■ Capítulo 19: O Raio Negro Ressoa, e conversa sobre Jogos que fazem chorar

 

 

 

​◆ Cidade Dungeon Ouka · 336ª Dungeon Tokoyami 6º Andar

 

Após terminarmos o almoço que também serviu como festa de boas-vindas, decidimos partir imediatamente para a exploração da dungeon.

Mas isso não significava que iríamos fazer uma Conquista pesada visando as profundezas extremas.

O que pretendíamos fazer hoje era apenas uma simples Caçada, na qual derrotaríamos incessantemente os espíritos inimigos no andar onde havia um Portão de Transferência direto para o Checkpoint.

Ficar de tocaia num andar de onde se pode retornar para a área segura a qualquer momento, e juntar a party inteira para espancar covardemente os espíritos que entravam desavisados no servidor só para roubar suas Pedras Espirituais... ──── o que estamos fazendo não era muito diferente de um assalto, mas já que essa é a base principal de como agem os aventureiros modernos, não tinha o que fazer.

Não vamos arriscar as nossas vidas.

Não vamos mirar em fortunas da noite pro dia.

Apenas derrotaremos os inimigos que pudermos e garantiremos o nosso dinheirinho diário básico.

Por que raios nós, de todas as pessoas, estamos nos rebaixando a imitar o povão do grupo dos trabalhadores braçais só agora?

A resposta, obviamente, não é porque estamos desesperados por dinheiro.

Tudo isso se deve exclusivamente para testar as habilidades e o verdadeiro potencial da Jupiter.

A Jupiter.

A nossa garota artilheira que acabou caindo de paraquedas nas nossas mãos graças a uma série de estranhos laços do destino.

Ela disse sobre si mesma que era uma inexperiente que não conseguia controlar os próprios poderes.

Não conseguia controlar a própria força... Entendi. Sendo assim, o que me dizem de descobrir na prática até onde ela consegue ter o controle, quem sugeriu essa ideia de forma inusitada foi a própria Haruka-san.

No começo, fiquei até surpreso de uma fominha de aventura que só se vê uma vez a cada geração propor uma Caçada, mas acho que isso foi uma consideração e um jeito dela de cuidar da novata. Agradecido pela empatia daquele sistema estelar, decidi acatar a sugestão.

A bem da verdade, eu já tava achando que ia ser puxado levar a Jupiter para liberar o Segundo Checkpoint logo à tarde, então a proposta da Haruka veio bem a calhar, tipo bote salva-vidas.

E bem, foi depois de todos esses rolos que a gente acabou parando aqui no Sexto Andar.

O Sexto Andar de Tokoyami se assemelha muito com a estrutura do Quarto Andar.

Desfiladeiros intensos, grandes depressões e vales acidentados, e um imenso platô gigantesco.

Claro, a cor do céu é a clássica cor roxa de sempre de Tokoyami.

Avançando a passos lentos por aquele desolado chão barrento sob um céu sombrio, após duas horas inteiras de caminhada, acabamos chegando no topo do maior pico possível de se subir dentro de todas as enormes inclinações desta área de campo.

Um ponto de vista estratégico de onde era possível não apenas mapear o Sexto Andar inteiro do alto, como também avistar de longe o Portão de Transferência para o Sétimo Andar.

Tendo escolhido com base nessa nossa localização privilegiada, eu tinha bastante confiança de que seriam mínimas as chances de cruzar caminhos e esbarrar acidentalmente contra algum trabalhador da galera braçal que ficava focada em camperar nas entradas e na porta das dungeons.

Então, de imediato... bem, demoramos uma cara pra chegar até aqui... mas eu quero ver a sua força. Está pronta, Jupiter?

...Sem problemas.

A garota de cabelos prateados twin-tails, vestida em um equipamento de batalha com tons de prata e preto, assentiu devagar.

Parece que a energia mental está no limite.

Então, vamos dar uma olhada nesse seu desempenho.

Beleza, para começar, tenta acertar aquele Chonchon grandão que tá voando sozinho lá longe no céu.

