Capítulo 1: As Atividades de Vendas de um Oji-san Simples (Que Fracassaram)
❶
A Rotina Matinal do Saboryman
(Saboryman é aquele funcionário assalariado que dá umas
fugidinhas durante o expediente pra não fazer nada)
Ano 2025. Dentro de um certo Batting Center em Shinjuku.
“Satou Keita”
「Você
demorou.」
「Tive um contratempo. ――Aqui, a taxa de atraso.」
「Certo, valor exato. Pode deixar o taco aí.」
O
Batting Center que fica bem perto da fronteira da Dungeon de Shinjuku é
conectado a outro mundo.
Há dezoito anos, foi o lugar onde Satou despertou durante o 《Desastre
da Dungeon》,
quando os monstros transbordaram. É o lugar de suas memórias onde, tendo ido
visitar como um cliente qualquer, ele arriscou a vida para subjugar uma
infestação massiva de monstros raros sem nem entender direito o que tava
acontecendo.
(Não
que seja uma boa memória, mas...)
Não
restou nenhum vestígio daquela época. Quase todos os equipamentos foram
trocados quando o lugar reabriu, e o próprio prédio é novo. A cor da tinta
novinha em folha, que parecia tentar pintar por cima da tragédia, soava meio
falsa e vazia.
Desde a
reconstrução e reabertura, Satou vem frequentando o lugar de vez em quando.
Para liberar a frustração acumulada do estresse a que é exposto no dia a dia ――
contra a injustiça inescapável.
Normalmente, ele vem à noite. Problemas internos na empresa,
pedidos absurdos dos clientes, tretas que viralizam na internet, colega
faltando de repente por doença e o inferno da hora extra. Toda vez que ele se
vê encurralado como um salaryman comum, ele bate ponto aqui pra proteger a
própria mente.
Mas hoje, de manhã ―― havia um motivo para ele ter entrado
logo na abertura da loja, às 8h45.
(O
encontro é às 10h15...... quinze minutos antes do horário marcado com os
clientes)
A
pequena editora onde Satou trabalha, a Editora Bouken, tá muito lascada.
O fluxo de caixa piorou por causa de um monte de despesas
geradas pelo escândalo do streamer de Dungeon com quem eles tinham negócio,
além de multas por projetos cancelados e o reembolso de taxas de publicidade
que eles tinham pegado na marra. A chefe deu um aviso bem sério de que a
revista especializada em informações de Dungeon deles, a 《Advestance》
(vendida principalmente em lojas de conveniência), poderia ser suspensa,
levando a empresa à falência.
『O
único gatilho pra reverter essa situação é a DOOM Pro, a maior da indústria.』
『Hoje em dia, os streamers de Dungeon são a maior
inspiração dos jovens, a profissão dos sonhos do momento. A decisão do presidente
em si tá certa ―― mas o problema é que só a gente sai ganhando, e colaborar com
a gente não traz vantagem nenhuma pra eles.』
Logo de
manhãzinha, numa ligação direta pro celular pessoal, o chefe com voz de cansado
soltou essa.
A Editora Bouken é uma empresa com uma estrutura das
antigas. Em plena era da internet, eles ainda não conseguiram sair do modelo
corporativo tradicional, e os principais produtos são revistas e mangás
impressos, além de umas light novels que eles publicam aos trancos e barrancos.
O próprio Satou, que trabalha no departamento de vendas,
quase não lê o que a própria empresa publica, o que já mostra que o conteúdo é
bem fraco. Parece que antigamente a coisa ia bem, mas agora eles tão só sugando
as heranças do passado.
(Por
mais que se tente, isso é forçar a barra, né. Por que logo eu, que sou só um
funcionário comum, tenho que fazer isso?)
(Eu rejeitei promoção a vida toda justamente porque odeio
esse tipo de responsabilidade e continuei trabalhando de boa, só enrolando.
Fazer visita de vendas pra maior empresa da indústria sem ter nenhuma carta na
manga... é óbvio que não vou conseguir fechar negócio nenhum...)
A mando
do presidente, a Buchou se mexeu, usou todos os contatos possíveis e conseguiu
marcar a reunião de hoje.
Mas não tem nenhuma visão de que isso vá dar certo. Não tem
orçamento, não tem alcance de divulgação, não tem motivo nenhum pra fecharem
parceria. A ideia de uma editora ultrapassada se juntar com a DOOM Pro, a
número um da indústria, cheia de heróis e idols, que abriga vários aventureiros
de elite e tem uma popularidade absurda... é impossível sem usar umas palavras
feias tipo “esquema”, “nepotismo” ou “acordo por baixo dos panos”.
(Bom,
não que eu tenha coragem ou autoridade pra chegar a esse ponto, né)
É sacanagem com a Buchou, que conseguiu marcar essa reunião
na marra, mas eu também não tenho obrigação de ir tão longe.
Pro Satou, arrumar outro emprego é que é um saco; se ele
conseguisse resolver essa parte de boa, a empresa podia falir que ele nem
ligava. Ele até tem pena dos seus colegas no departamento de vendas — que só
tem três pessoas: a Buchou que é meio grossa mas é esforçada, e a Kouhai
recém-formada —, mas na pior das hipóteses, ele tem grana guardada suficiente
pra ficar um tempo de boas como NEET.
(Se
isso acontecer, eu vou dar a vida procurando emprego, claro... Ter um Oji-san
NEET não é um bom exemplo pra minha sobrinha)
Mesmo assim, querendo evitar o trampo chato de procurar
emprego se possível ―― ele deu uma passada escondida no Bassen no tempo livre
antes da reunião pra dar uma aliviada naquele estresse absurdo, mesmo achando
que a reunião ia dar em nada.
(Só não
achei que fosse pisar numa armadilha de teletransporte. Que azar)
――
Dezoito anos desde o 《Desastre da Dungeon》, quando as Dungeons apareceram no
mundo.
Toda semana o Satou entrava no labirinto a partir da cabine 『140 Lv』, onde
clientes comuns não podiam entrar. Durante esse tempo, rolaram várias DLCs e
mudanças ambientais na Dungeon, e toda vez ele se metia em algum problema
chato, tipo ser jogado pra uma Dungeon diferente ou ter que decorar a rota toda
de novo do zero.
「Valeu
aê.」
Ele pagou a taxa de atraso e saiu do Bassen ao som da
resposta desleixada do dono.
Um
cheiro abafado da noite passada pairava no ar. Ali, Kabukicho em Shinjuku, é o
que chamam de distrito da luz vermelha ―― depois de ter sido engolida pela
Dungeon, os jovens que querem ser aventureiros se reúnem ali toda noite,
torrando a grana que ganham em batalhas de vida ou morte pra curtir adoidado.
As noites em Kabukicho ficaram ainda mais chamativas, extremas e caóticas do
que antes do desastre.
「......Essa
cidade ficou fedorenta, né.」
Tá com
um cheiro podre no geral. Principalmente de manhãzinha até o meio da manhã,
quando o silêncio e o frescor somem e aquele calor abafado volta, um cheiro
sufocante sobe dos bueiros, do lixo nos becos ou dos “presentinhos” deixados
pelos bêbados.
Aquele jovem dormindo enrolado num casaco qualquer na escada
ou debaixo da marquise de um prédio deve ser um dos “Shinjuku Kids”, vivendo um
dia de cada vez ganhando uns trocados como aventureiro. Comparado com a
Shinjuku de antigamente que o Satou conhecia, antes do Desastre do Labirinto, o
caos e a sujeira profunda pareciam estar se espalhando aos poucos da Dungeon,
engolindo tudo ao redor.
Se
misturando a essa paisagem da cidade, um salaryman caminhava apressado.
Estatura média, porte físico médio, vestindo um terno barato
de um jeito meio largado. Parece ser um número maior que o dele, dando uma
impressão de que não cai muito bem no corpo, mas ele não parece nem ligar pra
isso.
Uma pasta de vendas pesadona, cheia de materiais de
apresentação e publicações da empresa pra usar de amostra. Bem no fundo tem um
e-reader escondido pra ele usar na hora de dar aquela enrolada no expediente, mas
a cara dele de funcionário público burocrata não deixa transparecer isso nem um
pouco.
Satou
bateu o olho no relógio de pulso, calculando rapidamente a distância até o
destino e o horário do compromisso.
(Nesse ritmo, vai dar tempo. Chegar atrasado com o cliente
não ia ter graça nenhuma)
Ele vai se encontrar com a colega de trabalho, Ukai Madoka,
e depois eles têm uma reunião com os representantes do cliente.
(Acho
que até daria pra dar um jeito... Se eu jogasse o orgulho pro alto, claro)
Pensando de forma normal é um projeto absolutamente
impossível, mas o Satou tem um trunfo na mão pra virar o jogo.
Nas idas ao Bassen pra aliviar o estresse, outro dia ele
teve a chance de conhecer a Suiren, a galinha dos ovos de ouro da DOOM Pro.
Como ele fez uns favores pra ela depois disso, se ele tocar nesse assunto...
(Eu até
conseguiria fechar o negócio. ......Mas eu não quero fazer isso de jeito
nenhum)
Se ele tentasse uma palhaçada dessas, a Buchou ia investigar a vida dele até o talo.
É óbvio, se um milagre acontecesse e o impossível virasse
possível, ela mesma ia fuxicar cada detalhe do motivo da vitória. Se isso
rolar, vão descobrir que ele frequenta a Dungeon, vão descobrir que ele meteu a
porrada nos streamers de labirinto que a gente falou antes, e na pior das
hipóteses, é rua.
O Satou
não é tão ingênuo a ponto de achar que, só porque a empresa tá em crise de
falência ou é uma emergência, vão perdoar tudo passando por cima das regras.
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, com certeza ele seria punido.
(E
outra... Misturar vida pessoal com trabalho é uma tremenda Death Flag)
Não existe almoço grátis nesse mundo. Ele já conseguia ver
aquele cenário corporativo tóxico padrão da Era Showa, onde essa troca de
favores ia acabar virando um rabo preso gigante e ele ia afundar até o pescoço
em problemas. O Oji-san simples e atualizado da Era Reiwa é esperto.
Até o
fim, ele é só um salaryman.
Por
mais fraca que seja a mão, não tem outro jeito a não ser jogar com as cartas da
empresa――.
「Aí, ossan. Tá olhando o quê?」
「Hã?」
Enquanto
andava pensando nisso, um obstáculo apareceu do nada.
No meio do caminho pro local do encontro, numa rua cheia de
bitucas de cigarro e até camisinha usada espalhada pelo chão, uns três moleques
que tavam sentados num papelão se levantaram, bloqueando o caminho do Satou.
Eles pintaram o cabelo com umas cores bem chamativas, mas
como não cuidavam direito, a raiz preta natural já tava misturada no meio. As
roupas tavam encardidas e sujas, e dava pra ver umas tatuagens inacabadas
aparecendo pelas mangas dobradas.
「Você
tava olhando pra gente agora mesmo, né, ossan. ――Tá tirando a gente pra otário?」
「Nós somos aventureiros, mané. Profissionais acima do 20
Lv, profissionais. Tá querendo se dar mal, é!?」
「Haa.」
Respondendo
com um olhar morto, Satou coçou a bochecha.
「Haa, o caralho! Tá se cagando de medo e querendo pagar de
machão, que patético.」
「Vou logo avisando que não passa polícia por aqui, tá
ligado? Deixa um trocado aí pra gente. De qualquer jeito você deve tá voltando
pra casa de manhãzinha depois de pegar umas garotas de rua. Ia ser foda se a
sua família descobrisse, né?」
「Haa......」
Diante
dos três que se aproximavam com sorrisos nojentos no rosto, Satou suspirou
fundo.
Que saco, que saco de verdade. A segurança dessa cidade
sempre foi um lixo desde antigamente, mas parece que ficou ainda pior nos
últimos anos. Hoje em dia, onde qualquer um que vira aventureiro pode subir de
nível e ficar forte de forma instantânea, tá cheio de caras que se deixam levar
pelo poder e partem pra crimes fáceis e violência.
「Aí,
não fica moscando, passa a carteira――......」
「Tenho um compromisso. Com licença.」
A mão
do aventureiro trombadinha se esticou.
A mão que ia agarrar o colarinho do Satou foi desviada
suavemente, e um vento passou pela lateral do cara que acabou caindo pra frente
pelo próprio impulso.
「......Hã?
Ei, aquele cara, pra onde aquele ossan foi!?」
「O-onde... ah, ali! Já tá lá longe, que cara rápido!?」
「Merda, não foge, seu velho de merda! Que tipo de truque
ele usou!?」
Katsu
katsu katsu katsu, os sapatos de couro já gastos chutavam o chão num ritmo
certinho.
Com um movimento liso feito água corrente, ele passou por
entre os trombadinhas e foi embora a passos rápidos sem nem olhar pra trás.
Quando os caras se viraram, ele já tava numa distância inalcançável, se
misturando na multidão.
Não era truque nem magia, era uma 《Técnica》 com
lógica e fundamento.
(Vocês
acham mesmo que com esse nível de velocidade de reação dá pra pegar um escravo
corporativo que corre pra se enfiar no trem lotado todo santo dia?)
O inferno do trem lotado de manhã. Esses moleques que nunca
trabalharam na vida nem fazem ideia do que é a taxa de lotação assassina de um
vagão. Pra um salaryman, que já não tem tempo pra se estressar com esses
inúteis, uma abordagem dessa não significa nada.
(A
técnica suprema corporativa: ――”O Passo do Commute”)
Usando a técnica de ultra-alta velocidade e ultra-evasão que
ele usa todo dia pra furar a multidão assassina indo pro trabalho, o homem se
livrou facilmente dos trombadinhas e sumiu num piscar de olhos no meio da
multidão na frente da Dungeon.
*
Em algum lugar perto da Estação de Shinjuku.
“Ninja Hikari”
「Qual é
a daquele ossan, não tô entendendo nada...! Que merda, vocês são muito lixos!」
「Você também deixou ele escapar, é lixo igual a gente!」
「Fazer o quê, vamo extorquir outro ossan... ué!?」
Um dos trombadinhas
que deixou o Satou escapar tropeçou do nada e caiu de cara no chão.
Um barulho molhado de bichari ecoou, e a água suja que tava
parada na rua espirrou, sujando legal a roupa dos três.
「Puha, q-que
nojo!? Que porra cê tá fazendo, seu merda!」
「Foi sem querer, eu juro que tropecei em alguma coisa!」
「Mentira do caralho! Você não tem porra nenhuma pra
tropeçar aqui, porra! Cê tá com o dinheiro da lavanderia, né, aah!?」
Levando um banho de água suja, os
trombadinhas putos da vida agarravam o colarinho uns dos outros. No meio desse
clima tenso a ponto de explodir, uma presença sem forma que saía de fininho do
local ―― a garota que apagou qualquer rastro com uma Rare Skill de topo da
humanidade, 《Stealth SSS》, se escondeu nas sombras e abriu o celular de boa.
「Fufufu. Eu vou protegeeerr o Oji-san!
Não vou deixar esses caras arranjarem treta com ele!」
『Mas fazer só isso dando rasteira não é meio fraco?』
「Dar porrada neles ou machucar os caras seria meio demais.
Tá bom assim, só de sacanagem」
A rastreadora
invisível, um ser humano invisível correndo pela cidade moderna, abriu a boca
pra falar com a melhor amiga do outro lado da linha, confirmando a localização
do GPS pelo celular, e deu um sorriso vendo que o amado Oji-san tava quase
chegando no local do encontro.
『Isso
aí tá de boa, mas e a escola, como você vai fazer? Você matar a primeira aula
já é certeza, se você não falar nada, acho que vão ligar pros responsáveis. Se
isso acontecer, vai dar ruim, né?』
「Ugh... P-pois é! Foi mal, me encobre aí por favor, eu já
tô indo!」
Um
uniforme escolar comum de colégio metropolitano. Uma garota do ensino médio com
uma vibe meio de diabinha, Amahara Hikari ――.
Conhecida nas transmissões de Dungeon como 《Ninja
Hikari》,
ela é a sobrinha de Satou e uma aventureira amadora.
Por causa de problemas familiares, ela mora
na casa do Satou. Quando ela decidiu seguir o tio suspeito que saía toda noite
sem falar pra onde ia, acabou descobrindo a verdadeira identidade dele, e desde
então o segredinho dela começou.
「Foi mal, Oji-san, eu já tô indo! Você
foi incríível hoje de novo...... chu♪」
Mandando um beijinho de despedida pro GPS com muito apego,
ela fechou o app e correu pra estação. Ela podia tá usando uniforme de
colegial, mas os movimentos eram os de um verdadeiro ninja, furando a multidão
perigosamente sem ser vista por ninguém.
「Opa,
não posso esquecer, vou recolher o drone. Volta, volta!」
Nin, ela fez um sinal de mão parecido com o de um ninja e
concentrou a sua vontade. O 《Olho》 sem forma que até agora seguia o Satou invisível e
apontava a câmera de todos os ângulos ―― o 《Shikigami Drone》
disfarçado como o mascote de raposinha familiar foi recolhido, e o software de
gravação parou.
『O
vídeo de hoje, você vai postar agora? Parece que não foi ao vivo』
「O que eu faço... Isso vai viralizar legal, né, vai
viralizar pra caramba, né?」
『Acho que passa fácil de 1 milhão de views. Se a gente
pesquisar, vai ver que esse atalho pro fundo da Dungeon de Tsukishima nunca foi
descoberto de verdade. Se a gente reportar pra Guilda dos Aventureiros ou
vender a informação pros Mappers...』
Do outro lado do telefone, brincando com o celular num canto
da sala de aula, tá a melhor amiga da Hikari, Ono Miyako, apelidada de Miya.
Uma colegial que manja muito de tecnologia digital e internet. Uma parceira com
quem a Hikari contou pra ajudar nas atividades de streamer de Dungeon, e que
agora trabalha junto com ela não só no próprio canal, mas também no outro
canal.
『Isso
vai movimentar muito dinheiro. Eu não recomendo soltar isso direto no 《Shinjuku
Bat ch》
do jeito que tá.』
「É, né...... Ugh, não dá pra dar uma disfarçada de algum
jeito?」
『A gente já sabe a localização da armadilha de
teletransporte que serve de atalho. Que tal a gente editar de um jeito que não
mostre como entrar nem como sair, e disfarçar dizendo que foi só um RTA da Dungeon de Tsukishima?』
『Acho que só com isso já vai viralizar o suficiente』, a
Miya continuou, parecendo meio chocada.
