■ Capítulo 20: Verdadeira Intenção, Poder Divino e Cólera

  

 

​◆ Cidade Dungeon Ouka · 336ª Dungeon Tokoyami 8º Andar

 

No dia seguinte, partimos logo de manhã cedo e rumamos para o 10º Andar.

Como a Jupiter não tinha pegado o segundo Checkpoint, a nossa largada, obviamente, foi do 6º Andar.

Sabe, o Checkpoint também deveria ser registrado pela party inteira e não individualmente, né~.

Não tem o que fazer, se o sistema fosse assim as pessoas iam poder dar exploit à vontade.

Eeeh, mas sabe~

O sistema estelar, caminhando e chapinhando pelo pântano coberto de neblina, direcionou o olhar ainda mais para trás de mim.

Por causa desse sistema chato, a Jupi-chan tá toda acabada lá atrás, ó.

……De novo.

Me virei às pressas, fazendo uma checagem da retaguarda pela primeira vez em um minuto.

Arf, arf, uma respiração de quem parecia que ia desmaiar a qualquer segundo.

As pernas e braços tremiam levemente, parecendo um filhote de cervo.

Foi mal, Haruka. Parada de emergência. Vou lá recolher ela.

Para jogar um bote salva-vidas, me aproximei da garota twin-tails platinada.

Ei, Jupiter. Vamos fazer mais uma pausa.

Então a Jupiter balançou o seu cabelo prateado de um lado pro outro com força, e espremeu uma energia falsa que, na mesma hora, dava pra ver que era só ela se fazendo de forte.

……TUDO BEIM.

Não tá nada bem. Tipo, você nem conseguiu pronunciar a palavra direito.

Você é da retaguarda, ficar sem fôlego assim não tem jeito mesmo.

Yotto, levantei a pequena princesinha nos braços e a fiz sentar numa área rochosa com menos desníveis ali perto.

Quando troquei olhares com a Haruka andando lá na frente, o sistema estelar fez um pequeno círculo com os dedos formando um “Okay”, e voltou trotando animada pra onde a gente estava.

Pronto, Jupi-chan. Vamos descansar bastante junto com a Haruka-san. O descanso também faz parte da aventura, sabe.

A Haruka-san tirou um repositor hidroeletrolítico da mochila outdoor e o levou gentilmente até a boca da Jupiter.

Apesar dela ser “daquele jeito” normalmente, ela age super direitinho nessas horas, né.

……Desculpa. EU estou causando problemas.

Não esquenta com isso. É graças à Jupi-chan que a gente tá conseguindo avançar com segurança.

Isso mesmo. As pessoas têm coisas nas quais são boas e nas quais não são. A Jupiter nos informa, e a gente se move. É o famoso ‘cada um no seu quadrado’.

Isso aí!

Hahahaha! Rimos juntos com o sistema estelar de forma super descontraída.

Vendo aquele nosso estado cheio de energia, a Mid-Boss da Rota Original murmurou baixinho.

……Vocês dois, são muito durões. Que inveja.

Fuu, descansando no chão de pedras roxas, a Jupiter nos olhava com uma inveja que parecia vir do fundo do coração.

Será que é assim mesmo? Na visão de um solitário bastardo lixo fracassado como eu, acho que a Jupiter, que tem um alcance na casa dos quilômetros de distância, é infinitamente mais incrível.

Com um pouquinho de treino, a Jupi-chan também vai conseguir se mover que nem a gente. Vamos dar uma corrida juntas da próxima vez!

……Exercícios, EU NÃO GOSTAR.

Fui rejeitada com força total!?

“Uéééém”, a Haruka-san fez um choro falso super mal feito.

Pois é, Jupiter. Eu entendo perfeitamente o seu sentimento de não querer fazer exercícios, mas querer aumentar a capacidade física sem passar por isso é uma build meio impossível de montar.

Ninguém tava falando para ela colocar pesos de dezenas de quilos nas costas e correr uma maratona, ou dar dez mil swings seguidos com a espada mudando a forma e o jeito de cortar a cada golpe; não estávamos forçando nenhum absurdo desses do nada.

Primeiro a gente começa com alongamentos fáceis, e depois aumenta a carga de pouco a pouco... O que importa não é a qualidade nem a quantidade, mas sim a continuidade e a consistência.

Se não houvesse alguma emergência especial do tipo “Precisamos erguer uma fortaleza feita de músculos em um ano”, começar a fazer exercícios no limite em que o corpo aguenta estava mais do que bom.

