■ Capítulo 18: Jupiter ──── A Garota Que, Mais Tarde, Seria Chamada de 〝Raio Negro da Cólera〞

  

 

​◆ Cidade Dungeon Ouka · 336ª Dungeon Tokoyami 1º Checkpoint “Distrito de Entretenimento”

 

Deu um ruim gigante.

Quem diria que a artilheira recém-adicionada ao nosso grupo seria a Mid-Boss da Rota Original.

(Que tipo de bomba você tá me mandando, Sillard-san!?)

Falando na Jupiter, entre as personagens inimigas que aparecem no primeiro jogo, ela é uma garota que ganha um “super” no quesito loucura e um “super” no quesito perigo.

Uma fonte de problemas colossal dessas se tornando membro da nossa party...

Que foi, Kyou-san? Começou a coçar a cabeça desesperado do nada... Ah, já sei! É aquela parada de chuunibyou que você tinha falado antes, né!

Claro que não. ...Só tive uma leve tontura, mais nada.

Devolvi uma resposta qualquer para a pergunta indelicada do sistema estelar enquanto tentava reorganizar os meus pensamentos embaralhados.

Calma, Kyouichirou. Não é hora de ligar pra baboseiras que um sistema estelar fala.

Encontrar com ela pessoalmente me abalou um pouco, mas lembre-se do esforço dessas últimas duas semanas.

Desde o momento em que vi o nome dela no documento que o Sillard-san enviou, eu e a Al nos esforçamos em vários preparativos, não foi?

Já pensei o suficiente sobre os riscos.

A análise já foi concluída há muito tempo.

Por isso, a partir de agora é só avançar sem hesitar.

Bom, primeiro, vamos começar com uma breve apresentação!

Bem-vinda à nossa party, Jupiter-san. O meu nome é Shimizu Kyoubitche!

Eu mordi a língua.

Mordi a língua no meu próprio nome.

Kyou... bitche?

Shimizu... Kyouichirou. Conto com você. E, essa aqui é...

Para esconder a vergonha, cortei as saudações pela metade e passei a bola para a Haruka.

Droga! Não era pra ser assim!

Eu sou Aono Haruka! Prazer, Jupi, Jupi... Hum, como você quer que eu te chame?

...Pode me chamar do que quiser.

Entendido! Então vai ser Jupi-chan (provisório)! Prazer, Jupi-chan!

...Prazer.

A Haruka falando numa voz tão alta que nem o barulho da fonte de água conseguia abafar, e a Jupiter cumprimentando de volta numa voz que parecia prestes a sumir.

Duas pessoas bem opostas de certa forma. ...Bem, não é como se fosse fácil existir alguém da mesma natureza que o sistema estelar por aí, mas, maa, tanto faz.

Bom, desculpe a pressa, mas vou começar o briefing. Ah, aqui não é o melhor lugar, bora mudar pra outro canto. Jupiter-san, você disse que tava morando num hotel, não é?

Por precaução, fiz uma reserva. ...Mas, como não tenho muito dinheiro sobrando, se o Kyouichirou e os outros pudessem me deixar morar na house de vocês, eu agradeceria.

Beleza. Então bora comprar uns petiscos e fazer o briefing lá em casa para celebrar a sua mudança também.

...Gratidão.

A garota de cabelos prateados em tranças duplas (Twin-tails) fez uma reverência e abaixou a cabeça de forma admirável.

Dá até vontade de duvidar se ela é realmente “aquela” Jupiter, mas com certeza essa era a verdade.

Não é uma dupla personalidade, nem um doppelgänger, apenas as linhas temporais são diferentes.

A Jupiter antes de se juntar àquela Organização.

Se eu fosse definir a versão atual dela, acho que essa seria a expressão mais adequada.

 

​◆ Cidade Dungeon Ouka · 336ª Dungeon Tokoyami 1º Checkpoint “Distrito Residencial”

 

Mudando de cenário: a sala de estar da casa alugada.

Tendo finalizado rapidamente a criação do “ninho” para a nossa nova moradora, organizamos petiscos prontos e refrigerantes para uma festinha simples.

Então, para celebrar a entrada da nossa nova integrante da party...

“Saúúúde”, brindamos e erguemos os copos cheios do líquido cor de âmbar.

É ginger ale. Pode ficar tranquilo.

Uma roda de pivetes se juntando em plena luz do dia pra uma festa de besteiras; eu mesmo sinto que tô agindo igual criança.

