Capítulo 1: As Atividades de Vendas de um Oji-san Simples (Que Fracassaram)

  

 

A Rotina Matinal do Saboryman

(Saboryman é aquele funcionário assalariado que dá umas fugidinhas durante o expediente pra não fazer nada)

 

Ano 2025. Dentro de um certo Batting Center em Shinjuku.

“Satou Keita”

Você demorou.

Tive um contratempo. ――Aqui, a taxa de atraso.

Certo, valor exato. Pode deixar o taco aí.

O Batting Center que fica bem perto da fronteira da Dungeon de Shinjuku é conectado a outro mundo.

Há dezoito anos, foi o lugar onde Satou despertou durante o Desastre da Dungeon, quando os monstros transbordaram. É o lugar de suas memórias onde, tendo ido visitar como um cliente qualquer, ele arriscou a vida para subjugar uma infestação massiva de monstros raros sem nem entender direito o que tava acontecendo.

(Não que seja uma boa memória, mas...)

Não restou nenhum vestígio daquela época. Quase todos os equipamentos foram trocados quando o lugar reabriu, e o próprio prédio é novo. A cor da tinta novinha em folha, que parecia tentar pintar por cima da tragédia, soava meio falsa e vazia.

Desde a reconstrução e reabertura, Satou vem frequentando o lugar de vez em quando. Para liberar a frustração acumulada do estresse a que é exposto no dia a dia ―― contra a injustiça inescapável.

Normalmente, ele vem à noite. Problemas internos na empresa, pedidos absurdos dos clientes, tretas que viralizam na internet, colega faltando de repente por doença e o inferno da hora extra. Toda vez que ele se vê encurralado como um salaryman comum, ele bate ponto aqui pra proteger a própria mente.

Mas hoje, de manhã ―― havia um motivo para ele ter entrado logo na abertura da loja, às 8h45.

(O encontro é às 10h15...... quinze minutos antes do horário marcado com os clientes)

A pequena editora onde Satou trabalha, a Editora Bouken, tá muito lascada.

O fluxo de caixa piorou por causa de um monte de despesas geradas pelo escândalo do streamer de Dungeon com quem eles tinham negócio, além de multas por projetos cancelados e o reembolso de taxas de publicidade que eles tinham pegado na marra. A chefe deu um aviso bem sério de que a revista especializada em informações de Dungeon deles, a Advestance (vendida principalmente em lojas de conveniência), poderia ser suspensa, levando a empresa à falência.

O único gatilho pra reverter essa situação é a DOOM Pro, a maior da indústria.

Hoje em dia, os streamers de Dungeon são a maior inspiração dos jovens, a profissão dos sonhos do momento. A decisão do presidente em si tá certa ―― mas o problema é que só a gente sai ganhando, e colaborar com a gente não traz vantagem nenhuma pra eles.

Logo de manhãzinha, numa ligação direta pro celular pessoal, o chefe com voz de cansado soltou essa.

A Editora Bouken é uma empresa com uma estrutura das antigas. Em plena era da internet, eles ainda não conseguiram sair do modelo corporativo tradicional, e os principais produtos são revistas e mangás impressos, além de umas light novels que eles publicam aos trancos e barrancos.

O próprio Satou, que trabalha no departamento de vendas, quase não lê o que a própria empresa publica, o que já mostra que o conteúdo é bem fraco. Parece que antigamente a coisa ia bem, mas agora eles tão só sugando as heranças do passado.

(Por mais que se tente, isso é forçar a barra, né. Por que logo eu, que sou só um funcionário comum, tenho que fazer isso?)

(Eu rejeitei promoção a vida toda justamente porque odeio esse tipo de responsabilidade e continuei trabalhando de boa, só enrolando. Fazer visita de vendas pra maior empresa da indústria sem ter nenhuma carta na manga... é óbvio que não vou conseguir fechar negócio nenhum...)

A mando do presidente, a Buchou se mexeu, usou todos os contatos possíveis e conseguiu marcar a reunião de hoje.

Mas não tem nenhuma visão de que isso vá dar certo. Não tem orçamento, não tem alcance de divulgação, não tem motivo nenhum pra fecharem parceria. A ideia de uma editora ultrapassada se juntar com a DOOM Pro, a número um da indústria, cheia de heróis e idols, que abriga vários aventureiros de elite e tem uma popularidade absurda... é impossível sem usar umas palavras feias tipo “esquema”, “nepotismo” ou “acordo por baixo dos panos”.

(Bom, não que eu tenha coragem ou autoridade pra chegar a esse ponto, né)

É sacanagem com a Buchou, que conseguiu marcar essa reunião na marra, mas eu também não tenho obrigação de ir tão longe.

Pro Satou, arrumar outro emprego é que é um saco; se ele conseguisse resolver essa parte de boa, a empresa podia falir que ele nem ligava. Ele até tem pena dos seus colegas no departamento de vendas — que só tem três pessoas: a Buchou que é meio grossa mas é esforçada, e a Kouhai recém-formada —, mas na pior das hipóteses, ele tem grana guardada suficiente pra ficar um tempo de boas como NEET.

(Se isso acontecer, eu vou dar a vida procurando emprego, claro... Ter um Oji-san NEET não é um bom exemplo pra minha sobrinha)

Mesmo assim, querendo evitar o trampo chato de procurar emprego se possível ―― ele deu uma passada escondida no Bassen no tempo livre antes da reunião pra dar uma aliviada naquele estresse absurdo, mesmo achando que a reunião ia dar em nada.

(Só não achei que fosse pisar numa armadilha de teletransporte. Que azar)

―― Dezoito anos desde o Desastre da Dungeon, quando as Dungeons apareceram no mundo.

Toda semana o Satou entrava no labirinto a partir da cabine 140 Lv, onde clientes comuns não podiam entrar. Durante esse tempo, rolaram várias DLCs e mudanças ambientais na Dungeon, e toda vez ele se metia em algum problema chato, tipo ser jogado pra uma Dungeon diferente ou ter que decorar a rota toda de novo do zero.

Valeu aê.

Ele pagou a taxa de atraso e saiu do Bassen ao som da resposta desleixada do dono.

Um cheiro abafado da noite passada pairava no ar. Ali, Kabukicho em Shinjuku, é o que chamam de distrito da luz vermelha ―― depois de ter sido engolida pela Dungeon, os jovens que querem ser aventureiros se reúnem ali toda noite, torrando a grana que ganham em batalhas de vida ou morte pra curtir adoidado. As noites em Kabukicho ficaram ainda mais chamativas, extremas e caóticas do que antes do desastre.

......Essa cidade ficou fedorenta, né.

Tá com um cheiro podre no geral. Principalmente de manhãzinha até o meio da manhã, quando o silêncio e o frescor somem e aquele calor abafado volta, um cheiro sufocante sobe dos bueiros, do lixo nos becos ou dos “presentinhos” deixados pelos bêbados.

Aquele jovem dormindo enrolado num casaco qualquer na escada ou debaixo da marquise de um prédio deve ser um dos “Shinjuku Kids”, vivendo um dia de cada vez ganhando uns trocados como aventureiro. Comparado com a Shinjuku de antigamente que o Satou conhecia, antes do Desastre do Labirinto, o caos e a sujeira profunda pareciam estar se espalhando aos poucos da Dungeon, engolindo tudo ao redor.

Se misturando a essa paisagem da cidade, um salaryman caminhava apressado.

Estatura média, porte físico médio, vestindo um terno barato de um jeito meio largado. Parece ser um número maior que o dele, dando uma impressão de que não cai muito bem no corpo, mas ele não parece nem ligar pra isso.

Uma pasta de vendas pesadona, cheia de materiais de apresentação e publicações da empresa pra usar de amostra. Bem no fundo tem um e-reader escondido pra ele usar na hora de dar aquela enrolada no expediente, mas a cara dele de funcionário público burocrata não deixa transparecer isso nem um pouco.

Satou bateu o olho no relógio de pulso, calculando rapidamente a distância até o destino e o horário do compromisso.

(Nesse ritmo, vai dar tempo. Chegar atrasado com o cliente não ia ter graça nenhuma)

Ele vai se encontrar com a colega de trabalho, Ukai Madoka, e depois eles têm uma reunião com os representantes do cliente.

(Acho que até daria pra dar um jeito... Se eu jogasse o orgulho pro alto, claro)

Pensando de forma normal é um projeto absolutamente impossível, mas o Satou tem um trunfo na mão pra virar o jogo.

Nas idas ao Bassen pra aliviar o estresse, outro dia ele teve a chance de conhecer a Suiren, a galinha dos ovos de ouro da DOOM Pro. Como ele fez uns favores pra ela depois disso, se ele tocar nesse assunto...

(Eu até conseguiria fechar o negócio. ......Mas eu não quero fazer isso de jeito nenhum)

Se ele tentasse uma palhaçada dessas, a Buchou(Chefe) ia investigar a vida dele até o talo.

É óbvio, se um milagre acontecesse e o impossível virasse possível, ela mesma ia fuxicar cada detalhe do motivo da vitória. Se isso rolar, vão descobrir que ele frequenta a Dungeon, vão descobrir que ele meteu a porrada nos streamers de labirinto que a gente falou antes, e na pior das hipóteses, é rua(demissão).

O Satou não é tão ingênuo a ponto de achar que, só porque a empresa tá em crise de falência ou é uma emergência, vão perdoar tudo passando por cima das regras. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, com certeza ele seria punido.

(E outra... Misturar vida pessoal com trabalho é uma tremenda Death Flag)

Não existe almoço grátis nesse mundo. Ele já conseguia ver aquele cenário corporativo tóxico padrão da Era Showa, onde essa troca de favores ia acabar virando um rabo preso gigante e ele ia afundar até o pescoço em problemas. O Oji-san simples e atualizado da Era Reiwa é esperto.

 

Até o fim, ele é só um salaryman.

Por mais fraca que seja a mão, não tem outro jeito a não ser jogar com as cartas da empresa――.

Aí, ossan. Tá olhando o quê?

Hã?

Enquanto andava pensando nisso, um obstáculo apareceu do nada.

No meio do caminho pro local do encontro, numa rua cheia de bitucas de cigarro e até camisinha usada espalhada pelo chão, uns três moleques que tavam sentados num papelão se levantaram, bloqueando o caminho do Satou.

Eles pintaram o cabelo com umas cores bem chamativas, mas como não cuidavam direito, a raiz preta natural já tava misturada no meio. As roupas tavam encardidas e sujas, e dava pra ver umas tatuagens inacabadas aparecendo pelas mangas dobradas.

Você tava olhando pra gente agora mesmo, né, ossan. ――Tá tirando a gente pra otário?

Nós somos aventureiros, mané. Profissionais acima do 20 Lv, profissionais. Tá querendo se dar mal, é!?

Haa.

Respondendo com um olhar morto, Satou coçou a bochecha.

Haa, o caralho! Tá se cagando de medo e querendo pagar de machão, que patético.

Vou logo avisando que não passa polícia por aqui, tá ligado? Deixa um trocado aí pra gente. De qualquer jeito você deve tá voltando pra casa de manhãzinha depois de pegar umas garotas de rua. Ia ser foda se a sua família descobrisse, né?

Haa......

Diante dos três que se aproximavam com sorrisos nojentos no rosto, Satou suspirou fundo.

Que saco, que saco de verdade. A segurança dessa cidade sempre foi um lixo desde antigamente, mas parece que ficou ainda pior nos últimos anos. Hoje em dia, onde qualquer um que vira aventureiro pode subir de nível e ficar forte de forma instantânea, tá cheio de caras que se deixam levar pelo poder e partem pra crimes fáceis e violência.

Aí, não fica moscando, passa a carteira――......

Tenho um compromisso. Com licença.

A mão do aventureiro trombadinha se esticou.

A mão que ia agarrar o colarinho do Satou foi desviada suavemente, e um vento passou pela lateral do cara que acabou caindo pra frente pelo próprio impulso.

......Hã? Ei, aquele cara, pra onde aquele ossan foi!?

O-onde... ah, ali! Já tá lá longe, que cara rápido!?

Merda, não foge, seu velho de merda! Que tipo de truque ele usou!?

Katsu katsu katsu katsu, os sapatos de couro já gastos chutavam o chão num ritmo certinho.

Com um movimento liso feito água corrente, ele passou por entre os trombadinhas e foi embora a passos rápidos sem nem olhar pra trás. Quando os caras se viraram, ele já tava numa distância inalcançável, se misturando na multidão.

Não era truque nem magia, era uma Técnica com lógica e fundamento.

(Vocês acham mesmo que com esse nível de velocidade de reação dá pra pegar um escravo corporativo que corre pra se enfiar no trem lotado todo santo dia?)

O inferno do trem lotado de manhã. Esses moleques que nunca trabalharam na vida nem fazem ideia do que é a taxa de lotação assassina de um vagão. Pra um salaryman, que já não tem tempo pra se estressar com esses inúteis, uma abordagem dessa não significa nada.

(A técnica suprema corporativa: ――”O Passo do Commute”)

Usando a técnica de ultra-alta velocidade e ultra-evasão que ele usa todo dia pra furar a multidão assassina indo pro trabalho, o homem se livrou facilmente dos trombadinhas e sumiu num piscar de olhos no meio da multidão na frente da Dungeon.

 

 

Em algum lugar perto da Estação de Shinjuku.

“Ninja Hikari”

Qual é a daquele ossan, não tô entendendo nada...! Que merda, vocês são muito lixos!

Você também deixou ele escapar, é lixo igual a gente!

Fazer o quê, vamo extorquir outro ossan... ué!?

Um dos trombadinhas que deixou o Satou escapar tropeçou do nada e caiu de cara no chão.

Um barulho molhado de bichari ecoou, e a água suja que tava parada na rua espirrou, sujando legal a roupa dos três.

Puha, q-que nojo!? Que porra cê tá fazendo, seu merda!

Foi sem querer, eu juro que tropecei em alguma coisa!

Mentira do caralho! Você não tem porra nenhuma pra tropeçar aqui, porra! Cê tá com o dinheiro da lavanderia, né, aah!?

Levando um banho de água suja, os trombadinhas putos da vida agarravam o colarinho uns dos outros. No meio desse clima tenso a ponto de explodir, uma presença sem forma que saía de fininho do local ―― a garota que apagou qualquer rastro com uma Rare Skill de topo da humanidade, Stealth SSS, se escondeu nas sombras e abriu o celular de boa.

Fufufu. Eu vou protegeeerr o Oji-san! Não vou deixar esses caras arranjarem treta com ele!

Mas fazer só isso dando rasteira não é meio fraco?

Dar porrada neles ou machucar os caras seria meio demais. Tá bom assim, só de sacanagem

A rastreadora invisível, um ser humano invisível correndo pela cidade moderna, abriu a boca pra falar com a melhor amiga do outro lado da linha, confirmando a localização do GPS pelo celular, e deu um sorriso vendo que o amado Oji-san tava quase chegando no local do encontro.

Isso aí tá de boa, mas e a escola, como você vai fazer? Você matar a primeira aula já é certeza, se você não falar nada, acho que vão ligar pros responsáveis. Se isso acontecer, vai dar ruim, né?

Ugh... P-pois é! Foi mal, me encobre aí por favor, eu já tô indo!

Um uniforme escolar comum de colégio metropolitano. Uma garota do ensino médio com uma vibe meio de diabinha, Amahara Hikari ――.

Conhecida nas transmissões de Dungeon como Ninja Hikari, ela é a sobrinha de Satou e uma aventureira amadora.

Por causa de problemas familiares, ela mora na casa do Satou. Quando ela decidiu seguir o tio suspeito que saía toda noite sem falar pra onde ia, acabou descobrindo a verdadeira identidade dele, e desde então o segredinho dela começou.

Foi mal, Oji-san, eu já tô indo! Você foi incríível hoje de novo...... chu

Mandando um beijinho de despedida pro GPS com muito apego, ela fechou o app e correu pra estação. Ela podia tá usando uniforme de colegial, mas os movimentos eram os de um verdadeiro ninja, furando a multidão perigosamente sem ser vista por ninguém.

Opa, não posso esquecer, vou recolher o drone. Volta, volta!

Nin, ela fez um sinal de mão parecido com o de um ninja e concentrou a sua vontade. O Olho sem forma que até agora seguia o Satou invisível e apontava a câmera de todos os ângulos ―― o Shikigami Drone disfarçado como o mascote de raposinha familiar foi recolhido, e o software de gravação parou.

O vídeo de hoje, você vai postar agora? Parece que não foi ao vivo

O que eu faço... Isso vai viralizar legal, né, vai viralizar pra caramba, né?

Acho que passa fácil de 1 milhão de views. Se a gente pesquisar, vai ver que esse atalho pro fundo da Dungeon de Tsukishima nunca foi descoberto de verdade. Se a gente reportar pra Guilda dos Aventureiros ou vender a informação pros Mappers...


Do outro lado do telefone, brincando com o celular num canto da sala de aula, tá a melhor amiga da Hikari, Ono Miyako, apelidada de Miya. Uma colegial que manja muito de tecnologia digital e internet. Uma parceira com quem a Hikari contou pra ajudar nas atividades de streamer de Dungeon, e que agora trabalha junto com ela não só no próprio canal, mas também no outro canal.

Isso vai movimentar muito dinheiro. Eu não recomendo soltar isso direto no Shinjuku Bat ch do jeito que tá.

É, né...... Ugh, não dá pra dar uma disfarçada de algum jeito?

A gente já sabe a localização da armadilha de teletransporte que serve de atalho. Que tal a gente editar de um jeito que não mostre como entrar nem como sair, e disfarçar dizendo que foi só um RTA(Real Time Attack) da Dungeon de Tsukishima?

Acho que só com isso já vai viralizar o suficiente, a Miya continuou, parecendo meio chocada.

O seu Oji-san, eu já sabia, mas ele é forte demais, não...? Descer lá no fundo, amassar o Last Boss, e vazar em apenas trinta minutos. Se os outros que pagaram fortunas e tão há meses tentando desbravar virem isso, vão chorar de verdade.