Se ela entendesse pelo menos isso, a partir daí tudo fluiria bem, mas...

Hum? Ah, é isso.

Que foi, Kyou-san?

Tive uma ideia de mestre.

Contei a ideia genial que tive para a Haruka.

Então, o sistema estelar abriu um sorriso como o Sol e concordou comigo.

Beleza, agora só falta a concordância da própria pessoa.

Ei, Jupiter. Eu pensei num jeito em que você não vai precisar se cansar e ainda vamos cortar absurdamente o nosso tempo de deslocamento; quer ouvir?

Adoraria OUVIR.

É isso aí, comecei a explicar o resumo da parada de forma rápida, gesticulando bastante.

A minha grande ideia maravilhosa. Isso era...

 

​◆

 

E aí, como é que tá, dona cliente? Ficou muito mais fácil agora, não foi!?

RECONHEÇO que está fácil... mas tenho uma INDESCRITÍVEL sensação DE DERROTA.

Gunununu, uma voz ranzinza ressoou nas minhas costas direto para o meu ouvido.

Isso mesmo, nas costas! Agora mesmo nas minhas costas eu estava carregando as bagagens e a nossa garota de cabelos prateados twin-tails.

Mas não subestime isso achando que é só carregar a pessoa nas costas não.

Essa montaria permitia à Jupiter, que tinha o maior alcance e sensibilidade de percepção na party, concentrar todo o seu “foco do radar” sem gastar stamina andando; para a vanguarda e retaguarda as posições estavam montadas com a Haruka e as Futsunomitama, e como se isso não fosse o bastante, caso algum inimigo spawnasse dentro da nossa formação, a Eckesachs estava de prontidão total ao meu lado para bater de frente no caso de uma invasão. Era uma estrutura de defesa montada em três níveis.

O resultado daquele treinamento suicida e louco em que eu corria três rodadas de maratonas com a deusa maligna nas costas, finalmente estava rendendo lucros nessa hora! Hahahahaha!

Haha, hahahahaha...

O que foi, Kyouichirou? EU... ESTOU PESADA?

Não tá pesada coisíssima nenhuma. Se comparar com aquele Demônio Gigante Glutão, você parece uma pluma de tão leve.

Ugh, ugh, enquanto a relembrava daqueles dias de treinamento exaustivo, continuei andando na base do suor e pisando forte nos caminhos lamacentos.

Um dia, eu ainda vou dar um chega pra lá e colocar aquela deusa maligna pra correr... Um dia!

 

​◆ Cidade Dungeon Ouka · 336ª Dungeon Tokoyami 10º Andar

Para, você tá pensando em usar a violência contra mim!?

Cubinhos de tomate!

A minha Defesa(Force) Quadridimensional(Field) em conjunto com a culinária letal da Psy-Kill( da Haruka estraçalhou a múmia com chuunibyou simulada de volta para o outro mundo.

Booooa, com isso a Jupiter já pegou o Checkpoint também.

Belo trabalho~. Bom, bora lá encontrar as gelatinas.

Enquanto conversávamos um monte de coisas à toa com a Haruka, fui caminhando em direção ao Portão de Transferência que dava acesso ao Segundo Checkpoint.

…………

...Hein? Não estou ouvindo passos nas minhas costas.

Desviei o meu olhar para trás, e vi a garota de cabelos platinados parada, plantada ali de forma estática.

O que foi, Jupiter. Tá cansada?

Com certeza é isso. Olha só, vai lá e bota nas costas, Kyou-san, nas costas.

Impulsionado pela Haruka, fui correndo até onde a Jupiter estava.

Fala sério, não precisa ter vergonha, eu já tinha dito que emprestava minhas costas na boa.

A cada passo que eu dava, a imagem da Jupiter ia ficando cada vez maior.

A garota de cabeça baixa, de pé olhando para o céu enquanto deixava os braços balançarem moles. Com o clima macabro das paisagens do Décimo Andar ajudando, dava um tom meio misterioso para a coisa toda.

(Mas ela é muito frágil mesmo, né.)

Se comparada às outras crianças da mesma idade, ela era magra até demais.

Além do mais, como havia raios negros pipocando ao redor dela, isso dava um tom ainda mais────

Quê?

Raios, negros?

Por quê? Já não tinha mais nenhum inimigo por ali, então...

Jupiter?

…………

A garota não respondeu. Continuou olhando para o teto, paralisada como uma estátua do Jizo. E então...

