■ Capítulo 1: Aliança

  

​◆◆◆ Cidade Masmorra OukaDungeon Número 336 Tokoyami(Trevas Eternas) 1º Ponto Intermediário Área do Observatório: Shimizu Kyouichirou

 

Para falar a verdade, a “Subjugação” de Keraunos era um dos eventos que eu já havia previsto no momento em que decidi acolher a Jupiter.

Um termo geral para a medida drástica de forçar uma atualização nas condições do contrato ao derrotar um espírito que já possui um contrato selado.

Na época do jogo, esse conceito era muito utilizado exclusivamente para a aquisição de novas habilidades ou como o clímax para os cenários de vários personagens, mas, quando trazido para a realidade, a situação acaba sendo a seguinte.

―― Basicamente, descer a porrada num cara que se acha o maioral e domesticá-lo à força.

……É, convenhamos que, mesmo querendo ser legal, não dá pra chamar isso de algo muito elegante(cavalheiresco).

Pegando emprestado as palavras oficiais, eles chamam “obter novas possibilidades ao demonstrar sua força para o espírito” de Subjugação, mas isso é enfeitar demais a situação.

Para o bem ou para o mal, a essência do ato de subjugação não passa do uso da força armada.

Pessoalmente, acredito que conceitos como bem e mal só começam a surgir quando circunstâncias individuais são inseridas no meio disso, como “com qual propósito” ou “a relação entre o parceiro(usuário de espirito) que desafia a subjugação e o próprio espírito”.

Incluindo tudo isso, vamos analisar este caso atual mais uma vez.

Keraunos. O espírito contratado de Jupiter, que é membro da nossa party de aventureiros, cuja classificação é do Tipo Majestade Divina, Classe Semideus(High) de Nível(Demi) Alto(god).

Sua habilidade é a Criação e Manipulação de Trovão Negro, possuindo o atributo duplo de “Miasma(Veneno)” e “Trovão”, com uma altíssima funcionalidade voltada principalmente para ataques de magia espiritual.

O que é particularmente impressionante é a sua potência.

Talvez por causa do seu histórico peculiar como uma Majestade Divina do tipo modificado, o trovão negro que ele dispara é excepcional até mesmo entre entidades do mesmo rank. Se fôssemos medir puramente pela perspectiva do seu valor(Full) máximo(Power) de disparo(Specs), ele é tão impressionante que não perde em nada se comparado ao topo absoluto da Classe Semideus, que está um degrau acima.

Sinceramente, em termos de desempenho, não há nenhum problema.

Ele com certeza possui uma força excelente, a ponto de podermos elogiá-lo sem ressalvas, dizendo que é exatamente o esperado de alguém que atua como um Mid-Boss da Rota(Grand) Principal(Route).

O problema é que tanto a personalidade desse cara quanto o conteúdo do contrato que ele firmou com a sua parceira, Jupiter, são os “piores” possíveis.

Um velho ranzinza do trovão sem igual e um pai tóxico. A forma como ele age é a exata definição do que chamamos de Monster Parent (Pais Superprotetores e Tóxicos).

Dizer que é um pai substituto até que soa bem, mas um pai que se intromete a esse ponto é um grande ‘não’ pros padrões da Haruka-san, nya~

O Ponto Intermediário durante a noite.

A configuração espacial dessa gigantesca Zona(Safety) de Segurança(Area) estabelecida dentro da dungeon permanece ideal não apenas de dia ou de noite, mas o ano inteiro.

Temperatura ideal. Umidade ideal.

O ar é sempre refrescante, não tem a chuva que eu tanto odeio, e nem insetos.

Esta cidade, construída pela grandiosa Série Yalda (comumente apelidados de Puru-puru-sans) — que servem como representantes e divindades subordinadas ao Deus da Dungeon —, possui um poder mágico misterioso.

Festivais com barraquinhas de comida acontecem quase todos os dias.

O ar é tomado pelo aroma de carne bem temperada com especiarias e pelo cheiro de algodão-doce, que te permite saborear a doçura do açúcar ao máximo.