『O seu
Oji-san, eu já sabia, mas ele é forte demais, não...? Descer lá no fundo,
amassar o Last Boss, e vazar em apenas trinta minutos. Se os outros que pagaram
fortunas e tão há meses tentando desbravar virem isso, vão chorar de verdade.』
「Pois é, mas o Oji-san não faz a menor ideia de que é tão
forte assim, sabe. Porque ele não assiste a lives de jeito nenhum e não se
compara com as outras pessoas. Falar pra ele só vai fazer ele achar que é “mó
trampo”.」
Mesmo
observando ele de perto, a Hikari não conseguia medir a verdadeira força do
Satou.
Uma habilidade aprimorada e afiada no anonimato por dezoito
anos ―― pelo que a Hikari viu, se fosse converter pra nível, passaria dos 200.
Sem dúvidas, ele era o número um entre todos os aventureiros do mundo,
incluindo Japão e Estados Unidos, um herói desconhecido.
Tomando todo o cuidado do mundo pra que a verdadeira
identidade do Oji-san nunca fosse descoberta por ele mesmo ――e com a vontade de
expor ao mundo o quão forte e foda o Oji-san era, ela o expôs de forma chocante
e fez a live.
Desde então, o Oji-san tem feito um sucesso absurdo sem
nunca perceber a existência da câmera.
No primeiro vídeo, ele limpou um Boss Monstro de Lv 140 com
um soco (One Punch Clear), viralizando pra caramba com a sua invencibilidade.
Na segunda vez que se seguiu, ele ainda salvou a streamer de topo da DOOM Pro, Siren,
de um aperto gigante.
Entrando
nos trilhos de vez, o impulso já não pode mais ser parado. Subindo rápido e
brilhando nas recomendações do site de vídeos, ele se tornou a super nova
estrela que ultrapassou a marca de 80 mil inscritos no canal 《Shinjuku
Bat ch》
――.
(Se ele
descobrir que a idealizadora por trás disso sou eu, com certeza eu tô muito
ferrada! Bom, por algum motivo ele já sabe que eu tô usando ele pra fazer
alguma coisa, e até disse que me perdoava por isso, mas...!)
Viralizar
aos milhares ―― na sociedade moderna,
isso é o passe pro sucesso, a fonte de muito dinheiro.
Ela quer dinheiro, seja pra se sustentar, pra pagar a escola
ou, claro, pra curtir. E, mais do que tudo, ela quer espalhar a imagem foda do
Oji-san, que esconde uma força esmagadora sem que o mundo saiba.
É por tudo isso que a Hikari continua operando o 《Shinjuku
Bat ch》
nos bastidores, envolvendo a amiga.
Hoje de manhã de novo, ela o seguiu escondida até ele sair
de casa com o estresse à mostra, e a gravação que ela conseguiu foi o máximo.
Não, o máximo não é pouco? Foi o máximo do além, o negócio
foi louco demais ――.
「Será
que a força do Oji-san é muito maior do que eu pensava...? Tipo, ele não é o
número um do mundo de verdade?」
『Julgamento lento. Você vai apanhar do Urokodaki-san』
「Quem é esse. De anime?」
Mesmo
sendo zoada com uma resposta otaku difícil de entender, ela pensou com a parte
calma da cabeça.
O vídeo gravado hoje de manhã era chocante a esse ponto. A
Dungeon de Tsukishima tem uma escala menor comparada com a Dungeon de Shinjuku,
e o nível da área mais funda também é um pouco mais baixo, por volta de 150.
Mas a dificuldade é maior que isso.
『O
Palácio de Tsukishima... A Dungeon de Tsukishima não é muito “gostosa” fora o
Altar de Reencarnação, né』
「Porque os monstros são fortes e chatos, e não tem uma rota
decente?」
『Isso, isso. O terreno complicado e tridimensional já é
difícil de explorar por si só, e é difícil dropar tesouros e afins. Por isso é
um lugar que os aventureiros nacionais quase não vão』
「É-é a tal da demanda inbound...」
『Para de usar palavra que você não entende de qualquer
jeito, vai? Vai ficar óbvio que você é burra』
「Que maldade!? Miya, que maldaade!? Não, bom, é verdade que
eu não entendo direito mesmo, mas!」
Visando
a reencarnação em Elfo, a galera de fora desafia a Dungeon de Tsukishima
bancada por patrocinadores ricaços.
Começando da área mais funda, ele explorou e escapou em
apenas trinta minutos――.
Isso destrói completamente o orgulho dos outros aventureiros
que gastam anos de tempo e orçamentos absurdos e não conseguem limpar o lugar.
Se for um ricaço querendo virar Elfo, com certeza ia pedir pra ele dar uma escolta
sem pena de gastar dinheiro.
「Se o
Oji-san não tivesse aniquilado os monstros pra mim, eu também não ia conseguir
acompanhar」
『Eu acho que só de conseguir acompanhar já é muita coisa.
Ele praticamente voa quando pula, né, o Oji-san』
「Ah, mas eu sou focada nisso, sabe? Como meu poder de
combate é um lixo total, pelo menos isso eu tenho que conseguir, né」
O
superpoder que sustenta os aventureiros é a 《Skill》. A diferença individual é drástica,
e existem até Unique Skills que só a própria pessoa consegue usar, mas em troca
de serem poderosas, elas tendem a ter vantagens e desvantagens bem extremas.
Hikari
―― a Main Skill da aventureira 《Nindou Hikari》, 《Stealth SSS》, é o nível mais alto das
Skills de ocultação. Se ela ocultar a presença a sério, consegue passar por
qualquer equipamento de vigilância e se infiltrar enganando até mesmo
supersentidos mágicos.
Mas,
talvez pela inexperiência da própria Hikari, as desvantagens também são
gigantescas.
(O pessoal da Guilda falou que se eu subisse de nível,
talvez... mas)
Não importa quanto tempo passe, ela não aprende nenhuma
Skill de combate.
A Main
Skill que é o eixo principal, as Sub-Skills que derivaram dela, nenhuma das que
a Hikari aprendeu serve pra lutar. Atualmente ela é totalmente focada em
mobilidade oculta, com o poder de combate sendo um lixo igual ao de uma pessoa
normal, num desbalanceamento total.
Além
disso, enquanto a Skill de furtividade tá ativada, ela não aparece na câmera de
transmissão. Como o microfone também não capta o som, ela não consegue narrar, e mesmo que suba vídeos de invasão
na Dungeon, o negócio fica muito sem graça.
Ela até dava um jeito editando os vídeos que gravava pra dar
UP ―― mas mesmo assim, comparada com a
galera que cai na porrada de verdade, era difícil fazer sucesso, e o debut dela
como aventureira tinha sido bem mixuruca.
「Oji-san
é o melhor! Oji-san é o melhor! Miya, você também pode dizer que o Oji-san é o
melhor, viu!?」
『......Você tá empolgada demais, chega a ser meio
assustador』
O encontro com o Oji-san mudou tudo.
Forte, apenas forte, estupidamente forte. A sensação boa de
ver ele rebatendo e mandando pelos ares os monstros do fundo da Dungeon, o
mistério de ter tudo envolto em segredo, a 《Estrela》 suprema que dá One Punch KO no
Boss――.
Só de gravar de qualquer jeito aquele absurdo de força e
postar, bateu 1 milhão de views. Viralizando atrás de viralizar, o Oji-san
agora tava voando baixo rumo ao topo dos streamers, sem nem ter consciência
disso.
「Se a
gente postar isso aqui, vai viralizar de novo, né! Como tá a repercussão?」
『Acho que a gringaiada vai vir com tudo pra investigar quem
ele é. Vai chover proposta de patrocínio...... pedido de collab, gente
implorando por Carry, galera enchendo o saco na DM das redes sociais, e até
nego fazendo tocaia na porta da Dungeon』
「Ué, tá vindo esse tipo de coisa? Eu deixo tudo mutado,
então nem sabia」
『Tocaia ainda não rolou, mas os comentários nos vídeos e as
mensagens nas redes sociais tão insanos. Já tem convite de collab, umas cartas
de desafio esquisitas, e claro, assédio, hate e xingamento rolando solto』
「......Só
de ouvir já me dá preguiça. Foi mal, Miya, depois eu mesma limpo essa sujeira,
tá?」
『Por favor. Falando sério, tá bem puxado』
Mina biscoiteira mandando selfie +18 pra tentar arrancar
collab e fama, idiota marombeiro que adora arrumar treta com quem é mais forte,
canal de treta e urubu de polêmica vindo sugar o sangue por inveja de gente
famosa; as sementes de problema tão multiplicando absurdamente.
Por enquanto elas tão recusando tudo, mas os pedidos que
apostam na força real dele... pedidos de ajuda tipo “quero derrotar um Boss
muito forte”, ou “quero passar de uma área de alta dificuldade”, os famosos
pedidos de Carry, tão chovendo.
Ainda
não chegou num nível tão perigoso assim...... mas.
(Agora eu acho que consigo entender um pouco o sentimento do
Oji-san de não querer chamar atenção)
Fechar a boca igual uma ostra, afundar na lama e se
esconder. Nessa sociedade da informação, não ter rede social, não querer
promoção, não procurar uma parceira pra vida, a arte de viver do Satou de se
enterrar por conta própria é, de certa forma, a resposta certa.
Justamente
por não buscar lucro, ele não tem relação nenhuma com a montanha de problemas
que vêm junto com a fama e a recompensa. É um jeito bem cara de Oji-san de sobreviver
ao dia a dia sem estresse, mas...
「Mas eu ainda quero dinheirooooooo! A monetização foi
aprovada, então só mais um pouco! Quando eu ganhar só mais um pouquinho, eu
paro! Só vou ganhar uns 100 milhões e aí eu paro, falta pouco!」
『Isso aí é a maior Death Flag de quem nunca vai parar......
Se der merda, eu não quero nem saber, viu』
「Relaxa!
Confia no Oji-san que nunca vai chegar perto da cultura jovem de jeito nenhum!」
Por sorte, Satou tem zero interesse em aventuras.
Ele encara as idas à Dungeon só como um Batting Center onde
bolas mais pesadas vêm voando na direção dele, e ele só rebate pra aliviar o
estresse.
Por isso, existe uma chance de elas continuarem com isso sem
serem descobertas... provavelmente.
『Por
enquanto vamo editar a gravação e dar um jeito do atalho não ser descoberto, né』
「Acho que é o melhor. ......Até porque só de ser um RTA de
Last Boss, certeza que já vai viralizar」
Enquanto continuavam a reunião secreta, Hikari pegou o trem
rumo à escola.
Dezoito
anos desde que a invasão de outro mundo começou. As transmissões de exploração
de Dungeon se firmaram como a rota do sucesso, e na 《Era das Grandes Aventuras》, onde
a ciência e a fantasia se misturam, a lenda do herói desconhecido 《Shinjuku
Bat》――,
Tava sendo criada por um Oji-san sem noção e sua sobrinha
diabólica, prestes a ver a luz do dia.
❷
O “Teste do Sofá” Não Tá Mais na Moda
Edifício-Sede da DOOM Pro, Shinjuku, Tóquio.
“Satou Keita”
Dizem que o trabalho é trocar vigor físico e tempo por
dinheiro.
A questão da eficiência e ineficiência é grande. Tem
investidor que ganha milhões numa negociação de apenas uma hora, e tem quem
continue trabalhando até quebrar o corpo de tanto suar e acaba com um salário
mixuruca; Satou Keita, se for pra escolher, é do segundo tipo.
(Eu não
preciso, simplesmente isso)
Satou tem consciência de que seu desejo por dinheiro é
fraco.
O motivo disso é simples: ele não tem nada que queira tanto
assim. Ele gosta de comer, mas não é nenhum gourmet; em vez de se esticar pra
provar ingredientes de luxo inalcançáveis, ele prefere procurar algo que agrade
o paladar entre os produtos similares com preços mais acessíveis. Ele tem a
casa que herdou da família, e não precisa de carro em Tóquio.
Viagem
pro exterior? Que saco. Por que ele se daria ao trabalho de ir pra um país com
segurança ruim e correr perigo?
Pra
começo de conversa, ele mal conhece os pontos turísticos do Japão, então ir pro
exterior parece que tá pulando a ordem das coisas, e ele não gosta disso.
Desde que não passe fome no dia a dia e consiga continuar
guardando dinheiro pra velhice, tá ótimo. A ganância do Satou Keita para por
aí, e esse é o motivo dele não desejar promoção mesmo sendo um mero peão de
firma, e também o motivo de não mudar de emprego.
(Apesar
que isso também pode estar chegando no limite, né)
Se a empresa falir, ele vai ter que mudar de emprego
querendo ou não. Só de imaginar já dá preguiça.
Por isso, Satou tava com um certo senso de crise e veio
contrariado, de má vontade, fazer essa visita de vendas que podia ser chamada
de imprudente.
「Desculpa
o atraso. Te fiz esperar?」
「Faltam cinco minutos pro combinado, sabia? Acabei de
chegar, então tá tudo bem, Satou-san」
Em algum lugar de Shinjuku, em frente ao prédio sede da DOOM
Pro.
Parada
na sombra de uma área verde típica do centro da cidade, com cara de quem
esperava alguém, a jovem mulher se virou aliviada quando Satou Keita a chamou e
acenou de um jeito fofinho.
「Tô nervosa~...! É a primeira vez que faço visita de vendas
numa empresa tão grande」
「Pois é, normalmente eles não são o tipo de cliente que
pessoas como nós conseguiriam chegar perto, né」
Com o
terninho de negócios de sempre e maquiagem natural. Ukai Madoka, que não perde
esse ar de novata não importa quanto tempo passe, é uma jovem recém-formada, do
mesmo departamento de vendas da Editora Bouken que o Satou.
Ele não parou pra calcular os detalhes, mas a diferença de
idade com o Satou deve ser literalmente nível pai e filha.
Um
rosto com traços doces e suaves, um busto e uma linha de cintura sustentados
pela juventude, pernas flexíveis e a firmeza da pele. Como ela disse que ganhou
um concurso de beleza na época da faculdade, é uma beldade que dá de dez a zero
em qualquer subcelebridade por aí.
(Bom, não que isso tenha a ver comigo, mas)
Satou já tinha secado há muito tempo pra esse tipo de
juventude de ficar bajulando colegas por atração sexual. A beleza e o corpo da
Ukai, pra ele, são apenas algo no nível de “é um bônus a mais nas reações dos
clientes”, lidando com isso de forma extremamente apática.
Sendo
mal interpretado como um cavalheiro honesto que não tem nenhum daquele ar de
“peão de firma velho e babão”, ele até ganhou a simpatia da Ukai, mas pro
Satou, ele não faz a menor ideia desse fato.
(DOOM
Pro... Uma empresa super de elite que tem um monte de streamers com mais de um
milhão de inscritos)
(Realmente gigante.
Isso aqui é o prédio próprio deles, né? Quanto será que custou uma coisa dessas
――)
Streamer de
dungeon, os Dungeon Livers são os heróis da era moderna.
Mergulhando no labirinto assumindo riscos,
eles recuperam materiais e recursos mágicos, e colocam as mãos em itens.
Na sociedade
moderna, onde a fusão da ciência com a magia tá causando grandes inovações, os
aventureiros que conseguem alcançar o fundo do labirinto são talentos extremamente
valiosos ―― e se fôssemos comparar esse valor pelos padrões de antigamente:
(Uma fábrica de
semicondutores ambulante, uma mina de metais raros do tamanho de um ser humano.
Deve ser algo por aí)
Eles
são a base da tecnologia de ponta e os responsáveis pela obtenção de recursos
que sustentam a prosperidade. Por mais incríveis que sejam os produtos
desenvolvidos, como os recursos necessários pra fabricá-los só podem ser
obtidos nas Dungeons, a importância deles é indiscutível.
「Satou-san,
você já viu a Transmissão Lendária?」
「Ah, a dos 《Aventureiros Originais》...... né?」
「Isso! Eu assistia aquilo quando era criança e admirava
eles. Heróis existiam de verdade, sabe!」
Dezoito anos atrás, com o surgimento das Dungeons, ocorreu a
《Grande
Invasão》
causada pela falta de subjugação de monstros. Foram os 《Aventureiros Originais》 que
exploraram a Dungeon que havia engolido a região de Shinjuku e reconquistaram o
espaço de vida roubado da humanidade.
A party
mais forte formada por voluntários da polícia e das Forças de Autodefesa. Para
o governo encurralado, eles eram a única força de combate sob o controle do
país capaz de enfrentar a invasão de outro mundo.
O grande cartaz que não podia de jeito nenhum ser perdido.
Para garantir o retorno deles com vida, o líder da época elaborou um plano, e o
então Primeiro-Ministro apostou sua carreira para implementá-lo ―― esse foi o
início das Live de dungeon.
Usando
uma linha de informação conectada até o fundo da dungeon. Usando câmeras de
drones autônomos para transmitir as ações da party em tempo real, monitorando
cada passo deles para realizar orientação e suporte precisos.
O sistema de transmissão de dungeon, que hoje em dia é visto
apenas como uma forma de satisfazer o desejo de aprovação e de ascensão social,
começou como uma forma de garantir a linha da vida dos 《Aventureiros Originais》, e
chegou aos dias atuais.
A figura heroica deles. A lenda deles, o brilho que eles
trouxeram se tornou a estrela-guia das pessoas.
Gerando incontáveis seguidores, acendendo o peito dos jovens
e chamando a nova luz dos heróis.
O fascínio que encantou a jovem Ukai e se tornou a principal
motivação dela na hora de procurar emprego também foi um desses...
「――Nunca
vi. Naquela época passava o tempo todo em programas especiais e afins até a
gente quase morrer de tanto ver」
Dezoito anos atrás, surgimento do labirinto e a 《Grande
Invasão》.
Tendo vivenciado ambos em tempo real, Satou não contou a ninguém sobre sua
experiência.
Provavelmente nunca contará. Aquilo é uma dor cravada no fundo
do próprio coração, e o ato de revelar isso seria expor uma ferida. É uma
cicatriz que ele não quer que toquem e que tem a resolução de levar para o
túmulo sem revelar nem mesmo para a família.
「Sou
grato a eles, mas não tenho interesse. Não tô a fim de ficar curtindo isso como
se fosse um espetáculo」
――Virar herói não é algo que valha a pena.
A voz que escondia seus verdadeiros sentimentos e suas
sutilezas não foi percebida pela Kouhai, que olhava para o prédio.
「É
assim que as coisas são?」
「É só uma opinião pessoal. Não tenho a intenção de negar a
diversão dos outros.」
A
própria ferida pertence apenas a si mesmo. Exigir um “entenda a minha dor” só
porque se está sofrendo é um pedido irracional. Mesmo agora que a magia foi
descoberta, a humanidade normal não consegue usar coisas como telepatia.
(Até porque, o luxo de querer que os outros me entendam
seria um desperdício para mim)
Desviando
os olhos da dor com essas palavras, Satou apertou firme sua pasta de vendas
novamente.
