■ Capítulo 14: Aviso de Tempestade Iminente

  

 

 

Foi uma semana após o término da nossa primeira aventura que eu recebi aquela ligação.

Agradecemos pelo seu trabalho. Eu me chamo Kirishima, encarregada de relações públicas da 336ª Filial da Guilda de Aventureiros. Com licença, mas eu estaria falando com Shimizu Kyouichirou-sama?

De acordo com a mulher que se apresentou como Kirishima, parece que um convidado procurando por nós havia chegado à Dungeon Tokoyami.

Ao receber um pedido com um tom extremamente educado que basicamente significava “Se estiver livre, venha com equipamento completo agora mesmo”, eu corri apressado para a Tokoyami ──── ou não, é claro que eu não fiz isso. Eu disse para a Kirishima-san: “Tenho compromissos na minha agenda, então irei assim que terminarem”, decidindo fazer esse tal convidado esperar.

……Não, eu também fiquei com peso na consciência, sabe. Fazer um convidado esperar por causa da minha própria conveniência, eu até me critiquei pensando: “Mas que grande figurão eu virei, hein”.

Mas, para e pensa um pouco. Eu sou um estudante, e a hora era duas e meia da tarde num dia de semana.

Ou seja, eu estava no ápice dos meus estudos.

Dito isso, a Segunda Escola Secundária de Ouka, que eu frequento, é uma escola muito tolerante com as atividades de aventureiro. Por isso, se eu tivesse implorado dizendo “Surgiu um imprevisto lá...”, os amáveis professores teriam facilmente me deixado sair mais cedo.

Mas, ou melhor, exatamente por isso, eu me policiei de que não deveria me aproveitar da boa vontade deles.

Eu não chego ao ponto de dizer que o dever supremo de um estudante é estudar, mas ainda assim, se você não for para a escola quando pode, com certeza vai chegar o dia em que vai se arrepender. E é por isso que eu... tá bom, desculpa. Tentei pagar de certinho demais agora. A verdade nua e crua é que eu simplesmente não queria sacrificar os meus preciosos dias de presença por causa de um assunto que eu nem sabia do que se tratava, sim.

Então, para a próxima questão.

Sim, Sensei.

Ei, ei, só o Shimizu de novo? Vocês aí, levantem as mãos um pouquinho também~.

E assim, a minha vida de estudante ia passando de forma pacífica hoje também...

 

​◆ Em frente ao portão da Segunda Escola Secundária de Ouka

 

Yaho~, Kyou-san!

E, junto com o fim das aulas, o anormal chegou



 

Uma multidão de pessoas aglomerada em frente ao portão da escola.

De pé, bem no centro dela, estava uma versão incrivelmente deslumbrante de uniforme escolar do sistema estelar que eu conheço tão bem.

Vestindo um uniforme escolar de marinheiro — algo raro hoje em dia — com um charme levemente desleixado, a figura dela era, sem qualquer favoritismo, a de uma top idol. Era tão intimidante que andar ao lado dela seria algo totalmente impossível para mim.

Ooh, é um gakuran(Uniforme Escolar). É o Kyou-san de gakuran. E você ainda abotoou direitinho até o pescoço, que fofinho~.

C-Cala a boca. Esse é o resultado de eu tentando me misturar com o ambiente do meu jeito. E olha pra você...

A multidão ao redor murmurava.

A plateia fofoqueira fazia um alvoroço dizendo coisas como “Por que aquele Shimizu tá com uma garota linda dessas?” ou “Idiota, você não sabe? Ela é da party do Shimizu”. Mas o meu cérebro e o meu coração não tinham condições de prestar atenção nisso.

Vamos embora, Haruka. Nós estamos chamando um pouco de atenção demais aqui.

Eeeh~. A Haruka-san queria ficar observando o Kyou-san inquieto de vergonha por mais um tempinho, viu.

