■ Capítulo 1: Aliança
◆◆◆ Cidade Masmorra Ouka・Dungeon Número 336 『Tokoyami』 1º Ponto Intermediário 『Área
do Observatório』:
Shimizu Kyouichirou
Para
falar a verdade, a “Subjugação” de 『Keraunos』 era um
dos eventos que eu já havia previsto no momento em que decidi acolher a Jupiter.
Um
termo geral para a medida drástica de forçar uma atualização nas condições do
contrato ao derrotar um espírito que já possui um contrato selado.
Na época do
jogo, esse conceito era muito utilizado exclusivamente para a aquisição de
novas habilidades ou como o clímax para os cenários de vários personagens, mas,
quando trazido para a realidade, a situação acaba sendo a seguinte.
――
Basicamente, descer a porrada num cara que se acha o maioral e domesticá-lo à
força.
……É,
convenhamos que, mesmo querendo ser legal, não dá pra chamar isso de algo muito
elegante.
Pegando
emprestado as palavras oficiais, eles chamam “obter novas possibilidades ao
demonstrar sua força para o espírito” de Subjugação, mas isso é enfeitar demais
a situação.
Para o bem
ou para o mal, a essência do ato de subjugação não passa do uso da força
armada.
Pessoalmente,
acredito que conceitos como bem e mal só começam a surgir quando circunstâncias
individuais são inseridas no meio disso, como “com qual propósito” ou “a
relação entre o parceiro que desafia a subjugação e o próprio
espírito”.
Incluindo
tudo isso, vamos analisar este caso atual mais uma vez.
「Keraunos」. O espírito contratado de Jupiter,
que é membro da nossa party de aventureiros, cuja classificação é do Tipo Majestade
Divina, Classe Semideus de Nível Alto.
Sua
habilidade é a 『Criação e Manipulação de Trovão Negro』,
possuindo o atributo duplo de “Miasma” e “Trovão”, com uma altíssima
funcionalidade voltada principalmente para ataques de magia espiritual.
O
que é particularmente impressionante é a sua potência.
Talvez por
causa do seu histórico peculiar como uma Majestade Divina do tipo modificado, o
trovão negro que ele dispara é excepcional até mesmo entre entidades do mesmo
rank. Se fôssemos medir puramente pela perspectiva do seu valor máximo de disparo, ele é tão impressionante que não
perde em nada se comparado ao topo absoluto da Classe Semideus, que está um
degrau acima.
Sinceramente,
em termos de desempenho, não há nenhum problema.
Ele com
certeza possui uma força excelente, a ponto de podermos elogiá-lo sem
ressalvas, dizendo que é exatamente o esperado de alguém que atua como um
Mid-Boss da Rota Principal.
O
problema é que tanto a personalidade desse cara quanto o conteúdo do contrato
que ele firmou com a sua parceira, Jupiter, são os “piores” possíveis.
Um velho
ranzinza do trovão sem igual e um pai tóxico. A forma como ele age é a exata
definição do que chamamos de Monster Parent (Pais Superprotetores e
Tóxicos).
「Dizer que é um pai substituto até que
soa bem, mas um pai que se intromete a esse ponto é um grande ‘não’ pros
padrões da Haruka-san, nya~」
O
Ponto Intermediário durante a noite.
A
configuração espacial dessa gigantesca Zona de Segurança estabelecida dentro da dungeon permanece ideal
não apenas de dia ou de noite, mas o ano inteiro.
Temperatura
ideal. Umidade ideal.
O ar é
sempre refrescante, não tem a chuva que eu tanto odeio, e nem insetos.
Esta cidade,
construída pela grandiosa Série Yalda (comumente apelidados de Puru-puru-sans)
— que servem como representantes e divindades subordinadas ao Deus da Dungeon
—, possui um poder mágico misterioso.
Festivais
com barraquinhas de comida acontecem quase todos os dias.
O ar é
tomado pelo aroma de carne bem temperada com especiarias e pelo cheiro de
algodão-doce, que te permite saborear a doçura do açúcar ao máximo.