Basta olhar com um pouco mais de atenção e você verá artistas de rua competindo com seus talentos por toda a parte. No palco prateado ao ar livre, instalado no centro do distrito de entretenimento, eventos especiais acontecem quase todas as noites.

Agitação. Mistura. Caos.

A arquitetura dos prédios é uma mistura de estilos japonês e ocidental, mas, ao mesmo tempo, não importa onde você procure, não há nenhum arranha-céu de alta sociedade como aqueles prédios residenciais de luxo. Incluindo esses detalhes, é como se essa cidade fosse um pedaço recortado de um “festival de verão do interior”.

Em um canto da área do observatório, onde se pode ter uma visão panorâmica desse cotidiano de festival lá de cima, nós estamos agora realizando uma reunião estratégica sobre “ele”.

Jupiter não está aqui. Ela está dormindo na cama da casa que alugamos.

Os acontecimentos de algumas horas atrás devem ter cobrado um preço muito alto dela.

Depois de acordar uma vez e conversarmos um pouco, ela logo voltou a dormir e continuou assim.

Não é como se estivéssemos esperando por uma chance de ter uma conversa em segredo desde o começo, mas, graças ao fato de a Jupiter ter adormecido, acabamos conseguindo esse tempo para conversar a sós.

O motivo de termos saído de fininho da casa alugada e estarmos sentados num banco lá fora, acredito eu, é porque o problema que ela carrega é bastante delicado e, mais do que tudo, porque nós queríamos ver o que chamam de “cenário do cotidiano”.

Ainda não se passou nem meio dia desde a batalha no 15º andar.

A batalha decisiva contra o guardião do andar, o pássaro monstruoso Camac, e o descontrole da besta do trovão negro que se manifestou durante a crise de sua filha.

Nossas emoções, que ficaram tensas ao limite no meio de batalhas consecutivas, precisavam de uma distração.

E foi nesse momento que o “festival” desse 1º Ponto Intermediário veio à mente de nós dois e, num piscar de olhos, viemos lá pra fora... acho que o fluxo das coisas foi mais ou menos esse.

Mas, por mais que ela esteja dormindo, sair e deixar a Jupiter sozinha agora me deixaria com a consciência pesada demais.

Quando ela acordar, se perceber que não tem ninguém lá, com certeza vai se sentir sozinha, ou pode acabar tendo um mal-entendido bizarro e desaparecer por aí ―― e esse tipo de desencontro de roteiro é algo que eu preciso evitar a todo custo.

Por isso, para não cometermos esse tipo de erro, nós decidimos contratar alguns vigias que também servem como mensageiros.

Neste exato momento, dentro da casa que alugamos, há uma multidão de Puru-puru-sans que contratamos usando Pedras Espirituais, todos amontoados por lá.

Se a Jupiter acordar, ou se por um acaso algo acontecer com ela, eles devem nos avisar imediatamente.

O coração ferido da Jupiter e os nossos nervos exaustos. Não dá pra escolher qual priorizar, e nem há necessidade disso.

Tirar um tempo para relaxar e não deixá-la sozinha são coisas que devem ser feitas de forma correta e igualitária.

Enquanto observava os fogos de artifício subindo no céu noturno estrelado, eu expressei a minha opinião sobre o que ela havia dito.

Dizer que ele é superprotetor até que soa bem, mas aquele cara passa um pouco dos limites, né.

Isso, isso mesmo. Aquele cachorrão gigante, parece que tá protegendo a Jupi-chan, mas não tá protegendo nada! Pelo contrário, se ele sair surtando daquele jeito, a Jupi-chan vai acabar ficando sozinha!

O fato dela emendar logo em seguida com um “Bom, não que eu vá deixar ela ficar sozinha de jeito nenhum!” era a cara dela.

Uma regata azul-marinho e uma jaqueta esportiva de uma famosa marca internacional. É claro que o material era excelente, mas o tom branco perolado, que passava uma sensação de leveza, multiplicava o charme da roupa de baixo.

