■ Capítulo 6: Chuva

  

 

​◆◆◆ Shimizu Kyouichirou

 

No Grand Route de DunMagi, a Jupiter falava sobre o Sillard-san e os outros como uma existência obscura.

Ela não os chamava pelo nome, mas falava coisas como “Por algum motivo, olhar para eles me irrita”.

Mas, por outro lado, no Livro de Lore Oficial, havia uma menção que dizia: “Já pertenceu à ‘Rosso(Espada de Gelo)&Blu(Flamejante)”, e isso causou uma certa repercussão na comunidade, ou melhor, virou alvo de muitas teorias.

Ou seja, a Jupiter da obra original Apesar de ter pertencido à “Espada de Gelo em Chamas” no passado, havia se esquecido de James Sillard.

Na linha do tempo original, ela não reconheceu o Sillard-san como “James Sillard” até o final.

Por outro lado, o lado do Sillard-san também nunca falou muito sobre o assunto.

Olhando para a Eliza-san caída, ele apenas disse “Me perdoe”, e para a Jupiter, que soltava gargalhadas enlouquecidas, ele disse “Mas eu tenho uma responsabilidade a cumprir”, e foi só isso.

...Pois é. Afinal, eles são humanos. É perfeitamente possível esquecer completamente as memórias de um antigo chefe.

Mas na época, eu pensei numa coisa.

Aquela frase que ela costumava dizer em seus Monologues: “Eu sempre estive sozinha”.

Uma Berserker digna de pena que quebrou no final de tudo, sem ser amada por ninguém, passando por coisas cruéis e sempre isolada.

Não, pera lá, é aí que a história não bate.

O que você tá querendo me dizer? Quer dizer que o Sillard-san e os outros alienaram completamente a Jupiter quando ela veio para Ouka, a isolaram e, no fim das contas, a expulsaram sem a menor piedade? É isso que você quer me dizer?

Isso é forçar muito a barra.

Eles podem ter seus defeitos, mas são o Clã onde uma das heroínas e parte da facção aliada do Game estava matriculada, sabia?

Considerando a filosofia de administração deles como uma organização de ajuda mútua para estrangeiros, tratar uma garota como a Jupiter de forma grosseira seria um Out of Character (erro de interpretação) absurdo.

Lembre-se, e tente pensar sobre isso.

A Jupiter que nós conhecemos fala o idioma deste país perfeitamente. Ela se lembra das regras como aventureira, não tem problemas na vida cotidiana e ama Galge do fundo do coração.

Quem ensinou essas coisas a ela? Quem foi que a criou para que ela pudesse se tornar independente em um período de menos de dois anos?

A Jupiter não fala sobre isso.

Mesmo quando a Haruka elogia dizendo: “Jupi-chan, você é muito boa no idioma do Império, né”, ela apenas bufa e diz: “EU ME ESFORCEI ESTUDANDO”.

E sobre os Galge, a mesma coisa.

Dizem que, para evitar que a Jupiter acumulasse estresse desnecessário, jogos excessivamente depressivos (Utsuge) ou do tipo Gore eram proibidos, mas quem estava testando o terreno para ela?

Os Galge, para o bem ou para o mal, estão cheios de pacotes enganosos por aí. Você compra um jogo porque tem um monte de garotas fofas de uniforme na capa, e quando vai ver, é uma aventura investigativa pesada sobre uma série de assassinatos bizarros... táticas de choque como essa são a especialidade dos criadores. Tente entregar um negócio desses para a Jupiter, que ainda não tem o emocional desenvolvido?

Com certeza o Keraunos ia sair do controle e dar Boom, entendeu?

Alguém precisava fazer o teste de veneno (provar o jogo antes). E esse alguém, com toda a certeza, entendia de Galge, e também entendia a Jupiter.

Resumindo a história: a Jupiter era devidamente amada.

Havia pessoas que lhe ensinavam os estudos, e havia pelo menos uma pessoa que apoiava os seus passatempos.

Apesar disso, no entanto, a Jupiter acha que sempre esteve completamente sozinha. Ela está convencida disso.

O Keraunos, como preço pelo seu poder, está sugando as memórias da Jupiter.

Provavelmente, para manipulá-la a depender única e exclusivamente dele ──── essas foram as palavras que o Sillard-san me disse pelo telefone.

Quando eu ouvi esse fato, muitas coisas fizeram sentido na minha cabeça.

E, ao mesmo tempo, eu tremi de ódio daquele desgraçado.

