■ Capítulo 12: Segundo Ponto Intermediário ~ Purupuru, e mais Purupuru
◆ Décima Camada da Dungeon Número 336 『Tokoyami』, Dungeon City Ouka
「É uma Pedra Espiritual bem grandinha, né.」
「Ele era um mid-boss, afinal de contas.」
No local onde o bife em cubos, outrora chamado de Demônio
da Morte, desapareceu como partículas de luz, uma Pedra Espiritual de cor roxa
escura rolava pelo chão.
Era um item que não tinha menos de quinhentos milímetros de
altura, largura e profundidade. Para carregar isso... Bem, a gente dá um jeito.
「Mas aquela skill de defesa do Kyou-san──── humm, como era
o nome mesmo?」
「【Defesa Quadridimensional】」
「Isso, a 【Defesa Quadridimensional】! Aquilo é incrível, né~! Você fica invencível.」
「……Na verdade, não é bem assim não.」
Como a Haruka disse, se olhar apenas pelo desempenho
defensivo puro, aquela skill é invencível.
No entanto, como mencionei antes, a 【Defesa Quadridimensional】 possui penalidades de enfraquecimento drásticas em todas as
áreas, exceto na potência da barreira em si.
Por exemplo, o consumo de energia, que é péssimo,
obviamente.
Mesmo com o poder espiritual abundante que construí através
dos bônus de level up e do aumento contínuo de capacidade com o treinamento
diário, se eu operar a 【Defesa Quadridimensional】 na potência máxima, eu fico completamente zerado em menos de
um minuto.
Além disso, quanto mais tempo durar a ativação, maior será a
carga de estresse dentro da quarta dimensão, e, ao desativá-la, o meu corpo
acaba gritando de dor por causa do ricochete.
E para piorar...
「Eu não consigo me mover durante a ativação.」
A maior fraqueza da 【Defesa Quadridimensional】 versão Kyouichirou: o fato de que eu mesmo não consigo fazer
absolutamente nada.
Atacar, esquivar, ou até mesmo me comunicar com meus
companheiros; tudo se torna impossível.
Durante a ativação, eu certamente sou invencível, mas
durante esse tempo, eu me torno um mero objeto de decoração que não consegue
realizar nada.
Se, por acaso, um inimigo tomasse distância e lançasse um
ataque de longa distância no exato segundo em que eu desativasse a skill, seria
o meu fim garantido.
「Ooh... como posso dizer, isso é bem Rock’n’Roll, né!」
「Não precisa se forçar a elogiar.」
Se pelo menos eu fosse um personagem com um pouco mais de
aptidão para combate de longa distância, a história seria completamente
diferente, mas choramingar por causa disso não vai adiantar nada.
Usar a skill de 『Paralisação do Tempo』 e acabar
parando o próprio tempo ──── esse é o homem conhecido como Kyouichirou Shimizu,
afinal.
「Pois bem, então vamos indo nessa?」
「Uhum!」
Carregando os espólios de guerra, deixamos a sala dos
caixões, que agora estava sem dono, para trás.
Adeus, Astovidatu. E, hum, o que mais eu ia dizer... acho
que não tem mais nada, não.
◆ Segundo Ponto Intermediário da Dungeon
Número 336 『Tokoyami』, Dungeon City Ouka
O que nos aguardava após atravessarmos o portal de
teletransporte era uma planície sem nenhuma elevação.
Um céu cor de crepúsculo sem uma única nuvem, um clima
agradável e uma terra completamente plana.
「É tão silencioso.」
「Nós devemos ser os primeiros humanos a chegar até aqui,
afinal.」
「A famosa região inexplorada nunca antes pisada pelo homem!」
「Bem, se bem que existem alguns nativos por aqui além de
humanos.」
「Como é que é!?」, a Haruka-san se espantou com uma
cara de quem tinha acabado de ver um fantasma.
