■ Capítulo 12: Segundo Ponto Intermediário ~ Purupuru, e mais Purupuru

  

​◆ Décima Camada da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka

 

É uma Pedra Espiritual bem grandinha, né.

Ele era um mid-boss, afinal de contas.

​No local onde o bife em cubos, outrora chamado de Demônio da Morte, desapareceu como partículas de luz, uma Pedra Espiritual de cor roxa escura rolava pelo chão.

Era um item que não tinha menos de quinhentos milímetros de altura, largura e profundidade. Para carregar isso... Bem, a gente dá um jeito.

Mas aquela skill de defesa do Kyou-san──── humm, como era o nome mesmo?

「【Defesa(Force) Quadridimensional(Field)】」

Isso, a Defesa(Force) Quadridimensional(Field)! Aquilo é incrível, né~! Você fica invencível.

……Na verdade, não é bem assim não.

​Como a Haruka disse, se olhar apenas pelo desempenho defensivo puro, aquela skill é invencível.

No entanto, como mencionei antes, a Defesa(Force) Quadridimensional(Field) possui penalidades de enfraquecimento drásticas em todas as áreas, exceto na potência da barreira em si.

Por exemplo, o consumo de energia, que é péssimo, obviamente.

Mesmo com o poder espiritual abundante que construí através dos bônus de level up e do aumento contínuo de capacidade com o treinamento diário, se eu operar a Defesa(Force) Quadridimensional(Field) na potência máxima, eu fico completamente zerado em menos de um minuto.

Além disso, quanto mais tempo durar a ativação, maior será a carga de estresse dentro da quarta dimensão, e, ao desativá-la, o meu corpo acaba gritando de dor por causa do ricochete.

E para piorar...

Eu não consigo me mover durante a ativação.

​A maior fraqueza da Defesa(Force) Quadridimensional(Field) versão Kyouichirou: o fato de que eu mesmo não consigo fazer absolutamente nada.

Atacar, esquivar, ou até mesmo me comunicar com meus companheiros; tudo se torna impossível.

Durante a ativação, eu certamente sou invencível, mas durante esse tempo, eu me torno um mero objeto de decoração que não consegue realizar nada.

Se, por acaso, um inimigo tomasse distância e lançasse um ataque de longa distância no exato segundo em que eu desativasse a skill, seria o meu fim garantido.

Ooh... como posso dizer, isso é bem Rock’n’Roll, né!

Não precisa se forçar a elogiar.

​Se pelo menos eu fosse um personagem com um pouco mais de aptidão para combate de longa distância, a história seria completamente diferente, mas choramingar por causa disso não vai adiantar nada.

Usar a skill de Paralisação do Tempo e acabar parando o próprio tempo ──── esse é o homem conhecido como Kyouichirou Shimizu, afinal.

 

Pois bem, então vamos indo nessa?

Uhum!

​Carregando os espólios de guerra, deixamos a sala dos caixões, que agora estava sem dono, para trás.

Adeus, Astovidatu. E, hum, o que mais eu ia dizer... acho que não tem mais nada, não.

 

​◆ Segundo Ponto Intermediário da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka

 

​O que nos aguardava após atravessarmos o portal de teletransporte era uma planície sem nenhuma elevação.

Um céu cor de crepúsculo sem uma única nuvem, um clima agradável e uma terra completamente plana.

É tão silencioso.

Nós devemos ser os primeiros humanos a chegar até aqui, afinal.

A famosa região inexplorada nunca antes pisada pelo homem!

Bem, se bem que existem alguns nativos por aqui além de humanos.

Como é que é!?, a Haruka-san se espantou com uma cara de quem tinha acabado de ver um fantasma.

Hã, o quê? Nós vamos ter que lutar contra o Senhor Something que mora aqui no Ponto Intermediário agora? Wahaha, essa é uma surpresa maravilhosa.

As coisas não vão se desenrolar do jeito que você quer, então guarde a espada por enquanto.

​Calma, calma, tento apaziguar a Haruka-san que parecia prestes a pegar fogo, enfiando uma barra de cereais cheia de frutas na boca dela.

Putz, essa garota viciada em batalhas não tem jeito.

Mas, viu, mesmo você dizendo que tem nativos, não tem absolutamente nada aqui.

Só não dá pra ver agora. Eles já vão vir até nós.

​A minha previsão se tornou realidade cerca de cinco minutos depois.

 

Muito prazer, Aventureiro-san. O meu nome é Yalda 336 e estou encarregado da administração deste lugar!

 

​Criaturas gelatinosas de cor roxa, com cerca de quarenta centímetros de comprimento total, surgiram de repente de baixo da terra, tremelicando em um purupuru.

Acho que a melhor forma de descrever a aparência deles é dizer que se você somar um pepino-do-mar com um coelho e dividir por dois, vai ter esse visual de mascote fofinho. Balançando purupuru as orelhas ou antenas – não dá muito bem para distinguir o que são – no topo da cabeça, eles começaram a se apresentar um após o outro com vozes adoráveis.