E, acima de tudo, o cabelo dela. Os longos cabelos pretos amarrados no alto em um rabo de cavalo estilo samurai.

Era uma silhueta que lembrava muito a Aono Kanata, sua irmã mais nova e uma das heroínas do jogo DunMagi original, mas bastava olhar para o rosto dela para notar imediatamente a diferença entre as duas.

A Haruka não tem aquela frieza afiada ou a quietude da irmã. Seus olhos azuis são arredondados como os de um gato manso, exalando uma aura de certa forma grandiosa, ou melhor, uma atmosfera de quem tem muita calma e autoconfiança.

Mas, acima de tudo, no caso dela, as suas expressões mudam de um jeito até engraçado. Quando ela acha algo divertido, dá grandes risadas, e se vê algo interessante, se joga naquilo com os olhos brilhando.

Ver a forma como ela celebra a vida com todas as forças e de corpo inteiro sempre me enche de energia. Olha só agora, por exemplo, enquanto ela engole com gosto um cachorro-quente de uma das barraquinhas...

Ué, que foi? ……Por acaso sujei minha cara com ketchup ou mostarda?

Tá tudo certo. Não tem nada sujo. Você tá comendo direitinho, como sempre.

Então, tá ótimo.

A garota do sistema estelar, tirando não sei qual número de cachorro-quente do dia de sua embalagem de papel, pegou a garrafa PET de água que eu tinha deixado ao meu lado e, enquanto esfriava seu corpo estranhamente quente com ela, continuou: “Então,”

O que você acha que a gente devia fazer?

O rosto da Haruka se contorceu de forma difícil.

Como esperado de irmãs, quando ela faz uma cara fechada com aquele rabo de cavalo, ela fica idêntica à Kanata.

Pra começar, tá decidido que a gente vai dar uma surra naquele cachorrão, certo.

Sim.

Mas, não adianta nada só derrotar ele como a gente fez há pouco, sabe.

Eu não diria que não tem sentido nenhum, mas pelo menos é certeza de que não importa quantas vezes a gente derrote aquilo, não vai contar como “Subjugação”. Aquele Keraunos que se manifestou na batalha do 15º andar é apenas um Avatar. Embora esteja conectado à vontade do corpo principal, aquilo não passa de um boneco criado utilizando o poder espiritual dele.

Se as condições forem atendidas, em outras palavras, no momento em que a Jupiter é submetida a um certo nível de estresse e perde o controle sobre ele, Keraunos forma um corpo físico provisório e começa a destruir tudo.

Pegando emprestadas as palavras da garota de cabelos prateados, parece que isso é exatamente o que está estipulado no contrato. Uma ação de defesa para proteger sua amada filha da dor e do sofrimento. O comportamento descontrolado dele, que parece anormal visto de fora, nada mais é do que uma regra estabelecida dentro dos limites do contrato, e é exatamente por isso que, mesmo que a própria Jupiter implore para ele parar, ele não vai dar ouvidos a ela.

Afinal de contas, esse é o contrato.

O contrato com os espíritos é absoluto. Para eles, as promessas não são apenas o elo e a conexão que ligam este mundo ao Mundo Espiritual, mas também um direito e um dever.

E já que a Jupiter firmou esse contrato de pai e filha com aquele monstro, é natural que, como dever, ele mostre as presas contra qualquer um que cause mal à sua filha.

E o escopo dessa retaliação é tão amplo que pode acabar atacando até mesmo a nós. Sob a premissa bonita de “proteger a filha”, o senso comum do nosso lado simplesmente não funciona com esse velho do trovão que se manifestou no mundo físico vestindo essa desculpa.

E assim, quanto mais o Keraunos se descontrola, mais a Jupiter vai se isolando, e mais fácil fica para ela acumular estresse.