Apontei para um Chonchon solitário que batia incessantemente as asas das suas orelhas, a uns quinhentos metros de distância da gente.

Qual deles EU devo derrubar?

Como assim “qual deles”, eu digo esse que tá logo aqui na frente.

Pode ser só AQUELE ALI da frente?

Hein...?

Estranho, as coisas não tão batendo direito.

Não me diga que... bom, só pra garantir, melhor eu perguntar logo.

Jupiter, você consegue enxergar outros Chonchons?

Tem um monte DELES. Um bando além da primeira MONTANHA depois desse daqui da frente. Tem mais TRÊS deles conversando de boas no desfiladeiro que fica DEPOIS DO OUTRO, e ainda quatro Chonchons tão lutando com uns aventureiros NUM PLATÔ QUE FICA A TRÊS PICOS PRA LÁ... Ah, um deles acabou de ser finalizado, agora são TRÊS.

…………!

Um arrepio gelou a minha espinha inteira.

E não era pela temperatura fria do lugar.

Era um frio que cutucava direto na alma, ou melhor, era uma sensação parecida com quando a Haruka faz alguma burrice gigantesca de quebrar as regras.

Não tem como eu saber se o que a Jupiter tá falando é verdade ou não.

Porque nem eu e nem a Haruka conseguimos sentir a presença do Chonchon que tá atrás da primeira montanha, que dirá de todo o resto.

Isso é sequer possível? Uma área de detecção de poder espiritual que passa da casa dos dez quilômetros... qual é o limite do talento pra ser quebrado desse jeito?

E aí, Jupi-chan! Por acaso, só de curiosidade, de todas as coisinhas fofas que você tá sentindo nesse raio, você consegue saber até quais delas você consegue acertar se atirar?

Diante da pergunta totalmente cirúrgica do sistema estelar, a garota platinada respondeu com uma cara mais séria possível.

Se estiver DENTRO do que EU consigo sentir, então todos. Falando apenas de alcance, DAQUI DÁ PRA LEVAR MAIS UM OU DOIS PICOS PARA FRENTE.

Ouvindo isso, aquela rara ocasião aconteceu: a Haruka perdeu as palavras.

Eu? Eu, é claro, quase mijei nas calças de novo.

Voltando ao assunto PRINCIPAL. O alvo, É SÓ AQUELE ALI da frente mesmo?

A-ah. É sim. Pode ser só aquele mesmo.

ENTENDIDO.

A Jupiter acenou devagar com a cabeça de forma branda e estendeu o dedo apontando cuidadosamente para o Chonchon a quinhentos metros.

「《Caia》」

No instante seguinte, uma cena de cair o queixo queimou as retinas dos nossos olhos.

Uma trovoada negra despencou de repente do céu e apagou sem deixar vestígios aquele Chonchon em pleno voo.

É muito provável que aquela vítima infeliz sequer tenha entendido o que o atingiu.

O relâmpago de breu ecoou numa velocidade milhares de vezes mais rápida que o som e obliterou o seu alvo de vez.

Um poder de fogo absurdo com a fórmula sendo conjurada numa velocidade de um deus, numa velocidade que te tiraria até a chance de reagir, que dirá de tentar fugir.

E a garota platinada disse ainda que esse canhão gigantesco seria disparado com extrema precisão alcançando as cinco distâncias equivalentes a cinco topos de morro como os daqueles.

E o fato mais impressionante foi que logo em seguida, a Jupiter soltou outra trovoada negra de vez e atirou numa distância no limite daquilo que meus próprios olhos sequer poderiam verificar de tão estendido e impossível.

Poder de destruição, distância do alcance e mira exímia, qualquer uma dessas qualidades tomadas e somadas entregavam a resposta inegável de primeira linha top tier.

Isso sim faz jus ao Mid-Boss da rota final do jogo. O nível de loucura por trás do quão quebrado era não cabia no bom senso.