「Bom, vamos indo? É exatamente a hora do compromisso.」
「S-sim! ......Aaah, que nervosismo~...!」
Ukai o
segue, como se fosse puxada por Satou que começou a andar. No saguão com o
ar-condicionado no talo, seguranças bem treinados. Não há mais daquelas
recepcionistas bonitas de uma década atrás; a reserva da visita é confirmada em
um terminal tipo tablet e a passagem é liberada.
「......Uau......
tudo aqui é diferente da nossa, né. Ter dinheiro é incrível mesmo......」
「É um prédio comercial misto contra um prédio próprio
deles. Não tem nem como competir desde o começo.」
「Satou-san, olha lá, é um bebedouro! Também tem docinhos de
escritório, e aquela cafeteira não é o modelo mais recente que faz um café
super delicioso!? Que inveja......!」
O
escritório da Editora Bouken é uma relíquia da Era Showa construída há quase
cinquenta anos. O elevador treme todo, a vedação péssima das paredes de
concreto faz com que seja quente no verão e frio no inverno, e a condensação é
terrível. Obviamente não há seguranças nem recepcionistas.
Bebedouro? Compra água e bebe. Não use a
geladeira da copa. Café? A gente coloca uma máquina de venda aqui. Docinho de
escritório? A conta não fecha, então é rejeitado na hora――.
(A diferença de nível é grande demais...... bom, só de
comparar com a nossa empresa já não tem sentido)
Em
contraste com Ukai, que olhava sem parar para todos os lados, Satou caminhava
para o local indicado com uma cara de quem não se importava com nada, avançando
mesmo sendo banhado pelos olhares dos funcionários que passavam.
「S-Satou-san, você tem uma postura bem firme, né...... É
incrível.」
「É que escritórios desse tipo são comuns. Mas confesso que
dá inveja de um ambiente de trabalho tão bom.」
Escritório
planejado por designer com base em ergonomia, espaços separados que garantem a
privacidade, refeitório da empresa com serviço de catering gratuito; Satou não
busca esses elementos brilhosos e chiques no local de trabalho.
Ele já se conformou e colocou na cabeça que o tal
“padrãozinho de empresa brilhante” está muito distante dele. Por melhor que
seja o ambiente, se os colegas entrarem na categoria do “problemático”, vira um
inferno, e por outro lado, mesmo que a empresa seja no fundo do poço――.
「Desde
que não seja um momento de caos, a nossa Buchou nos deixa ir embora no horário
certo, e também aprova as férias remuneradas. Você também, Ukai-san, é uma
colega decente com quem dá pra se comunicar direito em japonês. Eu já me
considero bastante abençoado.」
「Ah, mas isso não é o que o mundo chama de... normal......?
Os seus padrões não estão baixos demais?」
「É um problema viver num mundo em que nem sempre isso é a
verdade, não é.」
Colegas com quem intimidações dignas de chimpanzés funcionam
melhor do que palavras em japonês, ou chefes que exigem dos subordinados o
mesmo nível alto de consciência e capacidade que eles próprios têm... Comparado
a danos fatais nas relações humanas como esses, a beleza de um escritório é
apenas um detalhe insignificante.
「......Eeh,
parece que é esta sala.」
「Sala de reuniões, né. Pelo menos parece que vão nos ouvir,
o que já ajuda.」
Controlando Ukai, que estava pálida de tensão, Satou bate na
porta indicada.
「Entra. Tanaka-san da Editora Sei-Lá-O-Quê...... era isso?」
「Com licença.」
Diante
da resposta arrogante, sem nem corrigir o erro no nome, ele abre a porta e faz
uma reverência, seguindo a etiqueta.
Ao entrar na sala de reuniões lado a lado com Ukai, que o
seguiu apressada, ele cumprimentou o homem que já estava sentado.
「Sou Satou, da 《Editora Bouken》. Esta é Ukai.」
「U-Ukai Madoka! Muito obrigada por nos conceder seu tempo
hoje!」
「Tsk. Cês tão vendo que eu tô ocupado pra caralho, né...
Haa, que saco.」
Pelo
jeito de falar engolindo palavras e pelo final agressivo das frases, Satou, com
a cabeça ainda abaixada, teve um pressentimento imediato.
(Ih, deu ruim. Essa já era)
Uma ligação oferecendo serviço de reforma de casa ou coleta
de sucata tocando bem no seu precioso dia de folga, enquanto você tá relaxando.
A
atitude de quem atende o telefone, saca na mesma hora que é uma venda chata e
já dá aquela despachada de qualquer jeito ―― a vibe do homem era exatamente
essa.
Se não fosse uma ordem do presidente, o fluxo normal seria
julgar na hora que não ia dar em nada, deixar o cartão de visitas na mesa e ir
embora rapidinho. Ficar insistindo seria perda de tempo; dava pra ver
nitidamente a situação num nível que não dava a menor brecha.
(Mas,
mesmo assim, eu não posso simplesmente meter o pé, né...... Haa)
É aí que dói ser um pobre escravo corporativo: o destino da
empresa tá pendurado nessa visita de vendas de merda, e ele não pode voltar de
mãos abanando.
Mesmo sabendo que não tem a menor chance, ele precisa
insistir até onde der.
「Eu
sou...... bom, vocês não precisam do meu nome, né? Afinal, vocês conhecem,
óbvio.」
Uma fumaça com cheiro ácido e forte flutua pelo ar. É o
cheiro de um cigarro que não está acostumado a sentir, vindo da boca do homem.
Fumar num lugar que nem área de fumantes é em pleno dia de
hoje. Com um sentimento de incredulidade, Satou levantou o olhar para o homem
――.
(É um rosto conhecido, mas...... onde foi que eu vi ele
mesmo?)
Cabelo
vermelho vivo penteado todo pra trás, com uma velha cicatriz no rosto. Um
cigarro no canto da boca que exibia um sorriso cínico, um terno double-breasted
chamativo e uma camisa de cor escura que um trabalhador normal jamais
conseguiria vestir sem ficar ridículo.
Os
traços do rosto são bem alinhados, dá pra dizer com certeza que é um cara
bonito. O corpo escondido sob o terno também é musculoso, e o distintivo na
lapela é a prova de ser um streamer ―― a 《Placa de Prata》, concedida pela
plataforma pra quem ultrapassa a marca de 100 mil inscritos.
「S-sim!
Claro que conhecemos, é o... 《Dokky Kinya》-san, não é!?」
「Opa, opa, você manja das coisas, heein. Pois é! Ex-canal
com 120 mil inscritos! Hoje eu tô aqui trabalhando como manager, mas
antigamente eu tava lá na linha de frente quebrando tudo, tá ligado?」
Quando
a Ukai respondeu, Kachidoki Kinya, vulgo Dokky Kinya, deu um sorriso exibindo
os dentes brancos.
(Lembrei. A Buchou tinha mandado uma foto dele anexada na
mensagem)
Ele tinha lembrança daquele sorriso que parecia o de um
gorila carnívoro.
Era a
foto que a Buchou mandou informando que ele seria o responsável da DOOM Pro.
Ele lembrava de ter dado uma olhada rápida junto com os dados que poderiam
servir de pista pra negociação, como o número de inscritos da época de streamer
e o nome.
(O
famoso ex-canal de treta. Ouvi dizer que ele atuava na camada média da Dungeon
de Shinjuku)
Segundo a Buchou, ele se aposentou como aventureiro depois
de ser cancelado na internet por causa de um certo ocorrido. Dizem que, depois
de entrar na DOOM Pro por indicação, ele tem atuado como manager usando o
sucesso do passado como escudo...
「É uma
honra conhecê-lo. Muito obrigado por nos receber hoje, mesmo sendo um pedido
tão em cima da hora.」
Recapitulando os dados na mente, Satou e Ukai se sentaram e
abriram os materiais.
「Hoje nós viemos para fazer uma reportagem sobre a sua
empresa e discutir uma proposta de collab. Contamos com a sua colaboração.」
「Hn.
......Peraí, é papel? Cês não digitalizaram o negócio? Que merda, hein, a sua
firma.」
「A
nossa empresa tem uma cultura corporativa que valoriza e respeita a tradição.」
Enquanto dava essa desculpa, Satou pensava por dentro: “Pois
é, né”.
O que eles trouxeram dessa vez foram recortes de artigos
antigos, fotos de produtos, light novels com streamers como protagonistas, etc.
Como são do ramo editorial, a decisão de que é mais fácil promover pela mídia
física não tá errada... talvez.
(No
nosso caso nem é por causa desse tipo de cálculo, é só porque a gente não
conseguiu acompanhar a época mesmo... e tal)
Sem deixar transparecer essa verdade, Satou dá uma olhada
pra Ukai ao lado. Ukai, toda apressada, opera o tablet que tirou da bolsa e
abre a apresentação que ela montou na marra nas últimas horas.
「Dando
continuidade, a responsável Ukai fará a explicação...」
「Hn, agiliza aí?」
「H-hyaii! Por favor, deem uma olhada nestes materiais!」
Na sala
com as luzes apagadas, começa o PowerPoint da vida da Ukai. Pra quem recebeu a
ordem de fazer visita de vendas de supetão hoje de manhã e montou tudo nas
pressas em poucas horas logo depois de acordar, a parada até que tava bem
bonita e com cara de apresentação.
(A Ukai
é mesmo competente. Por que ela foi entrar numa empresa como a nossa...?)
Depois de ser sugada feito um pano de chão velho, logo no
segundo ano de formada ela já tá correndo o risco de perder o emprego.
E ainda por cima, com o destino da empresa nas costas dela,
é natural que ela sinta o peso da responsabilidade.
「...E
por conta disso, a nossa empresa tem o intuito de apoiar as atividades para
todos os streamers de Dungeon com diversas propostas. O nosso forte são os
artigos de destaque na revista 《Advestance》, mas também temos experiência na produção de light novels
autobiográficas através de redatores parceiros, além da fabricação de produtos
como pelúcias e afins...」
Não tem
dúvida de que ela tá morrendo de medo. A voz até pode estar firme, mas as mãos
fechadas tão tremendo de leve. Conseguir falar direito com um cara assustador
desses enquanto suprime a agitação por dentro, a garota manda muito bem.
(Mesmo
assim, é como eu imaginava, né...)
Dokky Kinya. O cargo dele na DOOM Pro pode até ser de
manager, mas na prática ele é o responsável por lidar com os BOs... ou seja,
usando um termo antigo, ele atua como uma espécie de leão de chácara; era isso
que o Satou tava sacando.
(Pra um
fumante, os dentes dele são brancos demais. Mesmo escovando sempre, não fica
assim)
――Normalmente ele fuma cigarro eletrônico, ou nem fuma.
Aquele cigarro que ele baforou bem na hora que a gente se encontrou era só um
acessório pra intimidar.
Não é diferente de um cachorro latindo, ou de um yakuza e
trombadinha gritando. Uma técnica pra ameaçar com uma vibe de marginal e deixar
claro a posição e a relação de poder de cada um.
(Bom,
nem precisava de tudo isso. Entre uma editora lixo e a maior gigante da
indústria, não existe relação de poder nenhuma)
É o famoso “tentar crescer pra cima”, mas não precisava de
nada disso porque a gente já tá na base do fundo do poço. Ser intimidado não é
um problema, a gente só sente um “é claro, né”. Dane-se.
A ideia de que dá para conseguir fechar um projeto só
mandando uns peões de firma, sem ter quase nenhum contato ou “QI”, é muito ingênua. Essa visita de vendas foi uma
ordem do presidente, mas é justamente por ele pensar assim que a gestão da
empresa tá afundando, não é.
「...Sendo
assim, nós gostaríamos muito de conseguir fechar um projeto com a sua empresa!?
Por favor!」
「Haaan...?」
Ukai se
curva com uma expressão desesperada. Uma distância em que a testa quase bate na
mesa da sala de reuniões.
Mas toda essa súplica não funcionou com o homem chamado Kinya.
「Chato. Nem tem o que discutir.」
「Eeeh!? C-como assim...!」
「Então eu pergunto... qual é a vantagem da NOSSA empresa
fechar com a SUA empresa?」
Ton,
ton, ton, ele bate o dedo de forma sarcástica em cima do material de
apresentação aberto.
A atitude dele é péssima, mas ele não tá falando nenhuma
mentira. Pros padrões de quem fez na correria, o material da Ukai tá bem feito,
mas no fim das contas, resumindo o que ela tá falando...
「...E-expor
amplamente a sua empresa para os nossos leitores...?」
「Dá pra vocês voltarem quando triplicarem a tiragem? Isso
aqui, na prática, é vocês pedindo pros nossos streamers fazerem propaganda da
revista da SUA empresa. Posições invertidas, né.」
(Pois
é, né)
Sem desfazer a cara séria, Satou pensou calado.
Em comparação com a tiragem um pouco inflada da principal
revista da Editora Bouken, a 《Advestance》, a DOOM Pro tem streamers de rank mais baixo com um
dígito a mais de inscritos. A escala de influência é totalmente diferente.
Mais do que propaganda, isso é basicamente parasitismo. Seja
pra produzir goods ou adaptar pra light novel, basta eles encomendarem direto
com os fabricantes ou com os redatores, sem passar pela Editora Bouken. Não tem
sentido colocar um intermediário inútil no meio.
「I-isso
não pode ser...! A-ah, mas e se for uma entrevista!? Podemos fazer um especial
sobre a sua empresa na 《Advestance》, e também pagaríamos uma taxa de entrevista...!」
「A grana é muito mixuruca. Cês acham mesmo que dá pra usar
um streamer nosso com isso? Dá um tempo, volta outra hora, sério.」
「Au, auuu...!」
Sem
conseguir dar um pio. Os padrões da empresa ainda são da Era Showa, a galera
ainda vive com o sentimento de quando a mídia de massa era forte. Diferente da
mídia impressa, que hoje em dia tá afundando, não existia a menor chance de
vencer os streamers que ostentam uma velocidade e um alcance de divulgação
esmagadores.
(Tá
quase acabando, né... É um pouco cedo pro almoço, mas o que eu vou comer?)
Mesmo fazendo uma cara de profundamente focado, Satou tava
pensando numa coisa dessas.
Era uma proposta sem fundamento desde o começo. Ser
rejeitado já era o esperado, então não tinha choque nenhum. Ele já tava mais
preocupado com a fominha que tava batendo, tentando lembrar de uns restaurantes
bons ali por perto, até que:
「A
nossa empresa tá passando por um aperto por causa do caso do 《Very
Good》...
Se a gente conseguir qualquer projeto, vai ajudar muito. Em relação às
condições, nós levaremos pra empresa e estudaremos, então por favor, por
favor...!」
「Ah,
então vocês tavam promovendo aquele arruaceiro, hein, sua firma. Que falta de
senso... hm?」
(......!?)
Um calafrio de repulsa que faz os pelos da nuca arrepiarem.
A resposta do Kinya, e o que veio depois. Sentindo algo
naquela quebra de frase que indicava que ele havia notado alguma coisa, Satou
levantou o olhar.
O olhar
do homem se enrosca na Ukai. A pele queimada parecendo carne de porco cozida, o
olhar nojento daquele rosto oleoso fuzilava a garota novata no segundo ano de
firma como se fosse capturá-la.
O destino do olhar era a Ukai em seu terninho de negócios, a
nuca coberta de suor frio e a expressão de olhos marejados, além dos seios
fartos que empurravam o terno e as pernas envoltas em meias-calças de fio
grosso――.
「Hoo~...
Olhando bem, até que você é melhor do que eu pensava. Sendo assim, bem... hm?」
(Acho que se gravasse a cara dele agora mesmo, já daria pra
abrir um processo de assédio sexual, hein)
O “pedaço de porco” derreteu numa cara que transbordava
tara. Quer dizer, ele sorriu, mas passava exatamente essa sensação.
Kinya se levantou da cadeira onde estava esparramado e
caminhou direto até a Ukai.
「Bom,
eu falei umas paradas pesadas, né. Que tal hoje à noite? Eu deixo você me contar
os detalhes.」
「Eh, s-sério!?」
「Sério, sério. Hoje à noite a gente vai fazer uma festinha
reunindo os streamers mais novos da empresa. É um ambiente descontraído, tipo
um goukon (encontro de solteiros), e tava faltando menina, sabe~. Se
você der as caras por lá, talvez eles ouçam a sua proposta.」
「Eh?
Goukon... é?」
Uma onda de confusão passa pela Ukai.
Ela tentava disfarçar, mas era porque tinha farejado o
cheiro suspeito que vazava daquelas palavras.
「Por acaso você ficou desconfiada? Fica fria, hoje em dia
ninguém força nada não, sabe.」
「S-sim, né? Se for só pra beber...」
「O papo pode esquentar e rolar um romance natural, não
acha? Mas não tem nada forçado, e se você tiver a devida determinação pra isso,
não tem problema, né? Afinal, você é uma 《Adulta》.」
「Eh...!?」
Diante da resposta inesperada, Ukai congelou como pedra.
Encurtando ainda mais a distância, o rosto do porco se
aproximou no limite do contato. Quando a Ukai, deixando transparecer um leve
incômodo, virou o rosto, ele tentou preencher ainda mais esse espaço.
「Significa
que, se você quiser, eu deixo você pelo menos apresentar a ideia. Eu te dou o
encontro e, se os nossos streamers gostarem de você, quem sabe eles não te
passam uns projetos? E além do mais――...」
Fuu, soprando uma respiração com cheiro residual de cigarro.
「Não vem se encostar na gente se não tem nem esse nível de
determinação. A gente aposta a vida nisso aqui, sacou?」
「...A-a-ah,
isso é... não é que eu esteja subestimando ou algo do tipo...!」
「Não, cê tá tirando com a nossa cara sim. Nós, streamers, a
gente se mata numa batalha de vida ou morte pra conseguir inscrito e dá o
sangue, tá ligado. Aí você vem de fininho querendo só aproveitar e sugar a
gente, mó pilantragem, né. Isso não vai rolar não.」
Se quer alguma coisa, dê primeiro.
Entregue a compensação. Se não tem dinheiro, que seja em
troca de―― castidade, dignidade, essas coisas.
「Você não é criança, sabe. Vamos ser adultos... né?」
「......!」
Uma cor
de desespero surgiu nos olhos de Ukai. Ela prendeu a respiração, sem sequer
conseguir afastar a mão do Kinya que agarrava seu ombro.
(É o limite. Nesse ritmo ela vai acabar cedendo à pressão)
Ukai foi completamente engolida. Eram cento e vinte mil
inscritos, não é? Um aventureiro que chega nesse nível é um intermediário de
peso, a nata que pode atuar como profissional. A própria existência dele oprime
as pessoas comuns, possuindo o poder de engoli-las.
Um
amador que não subiu de nível como aventureiro e não passou pelo 《Despertar》 é um
alvo fácil. Só com a enxurrada de palavras e a pressão de sua presença, sem
deixar ela dizer “não”, forçar a barra para arrancar um consentimento contra a
vontade seria a coisa mais fácil do mundo.