「Hã, o quê? Nós vamos ter que lutar contra o Senhor
Something que mora aqui no Ponto Intermediário agora? Wahaha, essa é uma
surpresa maravilhosa.」
「As coisas não vão se desenrolar do jeito que você quer,
então guarde a espada por enquanto.」
Calma, calma, tento apaziguar a Haruka-san que parecia
prestes a pegar fogo, enfiando uma barra de cereais cheia de frutas na boca
dela.
Putz, essa garota viciada em batalhas não tem jeito.
「Mas, viu, mesmo você dizendo que tem nativos, não tem
absolutamente nada aqui.」
「Só não dá pra ver agora. Eles já vão vir até nós.」
A minha previsão se tornou realidade cerca de cinco minutos
depois.
『Muito prazer, Aventureiro-san. O meu nome é Yalda 336 e
estou encarregado da administração deste lugar!』
Criaturas gelatinosas de cor roxa, com cerca de quarenta
centímetros de comprimento total, surgiram de repente de baixo da terra, tremelicando
em um purupuru.
Acho que a melhor forma de descrever a aparência deles é
dizer que se você somar um pepino-do-mar com um coelho e dividir por dois, vai
ter esse visual de mascote fofinho. Balançando purupuru as orelhas ou antenas –
não dá muito bem para distinguir o que são – no topo da cabeça, eles começaram
a se apresentar um após o outro com vozes adoráveis.
『Sejam muito bem-vindos, Aventureiro-san. Eeeu mee chamo Yalda
336~. Podem me pedir qualquer coisinha para lhes servir, por menor que seja~.』
『Este humilde servo atende pelo nome de Yalda 336, de fato.
É de meu dever e honra empenhar-me com todo o afinco nas atividades de suporte
aos Aventureiros-san, deveras.』
Saltando pokopoko do chão, as criaturas purupuru iam
dizendo que se chamavam “Yalda 336”, uma por uma.
Um, dez... quando percebi, a densidade de purupuru estava
subindo a uma velocidade que logo chegaria a cem criaturas, então decidi pedir
para que eles se acalmassem um pouco.
「Ah, pessoal Yalda, nós agradecemos por essa recepção
calorosa de todos vocês, mas, se puderem fazer só um pouquinho menos de
barulho...」
『Quais são os nomes dos Aventureiros-san~?』
「Ah, desculpe a demora, eu sou Shimizu Kyouichirou.」
「Sou Aono Haruka!」
『Waa, vocês dois têm nomes maravilhosos~!』,
começaram a tremer (purupuru) em união aquelas imitações de mascote.
Ferrou, nesse ritmo a conversa não vai andar nada.
Se eu for na onda deles, provavelmente vai amanhecer.
Para quebrar aquela situação caótica, tirei um certo objeto
da mochila e ergui acima da cabeça.
「Vocês não querem isso aqui?」
No mesmo instante, todos os Yalda 336 pararam o purupuru.
Ver aqueles olhinhos redondos todos voltados de uma vez para a ponta da minha
mão transbordava uma fofura indescritível.
Pelo visto, essa parte não mudou nada em relação à época do
jogo.
「Hã? O que deu no pessoal purupuru? Ou melhor, Kyou-san, o
que você vai fazer com isso?」
Levantei o canto da boca num sorriso torto para a Haruka,
que tinha pontos de interrogação flutuando na cabeça, e disse:
「Nada, só vou fazer umas comprinhas. Pessoal do Yalda 336,
eu consigo pedir duas cadeiras com isso aqui?」
Abaixei e entreguei dois fragmentos de Pedra Espiritual do
tamanho de moedas para o alienígena purupuru mais próximo.
Após um instante de silêncio, as falsas mascotes começaram a
tremer o corpo todo em pequenos saltos enquanto gritavam em comemoração: 『É a Pedra-sama!』.
『Eba, eba, ganhamos a Pedra-sama~!』
『Ele deu trabalho pra gente, deu trabalho pra gente!』
『Ei, ei, que tipo de cadeira a gente faz? Vamos todo mundo
pensar!』
Waa waa, kyaa kyaa, os alienígenas purupuru ficaram
completamente eufóricos, nos deixando de escanteio.