Encontrar alguém do sexo oposto de outra escola em frente ao portão ──── Só isso já é um obstáculo altíssimo para um otaku, mas voltar para casa com uma garota linda assim, que parece ter saído de uma pintura... Olha, não importa quantos corações eu tenha, nunca vai ser o suficiente, caramba!

 

 

​◆

 

Kyou-san, você não faz nenhuma atividade de clube na escola?

A Haruka chamava atenção, ponto final. Não só em lugares movimentados, mas mesmo caminhando por uma estrada de terra tranquila no meio do mato, os transeuntes se viravam para olhar para ela com uma frequência quase que garantida.

Não faço, não. Eu sou ocupado com os afazeres de casa e os treinamentos.

O motivo para isso provavelmente estava na roupa dela. O uniforme de marinheiro. Embora houvessem traços de ajustes pessoais no comprimento da saia e no laço no peito, não chegava a ser espalhafatoso.

Puro, ou quem sabe, refrescante. A aparência em si era incrivelmente revigorante.

Mas é bizarro. Isso, por ironia, multiplicava o brilho dela dezenas de vezes.

O fato de mostrar pouca pele paradoxalmente destacava o “material base”, ou melhor, permitia que se admirasse a sua figura sem nenhum sentimento pervertido.

(...Não, espera, isso também é perigoso em vários sentidos)

O cheiro peculiar que pairava sobre a área rural, e a brisa quente. Olhando para cima, havia um céu azul vívido e nuvens cumulus que pareciam algodão-doce.

Que tipo de situação é essa? É o melhor cenário clichê de juventude possível. E ainda por cima, a pessoa caminhando ao meu lado é uma garota linda que parece uma idol nacional; que tipo de recompensa é essa? É óbvio que o meu coração ia disparar.

Humm, isso quer dizer...

O sistema estelar franziu a testa ligeiramente enquanto levava à boca a garrafa de Ramune que compramos numa lojinha de doces próxima.

Kyou-san, por acaso você é do tipo que não sai muito pra se divertir?

Para uma pessoa sombria e excluída como eu, essa foi uma pergunta tão letal quanto um veneno fulminante.

O sangue subiu para o meu rosto num piscar de olhos. “O tipo que não sai muito para se divertir” ──── Traduzindo isso pelo filtro de complexo de perseguição exclusivo dos introvertidos, ganhava o significado de “Você é um solitário sem amigos, né?”.

O meu coração disparou, mas por um motivo diferente. Não, essa pergunta é super efetiva em mim. Efetiva até demais.

Não, como eu posso dizer...

Enquanto eu tentava desesperadamente manter uma fachada de calma, comecei a disparar desculpas.

Se me perguntarem se eu me divirto ou não, é claro que eu me divirto também. Eu gosto de games, de ler, e recentemente, de cozinhar também, eu acho. Além disso, musculação também pode ser considerado diversão, dependendo do ponto de vista. Mas, viu, Haruka. Mesmo que seja uma diversão agradável para mim, se isso será diversão para outra pessoa é uma história completamente diferente. Tem crianças que acham que futebol e queimada são divertidos, mas tem outras que consideram esportes com bola em grupo uma verdadeira tortura. Se você analisar sob essa perspectiva de diversidade, brincar e se divertir com alguém é, na verdade, um ato de altíssima dificuldade e, pra começo de conversa, a definição de amigo...

Uau, você tá falando super rápido, hein.

Quando eu voltei a mim, já era tarde para muita coisa. Aaah, o meu péssimo hábito de otaku escapou. Nós só falamos rápido quando o assunto é da nossa área de especialidade ou quando estamos dando desculpas. E quando alguém aponta isso, o nosso rosto fica vermelho igual a um pimentão. Que vergonha!

Ou seja, para resumir a ópera.

A bolinha de gude presa dentro da garrafa de Ramune fez um som de clink-clank. O Kyou-san é bem desocupado depois da escola, não é?