Roubar as memórias dela? Tirar o pilar de apoio emocional da Jupiter para fazê-la depender só de si mesmo... onde caralhos isso é “amor paterno”?

O problema é que ela não tem consciência de que as suas memórias estão sendo diluídas. É apenas uma suposição, mas aquele desgraçado deve ter roubado a memória de “ter feito o contrato” logo de cara. Se ela não se lembra, não tem como resistir. É por isso que...

Sem que a própria Jupiter soubesse, o Keraunos continuou roubando as memórias preciosas dela.

As memórias felizes, a dívida de gratidão que com certeza existia; toda vez que ela usava o poder, elas eram raspadas pouco a pouco, e então...

Quando nós percebemos isso, ela já havia chegado a um ponto sem volta.

Um acidente aconteceu.

Foi um acidente durante a captura de uma Dungeon.

A Jupiter foi atacada por um inimigo e, por causa do medo, despertou o Keraunos, e a fera do trovão negro esgotou todos os limites da atrocidade.

Esse impulso de destruição não conhecia limites, e aquele maldito causou uma ferida que jamais iria cicatrizar no rosto da benfeitora da Jupiter.

E, depois, quando descobriu o que havia feito, a Jupiter desabou a chorar por três dias e três noites.

Dizem que ela continuou gritando seus sentimentos de profundo, profundo remorso repetidas vezes.

Mesmo estando em um estado onde colocaram restrições nela dentro de uma jaula exclusiva para que ela não atentasse contra a própria vida, ela gritou até a sua voz falhar ──── não, mesmo depois de falhar, dizem que ela continuou emitindo sons o tempo todo.

Com certeza, era um “Me desculpe”.

Com certeza, era um “Eu quero morrer”.

Dizem que o trovão negro correu solto por dentro da jaula.

Para poder administrar os nutrientes nela, o próprio Clan Master, Sillard-san, teve que ir pessoalmente.

E então, na manhã do quarto dia, quando a mente dela finalmente recuperou a calma, e o Sillard-san perguntou: “Você se lembra do que aconteceu há quatro dias?”,

Quem... é a ELIZA?

Ela havia esquecido da benfeitora que ela mesma havia machucado.

No começo, achei que ela tivesse desenvolvido sintomas de amnésia por causa do trauma de tê-la machucado.

Mas, estranhamente, ao ficar cara a cara com a própria Eliza-san e conversar por um tempo, a Jupiter foi nitidamente recuperando suas memórias, e então, novamente...

Ocorreu um surto.

Despertando o Keraunos por causa da culpa e do arrependimento, e, quando a fera se acalmava, ela havia se esquecido da Eliza novamente.

O apagamento de memórias do Keraunos não rouba as lembranças dela como se fosse uma borracha. A restauração é possível. Contanto que haja um gatilho, ela pode recuperá-las.

Mas, toda vez que a Jupiter se lembrava da Eliza-san, ela se culpava, o Keraunos aparecia, e então ela se esquecia dela mais uma vez.

Este é o motivo verdadeiro e sem nenhuma mistura. Como Clan Master (Mestre de Clã) e como amigo da Jupiter, eu não podia mais permitir que ela continuasse na “Rosso(Espada de Gelo)&Blu(Flamejante)”.

Isso é distorcido. É podre. É absolutamente imperdoável. Só aquele desgraçado eu vou subjugar com as minhas próprias mãos, definitivamente. Vou quebrar as presas dele completamente, até não sobrar nada, e vou arrancar todas as tripas dele pra que ele nunca mais cause problemas a nós, humanos.

No momento em que eu fiz as chamas da minha fúria ferverem até o limite e jurei novamente o extermínio daquele velho do trovão que não passa de um pedaço de lixo...

Mas, Kyouichirou. Ao fazerem com que aquela fera adormecesse, mesmo que temporariamente, eu sinto que a “nossa tragédia” se transformou em uma rota de fuga brilhante.

O Sillard-san disse.

Um pouco já basta. Por favor, faça a Eliza e a Jupiter se encontrarem. Não se preocupe. A Jupiter de agora, apoiada por uma família como vocês, com certeza conseguirá encarar o passado que esqueceu.

 

Casa dos Shimizu – Sala de Estar

 

No entanto, naquele dia, no fim das contas, a Jupiter e a Eliza-san não trocaram uma única palavra.

Ou melhor, eu as impedi por conta própria.