Kyou-san!

No instante seguinte, um enorme relâmpago despencou do céu. Um relâmpago negro. E aquele relâmpago negro explodiu a alguns metros de mim, logo em frente.

O quê!?

Num salto, entrei em posição de guarda com a Eckesachs nas mãos e passei a checar os arredores.

Os relâmpagos negros continuavam caindo no mesmo espaço de tempo nas mesmas coordenadas. A garota de cabelos platinados que permanecia ali apenas imóvel.

Os dois olhos rubros dela, como se ela houvesse perdido o próprio sentido da vida, não carregavam brilho algum. Ela não piscava, e nem sequer mexia uma sobrancelha para qualquer mudança do mundo exterior, permanecendo imóvel.

(Ela com certeza não está sã.)

Mas, me aproximar de forma relapsa assim seria um perigo enorme.

Ei, Jupiter. Acorda!

Jupi-chan, tá tudo bem com você!?

No fim, a nossa única opção que tínhamos ali era gritar de forma desesperada tentando fazê-la nos ouvir.

Ficamos garantindo por alguns minutos o tempo de que não aparecesse nenhum inimigo.

E finalmente, a luz voltou para as pupilas da Jupiter, e junto com isso o fenômeno de raios em breu se extinguiu como se fosse uma neblina desaparecendo.

Ah... EU... EU...

Como se soubesse exatamente do significado daquela mudança de cena.

A face da Jupiter voltou e empalideceu quase instantaneamente.

EU... EU...

Tá tudo bem! Tá tudo bem, Jupi-chan!

A Haruka envolveu a garota nos braços, abraçando fortemente o pequeno corpo miúdo da Jupiter que parecia estar à beira de um colapso.

É isso mesmo. A gente nunca ia ficar contra ou te odiar por uma coisa dessas. Todo mundo que tá aqui tá do seu lado! Ninguém vai te forçar a fazer nada, e nem ficar irritado com você. Então você não precisa ter medo de nada.

Enquanto eu ia escolhendo as palavras aos poucos e cuidadosamente com a intenção de apaziguar e passar confiança para acalmá-la de vez, o meu cérebro já estava trabalhando nas deduções das situações do fato para decifrar a linha correta.

Sobre as minuciosidades eu só irei saber depois que perguntarmos mais tarde, mas creio que ela deva ter entrado num modo onde perdeu totalmente o controle logo na sequência.

As vezes em que a Jupiter dizia a sua frase clássica “EU SOU UMA INEXPERIENTE QUE NÃO CONSEGUE CONTROLAR O PRÓPRIO PODER” não era necessariamente com a indicação voltada à aptidão ou da capacidade dela de coordenar as suas fórmulas mágicas.

Até porque, se esqueceram que fomos nós que havíamos sido as testemunhas vivas de checar perfeitamente ela mandando tiros cirúrgicos sem errar por nada? É ou não é?

E justamente por esse mesmo ponto; esse “EU não consigo” falado por ela não diz nada que seja associado às artes e suas conjurações de precisão. O descontrole da menina vem através daquela profunda e principal origem do mal em si.

Uma mutação que tem em seu nome a patente Nível Deus-Menor da Linhagem das Artes Divinas Keraunos──── Ou, dizendo claramente, através das mutações que sofrem o próprio Espírito de quem ela fez contrato.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

​◆ Cidade Dungeon Ouka · 336ª Dungeon Tokoyami 1º Checkpoint “Distrito Residencial”

 

EU não consigo controlar o MEU ESPÍRITO. Isso é PORQUE esse PODER FOI IMPLANTADO EM MIM PELOS PESQUISADORES DAS INSTALAÇÕES à FORÇA...

Na sala de estar que havíamos alugado, havia se instaurado um ar pesado e melancólico.

Depois daquele incidente, a Jupiter conseguiu se recuperar um pouco do estado de choque e o que ela nos pediu foi: “Quero conversar”.

Atendendo a essa vontade, nós preparamos o ambiente para que pudéssemos ouvi-la, mas... o conteúdo da história, como puderam ver, era terrivelmente doloroso.

Segundo ela, quando ainda era muito pequena, foi vendida para uma instalação chamada Paraíso dos Abençoados.

Segundo ela, nessa instalação, pesquisas desumanas eram conduzidas dia e noite com o objetivo de criar receptáculos compatíveis para espíritos que passavam por modificações especiais.

Segundo ela, após sobreviver a uma competição feroz, lhe foi concedido um espírito chamado Keraunos.