Se é assim que você chama ter poucos compromissos com os colegas de classe, então acho que sim.

Uhum, é totalmente um Senhor Tempo Livre~.

A voz da garota que deu a sentença estava, por algum motivo, saltitando de alegria.

Você parece estar se divertindo, hein.

Humm, pfft. Confesso que só um pouquinho.

A Haruka riu. Porém, não consegui sentir nenhum ar desagradável de deboche naquilo. Tanto o timbre da sua voz quanto a cor do seu rosto sorridente eram límpidos como um riacho de água pura.

Mas não é como se eu estivesse tirando sarro de você, tá? Na verdade, eu tava pensando ‘que bom que as tardes do Kyou-san são livres~’.

...E por que o fato de eu ser desocupado é bom para você?

Eeeh, por que, né.

O sistema estelar deu um giro completo onde estava. Aquela performance, usando a garrafa de Ramune na mão como microfone, era bela em todos os aspectos, desde a ponta dos dedos dos pés até o mínimo balançar nas pontas do cabelo.

Se é assim, eu posso te chamar pra sair depois da escola sem nenhum peso na consciência daqui pra frente, não é?

Hã.

Ela sorriu. Puxado por aquele sorriso adorável, o meu coração bateu forte sem que eu pudesse evitar, e então ──── aaah.

Isso é algo que me deixa suuuper feliz, sabia?

Sério, o que há com essa criatura? De cima a baixo, tudo nela é golpe baixo e apelação.

 

 

 

 

​◆ Sala de Recepção da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka

 

Depois disso, nós dois fomos juntos à Dungeon Tokoyami e fomos conduzidos até a sala de recepção sob as orientações de um funcionário. Lá dentro, havia duas mesas de centro de madeira simples e dois sofás de couro preto. Os caixilhos das janelas, o quadro de frutas pendurado na parede branca, o umidificador, o bebedouro e, inclusive, uma planta ornamental verde cujo nome eu não sabia; tudo passava muito aquela sensação de “típica sala de espera corporativa”.

Os docinhos são gostosos, né~.

Não vai comer demais.

Tá de boa! Eu sou do tipo que a gordura vai direto para os peitos.

O sistema estelar soltou uma declaração bombástica absurda enquanto mordia munch-munch um financier de matcha que foi servido com o chá. Eu acabei cuspindo um pouco do café que estava na minha xícara e mudei de assunto à força. Esse foi o resultado de uma autoanálise fria e calculista: se continuássemos nesse tópico, eu com certeza ia começar a agir de forma estranha.

Quem será que chamou a gente aqui?

É um mistério de verdade, né~.

Os seios expostos da Haruka balançaram levemente. Não importa quando eu olhe, é um traje de batalha bem revelador. E, apesar disso, ela tem Geradores de Membrana Espiritual(Astral ) de Proteção(Headgear) devidamente fixados em cada parte, então, na verdade, a defesa é bem competente.

“Gostaríamos que viessem com equipamento de exploração” ──── Esse também foi um “pedido” da parte interessada.

Quem será que quer fazer a gente fazer o quê, hein~.

Quem sabe. Ah, mas e se, por acaso, for o seu tão amado clã Renge Kaika, o que você faz? Não ia ficar no maior hype?

Não, imagina. Isso é impossível... né?

A Haruka engoliu o financier num gole e de repente endireitou a postura. Ela é muito fácil de ler.

No entanto, neste momento, nós não fazíamos ideia. Que aquela brincadeira leve que eu soltei só pela metade na zoeira, na verdade, não passava longe da verdade.

 

​◆

 

Com licença.

A porta da sala de recepção se abriu junto com uma voz masculina firme e resoluta.

Quem apareceu na sala foi um casal de homem e mulher.

Uma beldade de cabelos prateados e olhos vermelhos vestida num traje clássico de maid, e um homem alto e imponente de cabelos grisalhos. Ambos tinham uma aparência inegavelmente esplêndida, mas quem mais chamava a atenção era o homem.