Estresse. Descontrole. Isolamento. Estresse. Descontrole. Isolamento. Estresse. Descontrole. Isolamento ―― Que tal, uma espiral negativa que parece até que foi desenhada de propósito, não acha? A razão aparente para a Jupiter do original ter caído para o lado do mal é porque ela foi “acolhida por uma ‘Organização’ maligna”, mas a causa fundamental que não deixou ela ter outra escolha a não ser se afundar nessa organização antissocial, eu acredito firmemente que, seja essa situação de cadeia de infortúnios, ou melhor, a Espiral de Keraunos.

A chave para tudo isso está no Contrato de Pai e Filha trocado entre Keraunos e Jupiter há vários anos.

É por causa da existência desse contrato que Keraunos pode causar destruição por aí como bem entende sob a premissa de “proteção paternal”, e é por causa desse contrato que Jupiter está presa à restrição de que “deve ser protegida como  filha”.

Portanto, nós temos que dar um jeito de alterar esse contrato.

E o método mais realista para isso é a “Subjugação” que a Haruka vem mencionando há pouco. Mas,

Se as condições forem atendidas, a gente consegue dar uma mãozinha. Mas,

Isso mesmo. É verdade que nós, os estrangeiros, podemos participar como suporte em um ritual chamado Subjugação. Mas isso não passa de um trabalho de assistência. Na parte fundamental disso tudo, não podemos nem nos meter.

A Subjugação é uma negociação marcial de atualização do contrato realizada entre o usuário espiritual e o espírito contratado. Em outras palavras, não importa o quanto a gente se esforce, se a Jupiter não derrotar Keraunos, nada vai mudar.

A Jupi-chan, lutando contra aquela fera...... uwaa~ Só de imaginar a Haruka-san já não consegue parar de se preocupar.

Não é animação, e sim apreensão. Mesmo sendo a grande Haruka-san, parece que quando uma companheira importante vai enfrentar uma batalha sem garantias, ela nutre esse tipo de sentimento, me causando uma sensação estranha. Enfim.

Mas sabe, como é que a gente arranca o corpo principal daquele cara lá de dentro? Me ensina, Kyou-san, pleeease.

Não, o acesso em si não é tão difícil assim.

Exceto por entidades do mais alto(Top) escalão(Ranks), como a verdadeira Classe Majestade Divina da Al-san de nossa party, os espíritos abaixo da Classe Semideus habitam basicamente “dentro” do contratante. Portanto, com métodos específicos de infiltração, ou dando um grande choque no portador da técnica para abrir a “Porta da Mente(Coração)”, se conseguirmos nos comunicar diretamente com o espírito adormecido lá dentro, poderemos forçar um desafio de Subjugação.

Hã? É assim? A Mitama da nossa party não precisa de nada tão complicado assim, ela me escuta e me deixa conversar com ela sempre que eu quero, sabia?

Diante da minha explicação, a garota do sistema estelar inclinou a cabeça parecendo genuinamente surpresa.

Haruka e a Mii-chan... não, a Futsu-no-Mitama, pelo visto, tem sido uma “boa menina obediente” com ela desde o dia em que herdou o contrato de seus pais, que já se foram há muito tempo.

Isso provavelmente é porque você, mais do que ninguém, está realizando o desejo do contrato de Futsu-no-Mitama, não acha?

Espíritos que pertencem à linhagem de espadas e cortes, representados pela Futsu-no-Mitama da Haruka ou pela Ame-no-Habakiri da Aono Kanata, geralmente tendem a desejar um “espadachim excepcional”. E, sob esse ponto de vista, não deve ter nem três pessoas neste mundo com um talento superior ao da nossa Haruka. Com isso, é claro que a Mii-chan vai abanar o rabo de alegria.

Para eles, um espadachim que sabe usar uma katana melhor do que ninguém é, hoje em dia, quase sinônimo de um deus.

Bom, um caso que dá tão certo quanto o seu é bem raro. É super comum o usuário espiritual e o espírito entrarem em conflito, e eu mesmo levo chute nas partes baixas da minha parceira direto.

Hã? Que história interessante é essa! Conta mais────

Voltando ao assunto.