Se a deixasse ali, Ukai seria arrastada para aquele tal de
goukon esta noite―― e até o tapado do Satou conseguia imaginar o fim trágico
disso. Com certeza não ia dar boa coisa.
(A
empresa pode até se salvar com isso, mas)
Mas, definitivamente, isso não tem o valor de ser trocado
pelo futuro de uma mulher chamada Ukai Madoka.
......Pan!
「Opa!?」
「Eh? Satou......-san?」
「Perdão. Tinha um mosquito aqui.」
O ar
estagnado e pesado ficou leve, como se tivesse sido purificado.
Enquanto Kinya encurralava Ukai, Satou repentinamente bateu
palmas. O som nítido que ecoou de surpresa gerou um leve susto, trazendo Ukai —
que estava prestes a ser engolida pela pressão do homem — de volta a si, e
quebrando totalmente o ímpeto de Kinya.
「Peço
desculpas por termos pedido o impossível de vocês hoje.」
Puxando a cadeira levemente para trás, Satou se levantou e
fez uma reverência profunda ali mesmo.
Ele pega a mão de Ukai, que olhava para ele de baixo meio
atônita, e a puxa de leve. Protegendo a kouhai, que se levantou sem forças como
se tivesse sido fisgada por uma vara de pesca, ele a esconde atrás de suas
costas――.
「Sendo
assim, com licença. Muito obrigado mais uma vez por nos concederem o seu tempo.」
「Sen, Senpaaai......!」
Escondida nas costas dele não dava para vê-la, mas a voz de
Ukai se misturou com soluços.
Ela deve ter percebido a situação em que quase foi
arrastada. Satou não conseguia vê-la e nem dava a mínima para isso, mas no
rosto de olhos marejados da garota surgiu um sentimento de respeito e gratidão,
e ela se agarrou suavemente nas costas surpreendentemente largas e robustas
dele, como se buscasse apoio.
「Hã?
......Hããã~~~?」
Quem não achou a menor graça naquilo foi Kinya.
Faltava só um passo pra ela cair. Uma garota novata, tímida
e sem malícia, não passa de uma presa fácil para homens desse tipo. Tendo a
presa roubada bem debaixo do seu nariz, ele se aproximou de Satou
transparecendo um mau humor descarado.
「A
gente tava bem no clima aqui, tem como você não dar palpite onde não é chamado?」
「Ultimamente o compliance (regras de conformidade)
também está bem rígido. Uma bebedeira com um parceiro de negócios, ou
entretenimentos que adentram a madrugada, são o tipo de coisa que a nossa
empresa deve evitar. Mas se for para um almoço, eu ficaria feliz em
acompanhá-lo.」
「Almoço com ossan? Morro, mas não quero. Não é disso que eu
tô falando, cê sabe muito bem né!?」
「Peço perdão. Parece que o deixei desconfortável, mas eu
não compreendo.」
Ele se
mantinha numa postura humilde e submissa até o fim, mas sem ceder um milímetro
sequer.
A história seria outra se Ukai tivesse escolhido e desejado
isso por conta própria. Se ela tivesse a audácia de bajular um streamer famoso,
usar o próprio corpo para conseguir um projeto e, ainda assim, agir como se
nada tivesse acontecido.
(Mas, não é o caso)
Ukai
não sabe de nada. Ela é só uma criança que quase foi levada na lábia por um
adulto de péssima índole.
Se fosse só para ter a proposta de vendas recusada, ele não
tinha a menor intenção de abrir a boca, mas usar uma criança assim por pura
conveniência, se ele vier com pensamentos depravados de um adulto sujo para
satisfazer sua luxúria, não me resta outra escolha a não ser impedi-lo.
(Ah, mesmo assim)
Esse bastardo com cara de carne de porco cozida me fuzilando
com o olhar, todo enfurecido.
(Que feio. ――Eu vi muito disso, naquela época, naquele
lugar)
A 《Grande
Invasão》,
onde os monstros transbordaram do labirinto e engoliram toda a região de
Shinjuku junto com o Satou.
A feiura dos humanos que ele viu à exaustão no meio do
vórtice daquela carnificina em que foi envolvido. Ver uma feiura da mesma laia,
algo como gordura boiando em água suja, fazia a raiva ir se acumulando no peito
que ele tinha acabado de aliviar nesta manhã.
Naturalmente, seus dedos se dobram. Como se contasse 1, 2...
「Qual é
o problema, é liberdade individual, né. Ou melhor, por acaso essa garota é sua
namorada?」
「Não é isso. Não se trata de uma relação privada desse
tipo, é uma questão de moral.」
「Moralsss~~? Um merdinha de vendas de uma empresa falida tá
cheio de marra, hein.」
Finalmente, a mão do homem agarrou o colarinho de Satou em
tom de provocação.
「Cê é
só um mendigo que veio implorar de joelhos, que porra de cara rebelde é essa.
Tá tirando com a minha cara?」
「Nós estamos falando estritamente de uma transação
comercial, de negócios. Posso considerar que esse é o posicionamento oficial da
empresa DOOM Pro? Se for o caso, eu acho que isso é extremamente problemático.」
Sem sequer afastar a mão que agarrava o seu colarinho, Satou
rebateu a Kinya com uma voz inabalável.
「Hoje em dia, vivemos numa era onde qualquer um pode expor
as coisas pro mundo através das redes sociais」
De
garotas de programa a prostitutas clandestinas ―― uma era em que qualquer
pessoa tem um celular e está conectada às redes sociais.
「Dizem que um streamer com dezenas de milhares de inscritos
tem dificuldade até para ir num bordel. Além do risco de cancelamento, a
diferença de vigor físico é tão grande que acaba sendo um fardo pesado para as
mulheres, então há muitos casos onde eles são banidos ou recusados.」
Streamers e aventureiros de alto nível são super-humanos.
Eles
literalmente possuem capacidades físicas parecidas com as de heróis de
histórias em quadrinhos.
Mas às vezes, essa vitalidade exuberante vira um problema e
traz desejos anormais. Um apetite que não se sacia mesmo devorando todo o
cardápio de um restaurante, ou um desejo sexual que não se esgota mesmo
transando por três dias seguidos.
Não é
todo mundo que apresenta esses sintomas. O preço a se pagar por Skills
poderosas, defeitos causados por subir de nível muito rápido, os motivos
variam; mas para os aventureiros de alto escalão, isso é quase como uma doença
ocupacional.
Para uma agência gigante como a DOOM Pro, que atua na linha
de frente e onde só os de alto nível pertencem, naturalmente, dar suporte e
cuidar dos streamers que apresentam esses sintomas é parte do trabalho.
Apetite
eles ainda conseguem providenciar, mas quando o assunto é luxúria e arranjar
parceiros, existe um limite.
Quem consegue transar com super-humanos são apenas
super-humanos ―― se transarem com uma pessoa normal, o fim é acabar esmagando-a. Como é impossível suportarem os
desejos de um super-humano, dizem que até existem bordeis especializados e
aplicativos de relacionamento apenas para aventureiros.
Mesmo
assim, há um limite para o uso dessas instalações, e boatos sobre cancelamentos
e abafamentos de casos envolvendo o ato de “devorar” garotas amadoras, fãs e
até espectadoras das streams eram um assunto muito comum nos bastidores da
indústria.
(É uma história que eu só ouvi falar, não passa de boato.
Mas......)
Não é à
toa que ele está na indústria há muito tempo. Mesmo entre funcionários relapsos
como ele, existem colaboradores por toda parte com quem compartilha interesses
— não chegam a ser amigos, mas às vezes eles trocam informações enquanto matam
serviço nas visitas de vendas.
(Pelo visto, parece que era verdade mesmo)
Vendo a
reação escancarada, Satou soltou da boca o pior boato que já tinha ouvido.
「Recentemente, tão usando ex-streamers falidos como
‘agenciadores’ pra armar festinhas em
hotéis. Fazem eles darem match com umas garotas... e rola uma moda de forçar a
barra pra levar pro sexo. Mirando em garotas amadoras que não sabem de nada,
sabe.」
「......Seu merda」
「É o que chamam de ‘Canhão da Shuubun’. Chegou aos meus
ouvidos que isso talvez vire matéria na semana que vem, mas... é claro que a
DOOM-san nunca faria uma coisa dessas, não é mesmo? Por favor, esqueça o que eu
disse.」
Ouvindo
o nome da revista semanal famosa por expor escândalos, a cor do rosto de Kinya
mudou. A mão que agarrava o colarinho afrouxou; Satou a afastou rapidamente e
arrumou a gravata torta.
「Hã!? Shuubun!? Tá de sacanagem, ou melhor, por que, de
onde... seu desgraçado!?」
「É aquilo que dizem, ‘uma cobra reconhece o caminho de
outra cobra’. É boato, só boato.」
Ele não
estava mentindo. Boato é boato, e não passava de conversa fiada entre colegas
que matam serviço fora da empresa. Mas, pela experiência de Satou, era uma fonte
até que confiável, e a atitude de Kinya deixava claro que ele tinha o rabo
preso caso cavassem mais fundo.
(Normalmente, eu não tinha a intenção de usar isso, mas)
Esse
tipo de remédio forte é pesado demais para ser usado como material de negociação.
É uma faca de dois gumes que deixa o oponente em alerta e instiga medo e
desconfiança. Mesmo que consiga forçar a sua exigência ali na hora, você compra
inimizade e a possibilidade de ficar sem saída no futuro aumenta muito.
Usá-lo agora com certeza seria uma péssima jogada. Mas ele
não conseguia pensar em nenhuma outra alternativa.
「Sendo
assim, com licença.」
「E, a, i-isso... c-com liçenssa!?」
No momento em que o colarinho foi solto, Satou recuou
rapidamente. E, de forma natural, levou Ukai consigo para fora da sala de
reuniões. Ele segurou a mão dela para escoltá-la, mas sentiu que estava
estranhamente quente e ficou encucado.
(Com
aquele papo de agora há pouco, seria horrível se ela me processasse por assédio
sexual... Ou melhor, depois daquele convite descarado de ‘teste do sofá’, o que
eu faço se ela resolver pedir as contas antes mesmo da empresa falir? Mas que
cara mais terrível)
「.........!」
Sem perceber nem um pouco a atitude de Ukai, que o seguia
com uma cara de quem via o Príncipe Encantado de seus sonhos, Satou pensou
consigo mesmo.
Mas, logo após os dois saírem da sala de reuniões, passos
barulhentos vieram atrás deles.
「Espera aí, porra!! Que porra é essa, ossan. Tá querendo
morrer!?」
「Por favor, pare com a violência. ......O que houve?」
「’O que houve’ o caralho. Canhão da Shuubun? Seu merda, por
acaso você é repórter? Vai transformar isso em matéria!?」
(Com uma voz tão alta num lugar desses... esse cara é
idiota?)
Ele até
deve ter achado que estava abaixando o tom, mas a voz natural dele já era alta
o suficiente.
Com aquela voz ecoando pelo corredor, o ambiente ao redor
começou a ficar agitado. Enquanto os funcionários colocavam as cabeças para
fora das divisórias do escritório — rostos de gente bem-criada observando com
curiosidade —, Satou parou como se quisesse acalmar Kinya.
「É
apenas um boato. Se não tem culpa no cartório, não tem com o que se preocupar,
não é mesmo?」
「Cala a boca! Cê não tá gravando nem filmando nada aí, né?
Passa o celular pra cá. Um velho merda e patético igual a você, eu podia
afundar a sua cara na pancada e...... Zeh!?」
Como se procurasse o celular, a mão de Kinya vasculhou o
terno de Satou.
No momento em que ele enfiou a mão sem a menor cerimônia no
bolso interno, Satou agarrou o pulso dele num ângulo em que ninguém em volta
conseguiria ver.
「......Geh!?」
(Mais fraco do que eu imaginava. Não vai me dizer que ele tá
usando toda a força dele nisso, né?)
Para quem olhava de fora, devia parecer apenas que Satou
estava segurando o pulso dele para tentar afastá-lo.
Mas para os envolvidos a história era outra. Tendo o pulso
agarrado, Kinya ouviu o som de seus ossos rangendo (mishimishi) e, mesmo
tentando resistir foi subjugado e dobrado como se fosse uma garotinha. O suor
brotou naquele rosto de carne de porco cozida, e o espanto ficou estampado em
sua cara.
「Na...... agagagagaga, gagagagagagaっ!? B-bastardo......
gyaaaaaah!?」
「O que houve? Se não está se sentindo bem, por favor, não
se force.」
Dizendo isso com a maior cara de pau, Satou sussurrou no
ouvido de Kinya sem soltar o seu pulso.
「Muito
obrigado por vir nos acompanhar até a saída. Sendo assim, mais uma vez ―― com
licença.」
Com um sorriso amigável, como se estivesse sendo acompanhado
até a porta com um aperto de mão, ele disfarçou para as pessoas ao redor.
Os curiosos que observavam a cena perderam o interesse,
desviaram o olhar e voltaram para os seus respectivos trabalhos. Ofegando de
espanto e dor intensa, Kinya encarou Satou como um cachorro assustado.
「O
que... o que é você, seu desgraçado... Quem é você!?」
「Haa.」
Virando-se rapidamente, Satou tirou o porta-cartões de forma
fluida e puxou uma unidade.
「Sou Satou, do departamento de vendas da Editora Bouken.
――De agora em diante, favor entrar em contato por aqui.」
Com uma expressão feroz que passava longe de ser um sorriso,
ele disse isso.
*
「Satou-san......
Por acaso, eu tava numa baita enrascada!?」
「É, mais ou menos isso.」
(Se tivesse ido na onda dele toda inocente, ia virar presa
fácil, é o que eu acho)
Saindo
do prédio de escritórios da DOOM Pro, ele solta um suspiro enquanto caminha
pelas ruas de Shinjuku.
O escritório de última geração, mas o interior daquele
ambiente de trabalho brilhante era um poço de lama. Acabou vendo uma realidade
nojenta. A Editora Bouken é pobre e, mesmo estando com metade do pescoço
enfiada em ser uma empresa tóxica, não chega a ser tão feia assim.
(Nessa
situação, acabo ficando preocupado até com a Suiren-san e o pessoal dela. Bem,
não é algo da minha conta, mas)
O outro lado é uma streamer de destaque, uma estrela dos
dias de hoje. É muita presunção um peão de vendas incompetente, que só
conseguiu sair da situação usando táticas quase como chantagem, ficar se
preocupando, mas ele ainda sentia uma leve ansiedade.
(Esse
tipo de coisa nojenta deve existir em qualquer indústria)
――Ele ainda tinha o mínimo de consciência limpa para torcer
para que crianças não fossem envolvidas nisso.
(Se eu tiver a chance, será que eu deveria pelo menos
avisá-la? É um saco, mas não tem jeito, né)
Só de
pensar em como limpar a bagunça dessa vez a cabeça dele já doía, e agora ganhou
mais uma semente de preocupação.
「A-ah, muito obrigadaaa! Você me salvou!」
「Tudo
bem. Dito isso, como o projeto foi por água abaixo...」
Talvez finalmente caindo na real de que foi salva, Ukai
tremia enquanto caminhava trotando atrás de Satou. Andando um pouco à frente
sem olhar para trás, Satou soltou outro suspiro profundo.
「――Vamos nos preparar pro esporro monstro que o presidente
vai dar na gente, né?」
「Pois é......」
A mão
que ele segurava foi solta no exato momento em que passaram pela entrada da
DOOM Pro.
Sem nem perceber a Ukai, que segurava com melancolia a
própria mão onde a sensação do toque ainda persistia, Satou pensava no que ia
acontecer dali pra frente.
Relatar
o ocorrido para o superior era o óbvio, mas ter que dizer que a visita de
vendas em que apostaram o destino da empresa falhou completamente era, de fato,
algo que pesava. Provavelmente levaria alguma punição vinda de cima, mas bom――.
「Se a empresa falir, não vai ter punição nem corte de
salário mesmo, então talvez dê na mesma.」
「Eu acho que isso é péssimo por outros motivos, Satou-san!」
「É, né.」
Será
que ele já devia começar a preparar o currículo e as fichas de inscrição?
「A culpa não é sua, Satou-san. Você me protegeu, não foi!?
Punição é o caramba......」
「Bom, na base da coisa, o cara que sugeriu o teste do sofá
é 100% o errado da história, mas...」
Se o
mundo girasse só na base da correção moral, com certeza o mundo continuaria em
paz.
Se reportar esse caso para cima, a probabilidade mais alta é
de aplicarem uma punição severa no Satou e, usando isso como ritual de purificação, o superior vai lá pedir desculpas
pra selar a paz. Olhando pela relação de poder, uma editorazinha minúscula
prestes a falir não tem fôlego para morder a maior empresa da indústria, e se
cutucarem a história do teste do sofá com jeito, talvez até consigam arrancar
algum projeto.
A justiça está do nosso lado.
Porém, justiça sem poder não tem sentido――.
「Ainda não pensei direito, mas...... depois de levar
esporro do presidente, acho que é procurar um emprego novo, né?」
「Não fale isso como se fosse uma frase de efeito! Eu vou
protestar com certeza, pode apostar!」
Escondendo o choque interior, o salaryman andava com cara de
quem achava tudo um saco, seguido pela sua kouhai.
Os olhos que olhavam aquelas duas figuras lá de cima ――
cheios de malícia, raiva e humilhação, os dois foram embora sem sequer
perceber.
❸
O Lutador do Assédio Sexual das Chamas
Mesmo horário — Dentro da DOOM Production
〝Dokky Kinya〟
Os legados da Dungeon, produtos variados que aplicam magia,
agora estão naturalmente integrados à vida social.
Aqui, o ar-condicionado instalado na sala de reuniões da
DOOM Production é o modelo mais moderno que aplica magia. Graças à pedra mágica
de gelo incorporada como refrigerante, o consumo de energia é de um terço e a
capacidade de resfriamento é o dobro.
Embora um limite tenha sido definido para evitar acidentes,
se usado ignorando as restrições, é possível resfriar a sala de reuniões
inteira ao nível de um congelador. Embora a aparência externa não tenha mudado
muito, o mundo estava mudando.
「………
Satou, da Editora Bouken. Não fode, não fode comigo, viu...!?」
Um som
como algo fervendo borbulhando. Na sala de reuniões climatizada, um homem rosna
diante de um único cartão de visitas. Dentro da garrafa PET em sua mão, a água
fervente evaporava, e um leve vapor subia.
A fonte desse calor era a palma da mão do homem —— um
fenômeno secundário da sua Main Skill 【Fire Magic A】. Como um efeito
colateral da habilidade de manipular chamas livremente, seu corpo, que emitia
alto calor junto com a exaltação das emoções, estava chamuscando o terno de
abotoamento duplo por dentro.