Cabelos arrepiados, um trench coat preto como a noite e ambos os olhos exalando um brilho penetrante, da cor do aço de uma espada recém-forjada.

(...Ei, ei, só pode ser brincadeira, é um peixe grande pra caramba)

Eu achei que uma flag (bandeira) tinha sido levantada com aquele incidente antes da décima camada, mas eu não esperava por essa.

Quem diria que ele apareceria pessoalmente.

James Sillard.

Você me conhece?

Não existe nenhum aventureiro em Ouka que não conheça o senhor.

Hã? Quem é esse cara?, a fim de impedir o sistema estelar de latir essa frase, enfiei todos os financiers que encontrei na boca dela enquanto recitava o honorável título dele.

O Clan Master de um dos Cinco Grandes Clãs de Ouka, a Espada(Rosso) de Gelo(&) Flamejante(Blu), e o maior usuário de Artes de Calor ──── É uma honra conhecê-lo.

Quando eu abaixei a cabeça e estendi a mão, Sillard-san a apertou de bom grado.

Eu é que devo agradecer. Agradeço por terem vindo até aqui apesar do meu pedido repentino, Kyoushi, Kyouji... aaah, me perdoem. Vocês poderiam me dizer os seus nomes?

Sim, eu me chamo Shimizu Kyouichirou.

Sou Aono Haruka!

Certo, Kyouichirou e Haruka. Eu devo ter ouvido várias vezes recentemente, mas os nomes daqui são um pouco difíceis para mim de lembrar. Peço que perdoem a minha falta de educação.

Se formos falar de falta de educação, nós é que pedimos desculpas por tê-los feito esperar.

Que nada, eu não me importo. Na verdade, eu que peço desculpas por não ter tido consideração. Considerando a idade de vocês, o normal seria estarem se dedicando aos estudos. A falha foi completamente do nosso lado.

O líder da Espada(Rosso) de Gelo(&) Flamejante(Blu) transmitiu as suas desculpas profundamente com gestos cheios de classe.

Aaah, essa sensação... é exatamente o James Sillard da obra original.

Mesmo emanando uma aura afiada como uma lâmina desembainhada, ele é, na verdade, alguém ponderado, que se importa com os companheiros e é atencioso ──── um verdadeiro ikemen. Os personagens principais realmente estão num patamar diferente.

(...Pera, não é hora pra isso, Kyouichirou)

Não adianta nada eu ficar todo empolgado numa hora dessas. Para meros zés-ninguém como nós sermos chamados pelo líder de um dos Cinco Grandes Clãs, a coisa deve ser séria. O que foi que nós fizemos? Ou melhor, o que vão nos obrigar a fazer? Para descobrir a verdade sobre isso e, aproveitando o embalo, perguntar sobre a maid que o acompanhava (ela também é uma pessoa muito famosa), eu falei com Sillard-san.

E então, Sillard-san, de que assunto exatamente o senhor gostaria de tratar hoje? E, ah, quem é a pessoa ao seu lado?

Não precisam ficar tão na defensiva. Eu só quero conversar um pouco com vocês. E, peço desculpas novamente. Ela é a minha secretária. Eliza, apresente-se.



 

Entendido.

A maid de cabelos prateados, com o olho direito coberto por um véu negro, nos disse o seu nome de forma concisa.

Eliza Whisperda. No mundo de cerca de dois anos no futuro, a heroína silenciosa que reinará como a Vice Clan Master da Espada(Rosso) de Gelo(&) Flamejante(Blu), capaz de fazer até uma criança chorona se calar.

(Isso não vai sair barato, não)

James Sillard e Eliza Whisperda. Diante dos dois figurões que apareceram de repente, o meu estômago gritava de dor. Não chego a dizer que é um mau pressentimento, mas não consigo ter uma visão de isso terminando de forma pacífica sem acontecer nada.

Afinal, o que vai começar agora?