Basta olhar
com um pouco mais de atenção e você verá artistas de rua competindo com seus
talentos por toda a parte. No palco prateado ao ar livre, instalado no centro
do distrito de entretenimento, eventos especiais acontecem quase todas as
noites.
Agitação.
Mistura. Caos.
A
arquitetura dos prédios é uma mistura de estilos japonês e ocidental, mas, ao
mesmo tempo, não importa onde você procure, não há nenhum arranha-céu de alta
sociedade como aqueles prédios residenciais de luxo. Incluindo esses detalhes,
é como se essa cidade fosse um pedaço recortado de um “festival de verão do
interior”.
Em
um canto da área do observatório, onde se pode ter uma visão panorâmica desse
cotidiano de festival lá de cima, nós estamos agora realizando uma reunião
estratégica sobre “ele”.
Jupiter não
está aqui. Ela está dormindo na cama da casa que alugamos.
Os acontecimentos
de algumas horas atrás devem ter cobrado um preço muito alto dela.
Depois de
acordar uma vez e conversarmos um pouco, ela logo voltou a dormir e continuou
assim.
Não
é como se estivéssemos esperando por uma chance de ter uma conversa em segredo
desde o começo, mas, graças ao fato de a Jupiter ter adormecido, acabamos
conseguindo esse tempo para conversar a sós.
O motivo de
termos saído de fininho da casa alugada e estarmos sentados num banco lá fora,
acredito eu, é porque o problema que ela carrega é bastante delicado e, mais do
que tudo, porque nós queríamos ver o que chamam de “cenário do cotidiano”.
Ainda
não se passou nem meio dia desde a batalha no 15º andar.
A batalha
decisiva contra o guardião do andar, o pássaro monstruoso Camac, e o
descontrole da besta do trovão negro que se manifestou durante a crise de sua
filha.
Nossas
emoções, que ficaram tensas ao limite no meio de batalhas consecutivas,
precisavam de uma distração.
E foi nesse
momento que o “festival” desse 1º Ponto Intermediário veio à mente de nós dois
e, num piscar de olhos, viemos lá pra fora... acho que o fluxo das coisas foi
mais ou menos esse.
Mas,
por mais que ela esteja dormindo, sair e deixar a Jupiter sozinha agora me
deixaria com a consciência pesada demais.
Quando ela
acordar, se perceber que não tem ninguém lá, com certeza vai se sentir sozinha,
ou pode acabar tendo um mal-entendido bizarro e desaparecer por aí ―― e esse
tipo de desencontro de roteiro é algo que eu preciso evitar a todo custo.
Por isso,
para não cometermos esse tipo de erro, nós decidimos contratar alguns vigias
que também servem como mensageiros.
Neste exato
momento, dentro da casa que alugamos, há uma multidão de Puru-puru-sans que
contratamos usando Pedras Espirituais, todos amontoados por lá.
Se a Jupiter
acordar, ou se por um acaso algo acontecer com ela, eles devem nos avisar
imediatamente.
O
coração ferido da Jupiter e os nossos nervos exaustos. Não dá pra escolher qual
priorizar, e nem há necessidade disso.
Tirar um
tempo para relaxar e não deixá-la sozinha são coisas que devem ser feitas de
forma correta e igualitária.
Enquanto
observava os fogos de artifício subindo no céu noturno estrelado, eu expressei
a minha opinião sobre o que ela havia dito.
「Dizer que ele é superprotetor até que
soa bem, mas aquele cara passa um pouco dos limites, né.」
「Isso, isso mesmo. Aquele cachorrão gigante, parece que
tá protegendo a Jupi-chan, mas não tá protegendo nada! Pelo contrário, se ele
sair surtando daquele jeito, a Jupi-chan vai acabar ficando sozinha!」
O
fato dela emendar logo em seguida com um “Bom, não que eu vá deixar ela ficar
sozinha de jeito nenhum!” era a cara dela.
Uma
regata azul-marinho e uma jaqueta esportiva de uma famosa marca internacional.
É claro que o material era excelente, mas o tom branco perolado, que passava
uma sensação de leveza, multiplicava o charme da roupa de baixo.
E, acima de
tudo, o cabelo dela. Os longos cabelos pretos amarrados no alto em um rabo de
cavalo estilo samurai.