Pois é, mas o Oji-san não faz a menor ideia de que é tão forte assim, sabe. Porque ele não assiste a lives de jeito nenhum e não se compara com as outras pessoas. Falar pra ele só vai fazer ele achar que é “mó trampo”.

Mesmo observando ele de perto, a Hikari não conseguia medir a verdadeira força do Satou.

Uma habilidade aprimorada e afiada no anonimato por dezoito anos ―― pelo que a Hikari viu, se fosse converter pra nível, passaria dos 200. Sem dúvidas, ele era o número um entre todos os aventureiros do mundo, incluindo Japão e Estados Unidos, um herói desconhecido.

Tomando todo o cuidado do mundo pra que a verdadeira identidade do Oji-san nunca fosse descoberta por ele mesmo ――e com a vontade de expor ao mundo o quão forte e foda o Oji-san era, ela o expôs de forma chocante e fez a live.

Desde então, o Oji-san tem feito um sucesso absurdo sem nunca perceber a existência da câmera.

No primeiro vídeo, ele limpou um Boss Monstro de Lv 140 com um soco (One Punch Clear), viralizando pra caramba com a sua invencibilidade. Na segunda vez que se seguiu, ele ainda salvou a streamer de topo da DOOM Pro, Siren, de um aperto gigante.

Entrando nos trilhos de vez, o impulso já não pode mais ser parado. Subindo rápido e brilhando nas recomendações do site de vídeos, ele se tornou a super nova estrela que ultrapassou a marca de 80 mil inscritos no canal Shinjuku Bat ch ――.

(Se ele descobrir que a idealizadora por trás disso sou eu, com certeza eu tô muito ferrada! Bom, por algum motivo ele já sabe que eu tô usando ele pra fazer alguma coisa, e até disse que me perdoava por isso, mas...!)

Viralizar aos milhares  ―― na sociedade moderna, isso é o passe pro sucesso, a fonte de muito dinheiro.

Ela quer dinheiro, seja pra se sustentar, pra pagar a escola ou, claro, pra curtir. E, mais do que tudo, ela quer espalhar a imagem foda do Oji-san, que esconde uma força esmagadora sem que o mundo saiba.

É por tudo isso que a Hikari continua operando o Shinjuku Bat ch nos bastidores, envolvendo a amiga.

Hoje de manhã de novo, ela o seguiu escondida até ele sair de casa com o estresse à mostra, e a gravação que ela conseguiu foi o máximo.

Não, o máximo não é pouco? Foi o máximo do além, o negócio foi louco demais ――.

Será que a força do Oji-san é muito maior do que eu pensava...? Tipo, ele não é o número um do mundo de verdade?

Julgamento lento. Você vai apanhar do Urokodaki-san

Quem é esse. De anime?

Mesmo sendo zoada com uma resposta otaku difícil de entender, ela pensou com a parte calma da cabeça.

O vídeo gravado hoje de manhã era chocante a esse ponto. A Dungeon de Tsukishima tem uma escala menor comparada com a Dungeon de Shinjuku, e o nível da área mais funda também é um pouco mais baixo, por volta de 150. Mas a dificuldade é maior que isso.

O Palácio de Tsukishima... A Dungeon de Tsukishima não é muito “gostosa” fora o Altar de Reencarnação, né

Porque os monstros são fortes e chatos, e não tem uma rota decente?

Isso, isso. O terreno complicado e tridimensional já é difícil de explorar por si só, e é difícil dropar tesouros e afins. Por isso é um lugar que os aventureiros nacionais quase não vão

É-é a tal da demanda inbound...

Para de usar palavra que você não entende de qualquer jeito, vai? Vai ficar óbvio que você é burra

Que maldade!? Miya, que maldaade!? Não, bom, é verdade que eu não entendo direito mesmo, mas!

Visando a reencarnação em Elfo, a galera de fora desafia a Dungeon de Tsukishima bancada por patrocinadores ricaços.

Começando da área mais funda, ele explorou e escapou em apenas trinta minutos――.

Isso destrói completamente o orgulho dos outros aventureiros que gastam anos de tempo e orçamentos absurdos e não conseguem limpar o lugar. Se for um ricaço querendo virar Elfo, com certeza ia pedir pra ele dar uma escolta sem pena de gastar dinheiro.

Se o Oji-san não tivesse aniquilado os monstros pra mim, eu também não ia conseguir acompanhar

Eu acho que só de conseguir acompanhar já é muita coisa. Ele praticamente voa quando pula, né, o Oji-san

Ah, mas eu sou focada nisso, sabe? Como meu poder de combate é um lixo total, pelo menos isso eu tenho que conseguir, né

O superpoder que sustenta os aventureiros é a Skill. A diferença individual é drástica, e existem até Unique Skills que só a própria pessoa consegue usar, mas em troca de serem poderosas, elas tendem a ter vantagens e desvantagens bem extremas.

Hikari ―― a Main Skill da aventureira Nindou Hikari, Stealth SSS, é o nível mais alto das Skills de ocultação. Se ela ocultar a presença a sério, consegue passar por qualquer equipamento de vigilância e se infiltrar enganando até mesmo supersentidos mágicos.

Mas, talvez pela inexperiência da própria Hikari, as desvantagens também são gigantescas.

(O pessoal da Guilda falou que se eu subisse de nível, talvez... mas)

Não importa quanto tempo passe, ela não aprende nenhuma Skill de combate.

A Main Skill que é o eixo principal, as Sub-Skills que derivaram dela, nenhuma das que a Hikari aprendeu serve pra lutar. Atualmente ela é totalmente focada em mobilidade oculta, com o poder de combate sendo um lixo igual ao de uma pessoa normal, num desbalanceamento total.

Além disso, enquanto a Skill de furtividade tá ativada, ela não aparece na câmera de transmissão. Como o microfone também não capta o som, ela não consegue narrar(live commentary), e mesmo que suba vídeos de invasão na Dungeon, o negócio fica muito sem graça.

Ela até dava um jeito editando os vídeos que gravava pra dar UP(postar) ―― mas mesmo assim, comparada com a galera que cai na porrada de verdade, era difícil fazer sucesso, e o debut dela como aventureira tinha sido bem mixuruca.

Oji-san é o melhor! Oji-san é o melhor! Miya, você também pode dizer que o Oji-san é o melhor, viu!?

......Você tá empolgada demais, chega a ser meio assustador

O encontro com o Oji-san mudou tudo.

Forte, apenas forte, estupidamente forte. A sensação boa de ver ele rebatendo e mandando pelos ares os monstros do fundo da Dungeon, o mistério de ter tudo envolto em segredo, a Estrela suprema que dá One Punch KO no Boss――.

Só de gravar de qualquer jeito aquele absurdo de força e postar, bateu 1 milhão de views. Viralizando atrás de viralizar, o Oji-san agora tava voando baixo rumo ao topo dos streamers, sem nem ter consciência disso.

Se a gente postar isso aqui, vai viralizar de novo, né! Como tá a repercussão?

Acho que a gringaiada vai vir com tudo pra investigar quem ele é. Vai chover proposta de patrocínio...... pedido de collab, gente implorando por Carry, galera enchendo o saco na DM das redes sociais, e até nego fazendo tocaia na porta da Dungeon

Ué, tá vindo esse tipo de coisa? Eu deixo tudo mutado, então nem sabia

Tocaia ainda não rolou, mas os comentários nos vídeos e as mensagens nas redes sociais tão insanos. Já tem convite de collab, umas cartas de desafio esquisitas, e claro, assédio, hate e xingamento rolando solto

......Só de ouvir já me dá preguiça. Foi mal, Miya, depois eu mesma limpo essa sujeira, tá?

Por favor. Falando sério, tá bem puxado

Mina biscoiteira mandando selfie +18 pra tentar arrancar collab e fama, idiota marombeiro que adora arrumar treta com quem é mais forte, canal de treta e urubu de polêmica vindo sugar o sangue por inveja de gente famosa; as sementes de problema tão multiplicando absurdamente.

Por enquanto elas tão recusando tudo, mas os pedidos que apostam na força real dele... pedidos de ajuda tipo “quero derrotar um Boss muito forte”, ou “quero passar de uma área de alta dificuldade”, os famosos pedidos de Carry, tão chovendo.

Ainda não chegou num nível tão perigoso assim...... mas.

(Agora eu acho que consigo entender um pouco o sentimento do Oji-san de não querer chamar atenção)

Fechar a boca igual uma ostra, afundar na lama e se esconder. Nessa sociedade da informação, não ter rede social, não querer promoção, não procurar uma parceira pra vida, a arte de viver do Satou de se enterrar por conta própria é, de certa forma, a resposta certa.

Justamente por não buscar lucro, ele não tem relação nenhuma com a montanha de problemas que vêm junto com a fama e a recompensa. É um jeito bem cara de Oji-san de sobreviver ao dia a dia sem estresse, mas...

Mas eu ainda quero dinheirooooooo! A monetização foi aprovada, então só mais um pouco! Quando eu ganhar só mais um pouquinho, eu paro! Só vou ganhar uns 100 milhões e aí eu paro, falta pouco!

Isso aí é a maior Death Flag de quem nunca vai parar...... Se der merda, eu não quero nem saber, viu

Relaxa! Confia no Oji-san que nunca vai chegar perto da cultura jovem de jeito nenhum!

Por sorte, Satou tem zero interesse em aventuras.

Ele encara as idas à Dungeon só como um Batting Center onde bolas mais pesadas vêm voando na direção dele, e ele só rebate pra aliviar o estresse.

Por isso, existe uma chance de elas continuarem com isso sem serem descobertas... provavelmente.

Por enquanto vamo editar a gravação e dar um jeito do atalho não ser descoberto, né

Acho que é o melhor. ......Até porque só de ser um RTA de Last Boss, certeza que já vai viralizar

Enquanto continuavam a reunião secreta, Hikari pegou o trem rumo à escola.

Dezoito anos desde que a invasão de outro mundo começou. As transmissões de exploração de Dungeon se firmaram como a rota do sucesso, e na Era das Grandes Aventuras, onde a ciência e a fantasia se misturam, a lenda do herói desconhecido Shinjuku Bat――,

 

Tava sendo criada por um Oji-san sem noção e sua sobrinha diabólica, prestes a ver a luz do dia.

 

 

O “Teste do Sofá” Não Tá Mais na Moda

 

Edifício-Sede da DOOM Pro, Shinjuku, Tóquio.

“Satou Keita”

Dizem que o trabalho é trocar vigor físico e tempo por dinheiro.

A questão da eficiência e ineficiência é grande. Tem investidor que ganha milhões numa negociação de apenas uma hora, e tem quem continue trabalhando até quebrar o corpo de tanto suar e acaba com um salário mixuruca; Satou Keita, se for pra escolher, é do segundo tipo.

(Eu não preciso, simplesmente isso)

Satou tem consciência de que seu desejo por dinheiro é fraco.

O motivo disso é simples: ele não tem nada que queira tanto assim. Ele gosta de comer, mas não é nenhum gourmet; em vez de se esticar pra provar ingredientes de luxo inalcançáveis, ele prefere procurar algo que agrade o paladar entre os produtos similares com preços mais acessíveis. Ele tem a casa que herdou da família, e não precisa de carro em Tóquio.

Viagem pro exterior? Que saco. Por que ele se daria ao trabalho de ir pra um país com segurança ruim e correr perigo?

Pra começo de conversa, ele mal conhece os pontos turísticos do Japão, então ir pro exterior parece que tá pulando a ordem das coisas, e ele não gosta disso.

Desde que não passe fome no dia a dia e consiga continuar guardando dinheiro pra velhice, tá ótimo. A ganância do Satou Keita para por aí, e esse é o motivo dele não desejar promoção mesmo sendo um mero peão de firma, e também o motivo de não mudar de emprego.

(Apesar que isso também pode estar chegando no limite, né)

Se a empresa falir, ele vai ter que mudar de emprego querendo ou não. Só de imaginar já dá preguiça.

Por isso, Satou tava com um certo senso de crise e veio contrariado, de má vontade, fazer essa visita de vendas que podia ser chamada de imprudente.

Desculpa o atraso. Te fiz esperar?

Faltam cinco minutos pro combinado, sabia? Acabei de chegar, então tá tudo bem, Satou-san

Em algum lugar de Shinjuku, em frente ao prédio sede da DOOM Pro.

Parada na sombra de uma área verde típica do centro da cidade, com cara de quem esperava alguém, a jovem mulher se virou aliviada quando Satou Keita a chamou e acenou de um jeito fofinho.

Tô nervosa~...! É a primeira vez que faço visita de vendas numa empresa tão grande

Pois é, normalmente eles não são o tipo de cliente que pessoas como nós conseguiriam chegar perto, né

Com o terninho de negócios de sempre e maquiagem natural. Ukai Madoka, que não perde esse ar de novata não importa quanto tempo passe, é uma jovem recém-formada, do mesmo departamento de vendas da Editora Bouken que o Satou.

Ele não parou pra calcular os detalhes, mas a diferença de idade com o Satou deve ser literalmente nível pai e filha.

Um rosto com traços doces e suaves, um busto e uma linha de cintura sustentados pela juventude, pernas flexíveis e a firmeza da pele. Como ela disse que ganhou um concurso de beleza na época da faculdade, é uma beldade que dá de dez a zero em qualquer subcelebridade por aí.

(Bom, não que isso tenha a ver comigo, mas)

Satou já tinha secado há muito tempo pra esse tipo de juventude de ficar bajulando colegas por atração sexual. A beleza e o corpo da Ukai, pra ele, são apenas algo no nível de “é um bônus a mais nas reações dos clientes”, lidando com isso de forma extremamente apática.

Sendo mal interpretado como um cavalheiro honesto que não tem nenhum daquele ar de “peão de firma velho e babão”, ele até ganhou a simpatia da Ukai, mas pro Satou, ele não faz a menor ideia desse fato.

(DOOM Pro... Uma empresa super de elite que tem um monte de streamers com mais de um milhão de inscritos)

(Realmente gigante. Isso aqui é o prédio próprio deles, né? Quanto será que custou uma coisa dessas ――)

Streamer de dungeon, os Dungeon Livers são os heróis da era moderna.

Mergulhando no labirinto assumindo riscos, eles recuperam materiais e recursos mágicos, e colocam as mãos em itens.

Na sociedade moderna, onde a fusão da ciência com a magia tá causando grandes inovações, os aventureiros que conseguem alcançar o fundo do labirinto são talentos extremamente valiosos ―― e se fôssemos comparar esse valor pelos padrões de antigamente:

(Uma fábrica de semicondutores ambulante, uma mina de metais raros do tamanho de um ser humano. Deve ser algo por aí)

Eles são a base da tecnologia de ponta e os responsáveis pela obtenção de recursos que sustentam a prosperidade. Por mais incríveis que sejam os produtos desenvolvidos, como os recursos necessários pra fabricá-los só podem ser obtidos nas Dungeons, a importância deles é indiscutível.

Satou-san, você já viu a Transmissão Lendária?

Ah, a dos Aventureiros Originais...... né?

Isso! Eu assistia aquilo quando era criança e admirava eles. Heróis existiam de verdade, sabe!

Dezoito anos atrás, com o surgimento das Dungeons, ocorreu a Grande Invasão causada pela falta de subjugação de monstros. Foram os Aventureiros Originais que exploraram a Dungeon que havia engolido a região de Shinjuku e reconquistaram o espaço de vida roubado da humanidade.

A party mais forte formada por voluntários da polícia e das Forças de Autodefesa. Para o governo encurralado, eles eram a única força de combate sob o controle do país capaz de enfrentar a invasão de outro mundo.

O grande cartaz que não podia de jeito nenhum ser perdido. Para garantir o retorno deles com vida, o líder da época elaborou um plano, e o então Primeiro-Ministro apostou sua carreira para implementá-lo ―― esse foi o início das Live de dungeon.

Usando uma linha de informação conectada até o fundo da dungeon. Usando câmeras de drones autônomos para transmitir as ações da party em tempo real, monitorando cada passo deles para realizar orientação e suporte precisos.

O sistema de transmissão de dungeon, que hoje em dia é visto apenas como uma forma de satisfazer o desejo de aprovação e de ascensão social, começou como uma forma de garantir a linha da vida dos Aventureiros Originais, e chegou aos dias atuais.

A figura heroica deles. A lenda deles, o brilho que eles trouxeram se tornou a estrela-guia das pessoas.

Gerando incontáveis seguidores, acendendo o peito dos jovens e chamando a nova luz dos heróis.

O fascínio que encantou a jovem Ukai e se tornou a principal motivação dela na hora de procurar emprego também foi um desses...

 

――Nunca vi. Naquela época passava o tempo todo em programas especiais e afins até a gente quase morrer de tanto ver

Dezoito anos atrás, surgimento do labirinto e a Grande Invasão. Tendo vivenciado ambos em tempo real, Satou não contou a ninguém sobre sua experiência.

Provavelmente nunca contará. Aquilo é uma dor cravada no fundo do próprio coração, e o ato de revelar isso seria expor uma ferida. É uma cicatriz que ele não quer que toquem e que tem a resolução de levar para o túmulo sem revelar nem mesmo para a família.

Sou grato a eles, mas não tenho interesse. Não tô a fim de ficar curtindo isso como se fosse um espetáculo

――Virar herói não é algo que valha a pena.

A voz que escondia seus verdadeiros sentimentos e suas sutilezas não foi percebida pela Kouhai, que olhava para o prédio.

É assim que as coisas são?

É só uma opinião pessoal. Não tenho a intenção de negar a diversão dos outros.

A própria ferida pertence apenas a si mesmo. Exigir um “entenda a minha dor” só porque se está sofrendo é um pedido irracional. Mesmo agora que a magia foi descoberta, a humanidade normal não consegue usar coisas como telepatia.

(Até porque, o luxo de querer que os outros me entendam seria um desperdício para mim)

Desviando os olhos da dor com essas palavras, Satou apertou firme sua pasta de vendas novamente.