 

 

Hahaha! Excelente, excelente. Como eu pensava, ouvir histórias sobre as proezas dos jovens é muito agradável aos ouvidos.

A-haha. Fico lisonjeado.

Ah, Kyou-san, Kyou-san. Esse docinho do chá é super gostoso! Tem cream cheese dentro.

Entendo. A Haruka gostou desse, não é? Sendo assim, Eliza. Providencie mais imediatamente.

Como desejar.

Porém, ignorando as minhas preocupações, a reunião ocorreu do início ao fim numa atmosfera amigável.

Aproveitando o chá e os doces ocidentais, conversamos um pouco sobre a nossa aventura.

Basicamente, o Sillard-san assumiu o papel de ouvinte, e nós fomos os que mais falamos.

O assunto que mais animou foi a história da Tokoyami.

Os contos de aventura da décima e da décima quinta camada foram, como esperado, muito bem recebidos, e só com essa história o ponteiro dos minutos do relógio quase deu uma volta completa.

Depois, a conversa sobre armas. Isso também foi um sucesso absurdo.

Ele pareceu ter gostado especialmente da Soukyuu que a Haruka carrega, e ouvia a explicação do sistema estelar com os olhos brilhando como os de uma criança.

Como ele estava ouvindo com tanto entusiasmo, a Haruka não aguentou, ficou com pena e mostrou a lâmina especialmente para ele, e a reação dele foi incrível~.

O Sillard-san ficou tão emocionado que até deixou escapar o seu idioma nativo na empolgação, foi absurdamente fofo, viu.

É o que chamam de Gap Moe (charme do contraste), uhum.

────E então, antes de entrarmos na décima camada, nós também encontramos um membro da Espada(Rosso) de Gelo(&) Flamejante(Blu).

Foi o Dam. Eu ouvi sobre vocês através dele também. Aquele homem de poucas palavras estava elogiando vocês, o que é raro, então eu fiquei curioso. Mas ao conhecê-los hoje, tive certeza. Vocês realmente dão conta do recado.

F-Ficamos lisonjeados.

Embora eu estivesse sendo humilde, por dentro o meu hype tinha explodido.

Afinal, é o James Sillard, saca? O líder de um dos Cinco Grandes Clãs, que é forte, estiloso e que, dependendo da rota, até entra para a party do protagonista, elogiou a gente, sabia? Como eu ia conseguir manter a sanidade?

…………

O sistema estelar mastigava o seu financier silenciosamente sozinha. Não é como se estivesse de mau humor, mas os olhos dela estavam um pouco vidrados e dava um pouco de medo.

O que foi, Haruka? Quer que eu peça mais doces?

Hã... não, não é isso. Os doces são gostosos e eu agradeço por poder conversar com uma pessoa tão incrível, de verdade! É só que...

Tombando levemente a cabeça de forma um tanto confusa, a nossa psicopata empolgada formulou as palavras seguintes.

Até quando essa farsa vai continuar, hein~?

Pikiri. Naquele momento, os meus ouvidos certamente ouviram o som do ar congelando. O Sillard-san sorria, e a Eliza-san, em sua roupa de maid, servia chá na xícara de forma impassível. Porém, naquele instante, o ar na sala sem dúvida havia mudado. E a única pessoa completamente despreocupada era justamente a culpada por mudar a atmosfera.

Sua... que tipo de absurdo você────

Ah, desculpa. Errei totalmente a escolha das palavras. Humm, humm, conversa fiada? Lisonja barata? Preliminar? Enfim, o que eu quero dizer é, se você puder ir logo direto ao assunto!

Mas que garota. Tentou consertar as coisas e acabou cavando a própria cova ainda mais fundo com força total.

Eu ia abaixar a cabeça às pressas para pedir desculpas pelo deslize do sistema estelar, mas a mão do Sillard-san me impediu suavemente.

