■ Capítulo 13: A Necessidade de um Tipo de Longa Distância

 

 

 

​◆ Segundo Ponto Intermediário da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka

 

O que a gente faz em relação aos planos de amanhã?

​Quando a noite já estava bem avançada, a Haruka fez essa pergunta difícil de responder enquanto enchia as bochechas com marshmallows assados numa churrasqueira feita pelos Yalda 336.

Urgh, soltei um gemido por causa do clima tenso, e meus olhos acabaram vagando sem querer para as imitações de mascote pulando pyonpyoko ali do lado.

O que foi, Kyouichirou-san? Por acaso você tem mais algum trabalho pra gente!?

Não, por enquanto tá de boa. Valeu.

​Com a minha resposta, os alienígenas purupuru abaixaram o rosto parecendo um pouco desapontados, mas logo em seguida se animaram de novo, pulando e dizendo: Entendido! Se precisar de algo, é só pedir na mesma hora, hein!. Que droga, eles sabem muito bem como ser fofinhos e manipuladores ao mesmo tempo.

Kyou-saaan?

Foi mal, foi mal. Os planos de amanhã, né.

​Percebendo que eu não conseguiria fugir, me dei por vencido e comecei a quebrar a cabeça sobre essa pergunta difícil de responder ──── ou seja, os planos para o dia seguinte.

Já que chegamos na quinta camada ontem, e hoje derrotamos o boss da décima camada, naturalmente o nosso destino amanhã seria a décima quinta camada.

...Mas, sabe, o boss da décima quinta camada é de um tipo que nós dois não conseguiríamos derrotar nem se ficássemos plantando bananeira.

Ele definitivamente não é um boss absurdo e injusto como o Demônio da Morte da décima camada, e os seus atributos básicos nem são nada de tão especial assim.

Mas não tem como a gente derrotar ele. É fisicamente impossível.

No entanto, apesar disso, seria extremamente egoísta e arrogante da minha parte simplesmente sair cuspindo os detalhes de um boss que ninguém mais deveria conhecer e concluir com um “Ir até lá é inútil, vamos desistir”.

Para começo de conversa, é óbvio que ela ia virar para mim e perguntar: “Como diabos você sabe de tudo isso?”.

​Não é que eu não confie na Haruka, mas revelar que sou um reencarnado invariavelmente traz riscos. O meu conhecimento do jogo é a minha maior arma, mas, ao mesmo tempo, se eu usar de forma errada, pode acabar se tornando uma faca de dois gumes que vai devorar a mim mesmo.

……Sendo bem sincero, eu também possuo muitas informações tão perigosas que só o ato de revelá-las poderia causar uma guerra, então eu quero esconder o fato de que “eu sei” o máximo possível. Talvez as coisas até se resolvessem se eu inventasse que ouvi de algum boato ou de alguma fonte de informações misteriosa, mas...

(Eu não queria mentir muito pra essa garota, né...)

​Seria diferente se fosse alguma situação incontornável, mas neste caso, é o tipo de situação em que saber ou não saber a informação não muda muita coisa.

Ou melhor, sendo sincero, mesmo sabendo, não tem o que fazer. Já que confessar que sou um reencarnado não é uma carta barata que eu possa gastar numa situação desnecessária, a melhor estratégia aqui é responder como o aventureiro comum, Shimizu Kyouichirou.

Daqui para frente, é uma linha de frente genuína sem nenhum walkthrough(informação de conquista). Por isso, vamos tomar ainda mais cuidado do que antes e avançar para a décima quinta camada com a intenção de só fazer um reconhecimento de área.

Uhum! É assim que se fala!

​O belo rosto da Haruka se abriu num sorriso tão alegre que nem parecia possível.

Foi no limite da corda bamba, mas não contei nenhuma mentira. ……Embora a sensação de culpa esteja absurda.

Para disfarçar que ela pudesse ler os meus pensamentos pela minha expressão, enchi rapidamente a boca com marshmallows assados ──── uhum, pelo visto a camuflagem foi um sucesso.

Aaah, eu tenho muito ódio dessa minha natureza de ser um livro aberto. Como eu suspeitava, talvez eu precise de algum item que consiga disfarçar as minhas expressões pelo menos um pouco.

 

​◆ Décima Quinta Camada da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka

 

​No dia seguinte, a nossa aventura sofreu uma lamentável estagnação na batalha contra o boss da décima quinta camada.

Isso aqui é impossível, né~.

……Pois é.

​Nós dois suspiramos juntos enquanto olhávamos para o teto da décima quinta camada. Apesar de ser tão alto que não dava para entender bem a sua totalidade.