Segundo ela, “Jupiter” era apenas uma espécie de codinome que recebeu nessa época, e hoje em dia ela sequer consegue lembrar o seu nome verdadeiro.

Segundo ela, só conseguiu a sua liberdade porque foi salva por um homem que apareceu de repente e se intitulava um Aliado da Justiça.

Segundo ela, a instalação foi aniquilada pelas mãos desse homem, mas ele também acabou perdendo a vida por conta dos ferimentos da batalha.

Segundo ela, obedeceu às últimas palavras do homem à beira da morte, “Vá para o Império”, e veio para este país com a ajuda dos companheiros dele que chegaram depois para o resgate.

Segundo ela, segundo ela, segundo ela, segundo ela.

A metade da vida que a garota relatava era, em todos os seus detalhes, uma tragédia de partir o coração, um verdadeiro inferno.

O Keraunos é um espírito muito peculiar. ELE era para SER UMA existência REFORÇADA, uma classe de Poder Divino QUE ORIGINALMENTE não possuía ego, MAS foi forçado a ter CARACTERÍSTICAS EMOCIONAIS.

Classe Poder Divino.

Esse é o termo geral para os deuses sem vontade própria, formados por aglomerados puros de poder espiritual após passarem por um período de maturação absurdamente longo.

Se a explicação não estiver muito clara, não tem problema se você interpretar apenas como “eles estão na categoria de espíritos, mas na prática são apenas uma energia monstruosa que se parece com um espírito”.

É uma definição meio grosseira, mas foi o que o produtor de DunMagi disse.

E, na maioria das vezes, isso não está errado.

Para resumir as características desse tipo Divino, eles são basicamente “garotos-problema que disparam magias incrivelmente poderosas, mas não têm controle nenhum”.

Afinal, eles são aglomerados de poder sem vontade própria. Por isso, não tentam entender as ordens do mestre, muito menos ter uma comunicação normal.

Eles apenas seguem a regra lógica do “contrato” e executam as ordens operacionais chamadas de “magias” de forma totalmente mecânica.

Por isso, apesar de terem o maior poder de fogo da classe Nível Deus-Menor, os Divinos são amplamente reconhecidos como um tipo muito difícil de se lidar.

Isso porque é muito mais fácil usar os do tipo Espíritos Divinos, com quem você consegue se comunicar direito mesmo que o poder seja um pouco menor, ou os do tipo Armas Divinas, como o Adamant da Eliza-san, que têm habilidades poderosas de ativação contínua. Basicamente, eles são obedientes e têm forte lealdade.

Claro, essa é uma visão da perspectiva dos jogadores; para as pessoas que vivem de verdade neste mundo, só de ser um espírito da classe Nível Deus-Menor já é algo de se babar.

No entanto, os usuários do tipo Divino que aparecem em DunMagi são frequentemente retratados como personagens que não conseguem controlar muito bem o seu poder.

Quantas vezes eu já não vi o clichê do usuário de Divino que não consegue controlar o seu poder, mas acaba aprendendo a domá-lo no final de um treinamento intenso?

Eles têm um poder enorme, mas não conseguem controlá-lo bem ──── não é exagero dizer que esse é o destino dos tipos Divino.

Porém, houve um grupo que tentou resolver essa falha dos Divino através de uma abordagem extremamente desumana.

Esse grupo era o Paraíso dos Abençoados. Ou seja, a mesma instalação que comprou a jovem Jupiter.

Eles planejavam simplificar o controle dos espíritos Divinos, que haviam obtido através de contatos especiais, injetando neles emoções humanas específicas de forma ilimitada.

A característica emocional implantada no Keraunos foi a Paternidade. A vontade de um amor misericordioso que vê o seu contratante como um filho, e tenta protegê-lo mesmo que custe a própria vida.

Um pai amando e protegendo a sua filha.

Normalmente, esse seria um sentimento muito nobre e digno de respeito.

Mas, aquele Poder Divino do relâmpago negro, que foi forçado a receber apenas essa emoção extraída das memórias de inúmeras cobaias, acabou, naturalmente, se distorcendo.

Ele nunca vai perdoar nada que machuque a MIM, sua filha. Não só coisas óbvias como inimigos ou ataques. Se EU sentir o mínimo de medo ou estresse, ele fica furioso na mesma hora e destrói tudo ao redor. Pessoas, coisas, espíritos, ele ataca sem distinguir nada...