Não precisa se preocupar. Pelo contrário, essa franqueza me parece muito agradável. Você foi abençoado com uma ótima companheira, Kyouichirou.

O homem imponente de cabelos grisalhos deu um sorriso sutil e fez uma pergunta à garota psicopata de falas infelizes do sistema estelar.

Houve alguma falha da minha parte, Lady?

Não, não, eu não tenho nenhuma reclamação do Sillard-san~. Na verdade, é exatamente porque o Sillard-san é uma boa pessoa que isso me incomodou, sabe.

Murmurando de forma hesitante enquanto escolhia as palavras para não soar mal educada, a Haruka começou a montar a sua argumentação.

Nossa, ela até que é meio adorável, não é?

Mandou os funcionários daqui buscarem a gente, nos chamou de propósito, só pra ficar batendo papo furado que não fede nem cheira? O que é isso, que tipo de nobre você acha que é? Para mim, o Sillard-san não parece de jeito nenhum um desses figurões que perdem tempo com coisas inúteis, ou, num bom sentido, parece ter uma personalidade bem ruim, sabe~.

Nossa, retiro o que disse, ela tá latindo coisas que não são nada adoráveis. Será que eu devia enfiar uma fita crepe na boca dela?

E além de tudo.

Puxando a sua amada katana que estava encostada na parede para perto de si com um heave-ho, e mostrando a face da espadachim genial, ela declarou.

Nos fez trazer esse tipo de coisa, então não tem como ser pra bater papo, não é?

Era um argumento extremamente sensato e inegável.

É exatamente como a Haruka disse. Se ele tivesse nos convocado apenas com o propósito de comunicação pura, não precisaria nos fazer preparar os equipamentos.

Apesar disso, nos fazer trazer a Eckesachs e a Soukyuu significa que...

Haha, entendo. Então você é desse tipo, Haruka. Sendo assim, não há o que fazer. Para ser sincero, eu gostaria de ter aproveitado mais a conversa com vocês, mas deixar uma dama ansiosa esperando não é nada cavalheiro.

O mestre supremo dos Usuários de Artes de Calor iniciou a conversa com um olhar afiado como o de uma ave de rapina voltado para nós, mas com um timbre límpido como o fluxo de um pequeno riacho. E ele, com a linda maid ao seu lado, disse o seguinte:

O que acham? Se estiver tudo bem para vocês, não gostariam de ter uma batalha conosco?

 

​◆ Sala de Batalha de Simulação, Área VIP da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka

 

No DunMagi original, metade das batalhas interpessoais (PvP) eram feitas em Batalhas Reais.

Batalha Real. Como o próprio nome sugere, é o termo geral para aquele tipo de conflito extremamente bárbaro onde corpos de carne e osso brigam ou se matam.

Quando se luta, um dos lados sai ferido e, no pior dos casos, existe até a possibilidade de morte. Esse formato de batalha comum, sim... seguindo as leis tridimensionais, era iniciado quase que exclusivamente pelo lado dos vilões.

Maa, até que faz sentido. Afinal, ficar “balançando armas com o próprio corpo de carne e osso e atirando Artes Espirituais no meio da cidade” é uma atitude tão criminosa que, a menos que você seja um tremendo de um vilão, você não faria isso.

E o que o protagonista e o lado dos “mocinhos” usam quando lutam entre si é a outra metade da qual vamos tratar agora.

Um sistema de batalha “cheio de sonhos” em vários sentidos, que fornece um lugar onde os aventureiros podem lutar com tudo sem ferir uns aos outros, e isso é────

Ooh! Então essa é a famosa Batalha de Simulação!

O sistema estelar olhava ao redor da Sala de Batalha de Simulação com os olhos brilhando.

A visão daquelas máquinas em forma de casulos brancos conectadas a cabos grossos que pareciam tubos, alinhadas em intervalos regulares, tinha uma vibe meio cyberpunk muito interessante.

É a primeira vez de vocês dois numa Batalha de Simulação, certo?