Não há sequer como duvidar da validade escondida pela frase em que a Jupiter disse “EU não consigo controlar o MEU poder”, sendo a verdadeira solução de que aquele absurdo na verdade era exatamente porque era algo impossível de ser controlado por ela, tirando toda e qualquer dúvida também do porquê alguém assim tão genial era tratada como problema nos outros grupos.

Mesmo considerando e somando todos aqueles contras do pacote absurdo, eu não deixaria de afirmar veementemente:

Sillard-san... Deixar uma garota dessas escapar não é qualquer peixe, isso aí que você perdeu devia ser um Leviatã lendário.

 

 

​◆ Cidade Dungeon Ouka · 336ª Dungeon Tokoyami 1º Checkpoint “Distrito Residencial”

 

Tendo testemunhado pessoalmente o potencial incalculável da nossa nova integrante e artilheira, resolvemos apenas dar uma checada na nossa formação e demos uma volta pelo Sexto Andar.

A Haruka, que tinha peitado sozinha o líder dos Cinco Grandes Clãs num duelo, e a Jupiter, uma artilheira munida de um alcance e de uma percepção espiritual que superavam a marca dos dez quilômetros.

Com personagens tão fora da curva lado a lado, a nossa party era absurdamente forte.

Ou melhor, contra os inimigos do Sexto Andar, a gente já tava num nível onde sequer dava pra chamar aquilo de batalha.

Afinal, nocautear com um único golpe era a nossa base. O padrão era dar hit kill até nos inimigos que sequer tinham notado a nossa presença.

A gente deu uma bela segurada para não atrair o ódio dos outros aventureiros se exagerássemos, mas mesmo assim, dá pra dizer que os resultados da nossa caçada hoje foram excelentes.

Tem certeza disso? Kyouichirou, com essa divisão, o dinheiro não vai quase todo para os outros e não para você?

T-tá, t-tudo bem. Eu nem consegui derrotar nenhum inimigo mesmo.

Maa, no fim das contas, a verdade é que eu não ganhei quase nada!

Claro, com a adição de uma arma de destruição em massa (AoE) de nível roubado na party, não sobra espaço nenhum pro solitário bastardo lixo fracassado aqui.

A Mid-Boss do tutorial e a Mid-Boss da Rota Principal.

É frustrante, mas a diferença nas specs era nítida.

Haaah, eu também tenho que me esforçar.

Enquanto soltava esse suspiro patético, liguei o meu console de videogame.

Eram onze da noite, os outros membros já estavam dormindo há muito tempo na casa alugada, e eu estava sozinho e solitário no meu quarto jogando videogame ──── e o gênero, claro, era Visual Novel de romance (Galge)!

...Sério, sem brincadeira. Reencarnar no mundo de um Galge e ainda por cima passar o tempo viciado jogando Galges, até eu tenho que admitir que sou um viciado sem conserto.

Mas o que eu posso fazer? Afinal, Galges são incrivelmente divertidos!

Eu tô sempre me esforçando até cuspir sangue, acho que podem pelo menos me perdoar por um prêmio de consolação desse nível, não é!?

Após alguns segundos de tempo de carregamento e as curtas apresentações da marca, a tela mudou para o menu de título.

A melodia de um piano fluindo pelos fones de ouvido, e a figura de cinco garotas sob um refrescante céu azul ao fundo.

Canzone Azul Ultramarino ──── comumente abreviado como Gunkan, é uma Visual Novel de romance e aventura famosa entre os entendedores.

Tendo como foco principal o esporte fictício de Dragon Tail, esse jogo é uma obra-prima que harmoniza perfeitamente uma série de desenvolvimentos intensos e apaixonantes com a juventude doce e azeda do protagonista e das heroínas.

Afinal, conseguiu a façanha de arrancar a nota máxima de cem sem reclamações deste veterano de batalhas de Galges aqui. Sem exageros, poderia até ser considerado um patrimônio cultural imaterial.

O atrativo de Gunkan, sem dúvida nenhuma, é o roteiro.