Aquela empolgação toda parecia mesmo um festival.
Qualquer pessoa que não conhecesse os hábitos deles, como o
nosso sistema estelar aqui, acabaria sendo engolida por esse vórtice de
entusiasmo.
「Kyou-san, explicação please.」
「É pra já.」
Dei uma tossida falsa e, enquanto filtrava na minha mente
as informações que não teriam problema em passar para a Haruka agora, comecei a
explicar sobre a “Série Yalda”.
「O pessoal Yalda que está aqui são os administradores do
Ponto Intermediário. Suas características são bem variadas, como 《Multiplicação
Infinita》, 《Compartilhamento Perfeito de Informações》 e 《Criação
de Matéria》; basicamente, eles conseguem fazer qualquer coisa dentro
do Ponto Intermediário. O que eles mais gostam são dos Aventureiros-san e de
Pedras Espirituais, e o hobby deles é trabalhar. Por isso, se você der uma
pedra de valor equivalente como eu acabei de fazer, eles criam itens
maravilhosos pra gente.」
「Eu sinto que acabei de ouvir umas frases bem perigosas
jogadas casualmente no meio dessa explicação, mas tudo bem.」
「Impressão sua, impressão sua. O pessoal Yalda são
administradores fofos, gentis e ideais. Por isso, nós também devemos tratá-los
com respeito.」
O sistema estelar ficou me encarando com olhos
desconfiados.
Não, eu não estou mentindo absolutamente nada, juro.
Só estou omitindo os detalhes obscuros por trás dessas
imitações fofinhas de mascotes... como o fato de que, se você for violento com
eles, uma “entidade” aterrorizante vai descer à Terra; ou o fato de que, como
eles compartilham informações perfeitamente, o seu nível de afinidade com eles
é mantido para qualquer Dungeon que você for; ou até mesmo que a fonte original
deles é a mesma que a da Al ──── cof, cof. Enfim, não estou contando toda a
verdade, mas não estou mentindo.
Se eu disse que não tô mentindo, eu não tô.
「Basta reconhecê-los como importantes parceiros de negócios
que apoiam a nossa vida no Ponto Intermediário.」
「...Hã? Você não tá meio assustado com eles, Kyou-san?」
「Não tô assustado. Só estou nutrindo um sentimento de
reverência.」
「Não, isso é só você reescrevendo a mesma coisa com
palavras mais difíceis... maa, que seja. Ok, o resumo da ópera é pra não
destratar o pessoal purupuru fofinho, né.」
É muito bom que ela entenda as coisas rápido.
Porém, deixando isso de lado, tinha uma coisa que estava me
incomodando.
「Vem cá, por mais que seja assim, você não é ignorante
demais sobre essas coisas?」
「Ah~, a Haruka-san aqui ainda é uma novata fresquinha,
afinal.」
“Não é isso”, balanço a cabeça negando, cortando a
autodefesa do sistema estelar.
「Não estou te criticando por não saber as coisas. É normal
um novato não ter conhecimento suficiente. Mas, viu.」
Com um tom de voz leve e suave, fiz a pergunta a ela.
「Mas você disse que teve uma época em que era tão viciada
que até participava das reuniões de clã para os fãs, não é? Para alguém
assim...」
「Você acha estranho eu não saber de nada?」
「Isso, isso.」
Se fosse só não saber sobre Pontos Intermediários, sistema
de housing e, vá lá, a lore superficial da Série Yalda, eu até entenderia
(apesar de tudo isso ser ensinado na palestra de iniciantes, como a aula é só
um instrutor lendo uma apostila o dia inteiro e passando vídeo no estilo
“enfiar goela abaixo”, é difícil fixar na cabeça mesmo).
Mas não ter reconhecido logo de cara nem mesmo o nome da Espada de Gelo Flamejante, que é um dos Cinco Grandes Clãs,
isso sim me fez pensar “Hum?”.