Era uma
silhueta que lembrava muito a Aono Kanata, sua irmã mais nova e uma das
heroínas do jogo DunMagi original, mas bastava olhar para o rosto dela para
notar imediatamente a diferença entre as duas.
A
Haruka não tem aquela frieza afiada ou a quietude da irmã. Seus olhos azuis são
arredondados como os de um gato manso, exalando uma aura de certa forma
grandiosa, ou melhor, uma atmosfera de quem tem muita calma e autoconfiança.
Mas, acima
de tudo, no caso dela, as suas expressões mudam de um jeito até engraçado.
Quando ela acha algo divertido, dá grandes risadas, e se vê algo interessante,
se joga naquilo com os olhos brilhando.
Ver a forma
como ela celebra a vida com todas as forças e de corpo inteiro sempre me enche
de energia. Olha só agora, por exemplo, enquanto ela engole com gosto um
cachorro-quente de uma das barraquinhas...
「Ué, que foi? ……Por acaso sujei minha
cara com ketchup ou mostarda?」
「Tá tudo certo. Não tem nada sujo. Você tá comendo
direitinho, como sempre.」
「Então, tá ótimo.」
A
garota do sistema estelar, tirando não sei qual número de cachorro-quente do
dia de sua embalagem de papel, pegou a garrafa PET de água que eu tinha deixado
ao meu lado e, enquanto esfriava seu corpo estranhamente quente com ela,
continuou: “Então,”
「O que você acha que a gente devia
fazer?」
O rosto da
Haruka se contorceu de forma difícil.
Como
esperado de irmãs, quando ela faz uma cara fechada com aquele rabo de cavalo,
ela fica idêntica à Kanata.
「Pra começar, tá decidido que a gente
vai dar uma surra naquele cachorrão, certo.」
「Sim.」
「Mas, não adianta nada só derrotar ele como a gente fez
há pouco, sabe.」
「Eu não diria que não tem sentido nenhum, mas pelo
menos é certeza de que não importa quantas vezes a gente derrote aquilo, não
vai contar como “Subjugação”. Aquele Keraunos que se manifestou na batalha do
15º andar é apenas um Avatar. Embora esteja conectado à vontade do corpo
principal, aquilo não passa de um boneco criado utilizando o poder espiritual
dele.」
Se
as condições forem atendidas, em outras palavras, no momento em que a Jupiter é
submetida a um certo nível de estresse e perde o controle sobre ele, Keraunos
forma um corpo físico provisório e começa a destruir tudo.
Pegando
emprestadas as palavras da garota de cabelos prateados, parece que isso é
exatamente o que está estipulado no contrato. Uma ação de defesa para proteger
sua amada filha da dor e do sofrimento. O comportamento descontrolado dele, que
parece anormal visto de fora, nada mais é do que uma regra estabelecida dentro
dos limites do contrato, e é exatamente por isso que, mesmo que a própria Jupiter
implore para ele parar, ele não vai dar ouvidos a ela.
Afinal de
contas, esse é o contrato.
O
contrato com os espíritos é absoluto. Para eles, as promessas não são apenas o
elo e a conexão que ligam este mundo ao Mundo Espiritual, mas também um direito
e um dever.
E já que a Jupiter
firmou esse contrato de pai e filha com aquele monstro, é natural que, como
dever, ele mostre as presas contra qualquer um que cause mal à sua filha.
E o escopo
dessa retaliação é tão amplo que pode acabar atacando até mesmo a nós. Sob a
premissa bonita de “proteger a filha”, o senso comum do nosso lado simplesmente
não funciona com esse velho do trovão que se manifestou no mundo físico
vestindo essa desculpa.
E
assim, quanto mais o Keraunos se descontrola, mais a Jupiter vai se isolando, e
mais fácil fica para ela acumular estresse.
Estresse.
Descontrole. Isolamento. Estresse. Descontrole. Isolamento. Estresse.