Bom, vamos indo? É exatamente a hora do compromisso.

S-sim! ......Aaah, que nervosismo~...!

Ukai o segue, como se fosse puxada por Satou que começou a andar. No saguão com o ar-condicionado no talo, seguranças bem treinados. Não há mais daquelas recepcionistas bonitas de uma década atrás; a reserva da visita é confirmada em um terminal tipo tablet e a passagem é liberada.

......Uau...... tudo aqui é diferente da nossa, né. Ter dinheiro é incrível mesmo......

É um prédio comercial misto contra um prédio próprio deles. Não tem nem como competir desde o começo.

Satou-san, olha lá, é um bebedouro! Também tem docinhos de escritório, e aquela cafeteira não é o modelo mais recente que faz um café super delicioso!? Que inveja......!

O escritório da Editora Bouken é uma relíquia da Era Showa construída há quase cinquenta anos. O elevador treme todo, a vedação péssima das paredes de concreto faz com que seja quente no verão e frio no inverno, e a condensação é terrível. Obviamente não há seguranças nem recepcionistas.

Bebedouro? Compra água e bebe. Não use a geladeira da copa. Café? A gente coloca uma máquina de venda aqui. Docinho de escritório? A conta não fecha, então é rejeitado na hora――.

(A diferença de nível é grande demais...... bom, só de comparar com a nossa empresa já não tem sentido)

Em contraste com Ukai, que olhava sem parar para todos os lados, Satou caminhava para o local indicado com uma cara de quem não se importava com nada, avançando mesmo sendo banhado pelos olhares dos funcionários que passavam.

S-Satou-san, você tem uma postura bem firme, né...... É incrível.

É que escritórios desse tipo são comuns. Mas confesso que dá inveja de um ambiente de trabalho tão bom.

Escritório planejado por designer com base em ergonomia, espaços separados que garantem a privacidade, refeitório da empresa com serviço de catering gratuito; Satou não busca esses elementos brilhosos e chiques no local de trabalho.

Ele já se conformou e colocou na cabeça que o tal “padrãozinho de empresa brilhante” está muito distante dele. Por melhor que seja o ambiente, se os colegas entrarem na categoria do “problemático”, vira um inferno, e por outro lado, mesmo que a empresa seja no fundo do poço――.

Desde que não seja um momento de caos, a nossa Buchou nos deixa ir embora no horário certo, e também aprova as férias remuneradas. Você também, Ukai-san, é uma colega decente com quem dá pra se comunicar direito em japonês. Eu já me considero bastante abençoado.

Ah, mas isso não é o que o mundo chama de... normal......? Os seus padrões não estão baixos demais?

É um problema viver num mundo em que nem sempre isso é a verdade, não é.

Colegas com quem intimidações dignas de chimpanzés funcionam melhor do que palavras em japonês, ou chefes que exigem dos subordinados o mesmo nível alto de consciência e capacidade que eles próprios têm... Comparado a danos fatais nas relações humanas como esses, a beleza de um escritório é apenas um detalhe insignificante.

......Eeh, parece que é esta sala.

Sala de reuniões, né. Pelo menos parece que vão nos ouvir, o que já ajuda.

Controlando Ukai, que estava pálida de tensão, Satou bate na porta indicada.

Entra. Tanaka-san da Editora Sei-Lá-O-Quê...... era isso?

Com licença.

Diante da resposta arrogante, sem nem corrigir o erro no nome, ele abre a porta e faz uma reverência, seguindo a etiqueta.

Ao entrar na sala de reuniões lado a lado com Ukai, que o seguiu apressada, ele cumprimentou o homem que já estava sentado.

Sou Satou, da Editora Bouken. Esta é Ukai.

U-Ukai Madoka! Muito obrigada por nos conceder seu tempo hoje!

Tsk. Cês tão vendo que eu tô ocupado pra caralho, né... Haa, que saco.

Pelo jeito de falar engolindo palavras e pelo final agressivo das frases, Satou, com a cabeça ainda abaixada, teve um pressentimento imediato.

(Ih, deu ruim. Essa já era)

Uma ligação oferecendo serviço de reforma de casa ou coleta de sucata tocando bem no seu precioso dia de folga, enquanto você tá relaxando.

A atitude de quem atende o telefone, saca na mesma hora que é uma venda chata e já dá aquela despachada de qualquer jeito ―― a vibe do homem era exatamente essa.

Se não fosse uma ordem do presidente, o fluxo normal seria julgar na hora que não ia dar em nada, deixar o cartão de visitas na mesa e ir embora rapidinho. Ficar insistindo seria perda de tempo; dava pra ver nitidamente a situação num nível que não dava a menor brecha.

(Mas, mesmo assim, eu não posso simplesmente meter o pé, né...... Haa)

É aí que dói ser um pobre escravo corporativo: o destino da empresa tá pendurado nessa visita de vendas de merda, e ele não pode voltar de mãos abanando.

Mesmo sabendo que não tem a menor chance, ele precisa insistir até onde der.

Eu sou...... bom, vocês não precisam do meu nome, né? Afinal, vocês conhecem, óbvio.

Uma fumaça com cheiro ácido e forte flutua pelo ar. É o cheiro de um cigarro que não está acostumado a sentir, vindo da boca do homem.

Fumar num lugar que nem área de fumantes é em pleno dia de hoje. Com um sentimento de incredulidade, Satou levantou o olhar para o homem ――.

(É um rosto conhecido, mas...... onde foi que eu vi ele mesmo?)

Cabelo vermelho vivo penteado todo pra trás, com uma velha cicatriz no rosto. Um cigarro no canto da boca que exibia um sorriso cínico, um terno double-breasted chamativo e uma camisa de cor escura que um trabalhador normal jamais conseguiria vestir sem ficar ridículo.

Os traços do rosto são bem alinhados, dá pra dizer com certeza que é um cara bonito. O corpo escondido sob o terno também é musculoso, e o distintivo na lapela é a prova de ser um streamer ―― a Placa de Prata, concedida pela plataforma pra quem ultrapassa a marca de 100 mil inscritos.

S-sim! Claro que conhecemos, é o... Dokky Kinya-san, não é!?

Opa, opa, você manja das coisas, heein. Pois é! Ex-canal com 120 mil inscritos! Hoje eu tô aqui trabalhando como manager, mas antigamente eu tava lá na linha de frente quebrando tudo, tá ligado?

Quando a Ukai respondeu, Kachidoki Kinya, vulgo Dokky Kinya, deu um sorriso exibindo os dentes brancos.

(Lembrei. A Buchou tinha mandado uma foto dele anexada na mensagem)

Ele tinha lembrança daquele sorriso que parecia o de um gorila carnívoro.

Era a foto que a Buchou mandou informando que ele seria o responsável da DOOM Pro. Ele lembrava de ter dado uma olhada rápida junto com os dados que poderiam servir de pista pra negociação, como o número de inscritos da época de streamer e o nome.

(O famoso ex-canal de treta. Ouvi dizer que ele atuava na camada média da Dungeon de Shinjuku)

Segundo a Buchou, ele se aposentou como aventureiro depois de ser cancelado na internet por causa de um certo ocorrido. Dizem que, depois de entrar na DOOM Pro por indicação, ele tem atuado como manager usando o sucesso do passado como escudo...

É uma honra conhecê-lo. Muito obrigado por nos receber hoje, mesmo sendo um pedido tão em cima da hora.

Recapitulando os dados na mente, Satou e Ukai se sentaram e abriram os materiais.

Hoje nós viemos para fazer uma reportagem sobre a sua empresa e discutir uma proposta de collab. Contamos com a sua colaboração.

Hn. ......Peraí, é papel? Cês não digitalizaram o negócio? Que merda, hein, a sua firma.

A nossa empresa tem uma cultura corporativa que valoriza e respeita a tradição.

Enquanto dava essa desculpa, Satou pensava por dentro: “Pois é, né”.

O que eles trouxeram dessa vez foram recortes de artigos antigos, fotos de produtos, light novels com streamers como protagonistas, etc. Como são do ramo editorial, a decisão de que é mais fácil promover pela mídia física não tá errada... talvez.

(No nosso caso nem é por causa desse tipo de cálculo, é só porque a gente não conseguiu acompanhar a época mesmo... e tal)

Sem deixar transparecer essa verdade, Satou dá uma olhada pra Ukai ao lado. Ukai, toda apressada, opera o tablet que tirou da bolsa e abre a apresentação que ela montou na marra nas últimas horas.

Dando continuidade, a responsável Ukai fará a explicação...

Hn, agiliza aí?

H-hyaii! Por favor, deem uma olhada nestes materiais!

Na sala com as luzes apagadas, começa o PowerPoint da vida da Ukai. Pra quem recebeu a ordem de fazer visita de vendas de supetão hoje de manhã e montou tudo nas pressas em poucas horas logo depois de acordar, a parada até que tava bem bonita e com cara de apresentação.

(A Ukai é mesmo competente. Por que ela foi entrar numa empresa como a nossa...?)

Depois de ser sugada feito um pano de chão velho, logo no segundo ano de formada ela já tá correndo o risco de perder o emprego.

E ainda por cima, com o destino da empresa nas costas dela, é natural que ela sinta o peso da responsabilidade.

...E por conta disso, a nossa empresa tem o intuito de apoiar as atividades para todos os streamers de Dungeon com diversas propostas. O nosso forte são os artigos de destaque na revista Advestance, mas também temos experiência na produção de light novels autobiográficas através de redatores parceiros, além da fabricação de produtos como pelúcias e afins...

Não tem dúvida de que ela tá morrendo de medo. A voz até pode estar firme, mas as mãos fechadas tão tremendo de leve. Conseguir falar direito com um cara assustador desses enquanto suprime a agitação por dentro, a garota manda muito bem.

(Mesmo assim, é como eu imaginava, né...)

Dokky Kinya. O cargo dele na DOOM Pro pode até ser de manager, mas na prática ele é o responsável por lidar com os BOs... ou seja, usando um termo antigo, ele atua como uma espécie de leão de chácara; era isso que o Satou tava sacando.

(Pra um fumante, os dentes dele são brancos demais. Mesmo escovando sempre, não fica assim)

――Normalmente ele fuma cigarro eletrônico, ou nem fuma. Aquele cigarro que ele baforou bem na hora que a gente se encontrou era só um acessório pra intimidar.

Não é diferente de um cachorro latindo, ou de um yakuza e trombadinha gritando. Uma técnica pra ameaçar com uma vibe de marginal e deixar claro a posição e a relação de poder de cada um.

(Bom, nem precisava de tudo isso. Entre uma editora lixo e a maior gigante da indústria, não existe relação de poder nenhuma)

É o famoso “tentar crescer pra cima”, mas não precisava de nada disso porque a gente já tá na base do fundo do poço. Ser intimidado não é um problema, a gente só sente um “é claro, né”. Dane-se.

A ideia de que dá para conseguir fechar um projeto só mandando uns peões de firma, sem ter quase nenhum contato ou “QI(Quem Indica)”, é muito ingênua. Essa visita de vendas foi uma ordem do presidente, mas é justamente por ele pensar assim que a gestão da empresa tá afundando, não é.

...Sendo assim, nós gostaríamos muito de conseguir fechar um projeto com a sua empresa!? Por favor!

Haaan...?

Ukai se curva com uma expressão desesperada. Uma distância em que a testa quase bate na mesa da sala de reuniões.

Mas toda essa súplica não funcionou com o homem chamado Kinya.

Chato. Nem tem o que discutir.

Eeeh!? C-como assim...!

Então eu pergunto... qual é a vantagem da NOSSA empresa fechar com a SUA empresa?

Ton, ton, ton, ele bate o dedo de forma sarcástica em cima do material de apresentação aberto.

A atitude dele é péssima, mas ele não tá falando nenhuma mentira. Pros padrões de quem fez na correria, o material da Ukai tá bem feito, mas no fim das contas, resumindo o que ela tá falando...

...E-expor amplamente a sua empresa para os nossos leitores...?

Dá pra vocês voltarem quando triplicarem a tiragem? Isso aqui, na prática, é vocês pedindo pros nossos streamers fazerem propaganda da revista da SUA empresa. Posições invertidas, né.

(Pois é, né)

Sem desfazer a cara séria, Satou pensou calado.

Em comparação com a tiragem um pouco inflada da principal revista da Editora Bouken, a Advestance, a DOOM Pro tem streamers de rank mais baixo com um dígito a mais de inscritos. A escala de influência é totalmente diferente.

Mais do que propaganda, isso é basicamente parasitismo. Seja pra produzir goods ou adaptar pra light novel, basta eles encomendarem direto com os fabricantes ou com os redatores, sem passar pela Editora Bouken. Não tem sentido colocar um intermediário inútil no meio.

I-isso não pode ser...! A-ah, mas e se for uma entrevista!? Podemos fazer um especial sobre a sua empresa na Advestance, e também pagaríamos uma taxa de entrevista...!

A grana é muito mixuruca. Cês acham mesmo que dá pra usar um streamer nosso com isso? Dá um tempo, volta outra hora, sério.

Au, auuu...!

Sem conseguir dar um pio. Os padrões da empresa ainda são da Era Showa, a galera ainda vive com o sentimento de quando a mídia de massa era forte. Diferente da mídia impressa, que hoje em dia tá afundando, não existia a menor chance de vencer os streamers que ostentam uma velocidade e um alcance de divulgação esmagadores.

(Tá quase acabando, né... É um pouco cedo pro almoço, mas o que eu vou comer?)

Mesmo fazendo uma cara de profundamente focado, Satou tava pensando numa coisa dessas.

Era uma proposta sem fundamento desde o começo. Ser rejeitado já era o esperado, então não tinha choque nenhum. Ele já tava mais preocupado com a fominha que tava batendo, tentando lembrar de uns restaurantes bons ali por perto, até que:

A nossa empresa tá passando por um aperto por causa do caso do Very Good... Se a gente conseguir qualquer projeto, vai ajudar muito. Em relação às condições, nós levaremos pra empresa e estudaremos, então por favor, por favor...!

Ah, então vocês tavam promovendo aquele arruaceiro, hein, sua firma. Que falta de senso... hm?

(......!?)

Um calafrio de repulsa que faz os pelos da nuca arrepiarem.

A resposta do Kinya, e o que veio depois. Sentindo algo naquela quebra de frase que indicava que ele havia notado alguma coisa, Satou levantou o olhar.

O olhar do homem se enrosca na Ukai. A pele queimada parecendo carne de porco cozida, o olhar nojento daquele rosto oleoso fuzilava a garota novata no segundo ano de firma como se fosse capturá-la.

O destino do olhar era a Ukai em seu terninho de negócios, a nuca coberta de suor frio e a expressão de olhos marejados, além dos seios fartos que empurravam o terno e as pernas envoltas em meias-calças de fio grosso――.

Hoo~... Olhando bem, até que você é melhor do que eu pensava. Sendo assim, bem... hm?

(Acho que se gravasse a cara dele agora mesmo, já daria pra abrir um processo de assédio sexual, hein)

O “pedaço de porco” derreteu numa cara que transbordava tara. Quer dizer, ele sorriu, mas passava exatamente essa sensação.

Kinya se levantou da cadeira onde estava esparramado e caminhou direto até a Ukai.

Bom, eu falei umas paradas pesadas, né. Que tal hoje à noite? Eu deixo você me contar os detalhes.

Eh, s-sério!?

Sério, sério. Hoje à noite a gente vai fazer uma festinha reunindo os streamers mais novos da empresa. É um ambiente descontraído, tipo um goukon (encontro de solteiros), e tava faltando menina, sabe~. Se você der as caras por lá, talvez eles ouçam a sua proposta.

Eh? Goukon... é?

Uma onda de confusão passa pela Ukai.

Ela tentava disfarçar, mas era porque tinha farejado o cheiro suspeito que vazava daquelas palavras.

Por acaso você ficou desconfiada? Fica fria, hoje em dia ninguém força nada não, sabe.

S-sim, né? Se for só pra beber...

O papo pode esquentar e rolar um romance natural, não acha? Mas não tem nada forçado, e se você tiver a devida determinação pra isso, não tem problema, né? Afinal, você é uma Adulta.

Eh...!?

Diante da resposta inesperada, Ukai congelou como pedra.

Encurtando ainda mais a distância, o rosto do porco se aproximou no limite do contato. Quando a Ukai, deixando transparecer um leve incômodo, virou o rosto, ele tentou preencher ainda mais esse espaço.

Significa que, se você quiser, eu deixo você pelo menos apresentar a ideia. Eu te dou o encontro e, se os nossos streamers gostarem de você, quem sabe eles não te passam uns projetos? E além do mais――...

Fuu, soprando uma respiração com cheiro residual de cigarro.

Não vem se encostar na gente se não tem nem esse nível de determinação. A gente aposta a vida nisso aqui, sacou?

...A-a-ah, isso é... não é que eu esteja subestimando ou algo do tipo...!

Não, cê tá tirando com a nossa cara sim. Nós, streamers, a gente se mata numa batalha de vida ou morte pra conseguir inscrito e dá o sangue, tá ligado. Aí você vem de fininho querendo só aproveitar e sugar a gente, mó pilantragem, né. Isso não vai rolar não.

Se quer alguma coisa, dê primeiro.

Entregue a compensação. Se não tem dinheiro, que seja em troca de―― castidade, dignidade, essas coisas.

Você não é criança, sabe. Vamos ser adultos... né?

......!

Uma cor de desespero surgiu nos olhos de Ukai. Ela prendeu a respiração, sem sequer conseguir afastar a mão do Kinya que agarrava seu ombro.

(É o limite. Nesse ritmo ela vai acabar cedendo à pressão)

Ukai foi completamente engolida. Eram cento e vinte mil inscritos, não é? Um aventureiro que chega nesse nível é um intermediário de peso, a nata que pode atuar como profissional. A própria existência dele oprime as pessoas comuns, possuindo o poder de engoli-las.