É tão bom, passar um tempo assim. Eu adoro demais isso.

A Jupiter-san começou como aventureira há muito tempo?

Tentei agir naturalmente e mandar uma pergunta, mas por algum motivo acabei usando um tom polido e formal.

Mas é que formalidade é muito prático. Especialmente com alguém que você acabou de conhecer, não tem erro.

Uaaah, olha lá a voz super séria do Kyou-san de novo. Devia ter começado logo no informal de uma vez, já que eu sei que você não vai conseguir segurar esse tom por muito tempo.

Cala a boca.

Enfiei um nugget de frango na boca do sistema estelar que tentava dar pitaco, e voltei o meu olhar para a Jupiter, que estava sentada na diagonal.

Um rosto com cara de vilão refletido nos seus olhos carmesins, como rubis. Não importa quando, sempre tenho essa cara de delinquente.

Por mim, não tem problema me chamar de forma informal ou sem os honoríficos. EU também faço o mesmo... mas se preferir um tom mais e-educado, EU mudo, agora mesmo.

Não, assim tá ótimo. Eu também vou agir de forma bem mais relaxada e franca.

Uhum, uhum; a Haruka-san assentia com cara de sabichona e com a boca lotada de nugget.

Por que você tá agindo como se fosse a maioral...?

Mas, voltando ao assunto de antes. Há quanto tempo a Jupiter tá trabalhando como aventureira?

Tentei mandar outro jab leve, mudando para um tom mais informal.

Se é pra começar a perguntar, acho que devia ser por aí.

Faz uns dois anos. Desde que vim para cá aos dez anos de idade.

Dez anos! Eu já sabia disso calculando pelo revés do meu conhecimento do jogo, mas ouvir isso diretamente da boca dela dá um choque gigante.

Quer dizer, um mundo onde uma garota de dez anos precisa trabalhar é um mundo completamente insano, né?

Como alguém que viveu a vida toda num mundo sem espadas e sem magias, não dá para simplesmente relevar isso e aceitar fácil um “quando em Roma, faça como os romanos”.

Não que eu tenha a mínima vontade de virar um daqueles iludidos defensores cegos de culturas que saem gritando “Este mundo está errado!” por aí, mas mesmo assim, o que incomoda, incomoda.

Trabalha como aventureira desde os dez anos, e ainda por cima era membro do grupo do Sillard-san. A Jupi-chan é incrível, hein.

Isso não é verdade. EU sou de outro país, então só FUI acolhida pelo grupo do James por pura pena. A Haruka e os outros são muito mais incríveis, já que quebraram o recorde de descida aqui no começo da carreira.

Não devia ser modéstia falsa.

A Espada(Rosso) de Gelo(&) Flamejante(Blu) tem muito desse lado de ser uma organização de ajuda mútua entre estrangeiros.

Por isso, a Jupiter deve ter entrado lá numa situação em que precisava de quase uma adoção de proteção total.

O Império trata estrangeiros e pessoas de outras raças com muita severidade.

Especialmente com relação àqueles chamados de Homens-Besta, aos quais uma parte da nobreza continua detestando de forma terrível como se fossem pragas.

Estrangeiros como a Jupiter e o Sillard-san são tratados bilhões de vezes melhor se comparados aos Homens-Besta, mas, ainda assim, se der algum problema, as penalidades que levam são bem mais rigorosas que as nossas.

Bem, isso é uma realidade em qualquer país, sendo medidas necessárias para resguardar as próprias pedras espirituais e Regalias(Revelações Divinas) da nação.

Afinal de contas, dá pra imaginar facilmente o futuro caótico de milhares de aventureiros ao redor do globo invadindo outras dungeons e enchendo os próprios bolsos com itens sem o menor impedimento, caso fosse liberado vir fazer “bicos” no exterior e farmar tudo livremente.

As leis deste país exigem uma naturalização forçada para estrangeiros que queiram atuar como aventureiros, e também proíbem a entrada em quaisquer instalações conectadas às dungeons para os que se recusem.

Além do mais, caso o indivíduo de fato assuma e faça a escolha de naturalização, o estado impõe que ele deve obrigatoriamente registrar e assinar o seu nome de registro usando o conversor para os silabários Katakana originais.

O estado podre dessa legislação fica muito nítido apenas usando os seus próprios nomes.