「Uwa,
quente!? Kinya-san, o que houve!?」
「…… Ah?」
Um
jovem trabalhador de meio-período que entrou na sala de reuniões se assustou, e
Dokky Kinya o encarou com um olhar afiado.
Um freeter que é um ex-aventureiro fracassado. Embora
existam muitos aspirantes, o negócio de aventureiro tem muitos desistentes. Por
mais que a ressurreição seja possível, o cotidiano de experienciar a 《Morte》 de
forma simulada diariamente torna-se um estresse avassalador.
As camadas rasas, que são relativamente seguras, rendem
pouco. Se você subir o Level e seguir para as camadas intermediárias ou
profundas, os ganhos disparam, mas o nível de perigo salta ainda mais alto,
então aqueles que não conseguem acompanhar a luta acabam desistindo.
Este funcionário também é um desses desistentes. Ele entrou
em pânico diante de Kinya, que emitia calor com um ímpeto que ignorava o ar
frio do ar-condicionado, olhando alternadamente para o carpete e o papel de
parede que pareciam prestes a queimar.
「A-As
roupas não vão chamuscar? Isso é uma Skill, não é?」
「É
feita sob medida. É um item de luxo usando materiais de rato de fogo que você
não conseguiria comprar com o seu salário」
「Ah,
tem resistência a fogo então... Parece que o senhor está irritado, mas e o
vendedor da Editora Bouken? Ele já foi embora? Na verdade, me pediram para
chamá-lo um instante...」
「……
Aah!?」
Ao
ouvir o nome da empresa que menos queria escutar agora, veias saltaram na testa
de Kinya.
「O que
foi que disse? Quem mandou chamar aquele maldito vendedor?」
「N-Não
fique bravo comigo...! Eu só recebi o pedido. Parece que ela ouviu que o
vendedor da Editora Bouken viria para uma reunião hoje, e a Sui-chan disse que
queria tentar conhecê-lo...」
「A Sui-chan? …… Hah!? Como assim, por que a Siren com aquela
editora de merda!?」
「Eu não
sei! Não será porque ela é fã da 『Advestance』? Os artigos de
walkthrough parecem cópias do que tem no SNS, mas o mangá que eles serializam é
discretamente interessante」
「Ah…… é
mesmo?」
Enquanto
dava uma resposta vaga, Kachidoki Kinya, também conhecido como Dokky Kinya,
fazia sua cabeça fervendo girar.
Aquele maldito vendedor 4 olhos —— de acordo com o cartão de
visitas, Satou Keita. Embora eu estivesse desprevenido, foi um descuido convidar
a vendedora na frente dele. Mesmo sendo pequena, é a mídia; não seria estranho
se houvesse conexões horizontais.
『A Canhão
da Shuubun também é perigosa, mas hoje em dia escândalos envolvendo mulheres
são terríveis... Vou ser cancelado! Se chegar nesse ponto, quem vai ser
demitido sou eu, droga! …… Droga!!』
A era
em que aventureiros podiam ser foras da lei já terminou há muito tempo.
Logo após o desastre dos labirintos, a época do surgimento
dos primeiros aventureiros e a subsequente aurora foi caótica.
Uma era em que, para conter as Dungeons de cada região e
derrotar monstros incansavelmente para evitar uma grande invasão, desde pessoas
de origem suspeita e criminosos até vilões no limite da liberdade tornaram-se
aventureiros e agiram com violência.
Naquela época, os labirintos eram quase uma zona sem lei.
Afinal, mesmo que você matasse, eles não morriam. Embora não viesse a público,
o lugar era terrivelmente caótico com casos de violência sexual, furtos e
extorsão — embora não tanto quanto em outros países —.
(Naquela
época, apresentar uma mulher não seria problema nenhum. Era um tempo bom,
hein... Merda. A era em que se podia socar e comer uma guerreira com uma bunda
gostosa acabou...!)
Desde que você se comportasse bem na Stream, não havia punição
para as maldades feitas onde a câmera não alcançava. Não dava para prender cada
aventureiro precioso e, acima de tudo, os aventureiros não podiam ser
capturados pela força policial.
(Se eu acabar devendo um favor para o pessoal do submundo
por causa disso, não sei o quanto vão me sugar. Merda, merda! Tenho que
resolver isso com as peças que tenho em mãos, senão minha corda só vai apertar
cada vez mais!)
Uma
arrogância vinda justamente por conhecer aquela era —— mas, agora é diferente.
A chegada da Era das Grandes Aventuras. A ascensão da
geração Dungeon Native fez o número absoluto de aventureiros disparar, e os
privilégios de outrora foram perdidos. Existem substitutos aos montes;
criminosos agora são presos normalmente.
É o óbvio, se for parar para pensar. Especialmente para os
Labyrinth Streamers, que dependem da popularidade, a purificação está avançando
de forma rigorosa, e um escândalo pode ser fatal. Se assédio sexual e abuso de
poder já são grandes problemas, caso as intermediações de mulheres que Kinya
faz nos bastidores venham a público, nesse momento ——.
(Deu
ruim!! Deu muito ruim, é a ruína... a ruína!!)
Como
aventureiro, Kinya já está aposentado. Não doeria nada ter sua licença
suspensa. Mas, se os Streamers de quem ele cuidou das mulheres forem forçados a
suspender as atividades, isso geraria uma indenização por danos astronômica.
(Desgraça,
por que estou passando por isso? Eu só arranjei mulher para uns merdas que não
pegavam ninguém, não foi!?)
No
entanto, o próprio Kinya tinha consciência de que havia problemas nesse
processo.
Ele organizava festas que pareciam orgias convidando fãs
fervorosas de Streamers, ou mandava para o bordel vítimas que se tornaram quase
vegetais por terem servido de parceiras para quem manifestou sintomas de
aumento de libido; ele também lidava com drogas derivadas do labirinto.
(Mesmo
assim, não é ilegal, são produtos da Dungeon, então a regulamentação ainda não
foi feita. Não serei julgado pela lei, mas se eu sofrer um cancelamento, esse
tipo de desculpa não vai colar. Serei esmagado pelos paladinos da justiça...!)
Ironicamente,
quanto mais a popularidade dos Streamers aumentava, mais densa se tornava sua
sombra.
Inveja, ciúmes, comentários de haters, calúnia e difamação,
até a exposição de informações pessoais. Mais do que punições legais ou a perda
do emprego, o medo é se tornar alvo de um cancelamento e ser linchado. Se isso
acontecer, ele não conseguirá mais viver nesta indústria.
(Lascou,
lascou, lascou!! De algum jeito... tenho que calar a boca dele!!)
Seus
joelhos tremiam de ansiedade, fazendo a mesa da sala de reuniões balançar
violentamente.
Ao ver a agitação de Kinya, o jovem trabalhador de
meio-período perguntou intrigado:
「Err,
então, o que aconteceu com o comercial? A Sui-chan está esperando」
「Foi
embora. As condições não batiam, eu mesmo falo com a Sui-chan depois」
「Não,
não pode ser assim. Ah, esse aí é o cartão de visitas deles? Se quiser, eu
tento entrar em contato. A Sui-chan disse que queria fazer uma Collab...」
Foi no
momento em que o rapaz esticou a mão para o cartão de visitas.
…… Biki
biki biki!!
As veias de Kinya saltaram, o sangue ardente circulou por
todo o seu corpo —— e ouviu-se o som da sua racionalidade se partindo.
「Cala a
boca!! —— Silêncio!!」
「Gebu!?」
O punho
de Kinya afundou no nariz do rapaz que tentava pegar o cartão.
Como se tivesse sido marcado a ferro quente, a pele queimou
no formato dos nós dos dedos. Devido ao poder mágico das chamas que
transbordava de todo o seu corpo, a 【Passive Skill】 que adiciona um efeito
de bônus (+) a qualquer dano de ataque estava ativada o tempo todo.
「Nya,
nyariz... meu nyarizaaaaaa……! Dói, dói muuiiiitoooo!」
「Cala a
boca. Seu merda... não faça o que não deve」
É o tal do “orgulho de quem já teve seus dias de glória”. Kinya
intimida o funcionário que se contorce de dor segurando o nariz.
「Eu já
disse que ele foi embora, oei. Quem disse pra você fazer o que não deve? Não
importa o que a Sui-chan diga, o responsável sou eu. Não vou permitir uma
Collab com aquela editora de merda. Entendeu, ah?」
「H-H-Hyai...
i-isso, dói... a-ajuda...!」
「Me
deixou irritado pra cacete. Fica frio, eu te dou um Potion pelo menos.」
Kinya
tateia o bolso do terno e retira um remédio de cura.
O conteúdo dentro do frasco vermelho é um Magic Item que cura
feridas instantaneamente ao ser bebido. Por ser um item que pode ser obtido até
nas camadas rasas, o preço não é tão alto, mas ainda assim é um consumível que
não custa menos de 100 mil ienes a unidade.
「Vou te
curar direitinho, então —— vira meu Sandbag. Ah?」
「Gehoo!?」
Como se
estivesse descarregando sua frustração, um Body Blow penetrante perfurou os
órgãos internos.
O rapaz dobra o corpo em formato de “V” e vomita, sujando a
sala de reuniões. Enquanto enfiava o Potion na boca do sujeito que agonizava, Kinya
pegou um cigarro para acalmar a irritação e o acendeu com uma faísca produzida
pelo estalar de seus dedos.
Inspira,
expira... uma respiração profunda. Tragando repetidamente o cigarro que exalava
um aroma ácido peculiar, e enquanto pisoteava o funcionário que havia desmaiado
de dor mesmo com as feridas curadas, Kinya pegou seu Smartphone com resistência
térmica.
「Satou,
da Editora Bouken...」
Enquanto
entrava em contato com um certo contato na agenda.
「Vou te
esmagar pra você nunca mais abrir essa boca, Ossan.」
❹
O Oji-san Comum e a Falsa Acusação de Abuso
Final da tarde do mesmo dia — Em frente à entrada da
Editora Bouken
〝Satou Keita〟
「Fomos xingados com uma vontade absurda, hein. Como eu já
previa」
「Se a
empresa falir, a culpa vai ser nossa...?」
「Não
vai, não」
Após o
fracasso na negociação com a DOOM Pro, o que esperava Satou e Ukai ao
retornarem à empresa era —— um sermão.
Ukai estava com os olhos marejados após os gritos do
presidente, que estava possesso. Ao lado dela, Satou pensava no que comeria no
almoço, enquanto o gerente comercial, com uma expressão amarga, tentava
intervir de vez em quando para um “pouso suave”; essa farsa improdutiva se
estendeu até o anoitecer.
No fim, decididos de que o trabalho não renderia mais, eles
saíram do escritório um pouco depois do horário comercial. Satou e Ukai
começaram a caminhar lado a lado em direção à estação, sem que nenhum dos dois
precisasse dizer nada.
「Eram
condições impossíveis desde o começo, e uma empresa que tenta sobreviver
sacrificando a castidade de seus funcionários como oferenda não tem valor para
existir. É melhor para o mundo que ela quebre logo」
「Satou-san,
você diz coisas terríveis com essa cara tão calma...」
「Procurar
emprego é um saco, mas não pretendo facilitar minha vida sacrificando pessoas
para isso」
O gosto
na boca não era apenas ruim. Felizmente, sobre a proposta de Teste do Sofá, ele
explicou tudo detalhadamente a gerente e obteve compreensão sobre como as
coisas chegaram ao rompimento. E isso foi graças ao ——.
「Ter
preparado o gravador de voz ajudou bastante. A explicação para a Buchou foi bem
fluida」
「Eu só
queria não esquecer o conteúdo da conversa, tipo uma ata de reunião, mas...」
「Da
próxima vez, peça permissão à outra parte sobre a gravação. Sem permissão, não
podemos usar como prova」
No
gravador que a séria Ukai deixou ligado, a voz de Kachidoki Kinya sugerindo
indiretamente o Teste do Sofá estava perfeitamente registrada. A gerente, ao
ouvir tudo do início ao fim, ficou furiosa e disse que iria protestar.
「Foi a
primeira vez que vi o presidente desde a entrevista de quando entrei na
empresa... Ele era daquele jeito, é?」
O
presidente, adepto do “deixa disso”, barrou o protesto, e a reunião virou uma
confusão. O que resultou em uma saída no horário regular, algo impensável em
meio a um cenário de crise.
「Ele
quase nunca vem à empresa. Se ele apenas pagar o salário, por mim tudo bem」
O presidente da Editora Bouken é apenas um sucessor de
segunda geração que herdou o cargo do pai, o fundador.
Ele delega todo o trabalho prático aos diretores que vieram
da gestão anterior e passa os dias vivendo no luxo com seus honorários de
diretoria.
「O
fundador era um homem enérgico. Ele dizia coisas absurdamente irracionais, mas
como ele próprio trabalhava tanto quanto exigia... era difícil reclamar. Era o
típico salaryman fervoroso da era Showa」
「Ouvi
dizer que, após a morte dele, quase toda a diretoria da época se demitiu...」
「Eram
pessoas que se reuniram pela virtude pessoal do fundador. Foram mudando de
emprego ou abrindo seus próprios negócios um após o outro, e os veteranos que
restaram são apenas alguns poucos que não tinham para onde ir」
Satou era
um deles.
Embora não tenha subido na hierarquia, ele era um dos
envolvidos que presenciou a ascensão e queda da Editora Bouken.
「O
gerente de edição estava chorando de verdade... Ele disse que, se continuar
assim, na semana que vem terá que pedir o impossível para o autor do mangá
serializado e enrolar com um capítulo de páginas extras gigantescas」
「Aquele
autor vai ficar bem, ele é um veterano. Consegue segurar as pontas por uma ou
duas semanas」
Satou
lembrou-se da época em que havia mais gente no departamento comercial e ele era
convocado para ajudar no departamento editorial.
Era quando Satou ainda era um novato. O mangá que ele ficou
responsável era um de comédia com desenhos terrivelmente desleixados, mas ——.
「A arte
é fatalmente ruim, e não dá para distinguir a garota bonita do protagonista a
não ser pelas roupas. Quase não tem história, e às vezes o conteúdo desta
semana é o exato oposto da semana passada」
「…… Eu
não li, mas agora fiquei com vontade de ler」
「Pois
é. Ele tem fãs ferrenhos, então deve aguentar umas duas semanas no limite」
O
resultado seria uma exploração cruel de trabalho, mas felizmente o autor era um
viciado em Social game e Pachinko. Como nunca tinha dinheiro suficiente, era um
talento raro que podia ser fisgado facilmente com um bônus no pagamento dos
originais.
「Mas é
o último recurso. Se não encontrarmos um Streamer para promover nessas duas
semanas ganhas sacrificando o autor, o combo infernal de encerramento da
revista e falência será certeiro」
「Isso é
péssimo...! Uuu, agora que a DOOM Pro também já era, o que vamos fazer...!?」
Ukai
caminhava segurando a cabeça. Ao lado dela, Satou pensava com um semblante
indiferente.
「Bom,
daremos um jeito. Se métodos baixos servirem, eu tenho uma carta na manga」
「Uma
carta... na manga?」
「Escândalos
envolvendo mulheres, incluindo a DOOM Pro, vão sair na semana que vem. Será uma
carona na Canhão da Shuubun, mas se escrevermos fofocas qualquer colhidas de
pessoas relacionadas, pelo menos conseguimos preencher as páginas」
De
certa forma, era uma mudança de diretriz que cuspia totalmente no conceito de
fundação da revista semanal de aventuras 『Advestance』, que visava dar sonhos
aos jovens que aspiram ser aventureiros, mas a necessidade não conhece leis.
「Fofocas
vendem bem e combinam com o público que compra nossa revista em lojas de
conveniência. Para pessoas que acham até busca na internet um saco,
conseguiremos lucrar razoavelmente」
「Sobre
isso...」
Ukai de
repente baixou a voz, cobrindo a boca com a palma da mão enquanto perguntava.
「Satou-san.
Aquela história da Canhão da Shuubun... é verdade?」
「É um
boato incerto no nível de rumor da indústria. Seria impossível para nós
fazermos uma matéria própria com isso」
Mas é
fato que a Shuubun, uma revista semanal especializada em escândalos, está se
mexendo.
A parte cara de confirmar fatos e entrevistar envolvidos,
eles farão. Era uma conversa sem orgulho, mas Satou previu que, mesmo sendo uma
matéria de “carona”, conseguiriam atrair certa atenção.
「Eles
estão fazendo isso para valer. Eu não achava que seria tão descarado assim」
Comparado
a escândalos onde todos saem infelizes, pensar que o alvo é um vilão de verdade
trazia certo alívio. Dava um desânimo ao pensar no sentimento da vítima que
teria sua ferida cutucada repetidas vezes, mas havia a possibilidade de cuidar
disso através das páginas da revista.
「Não tenho a intenção de bancar o bom moço falando de
justiça social. Mas, esse tipo de consciência de Compliance antiquada deve ser
levantada como um problema, e quem tem o rabo preso é quem está errado」
「……Sendo
a maior empresa e eles agem assim, né. Será que a Sui-chan e as outras estão
bem?」
「Eles
não fariam algo tão descarado com menores de idade. Se por acaso estiverem
fazendo, é o fim para eles」
Fui
apenas fazer o trabalho do comercial, mas acabei tendo que expor as trevas da
indústria. Sinceramente, me poupem.
(Se ele tivesse recusado normalmente, a coisa
teria acabado ali... Que merda ele foi fazer, aquele desgraçado)
Qual
era mesmo o nome dele, já estou quase esquecendo. O responsável com cara de
porco. Se as condições não batiam, era só recusar logo que a questão estaria
resolvida, mas por ter mostrado suas segundas intenções as coisas ficaram
estranhas.
(Bom,
daremos um jeito. Na pior das hipóteses é só procurar emprego, não é como se eu
fosse morrer)
Comparado
ao período mais sombrio da Editora Bouken, com os infernais cento e cinquenta
dias de trabalho contínuo, a situação é relativamente brilhante.
Enquanto pensava nisso ——
「Com
licença... Satou-san! Você está livre esta noite?」
「Hã?」
「Como
agradecimento por antes... N-Não quer ir beber...?」
Talvez
por estar caminhando enquanto pensava, antes que percebesse, já estavam perto
do prédio da estação.
Um barzinho de rede recém-aberto, com poucos clientes lá
dentro, era para onde a corada Ukai apontava. Com uma das mãos, ela beliscava
discretamente a manga do terno de Satou, apelando com toda a sua coragem.
(Ah,
ela está preocupada com o fracasso da negociação comercial? Tão séria, hein)
Mas o
coração de donzela que escondia a timidez, Satou não percebeu.