E esse era o verdadeiro motivo pelo qual a Jupiter era jogada de um grupo para o outro.

Ela era uma artilheira com um poder de fogo inigualável, mas se sofresse o mínimo de dano ou estresse, se transformava num desastre natural fora de controle.

O motivo de ter saído do controle agora há pouco, foi provavelmente porque EU acabei colocando na cabeça de forma vaga que não estava servindo pra nada. Hoje, EU não consegui ajudar em nada. Fui carregada nas costas pelo KYOUICHIROU, a HARUKA teve que cuidar de MIM, e na batalha contra o Boss EU não pude fazer nada. Por isso, isso ME deixou com tanta culpa, e aí... acabei...

A garota disse que acabou pensando no porquê de ser tão impotente e inútil.

Um pensamento horrível. Senti um complexo de inferioridade pela bondade dos outros, fiz birra de forma egoísta e deixei o poder sair do controle. Por mais que EU peça perdão, nunca vou conseguir ME DESCULPAR o suficiente. De verdade... ME DESCULPE.

A Jupiter curvou a cabeça profundamente e se ofereceu para ir embora dali.

Não posso causar mais problemas para vocês dois. Como imaginei, EU não deveria viver junto com outras pessoas. EU entendi isso muito bem. Por isso────

“Por isso, a partir de agora vou viver sozinha’’; espero que você não esteja pensando em dizer uma criancice dessas.

O meu palpite deve ter acertado em cheio, pois os olhos da garota platinada se obscureceram de leve.

Não tem... outro jeito. EU sou uma existência que não deveria estar aqui.

Entendi. Então, digamos que você vá viver sozinha. E que para se sustentar você vá trabalhar como aventureira, ou seja, você vai virar uma aventureira focada em caça solo. O lugar seria lá pelo 11º Andar para não incomodar ninguém? Lá você vai caçar espíritos todos os dias para ganhar o seu sustento. Beleza, no começo acho que as coisas iriam bem.

Com o poder da Jupiter, sobreviver nesta dungeon em si não seria impossível.

O fato de ela ter acesso a áreas além do 10º Andar, onde atualmente só nós somos os exploradores, também seria um vento a favor.

Mas sabe, Jupiter. Ninguém sabe o que pode acontecer no mundo. De repente, os inimigos das dungeons de Ouka podem enlouquecer e ficar mais violentos, ou pode acontecer algum fenômeno bizarro que amplifique a escuridão no coração das pessoas. E aí, se a sociedade ficar instável, naturalmente a pressão das pessoas ao redor vai piorar também.

Inveja, ressentimento e discriminação irracional.

“Por que só aquela pirralha tá ganhando dinheiro enquanto a gente tá aqui sofrendo? Que absurdo!”

────Quando você for alvo de descontos de raiva injustos como esse, o que você acha que vai acontecer com você?

Isso é...

É óbvio que o seu estresse vai acumular. Você já estaria sozinha, e a única coisa que receberia das pessoas que encontrasse de vez em quando seriam emoções violentas. É normal que você acabe cedendo. Na verdade, quem conseguisse aguentar isso é que seria doido.

E quando esse estresse atingir o ponto crítico, a verdadeira tragédia começaria.

Solidão, ansiedade, a inveja dos outros; se esse estresse se acumular, é certeza absoluta que o espírito dentro de você vai sair do controle. E aí, quando você, que não tem a proteção de nenhum clã grande, fizer uma besteira dessas, os oficiais vão vir atrás de você num instante e te jogar numa cela de prisão por muito tempo.

No Império, estrangeiros que cometem crimes, mesmo que uma única vez, têm uma forte tendência a receber punições severas.

Não importa se você é naturalizado ou não. Os engravatados deste país acham que isso é só uma fachada.

Mesmo que seja um cidadão, continua sendo um estrangeiro.

Por isso, fingem ser amigáveis publicamente, mas na hora do aperto, te empurram do penhasco e jogam pedras sem pensar duas vezes.

E essa mentalidade não é exclusiva do Império.

Qualquer país, em maior ou menor grau, tem ideologias parecidas.

Mesmo depois de colocarem as mãos na fonte de energia ideal, as coisas ainda são assim; a raça humana realmente não tem salvação.

Ou talvez, antes mesmo disso acontecer, você acabe sendo enganada por alguma Organização mal-intencionada que foca em crianças como você ──── esse tipo de coisa também pode rolar.

É por causa dessa reação oposta que idiotas extremistas nascem.