Para uma garotinha de apenas dez anos que se viu obrigada a migrar em carreira solo para se alocar dentro do Império, basicamente o leque de opções era minúsculo ou talvez inexistente.

A verdade é que esse mundo é super podre.

Dentro do clã do James, EU fui empurrada de um grupo para o outro. ...O motivo era porque EU era uma inexperiente que não conseguia controlar o próprio poder. Ter sido transferida para a party de VOCÊS... também acredito que seja porque desistiram de mim.

Eu acho que não é bem isso, viu.

Depois de mandar um gole de ginger ale pra dentro para dar aquele gás, lancei as minhas palavras para aquela garota tão negativa.

No mínimo o Sillard-san parecia se importar muito com a Jupiter. Até falou: “Se acontecer qualquer coisa, confie em mim na mesma hora”.

Ele só fala coisas agradáveis para disfarçar o próprio sentimento de culpa de ter ME jogado fora.

Você acha mesmo que ele tem o coração tão bom assim pra ter esses pensamentos nobres? Aquele cara deve ter os nervos feitos de aço de superliga.

...Você até que, talvez, tenha certa razão.

Talvez ela estivesse pensando no quão cara de pau aquele ikemen raposa velha pudesse ser.

Jupiter assentiu brevemente com a cabeça várias vezes seguidas, concordando baixinho.

Mas é verdade que EU fui empurrada de um lado para o outro. Durante as batalhas, houve vezes em que eu machuquei meus próprios aliados. Pensando OBJETIVAMENTE, EU sou muito difícil de lidar.

...E falando isso pra nós, o que a Jupiter quer fazer?

Perguntei para a garota de cabelos platinados colocando toda a gentileza que eu podia na minha voz.

Se você não quiser entrar pra nossa party, eu posso pedir pro Sillard-san ajudar você a voltar pra Espada(Rosso) de Gelo(&) Flamejante(Blu). Se você decidir ficar, claro que será super bem-vinda, e se estiver pensando em outro caminho, estou aqui para te aconselhar. Então, fala pra mim o que a Jupiter tá pensando.

...EU...

Com uma voz tão fraca que parecia ser espremida de dentro para fora, a garota de cabelos platinados desfilava os próprios sentimentos, soltando uma palavra por vez.

EU quero me esforçar nesta party. Não tenho para onde ir, e não quero causar problemas para o James. ...Mas, EU sou perigosa. Não quero machucar VOCÊS dois. Por isso, EU queria que VOCÊS soubessem disso.(As letras maiúsculas são pra mostrar que ela não fala japonês muito bem por isso sai estranho)

Aquelas palavras de consideração, vindas do fundo do coração da garota, foram sinceras.

Em um ambiente novo e promissor, quantas pessoas teriam a coragem de dizer “eu sou perigosa” para os parceiros com quem dividiriam dores e glórias?

Deve ter doído, deve ter sido difícil.

Ela poderia facilmente ter escondido, mas ainda assim contou a verdade.

Uma garota muito corajosa e gentil.

E, diante dessa sua sinceridade, eu precisava responder com igual integridade.

Obrigado, Jupiter. Eu também quero me aventurar com... ou melhor, vamos deixar o papo formal de lado... com você. É um grupo só de gente doida e imperfeita, mas vamos dar o nosso melhor juntos.

...Obrigada.

A garota de cabelos platinados fez uma pequena reverência e, de forma contida, pegou um sanduíche de alface.

Sendo influenciado, levei um sanduíche de ovo até a boca enquanto o sistema estelar abraçava um sanduíche misto com as duas mãos.

Um Mid-Boss de tutorial, um Boss de Rota de Trauma e uma Mid-Boss de Rota Principal comendo sanduíche na mesma mesa. E, para piorar, o meu espírito contratado era ninguém menos que a Boss Secreta que faria até bebê parar de chorar de medo.

Dizem que três cabeças pensam melhor do que uma, mas quando se juntam quatro chefões do mal... isso já vira uma organização maligna completa.

No mínimo, qualquer jogador de DunMagi que presenciasse essa cena suspeitaria cem por cento disso. Maa, na realidade, nós não fizemos absolutamente nada de errado, mas mesmo assim...

(Pensando bem, uma party só com bosses pode acabar sendo até que divertido.)

Com esses pensamentos irrelevantes na cabeça, fui mastigando e engolindo o pão.

Estar sentado à mesa com os inimigos do mundo tinha um sabor maravilhosamente picante e intenso.



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