Um amador que não subiu de nível como aventureiro e não passou pelo Despertar é um alvo fácil. Só com a enxurrada de palavras e a pressão de sua presença, sem deixar ela dizer “não”, forçar a barra para arrancar um consentimento contra a vontade seria a coisa mais fácil do mundo.

Se a deixasse ali, Ukai seria arrastada para aquele tal de goukon esta noite―― e até o tapado do Satou conseguia imaginar o fim trágico disso. Com certeza não ia dar boa coisa.

(A empresa pode até se salvar com isso, mas)

Mas, definitivamente, isso não tem o valor de ser trocado pelo futuro de uma mulher chamada Ukai Madoka.

 

......Pan!

 

Opa!?

Eh? Satou......-san?

Perdão. Tinha um mosquito aqui.

O ar estagnado e pesado ficou leve, como se tivesse sido purificado.

Enquanto Kinya encurralava Ukai, Satou repentinamente bateu palmas. O som nítido que ecoou de surpresa gerou um leve susto, trazendo Ukai — que estava prestes a ser engolida pela pressão do homem — de volta a si, e quebrando totalmente o ímpeto de Kinya.

Peço desculpas por termos pedido o impossível de vocês hoje.

Puxando a cadeira levemente para trás, Satou se levantou e fez uma reverência profunda ali mesmo.

Ele pega a mão de Ukai, que olhava para ele de baixo meio atônita, e a puxa de leve. Protegendo a kouhai, que se levantou sem forças como se tivesse sido fisgada por uma vara de pesca, ele a esconde atrás de suas costas――.

Sendo assim, com licença. Muito obrigado mais uma vez por nos concederem o seu tempo.

Sen, Senpaaai......!

Escondida nas costas dele não dava para vê-la, mas a voz de Ukai se misturou com soluços.

Ela deve ter percebido a situação em que quase foi arrastada. Satou não conseguia vê-la e nem dava a mínima para isso, mas no rosto de olhos marejados da garota surgiu um sentimento de respeito e gratidão, e ela se agarrou suavemente nas costas surpreendentemente largas e robustas dele, como se buscasse apoio.

Hã? ......Hããã~~~?

Quem não achou a menor graça naquilo foi Kinya.

Faltava só um passo pra ela cair. Uma garota novata, tímida e sem malícia, não passa de uma presa fácil para homens desse tipo. Tendo a presa roubada bem debaixo do seu nariz, ele se aproximou de Satou transparecendo um mau humor descarado.

A gente tava bem no clima aqui, tem como você não dar palpite onde não é chamado?

Ultimamente o compliance (regras de conformidade) também está bem rígido. Uma bebedeira com um parceiro de negócios, ou entretenimentos que adentram a madrugada, são o tipo de coisa que a nossa empresa deve evitar. Mas se for para um almoço, eu ficaria feliz em acompanhá-lo.

Almoço com ossan? Morro, mas não quero. Não é disso que eu tô falando, cê sabe muito bem né!?

Peço perdão. Parece que o deixei desconfortável, mas eu não compreendo.

Ele se mantinha numa postura humilde e submissa até o fim, mas sem ceder um milímetro sequer.

A história seria outra se Ukai tivesse escolhido e desejado isso por conta própria. Se ela tivesse a audácia de bajular um streamer famoso, usar o próprio corpo para conseguir um projeto e, ainda assim, agir como se nada tivesse acontecido.

(Mas, não é o caso)

Ukai não sabe de nada. Ela é só uma criança que quase foi levada na lábia por um adulto de péssima índole.

Se fosse só para ter a proposta de vendas recusada, ele não tinha a menor intenção de abrir a boca, mas usar uma criança assim por pura conveniência, se ele vier com pensamentos depravados de um adulto sujo para satisfazer sua luxúria, não me resta outra escolha a não ser impedi-lo.

(Ah, mesmo assim)

Esse bastardo com cara de carne de porco cozida me fuzilando com o olhar, todo enfurecido.

(Que feio. ――Eu vi muito disso, naquela época, naquele lugar)

A Grande Invasão, onde os monstros transbordaram do labirinto e engoliram toda a região de Shinjuku junto com o Satou.

A feiura dos humanos que ele viu à exaustão no meio do vórtice daquela carnificina em que foi envolvido. Ver uma feiura da mesma laia, algo como gordura boiando em água suja, fazia a raiva ir se acumulando no peito que ele tinha acabado de aliviar nesta manhã.

Naturalmente, seus dedos se dobram. Como se contasse 1, 2...

Qual é o problema, é liberdade individual, né. Ou melhor, por acaso essa garota é sua namorada?

Não é isso. Não se trata de uma relação privada desse tipo, é uma questão de moral.

Moralsss~~? Um merdinha de vendas de uma empresa falida tá cheio de marra, hein.

Finalmente, a mão do homem agarrou o colarinho de Satou em tom de provocação.

Cê é só um mendigo que veio implorar de joelhos, que porra de cara rebelde é essa. Tá tirando com a minha cara?

Nós estamos falando estritamente de uma transação comercial, de negócios. Posso considerar que esse é o posicionamento oficial da empresa DOOM Pro? Se for o caso, eu acho que isso é extremamente problemático.

Sem sequer afastar a mão que agarrava o seu colarinho, Satou rebateu a Kinya com uma voz inabalável.

Hoje em dia, vivemos numa era onde qualquer um pode expor as coisas pro mundo através das redes sociais

De garotas de programa a prostitutas clandestinas ―― uma era em que qualquer pessoa tem um celular e está conectada às redes sociais.

Dizem que um streamer com dezenas de milhares de inscritos tem dificuldade até para ir num bordel. Além do risco de cancelamento, a diferença de vigor físico é tão grande que acaba sendo um fardo pesado para as mulheres, então há muitos casos onde eles são banidos ou recusados.

Streamers e aventureiros de alto nível são super-humanos.

Eles literalmente possuem capacidades físicas parecidas com as de heróis de histórias em quadrinhos.

Mas às vezes, essa vitalidade exuberante vira um problema e traz desejos anormais. Um apetite que não se sacia mesmo devorando todo o cardápio de um restaurante, ou um desejo sexual que não se esgota mesmo transando por três dias seguidos.

Não é todo mundo que apresenta esses sintomas. O preço a se pagar por Skills poderosas, defeitos causados por subir de nível muito rápido, os motivos variam; mas para os aventureiros de alto escalão, isso é quase como uma doença ocupacional.

Para uma agência gigante como a DOOM Pro, que atua na linha de frente e onde só os de alto nível pertencem, naturalmente, dar suporte e cuidar dos streamers que apresentam esses sintomas é parte do trabalho.

Apetite eles ainda conseguem providenciar, mas quando o assunto é luxúria e arranjar parceiros, existe um limite.

Quem consegue transar com super-humanos são apenas super-humanos ―― se transarem com uma pessoa normal, o fim é acabar esmagando(quebrando)-a. Como é impossível suportarem os desejos de um super-humano, dizem que até existem bordeis especializados e aplicativos de relacionamento apenas para aventureiros.

Mesmo assim, há um limite para o uso dessas instalações, e boatos sobre cancelamentos e abafamentos de casos envolvendo o ato de “devorar” garotas amadoras, fãs e até espectadoras das streams eram um assunto muito comum nos bastidores da indústria.

(É uma história que eu só ouvi falar, não passa de boato. Mas......)

Não é à toa que ele está na indústria há muito tempo. Mesmo entre funcionários relapsos como ele, existem colaboradores por toda parte com quem compartilha interesses — não chegam a ser amigos, mas às vezes eles trocam informações enquanto matam serviço nas visitas de vendas.

(Pelo visto, parece que era verdade mesmo)

Vendo a reação escancarada, Satou soltou da boca o pior boato que já tinha ouvido.

Recentemente, tão usando ex-streamers falidos como ‘agenciadores’  pra armar festinhas em hotéis. Fazem eles darem match com umas garotas... e rola uma moda de forçar a barra pra levar pro sexo. Mirando em garotas amadoras que não sabem de nada, sabe.

......Seu merda

É o que chamam de ‘Canhão da Shuubun’. Chegou aos meus ouvidos que isso talvez vire matéria na semana que vem, mas... é claro que a DOOM-san nunca faria uma coisa dessas, não é mesmo? Por favor, esqueça o que eu disse.

Ouvindo o nome da revista semanal famosa por expor escândalos, a cor do rosto de Kinya mudou. A mão que agarrava o colarinho afrouxou; Satou a afastou rapidamente e arrumou a gravata torta.

Hã!? Shuubun!? Tá de sacanagem, ou melhor, por que, de onde... seu desgraçado!?

É aquilo que dizem, ‘uma cobra reconhece o caminho de outra cobra’. É boato, só boato.

Ele não estava mentindo. Boato é boato, e não passava de conversa fiada entre colegas que matam serviço fora da empresa. Mas, pela experiência de Satou, era uma fonte até que confiável, e a atitude de Kinya deixava claro que ele tinha o rabo preso caso cavassem mais fundo.

(Normalmente, eu não tinha a intenção de usar isso, mas)

Esse tipo de remédio forte é pesado demais para ser usado como material de negociação. É uma faca de dois gumes que deixa o oponente em alerta e instiga medo e desconfiança. Mesmo que consiga forçar a sua exigência ali na hora, você compra inimizade e a possibilidade de ficar sem saída no futuro aumenta muito.

Usá-lo agora com certeza seria uma péssima jogada. Mas ele não conseguia pensar em nenhuma outra alternativa.

Sendo assim, com licença.

E, a, i-isso... c-com liçenssa!?

No momento em que o colarinho foi solto, Satou recuou rapidamente. E, de forma natural, levou Ukai consigo para fora da sala de reuniões. Ele segurou a mão dela para escoltá-la, mas sentiu que estava estranhamente quente e ficou encucado.

(Com aquele papo de agora há pouco, seria horrível se ela me processasse por assédio sexual... Ou melhor, depois daquele convite descarado de ‘teste do sofá’, o que eu faço se ela resolver pedir as contas antes mesmo da empresa falir? Mas que cara mais terrível)

.........!

Sem perceber nem um pouco a atitude de Ukai, que o seguia com uma cara de quem via o Príncipe Encantado de seus sonhos, Satou pensou consigo mesmo.

 

 

Mas, logo após os dois saírem da sala de reuniões, passos barulhentos vieram atrás deles.

Espera aí, porra!! Que porra é essa, ossan. Tá querendo morrer!?


Por favor, pare com a violência. ......O que houve?

’O que houve’ o caralho. Canhão da Shuubun? Seu merda, por acaso você é repórter? Vai transformar isso em matéria!?

(Com uma voz tão alta num lugar desses... esse cara é idiota?)

Ele até deve ter achado que estava abaixando o tom, mas a voz natural dele já era alta o suficiente.

Com aquela voz ecoando pelo corredor, o ambiente ao redor começou a ficar agitado. Enquanto os funcionários colocavam as cabeças para fora das divisórias do escritório — rostos de gente bem-criada observando com curiosidade —, Satou parou como se quisesse acalmar Kinya.

É apenas um boato. Se não tem culpa no cartório, não tem com o que se preocupar, não é mesmo?

Cala a boca! Cê não tá gravando nem filmando nada aí, né? Passa o celular pra cá. Um velho merda e patético igual a você, eu podia afundar a sua cara na pancada e...... Zeh!?

Como se procurasse o celular, a mão de Kinya vasculhou o terno de Satou.

No momento em que ele enfiou a mão sem a menor cerimônia no bolso interno, Satou agarrou o pulso dele num ângulo em que ninguém em volta conseguiria ver.

......Geh!?

(Mais fraco do que eu imaginava. Não vai me dizer que ele tá usando toda a força dele nisso, né?)

Para quem olhava de fora, devia parecer apenas que Satou estava segurando o pulso dele para tentar afastá-lo.

Mas para os envolvidos a história era outra. Tendo o pulso agarrado, Kinya ouviu o som de seus ossos rangendo (mishimishi) e, mesmo tentando resistir foi subjugado e dobrado como se fosse uma garotinha. O suor brotou naquele rosto de carne de porco cozida, e o espanto ficou estampado em sua cara.

Na...... agagagagaga, gagagagagaga!? B-bastardo...... gyaaaaaah!?

O que houve? Se não está se sentindo bem, por favor, não se force.

Dizendo isso com a maior cara de pau, Satou sussurrou no ouvido de Kinya sem soltar o seu pulso.

Muito obrigado por vir nos acompanhar até a saída. Sendo assim, mais uma vez ―― com licença.

Com um sorriso amigável, como se estivesse sendo acompanhado até a porta com um aperto de mão, ele disfarçou para as pessoas ao redor.

Os curiosos que observavam a cena perderam o interesse, desviaram o olhar e voltaram para os seus respectivos trabalhos. Ofegando de espanto e dor intensa, Kinya encarou Satou como um cachorro assustado.

O que... o que é você, seu desgraçado... Quem é você!?

Haa.

 

Virando-se rapidamente, Satou tirou o porta-cartões de forma fluida e puxou uma unidade.

 

Sou Satou, do departamento de vendas da Editora Bouken. ――De agora em diante, favor entrar em contato por aqui.

 

Com uma expressão feroz que passava longe de ser um sorriso, ele disse isso.

 

 

Satou-san...... Por acaso, eu tava numa baita enrascada!?

É, mais ou menos isso.

(Se tivesse ido na onda dele toda inocente, ia virar presa fácil, é o que eu acho)

Saindo do prédio de escritórios da DOOM Pro, ele solta um suspiro enquanto caminha pelas ruas de Shinjuku.

O escritório de última geração, mas o interior daquele ambiente de trabalho brilhante era um poço de lama. Acabou vendo uma realidade nojenta. A Editora Bouken é pobre e, mesmo estando com metade do pescoço enfiada em ser uma empresa tóxica, não chega a ser tão feia assim.

(Nessa situação, acabo ficando preocupado até com a Suiren-san e o pessoal dela. Bem, não é algo da minha conta, mas)

O outro lado é uma streamer de destaque, uma estrela dos dias de hoje. É muita presunção um peão de vendas incompetente, que só conseguiu sair da situação usando táticas quase como chantagem, ficar se preocupando, mas ele ainda sentia uma leve ansiedade.

(Esse tipo de coisa nojenta deve existir em qualquer indústria)

――Ele ainda tinha o mínimo de consciência limpa para torcer para que crianças não fossem envolvidas nisso.

(Se eu tiver a chance, será que eu deveria pelo menos avisá-la? É um saco, mas não tem jeito, né)

Só de pensar em como limpar a bagunça dessa vez a cabeça dele já doía, e agora ganhou mais uma semente de preocupação.

A-ah, muito obrigadaaa! Você me salvou!

Tudo bem. Dito isso, como o projeto foi por água abaixo...

Talvez finalmente caindo na real de que foi salva, Ukai tremia enquanto caminhava trotando atrás de Satou. Andando um pouco à frente sem olhar para trás, Satou soltou outro suspiro profundo.

――Vamos nos preparar pro esporro monstro que o presidente vai dar na gente, né?

Pois é......

A mão que ele segurava foi solta no exato momento em que passaram pela entrada da DOOM Pro.

Sem nem perceber a Ukai, que segurava com melancolia a própria mão onde a sensação do toque ainda persistia, Satou pensava no que ia acontecer dali pra frente.

Relatar o ocorrido para o superior era o óbvio, mas ter que dizer que a visita de vendas em que apostaram o destino da empresa falhou completamente era, de fato, algo que pesava. Provavelmente levaria alguma punição vinda de cima, mas bom――.

Se a empresa falir, não vai ter punição nem corte de salário mesmo, então talvez dê na mesma.

Eu acho que isso é péssimo por outros motivos, Satou-san!

É, né.

Será que ele já devia começar a preparar o currículo e as fichas de inscrição?

A culpa não é sua, Satou-san. Você me protegeu, não foi!? Punição é o caramba......

Bom, na base da coisa, o cara que sugeriu o teste do sofá é 100% o errado da história, mas...

Se o mundo girasse só na base da correção moral, com certeza o mundo continuaria em paz.

Se reportar esse caso para cima, a probabilidade mais alta é de aplicarem uma punição severa no Satou e, usando isso como ritual de purificação(bode expiatório), o superior vai lá pedir desculpas pra selar a paz. Olhando pela relação de poder, uma editorazinha minúscula prestes a falir não tem fôlego para morder a maior empresa da indústria, e se cutucarem a história do teste do sofá com jeito, talvez até consigam arrancar algum projeto.

A justiça está do nosso lado.

Porém, justiça sem poder não tem sentido――.

Ainda não pensei direito, mas...... depois de levar esporro do presidente, acho que é procurar um emprego novo, né?

Não fale isso como se fosse uma frase de efeito! Eu vou protestar com certeza, pode apostar!

Escondendo o choque interior, o salaryman andava com cara de quem achava tudo um saco, seguido pela sua kouhai.

Os olhos que olhavam aquelas duas figuras lá de cima ―― cheios de malícia, raiva e humilhação, os dois foram embora sem sequer perceber.

 

 


 

O Lutador do Assédio Sexual das Chamas

 

Mesmo horário — Dentro da DOOM Production

Dokky Kinya

Os legados da Dungeon, produtos variados que aplicam magia, agora estão naturalmente integrados à vida social.

Aqui, o ar-condicionado instalado na sala de reuniões da DOOM Production é o modelo mais moderno que aplica magia. Graças à pedra mágica de gelo incorporada como refrigerante, o consumo de energia é de um terço e a capacidade de resfriamento é o dobro.

Embora um limite tenha sido definido para evitar acidentes, se usado ignorando as restrições, é possível resfriar a sala de reuniões inteira ao nível de um congelador. Embora a aparência externa não tenha mudado muito, o mundo estava mudando.

……… Satou, da Editora Bouken. Não fode, não fode comigo, viu...!?

Um som como algo fervendo borbulhando. Na sala de reuniões climatizada, um homem rosna diante de um único cartão de visitas. Dentro da garrafa PET em sua mão, a água fervente evaporava, e um leve vapor subia.