Um Galge excelente tem, sem exceções, um roteiro digno de deuses, mas Gunkan impôs uma restrição extremamente desafiadora em seu próprio enredo.

E essa restrição foi, incrivelmente ────

Toc, toc. O som tímido de alguém batendo na porta.

Quem seria a essa hora? Após mudar o jogo para a tela de configurações (config), abri a porta do quarto lentamente.

Você tem um minuto?

Aquelas pupilas rubras brilhando intensamente no corredor escuro.

A chegada da garota twin-tails de cabelos prateados, vestindo roupas de dormir góticas, me deixou meio atônito.

Ah, o que foi?

Ainda não perguntei o horário de acordar amanhã.

Ah, verdade.

Achei que estaria tudo bem apenas dizendo a hora de saída prevista, mas acho que fui um pouco insensível com a Jupiter, que acabou de entrar para o grupo ontem.

Foi mal, foi mal. Pode acordar por volta das sete horas, não tem erro. Vamos tomar o café da manhã de boa e depois partimos.

Entendido. ...Humm?

Justo quando a conversa estava quase acabando, de repente, a Jupiter arregalou os olhos.

Aquilo...

O dedinho da garota de cabelos platinados apontou para a televisão lá no fundo do quarto.

Ah, eu tava jogando um game. Tipo, a gente pode usar eletricidade dentro da dungeon, mas internet e TV não pegam, né? Então as opções de lazer acabam se resumindo a jogos e...

Está jogando Gunkan.

!?

Nessa hora as minhas pernas quase bambearam, e não foi de jeito nenhum porque a Jupiter conhecia um god-tier game aclamado mundialmente.

Mas sim porque a garota twin-tails cravou o nome do jogo só de olhar para a tela de configurações (config).

Como é que você sabia?

A tela de configurações de Gunkan é característica. A imagem de fundo do céu azul, o cursor ovalado, o uso de uma fonte um pouco incomum por padrão e, a cereja do bolo, é a função de cortar as vozes combinada com o ajuste automático do BGM.

Impossível!? É verdade que a tela de configuração de Gunkan é um pouco peculiar.

Mas a diferença é tão mínima, como alguém que jogasse casualmente perceberia isso!?

Até eu, um veterano calejado em Galges, só tenho uma vaga intuição para notar as minúcias, mas ela bateu o martelo sem hesitar.

Não, espera. Peraí, peraí, peraí.

Calma aí, Kyouichirou.

Ficar eufórico agora e explodir num papo puramente de otaku ainda é precipitado.

Descobrir o nome do jogo através da tela de configurações demonstra uma capacidade de memorização impressionante, mas não há a possibilidade de que ela seja apenas uma pessoa com uma memória fotográfica assustadora?

...Não, a Jupiter de DunMagi não tinha nenhuma habilidade especial assim, mas a vida real e o jogo são coisas diferentes. E como existe o sábio ditado “Entenda as diferenças de mídia”, não custa nada ter cautela.

O sentimento de “Gostar” escondido por trás da frase “Nossa, eu também amo o jogo XYZ!” seria, de fato, o mesmo “Gostar” que o nosso? Não, claro que não, certo? As formas de ficar viciado num jogo variam de pessoa para pessoa.

A quantidade de conhecimento e a intensidade da paixão são dez cores diferentes para dez pessoas diferentes. Se você se esquecer dessa premissa e generalizar tudo cegamente e em larga escala sob a definição de “Gostar”, isso invariavelmente gerará atritos.

É por isso que um bom otaku avalia a profundidade do oponente.

As formas de mensuração são infinitas: fazer um teste rápido (quis), perguntar diretamente o quão a fundo a pessoa entrou naquilo, ou até inserir casualmente um tópico mais maníaco no meio do assunto para ver como a pessoa reage... no meu caso, no entanto, eu baseio meu julgamento de forma bem direta pelas impressões da obra.

E-eeeh. Então a Jupiter também tem experiência com Gunkan. É uma obra incrível, não é?