Descontrole. Isolamento ―― Que tal, uma espiral negativa que parece até que foi
desenhada de propósito, não acha? A razão aparente para a Jupiter do original
ter caído para o lado do mal é porque ela foi “acolhida por uma ‘Organização’
maligna”, mas a causa fundamental que não deixou ela ter outra escolha a não
ser se afundar nessa organização antissocial, eu acredito firmemente que, seja
essa situação de cadeia de infortúnios, ou melhor, a Espiral de Keraunos.
A chave para
tudo isso está no 【Contrato de Pai e Filha】 trocado
entre Keraunos e Jupiter há vários anos.
É por causa
da existência desse contrato que Keraunos pode causar destruição por aí como
bem entende sob a premissa de “proteção paternal”, e é por causa desse contrato
que Jupiter está presa à restrição de que “deve ser protegida como filha”.
Portanto,
nós temos que dar um jeito de alterar esse contrato.
E o método
mais realista para isso é a “Subjugação” que a Haruka vem mencionando há pouco.
Mas,
「Se as condições forem atendidas, a
gente consegue dar uma mãozinha. Mas,」
「Isso mesmo. É verdade que nós, os estrangeiros,
podemos participar como suporte em um ritual chamado Subjugação. Mas isso não
passa de um trabalho de assistência. Na parte fundamental disso tudo, não
podemos nem nos meter.」
A
Subjugação é uma negociação marcial de atualização do contrato realizada entre
o usuário espiritual e o espírito contratado. Em outras palavras, não importa o
quanto a gente se esforce, se a Jupiter não derrotar Keraunos, nada vai mudar.
「A Jupi-chan, lutando contra aquela
fera...... uwaa~ Só de imaginar a Haruka-san já não consegue parar de se
preocupar.」
Não
é animação, e sim apreensão. Mesmo sendo a grande Haruka-san, parece que quando
uma companheira importante vai enfrentar uma batalha sem garantias, ela nutre
esse tipo de sentimento, me causando uma sensação estranha. Enfim.
「Mas sabe, como é que a gente arranca
o corpo principal daquele cara lá de dentro? Me ensina, Kyou-san, pleeease.」
「Não, o acesso em si não é tão difícil assim.」
Exceto
por entidades do mais alto escalão, como a verdadeira Classe Majestade
Divina da Al-san de nossa party, os espíritos abaixo da Classe Semideus habitam
basicamente “dentro” do contratante. Portanto, com métodos específicos de
infiltração, ou dando um grande choque no portador da técnica para abrir a
“Porta da Mente”, se conseguirmos nos comunicar
diretamente com o espírito adormecido lá dentro, poderemos forçar um desafio de
Subjugação.
「Hã? É assim? A 『Mitama』 da nossa
party não precisa de nada tão complicado assim, ela me escuta e me deixa
conversar com ela sempre que eu quero, sabia?」
Diante
da minha explicação, a garota do sistema estelar inclinou a cabeça parecendo
genuinamente surpresa.
Haruka e a
Mii-chan... não, a 『Futsu-no-Mitama』, pelo
visto, tem sido uma “boa menina obediente” com ela desde o dia em que herdou o
contrato de seus pais, que já se foram há muito tempo.
「Isso provavelmente é porque você, mais do que ninguém,
está realizando o desejo do contrato de 『Futsu-no-Mitama』, não
acha?」
Espíritos
que pertencem à linhagem de espadas e cortes, representados pela 『Futsu-no-Mitama』 da Haruka
ou pela 『Ame-no-Habakiri』 da Aono Kanata, geralmente tendem a
desejar um “espadachim excepcional”. E, sob esse ponto de vista, não deve ter
nem três pessoas neste mundo com um talento superior ao da nossa Haruka. Com
isso, é claro que a Mii-chan vai abanar o rabo de alegria.
Para eles,
um espadachim que sabe usar uma katana melhor do que ninguém é, hoje em dia,
quase sinônimo de um deus.
「Bom, um caso que dá tão certo quanto
o seu é bem raro. É super comum o usuário espiritual e o espírito entrarem em
conflito, e eu mesmo levo chute nas partes baixas da minha parceira direto.」
「Hã? Que história interessante é essa! Conta mais────」
「Voltando ao assunto.」
Dou
uma tossida forçada e puxo a conversa de volta pro tópico principal na marra.