「Está
tudo bem. Não se preocupe com isso」
「Mas,
mas, assim eu não me sinto bem...」
「Proteger
os colegas também faz parte do trabalho. Não precisa se sentir em dívida comigo」
Tendo feito apenas o óbvio, não havia motivo para receber
bebida de graça, e Satou odiava criar dívidas com os outros. Ele já tinha visto
inúmeros exemplos onde esse tipo de dar e receber invisível se acumulava e
evoluía para problemas.
(Logo
numa saída cedo tão rara, beber com um Ossan como eu seria um jogo de punição)
Além
disso, havia um motivo para recusar —— um compromisso inadiável.
「Na
verdade, tenho um compromisso para o jantar. Planejo ir direto para lá agora」
「Eh?
Isso, por acaso... u-um encontro!? Tipo caça ao casamento!?」
「Não é
isso. Minha Nee-san e minha sobrinha me pediram muito para jantar fora」
Durante
o sermão inútil, ele reconfirma a tela do aplicativo de mensagens que havia
chegado.
『Oji-san!
Vamos num encontro♪』
『Claro que a mamãe também vai junto. O lugar é~, aquii♪』
Na sala
de bate-papo 《Oji-san
e Eu》
—— a sala para se comunicar com sua sobrinha, duas novas mensagens haviam
chegado, com a URL do estabelecimento anexada.
Um Beer Hall de luxo em Ginza. Dentro de um edifício
histórico, podia-se relaxar e aproveitar cervejas King Size e petiscos focados
em salsichas, era exatamente o tipo de estabelecimento tradicional ao gosto de Satou.
(Você
sabe das coisas, Nee-san. A cerveja parece deliciosa... irresistível!)
A
caneca dourada refletida na foto de apresentação do lugar. A salsicha clássica
também é boa, mas aqui, se atrever a fugir do padrão com um cozido de miúdos
cheio de cebolinha também é irresistível. Para as jovens, frango frito ou bife
acompanhado de bebida Non-Alcohol.
Ter esse jantar Gorgeous com a família, só de imaginar
parecia que o estresse ia ser soprado para longe. Para Satou, que sorria
silenciosamente com o Smartphone na mão, a levemente decepcionada Ukai sorriu
de volta.
「Você
parece que vai ser um bom pai, Satou-san. ……Que inveja」
「Hahaha,
eu não tenho oportunidades para isso. Então, até mais」
「Ah,
sim. ……Bom trabalho」
Sem notar a inveja adicionada no final, ele se despede da
sua angustiada Kouhai e começa a andar.
Enquanto
seguia pelo caminho que levava à plataforma da estação —— um sentimento de
culpa brotou, pensando se não havia sido frio demais.
(Será
que eu fui muito frio? Espero que ela não tenha ficado ofendida)
Mesmo
assim, como um Oji-san que já passou dos quarenta, beber a sós com uma
funcionária jovem é um pesadelo. Cabines fechadas então, estão fora de questão,
se você for processado, você perde. Não é que ele não confie nela, mas quanto a
isso, é a realidade.
Tocou o IC Card na catraca e embarcou no trem que o levaria
ao seu destino. Não conseguiu garantir a melhor posição de um escravo
corporativo, o canto ao lado da porta, e foi empurrado pela multidão de pessoas
que embarcava, sendo espremido para dentro do vagão lotado.
(O
lugar é em Ginza, o encontro é às oito. Desse jeito acho que vou me atrasar)
Gatan
Goton, o interior do trem balançando. Embora o pico de retorno do trabalho já
tivesse passado, a linha circular que percorre o centro da cidade estava lotada
como sempre, e o ar quente e úmido cheirava a mofo.
Afrouxando a gravata em busca de alívio, ele segura o suporte
de segurança. Olhando levemente ao redor, viu a figura de uma jovem que parecia
ser uma OL de estilo tranquilo. Exatamente na curta distância de Satou, ela
vinha sendo empurrada por estar sendo espremida pelos passageiros.
(Isso
não é bom, isso é ruim. Se causarmos algum mal-entendido, tô lascado)
Para um
Oji-san, um falso caso de assédio sexual é o equivalente a uma sentença de
morte. A menos que consiga fugir com sucesso, sua vida social morre, e mesmo
que consiga fugir, se for procurado na linha que costuma usar no dia a dia, ele
morre.
Engolindo o sentimento de incômodo, ele toma o máximo de
distância possível da mulher. Talvez porque a pressão das pessoas tenha
diminuído um pouco, a mulher soltou um suspiro de alívio. Desse jeito, ele
prendeu sua bolsa entre as pernas e agarrou o suporte de segurança com as duas
mãos.
O ponto é levantar as mãos de modo que fiquem visíveis para
os arredores. Hoje em dia, só respirar perto de uma mulher já é assédio sexual,
você pode ser processado dizendo que estava cheirando ela. Somente depois de
chegar a esse extremo é que um Oji-san pode se acalmar dentro de um trem.
(Yare yare, que sufoco. ……É justamente em dias como esse que a
cerveja é deliciosa)
Enquanto
segurava o suporte de segurança como um zumbi, sua mente estava focada
unicamente no jantar com a família.
(Ser
bancado em Ginza, a Nee-san está próspera. Com a Hikari-san presente, eu acho
meio estranho ir para um Beer Hall, mas enfim)
Pensando bem, qual será o trabalho da Nee-san? Como ela
sempre diz que faz hora extra e chega tarde todas as noites, eu tinha quase
certeza de que era Omizu( É o termo guarda-chuva para a indústria do entretenimento
noturno japonês. Isso inclui Hostess Clubs (onde mulheres são pagas para
servir bebidas, acender cigarros e conversar/flertar com clientes),
Kyabakura (cabaret clubs), Snack Bars e Host Clubs (versão
focada em clientes femininas)), algum tipo de trabalho de atendimento
noturno, e por isso evitava investigar a fundo.
Esta noite, se tivermos tempo para conversar enquanto
bebemos, será uma boa oportunidade; talvez seja uma boa ideia dar um passo além
e perguntar. Sendo a minha própria Nee-san, eu confio nela, mas ainda assim me
preocupo um pouco.
(Parece
que vou poder beber tranquilamente depois de muito tempo. ……Vou de King Size,
com certeza vou beber……!)
Só de
imaginar, já começo a salivar. Como trabalho amanhã também, não poderei beber
até cair, mas a minha humanidade, desgastada pelos dias de trabalho Black,
morrerá se eu não a recuperar em ocasiões como esta.
No ar quente e úmido, em meio ao desconforto de ser
espremido pelas pessoas, uma cerveja estupidamente gelada é a minha única
salvação. Diante da ilusão de umedecer a garganta, meu rosto relaxou sem que eu
percebesse, e ao engolir a saliva, minha garganta fez um barulho alto.
「……Você!
É flagrante, você sabe, não é? Desça na próxima estação!」
「Hã?」
Tendo o
ombro tocado de repente, Satou virou-se naquela direção.
No meio da multidão, um homem apontava a câmera de um
celular para Satou. Um sujeito que parecia o típico jovem de boa índole, sem
gravata, aderindo ao Cool Biz(Cool Biz: Uma campanha do governo japonês
para que os trabalhadores (salarymen) deixem de usar terno completo e gravata
no verão rigoroso, vestindo roupas mais leves e confortáveis no escritório.)
. Com um penteado que passava uma sensação de limpeza e sendo alto, a impressão
que dava era a de que se poderia chamá-lo de um Ikemen. (Ikemen (イケメン):
Gíria muito comum para um cara “boa pinta”, “galã” ou “bonitão”.)
E, no Smartphone que o homem erguia ——.
「Fazendo
essa cara de pervertido... Eu vi, no momento em que você estava pressionando a
virilha num lugar onde não dá para ver!」
「……Não,
isso, é que eu estava apenas pensando em cerveja」
O
sorriso relaxado ao imaginar uma cerveja geladinha no meio daquele calor úmido
estava refletido na tela junto com as costas da passageira de estilo OL, e
certamente, olhando apenas para a imagem, até poderia parecer que ele estava no
meio de um ato obsceno…… mas.
「Como
pode ver, estou segurando o suporte de segurança com as duas mãos. Não tem como
eu tocar」
「Muitos
dos assédios sexuais recentes não usam as mãos e pressionam a virilha contra as
mulheres. Não é verdade?」
「Mesmo
que me peça concordância, eu não sei disso. Só posso dizer que essa acusação
não tem o menor fundamento」
A
intenção do homem era desconhecida. Porém, a voz exageradamente alta parecia
teatral, como se ele estivesse anunciando com exagero a situação atual para os
passageiros dentro do trem.
「……Com
licença」
Uma voz
gentil soou de repente.
Uma mulher esbelta erguendo a mão timidamente. Era a mulher
de estilo OL que também aparecia na foto daquela falsa acusação de agora há
pouco. Em meio ao traje mais discreto, um colar de destaque e óculos de armação
vermelha davam um toque de estilo.
「Eu não sofri nenhum assédio. ……É um engano」
Como se
quisesse abafar o apelo da mulher, o homem gritou.
「Você
está sendo enganada!」
「……Hã?」
「Você
nem percebeu que estava sendo tocada, pobrezinha. Mas fique tranquila, eu
cheguei! O aliado de todas as mulheres, com trinta e oito mil inscritos —— 《Mamoru-kun,
o Erradicador de Tarados》!」
Com um
ar de perplexidade, a mulher piscou várias vezes.
Um sorriso brilhante a ponto de ser suspeito, movimentos
exagerados e a brancura dos dentes da frente com clareamento. Sentindo uma
semelhança com o cara de porco com quem havia se desentendido esta manhã, Satou
deixou os ombros caírem, exausto.
(Mais
um desses, é... Definitivamente, não estou com sorte)
Deve
ser o que chamam de Streamer do tipo “Prisão Cidadã”. A maioria atua como
Meiwaku-kei Streamer[1],
e para aumentar o número de visualizações simultâneas que se convertem em renda
como Super Chat, tentam se destacar de todas as formas possíveis.
Se fossem só coisas pacíficas como Gameplay ou apresentação
de viagens, estaria tudo bem. O problema era esse tipo de gente que fingia ser
a justiça social, uma existência que atraía mais problemas do que a categoria
focada em causar incômodo que podia ser denunciada diretamente.
「Por
enquanto, que tal me mostrar a sua identidade? Não fuja, a polícia também está
do meu lado, viu?」
「Haa……」
Apesar
de dar uma resposta vaga, honestamente Satou não tinha a menor intenção de
obedecer.
Para começar, era uma acusação falsa, e com que autoridade
ele estava exigindo a apresentação da identidade? No ambiente agitado ao redor,
em meio a Smartphones apontados sem a menor consideração e sussurros trocados
às escondidas, a sensação de constrangimento só aumentava.
「Não
tenho motivos para obedecê-lo. Para começar, eu não fiz nada」
「Isso
mesmo. É um engano, e esse video, você poderia apagá-lo?」
Quando
Satou disse isso, até mesmo a mulher que deveria ser a vítima o seguiu. Mas
Mamoru-kun, o Erradicador de Tarados, encolheu os ombros bem ao estilo
americano, lamentou de forma exagerada e gritou Wow!.
「Você
não está entendendo. Isso é pelo bem da sociedade, é para a erradicação dos assediadores
Oji-san sujos, sabia?」
Como se
estivesse repreendendo uma criança que tem dificuldade em entender as coisas,
com um olhar de superioridade.
「Eu entendo
que seja vergonhoso, mas é para não aumentar o número de vítimas. Pare de
proteger esse criminoso vulgar, crie coragem e vamos à polícia. Está tudo bem,
eu sou o seu aliado!」
「……!?」
Sendo
pressionada com tamanha intimidade, o rosto da mulher se contorceu em
desconforto por um instante.
Ela parecia reservada e dócil, mas não parecia ser do tipo
que se deixava enrolar facilmente. Pelo contrário, sua sensibilidade em achar
suspeito um homem que enfileirava palavras bonitas coincidia com a de Satou.
(Nesse
caso, dá para ir. ……Parece ter mais chances do que fugir)
Gatan,
o interior do trem balança. Percebendo pela desaceleração do trem que estavam
se aproximando da estação de parada.
「……『Vou me
atrasar porque houve um problema』」
「Você!
Não mexa no Smartphone sem permissão, está planejando destruir as provas!?」
「Eu só
enviei uma mensagem. Pode não falar tão alto?」
Enviando
uma mensagem para Hikari, que provavelmente estaria esperando no destino, Satou
guardou o Smartphone e se virou.
「Com
licença, poderia me ceder um pouco do seu tempo?」
「Eh……?
Ah, sim. Tudo bem」
Seus
olhos se encontraram com os da mulher que respondeu. O olhar era direto, mas
talvez por não conseguir ver os detalhes, ela estreitava os olhos. Ajustando-se
a ela que suspirou levemente “Nn”, Satou inclinou um pouco a postura e anunciou
de forma que os arredores também pudessem ouvir.
「Peço
desculpas, mas poderíamos descer na próxima estação? Vamos conversar com o
funcionário da estação」
Zawa
zawa, a sensação das pessoas ao redor prestando atenção.
「Eu não
cometi assédio. Ficarei grato se puder testemunhar isso」
「Sim.
Vamos deixar as coisas claras」
「……Tch」
Quando
o acordo entre os dois foi estabelecido, um leve estalar de língua pôde ser
ouvido.
Logo em seguida, os freios foram acionados com força e o
trem parou. Das portas abertas, os passageiros começaram a descer, e no fluxo
de pessoas que se formou, o homem que se autodenominou Mamoru-kun os seguiu
como se estivesse pegando carona.
「Ah,
espera um pouco」
「Pessoal,
este homem é um assediador sexual! Olhem por favor, este homem é um assediador
sexual!」
Gritando alto dessa maneira, o homem se misturou
sorrateiramente à multidão.
(……Eu
até poderia correr atrás e pegá-lo, mas né)
Honestamente,
seria muito trabalhoso. Considerando a falta de sentido daquela conversa, mesmo
que eu o pegasse e o entregasse ao funcionário da estação, provavelmente
terminaria apenas com uma advertência por comportamento incômodo. E me irrita
virar material para vídeos.
Por enquanto, seguindo a onda de passageiros, desci na
plataforma, e a mulher me seguiu. Enquanto nós dois ficávamos parados até o
fluxo de pessoas se acalmar, sussurros sorrateiros podiam ser ouvidos de todos
os lados.
「Aquele
Ossan, disseram que é um assediador」
「Eeh,
que nojo~. Devia morrer」
「Não
sei direito, mas esses caras que parecem sérios são os mais pervertidos, né~」
Passageiros
que ouviram os gritos do Mamoru-kun, o Erradicador de Tarados, ou talvez.
(……O
Timing é bom demais, e as vozes estão muito altas)
Esses
sussurros feitos para serem ouvidos até parecem ser um apelo para as pessoas ao
redor. Quando Satou olhou de lado, os três que estavam difamando erguiam seus
Smartphones, se afastando enquanto gravavam vídeos.
(Todos
são Sakura[2]...
Equipe daquele cara chamado Mamoru-kun?)
Confirmando
que os três desapareceram da plataforma, ele formula uma imaginação
desagradável.
Se conseguissem armar uma falsa acusação de assédio sexual
dentro do trem, ótimo. Se falhassem, eles incitariam, fugiriam e gravariam a
reação dele após ser provocado para usar como material. Deu para ler essa
estratégia covarde de duas etapas.
(Preparado
demais. Se fosse apenas para um canalha incômodo ganhar tempo de tela, tudo
bem, mas)
Infelizmente,
ele tinha uma lembrança perfeita de algo que poderia atrair rancor durante a
manhã de hoje.
Kinya da DOOM Pro tem conexões horizontais com grupos de
Streamers. Usar um Streamer como esse autoproclamado Mamoru-kun como peão seria
bem possível, e se fosse esse o caso...
「Desculpe-me.
…… Lhe causei problemas」
Dizendo
isso à mulher, ele curva a cabeça. Porque pensou que talvez fosse ele quem a
tivesse envolvido nisso.
Mas a mulher balançou a cabeça de um lado para o outro,
parecendo, pelo contrário, se preocupar com ele ——.
「Não,
eu que deveria pedir desculpas e... além disso, muito obrigada por aquilo
dentro do trem」
「Hã?
Não tenho lembrança de ter feito algo」
「Dentro
daquele trem apertado, você não abriu espaço para mim? Graças a isso, fiquei um
pouco mais confortável... e também por causa disso, eu pensei que com certeza
você não era um assediador」
(Não,
eu só não queria ser confundido com um assediador... embora tenha sido inútil)
Porém,
não tinha como dizer essa verdade a uma mulher que estava agradecendo.
「Você
parecia não estar se sentindo bem, então fiz apenas o óbvio. Pelo contrário, lhe
causei problemas」
「Não, é
sobre isso também. ……O fato de uma pessoa daquelas ter vindo arrumar confusão,
talvez」
Dizendo
isso, a mulher segurou a haste dos óculos e retirou a armação vermelha.
(……A
impressão do rosto dela muda bastante)
Sentiu
como se os próprios olhos tivessem ficado um pouco maiores.
A atmosfera reservada que parecia de um trabalho
administrativo de repente pareceu desabrochar.
「O alvo
pode ser eu. ……Porque tenho uma ideia do motivo de estar sendo perseguida」
「Que
coincidência, eu também. É um ressentimento injustificado, porém」
Um
olhar digno. Enquanto desviava o olhar como se para aparar aquele brilho
intenso, Satou respondeu.
Provavelmente, tirar os óculos foi um ato que exigiu certa
determinação por parte dela. Surpresa com tamanha frieza e falta de interesse
de Satou, ela o encarou fixamente.
「Eh? ……O
qu, você não me conhece?」
「Nem um
pouco. Pode ser que você seja uma celebridade ou tenha alguma circunstância do
tipo, mas……」
Para a
mulher que piscava, Satou murmurou com o rosto cansado.
「Para
ser sincero, sou ignorante nessas áreas. A única coisa que sei é que você é uma
mulher sincera」
Se
quisesse evitar problemas, ela poderia simplesmente ter fugido deixando Satou
para trás.
No problema de Satou com o Mamoru-kun, o Erradicador de
Tarados, ela foi praticamente arrastada para o meio da confusão. Apesar disso
—— se a avaliação de Satou de que ela era uma celebridade ou algo do tipo
estivesse correta, ela o ajudou mesmo sabendo que estaria se aprofundando em um
problema.
Exatamente por entender essa sinceridade —— não tenho
vontade de saber a verdadeira identidade dela, nem coisas do tipo, e nem
pretendo investigar. Mais do que curiosidade, era por acreditar que devia
manter a coerência.