Sejam muito bem-vindos, Aventureiro-san. Eeeu mee chamo Yalda 336~. Podem me pedir qualquer coisinha para lhes servir, por menor que seja~.

Este humilde servo atende pelo nome de Yalda 336, de fato. É de meu dever e honra empenhar-me com todo o afinco nas atividades de suporte aos Aventureiros-san, deveras.

​Saltando pokopoko do chão, as criaturas purupuru iam dizendo que se chamavam “Yalda 336”, uma por uma.

Um, dez... quando percebi, a densidade de purupuru estava subindo a uma velocidade que logo chegaria a cem criaturas, então decidi pedir para que eles se acalmassem um pouco.

Ah, pessoal Yalda, nós agradecemos por essa recepção calorosa de todos vocês, mas, se puderem fazer só um pouquinho menos de barulho...

Quais são os nomes dos Aventureiros-san~?

Ah, desculpe a demora, eu sou Shimizu Kyouichirou.

Sou Aono Haruka!

Waa, vocês dois têm nomes maravilhosos~!, começaram a tremer (purupuru) em união aquelas imitações de mascote.

​Ferrou, nesse ritmo a conversa não vai andar nada.

Se eu for na onda deles, provavelmente vai amanhecer.

Para quebrar aquela situação caótica, tirei um certo objeto da mochila e ergui acima da cabeça.

Vocês não querem isso aqui?

​No mesmo instante, todos os Yalda 336 pararam o purupuru. Ver aqueles olhinhos redondos todos voltados de uma vez para a ponta da minha mão transbordava uma fofura indescritível.

Pelo visto, essa parte não mudou nada em relação à época do jogo.

Hã? O que deu no pessoal purupuru? Ou melhor, Kyou-san, o que você vai fazer com isso?

​Levantei o canto da boca num sorriso torto para a Haruka, que tinha pontos de interrogação flutuando na cabeça, e disse:

Nada, só vou fazer umas comprinhas. Pessoal do Yalda 336, eu consigo pedir duas cadeiras com isso aqui?

​Abaixei e entreguei dois fragmentos de Pedra Espiritual do tamanho de moedas para o alienígena purupuru mais próximo.

Após um instante de silêncio, as falsas mascotes começaram a tremer o corpo todo em pequenos saltos enquanto gritavam em comemoração: É a Pedra-sama!.

Eba, eba, ganhamos a Pedra-sama~!

Ele deu trabalho pra gente, deu trabalho pra gente!

Ei, ei, que tipo de cadeira a gente faz? Vamos todo mundo pensar!

​Waa waa, kyaa kyaa, os alienígenas purupuru ficaram completamente eufóricos, nos deixando de escanteio.

Aquela empolgação toda parecia mesmo um festival.

Qualquer pessoa que não conhecesse os hábitos deles, como o nosso sistema estelar aqui, acabaria sendo engolida por esse vórtice de entusiasmo.

Kyou-san, explicação please.

É pra já.

​Dei uma tossida falsa e, enquanto filtrava na minha mente as informações que não teriam problema em passar para a Haruka agora, comecei a explicar sobre a “Série Yalda”.

O pessoal Yalda que está aqui são os administradores do Ponto Intermediário. Suas características são bem variadas, como Multiplicação Infinita, Compartilhamento Perfeito de Informações e Criação de Matéria; basicamente, eles conseguem fazer qualquer coisa dentro do Ponto Intermediário. O que eles mais gostam são dos Aventureiros-san e de Pedras Espirituais, e o hobby deles é trabalhar. Por isso, se você der uma pedra de valor equivalente como eu acabei de fazer, eles criam itens maravilhosos pra gente.

Eu sinto que acabei de ouvir umas frases bem perigosas jogadas casualmente no meio dessa explicação, mas tudo bem.

Impressão sua, impressão sua. O pessoal Yalda são administradores fofos, gentis e ideais. Por isso, nós também devemos tratá-los com respeito.

​O sistema estelar ficou me encarando com olhos desconfiados.

Não, eu não estou mentindo absolutamente nada, juro.

Só estou omitindo os detalhes obscuros por trás dessas imitações fofinhas de mascotes... como o fato de que, se você for violento com eles, uma “entidade” aterrorizante vai descer à Terra; ou o fato de que, como eles compartilham informações perfeitamente, o seu nível de afinidade com eles é mantido para qualquer Dungeon que você for; ou até mesmo que a fonte original deles é a mesma que a da Al ──── cof, cof. Enfim, não estou contando toda a verdade, mas não estou mentindo.

Se eu disse que não tô mentindo, eu não tô.

Basta reconhecê-los como importantes parceiros de negócios que apoiam a nossa vida no Ponto Intermediário.

...Hã? Você não tá meio assustado com eles, Kyou-san?

Não tô assustado. Só estou nutrindo um sentimento de reverência.

Não, isso é só você reescrevendo a mesma coisa com palavras mais difíceis... maa, que seja. Ok, o resumo da ópera é pra não destratar o pessoal purupuru fofinho, né.

​É muito bom que ela entenda as coisas rápido.

Porém, deixando isso de lado, tinha uma coisa que estava me incomodando.

