forças já acabou faz tempo. Vou aproveitar sem dó a brecha que surgiu.

Ooooooooooooooooooooooooooooooh!

​Um acerto direto com o martelo de guerra usando toda a minha força bem em cima da cabeça do oni da boca enorme rasgada que tentava se levantar. O monstro bode, que teve o crânio e os miolos esmagados de uma vez, sumiu como partículas de luz antes mesmo de ter a chance de beijar o chão.

O martelo de guerra negro, sem ter mais onde ir, caiu em queda livre e atingiu o chão. Junto com um estrondo explosivo, ele destruiu o piso ao redor, enquanto a onda de choque do impacto ainda atingia o meu corpo inteiro.

……!

​Esse coice todo mesmo com a Reflect(Mitigação de Impacto) ativada? Não me resta nada além de ter pena do senhor bode (Corpo Reproduzido) que tomou isso em cheio.

Apesar disso, a primeira batalha contra um mid-boss da minha vida chegou ao fim. É uma pena sem fim ter perdido numa disputa puramente muscular, mas ter conseguido a vitória sem usar skills únicas com certeza é um bom sinal.

Hã? E o que aconteceu com o outro lado, você pergunta?

A cabeça decapitada do Oni Maligno que uma certa espadachim do sistema estelar fatiou, acabou de voar bem na frente dos meus olhos agorinha mesmo.


 






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