Dou uma tossida forçada e puxo a conversa de volta pro tópico principal na marra.

Como eu disse agora há pouco, a Jupiter se conectar com o corpo original do Keraunos em si não é tão difícil. O problema é que a coisa não vai pra frente depois disso.

Não vai pra frente como?

Dou uma pausa para respirar e, tentando ao máximo manter a calma, solto uma dedução cruel.

A Jupiter de agora...

Ah, sério. Ainda bem que ela não está aqui com a gente.

...não consegue vencer o Keraunos.

Os olhos azuis da garota do sistema estelar se estreitam, parecendo chateados.

Eu queria ouvir o motivo do Kyou-san achar isso.

Explicando de um jeito simples, o local da luta, ou melhor, as regras não são favoráveis.

Regras?

É, regras. Condições. Coisas que você é absolutamente proibido de fazer quando um usuário espiritual enfrenta seu espírito contratado.

O tempo que ela passou com a mão nos lábios, imersa em pensamentos, durou apenas um instante.

Não pode matar, né. Se fizer isso, os dois só vão sair perdendo.

A conclusão a que ela chegou era a resposta inegavelmente certa. Dá pra dizer que ela é naturalmente inteligente ou tem uma intuição de gênio. A Haruka só não tem muito conhecimento de mundo, mas a sua capacidade de raciocínio em si é altíssima. Quando a gente dá um tempinho para ela pensar desse jeito, ela devolve respostas geniais quase na mesma hora, então eu e o pessoal em volta sempre acabamos querendo testá-la assim. É um charme diabólico que só os gênios têm.

Isso aí. Se houver um assassinato físico, o próprio contrato em si é quebrado. É por isso que, por regra, os confrontos contra os espíritos contratados rolam em lugares onde o corpo físico não se machuca.

Repito quantas vezes forem necessárias: a essência da Subjugação é uma negociação na base da força. Um ritual para demonstrar poder ao espírito e conseguir afrouxar o contrato ou expandir os direitos que podem ser exercidos.

Por isso, não dá pra nenhum dos dois bater as botas. Bom, ignorando alguns casos absurdos como o da Haruka, é impossível vencer o próprio espírito que é a sua fonte de poder pra começo de conversa, e é por isso que...

Conhecendo aquele cara, é quase certeza que ele vai surtar do lado de ‘fora’ também, mas o campo de batalha principal é dentro da mente da Jupiter. Se ela não demonstrar força contra o corpo original do Keraunos lá dentro, não importa o quanto a gente desça a porrada no velho do trovão que se manifestou no mundo exterior, não vai resolver nada.

A batalha de algumas horas atrás vem à minha memória.

A fera do trovão negro fora de controle. Para não deixar a Jupiter virar a culpada da história, nós esprememos nossa inteligência e energia pra afastar aquele monstro.

Se olharmos apenas para aquele momento, nós definitivamente vencemos o Keraunos.

──── Mesmo que o Keraunos que se manifestou fosse minúsculo se comparado à sua escala original, ou mesmo que fosse uma mecânica de vidas infinitas onde ele surta no automático toda vez que o estresse da Jupiter atinge um certo limite, uma grande vitória ainda é uma grande vitória. Mas……

No fim das contas, ela não conseguiu parar o surto do velho do trovão. Ela foi engolida por aquele bicho sob o pretexto de proteção e, depois disso, ficou totalmente à mercê das vontades do ‘papai’.

Falar desse jeito é sacanagem.

Aquela frase, carregando um pouquinho de raiva, continha um carinho genuíno pela Jupiter. Um sentimento profundo de “ainda bem que formei uma party com ela” brotou no meu peito. Porém, separando as coisas, eu precisava passar a situação real com precisão. Como alguém que, de um jeito ou de outro, estava puxando a party pra frente, ou para ser um bom amigo de longa data para aquela pequena garota de cabelos prateados daqui em diante, eu...