「Como eu disse agora há pouco, a Jupiter
se conectar com o corpo original do Keraunos em si não é tão difícil. O
problema é que a coisa não vai pra frente depois disso.」
「Não vai pra frente como?」
Dou
uma pausa para respirar e, tentando ao máximo manter a calma, solto uma dedução
cruel.
「A Jupiter de agora...」
Ah, sério.
Ainda bem que ela não está aqui com a gente.
「...não consegue vencer o Keraunos.」
Os
olhos azuis da garota do sistema estelar se estreitam, parecendo chateados.
「Eu queria ouvir o motivo do Kyou-san achar isso.」
「Explicando de um jeito simples, o local da luta, ou
melhor, as regras não são favoráveis.」
「Regras?」
「É, regras. Condições. Coisas que você é absolutamente
proibido de fazer quando um usuário espiritual enfrenta seu espírito
contratado.」
O
tempo que ela passou com a mão nos lábios, imersa em pensamentos, durou apenas
um instante.
「Não pode matar, né. Se fizer isso, os
dois só vão sair perdendo.」
A
conclusão a que ela chegou era a resposta inegavelmente certa. Dá pra dizer que
ela é naturalmente inteligente ou tem uma intuição de gênio. A Haruka só não
tem muito conhecimento de mundo, mas a sua capacidade de raciocínio em si é
altíssima. Quando a gente dá um tempinho para ela pensar desse jeito, ela
devolve respostas geniais quase na mesma hora, então eu e o pessoal em volta
sempre acabamos querendo testá-la assim. É um charme diabólico que só os gênios
têm.
「Isso aí. Se houver um assassinato
físico, o próprio contrato em si é quebrado. É por isso que, por regra, os
confrontos contra os espíritos contratados rolam em lugares onde o corpo físico
não se machuca.」
Repito
quantas vezes forem necessárias: a essência da Subjugação é uma negociação na
base da força. Um ritual para demonstrar poder ao espírito e conseguir afrouxar
o contrato ou expandir os direitos que podem ser exercidos.
Por isso,
não dá pra nenhum dos dois bater as botas. Bom, ignorando alguns casos absurdos
como o da Haruka, é impossível vencer o próprio espírito que é a sua fonte de
poder pra começo de conversa, e é por isso que...
「Conhecendo aquele cara, é quase
certeza que ele vai surtar do lado de ‘fora’ também, mas o campo de batalha
principal é dentro da mente da Jupiter. Se ela não demonstrar força contra o
corpo original do Keraunos lá dentro, não importa o quanto a gente desça a
porrada no velho do trovão que se manifestou no mundo exterior, não vai
resolver nada.」
A
batalha de algumas horas atrás vem à minha memória.
A fera do
trovão negro fora de controle. Para não deixar a Jupiter virar a culpada da
história, nós esprememos nossa inteligência e energia pra afastar aquele
monstro.
Se olharmos
apenas para aquele momento, nós definitivamente vencemos o Keraunos.
──── Mesmo
que o Keraunos que se manifestou fosse minúsculo se comparado à sua escala
original, ou mesmo que fosse uma 【mecânica de vidas infinitas onde ele
surta no automático toda vez que o estresse da Jupiter atinge um certo limite】, uma
grande vitória ainda é uma grande vitória. Mas……
「No fim das contas, ela não conseguiu
parar o surto do velho do trovão. Ela foi engolida por aquele bicho sob o
pretexto de proteção e, depois disso, ficou totalmente à mercê das vontades do
‘papai’.」
「Falar desse jeito é sacanagem.」
Aquela
frase, carregando um pouquinho de raiva, continha um carinho genuíno pela Jupiter.
Um sentimento profundo de “ainda bem que formei uma party com ela” brotou no
meu peito. Porém, separando as coisas, eu precisava passar a situação real com
precisão. Como alguém que, de um jeito ou de outro, estava puxando a party pra
frente, ou para ser um bom amigo de longa data para aquela pequena garota de
cabelos prateados daqui em diante, eu...