A fonte desse calor era a palma da mão do homem —— um fenômeno secundário da sua Main Skill Fire Magic A. Como um efeito colateral da habilidade de manipular chamas livremente, seu corpo, que emitia alto calor junto com a exaltação das emoções, estava chamuscando o terno de abotoamento duplo por dentro.

Uwa, quente!? Kinya-san, o que houve!?

…… Ah?

Um jovem trabalhador de meio-período que entrou na sala de reuniões se assustou, e Dokky Kinya o encarou com um olhar afiado.

Um freeter que é um ex-aventureiro fracassado. Embora existam muitos aspirantes, o negócio de aventureiro tem muitos desistentes. Por mais que a ressurreição seja possível, o cotidiano de experienciar a Morte de forma simulada diariamente torna-se um estresse avassalador.

As camadas rasas, que são relativamente seguras, rendem pouco. Se você subir o Level e seguir para as camadas intermediárias ou profundas, os ganhos disparam, mas o nível de perigo salta ainda mais alto, então aqueles que não conseguem acompanhar a luta acabam desistindo.

Este funcionário também é um desses desistentes. Ele entrou em pânico diante de Kinya, que emitia calor com um ímpeto que ignorava o ar frio do ar-condicionado, olhando alternadamente para o carpete e o papel de parede que pareciam prestes a queimar.

A-As roupas não vão chamuscar? Isso é uma Skill, não é?

É feita sob medida. É um item de luxo usando materiais de rato de fogo que você não conseguiria comprar com o seu salário

Ah, tem resistência a fogo então... Parece que o senhor está irritado, mas e o vendedor da Editora Bouken? Ele já foi embora? Na verdade, me pediram para chamá-lo um instante...

…… Aah!?

Ao ouvir o nome da empresa que menos queria escutar agora, veias saltaram na testa de Kinya.

O que foi que disse? Quem mandou chamar aquele maldito vendedor?

N-Não fique bravo comigo...! Eu só recebi o pedido. Parece que ela ouviu que o vendedor da Editora Bouken viria para uma reunião hoje, e a Sui-chan disse que queria tentar conhecê-lo...

A Sui-chan? …… Hah!? Como assim, por que a Siren com aquela editora de merda!?

Eu não sei! Não será porque ela é fã da Advestance? Os artigos de walkthrough parecem cópias do que tem no SNS, mas o mangá que eles serializam é discretamente interessante

Ah…… é mesmo?

Enquanto dava uma resposta vaga, Kachidoki Kinya, também conhecido como Dokky Kinya, fazia sua cabeça fervendo girar.

Aquele maldito vendedor 4 olhos —— de acordo com o cartão de visitas, Satou Keita. Embora eu estivesse desprevenido, foi um descuido convidar a vendedora na frente dele. Mesmo sendo pequena, é a mídia; não seria estranho se houvesse conexões horizontais.

A Canhão da Shuubun também é perigosa, mas hoje em dia escândalos envolvendo mulheres são terríveis... Vou ser cancelado! Se chegar nesse ponto, quem vai ser demitido sou eu, droga! …… Droga!!

A era em que aventureiros podiam ser foras da lei já terminou há muito tempo.

Logo após o desastre dos labirintos, a época do surgimento dos primeiros aventureiros e a subsequente aurora foi caótica.

Uma era em que, para conter as Dungeons de cada região e derrotar monstros incansavelmente para evitar uma grande invasão, desde pessoas de origem suspeita e criminosos até vilões no limite da liberdade tornaram-se aventureiros e agiram com violência.

Naquela época, os labirintos eram quase uma zona sem lei. Afinal, mesmo que você matasse, eles não morriam. Embora não viesse a público, o lugar era terrivelmente caótico com casos de violência sexual, furtos e extorsão — embora não tanto quanto em outros países —.

Naquela época, apresentar uma mulher não seria problema nenhum. Era um tempo bom, hein... Merda. A era em que se podia socar e comer uma guerreira com uma bunda gostosa acabou...!

Desde que você se comportasse bem na Stream, não havia punição para as maldades feitas onde a câmera não alcançava. Não dava para prender cada aventureiro precioso e, acima de tudo, os aventureiros não podiam ser capturados pela força policial.

Se eu acabar devendo um favor para o pessoal do submundo por causa disso, não sei o quanto vão me sugar. Merda, merda! Tenho que resolver isso com as peças que tenho em mãos, senão minha corda só vai apertar cada vez mais!

Uma arrogância vinda justamente por conhecer aquela era —— mas, agora é diferente.

A chegada da Era das Grandes Aventuras. A ascensão da geração Dungeon Native fez o número absoluto de aventureiros disparar, e os privilégios de outrora foram perdidos. Existem substitutos aos montes; criminosos agora são presos normalmente.

É o óbvio, se for parar para pensar. Especialmente para os Labyrinth Streamers, que dependem da popularidade, a purificação está avançando de forma rigorosa, e um escândalo pode ser fatal. Se assédio sexual e abuso de poder já são grandes problemas, caso as intermediações de mulheres que Kinya faz nos bastidores venham a público, nesse momento ——.

Deu ruim!! Deu muito ruim, é a ruína... a ruína!!

Como aventureiro, Kinya já está aposentado. Não doeria nada ter sua licença suspensa. Mas, se os Streamers de quem ele cuidou das mulheres forem forçados a suspender as atividades, isso geraria uma indenização por danos astronômica.

Desgraça, por que estou passando por isso? Eu só arranjei mulher para uns merdas que não pegavam ninguém, não foi!?

No entanto, o próprio Kinya tinha consciência de que havia problemas nesse processo.

Ele organizava festas que pareciam orgias convidando fãs fervorosas de Streamers, ou mandava para o bordel vítimas que se tornaram quase vegetais por terem servido de parceiras para quem manifestou sintomas de aumento de libido; ele também lidava com drogas derivadas do labirinto.

Mesmo assim, não é ilegal, são produtos da Dungeon, então a regulamentação ainda não foi feita. Não serei julgado pela lei, mas se eu sofrer um cancelamento, esse tipo de desculpa não vai colar. Serei esmagado pelos paladinos da justiça...!

Ironicamente, quanto mais a popularidade dos Streamers aumentava, mais densa se tornava sua sombra.

Inveja, ciúmes, comentários de haters, calúnia e difamação, até a exposição de informações pessoais. Mais do que punições legais ou a perda do emprego, o medo é se tornar alvo de um cancelamento e ser linchado. Se isso acontecer, ele não conseguirá mais viver nesta indústria.

Lascou, lascou, lascou!! De algum jeito... tenho que calar a boca dele!!

Seus joelhos tremiam de ansiedade, fazendo a mesa da sala de reuniões balançar violentamente.

Ao ver a agitação de Kinya, o jovem trabalhador de meio-período perguntou intrigado:

Err, então, o que aconteceu com o comercial? A Sui-chan está esperando

Foi embora. As condições não batiam, eu mesmo falo com a Sui-chan depois

Não, não pode ser assim. Ah, esse aí é o cartão de visitas deles? Se quiser, eu tento entrar em contato. A Sui-chan disse que queria fazer uma Collab...

Foi no momento em que o rapaz esticou a mão para o cartão de visitas.

 

…… Biki biki biki!!

As veias de Kinya saltaram, o sangue ardente circulou por todo o seu corpo —— e ouviu-se o som da sua racionalidade se partindo.

 

Cala a boca!! —— Silêncio!!

Gebu!?

 

O punho de Kinya afundou no nariz do rapaz que tentava pegar o cartão.

Como se tivesse sido marcado a ferro quente, a pele queimou no formato dos nós dos dedos. Devido ao poder mágico das chamas que transbordava de todo o seu corpo, a Passive Skill que adiciona um efeito de bônus (+) a qualquer dano de ataque estava ativada o tempo todo.

Nya, nyariz... meu nyarizaaaaaa……! Dói, dói muuiiiitoooo!

Cala a boca. Seu merda... não faça o que não deve

É o tal do “orgulho de quem já teve seus dias de glória”. Kinya intimida o funcionário que se contorce de dor segurando o nariz.

Eu já disse que ele foi embora, oei. Quem disse pra você fazer o que não deve? Não importa o que a Sui-chan diga, o responsável sou eu. Não vou permitir uma Collab com aquela editora de merda. Entendeu, ah?

H-H-Hyai... i-isso, dói... a-ajuda...!

Me deixou irritado pra cacete. Fica frio, eu te dou um Potion pelo menos.

Kinya tateia o bolso do terno e retira um remédio de cura.

O conteúdo dentro do frasco vermelho é um Magic Item que cura feridas instantaneamente ao ser bebido. Por ser um item que pode ser obtido até nas camadas rasas, o preço não é tão alto, mas ainda assim é um consumível que não custa menos de 100 mil ienes a unidade.

Vou te curar direitinho, então —— vira meu Sandbag. Ah?

Gehoo!?

Como se estivesse descarregando sua frustração, um Body Blow penetrante perfurou os órgãos internos.

O rapaz dobra o corpo em formato de “V” e vomita, sujando a sala de reuniões. Enquanto enfiava o Potion na boca do sujeito que agonizava, Kinya pegou um cigarro para acalmar a irritação e o acendeu com uma faísca produzida pelo estalar de seus dedos.

Inspira, expira... uma respiração profunda. Tragando repetidamente o cigarro que exalava um aroma ácido peculiar, e enquanto pisoteava o funcionário que havia desmaiado de dor mesmo com as feridas curadas, Kinya pegou seu Smartphone com resistência térmica.

Satou, da Editora Bouken...

Enquanto entrava em contato com um certo contato na agenda.

 

Vou te esmagar pra você nunca mais abrir essa boca, Ossan.

 


 

O Oji-san Comum e a Falsa Acusação de Abuso

 

Final da tarde do mesmo dia — Em frente à entrada da Editora Bouken

Satou Keita

Fomos xingados com uma vontade absurda, hein. Como eu já previa

Se a empresa falir, a culpa vai ser nossa...?

Não vai, não

Após o fracasso na negociação com a DOOM Pro, o que esperava Satou e Ukai ao retornarem à empresa era —— um sermão.

Ukai estava com os olhos marejados após os gritos do presidente, que estava possesso. Ao lado dela, Satou pensava no que comeria no almoço, enquanto o gerente comercial, com uma expressão amarga, tentava intervir de vez em quando para um “pouso suave”; essa farsa improdutiva se estendeu até o anoitecer.

No fim, decididos de que o trabalho não renderia mais, eles saíram do escritório um pouco depois do horário comercial. Satou e Ukai começaram a caminhar lado a lado em direção à estação, sem que nenhum dos dois precisasse dizer nada.

Eram condições impossíveis desde o começo, e uma empresa que tenta sobreviver sacrificando a castidade de seus funcionários como oferenda não tem valor para existir. É melhor para o mundo que ela quebre logo

Satou-san, você diz coisas terríveis com essa cara tão calma...

Procurar emprego é um saco, mas não pretendo facilitar minha vida sacrificando pessoas para isso

O gosto na boca não era apenas ruim. Felizmente, sobre a proposta de Teste do Sofá, ele explicou tudo detalhadamente a gerente e obteve compreensão sobre como as coisas chegaram ao rompimento. E isso foi graças ao ——.

Ter preparado o gravador de voz ajudou bastante. A explicação para a Buchou foi bem fluida

Eu só queria não esquecer o conteúdo da conversa, tipo uma ata de reunião, mas...

Da próxima vez, peça permissão à outra parte sobre a gravação. Sem permissão, não podemos usar como prova

No gravador que a séria Ukai deixou ligado, a voz de Kachidoki Kinya sugerindo indiretamente o Teste do Sofá estava perfeitamente registrada. A gerente, ao ouvir tudo do início ao fim, ficou furiosa e disse que iria protestar.

Foi a primeira vez que vi o presidente desde a entrevista de quando entrei na empresa... Ele era daquele jeito, é?

O presidente, adepto do “deixa disso”, barrou o protesto, e a reunião virou uma confusão. O que resultou em uma saída no horário regular, algo impensável em meio a um cenário de crise.

Ele quase nunca vem à empresa. Se ele apenas pagar o salário, por mim tudo bem

O presidente da Editora Bouken é apenas um sucessor de segunda geração que herdou o cargo do pai, o fundador.

Ele delega todo o trabalho prático aos diretores que vieram da gestão anterior e passa os dias vivendo no luxo com seus honorários de diretoria.

O fundador era um homem enérgico. Ele dizia coisas absurdamente irracionais, mas como ele próprio trabalhava tanto quanto exigia... era difícil reclamar. Era o típico salaryman fervoroso da era Showa

Ouvi dizer que, após a morte dele, quase toda a diretoria da época se demitiu...

Eram pessoas que se reuniram pela virtude pessoal do fundador. Foram mudando de emprego ou abrindo seus próprios negócios um após o outro, e os veteranos que restaram são apenas alguns poucos que não tinham para onde ir

Satou era um deles.

Embora não tenha subido na hierarquia, ele era um dos envolvidos que presenciou a ascensão e queda da Editora Bouken.

O gerente de edição estava chorando de verdade... Ele disse que, se continuar assim, na semana que vem terá que pedir o impossível para o autor do mangá serializado e enrolar com um capítulo de páginas extras gigantescas

Aquele autor vai ficar bem, ele é um veterano. Consegue segurar as pontas por uma ou duas semanas

Satou lembrou-se da época em que havia mais gente no departamento comercial e ele era convocado para ajudar no departamento editorial.

Era quando Satou ainda era um novato. O mangá que ele ficou responsável era um de comédia com desenhos terrivelmente desleixados, mas ——.

A arte é fatalmente ruim, e não dá para distinguir a garota bonita do protagonista a não ser pelas roupas. Quase não tem história, e às vezes o conteúdo desta semana é o exato oposto da semana passada

…… Eu não li, mas agora fiquei com vontade de ler

Pois é. Ele tem fãs ferrenhos, então deve aguentar umas duas semanas no limite

O resultado seria uma exploração cruel de trabalho, mas felizmente o autor era um viciado em Social game e Pachinko. Como nunca tinha dinheiro suficiente, era um talento raro que podia ser fisgado facilmente com um bônus no pagamento dos originais.

Mas é o último recurso. Se não encontrarmos um Streamer para promover nessas duas semanas ganhas sacrificando o autor, o combo infernal de encerramento da revista e falência será certeiro

Isso é péssimo...! Uuu, agora que a DOOM Pro também já era, o que vamos fazer...!?

Ukai caminhava segurando a cabeça. Ao lado dela, Satou pensava com um semblante indiferente.

Bom, daremos um jeito. Se métodos baixos servirem, eu tenho uma carta na manga

Uma carta... na manga?

Escândalos envolvendo mulheres, incluindo a DOOM Pro, vão sair na semana que vem. Será uma carona na Canhão da Shuubun, mas se escrevermos fofocas qualquer colhidas de pessoas relacionadas, pelo menos conseguimos preencher as páginas

De certa forma, era uma mudança de diretriz que cuspia totalmente no conceito de fundação da revista semanal de aventuras Advestance, que visava dar sonhos aos jovens que aspiram ser aventureiros, mas a necessidade não conhece leis.

Fofocas vendem bem e combinam com o público que compra nossa revista em lojas de conveniência. Para pessoas que acham até busca na internet um saco, conseguiremos lucrar razoavelmente

Sobre isso...

Ukai de repente baixou a voz, cobrindo a boca com a palma da mão enquanto perguntava.

Satou-san. Aquela história da Canhão da Shuubun... é verdade?

É um boato incerto no nível de rumor da indústria. Seria impossível para nós fazermos uma matéria própria com isso

Mas é fato que a Shuubun, uma revista semanal especializada em escândalos, está se mexendo.

A parte cara de confirmar fatos e entrevistar envolvidos, eles farão. Era uma conversa sem orgulho, mas Satou previu que, mesmo sendo uma matéria de “carona”, conseguiriam atrair certa atenção.

Eles estão fazendo isso para valer. Eu não achava que seria tão descarado assim

Comparado a escândalos onde todos saem infelizes, pensar que o alvo é um vilão de verdade trazia certo alívio. Dava um desânimo ao pensar no sentimento da vítima que teria sua ferida cutucada repetidas vezes, mas havia a possibilidade de cuidar disso através das páginas da revista.

Não tenho a intenção de bancar o bom moço falando de justiça social. Mas, esse tipo de consciência de Compliance antiquada deve ser levantada como um problema, e quem tem o rabo preso é quem está errado

……Sendo a maior empresa e eles agem assim, né. Será que a Sui-chan e as outras estão bem?

Eles não fariam algo tão descarado com menores de idade. Se por acaso estiverem fazendo, é o fim para eles

Fui apenas fazer o trabalho do comercial, mas acabei tendo que expor as trevas da indústria. Sinceramente, me poupem.

Se ele tivesse recusado normalmente, a coisa teria acabado ali... Que merda ele foi fazer, aquele desgraçado

Qual era mesmo o nome dele, já estou quase esquecendo. O responsável com cara de porco. Se as condições não batiam, era só recusar logo que a questão estaria resolvida, mas por ter mostrado suas segundas intenções as coisas ficaram estranhas.

Bom, daremos um jeito. Na pior das hipóteses é só procurar emprego, não é como se eu fosse morrer

Comparado ao período mais sombrio da Editora Bouken, com os infernais cento e cinquenta dias de trabalho contínuo, a situação é relativamente brilhante.

Enquanto pensava nisso ——

Com licença... Satou-san! Você está livre esta noite?

Hã?

Como agradecimento por antes... N-Não quer ir beber...?

Talvez por estar caminhando enquanto pensava, antes que percebesse, já estavam perto do prédio da estação.

Um barzinho de rede recém-aberto, com poucos clientes lá dentro, era para onde a corada Ukai apontava. Com uma das mãos, ela beliscava discretamente a manga do terno de Satou, apelando com toda a sua coragem.

Ah, ela está preocupada com o fracasso da negociação comercial? Tão séria, hein

Mas o coração de donzela que escondia a timidez, Satou não percebeu.