Sillard-san sorriu para nós, que acenamos com a cabeça repetidas vezes. Cada expressão dele era tão estilosa que chegava a ser insuportável.

A Batalha de Simulação é um combate virtual realizado ao entrarem naqueles casulos brancos ali. Usando um avatar detalhado de si mesmos, criado a partir dos dados biométricos escaneados pelo casulo, vocês realizam uma simulação de batalha no espaço virtual ──── isso mesmo, vocês podem pensar nisso como um jogo de realidade(VR) virtual(game) de alta imersão.

A analogia do Sillard-san foi perfeita. Isso mesmo. A Batalha de Simulação é, literalmente, uma simulação de batalha. Um jogo que nos faz lutar dentro de um espaço virtual de uma forma que beira a realidade.

Como tudo o que acontece na realidade virtual é como um sonho, não importa o quanto vocês se machuquem, isso nunca será refletido no corpo físico de vocês na realidade. Mostrem-me os seus talentos sem restrições.

Uma risada estranha subiu à minha garganta. Estar num mundo de fantasia com espíritos e aventureiros recebendo uma explicação sobre um VR game, essa sensação de mistureba total é muito a cara de DunMagi. Desde o primeiro título já era um vale-tudo de gêneros mesmo.

Nós ajustaremos as configurações detalhadas do nosso lado, então vocês só precisam colocar o headset dentro do casulo. Pois bem, até aqui, vocês têm alguma pergunta?

“Sim”, levantei a mão de forma contida.

Nós acabamos chegando até aqui de forma bem natural, mas qual é o motivo de termos que lutar contra vocês?

Do que você tá falando, Kyou-san? A luta não precisa de motivo! Deu vontade de mandar ver, a gente manda! É isso que nos faz humanos, né!

Cala a boca.

Nem todo mundo é da mesma tribo de psicopatas de batalha que você, tá.

Não tem como uma pessoa do nível do Sillard-san lutar contra novatos como nós sem tirar nenhum benefício disso.

Normalmente, uma simulação de batalha contra o líder dos Cinco Grandes Clãs seria um evento grandioso pelo qual ele poderia cobrar o quanto de dinheiro quisesse.

Oferecer de graça uma experiência rara que vale uma fortuna dessas para nós, que ele acabou de conhecer? Que idiotice. Nem que os céus e a terra virassem de cabeça para baixo isso seria possível.

Eu não acho que o Sillard-san tenha qualquer vantagem em realizar uma batalha de simulação com a gente, que nem somos membros do seu clã. E se a intenção fosse esmagar novatos, você não escolheria uma Área VIP longe do olhar do público.

Vocês não conseguem engolir a desculpa de que, depois da nossa conversa, eu os convidei por puro capricho?

Não conseguimos. Fomos instruídos a vir até aqui com os equipamentos preparados. Ou seja, você já pretendia cruzar espadas conosco desde o começo, não é verdade?

“Humm”, o Sillard-san abaixou o queixo como se estivesse ponderando sobre algo.

Logo em seguida, ele olhou para cima como se tivesse tido uma boa ideia, e proferiu as seguintes palavras:

Então, vamos colocar as coisas assim.

A iluminação da Área VIP brilhou sobre o Sillard-san. Pelo visto, a Eliza-san estava mexendo nos equipamentos de iluminação lá atrás. A sensação de cena dramática tava absurda.

Eu estava pensando em monopolizar os lucros na Tokoyami. E se eu pudesse enviar os meus queridos companheiros para a linha de frente desta Dungeon, onde até agora apenas duas pessoas conseguiram a conquista da décima camada em diante, não seria um grande lucro?

Uma enxurrada de palavras fluía com facilidade e eloquência, como água de uma nascente. O sorriso do homem imponente iluminado pela luz, embora alegre, carregava uma certa loucura.