Modéstia à parte, uma obra divina.

「『Gunkan é bom demais, né. A propósito, o que você mais gostou do jogo, Jupiter?

Uma pergunta tão fofinha.

Mas é justamente através dessas perguntas abstratas que o nível de vício do alvo se revela... !

Vamos lá, Jupiter, me mostre! Me mostre a sua alma fervorosa!

Como é uma obra com uma alta qualidade em tudo, se eu fosse listar todos os pontos bons, não teria fim.

Hum-hum.

Mas EU acredito que o ponto mais notável de se ressaltar está, sem dúvida, no seu roteiro.

Hooo. Prestar atenção nisso não é nada mau.

Eu concordo. Afinal de contas, não existe um bom Galge sem um bom roteiro.

Não.

A Jupiter começou a balançar as suas chiquinhas prateadas para a esquerda e para a direita, levantando uma objeção contra a minha opinião.

A parte excelente do roteiro de Gunkan está em ter excluído um certo elemento, o qual sempre foi visto como indispensável em um bom Galge, e ainda assim entregar uma emoção profunda para o jogador.

E o que seria esse certo elemento?

────A morte.

Ouvir essa palavra me fez arrepiar até a medula cerebral.

A morte. Ou, uma separação trágica e dolorosa ──── o Gunkan não inseriu esses elementos não apenas durante o jogo em si, mas nem mesmo no passado dos personagens. Embora haja pessoas que passaram por experiências dolorosas no passado, essas cicatrizes são coisas que podem ser recuperadas no futuro. Não há absolutamente nenhum tipo de tragédia como a perda de um parente ou de uma pessoa importante, ou se envolver em algum incidente horrendo.

Fala sério. Com essa idade ela já atingiu a mesma linha de pensamento que eu...?

Em Galges onde a emoção e o choro são o foco, o desenvolvimento pacífico e casual dos dias iniciais contrastados com um desfecho depressivo na segunda metade são indispensáveis. Embora varie em intensidade, muitos desses jogos de “fazer chorar”  incorporam essa mesma estrutura, e não tenho a mínima intenção de criticar isso. Elevar para depois derrubar é o que nos faz recordar do quão insubstituíveis eram aqueles dias pacíficos e despreocupados do início da trama, o que conecta diretamente ao sentimento de catarse do final ──── é uma estrutura tão bem feita que me deixa genuinamente maravilhada.

No entanto, a professora Jupiter continuou a sua palestra fervorosa com as bochechas coradas de empolgação.

Se pensarmos nessa estrutura de forma paradoxal, pode-se entender que a emoção é extraída às custas da infelicidade e da morte dos personagens. Tenho total consciência de que estou sendo extremista aqui. Mas muitos dos jogos focados na emoção que EU já joguei até agora, independentemente da diferença na linha do tempo e na gravidade do impacto, necessariamente incorporaram a morte ou uma perda definitiva de alguém em algum momento.

Naturalmente. Você cria situações em que o jogador é obrigado a chorar ou sente a mesma dor, e a partir disso, a resolução do problema, a superação da perda ou a catarse do resgate o faz chorar, é por isso que se chamam de jogos de Choro.

Para ser franco, a morte ou a desgraça de um personagem são o melhor tempero para uma obra. DunMagi é o maior exemplo disso.

Os personagens principais carregam histórias trágicas tão pesadas que dão repulsa, e dependendo da rota escolhida as pessoas morrem sem pena nem dó.

A perda de familiares, um passado grotesco, e sentimentos deixados para trás por sacrifícios nobres ──── o desenrolar das ações faz parecer uma feira de exposições de infelicidade, e o brilho dos protagonistas se esforçando para superar tudo isso é formidável.

É maravilhoso, é maravilhosamente humano.

Mas, não tem como negar que, ainda que na perspectiva dos próprios personagens aquilo seja algo terrível de se viver, esses fatores exercem uma grande atração em quem joga ou acompanha a trama.