「Fato é fato. Não dá pra apagar o que
já aconteceu. A Jupiter de agora tem medo do Keraunos. E, independente do que
ela realmente sinta, ela tá sob o controle daquele velho do trovão. Numa
situação sufocante dessas...」
Um
grande fogo de artifício subiu. Era uma explosão rosa com o formato de um
coração gigante.
A maioria
dos espectadores que viu aquela flor de fogo enorme no céu noturno
provavelmente viu algum significado romântico naquilo. Mas, para nós agora,
aquele símbolo tinha outro significado. Coração. Ou seja, a mente.
「Você acha que ela consegue vencer o
Keraunos numa batalha mental?」
「Isso é...」
Ela
hesita. Forte e inteligente como é, não tinha como ela errar a leitura da
situação.
「Kyou-san, você quer dizer que a Jupi-chan
é uma criança fraca?」
「Sim, ela é fraca.」
A
minha garganta ficou estranhamente fria ao soltar a voz. Uma vergonha imatura
de não querer ser odiado pela parceira na minha frente bateu forte, me fazendo
quase desviar o olhar.
「Ela é fraca. É claro que ela é fraca.
Ela teve aquele velho do trovão empurrado nela à força numa instalação bizarra,
nunca conseguiu se enturmar e passou o tempo todo sozinha. Tem como a mente
dela não estar enfraquecida?」
Mesmo
assim, juntei toda a responsabilidade que eu tinha, e, olhando fixo nos olhos
da Haruka, falei sem parar sobre a fraqueza da nossa companheira.
「Ser fraco é um ‘estado’. Quando
alguém não atinge um certo padrão──── por exemplo, quando você se machuca ou
fica doente e não consegue mais fazer o que sempre fazia, a gente entende isso
como estar ‘enfraquecido’.」
「Uhum.」
「Se for assim, então ela é, sem dúvida, fraca. Deixaram
ela fraca. Se você vir alguém com um osso quebrado jorrando sangue pra todo
lado, você vai dizer: ‘Nossa, você tá super saudável, então pode ter alta e ir
lutar’? Mesmo que a própria pessoa aja de forma super alegre, dizendo ‘tô de
boa, sem problemas’, ela só está anestesiada ou segurando a dor, não acha?」
「É verdade.」
A
Haruka não me interrompeu. Ela estava calma. Agindo de forma bem mais madura do
que eu, escutando o que eu tinha a dizer em silêncio.
「É por isso que, agora, a primeira
coisa que a gente tem que fazer é dar o máximo de descanso e nutrição pra ela,
ou melhor, pra mente machucada dela.」
Se
assumirmos que a batalha contra o Keraunos é um choque de mentes, o status que precisa
ser upado não pode ser outro além da resistência mental.
A mente da Jupiter
tá cheia de buracos vazios. Um passado sombrio. Memórias vazias. Pelo que ela
disse, ela não tem nem sequer uma lembrança boa guardada e, ah, é exatamente
por isso.
「Nós vamos ser o porto seguro dela.
Vamos criar um monte de lembranças divertidas pra ela e nos tornar um ‘lugar
que parece a casa dos pais’, onde ela pode agir como uma criança sem se
preocupar com nada.」
Tap,
fez o som. Com a suavidade de uma brisa, o braço esquerdo da garota do sistema
estelar pousou na minha cabeça, começando a fazer cafuné com um toque muito
gentil.
「O Kyou-san é gentil, né.」
Fiquei sem
palavras. O som dos fogos de artifício, que até agorinha estava tão barulhento,
parecia ter sumido.
「...Eu não sou gentil nem nada.」
A fala que
eu mal consegui espremer foi uma negação clichê.
「Eu preciso que ela trabalhe duro como a Artilheira da
nossa party. E pra isso, ela precisa dominar o Keraunos.」
Isso
mesmo. Eu não sou nem um pouco gentil. Alguém realmente gentil é tipo o
protagonista, que consegue priorizar o bem-estar dos outros acima do próprio
benefício. Um hipócrita como eu, que espera que ela cumpra o papel de
‘Artilheira’ por pura conveniência própria, é a escória da escória.
Para derrotar
o guardião do andar final da 『Tokoyami』 e
conseguir a Elixir
que dorme lá no fundo, eu estou
tentando usar o poder dela...