Você não fez nada de errado. É esta sociedade que está errada.

──── Esse é o clássico bordão deles. Eles manipulam presas solitárias e as usam como ferramentas convenientes. Ah, me dá vontade de vomitar só de pensar.

E assim, seguindo o que os adultos ruins e esse pai idiota e superprotetor dentro de você disserem, você vai acabar afundando no mundo da violência.

──── É a sociedade que está errada.

──── Você não precisa mais se segurar.

──── As pessoas ao seu redor são todas pecadoras que te fizeram sofrer.

Você é elogiada quando mata pessoas. Ganha recompensas quando destrói prédios. E como quem morreu foi uma pessoa ruim que te fez sofrer, você não precisa sentir culpa de nada... Quando você for colocada num ambiente desses, será que vai conseguir continuar sendo quem você é hoje?

...Tudo suposição. Uma ficção feita só de cenários impossíveis.

Pode até ser. Mas, Jupiter, agora mesmo você pensou o seguinte, não foi? Que se a situação chegasse exatamente no ponto que eu descrevi, você provavelmente acabaria tomando esse mesmo caminho e fazendo as mesmas escolhas.

……………………

Ela não deveria conseguir negar.

Porque essa história é exatamente o destino seguido por uma baita de uma idiota igualzinha a você, num mundo muito parecido com este.

Ei, sabia? Essa pessoa aí é chamada pela alcunha de Raio Negro da Cólera Raging Dark, viu?

Um nome super exagerado, dá até vontade de perguntar “O que te deixou tão pistola assim?”. Tão brega, tão tosco, mas tão tosco pra cacete.

Desculpa aí, Jupiter. Mas eu não vou deixar você pagar um mico tão tosco e patético desses não.

Ficar sozinha? Ser perseguida? Sair de controle? Ser enganada? E no fim das contas virar uma terrorista caída, enlouquecendo a ponto de esquecer até o rosto do Sillard-san, que foi seu benfeitor?

──── Conta outra! Quem é que vai aceitar um destino lixo de quinta categoria desses!?

Tragédias, injustiças, desgraças!

Dessa vez, a pecinha de teatro barata de vocês pra arrancar lágrimas foi cancelada! Se ferrem aí, seus vermes!

Infelizmente para vocês, a partir de agora essa garota vai agarrar muitas glórias e felicidades como nossa companheira.

Nem morto eu vou entregar ela pra uma sociedade secreta de meia-tigela que chora dizendo que tudo é culpa do sistema.

Não consegue controlar o poder? O seu espírito sai de controle sozinho? Então, a gente só tem que descer o cacete e arrebentar esse seu Velho do Trovão. Pra ensinar a ele que um pai não deve se intrometer nas amizades da filha!

Boa, boa! E de quebra a gente já castra ele logo pra ele não fazer mais essas travessurinhas idiotas!

Bela ideia, não esperava menos de você, Haruka.

Nééé!

Rimos alto juntos com uns trinta por cento a mais de escândalo do que o normal.

A garota platinada olhava pra nossa completa falta de bom senso com um olhar de quem estava vendo algo inacreditável.

EU não dou medo?

Nem um pouco.

Não sou um estorvo?

Na real, eu quero que você cause muito problema pra gente.

Por... que, vocês são tão gentis comigo?

Bom, isso é porque────

────Nós somos...

Sem querer as nossas vozes se sobrepuseram para dizer “uma party”.

Foi super vergonhoso, mas, no fim das contas, é isso aí mesmo.

Pra começo de conversa, Jupiter, nós só te chamamos pro grupo porque a gente travou no 15º Andar. Agora que já passamos do 10º Andar e as coisas vão finalmente começar a esquentar, se você simplesmente sair de fininho agora, eu não diria nem que a gente sairia num prejuízo gigante, seria um desastre completo, sacou?

Isso aí! Da próxima vez é a nossa vez de sermos carregados por você! Então a gente tá contando com você, tá bom, Jupi-chan!?


KYOUICHIROU, HARUKA……

Lentamente, como se estivesse processando e assimilando cada uma daquelas palavras, a Jupiter abaixou a cabeça e escondeu o rosto.

Se VOCÊS dois dizem isso, então EU... QUERO ME ESFORÇAR... só mais um pouco.

Diante de toda essa coragem que a garota reuniu com todas as suas forças, a nossa resposta não poderia ser outra além de sorrisos estampados de orelha a orelha. 


 

 

 

 


Voltar|Menu Inicial|Proximo



Comentários