(Porque
um comercial que não cumpre promessas é pior que lixo)
Não
tenho orgulho do meu trabalho ou algo assim. Sou apenas um Salaryman que sofre
com o trabalho Black. Mas não me lembro de ter desgastado a minha humanidade a
ponto de não conseguir manter a coerência e cumprir com as minhas obrigações.
「……Você
também. É uma pessoa muito…… direta, não é?」
Kusuri,
a mulher solta um leve sorriso.
Como no momento em que pessoas que quase se esbarram
desajeitadamente cedem o caminho uma à outra, e sentem uma certa proximidade.
「Não
sou nada de tão alto nível assim. Sou um homem comum, que você encontra em
qualquer lugar」
「Será
mesmo? Então…… digamos que eu também seja uma OL comum, que se encontra em
qualquer lugar」
Era um
sorriso radiante. Acostumada a ser observada, um comportamento encantador
estava naturalmente enraizado nela. Porém, Satou não desfaz sua expressão
plana, como se dissesse que não se importa.
「Sendo
assim, na verdade, tenho um compromisso. Como parece que vou me atrasar, com
licença」
「Acho
que será mais rápido esperar o próximo trem. Usar táxi também sairia caro」
「……É
verdade, mas me sinto constrangido de esperar o trem ao lado da pessoa a quem
causei uma experiência desagradável」
「Não se
preocupe com isso. Faltam apenas alguns minutos até o próximo chegar……」
Como se
quisesse insinuar algo, a mulher tirou o Smartphone da bolsa.
Uma capa de Design chique e elegante. É um produto original
de uma fabricante de Smartphones de luxo que Satou também conhecia. O preço era
nada menos que um mínimo de 500 mil ienes, e contava com resistência a água,
poeira e impactos, sendo um produto aplicado com tecnologia da Dungeon ——.
「Seria
um problema se houvesse alguma confusão de agora em diante. Que tal…… trocarmos
contatos?」
O
Smartphone da mulher, o papel de parede da tela inicial era a figura de uma
mulher fazendo pose, que parecia ser uma Labyrinth Streamer.
Algo familiar —— que enroscava num canto da memória. Mas,
sem que Satou percebesse o seu significado.
(……Trocar
contatos com uma mulher que acabei de conhecer por acaso? I-Isso é tenso…… É
algum tipo de armadilha?)
No
fundo, ele odiava muito a ideia. Aproximar-se tanto logo no primeiro encontro
não é normal.
Satou queria ser cauteloso, se possível, gostaria de começar
como Meru-tomo[3],
por três anos e ir se acostumando aos poucos.
(Mas,
considerando a possibilidade de sofrer uma falsa acusação de assédio sexual, eu
deveria trocar aqui……)
O medo
de uma falsa acusação de assédio sexual venceu a cautela de um introvertido.
Seria bom se não houvesse nada por trás do incidente de agora a pouco, mas se
fosse um assédio daquele cara com rosto de porco cozido da DOOM, havia o risco
de que ainda continuasse.
「……Entendido.
Então, vamos trocar…… como é que se faz isso, hein?」
「Er, eu
também não sou muito boa com Smartphones, mas…… acho que é a partir da tela de
configurações」
Em meio
ao vento de verão da capital, abafado e com cheiro de mofo, soprando
lentamente.
O desajeitado Oji-san e a mulher que parecia comum e
reservada, conversaram por um breve momento.
❺
O Oji-san, a Sobrinha e o Beer Hall (Menores de idade bebem Non-Alcohol)
Noite do mesmo dia — Em frente a um certo
Beer Hall
〝Satou Keita〟
Dizem que o Ginza Leon é um Beer Hall
tradicional que existe desde a era Meiji.
A fachada de tijolos vermelhos exala
tradição, mas também tem um calor de parque temático, sendo um lugar famoso
onde não só adultos, mas também crianças podem desfrutar da tradicional comida
alemã e de Soft Drinks.
Em uma loja de conveniência muito próxima à
entrada, havia uma colegial sozinha com cara de quem estava esperando alguém.
Satou Keita chamou a pessoa que havia escolhido uma revista aleatória da
prateleira e a folheava para passar o tempo.
「Desculpe, me atrasei. Tive um
pequeno problema」
「Ah, Oji-sa~n! Finalmente
chegou, aconteceu alguma coisa?」
「Se eu for contar, a história vai
ficar um pouco longa」
Diante da sobrinha colegial com quem havia
marcado de se encontrar, Amahara Hikari, Satou deixou os ombros caírem
levemente.
Após trocarem contatos, repensando que seria
melhor relatar ao funcionário da estação por precaução, os dois foram à sala
dos funcionários, explicaram a situação e relataram a realidade de serem
vítimas de falsas acusações por parte de Streamers mal-intencionados.
「……A reação deles foi tipo
"Aquele cara de novo, é?". Parece que ele já causou incidentes
semelhantes várias vezes」
「Uwa, que nojo!? Foi um grande
desastre, hein, Oji-san……」
「Exatamente. ……Dá desgosto viver
num mundo onde não se pode nem andar de trem em paz」
Diante de Hikari, que mudou de expressão ao
ver que o conteúdo do problema era mais sério do que imaginava, ele levantou
dois dedos onde ela não podia ver.
(「2」……. Bom, espero que não aconteça
nada, mas)
O combo de fracasso comercial seguido de uma falsa
acusação de assédio sexual se concretizou, e embora tivesse acabado de
desabafar de manhã, seu peito já estava pesado novamente. Esse tipo de
sentimento ruim, o estresse, se não for processado antes de se acumular, não
acaba bem.
(Por exemplo, família e parentes.
……Eu não quero fazer o tipo de coisa de descontar na pessoa mais próxima)
Como ferir um familiar que não revida nem
contesta, como se estivesse testando seu amor, apenas para aliviar a própria
frustração.
Para não se tornar um homem tão covarde,
Satou faz questão de aliviar o estresse imediatamente assim que julga estar
cansado ou estressado. Frequentar a Dungeon e bater em monstros sem parar é o
meio para isso.
Diferente dos aventureiros comuns ou Streamers,
o objetivo dele não são moedas de ouro, tesouros ou viralizar. Talvez seja por
isso que, embora pensasse que deveria fazer isso algum dia, continuou evitando
o registro de aventureiro por todo esse tempo ——.
(Não, é que também é só trabalhoso
mesmo)
Assim como um homem de meia-idade que evita
um check-up médico por não querer ser diagnosticado com uma doença quando não
sente dor alguma.
「A propósito, e a Nee-san?」
Ele olhou levemente ao redor da loja de
conveniência, mas não havia sinal da sua Nee-san, Amahara Akari.
Sendo alta para uma mulher e dona de uma
juventude e beleza que não a fazem parecer ter passado dos quarenta anos de
forma alguma, ela se destaca muito. Se estivesse por ali, seria impossível não
notar, então ele pensou que ela estivesse no banheiro ou algo do tipo, mas.
「E-Ehh~. A mamãe, sabe~, trabalho!」
Com um sobressalto evidente, Hikari desviou o
olhar de forma inquieta.
「Mas ela me deixou o dinheiro.
Hoje me deixe pagar a conta para recompensar o Oji-san!?」
「……Mesmo ela sendo tão ocupada,
não precisava se preocupar tanto assim」
Ele sentiu que algo estava um pouco estranho.
O nome científico da sua irmã é Gorilla gorilla gorilla. Ela é
quase um gorila, sendo apenas fachada como o recente Kani Kama de boa
qualidade, sendo mais próxima de um gorila do que de um Homo sapiens.
Apesar de ter uma boa aparência exterior, ela
não tem reservas com o irmão mais novo e muitas vezes toma atitudes de quem tem
músculos no lugar do cérebro. Receber algo pago por uma irmã assim, e ainda por
cima delegar a situação à filha sem estar presente, não lhe trazia nada além de
um sentimento de desconforto.
「É raro aquela Nee-san
perder a chance de ficar agradavelmente bêbada. Aconteceu alguma coisa?」
「Não tem, não tem, não tem, tem
sim♪ ……Ou melhor,
é uma recompensa minha para o Oji-san」
「Hã? Agora mesmo, o que foi que……」
「Não, eu não
disse nada! A mamãe tá trabalhando. Parece que tá super ocupada, viu?」
Ao ouvir isso, ele foi forçado a se dar por
satisfeito, o que pode ser a natureza de um escravo corporativo, mas...
Satou inclinou a cabeça e verbalizou uma
dúvida que já nutria há algum tempo.
「Eu já me
perguntava sobre isso antes, mas com que a Nee-san trabalha?」
「Eu também
não sei direito. Artesã de Handmade, ou algo assim que ela disse」
「Artesã?
……Pensando bem, ela tem mãos muito habilidosas」
Na época de estudante, quando ainda moravam
juntos na casa dos pais, ela era assim. Usando a antiga máquina de costura que
havia em casa, ela era boa em consertar botões, arrumar desfiados nos uniformes
e fazer pequenos objetos como bolsas ou estojos a pedido.
「Costura e
fazer coisinhas, ela era boa nisso, né. ……Antigamente, ela até vendia num
mercado de pulgas」
「Hoje em dia
é aplicativo de Flea Market ou leilão, Oji-san」
「Ah. ……Como
sou ignorante nessas coisas, não faço a menor ideia」
Ela transformou um hobby em trabalho, seria
algo assim?
Mas eu não sei se itens feitos à mão por uma
ex-dona de casa renderiam tanto dinheiro assim.
「Será que ela
é autônoma? Um negócio individual, ou será que ela fornece para alguma loja?」
「Ah, eu não
sei sobre isso. Ela também não me conta」
「……Um segredo
até para o irmão mais novo e para a filha, é?」
O que diabos você está fazendo, Nee-san.
Será que afinal é algum trabalho noturno?
Não que eu tenha algum preconceito contra a
profissão, se ela faz porque gosta, tudo bem.
Se estivesse com problemas, poderia
simplesmente contar comigo. ……É porque ela hesita de um jeito estranho, né, a
Nee-san também.
(Coisas que
não importam…… como o sorvete que sobrou na geladeira ou pedir para deixar
sobrar um pedaço de frango frito da janta, essas coisas que não importam ela
exige numa boa. Mas coisas que podem virar um problema sério ou casos de
família relacionados a dinheiro, ela guarda só pra si. Quando a família descobre,
já é tarde demais e tudo acabou, é sempre assim)
(Desta vez,
talvez eu devesse perguntar direito. ……Embora eu não queira bisbilhotar as
trevas familiares)
Apesar disso, se a minha irmã se dá ao
trabalho de não dizer nada, deve ser porque não quer falar…… é o que eu acho.
Também não é certo forçá-la a confessar. Um
dilema. Ele não sabia qual caminho tomar. Agarrando com força o braço de Satou,
que havia paralisado num canto da loja de conveniência, Hikari o puxou.
「Bom, bo~m,
não importa! Fica comigo hoje à noite, tá, Oji-san♪」
「……Sim. Tudo
bem」
Sendo arrastado como se estivesse sendo
enganado, ele começa a andar com um sorriso amargo.
Enquanto o funcionário do caixa com sotaque
de estrangeiro se despedia com um “Arigatou gozaima~su”, tio e sobrinha caminharam
lado a lado em direção ao Beer Hall.
*
「Bem-vindos.
Gostariam de pedir as bebidas primeiro?」
「Chope, o King Size
e…… O que você vai querer,
Hikari-san?」
「Ah, chá
oolong. Oji-san, o que vamos pedir de comida?」
「Deixe-me
ver…… Eu queria o Carpaccio de tomate e o ensopado de miúdos」
「Eu vou
deee…… Salada de caranguejo? O que é Eisbein, é tipo um Salad Chicken?」
「Acho que é
algo parecido com ensopado de pé de porco, provavelmente. Se quer um petisco
saudável, tem coisas como o refogado picante de Konnyaku[4],
acho que isso seria mais fácil de comer」
「Ah, esse,
esse, que delícia~! E um prato de salsichas sortidas e Steak Pilaf!」
「Entendido.
Por favor, aguardem um momento」
O funcionário se retira com um atendimento
educado, e sem demorar nem alguns minutos, as bebidas chegam.
Dentro do estabelecimento amplo, calmo e de
estilo antigo, havia menos clientes do que ele imaginava, e uma sensação
refrescante de espaço aberto. Satou e Hikari, que ocuparam um canto do lugar,
ergueram suas bebidas e brindaram assim que terminaram de fazer os pedidos.
「Sim, Oji-san.
Kampaa~~~i♪」
「Obrigado.
Esse luxo, mesmo não sendo aniversário, até me deixa um pouco retraído」
「Não tem
problema, não. O Oji-san se esforça todos os dias. Bom trabalho, isso é só um pequeno
agradecimento, tá?」
「Hikari-san……」
Eu sei que sou fácil de agradar, mas um Oji-san comum tem o
dobro de fraqueza à combinação de gratidão diária e palavras gentis.
E, ainda por cima, se isso for dito pela boca da família que
ele ama, o efeito é extraordinário e o poder é quadruplicado. Emocionando-se
profundamente com as palavras de apreço da sobrinha, ele encosta os lábios na
caneca tão gelada que chega a ter uma fina camada de gelo.
「……Nn, nn, nn…… Puha~~~~!!」
「Oji-san, tá gostoso?」
「Sim. ……Fazia tempo que eu não bebia fora, mas está muito」
Será que a forma de servir é boa? A espuma incrivelmente
fina e macia como creme é irresistível. A cerveja gelada desce suavemente pela
garganta, combinando muito bem com os petiscos que começaram a chegar.
「A salada de caranguejo, me permite pegar um pouco?」
「Eles trouxeram pratinhos individuais, então vamos dividir.
Oji-san, você gosta bastante de vegetais, né?」
「Se eu não tentar ingeri-los conscientemente, acabo
passando mal de repente」
O equilíbrio nutricional é importante. Por exemplo, ao
comer frituras, se não intercalar com repolho cru, no dia seguinte o estômago
pesa bastante; da mesma forma, se não comer vegetais de forma consistente entre
a cerveja e os acompanhamentos, as consequências depois são difíceis.
Não que ele sinta o corpo fraco —— pelo contrário, Satou tem
um corpo tão saudável que até pensa se não estaria no seu auge agora, mesmo
passando dos quarenta, mas ainda assim se cuida o suficiente para manter essas
regras pessoais.
「Não é bem um agradecimento, mas sirva-se do tomate e do
ensopado de miúdos também. É muito bom」
「Por que será, né? Quando a gente faz tomate gelado em casa
fica com cara de ‘é só isso?'……」
「Comendo fora fica estranhamente gostoso, ou melhor, dá uma
sensação de banquete, não é? ……Eu entendo」
Tomate fatiado fino regado com azeite. Tem frescor, mas é
suculento e delicioso. Após desfrutar do casamento entre os petiscos e a
cerveja por um tempo, secando metade da caneca.
「Pensando bem, faz tempo que não converso com calma com a
Hikari-san, né」
Havia o fato de que fazia pouco tempo desde que a irmã e a
sobrinha haviam voltado para a casa dos pais, e pelo fato de Satou estar sempre
trabalhando excessivamente, não tinha muito tempo livre, então as chances de
conversarem cara a cara assim eram raras.
「Como está a vida escolar? Está indo bem?」
「Uwa, uma pergunta bem a cara do Oji-san~. Dá pra sentir
que te deixei sem assunto, né」
「Acho que é indelicado da minha parte, mas eu me preocupo」
Para Satou, que perguntava de forma séria e direta, Hikari
deu um sorriso nihihi♪.
「Perfeito! Fiz amigos e encontrei o que quero fazer. Sinto
que todos os dias são plenos, sabe?」
Para aquele sorriso inocente que não demonstrava nenhum
sinal de estar forçando ou mentindo, Satou devolve um sorriso.
「Que bom, fico aliviado」
「Bom, tem umas coisinhas que me incomodam, maas…… acho que
isso é problema meu」
「Isso soa inquietante. Se tiver algum problema, por favor,
me consulte」
「Ehh~? Não, a causa é o Oji-san, ou melhor, como eu posso
dizer……」
Se Hikari colocasse em palavras os sentimentos que escondia
enquanto murmurava.
(Criei um canal de Stream do Oji-san em segredo e viralizou
pra caramba! ……ou algo do tipo)
Como esperado, ela não podia dizer, de jeito nenhum. Ela
tinha certeza de que seria perdoada se fosse descoberta, pois o amor de Satou
pelos seus parentes e família era profundo e derramado incessantemente.
Mesmo assim, uma coisa é uma coisa; a verdade é que ela
temia o que ele pensaria intimamente se descobrisse.
「……As garotas passam por muita coisa. Você entende, né?」
「Eu não entendo de jeito nenhum, mas se eu não disser que
entendo, vou ser criticado por questões de Compliance, né」
「Pode parar de falar assumindo que até papo de família vai
vazar na net?」
「Eu confio em você, mas virou um hábito meu agir imaginando
o pior cenário」
O modo de pensar de Satou é um pouco diferente de mero
pessimismo.
Quando se deixa cair um pão com manteiga, a probabilidade de
o lado com a manteiga cair virado para baixo é de 50%. Mesmo assim, Satou pensa
que a manteiga vai cair virada para baixo 100% das vezes e toma medidas antes
mesmo de passar a manteiga.
Não há espaço para emoções nisso. Ele toma precauções antes
de lamentar que a manteiga caiu para baixo. As medidas contra problemas em si criam
uma margem mental, o que leva à confiança e à estabilidade emocional.
(Bem, não é como se fosse algo para se gabar)
Isso é apenas o estilo do Satou. Todas as pessoas têm uma
resposta para a vida, mas se ela é correta, só a própria pessoa pode julgar.
Ele apenas acredita que, para ele, está bom assim, e não hesita.
「Ué? Oji-san, seu Smartphone tá tocando?」
「É verdade. ……Parece ser da Buchou, com licença um instante」
Uma leve vibração vinda do bolso interno do terno. Após o
som de chamada abafado tocar umas três vezes, ele atende a ligação.
(Está fora do horário de expediente, e eu gostaria de
fingir que não percebi, mas)
Falar de trabalho fora do horário de expediente é um saco.
Escondendo esse sentimento, ele falou com uma voz burocrática.
「É o Satou」
『Desculpe a hora. Vou perguntar direto ao ponto —— Satou,
você cometeu um assédio?』
「Hã?」
Com essa bola curva inesperada, ele foi pego de surpresa
por um instante.
Como se para quebrar o silêncio de cerca de um segundo, a
notificação de recebimento do aplicativo de mensagens chega ao Smartphone. Ao
abri-la enquanto mantinha a ligação, a imagem de uma captura de tela de rede social
foi exibida.
『Você está sendo exposto por um Streamer que prega a
erradicação de assediadores—— o 《Mamoru-kun, o Erradicador de Tarados ch》』
A conta 《Revista de Informações de Aventura
Empolgante Advestance Oficial》 gerenciada pelo departamento
editorial da Editora Bouken. Não sei o que há de empolgante, e não sei quantas
vezes já fomos criticados por o som da palavra ser antiquado demais.