Vem cá, por mais que seja assim, você não é ignorante demais sobre essas coisas?

Ah~, a Haruka-san aqui ainda é uma novata fresquinha, afinal.

​“Não é isso”, balanço a cabeça negando, cortando a autodefesa do sistema estelar.

Não estou te criticando por não saber as coisas. É normal um novato não ter conhecimento suficiente. Mas, viu.

​Com um tom de voz leve e suave, fiz a pergunta a ela.

Mas você disse que teve uma época em que era tão viciada que até participava das reuniões de clã para os fãs, não é? Para alguém assim...

Você acha estranho eu não saber de nada?

Isso, isso.

​Se fosse só não saber sobre Pontos Intermediários, sistema de housing e, vá lá, a lore superficial da Série Yalda, eu até entenderia (apesar de tudo isso ser ensinado na palestra de iniciantes, como a aula é só um instrutor lendo uma apostila o dia inteiro e passando vídeo no estilo “enfiar goela abaixo”, é difícil fixar na cabeça mesmo).

Mas não ter reconhecido logo de cara nem mesmo o nome da Espada(Rosso) de Gelo(&) Flamejante(Blu), que é um dos Cinco Grandes Clãs, isso sim me fez pensar “Hum?”.

Os Cinco Grandes Clãs são gigantes tão famosos que qualquer criancinha de Ouka os conhece, sabe? Alguém que ia em reuniões de clã não se lembrar disso é algo que eu não conseguia acreditar tão fácil assim, mas...

Ah, isso é porque eu sou uma “fã modinha”, né.

​Respondeu Haruka, num tom de quem não estava nem aí.

Incrível. É a primeira vez que vejo alguém admitir de peito estufado e com tanto orgulho que é uma fã modinha.

Eu comecei a gostar por causa ‘daquela pessoa’, e como eu vivia correndo atrás dela como uma groupie, acabei ficando manjadora sobre o clã dela. Mas, se você me perguntar se eu tive interesse nos outros clãs... ah, isso já é outra história, sendo bem sincera, não tive a mínima vontade de ir atrás~.

​A Haruka-san explicou a situação parecendo só um pouquinho culpada.

Uma viciada em batalhas, super curiosa, que é uma fã modinha... essa garota é um desfile de death flags.

Entendi. Compreendido. Foi mal por perguntar uma coisa estranha.

Ué? Só isso? Não vai ter aquele sermão do tipo ‘com esse conhecimento raso, a partir de agora blá blá blá~’?

Eu disse no começo, não estou te criticando. Todo mundo começa como iniciante e fã modinha. Um otaku veterano que esquece do óbvio e tenta dar carteirada de conhecimento é a pior raça que existe.

​Mesmo que o cara tenha muito conhecimento, se ele só usa isso pra se gabar e massagear o próprio ego frágil, não dá pra dizer que ele tem amor pelo conteúdo; pelo contrário, muitas vezes quem tem menos conhecimento, mas se diverte apaixonadamente, é um “fã muito melhor”.

E, no fim das contas, por mais que existam gostos e desgostos, a definição desse sentimento muda completamente de pessoa pra pessoa, não é? Tentar ranquear isso à força com um método estilo “provinha de decoreba” é algo inútil demais, na minha opinião.

Sem contar aquela galera que adora meter o papo de “falta de ambição pra melhorar~” ou “a postura de um profissional~” pra qualquer coisa.

Seja no trabalho ou num hobby, não vem soltar esse papo chato de meritocracia pra cima de um iniciante, não. Falar que alguém não tem motivação só porque não decorou o texto ou o manual inteirinho é coisa de idiota, na moral.

É porque esse tipo de gente mesquinha fica se achando os donos da razão que o mundo tá cheio daquelas empresas exploradoras (Black Companies) que (omitido)...

Huum, desculpa Kyou-san, sobre o que a gente tava falando da metade pro fim mesmo?

...Tô dizendo que você tá ótima do jeito que tá.

​“Ooh!”, os olhos da Haruka brilharam ainda mais bonitos.

O Kyou-san tem um coração muito grande, né~.

Wahaha! Pode me elogiar mais, se quiser!

​E assim, enquanto a nossa conversa atoa ia esquentando, os alienígenas purupuru chegaram.

Haruka-san, Kyouichirou-san, as cadeiras para vocês dois sentarem ficaram prontas!

​Seguindo a orientação do Yalda 336, mudei o olhar e vi duas poltronas maravilhosas com braços dispostas ali.

Olha, olha~, a gente fez super bem feitinho!

Nós demos o nosso melhor! Elogiem a gente!

Sentem, sentem~.

​Sendo guiados pelas criaturas purupuru que pulavam de um lado para o outro, eu e a Haruka sentamos.

Uhum, muito bom. Obrigada por fazerem pra gente, pessoal purupuru.

​Haruka relaxou a expressão e sorriu gentilmente.

E então, como se estivessem esperando por aquelas palavras, os incontáveis Yaldas gritaram de alegria.

A noite no Segundo Ponto Intermediário, ao qual chegamos após superarmos a área inexplorada, passou de forma tranquila assim.

 


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