Um teto sem fundo ──── não, a esta altura deveria ser chamado de céu. Uma grande árvore parecida com um baobá, estendendo suas raízes em direção a um firmamento sem fim que se espalhava por toda parte. O puro clichê. The Fantasy. É um campo de batalha que dá vontade de dizer: “É disso que eu tô falando”.

Numa planta gigante flutuando numa área aérea a cerca de trezentos metros de altitude, bem no seu topo, descansava um pássaro gigante e majestoso.

Com penas de uma cor venenosa, asas gigantescas que pareciam ter o dobro do tamanho do corpo e olhos que lembravam os de uma ave de rapina, ele não parava de nos encarar.

Pássaro Monstruoso da Chuva Incessante Camac.

O guardião que domina a décima quinta camada continuava retraído na grande árvore flutuando no céu, sem se mover um milímetro sequer.

Uma preguiça em que ele não se dava ao trabalho de nos atacar, nem muito menos tentar nos manter recuados.

Camac não se move. Ele apenas nos encara lá da sua zona de segurança a trezentos metros de altitude.

Oooi, desce aquiiii! Vamos lutar e nos divertiiir~.

Desce aqui, seu galinha de merda! Que tipo de audácia é essa de bancar o NEET vagabundo sendo só um mid-boss!?

​Mesmo que a gente lançasse xingamentos e provocações direto do nível do chão para cima, o pássaro gigante ignorava tudo friamente, como se não fosse problema dele.

Desgraçado, eu já sabia que isso ia acontecer.

Existem inúmeros bosses do tipo Focado em Tática que lutam aproveitando vantagens ou counters contra certos tipos de combate, mas usar “altitude” e “distância” para neutralizar completamente o tipo de combate corpo a corpo dá até pra respeita... dá pra respeitar porra nenhuma, seu merda!

Receber uma vantagem de terreno tão absurda e a única coisa que você faz é intimidar o inimigo, você não tem consciência nenhuma de como é ser um boss!

Ei, será que aquele pássaro-san não pretende descer nunca?

Talvez ele desça se a gente ficar rouco de tanto gritar e dormir, mas pelo visto ele parece ser do tipo bem cauteloso, sabe.

​Na realidade, no jogo, o evento da batalha nem ativava se você não tivesse um personagem com habilidade de voo ou um atacante de longa distância que conseguisse fazer o ataque chegar até àquela altura.

Deixando o meu caso fora de questão, se nem a sua Futsunomitama alcança lá em cima, isso aqui tá com um cheiro bem forte de game over.

Se pelo menos a gente tivesse um lugar pra pisar, a história seria outra~.

Que tal a gente tentar escalar usando as espadas que você copiar como degraus?

Isso não dá meeeesmo. As espadas vão quebrar.

​O sistema estelar deu um sorriso amarelo, desapontada. Pode não parecer, mas a Haruka trata as suas espadas de forma bem delicada. Ou melhor, por mais que sejam cópias, pisar numa espada que é como a própria vida para um espadachim é algo que dá um peso na consciência, né.

Voltei o olhar para o Camac novamente. Olhando para cima, não havia nada além da árvore gigante voadora. E, para ajudar, também não tem nenhuma mecânica de socorro no cenário para ajudar quem ficou travado.

Voar até o céu, ou atirar até o céu.

Se a gente não conseguir fazer isso, significa que não podemos lutar.

Provavelmente, nós precisamos de companheiros.

Companheiros?

​Respondi acenando com a cabeça ao eco das palavras da Haruka.

Isso, companheiros. Membros extras para a party. Acho que a gente precisa de alguém que consiga voar ou que possa fazer ataques de longa distância.

Isso quer dizer que a nossa aventura termina por aqui desta vez?

Não, podemos ficar aqui até quando você quiser. Se você tiver alguma ideia, vou ajudar no que for possível.

……Muu.

​Depois de um tempo quebrando a cabeça em silêncio, a Haruka soltou um suspiro, como se tivesse se dado por vencida, e disse com um sorriso sem graça:

É muito decepcionante, mas vamos parar por aqui desta vez. Do jeito que estamos agora, não conseguimos nem chegar perto daquele pássaro-san.

Entendido. Então, vamos voltar para o Ponto Intermediário da quinta camada, organizar as nossas coisas e sair da Dungeon.

Entendido. ……Poxa vida, da próxima vez nós vamos derrotar ele com certeza, hein!

Com certeza! Vamos fazer uma vingança bem chamativa.