Uma resposta que se estendeu daquela postagem mais recente.
「……Certamente houve um problema desses, mas foi há apenas
uma hora」
『A preparação foi rápida demais. Sinceramente, o vídeo que
fizeram Upload como prova é bem fraco』
A postagem da conta oficial da Advestance foi feita há
cerca de vinte minutos. Era o aviso do artigo Web de sempre, resumindo
levemente as informações ouvidas de aventureiros com quem têm contato.
【Últimas Informações da Dungeon de Shinjuku】 Vem DLC
por aí!? Mudança no MAP, recompensa pela descoberta de um novo portal de
teletransporte~
→◎ Mamoru-kun, o Erradicador de Tarados ch
Respondendo a: @Adobesutance_com
Urgente! Comercial S da Editora Bouken é exposto como
assediador no trem e sofre um grande cancelamento~
Ao tocar na postagem, um vídeo curto é reproduzido. São apenas quinze
segundos, e os olhos estão borrados, mas por cima do ombro de uma pessoa que
parece ser mulher no trem lotado, a boca relaxada e a silhueta balançando estão
refletidas.
「Isso que é tirar totalmente de contexto, não é?」
『Pois é. Parece que eles se esforçaram na edição, mas é
forçado』
Até que poderia parecer algo do tipo, mas os movimentos
inquietos estão claramente sincronizados com o balanço do trem, e há marcas de
que as duas mãos de Satou erguidas no canto da tela foram apagadas de forma
descarada.
「Dependendo de como se olha, bom, não deixa de parecer um
desgraçado cometendo assédio no trem lotado. Se você processar, parece que
ganha」
『Por isso mesmo, eu imagino, que eles esconderam o nome
real pela metade』
Foi exatamente por saberem que o valor como prova é escasso
que eles devem ter parado nesse limite.
Porém, apenas com uma olhada rápida, logo lhe ocorreu o
próximo ponto a ser questionado, e Satou franziu as sobrancelhas.
「Eu não me lembro de ter revelado a minha identidade para
esse tal de Mamoru-kun, mas como será que ele descobriu que eu sou funcionário
da Editora Bouken? A não ser que seja algum tipo de poder sobrenatural ou
Skill, só posso pensar que ele já sabia desde o começo」
『Provavelmente. Ou melhor, uma vez que especificaram até o
departamento comercial, não há outra possibilidade』
A voz da Buchou(Buchou (部長): Cargo
que significa “Gerente/Diretor de Departamento” ou “Chefe”. Manter os cargos em
japonês ajuda a preservar a hierarquia corporativa que é muito forte na cultura
deles.) soava cansada. Ela parecia bastante exausta, e Satou não pôde
evitar de sentir simpatia. O lugar onde trabalham é um barco de lama prestes a
afundar por falência, então é natural reagir assim ao receber um problema tão
inútil.
「Bom trabalho. Desculpe, parece que fui vítima de uma
armação por uns sujeitos estranhos」
『Desta vez, o Satou é a vítima... então tudo bem. O
problema é que a Ukai está possessa da vida』
「Por favor, acalme-a, ou melhor, mesmo que ela fique
furiosa, não há nada que ela possa fazer」
『As mensagens furiosas dela não param desde agora a pouco.
Se eu deixar pra lá, parece que ela vai dar um Totsu(Totsu (凸 / 突撃): É uma
gíria da internet japonesa (abreviação de Totsugeki, que significa
“ataque/carga”). Na internet, “dar um Totsu” significa ir tirar satisfação
diretamente, invadir a live de alguém, mandar mensagens de ódio ou ir
confrontar a pessoa pessoalmente ou em seus perfis. A Ukai estava tão furiosa
com a mentira que queria ir brigar com o Mamoru-kun online) no tal do
Mamoru-kun, então estou pedindo para ela se controlar, mas meu Smartphone não
para de tocar. Honestamente, dá medo』
「……Muito obrigado. Amanhã eu pago um almoço para você」
Apenas nisso, era claramente uma dívida. Satou, que
normalmente odeia ser pressionado com força, desta vez se sentia mal. É
gratificante que a sua Kouhai esteja furiosa por ele, mas uma indignação pela
metade é apenas um incômodo.
「Proteger alguém de dentro em um caso de cancelamento é só
jogar lenha na fogueira. O quão grande está o alvoroço?」
『Verifique você mesmo. Por que não cria pelo menos uma
conta de rede social, nem que seja uma conta trancada só para visualizar?』
「Não tenho nada a dizer a ponto de querer gritar no centro
do mundo」
Fazer conta em rede social sem gerar nenhuma recompensa era
absolutamente detestável. Para um comercial com pouca sociabilidade, falar com
estranhos exigia reunir uma coragem do tipo “Eiya!”. Como consumia MP, ele não
queria fazer isso.
『E então, no fim das contas, de que tipo de sujeito você
comprou rancor? Não acho que você realmente cometeria um assédio』
「Acredita em mim?」
『O seu apego em proteger a si mesmo deve ser mais forte do
que o seu desejo sexual. Não tem como você fazer algo de alto risco como um assédio』
(Como esperado, Buchou, você me entende perfeitamente)
Não era tão longo, mas desde que ela assumiu como chefe
mais jovem, já tinham um bom tempo de convivência. Sendo capaz de entender a
personalidade de Satou, ela mantinha um ar tranquilo, preservando a calma
apesar do senso de urgência.
「Na verdade――」
Baixando a voz, ele começa a falar de modo que não chegue
aos ouvidos de Hikari, que estava na mesma mesa.
Apesar disso, não havia muito o que falar. O compromisso de
jantar com a família, ter se despedido de Ukai e entrado no trem, e ter sido
abordado quase imediatamente. E o fato de que havia vários comparsas, pessoas
que pareciam ser Staff, misturadas ali.
『Para um mero Streamer minúsculo procurando material para
render visualizações, foi meticuloso demais』
「Sim. É uma suposição, mas dá a impressão de que foi um
alvo pré-determinado」
Ele e Ukai haviam saído da empresa ao mesmo tempo.
Escolheram um dos dois que andavam lado a lado para armar a arapuca.
Se for assim, recentemente, só havia uma pessoa que vinha à
mente para esse tipo de coisa ――.
『O responsável da DOOM que propôs o Teste do Sofá, Kinya...
É obra desse cara?』
「Não tenho outra suspeita em mente」
Giri, pôde-se ouvir o som da Buchou rangendo os dentes do
fundo. A sensação de estar se segurando no limite para não estourar de raiva
era transmitida através do telefone.
『A maior empresa da indústria propôs um convite de teste do
sofá e, no fim das contas, faz assédio com o comercial que recusou!?
Inacreditável. É idiota? Isso é coisa que um membro da sociedade faça?! O que
eles estão pensando!』
「Eu também acho, mas não temos provas. Não deveríamos
pensar em como responder?」
『Isso é verdade, mas você deveria ficar mais puto. Que
saco...!』
(Não é que eu não esteja puto, no entanto)
Não havia como ele não estar descontente.
Um jantar tão esperado com a família. Um assédio que era
como jogar esse tempo divertido no esgoto. O humor estava péssimo e, claro, a
raiva brotava. Mas, como um adulto, ele apenas conhecia a arte de escondê-la.
『Bom, tudo bem. Amanhã, desde a manhã, vamos discutir a
resposta. Não preciso nem dizer, mas não se atrase』
「Eu tenho o contato da mulher que foi tratada como vítima,
e já expliquei a situação ao funcionário da estação. Como movimento inicial,
não está tão ruim. Pelo menos não acho que serei encurralado pela história do assediador」
『Aqueles caras também não devem ser tão idiotas a esse
ponto. Mentira, invenção, boato, não importa o que seja. Uma vez que a má
reputação é criada, os idiotas da net vão morder a isca, e se queimar um pouco,
o alvoroço se espalha por conta própria』
No fim das contas, era um assédio. Como falharam em armar
para Satou, a tática insidiosa de tirar a sua vida social através de um linchamento
virtual e encurralá-lo psicologicamente era o método implacável de caça da
sociedade moderna.
『Além do poder original de difusão deles ser baixo, o poder
de prova do vídeo é fraco demais. Culpar você por isso seria uma história
irracional, e eu odeio pra caralho lixos que propõem Teste do Sofá e idiotas
que distorcem a justiça social!』
「Em outras palavras, posso considerar que não haverá
nenhuma punição por parte da empresa?」
「Não me importo. Você não mostra seus verdadeiros
sentimentos e sempre tem uma cara de quem não tem nada a ver com isso, o que às
vezes me deixa puta de verdade, mas ainda assim é meu subordinado e um homem
que não faz coisa errada. ……Eu acredito em você, Satou」
Não havia hesitação nas palavras ditas de forma decisiva, e
ele sentiu como se uma brisa leve e refrescante tivesse soprado.
O linguajar dela é frequentemente rude e, na alta temporada,
faz todo mundo fazer hora extra sem piedade. Às vezes dá raiva, mas ainda assim
ela confia nos seus subordinados de forma apropriada e tem o espírito para
tentar protegê-los.
(Não consigo odiar essa pessoa, né)
Satou Keita respeitava sua chefe mais jovem, à sua própria
maneira.
「 À noite você ia jantar com a família, não é? ――Vá se
divertir. Desculpe atrapalhar, até logo』
「Sim. Muito obrigado, Buchou」
A ligação caiu, e ao soltar um suspiro.
「―― 3……!!」
「Es-espera, Oji-san!? O que, o que
foi!? Tô ouvindo um estrondo tipo zugogogogo, viu!?」
「Isso é estranho, deve ser um terremoto. Ou talvez seja só
impressão sua」
No momento em que ergueu três dedos da mão direita,
ouviu-se o som de uma restrição se soltando.
Gachin, a sensação de todas as engrenagens do corpo se
encaixando. O terno que ele usava folgado ficou esticado até o limite pelos
músculos que incharam por dentro, e junto com uma aura negra misteriosa, ele
soltava um rugido que parecia um tremor de terra.
Claro, isso deveria ser imaginação de Satou. Um Salaryman
não causa tremores de terra. Nem emana uma aura misteriosa. Não é porque o
estresse atingiu o limite que as restrições impostas ao corpo e à mente se
soltam e ele perde o controle; isso seria impossível.
「Não, o Oji-san com certeza tá puto da vida, né!? Tá saindo
tipo uma aura sombria de você!?」
「Hahaha, que piada engraçada. Não estou puto. Um
responsável comercial nunca fica puto. É sempre sorriso no rosto」
「Sorriso é sorriso, mas com certeza é tipo um sorriso das
trevas ou algo assim! Que medo!」
Satou não desfaz o sorriso. Tirando o relógio do pulso, que
havia se tornado robusto como um tronco de madeira, ele ajusta a pulseira e o
coloca novamente enquanto se levanta lentamente da cadeira do Beer Hall.
(Aquele desgraçado... Ele realmente armou pra mim. Ele foi
lá e fez isso)
Armar para mim, me assediar. Se fosse só isso, eu não
ficaria tão puto.
Mas ele envolveu a empresa e a minha kouhai, jogou água suja
no meu tempo de descanso com a Hikari e... com a família, arruinou o meu
momento de felicidade saboreando cerveja e petiscos; a raiva já havia crescido
a um nível Kazoe Yakuman(Kazoe Yakuman (数え役満): Uma
referência ao Mahjong japonês (Riichi Mahjong). Yakuman é a mão mais valiosa e
rara do jogo. Um Kazoe Yakuman (Yakuman Contado) ocorre quando um jogador
acumula tantos pontos menores (Han) que o total ultrapassa o limite máximo e é
arredondado para a pontuação absoluta mais alta possível. Ou seja, a raiva dele
“quebrou o limite do contador”.) .
Se o próprio estivesse na minha frente, talvez eu o tivesse
socado. Não, será que eu conseguiria me segurar? Se eu fosse socar alguém fora
da Dungeon, seria apenas quando eu decidisse matá-lo.
「A-Aconteceu alguma coisa, né? Parecia ser assunto de
trabalho, então tentei não ouvir, mas...」
「Não foi nada. Nada que a Hikari-san precise se preocupar」
「Não, com certeza aconteceu alguma coisa... Não precisa se
segurar por minha causa, Oji-san」
「É, mesmo? Sendo assim...」
Agradecendo a consideração da sobrinha, Satou levou a mão à
caneca King Size que estava pela metade.
A cerveja que ainda restava em abundância balança. Segurando
com uma mão o que ainda devia equivaler a cerca de duas canecas grandes, ele
bebeu tudo de uma vez sem quase saborear.
Gokuri, gokuri, a garganta. O som do líquido passando por um
pescoço tão grosso que o botão do colarinho da camisa social parecia prestes a
estourar. Agora, a cara de um Salaryman comum havia sido varrida para longe,
dando lugar à figura de um lutador de Pro-Wrestling aproveitando sua folga.
「...Na verdade, houve um pequeno problema na empresa」
Colocando a caneca vazia na mesa e limpando a espuma dos
lábios.
「Parece que terei que voltar urgentemente para a empresa. É
de repente, mas você consegue voltar para casa sozinha?」
「Claro que tudo bem, mas...」
「Isso me ajuda. O pagamento daqui fica com isso」
Tirando uma nota de dez mil ienes da carteira, ele a coloca
junto com a comanda. Para o Oji-san que se levantou segurando a maleta, Hikari,
em pânico, chamou enquanto enfiava na boca a comida que sobrou.
「Es-espera aí, Oji-san!? Aqui não devia ser por conta da
mamãe e minha?」
「É um pedido de desculpas por ter estragado a gentileza da
Nee-san e sua. O troco, pode ficar de mesada」
「Eu já disse que não precisa, Oji-san!? Oji-saa~n!?」
Dando-lhe as costas terrivelmente largas, Satou começou a
andar sem olhar para trás.
Apesar de estar apenas caminhando, parecia que uma aura
misteriosa jorrava de todo o seu corpo. Diante dessa força impressionante, as
pessoas ao redor abriam caminho por conta própria, deixando o Salaryman furioso
passar.
*
「……Eu já vi algo parecido. É daquele mangá antigo com clima
de fim de século e punhos assassinos onde os caras gritam Hidebu[i],
né」
Murmurou Hikari com uma cara de espanto, apontando o
Smartphone para as costas dele que se afastavam.
Antigamente, talvez causasse um alvoroço, mas felizmente o
mundo está na 《Era das Grandes Aventuras》. Em uma sociedade onde existem
habilidades e poderes anormais que parecem magia, andar por aí coberto por uma
aura misteriosa não é motivo para chamarem a polícia.
Tirou uma foto das costas daquele Oji-san, pashari. Ao
apertar o obturador uma vez, a tela capturou a figura traseira de um terno
musculoso e robusto como uma cordilheira, demonstrando uma presença violenta.
「Pronto, assim tá bom♪ Não sei o que aconteceu, mas com
aquele jeito... !」
É a segunda vez que Hikari vê seu tio daquele jeito.
A primeira vez foi em casa, durante o jantar, quando viram a
coletiva de imprensa com o pedido de desculpas arrogante de um Streamer que
havia sofrido um grande cancelamento. E a segunda vez é agora; e se for igual
àquela vez —— o destino dele é, obviamente, um certo Batting Center em Shinjuku.
【Aviso de Guerrilha de Emergência!!】 《Shinjuku
Bat》 Live de rebatidas furiosas na Dungeon, começa esta
noite...!?
【Butamin C】 O quê,
sério? Que sorte, vai dar pra ver ao vivo.
【Madao】 Seria bom se dissessem o horário
exato de início. Vou ter que ficar olhando pro nada até começar de novo?
【Kobayashi Hajime】 Valeu a pena ficar de tocaia! Manda
ver nas rebatidas, Shinjuku Bat!
Respostas chegam uma após a outra no aviso com a imagem das
costas do Oji-san anexada, o alcance explode, e as curtidas se acumulam.
80 mil seguidores na rede social, 85 mil inscritos no canal.
O canal Shinjuku Bat Ch, que teve um crescimento rápido e agora é de classe
média respeitável, tem um certo número de fãs que estão sempre grudados
esperando por atualizações.
A partir deles, o aviso de live surpresa Guerrilha
[5]
é difundido, e as pessoas vão se movendo para a tela de espera da transmissão
no canal oficial. Confirmando que o número de espectadores simultâneos já
estava prestes a ultrapassar mil pessoas, Hikari deu um sorriso malicioso.
「Beleza!! —— Conto com você para render um bom conteúdo
hoje à noite também, Oji-san♪」
Pegando a comanda e a nota de dinheiro juntas, ela deu um
leve beijo com seus lábios adoráveis.
Amahara Hikari, ou melhor, a aventureira 【Nindou
Hikari】.
A mente por trás do canal Shinjuku Bat pagou a conta e
desapareceu na cidade como o vento.
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[1]
(Meiwaku-kei Streamer (迷惑系配信者): O termo significa
literalmente “Streamer do tipo incômodo/perturbação”. É uma categoria real no
Japão de criadores de conteúdo que ganham visualizações causando tumulto,
invadindo lugares, provocando o público ou forçando situações extremas, como
“prisões cidadãs” ilegais.)
[2]
(Sakura (サクラ): Gíria japonesa para “cúmplices infiltrados” ou
“atores pagos” que se misturam ao público (ou fingem ser clientes) para criar
uma falsa impressão ou agitar a situação a favor do golpista. Aqui, Satou
percebe que os passageiros fofoqueiros na verdade trabalham para o YouTuber.)
[3]
(Meru-tomo (メル友): Abreviação de “Mail Tomodachi”
(Amigos de E-mail/Mensagem). É um conceito antigo da época dos flip-phones de
ser amigo por correspondência digital antes de se ver pessoalmente. Mostra bem
o quão “Oji-san” e analógico o Satou é.)
[4]
(Um alimento tradicional japonês feito a partir de uma batata (konjac). É
gelatinoso, denso, quase sem calorias e costuma ser refogado em pratos para dar
textura)
[5]
(Guerrilha (ゲリラ予告): Na cultura de Streamers do
Japão (especialmente VTubers), uma “Stream de Guerrilha” é uma transmissão ao
vivo anunciada de surpresa, poucos minutos ou horas antes de começar.)
[i]
(A Referência ao Mangá: A fala da Hikari sobre “fim de século”, “punho
assassino” e a palavra “Hidebu” (ひでぶ) é uma referência escancarada ao
clássico mangá/anime Hokuto no Ken (Fist of the North Star). “Hidebu” é o grito
famoso que os capangas emitem pouco antes de explodirem após levarem os golpes
de artes marciais do protagonista Kenshiro. O Satou ficou exatamente com essa
vibe intimidadora e absurdamente musculosa de repente.)



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