Os Cinco Grandes Clãs são gigantes tão famosos que qualquer
criancinha de Ouka os conhece, sabe? Alguém que ia em reuniões de clã não se
lembrar disso é algo que eu não conseguia acreditar tão fácil assim, mas...
「Ah, isso é porque eu sou uma “fã modinha”, né.」
Respondeu Haruka, num tom de quem não estava nem aí.
Incrível. É a primeira vez que vejo alguém admitir de peito
estufado e com tanto orgulho que é uma fã modinha.
「Eu comecei a gostar por causa ‘daquela pessoa’, e como eu
vivia correndo atrás dela como uma groupie, acabei ficando manjadora sobre o
clã dela. Mas, se você me perguntar se eu tive interesse nos outros clãs... ah,
isso já é outra história, sendo bem sincera, não tive a mínima vontade de ir
atrás~.」
A Haruka-san explicou a situação parecendo só um pouquinho
culpada.
Uma viciada em batalhas, super curiosa, que é uma fã
modinha... essa garota é um desfile de death flags.
「Entendi. Compreendido. Foi mal por perguntar uma coisa
estranha.」
「Ué? Só isso? Não vai ter aquele sermão do tipo ‘com esse
conhecimento raso, a partir de agora blá blá blá~’?」
「Eu disse no começo, não estou te criticando. Todo mundo
começa como iniciante e fã modinha. Um otaku veterano que esquece do óbvio e
tenta dar carteirada de conhecimento é a pior raça que existe.」
Mesmo que o cara tenha muito conhecimento, se ele só usa
isso pra se gabar e massagear o próprio ego frágil, não dá pra dizer que ele
tem amor pelo conteúdo; pelo contrário, muitas vezes quem tem menos
conhecimento, mas se diverte apaixonadamente, é um “fã muito melhor”.
E, no fim das contas, por mais que existam gostos e
desgostos, a definição desse sentimento muda completamente de pessoa pra
pessoa, não é? Tentar ranquear isso à força com um método estilo “provinha de
decoreba” é algo inútil demais, na minha opinião.
Sem contar aquela galera que adora meter o papo de “falta de
ambição pra melhorar~” ou “a postura de um profissional~” pra qualquer coisa.
Seja no trabalho ou num hobby, não vem soltar esse papo
chato de meritocracia pra cima de um iniciante, não. Falar que alguém não tem
motivação só porque não decorou o texto ou o manual inteirinho é coisa de
idiota, na moral.
É porque esse tipo de gente mesquinha fica se achando os
donos da razão que o mundo tá cheio daquelas empresas exploradoras (Black
Companies) que (omitido)...
「Huum, desculpa Kyou-san, sobre o que a gente tava falando
da metade pro fim mesmo?」
「...Tô dizendo que você tá ótima do jeito que tá.」
“Ooh!”, os olhos da Haruka brilharam ainda mais bonitos.
「O Kyou-san tem um coração muito grande, né~.」
「Wahaha! Pode me elogiar mais, se quiser!」
E assim, enquanto a nossa conversa atoa ia esquentando, os
alienígenas purupuru chegaram.
『Haruka-san, Kyouichirou-san, as cadeiras para vocês dois
sentarem ficaram prontas!』
Seguindo a orientação do Yalda 336, mudei o olhar e vi duas
poltronas maravilhosas com braços dispostas ali.
『Olha, olha~, a gente fez super bem feitinho!』
『Nós demos o nosso melhor! Elogiem a gente!』
『Sentem, sentem~.』
Sendo guiados pelas criaturas purupuru que pulavam de um
lado para o outro, eu e a Haruka sentamos.
「Uhum, muito bom. Obrigada por fazerem pra gente, pessoal
purupuru.」
Haruka relaxou a expressão e sorriu gentilmente.
E então, como se estivessem esperando por aquelas palavras,
os incontáveis Yaldas gritaram de alegria.
A noite no Segundo Ponto Intermediário, ao qual chegamos
após superarmos a área inexplorada, passou de forma tranquila assim.
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