​Batemos os punhos e, com a promessa de uma revanche no coração, ativamos o Anel de Retorno para Pontos Intermediários.

Como se fôssemos sugados pelo círculo mágico de padrões geométricos que apareceu no chão, deixamos a décima quinta camada para trás.

​Pode me aguardar, seu pássaro de merda, eu com certeza vou te devolver o “troco” por isso.

 

​◆ Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka

 

​O que nos aguardava ao voltarmos para a cidade de Ouka depois de dois dias era uma chuva de elogios sem limites e uma enxurrada esmagadora de perguntas.

A conquista da inexplorada décima camada, a liberação do Segundo Ponto Intermediário e as observações da décima quinta camada que se tornou o novo ponto “mais profundo”. E, como se não bastasse, quem realizou tudo isso foi uma dupla de novatos que tinha acabado de estrear, então fomos cercados de uma forma inacreditável.

Funcionários nos interrogando sobre a situação com expressões tensas.

Aventureiros veteranos tentando nos recrutar com brilhos nos olhos.

E a recompensa que recebemos não foi menor que alguns milhões.

Sinceramente, para meros pirralhos do fundamental receberem, ou melhor, mesmo para adultos, era uma riqueza e uma glória que dificilmente alguém conseguiria experimentar.

Quem diria que ia virar essa bagunça toda, né~.

Falando a verdade, eu cansei mais do que na luta contra o boss da quinta camada.

Eu também.

​Nós dois, sentados no banco da entrada, demos um riso seco “Hahaha”.

Hoje, pela primeira vez, eu aprendi que se destacar cansa bastante.

Senti que consegui entender um pouquinho os sentimentos daqueles protagonistas de web novel que ficam agindo de forma arrogante e dizendo: “Yare yare, eu não queria me destacar tanto assim”.

A menos que você seja um monstro sedento por atenção, aquilo lá é bem pesado. Sem contar que acabamos criando amarras desnecessárias.

A gente ganhou um monte, né~, cartões de visita de clãs.

Pedidos para entrar na party também vieram aos montes.

​Observei distraidamente o maço de cartões de visita que recebemos, iluminando-os com a luz da lua. Caramba, tem até nomes de clãs famosos que apareceram na obra original.

Teve algum lugar que você ficou com vontade de entrar?

​Percebendo um olhar fixo em mim, virei os olhos na direção da Haruka.

Iluminados pela luz da lua, os olhos da garota com o prendedor de cabelo azul eram tão límpidos quanto safiras.

Se eu disser que não tenho interesse, estarei mentindo.

Uhum.

Mas eu não pretendo entrar em clã nenhum.

​Falei com convicção. Se você se deixar levar pelo sistema dos grandões, vai ter uma vida bem mais fácil, mas o preço a pagar é ter que dividir várias coisas.

Esforço, recompensas, tempo, e acima de tudo, eu quero evitar a todo custo qualquer problema envolvendo a posse do Elixir de Cura Universal, então entrar para um clã está fora de questão. Pelo mesmo motivo, a opção de me juntar à party de alguém também é “não”.

Isso definitivamente não combina muito comigo, mas a conquista da Tokoyami não terá sentido a menos que seja feita sob a minha liderança.

E quanto a você, Haruka? Por exemplo, se chegasse uma cantada de recrutamento ‘daquela pessoa’, o que você faria? Você admira ela, não é?

Ugh, que pergunta chata você foi fazer, Kyou-san~.

​O sistema estelar tombou a cabeça levemente, coçando a bochecha como se estivesse desconfortável. Maa, eu entendo os sentimentos da Haruka.

Afinal de contas, ela é muito legal, a Renge Kaika.

Humm, mas acho que eu também recusaria. Eu até tenho vontade de me aventurar lado a lado com ela algum dia, mas, mais do que isso, agora eu quero viver um monte de aventuras com o Kyou-san. Então, se o Kyou-san diz que não vai pertencer a nenhum lugar, eu vou te acompanhar nessa.

​Ao ouvir aquelas palavras, o meu coração se aqueceu naturalmente.

O que é isso? Fiquei mais feliz com isso do que com qualquer outro elogio que recebi hoje.

Obrigado. Eu também quero viver várias aventuras com a Haruka.

É o que chamam de amor correspondido.

De certa forma.

​Nós rimos juntos ao mesmo tempo em que nos olhamos.

O som do sussurrar da lua, do vento e das copas das grandes árvores.

O fim da nossa primeira aventura teve bastante daquela “essência do clima” .

 

 


Voltar|Menu Inicial|Proximo


Comentários