Fato é fato. Não dá pra apagar o que já aconteceu. A Jupiter de agora tem medo do Keraunos. E, independente do que ela realmente sinta, ela tá sob o controle daquele velho do trovão. Numa situação sufocante dessas...

Um grande fogo de artifício subiu. Era uma explosão rosa com o formato de um coração gigante.

A maioria dos espectadores que viu aquela flor de fogo enorme no céu noturno provavelmente viu algum significado romântico naquilo. Mas, para nós agora, aquele símbolo tinha outro significado. Coração(Heart). Ou seja, a mente(Kokoro).

Você acha que ela consegue vencer o Keraunos numa batalha mental?

Isso é...

Ela hesita. Forte e inteligente como é, não tinha como ela errar a leitura da situação.

Kyou-san, você quer dizer que a Jupi-chan é uma criança fraca?

Sim, ela é fraca.

A minha garganta ficou estranhamente fria ao soltar a voz. Uma vergonha imatura de não querer ser odiado pela parceira na minha frente bateu forte, me fazendo quase desviar o olhar.

Ela é fraca. É claro que ela é fraca. Ela teve aquele velho do trovão empurrado nela à força numa instalação bizarra, nunca conseguiu se enturmar e passou o tempo todo sozinha. Tem como a mente dela não estar enfraquecida?

Mesmo assim, juntei toda a responsabilidade que eu tinha, e, olhando fixo nos olhos da Haruka, falei sem parar sobre a fraqueza da nossa companheira.

Ser fraco é um ‘estado’. Quando alguém não atinge um certo padrão──── por exemplo, quando você se machuca ou fica doente e não consegue mais fazer o que sempre fazia, a gente entende isso como estar ‘enfraquecido’.

Uhum.

Se for assim, então ela é, sem dúvida, fraca. Deixaram ela fraca. Se você vir alguém com um osso quebrado jorrando sangue pra todo lado, você vai dizer: ‘Nossa, você tá super saudável, então pode ter alta e ir lutar’? Mesmo que a própria pessoa aja de forma super alegre, dizendo ‘tô de boa, sem problemas’, ela só está anestesiada ou segurando a dor, não acha?

É verdade.

A Haruka não me interrompeu. Ela estava calma. Agindo de forma bem mais madura do que eu, escutando o que eu tinha a dizer em silêncio.

É por isso que, agora, a primeira coisa que a gente tem que fazer é dar o máximo de descanso e nutrição pra ela, ou melhor, pra mente machucada dela.

Se assumirmos que a batalha contra o Keraunos é um choque de mentes, o status que precisa ser upado não pode ser outro além da resistência mental.

A mente da Jupiter tá cheia de buracos vazios. Um passado sombrio. Memórias vazias. Pelo que ela disse, ela não tem nem sequer uma lembrança boa guardada e, ah, é exatamente por isso.

Nós vamos ser o porto seguro dela. Vamos criar um monte de lembranças divertidas pra ela e nos tornar um ‘lugar que parece a casa dos pais’, onde ela pode agir como uma criança sem se preocupar com nada.

Tap, fez o som. Com a suavidade de uma brisa, o braço esquerdo da garota do sistema estelar pousou na minha cabeça, começando a fazer cafuné com um toque muito gentil.

 

O Kyou-san é gentil, né.


Fiquei sem palavras. O som dos fogos de artifício, que até agorinha estava tão barulhento, parecia ter sumido.

...Eu não sou gentil nem nada.

A fala que eu mal consegui espremer foi uma negação clichê.

Eu preciso que ela trabalhe duro como a Artilheira da nossa party. E pra isso, ela precisa dominar o Keraunos.

Isso mesmo. Eu não sou nem um pouco gentil. Alguém realmente gentil é tipo o protagonista, que consegue priorizar o bem-estar dos outros acima do próprio benefício. Um hipócrita como eu, que espera que ela cumpra o papel de ‘Artilheira’ por pura conveniência própria, é a escória da escória.

Para derrotar o guardião do andar final da Tokoyami e conseguir a Elixir(Panaceia Universal)   que dorme lá no fundo, eu estou tentando usar o poder dela...