Por isso eu os induzi até aqui e, com base nisso, pretendia lhes propor uma aposta. Se eu derrotar vocês, como recompensa pela minha vitória, os obrigarei a formar uma party com membros do meu clã e a conquistar a décima camada novamente. Fuhahahahahah! Eu mesmo fiquei surpreso com o quão perversa foi essa trama que eu arquitetei!

O líder da Espada(Rosso) de Gelo(&) Flamejante(Blu) deu uma risada “Hahaha” que parecia ressoar do fundo do estômago.

Não, não importa como eu olhe para isso, você com certeza acabou de inventar essa ideia agora mesmo. E além disso, uma trama dessas desmoronaria só da gente se recusar a aceitar.

Kyou-san, eu acho que por mais que você interrogue esse cara, ele só vai ficar dando respostas vagas e desconversando.

É, eu já percebi.

Se por algum milagre essa proposta de agora pouco fosse a verdadeira intenção do Sillard-san, a nossa liderança solitária seria destruída.

Por isso, me desculpe, mas...

Sinto muito, Sillard-san. Se fosse apenas uma batalha normal, tudo bem, mas não podemos aceitar uma aposta unilateral dessas...

Você disse que precisava de um excelente Atirador(Shooter) para conquistar a décima quinta camada, não foi?

A frase disparada como se fosse para me interromper foi algo completamente inesperado.

Atirador. Um atacante de longa distância, mesmo entre os usuários de espíritos do tipo de longa distância, que se destaca especialmente pelo seu poder de fogo e alcance.

Como o Sillard-san disse, esse é exatamente o tipo de talento que nós estamos querendo no momento.

Se por acaso vocês conseguirem me derrotar, e se eu disser que posso transferir um Atirador de elite do meu clã para a party de vocês, o que fariam?

Como é!?

Por um instante, a minha mente quase ficou em branco. Não, não, se acalma. Definitivamente não tome uma decisão precipitada, Kyouichirou.

Cautelosamente, friamente, pensa no equilíbrio entre risco e recompensa enquanto coleta e analisa informações ao mesmo tempo.

...Um Atirador, é? Se possível, eu gostaria que você me contasse os detalhes.

Veio bem a calhar. Há alguns pequenos defeitos, mas posso garantir que pelo menos é alguém que possui um poder de fogo e alcance comparáveis aos meus.

Ao ouvir essa declaração, eu não pude acreditar nos meus ouvidos.

Um Atirador com o poder de fogo e alcance do nível do Sillard-san? Se isso for verdade, é um talento de nível altíssimo garantido. Merda, eles leram completamente a nossa situação.

Pensando não apenas no Camac, mas também no boss final do último andar mais para a frente, eu preciso de um Atirador do nível do Sillard-san a qualquer custo.

Alguma pegadinha?

Alguma condição por trás?

Sinto muito, mas não temos o luxo de ficar de frescura com isso.

Na verdade, para superar o Guardião daquele último andar, eu preciso pegar esse talento ativamente, mesmo engolindo alguns riscos.

E, por mais influência que o Sillard-san tenha sobre essa pessoa, contanto que eu a prenda direito com um contrato, ela não poderá cometer traições absurdas, e mais importante, ele pode ser um estrategista, mas não é um estrategista do tipo que te apunhala pelas costas no escuro.

Se nós ganharmos, ele realmente trará o Atirador como prometido.

Se isso acontecer, será um passo gigantesco em direção a conseguir o tão sonhado Elixir de Cura Universal, e então...

Olhando para a sua expressão, parece que você ficou um pouco interessado agora, não é, Kyouichirou.

...Como esperado do Master de um dos Cinco Grandes Clãs. Você sabe muito bem como manipular as pessoas.

Enquanto o suor frio escorria pela minha nuca, o meu peito ainda assim se incendiava com o perigo.

Se perder, invasão; se ganhar, um companheiro de elite ──── Que merda, é frustrante, mas faz o sangue ferver, não é?

 

 

 


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