Está tudo bem. Não se preocupe com isso

Mas, mas, assim eu não me sinto bem...

Proteger os colegas também faz parte do trabalho. Não precisa se sentir em dívida comigo

Tendo feito apenas o óbvio, não havia motivo para receber bebida de graça, e Satou odiava criar dívidas com os outros. Ele já tinha visto inúmeros exemplos onde esse tipo de dar e receber invisível se acumulava e evoluía para problemas.

Logo numa saída cedo tão rara, beber com um Ossan como eu seria um jogo de punição

Além disso, havia um motivo para recusar —— um compromisso inadiável.

Na verdade, tenho um compromisso para o jantar. Planejo ir direto para lá agora

Eh? Isso, por acaso... u-um encontro!? Tipo caça ao casamento!?

Não é isso. Minha Nee-san e minha sobrinha me pediram muito para jantar fora

Durante o sermão inútil, ele reconfirma a tela do aplicativo de mensagens que havia chegado.

 

Oji-san! Vamos num encontro

Claro que a mamãe também vai junto. O lugar é~, aquii

 

Na sala de bate-papo Oji-san e Eu —— a sala para se comunicar com sua sobrinha, duas novas mensagens haviam chegado, com a URL do estabelecimento anexada.

Um Beer Hall de luxo em Ginza. Dentro de um edifício histórico, podia-se relaxar e aproveitar cervejas King Size e petiscos focados em salsichas, era exatamente o tipo de estabelecimento tradicional ao gosto de Satou.

Você sabe das coisas, Nee-san. A cerveja parece deliciosa... irresistível!

A caneca dourada refletida na foto de apresentação do lugar. A salsicha clássica também é boa, mas aqui, se atrever a fugir do padrão com um cozido de miúdos cheio de cebolinha também é irresistível. Para as jovens, frango frito ou bife acompanhado de bebida Non-Alcohol.

Ter esse jantar Gorgeous com a família, só de imaginar parecia que o estresse ia ser soprado para longe. Para Satou, que sorria silenciosamente com o Smartphone na mão, a levemente decepcionada Ukai sorriu de volta.

Você parece que vai ser um bom pai, Satou-san. ……Que inveja

Hahaha, eu não tenho oportunidades para isso. Então, até mais

Ah, sim. ……Bom trabalho」 

Sem notar a inveja adicionada no final, ele se despede da sua angustiada Kouhai e começa a andar.

Enquanto seguia pelo caminho que levava à plataforma da estação —— um sentimento de culpa brotou, pensando se não havia sido frio demais.

Será que eu fui muito frio? Espero que ela não tenha ficado ofendida

Mesmo assim, como um Oji-san que já passou dos quarenta, beber a sós com uma funcionária jovem é um pesadelo. Cabines fechadas então, estão fora de questão, se você for processado, você perde. Não é que ele não confie nela, mas quanto a isso, é a realidade.

Tocou o IC Card na catraca e embarcou no trem que o levaria ao seu destino. Não conseguiu garantir a melhor posição de um escravo corporativo, o canto ao lado da porta, e foi empurrado pela multidão de pessoas que embarcava, sendo espremido para dentro do vagão lotado.

O lugar é em Ginza, o encontro é às oito. Desse jeito acho que vou me atrasar

Gatan Goton, o interior do trem balançando. Embora o pico de retorno do trabalho já tivesse passado, a linha circular que percorre o centro da cidade estava lotada como sempre, e o ar quente e úmido cheirava a mofo.

Afrouxando a gravata em busca de alívio, ele segura o suporte de segurança. Olhando levemente ao redor, viu a figura de uma jovem que parecia ser uma OL de estilo tranquilo. Exatamente na curta distância de Satou, ela vinha sendo empurrada por estar sendo espremida pelos passageiros.

Isso não é bom, isso é ruim. Se causarmos algum mal-entendido, tô lascado

Para um Oji-san, um falso caso de assédio sexual é o equivalente a uma sentença de morte. A menos que consiga fugir com sucesso, sua vida social morre, e mesmo que consiga fugir, se for procurado na linha que costuma usar no dia a dia, ele morre.

Engolindo o sentimento de incômodo, ele toma o máximo de distância possível da mulher. Talvez porque a pressão das pessoas tenha diminuído um pouco, a mulher soltou um suspiro de alívio. Desse jeito, ele prendeu sua bolsa entre as pernas e agarrou o suporte de segurança com as duas mãos.

O ponto é levantar as mãos de modo que fiquem visíveis para os arredores. Hoje em dia, só respirar perto de uma mulher já é assédio sexual, você pode ser processado dizendo que estava cheirando ela. Somente depois de chegar a esse extremo é que um Oji-san pode se acalmar dentro de um trem.

Yare yare, que sufoco. ……É justamente em dias como esse que a cerveja é deliciosa

Enquanto segurava o suporte de segurança como um zumbi, sua mente estava focada unicamente no jantar com a família.

Ser bancado em Ginza, a Nee-san está próspera. Com a Hikari-san presente, eu acho meio estranho ir para um Beer Hall, mas enfim

Pensando bem, qual será o trabalho da Nee-san? Como ela sempre diz que faz hora extra e chega tarde todas as noites, eu tinha quase certeza de que era Omizu( É o termo guarda-chuva para a indústria do entretenimento noturno japonês. Isso inclui Hostess Clubs (onde mulheres são pagas para servir bebidas, acender cigarros e conversar/flertar com clientes), Kyabakura (cabaret clubs), Snack Bars e Host Clubs (versão focada em clientes femininas)), algum tipo de trabalho de atendimento noturno, e por isso evitava investigar a fundo.

Esta noite, se tivermos tempo para conversar enquanto bebemos, será uma boa oportunidade; talvez seja uma boa ideia dar um passo além e perguntar. Sendo a minha própria Nee-san, eu confio nela, mas ainda assim me preocupo um pouco.

Parece que vou poder beber tranquilamente depois de muito tempo. ……Vou de King Size, com certeza vou beber……!

Só de imaginar, já começo a salivar. Como trabalho amanhã também, não poderei beber até cair, mas a minha humanidade, desgastada pelos dias de trabalho Black, morrerá se eu não a recuperar em ocasiões como esta.

No ar quente e úmido, em meio ao desconforto de ser espremido pelas pessoas, uma cerveja estupidamente gelada é a minha única salvação. Diante da ilusão de umedecer a garganta, meu rosto relaxou sem que eu percebesse, e ao engolir a saliva, minha garganta fez um barulho alto.

……Você! É flagrante, você sabe, não é? Desça na próxima estação!

Hã?

Tendo o ombro tocado de repente, Satou virou-se naquela direção.

No meio da multidão, um homem apontava a câmera de um celular para Satou. Um sujeito que parecia o típico jovem de boa índole, sem gravata, aderindo ao Cool Biz(Cool Biz: Uma campanha do governo japonês para que os trabalhadores (salarymen) deixem de usar terno completo e gravata no verão rigoroso, vestindo roupas mais leves e confortáveis no escritório.) . Com um penteado que passava uma sensação de limpeza e sendo alto, a impressão que dava era a de que se poderia chamá-lo de um Ikemen. (Ikemen (イケメン): Gíria muito comum para um cara “boa pinta”, “galã” ou “bonitão”.)

E, no Smartphone que o homem erguia ——.

Fazendo essa cara de pervertido... Eu vi, no momento em que você estava pressionando a virilha num lugar onde não dá para ver!

……Não, isso, é que eu estava apenas pensando em cerveja

O sorriso relaxado ao imaginar uma cerveja geladinha no meio daquele calor úmido estava refletido na tela junto com as costas da passageira de estilo OL, e certamente, olhando apenas para a imagem, até poderia parecer que ele estava no meio de um ato obsceno…… mas.

Como pode ver, estou segurando o suporte de segurança com as duas mãos. Não tem como eu tocar

Muitos dos assédios sexuais recentes não usam as mãos e pressionam a virilha contra as mulheres. Não é verdade?

Mesmo que me peça concordância, eu não sei disso. Só posso dizer que essa acusação não tem o menor fundamento

A intenção do homem era desconhecida. Porém, a voz exageradamente alta parecia teatral, como se ele estivesse anunciando com exagero a situação atual para os passageiros dentro do trem.

……Com licença

Uma voz gentil soou de repente.

Uma mulher esbelta erguendo a mão timidamente. Era a mulher de estilo OL que também aparecia na foto daquela falsa acusação de agora há pouco. Em meio ao traje mais discreto, um colar de destaque e óculos de armação vermelha davam um toque de estilo.

O rosto que se virou para trás, se observado bem, tinha traços extremamente bonitos ——.


Eu não sofri nenhum assédio. ……É um engano

Como se quisesse abafar o apelo da mulher, o homem gritou.

Você está sendo enganada!

……Hã?

Você nem percebeu que estava sendo tocada, pobrezinha. Mas fique tranquila, eu cheguei! O aliado de todas as mulheres, com trinta e oito mil inscritos —— Mamoru-kun, o Erradicador de Tarados!

Com um ar de perplexidade, a mulher piscou várias vezes.

Um sorriso brilhante a ponto de ser suspeito, movimentos exagerados e a brancura dos dentes da frente com clareamento. Sentindo uma semelhança com o cara de porco com quem havia se desentendido esta manhã, Satou deixou os ombros caírem, exausto.

Mais um desses, é... Definitivamente, não estou com sorte

Deve ser o que chamam de Streamer do tipo “Prisão Cidadã”. A maioria atua como Meiwaku-kei Streamer[1], e para aumentar o número de visualizações simultâneas que se convertem em renda como Super Chat, tentam se destacar de todas as formas possíveis.

Se fossem só coisas pacíficas como Gameplay ou apresentação de viagens, estaria tudo bem. O problema era esse tipo de gente que fingia ser a justiça social, uma existência que atraía mais problemas do que a categoria focada em causar incômodo que podia ser denunciada diretamente.

Por enquanto, que tal me mostrar a sua identidade? Não fuja, a polícia também está do meu lado, viu?

Haa……

Apesar de dar uma resposta vaga, honestamente Satou não tinha a menor intenção de obedecer.

Para começar, era uma acusação falsa, e com que autoridade ele estava exigindo a apresentação da identidade? No ambiente agitado ao redor, em meio a Smartphones apontados sem a menor consideração e sussurros trocados às escondidas, a sensação de constrangimento só aumentava.

Não tenho motivos para obedecê-lo. Para começar, eu não fiz nada

Isso mesmo. É um engano, e esse video, você poderia apagá-lo?

Quando Satou disse isso, até mesmo a mulher que deveria ser a vítima o seguiu. Mas Mamoru-kun, o Erradicador de Tarados, encolheu os ombros bem ao estilo americano, lamentou de forma exagerada e gritou Wow!.

Você não está entendendo. Isso é pelo bem da sociedade, é para a erradicação dos assediadores Oji-san sujos, sabia?

Como se estivesse repreendendo uma criança que tem dificuldade em entender as coisas, com um olhar de superioridade.

Eu entendo que seja vergonhoso, mas é para não aumentar o número de vítimas. Pare de proteger esse criminoso vulgar, crie coragem e vamos à polícia. Está tudo bem, eu sou o seu aliado!

……!?

Sendo pressionada com tamanha intimidade, o rosto da mulher se contorceu em desconforto por um instante.

Ela parecia reservada e dócil, mas não parecia ser do tipo que se deixava enrolar facilmente. Pelo contrário, sua sensibilidade em achar suspeito um homem que enfileirava palavras bonitas coincidia com a de Satou.

Nesse caso, dá para ir. ……Parece ter mais chances do que fugir

Gatan, o interior do trem balança. Percebendo pela desaceleração do trem que estavam se aproximando da estação de parada.

……Vou me atrasar porque houve um problema』」

Você! Não mexa no Smartphone sem permissão, está planejando destruir as provas!?

Eu só enviei uma mensagem. Pode não falar tão alto?

Enviando uma mensagem para Hikari, que provavelmente estaria esperando no destino, Satou guardou o Smartphone e se virou.

Com licença, poderia me ceder um pouco do seu tempo?

Eh……? Ah, sim. Tudo bem

Seus olhos se encontraram com os da mulher que respondeu. O olhar era direto, mas talvez por não conseguir ver os detalhes, ela estreitava os olhos. Ajustando-se a ela que suspirou levemente “Nn”, Satou inclinou um pouco a postura e anunciou de forma que os arredores também pudessem ouvir.

Peço desculpas, mas poderíamos descer na próxima estação? Vamos conversar com o funcionário da estação

Zawa zawa, a sensação das pessoas ao redor prestando atenção.

Eu não cometi assédio. Ficarei grato se puder testemunhar isso

Sim. Vamos deixar as coisas claras

……Tch

Quando o acordo entre os dois foi estabelecido, um leve estalar de língua pôde ser ouvido.

Logo em seguida, os freios foram acionados com força e o trem parou. Das portas abertas, os passageiros começaram a descer, e no fluxo de pessoas que se formou, o homem que se autodenominou Mamoru-kun os seguiu como se estivesse pegando carona.

Ah, espera um pouco

Pessoal, este homem é um assediador sexual! Olhem por favor, este homem é um assediador sexual!

Gritando alto dessa maneira, o homem se misturou sorrateiramente à multidão.

……Eu até poderia correr atrás e pegá-lo, mas né

Honestamente, seria muito trabalhoso. Considerando a falta de sentido daquela conversa, mesmo que eu o pegasse e o entregasse ao funcionário da estação, provavelmente terminaria apenas com uma advertência por comportamento incômodo. E me irrita virar material para vídeos.

Por enquanto, seguindo a onda de passageiros, desci na plataforma, e a mulher me seguiu. Enquanto nós dois ficávamos parados até o fluxo de pessoas se acalmar, sussurros sorrateiros podiam ser ouvidos de todos os lados.

Aquele Ossan, disseram que é um assediador

Eeh, que nojo~. Devia morrer

Não sei direito, mas esses caras que parecem sérios são os mais pervertidos, né~

Passageiros que ouviram os gritos do Mamoru-kun, o Erradicador de Tarados, ou talvez.

……O Timing é bom demais, e as vozes estão muito altas

Esses sussurros feitos para serem ouvidos até parecem ser um apelo para as pessoas ao redor. Quando Satou olhou de lado, os três que estavam difamando erguiam seus Smartphones, se afastando enquanto gravavam vídeos.

Todos são Sakura[2]... Equipe daquele cara chamado Mamoru-kun?

Confirmando que os três desapareceram da plataforma, ele formula uma imaginação desagradável.

Se conseguissem armar uma falsa acusação de assédio sexual dentro do trem, ótimo. Se falhassem, eles incitariam, fugiriam e gravariam a reação dele após ser provocado para usar como material. Deu para ler essa estratégia covarde de duas etapas.

Preparado demais. Se fosse apenas para um canalha incômodo ganhar tempo de tela, tudo bem, mas

Infelizmente, ele tinha uma lembrança perfeita de algo que poderia atrair rancor durante a manhã de hoje.

Kinya da DOOM Pro tem conexões horizontais com grupos de Streamers. Usar um Streamer como esse autoproclamado Mamoru-kun como peão seria bem possível, e se fosse esse o caso...

Desculpe-me. …… Lhe causei problemas

Dizendo isso à mulher, ele curva a cabeça. Porque pensou que talvez fosse ele quem a tivesse envolvido nisso.

Mas a mulher balançou a cabeça de um lado para o outro, parecendo, pelo contrário, se preocupar com ele ——.

Não, eu que deveria pedir desculpas e... além disso, muito obrigada por aquilo dentro do trem

Hã? Não tenho lembrança de ter feito algo

Dentro daquele trem apertado, você não abriu espaço para mim? Graças a isso, fiquei um pouco mais confortável... e também por causa disso, eu pensei que com certeza você não era um assediador

Não, eu só não queria ser confundido com um assediador... embora tenha sido inútil

Porém, não tinha como dizer essa verdade a uma mulher que estava agradecendo.

Você parecia não estar se sentindo bem, então fiz apenas o óbvio. Pelo contrário, lhe causei problemas

Não, é sobre isso também. ……O fato de uma pessoa daquelas ter vindo arrumar confusão, talvez

Dizendo isso, a mulher segurou a haste dos óculos e retirou a armação vermelha.

……A impressão do rosto dela muda bastante

Sentiu como se os próprios olhos tivessem ficado um pouco maiores.

A atmosfera reservada que parecia de um trabalho administrativo de repente pareceu desabrochar.

O alvo pode ser eu. ……Porque tenho uma ideia do motivo de estar sendo perseguida

Que coincidência, eu também. É um ressentimento injustificado, porém

Um olhar digno. Enquanto desviava o olhar como se para aparar aquele brilho intenso, Satou respondeu.

Provavelmente, tirar os óculos foi um ato que exigiu certa determinação por parte dela. Surpresa com tamanha frieza e falta de interesse de Satou, ela o encarou fixamente.

Eh? ……O qu, você não me conhece?

Nem um pouco. Pode ser que você seja uma celebridade ou tenha alguma circunstância do tipo, mas……

Para a mulher que piscava, Satou murmurou com o rosto cansado.

Para ser sincero, sou ignorante nessas áreas. A única coisa que sei é que você é uma mulher sincera

Se quisesse evitar problemas, ela poderia simplesmente ter fugido deixando Satou para trás.

No problema de Satou com o Mamoru-kun, o Erradicador de Tarados, ela foi praticamente arrastada para o meio da confusão. Apesar disso —— se a avaliação de Satou de que ela era uma celebridade ou algo do tipo estivesse correta, ela o ajudou mesmo sabendo que estaria se aprofundando em um problema.

Exatamente por entender essa sinceridade —— não tenho vontade de saber a verdadeira identidade dela, nem coisas do tipo, e nem pretendo investigar. Mais do que curiosidade, era por acreditar que devia manter a coerência.

Porque um comercial que não cumpre promessas é pior que lixo

Não tenho orgulho do meu trabalho ou algo assim. Sou apenas um Salaryman que sofre com o trabalho Black. Mas não me lembro de ter desgastado a minha humanidade a ponto de não conseguir manter a coerência e cumprir com as minhas obrigações.