Você é gentil, sim.

Mesmo assim, a Haruka não cedeu.

Se você realmente estivesse pensando só em ‘limpar’ a Dungeon, seria bem mais fácil dar tchauzinho pra Jupi-chan e procurar outra ‘Artilheira’, não é?

Isso é...

Isso daria bem menos trabalho e custaria menos dinheiro, sabe? Além disso, ninguém ia te culpar se você se separasse daquela garota.

Claro que não. Pelo menos, se eu fizesse isso...

────Eu nunca me perdoaria, não é?

Meu rosto esquentou. Ela acertou na mosca.

Bom, de qualquer forma.

A sensação suave do cafuné sumiu no céu noturno. O braço dela flutuou no ar, formou um pequeno punho e desceu até perto da minha mão.

É por você ser assim que eu confio em você.

O meu próprio punho, que eu acabei fechando sem pensar só de seguir o movimento dela, encontrou um calorzinho suave num fist bump.

Bora fazer isso, Kyouichirou. Nós vamos fazer a Jupi-chan a criança mais feliz de todas e libertar ela daquela fera má.

...Beleza.

Até eu admito que fui levado nessa conversa fácil demais.

Sendo bem honesto, nesse ponto, ainda faltavam várias peças para completarmos o tabuleiro.

Sem contar o estado mental da Jupiter — que é a peça principal —, a nossa própria força de combate também não é suficiente.

O poder do Keraunos que surtava dentro do jogo, ou seja, que aparecia como o Mid-Boss da Rota(Grand) Principal(Route), não era só aquilo ali.

Velocidade, tamanho, poder de fogo e, acima de tudo, ele tem um ataque especial que é praticamente a sua marca registrada.

No Ritual de Subjugação, é esse tipo de Keraunos que nós vamos ter que enfrentar no mundo exterior.

Por isso, assim como a Jupiter, nós também precisamos ficar mais fortes.

Equipamentos, skills, estratégias. Se não treinarmos e afiarmos até o limite as partes que o meu conhecimento de jogo não resolve, nós vamos acabar virando churrasco nas mãos daquela fera do trovão negro enfurecida.

Sendo assim...

A coisa vai ficar corrida daqui pra frente. Com certeza vai ser a nossa operação mais hard até agora.

Isso quer dizer que vão ser os dias mais empolgantes que a gente já teve, né? Que delícia!

Entendendo todos os riscos e ainda conseguindo abrir um sorriso enorme desses, a Haruka com certeza é uma pessoa muito fora da curva.

Tô contando contigo, parceira.

Pode deixar comigo, parceiro.

E assim, depois de selar firmemente a nossa “Aliança para Fazer a Jupiter Feliz” logo na Área do Observatório — o point famoso dos casais —, nós passamos a noite toda discutindo os próximos passos da run.

Por enquanto, a Jupiter vai ficar lá em casa dos Shimizu.

Tudo bem levar ela pra lá assim do nada? Seus pais não vão tomar um susto?

Tranquilo, tranquilo. Eu não tenho pais. Eu moro com a minha irmã mais velha e uma inquilina esquisita, somos só nós três, então tem quarto sobrando.

...Foi mal. Eu falei uma coisa super insensível agora.

Hã? Ah, não, eu que peço desculpas. Quer dizer, não esquenta com isso. A culpa foi minha por não ter te contado antes.

No meio do papo, o clima quase ficou meio estranho, mas, no geral, a gente conseguiu ter a nossa conversa divertida de sempre.

Ei, Haruka.

Hm?

Sabe, eu tô muito feliz de ter formado uma party com você.

Olha só pra isso. Você sempre solta essas coisas que me deixam super feliz, hein.

────Vou confessar. Eu tenho quase certeza absoluta de que não é nada a ver com amor, paixão ou esse tipo de sentimento romântico, mas eu simplesmente adoro passar o tempo conversando com ela.

Eu adoro, demais.

 

 

 

 

 

 


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