Uma pessoa morreu, e os personagens tiveram um passado muito doloroso ──── E daí? Se eu consegui me emocionar, isso já não basta?

De fato. É isso aí, exatamente assim.

E eu, acima de qualquer pessoa, choro feito um bebê com essas histórias até os dias de hoje.

Então, isso não é uma discussão sobre o que é certo ou errado.

Mas sim o fato de que, histórias desse estilo, desde os primórdios e em qualquer parte do mundo, conseguiram balançar e abalar o coração das pessoas ──── é só isso mesmo.

Porém, com Gunkan foi diferente.

E finalmente, o assunto volta a desembarcar em Gunkan.

Nenhum dos personagens que aparecem em Gunkan morre. Não existe nenhum tipo de sofrimento melancólico depressivo. O que existe são os confrontos acalorados e os CONFLITOS entre os personagens que estão focados no esporte fictício de Dragon Tail. Mas, o calor transmitido através disso de certo tocou o MEU coração profundamente.

Exatamente. O Gunkan descartou meticulosamente o uso de temperos como a morte dos personagens ou de dias irremediáveis que nunca poderiam ser recuperados.

O que eles usaram como “tempero” foram materiais super comuns que estavam na mão de todos nós, como os conflitos, frustrações, arrependimentos e esforço.

Se as coisas não tivessem dado certo, facilmente teria caído num jogo sem graça nenhuma e muito insípido.

Mas o que aconteceu foi o contrário.

A soma de enredos intensos típicos de séries focadas em esportes com o esforço incansável e sincero das heroínas gerou uma reação química milagrosa.

Não diria que é a única obra desse tipo, e nem que seja a primeira. Tem várias outras obras por aí onde os personagens não se dão mal nem sofrem desgraças. Porém,

Você quer dizer que a técnica magistral de, de propósito, abrir mão do famoso tempero e, mesmo assim, conseguir refinar uma obra a ponto de causar uma emoção genuína, essa habilidade por si só foi algo primoroso, não é?

Kyouichirou, você entende muito bem.

A garota twin-tails platinada assentiu devagar.

Tenho vontade de devolver essas exatas palavras para você.

Você é realmente incrível.

EU acho que obras onde pessoas morrem, ou histórias em que somos jogados de um lado para o outro pelo destino, também são maravilhosas. Mas a história lapidada por Gunkan foi tão grandiosa quanto elas.

A alta ambição da equipe de produção e a direção de qualidade divina elevaram o nível do roteiro para uma dimensão ainda mais alta, não é.

Isso. Aquilo é a felicidade suprema, que não pode ser saboreada em nenhum outro lugar a não ser num Galge.

Com as nossas opiniões entrando em acordo, ficamos em silêncio por um instante, e então, sem que nenhum dos dois tomasse a iniciativa primeiro, trocamos um firme aperto de mãos.

Ficar conversando em pé aqui é meio ruim, não quer continuar o papo no meu quarto?

É o que eu mais quero...

E assim, usando o Gunkan como aperitivo, passamos a noite toda conversando sobre Galges.

Como eu já esperava, ou melhor dizendo, a profundidade de conhecimento da Jupiter era absurdamente alta, a ponto de conseguir acompanhar sem dificuldades as minhas defesas com força total.

Você manda muito bem, Jupiter...!

O Kyouichirou é que é formidável.

Um oponente capaz de bater de frente e lutar de igual para igual mesmo quando você joga com tudo.

As pessoas devem chamar isso de “camaradas”.

(Mas, quem será que recomendou Galge pra ela?)

É difícil imaginar que foi algo natural. Uma garota de doze anos, e ainda por cima a Jupiter, que até dois anos atrás nem sabia falar a língua do Império, estar tão afundada no pântano dos Galges... com certeza deve ter algum motivo, mas...

Ei, Jupiter. Quem é o seu mestre?

Porém, a Jupiter disse que “Não existe pessoa assim”. E também: “Esqueci o motivo de começar, mas quando percebi, já estava viciada”.

Huum. É um belo de um mistério.

 

 

 

 


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