……Você também. É uma pessoa muito…… direta, não é?

Kusuri, a mulher solta um leve sorriso.

Como no momento em que pessoas que quase se esbarram desajeitadamente cedem o caminho uma à outra, e sentem uma certa proximidade.

Não sou nada de tão alto nível assim. Sou um homem comum, que você encontra em qualquer lugar

Será mesmo? Então…… digamos que eu também seja uma OL comum, que se encontra em qualquer lugar

Era um sorriso radiante. Acostumada a ser observada, um comportamento encantador estava naturalmente enraizado nela. Porém, Satou não desfaz sua expressão plana, como se dissesse que não se importa.

Sendo assim, na verdade, tenho um compromisso. Como parece que vou me atrasar, com licença

Acho que será mais rápido esperar o próximo trem. Usar táxi também sairia caro

……É verdade, mas me sinto constrangido de esperar o trem ao lado da pessoa a quem causei uma experiência desagradável

Não se preocupe com isso. Faltam apenas alguns minutos até o próximo chegar……

Como se quisesse insinuar algo, a mulher tirou o Smartphone da bolsa.

Uma capa de Design chique e elegante. É um produto original de uma fabricante de Smartphones de luxo que Satou também conhecia. O preço era nada menos que um mínimo de 500 mil ienes, e contava com resistência a água, poeira e impactos, sendo um produto aplicado com tecnologia da Dungeon ——.

 

Seria um problema se houvesse alguma confusão de agora em diante. Que tal…… trocarmos contatos?

 

O Smartphone da mulher, o papel de parede da tela inicial era a figura de uma mulher fazendo pose, que parecia ser uma Labyrinth Streamer.

Algo familiar —— que enroscava num canto da memória. Mas, sem que Satou percebesse o seu significado.

……Trocar contatos com uma mulher que acabei de conhecer por acaso? I-Isso é tenso…… É algum tipo de armadilha?

No fundo, ele odiava muito a ideia. Aproximar-se tanto logo no primeiro encontro não é normal.

Satou queria ser cauteloso, se possível, gostaria de começar como Meru-tomo[3], por três anos e ir se acostumando aos poucos.

Mas, considerando a possibilidade de sofrer uma falsa acusação de assédio sexual, eu deveria trocar aqui……

O medo de uma falsa acusação de assédio sexual venceu a cautela de um introvertido. Seria bom se não houvesse nada por trás do incidente de agora a pouco, mas se fosse um assédio daquele cara com rosto de porco cozido da DOOM, havia o risco de que ainda continuasse.

 

……Entendido. Então, vamos trocar…… como é que se faz isso, hein?

Er, eu também não sou muito boa com Smartphones, mas…… acho que é a partir da tela de configurações

 

Em meio ao vento de verão da capital, abafado e com cheiro de mofo, soprando lentamente.

O desajeitado Oji-san e a mulher que parecia comum e reservada, conversaram por um breve momento.


 

O Oji-san, a Sobrinha e o Beer Hall (Menores de idade bebem Non-Alcohol)

 

Noite do mesmo dia — Em frente a um certo Beer Hall

Satou Keita

Dizem que o Ginza Leon é um Beer Hall tradicional que existe desde a era Meiji.

A fachada de tijolos vermelhos exala tradição, mas também tem um calor de parque temático, sendo um lugar famoso onde não só adultos, mas também crianças podem desfrutar da tradicional comida alemã e de Soft Drinks.

Em uma loja de conveniência muito próxima à entrada, havia uma colegial sozinha com cara de quem estava esperando alguém. Satou Keita chamou a pessoa que havia escolhido uma revista aleatória da prateleira e a folheava para passar o tempo.

Desculpe, me atrasei. Tive um pequeno problema

Ah, Oji-sa~n! Finalmente chegou, aconteceu alguma coisa?

Se eu for contar, a história vai ficar um pouco longa

Diante da sobrinha colegial com quem havia marcado de se encontrar, Amahara Hikari, Satou deixou os ombros caírem levemente.

Após trocarem contatos, repensando que seria melhor relatar ao funcionário da estação por precaução, os dois foram à sala dos funcionários, explicaram a situação e relataram a realidade de serem vítimas de falsas acusações por parte de Streamers mal-intencionados.

……A reação deles foi tipo "Aquele cara de novo, é?". Parece que ele já causou incidentes semelhantes várias vezes

Uwa, que nojo!? Foi um grande desastre, hein, Oji-san……

Exatamente. ……Dá desgosto viver num mundo onde não se pode nem andar de trem em paz

Diante de Hikari, que mudou de expressão ao ver que o conteúdo do problema era mais sério do que imaginava, ele levantou dois dedos onde ela não podia ver.

(「2……. Bom, espero que não aconteça nada, mas

O combo de fracasso comercial seguido de uma falsa acusação de assédio sexual se concretizou, e embora tivesse acabado de desabafar de manhã, seu peito já estava pesado novamente. Esse tipo de sentimento ruim, o estresse, se não for processado antes de se acumular, não acaba bem.

Por exemplo, família e parentes. ……Eu não quero fazer o tipo de coisa de descontar na pessoa mais próxima

Como ferir um familiar que não revida nem contesta, como se estivesse testando seu amor, apenas para aliviar a própria frustração.

Para não se tornar um homem tão covarde, Satou faz questão de aliviar o estresse imediatamente assim que julga estar cansado ou estressado. Frequentar a Dungeon e bater em monstros sem parar é o meio para isso.

Diferente dos aventureiros comuns ou Streamers, o objetivo dele não são moedas de ouro, tesouros ou viralizar. Talvez seja por isso que, embora pensasse que deveria fazer isso algum dia, continuou evitando o registro de aventureiro por todo esse tempo ——.

Não, é que também é só trabalhoso mesmo

Assim como um homem de meia-idade que evita um check-up médico por não querer ser diagnosticado com uma doença quando não sente dor alguma.

A propósito, e a Nee-san?

Ele olhou levemente ao redor da loja de conveniência, mas não havia sinal da sua Nee-san, Amahara Akari.

Sendo alta para uma mulher e dona de uma juventude e beleza que não a fazem parecer ter passado dos quarenta anos de forma alguma, ela se destaca muito. Se estivesse por ali, seria impossível não notar, então ele pensou que ela estivesse no banheiro ou algo do tipo, mas.

E-Ehh~. A mamãe, sabe~, trabalho!

Com um sobressalto evidente, Hikari desviou o olhar de forma inquieta.

Mas ela me deixou o dinheiro. Hoje me deixe pagar a conta para recompensar o Oji-san!?

……Mesmo ela sendo tão ocupada, não precisava se preocupar tanto assim

Ele sentiu que algo estava um pouco estranho. O nome científico da sua irmã é Gorilla gorilla gorilla. Ela é quase um gorila, sendo apenas fachada como o recente Kani Kama de boa qualidade, sendo mais próxima de um gorila do que de um Homo sapiens.

Apesar de ter uma boa aparência exterior, ela não tem reservas com o irmão mais novo e muitas vezes toma atitudes de quem tem músculos no lugar do cérebro. Receber algo pago por uma irmã assim, e ainda por cima delegar a situação à filha sem estar presente, não lhe trazia nada além de um sentimento de desconforto.

É raro aquela Nee-san perder a chance de ficar agradavelmente bêbada. Aconteceu alguma coisa?

Não tem, não tem, não tem, tem sim ……Ou melhor, é uma recompensa minha para o Oji-san

Hã? Agora mesmo, o que foi que……

Não, eu não disse nada! A mamãe tá trabalhando. Parece que tá super ocupada, viu?

Ao ouvir isso, ele foi forçado a se dar por satisfeito, o que pode ser a natureza de um escravo corporativo, mas...

Satou inclinou a cabeça e verbalizou uma dúvida que já nutria há algum tempo.

Eu já me perguntava sobre isso antes, mas com que a Nee-san trabalha?

Eu também não sei direito. Artesã de Handmade, ou algo assim que ela disse

Artesã? ……Pensando bem, ela tem mãos muito habilidosas

​Na época de estudante, quando ainda moravam juntos na casa dos pais, ela era assim. Usando a antiga máquina de costura que havia em casa, ela era boa em consertar botões, arrumar desfiados nos uniformes e fazer pequenos objetos como bolsas ou estojos a pedido.

Costura e fazer coisinhas, ela era boa nisso, né. ……Antigamente, ela até vendia num mercado de pulgas

Hoje em dia é aplicativo de Flea Market ou leilão, Oji-san

Ah. ……Como sou ignorante nessas coisas, não faço a menor ideia

​Ela transformou um hobby em trabalho, seria algo assim?

Mas eu não sei se itens feitos à mão por uma ex-dona de casa renderiam tanto dinheiro assim.

Será que ela é autônoma? Um negócio individual, ou será que ela fornece para alguma loja?

Ah, eu não sei sobre isso. Ela também não me conta

……Um segredo até para o irmão mais novo e para a filha, é?

​O que diabos você está fazendo, Nee-san. Será que afinal é algum trabalho noturno?

Não que eu tenha algum preconceito contra a profissão, se ela faz porque gosta, tudo bem.

Se estivesse com problemas, poderia simplesmente contar comigo. ……É porque ela hesita de um jeito estranho, né, a Nee-san também.

Coisas que não importam…… como o sorvete que sobrou na geladeira ou pedir para deixar sobrar um pedaço de frango frito da janta, essas coisas que não importam ela exige numa boa. Mas coisas que podem virar um problema sério ou casos de família relacionados a dinheiro, ela guarda só pra si. Quando a família descobre, já é tarde demais e tudo acabou, é sempre assim

Desta vez, talvez eu devesse perguntar direito. ……Embora eu não queira bisbilhotar as trevas familiares

​Apesar disso, se a minha irmã se dá ao trabalho de não dizer nada, deve ser porque não quer falar…… é o que eu acho.

Também não é certo forçá-la a confessar. Um dilema. Ele não sabia qual caminho tomar. Agarrando com força o braço de Satou, que havia paralisado num canto da loja de conveniência, Hikari o puxou.

Bom, bo~m, não importa! Fica comigo hoje à noite, tá, Oji-san♪

……Sim. Tudo bem

​Sendo arrastado como se estivesse sendo enganado, ele começa a andar com um sorriso amargo.

Enquanto o funcionário do caixa com sotaque de estrangeiro se despedia com um “Arigatou gozaima~su”, tio e sobrinha caminharam lado a lado em direção ao Beer Hall.

 

 

Bem-vindos. Gostariam de pedir as bebidas primeiro?

Chope, o King Size e…… O que você vai querer, Hikari-san?

Ah, chá oolong. Oji-san, o que vamos pedir de comida?

Deixe-me ver…… Eu queria o Carpaccio de tomate e o ensopado de miúdos

Eu vou deee…… Salada de caranguejo? O que é Eisbein, é tipo um Salad Chicken?

Acho que é algo parecido com ensopado de pé de porco, provavelmente. Se quer um petisco saudável, tem coisas como o refogado picante de Konnyaku[4], acho que isso seria mais fácil de comer

Ah, esse, esse, que delícia~! E um prato de salsichas sortidas e Steak Pilaf!

Entendido. Por favor, aguardem um momento

​O funcionário se retira com um atendimento educado, e sem demorar nem alguns minutos, as bebidas chegam.

Dentro do estabelecimento amplo, calmo e de estilo antigo, havia menos clientes do que ele imaginava, e uma sensação refrescante de espaço aberto. Satou e Hikari, que ocuparam um canto do lugar, ergueram suas bebidas e brindaram assim que terminaram de fazer os pedidos.

Sim, Oji-san. Kampaa~~~i♪

Obrigado. Esse luxo, mesmo não sendo aniversário, até me deixa um pouco retraído

Não tem problema, não. O Oji-san se esforça todos os dias. Bom trabalho, isso é só um pequeno agradecimento, tá?

Hikari-san……

​Eu sei que sou fácil de agradar, mas um Oji-san comum tem o dobro de fraqueza à combinação de gratidão diária e palavras gentis.

E, ainda por cima, se isso for dito pela boca da família que ele ama, o efeito é extraordinário e o poder é quadruplicado. Emocionando-se profundamente com as palavras de apreço da sobrinha, ele encosta os lábios na caneca tão gelada que chega a ter uma fina camada de gelo.

……Nn, nn, nn…… Puha~~~~!!

Oji-san, tá gostoso?

Sim. ……Fazia tempo que eu não bebia fora, mas está muito

​Será que a forma de servir é boa? A espuma incrivelmente fina e macia como creme é irresistível. A cerveja gelada desce suavemente pela garganta, combinando muito bem com os petiscos que começaram a chegar.

A salada de caranguejo, me permite pegar um pouco?

Eles trouxeram pratinhos individuais, então vamos dividir. Oji-san, você gosta bastante de vegetais, né?

Se eu não tentar ingeri-los conscientemente, acabo passando mal de repente

​O equilíbrio nutricional é importante. Por exemplo, ao comer frituras, se não intercalar com repolho cru, no dia seguinte o estômago pesa bastante; da mesma forma, se não comer vegetais de forma consistente entre a cerveja e os acompanhamentos, as consequências depois são difíceis.

Não que ele sinta o corpo fraco —— pelo contrário, Satou tem um corpo tão saudável que até pensa se não estaria no seu auge agora, mesmo passando dos quarenta, mas ainda assim se cuida o suficiente para manter essas regras pessoais.

Não é bem um agradecimento, mas sirva-se do tomate e do ensopado de miúdos também. É muito bom

Por que será, né? Quando a gente faz tomate gelado em casa fica com cara de ‘é só isso?'……

Comendo fora fica estranhamente gostoso, ou melhor, dá uma sensação de banquete, não é? ……Eu entendo

​Tomate fatiado fino regado com azeite. Tem frescor, mas é suculento e delicioso. Após desfrutar do casamento entre os petiscos e a cerveja por um tempo, secando metade da caneca.

Pensando bem, faz tempo que não converso com calma com a Hikari-san, né

​Havia o fato de que fazia pouco tempo desde que a irmã e a sobrinha haviam voltado para a casa dos pais, e pelo fato de Satou estar sempre trabalhando excessivamente, não tinha muito tempo livre, então as chances de conversarem cara a cara assim eram raras.

Como está a vida escolar? Está indo bem?

Uwa, uma pergunta bem a cara do Oji-san~. Dá pra sentir que te deixei sem assunto, né

Acho que é indelicado da minha parte, mas eu me preocupo

​Para Satou, que perguntava de forma séria e direta, Hikari deu um sorriso nihihi♪.

Perfeito! Fiz amigos e encontrei o que quero fazer. Sinto que todos os dias são plenos, sabe?

​Para aquele sorriso inocente que não demonstrava nenhum sinal de estar forçando ou mentindo, Satou devolve um sorriso.

Que bom, fico aliviado

Bom, tem umas coisinhas que me incomodam, maas…… acho que isso é problema meu

Isso soa inquietante. Se tiver algum problema, por favor, me consulte

Ehh~? Não, a causa é o Oji-san, ou melhor, como eu posso dizer……

​Se Hikari colocasse em palavras os sentimentos que escondia enquanto murmurava.

Criei um canal de Stream do Oji-san em segredo e viralizou pra caramba! ……ou algo do tipo

​Como esperado, ela não podia dizer, de jeito nenhum. Ela tinha certeza de que seria perdoada se fosse descoberta, pois o amor de Satou pelos seus parentes e família era profundo e derramado incessantemente.

Mesmo assim, uma coisa é uma coisa; a verdade é que ela temia o que ele pensaria intimamente se descobrisse.

……As garotas passam por muita coisa. Você entende, né?

Eu não entendo de jeito nenhum, mas se eu não disser que entendo, vou ser criticado por questões de Compliance, né

Pode parar de falar assumindo que até papo de família vai vazar na net?

Eu confio em você, mas virou um hábito meu agir imaginando o pior cenário

​O modo de pensar de Satou é um pouco diferente de mero pessimismo.

Quando se deixa cair um pão com manteiga, a probabilidade de o lado com a manteiga cair virado para baixo é de 50%. Mesmo assim, Satou pensa que a manteiga vai cair virada para baixo 100% das vezes e toma medidas antes mesmo de passar a manteiga.

Não há espaço para emoções nisso. Ele toma precauções antes de lamentar que a manteiga caiu para baixo. As medidas contra problemas em si criam uma margem mental, o que leva à confiança e à estabilidade emocional.

Bem, não é como se fosse algo para se gabar

​Isso é apenas o estilo do Satou. Todas as pessoas têm uma resposta para a vida, mas se ela é correta, só a própria pessoa pode julgar. Ele apenas acredita que, para ele, está bom assim, e não hesita.

Ué? Oji-san, seu Smartphone tá tocando?

É verdade. ……Parece ser da Buchou, com licença um instante

​Uma leve vibração vinda do bolso interno do terno. Após o som de chamada abafado tocar umas três vezes, ele atende a ligação.

Está fora do horário de expediente, e eu gostaria de fingir que não percebi, mas

​Falar de trabalho fora do horário de expediente é um saco. Escondendo esse sentimento, ele falou com uma voz burocrática.

É o Satou

Desculpe a hora. Vou perguntar direto ao ponto —— Satou, você cometeu um assédio?

Hã?

​Com essa bola curva inesperada, ele foi pego de surpresa por um instante.

Como se para quebrar o silêncio de cerca de um segundo, a notificação de recebimento do aplicativo de mensagens chega ao Smartphone. Ao abri-la enquanto mantinha a ligação, a imagem de uma captura de tela de rede social foi exibida.

Você está sendo exposto por um Streamer que prega a erradicação de assediadores—— o Mamoru-kun, o Erradicador de Tarados ch》』

​A conta Revista de Informações de Aventura Empolgante Advestance Oficial gerenciada pelo departamento editorial da Editora Bouken. Não sei o que há de empolgante, e não sei quantas vezes já fomos criticados por o som da palavra ser antiquado demais.