「Você é gentil, sim.」
Mesmo assim,
a Haruka não cedeu.
「Se você realmente estivesse pensando só em ‘limpar’ a
Dungeon, seria bem mais fácil dar tchauzinho pra Jupi-chan e procurar outra
‘Artilheira’, não é?」
「Isso é...」
「Isso daria bem menos trabalho e custaria menos
dinheiro, sabe? Além disso, ninguém ia te culpar se você se separasse daquela
garota.」
「Claro que não. Pelo menos, se eu fizesse isso...」
「────Eu nunca me perdoaria, não é?」
Meu
rosto esquentou. Ela acertou na mosca.
「Bom, de qualquer forma.」
A
sensação suave do cafuné sumiu no céu noturno. O braço dela flutuou no ar,
formou um pequeno punho e desceu até perto da minha mão.
「É por você ser assim que eu confio em
você.」
O
meu próprio punho, que eu acabei fechando sem pensar só de seguir o movimento
dela, encontrou um calorzinho suave num fist bump.
「Bora fazer isso, Kyouichirou. Nós
vamos fazer a Jupi-chan a criança mais feliz de todas e libertar ela daquela
fera má.」
「...Beleza.」
Até
eu admito que fui levado nessa conversa fácil demais.
Sendo bem
honesto, nesse ponto, ainda faltavam várias peças para completarmos o tabuleiro.
Sem contar o
estado mental da Jupiter — que é a peça principal —, a nossa própria força de
combate também não é suficiente.
O poder do 『Keraunos』 que
surtava dentro do jogo, ou seja, que aparecia como o Mid-Boss da Rota Principal, não era só aquilo ali.
Velocidade,
tamanho, poder de fogo e, acima de tudo, ele tem um ataque especial que é
praticamente a sua marca registrada.
No Ritual de
Subjugação, é esse tipo de Keraunos que nós vamos ter que enfrentar no mundo
exterior.
Por
isso, assim como a Jupiter, nós também precisamos ficar mais fortes.
Equipamentos,
skills, estratégias. Se não treinarmos e afiarmos até o limite as partes que o
meu conhecimento de jogo não resolve, nós vamos acabar virando churrasco nas
mãos daquela fera do trovão negro enfurecida.
Sendo
assim...
「A coisa vai ficar corrida daqui pra
frente. Com certeza vai ser a nossa operação mais hard até agora.」
「Isso quer dizer que vão ser os dias mais empolgantes
que a gente já teve, né? Que delícia!」
Entendendo
todos os riscos e ainda conseguindo abrir um sorriso enorme desses, a Haruka
com certeza é uma pessoa muito fora da curva.
「Tô contando contigo, parceira.」
「Pode deixar comigo, parceiro.」
E
assim, depois de selar firmemente a nossa “Aliança para Fazer a Jupiter Feliz”
logo na Área do Observatório — o point famoso dos casais —, nós passamos a
noite toda discutindo os próximos passos da run.
「Por enquanto, a Jupiter vai ficar lá
em casa dos Shimizu.」
「Tudo bem levar ela pra lá assim do nada? Seus pais não
vão tomar um susto?」
「Tranquilo, tranquilo. Eu não tenho pais. Eu moro com a
minha irmã mais velha e uma inquilina esquisita, somos só nós três, então tem
quarto sobrando.」
「...Foi mal. Eu falei uma coisa super insensível agora.」
「Hã? Ah, não, eu que peço desculpas. Quer dizer, não
esquenta com isso. A culpa foi minha por não ter te contado antes.」
No
meio do papo, o clima quase ficou meio estranho, mas, no geral, a gente
conseguiu ter a nossa conversa divertida de sempre.
「Ei, Haruka.」
「Hm?」
「Sabe, eu tô muito feliz de ter formado uma party com
você.」
「Olha só pra isso. Você sempre solta essas coisas que
me deixam super feliz, hein.」
────Vou
confessar. Eu tenho quase certeza absoluta de que não é nada a ver com amor,
paixão ou esse tipo de sentimento romântico, mas eu simplesmente adoro passar o
tempo conversando com ela.
Eu adoro,
demais.
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