Uma resposta que se estendeu daquela postagem mais recente.

……Certamente houve um problema desses, mas foi há apenas uma hora

A preparação foi rápida demais. Sinceramente, o vídeo que fizeram Upload como prova é bem fraco

​A postagem da conta oficial da Advestance foi feita há cerca de vinte minutos. Era o aviso do artigo Web de sempre, resumindo levemente as informações ouvidas de aventureiros com quem têm contato.

 

Últimas Informações da Dungeon de Shinjuku Vem DLC por aí!? Mudança no MAP, recompensa pela descoberta de um novo portal de teletransporte~

 

​→◎ Mamoru-kun, o Erradicador de Tarados ch

 Respondendo a: @Adobesutance_com

 Urgente! Comercial S da Editora Bouken é exposto como assediador no trem e sofre um grande cancelamento~

Ao tocar na postagem, um vídeo(Sho) curto(rt) é reproduzido. São apenas quinze segundos, e os olhos estão borrados, mas por cima do ombro de uma pessoa que parece ser mulher no trem lotado, a boca relaxada e a silhueta balançando estão refletidas.

Isso que é tirar totalmente de contexto, não é?

Pois é. Parece que eles se esforçaram na edição, mas é forçado

​Até que poderia parecer algo do tipo, mas os movimentos inquietos estão claramente sincronizados com o balanço do trem, e há marcas de que as duas mãos de Satou erguidas no canto da tela foram apagadas de forma descarada.

Dependendo de como se olha, bom, não deixa de parecer um desgraçado cometendo assédio no trem lotado. Se você processar, parece que ganha

Por isso mesmo, eu imagino, que eles esconderam o nome real pela metade

​Foi exatamente por saberem que o valor como prova é escasso que eles devem ter parado nesse limite.

Porém, apenas com uma olhada rápida, logo lhe ocorreu o próximo ponto a ser questionado, e Satou franziu as sobrancelhas.

Eu não me lembro de ter revelado a minha identidade para esse tal de Mamoru-kun, mas como será que ele descobriu que eu sou funcionário da Editora Bouken? A não ser que seja algum tipo de poder sobrenatural ou Skill, só posso pensar que ele já sabia desde o começo

Provavelmente. Ou melhor, uma vez que especificaram até o departamento comercial, não há outra possibilidade

​A voz da Buchou(Buchou (部長): Cargo que significa “Gerente/Diretor de Departamento” ou “Chefe”. Manter os cargos em japonês ajuda a preservar a hierarquia corporativa que é muito forte na cultura deles.) soava cansada. Ela parecia bastante exausta, e Satou não pôde evitar de sentir simpatia. O lugar onde trabalham é um barco de lama prestes a afundar por falência, então é natural reagir assim ao receber um problema tão inútil.

Bom trabalho. Desculpe, parece que fui vítima de uma armação por uns sujeitos estranhos

Desta vez, o Satou é a vítima... então tudo bem. O problema é que a Ukai está possessa da vida

Por favor, acalme-a, ou melhor, mesmo que ela fique furiosa, não há nada que ela possa fazer

As mensagens furiosas dela não param desde agora a pouco. Se eu deixar pra lá, parece que ela vai dar um Totsu(Totsu ( / 突撃): É uma gíria da internet japonesa (abreviação de Totsugeki, que significa “ataque/carga”). Na internet, “dar um Totsu” significa ir tirar satisfação diretamente, invadir a live de alguém, mandar mensagens de ódio ou ir confrontar a pessoa pessoalmente ou em seus perfis. A Ukai estava tão furiosa com a mentira que queria ir brigar com o Mamoru-kun online) no tal do Mamoru-kun, então estou pedindo para ela se controlar, mas meu Smartphone não para de tocar. Honestamente, dá medo

……Muito obrigado. Amanhã eu pago um almoço para você

Apenas nisso, era claramente uma dívida. Satou, que normalmente odeia ser pressionado com força, desta vez se sentia mal. É gratificante que a sua Kouhai esteja furiosa por ele, mas uma indignação pela metade é apenas um incômodo.

Proteger alguém de dentro em um caso de cancelamento é só jogar lenha na fogueira. O quão grande está o alvoroço?

Verifique você mesmo. Por que não cria pelo menos uma conta de rede social, nem que seja uma conta trancada só para visualizar?

Não tenho nada a dizer a ponto de querer gritar no centro do mundo

​Fazer conta em rede social sem gerar nenhuma recompensa era absolutamente detestável. Para um comercial com pouca sociabilidade, falar com estranhos exigia reunir uma coragem do tipo “Eiya!”. Como consumia MP, ele não queria fazer isso.

E então, no fim das contas, de que tipo de sujeito você comprou rancor? Não acho que você realmente cometeria um assédio

Acredita em mim?

O seu apego em proteger a si mesmo deve ser mais forte do que o seu desejo sexual. Não tem como você fazer algo de alto risco como um assédio

Como esperado, Buchou, você me entende perfeitamente

​Não era tão longo, mas desde que ela assumiu como chefe mais jovem, já tinham um bom tempo de convivência. Sendo capaz de entender a personalidade de Satou, ela mantinha um ar tranquilo, preservando a calma apesar do senso de urgência.

Na verdade――

​Baixando a voz, ele começa a falar de modo que não chegue aos ouvidos de Hikari, que estava na mesma mesa.

Apesar disso, não havia muito o que falar. O compromisso de jantar com a família, ter se despedido de Ukai e entrado no trem, e ter sido abordado quase imediatamente. E o fato de que havia vários comparsas, pessoas que pareciam ser Staff, misturadas ali.

Para um mero Streamer minúsculo procurando material para render visualizações, foi meticuloso demais

Sim. É uma suposição, mas dá a impressão de que foi um alvo pré-determinado

​Ele e Ukai haviam saído da empresa ao mesmo tempo. Escolheram um dos dois que andavam lado a lado para armar a arapuca.

Se for assim, recentemente, só havia uma pessoa que vinha à mente para esse tipo de coisa ――.

O responsável da DOOM que propôs o Teste do Sofá, Kinya... É obra desse cara?

Não tenho outra suspeita em mente

​Giri, pôde-se ouvir o som da Buchou rangendo os dentes do fundo. A sensação de estar se segurando no limite para não estourar de raiva era transmitida através do telefone.

A maior empresa da indústria propôs um convite de teste do sofá e, no fim das contas, faz assédio com o comercial que recusou!? Inacreditável. É idiota? Isso é coisa que um membro da sociedade faça?! O que eles estão pensando!

Eu também acho, mas não temos provas. Não deveríamos pensar em como responder?

Isso é verdade, mas você deveria ficar mais puto. Que saco...!

Não é que eu não esteja puto, no entanto

​Não havia como ele não estar descontente.

Um jantar tão esperado com a família. Um assédio que era como jogar esse tempo divertido no esgoto. O humor estava péssimo e, claro, a raiva brotava. Mas, como um adulto, ele apenas conhecia a arte de escondê-la.

Bom, tudo bem. Amanhã, desde a manhã, vamos discutir a resposta. Não preciso nem dizer, mas não se atrase

Eu tenho o contato da mulher que foi tratada como vítima, e já expliquei a situação ao funcionário da estação. Como movimento inicial, não está tão ruim. Pelo menos não acho que serei encurralado pela história do assediador

Aqueles caras também não devem ser tão idiotas a esse ponto. Mentira, invenção, boato, não importa o que seja. Uma vez que a má reputação é criada, os idiotas da net vão morder a isca, e se queimar um pouco, o alvoroço se espalha por conta própria

​No fim das contas, era um assédio. Como falharam em armar para Satou, a tática insidiosa de tirar a sua vida social através de um linchamento virtual e encurralá-lo psicologicamente era o método implacável de caça da sociedade moderna.

Além do poder original de difusão deles ser baixo, o poder de prova do vídeo é fraco demais. Culpar você por isso seria uma história irracional, e eu odeio pra caralho lixos que propõem Teste do Sofá e idiotas que distorcem a justiça social!

Em outras palavras, posso considerar que não haverá nenhuma punição por parte da empresa?

Não me importo. Você não mostra seus verdadeiros sentimentos e sempre tem uma cara de quem não tem nada a ver com isso, o que às vezes me deixa puta de verdade, mas ainda assim é meu subordinado e um homem que não faz coisa errada. ……Eu acredito em você, Satou

​Não havia hesitação nas palavras ditas de forma decisiva, e ele sentiu como se uma brisa leve e refrescante tivesse soprado.

O linguajar dela é frequentemente rude e, na alta temporada, faz todo mundo fazer hora extra sem piedade. Às vezes dá raiva, mas ainda assim ela confia nos seus subordinados de forma apropriada e tem o espírito para tentar protegê-los.

Não consigo odiar essa pessoa, né

​Satou Keita respeitava sua chefe mais jovem, à sua própria maneira.

À noite você ia jantar com a família, não é? ――Vá se divertir. Desculpe atrapalhar, até logo

Sim. Muito obrigado, Buchou

​A ligação caiu, e ao soltar um suspiro.

―― 3……!!

Es-espera, Oji-san!? O que, o que foi!? Tô ouvindo um estrondo tipo zugogogogo, viu!?

Isso é estranho, deve ser um terremoto. Ou talvez seja só impressão sua

​No momento em que ergueu três dedos da mão direita, ouviu-se o som de uma restrição se soltando.

Gachin, a sensação de todas as engrenagens do corpo se encaixando. O terno que ele usava folgado ficou esticado até o limite pelos músculos que incharam por dentro, e junto com uma aura negra misteriosa, ele soltava um rugido que parecia um tremor de terra.

Claro, isso deveria ser imaginação de Satou. Um Salaryman não causa tremores de terra. Nem emana uma aura misteriosa. Não é porque o estresse atingiu o limite que as restrições impostas ao corpo e à mente se soltam e ele perde o controle; isso seria impossível.

Não, o Oji-san com certeza tá puto da vida, né!? Tá saindo tipo uma aura sombria de você!?

Hahaha, que piada engraçada. Não estou puto. Um responsável comercial nunca fica puto. É sempre sorriso no rosto

Sorriso é sorriso, mas com certeza é tipo um sorriso das trevas ou algo assim! Que medo!

​Satou não desfaz o sorriso. Tirando o relógio do pulso, que havia se tornado robusto como um tronco de madeira, ele ajusta a pulseira e o coloca novamente enquanto se levanta lentamente da cadeira do Beer Hall.

Aquele desgraçado... Ele realmente armou pra mim. Ele foi lá e fez isso

​Armar para mim, me assediar. Se fosse só isso, eu não ficaria tão puto.

Mas ele envolveu a empresa e a minha kouhai, jogou água suja no meu tempo de descanso com a Hikari e... com a família, arruinou o meu momento de felicidade saboreando cerveja e petiscos; a raiva já havia crescido a um nível Kazoe Yakuman(Kazoe Yakuman (数え役満): Uma referência ao Mahjong japonês (Riichi Mahjong). Yakuman é a mão mais valiosa e rara do jogo. Um Kazoe Yakuman (Yakuman Contado) ocorre quando um jogador acumula tantos pontos menores (Han) que o total ultrapassa o limite máximo e é arredondado para a pontuação absoluta mais alta possível. Ou seja, a raiva dele “quebrou o limite do contador”.) .

Se o próprio estivesse na minha frente, talvez eu o tivesse socado. Não, será que eu conseguiria me segurar? Se eu fosse socar alguém fora da Dungeon, seria apenas quando eu decidisse matá-lo.

A-Aconteceu alguma coisa, né? Parecia ser assunto de trabalho, então tentei não ouvir, mas...

Não foi nada. Nada que a Hikari-san precise se preocupar

Não, com certeza aconteceu alguma coisa... Não precisa se segurar por minha causa, Oji-san

É, mesmo? Sendo assim...

​Agradecendo a consideração da sobrinha, Satou levou a mão à caneca King Size que estava pela metade.

A cerveja que ainda restava em abundância balança. Segurando com uma mão o que ainda devia equivaler a cerca de duas canecas grandes, ele bebeu tudo de uma vez sem quase saborear.

Gokuri, gokuri, a garganta. O som do líquido passando por um pescoço tão grosso que o botão do colarinho da camisa social parecia prestes a estourar. Agora, a cara de um Salaryman comum havia sido varrida para longe, dando lugar à figura de um lutador de Pro-Wrestling aproveitando sua folga.

...Na verdade, houve um pequeno problema na empresa

​Colocando a caneca vazia na mesa e limpando a espuma dos lábios.

Parece que terei que voltar urgentemente para a empresa. É de repente, mas você consegue voltar para casa sozinha?

Claro que tudo bem, mas...

Isso me ajuda. O pagamento daqui fica com isso

​Tirando uma nota de dez mil ienes da carteira, ele a coloca junto com a comanda. Para o Oji-san que se levantou segurando a maleta, Hikari, em pânico, chamou enquanto enfiava na boca a comida que sobrou.

Es-espera aí, Oji-san!? Aqui não devia ser por conta da mamãe e minha?

É um pedido de desculpas por ter estragado a gentileza da Nee-san e sua. O troco, pode ficar de mesada

Eu já disse que não precisa, Oji-san!? Oji-saa~n!?

​Dando-lhe as costas terrivelmente largas, Satou começou a andar sem olhar para trás.

Apesar de estar apenas caminhando, parecia que uma aura misteriosa jorrava de todo o seu corpo. Diante dessa força impressionante, as pessoas ao redor abriam caminho por conta própria, deixando o Salaryman furioso passar.

 

 

……Eu já vi algo parecido. É daquele mangá antigo com clima de fim de século e punhos assassinos onde os caras gritam Hidebu[i], né

​Murmurou Hikari com uma cara de espanto, apontando o Smartphone para as costas dele que se afastavam.

Antigamente, talvez causasse um alvoroço, mas felizmente o mundo está na Era das Grandes Aventuras. Em uma sociedade onde existem habilidades e poderes anormais que parecem magia, andar por aí coberto por uma aura misteriosa não é motivo para chamarem a polícia.

Tirou uma foto das costas daquele Oji-san, pashari. Ao apertar o obturador uma vez, a tela capturou a figura traseira de um terno musculoso e robusto como uma cordilheira, demonstrando uma presença violenta.

Pronto, assim tá bom♪ Não sei o que aconteceu, mas com aquele jeito... !

​É a segunda vez que Hikari vê seu tio daquele jeito.

A primeira vez foi em casa, durante o jantar, quando viram a coletiva de imprensa com o pedido de desculpas arrogante de um Streamer que havia sofrido um grande cancelamento. E a segunda vez é agora; e se for igual àquela vez —— o destino dele é, obviamente, um certo Batting Center em Shinjuku.

 

Aviso de Guerrilha de Emergência!! Shinjuku Bat Live de rebatidas furiosas na Dungeon, começa esta noite...!?

Butamin C O quê, sério? Que sorte, vai dar pra ver ao vivo.

Madao Seria bom se dissessem o horário exato de início. Vou ter que ficar olhando pro nada até começar de novo?

Kobayashi Hajime Valeu a pena ficar de tocaia! Manda ver nas rebatidas, Shinjuku Bat!

Respostas chegam uma após a outra no aviso com a imagem das costas do Oji-san anexada, o alcance explode, e as curtidas se acumulam.

80 mil seguidores na rede social, 85 mil inscritos no canal. O canal Shinjuku Bat Ch, que teve um crescimento rápido e agora é de classe média respeitável, tem um certo número de fãs que estão sempre grudados esperando por atualizações.

A partir deles, o aviso de live surpresa Guerrilha [5] é difundido, e as pessoas vão se movendo para a tela de espera da transmissão no canal oficial. Confirmando que o número de espectadores simultâneos já estava prestes a ultrapassar mil pessoas, Hikari deu um sorriso malicioso.

 

Beleza!! —— Conto com você para render um bom conteúdo hoje à noite também, Oji-san♪

​Pegando a comanda e a nota de dinheiro juntas, ela deu um leve beijo com seus lábios adoráveis.

 

Amahara Hikari, ou melhor, a aventureira Nindou Hikari.

A mente por trás do canal Shinjuku Bat pagou a conta e desapareceu na cidade como o vento.

 




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[1] (Meiwaku-kei Streamer (迷惑系配信者): O termo significa literalmente “Streamer do tipo incômodo/perturbação”. É uma categoria real no Japão de criadores de conteúdo que ganham visualizações causando tumulto, invadindo lugares, provocando o público ou forçando situações extremas, como “prisões cidadãs” ilegais.)

[2] (Sakura (サクラ): Gíria japonesa para “cúmplices infiltrados” ou “atores pagos” que se misturam ao público (ou fingem ser clientes) para criar uma falsa impressão ou agitar a situação a favor do golpista. Aqui, Satou percebe que os passageiros fofoqueiros na verdade trabalham para o YouTuber.)

[3] (Meru-tomo (メル友): Abreviação de “Mail Tomodachi” (Amigos de E-mail/Mensagem). É um conceito antigo da época dos flip-phones de ser amigo por correspondência digital antes de se ver pessoalmente. Mostra bem o quão “Oji-san” e analógico o Satou é.)

[4] (Um alimento tradicional japonês feito a partir de uma batata (konjac). É gelatinoso, denso, quase sem calorias e costuma ser refogado em pratos para dar textura)

[5] (Guerrilha (ゲリラ予告): Na cultura de Streamers do Japão (especialmente VTubers), uma “Stream de Guerrilha” é uma transmissão ao vivo anunciada de surpresa, poucos minutos ou horas antes de começar.)



[i] (A Referência ao Mangá: A fala da Hikari sobre “fim de século”, “punho assassino” e a palavra “Hidebu” (ひでぶ) é uma referência escancarada ao clássico mangá/anime Hokuto no Ken (Fist of the North Star). “Hidebu” é o grito famoso que os capangas emitem pouco antes de explodirem após levarem os golpes de artes marciais do protagonista Kenshiro. O Satou ficou exatamente com essa vibe intimidadora e absurdamente musculosa de repente.)






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