Porque era impossível, né. Segurá-la à força para fazê-la conversar, sendo que ela mudou de cor e saiu correndo no meio da chuva forte assim que viu o rosto da Eliza-san.

Ainda bem que a Jupiter é um desastre extremo nos esportes, mas só de pensar no que teria acontecido se ela tivesse uma agilidade no mesmo nível da Haruka, me dá calafrios na espinha.

Depois de agarrar a Jupiter, deixei o cuidado dela nas mãos da Nee-san e da Al, e fui direto para a sala de estar pedir desculpas à convidada pela nossa falta de modos.

Não se preocupe com isso. O Goshujin-sama e eu já imaginávamos que isso provavelmente aconteceria.

A Maid (empregada) de estilo ocidental, com cabelos prateados e olhos vermelhos, bebe um gole de chá no quarto de tatame.

A quantidade de informação visual era tão grande que eu quase fiquei confuso, mas aguentei firme e, enquanto intercalava palavras de desculpas adequadas, fiz uma troca de informações com a Eliza-san.

A Eliza-san, ao contrário de sua aparência fria e inteligente, era uma pessoa que falava bastante.

No Game, ela agia de forma bem próxima a essa imagem, mas se agora ela deixou florescer uma conversa tão graciosa quanto um riacho limpo, provavelmente foi porque era sobre o passado e o assunto era muito fácil de falar.

Isso incluía, por exemplo, a história das flores que ela e a Jupiter plantaram;

Ou talvez o fato chocante de que o motivo da Jupiter ter viciado em Galge foi por influência dela;

Às vezes, rolavam episódios bobos bem a cara daquela baixinha;

Às vezes, dava para ter um vislumbre do lado brincalhão da Eliza-san;

E, no fim das contas, a conversa acabou chegando no assunto sobre o seu olho direito.

Ela falou sobre a época do incidente em um tom indiferente.

Uma história revoltante de “Classe Especial” que aperta o peito não importa quantas vezes você a ouça; e a Eliza-san terminou de contá-la sem mudar a expressão do rosto nem por um segundo.

──── Mesmo assim, houve apenas uma vez em que os olhos dela tremeram levemente.

Não foi por causa da cicatriz que não curava e que ficou em seu rosto, nem mesmo pelo fato da Jupiter ter se esquecido dela...

Até hoje, ainda ecoa nos meus ouvidos. Aquele tom de voz dela me pedindo desculpas repetidas vezes dentro do quarto de confinamento à prova de raios.

Com certeza, aquilo sim era a bondade, a nobreza e a beleza dessa pessoa, e também os seus verdadeiros sentimentos em relação à Jupiter.

Kyouichirou-sama, por favor, aceite isto.

E então, por fim, ela me entregou uma caixa de madeira do tamanho da palma da mão e foi embora da casa dos Shimizu.

Por favor, use o que está dentro no momento apropriado.

Entendido.

A Eliza-san não disse “Cuide da Jupiter” nem uma única vez.

E eu também não disse “Vou dar o meu melhor”.

No mundo, existem coisas tão “óbvias” que a gente nem precisa se dar ao trabalho de transformar em palavras.

Como o fato de que os humanos não podem viver sem água e ar.

Ou que a manhã sempre vem depois da noite; esse tipo de coisa.

Para nós, isso era uma verdade óbvia.

 

 

Santuário Antigo – Pátio

 

No dia seguinte. Naquele dia, prestes a executar a nossa operação, eu levei a Jupiter até o santuário de sempre.

Infelizmente, como estava caindo uma leve garoa lá fora, nós precisamos de guarda-chuvas e capas de chuva, mas: “Ah, que nada, isso também é elegante, de vez em quando uma paisagem assim não é nada mal” ──── eu não penso nisso nem por um segundo.

Eu odeio a chuva.

Odeio num nível que entra fácil no top cinco de coisas que eu mais odeio neste mundo.

O som, a umidade, o cheiro ruim; o fato de a existência dela ser um estorvo e ainda pagar de “bênção dos céus”; tudo, absolutamente tudo nela me irrita.

Por isso, inevitavelmente, eu também odeio esta estação.

Junho. A estação das hortênsias tingida pela época das chuvas.

O KYOUICHIROU... tá... NERVOSO?

A voz da JUPITER ecoa pelo pátio do santuário. Uma leve confusão e um pouquinho de tensão. Envergonhado de mim mesmo por ter feito ela se preocupar, tentei forçar uma voz alegre.

Ah, foi mal. É que eu odeio a chuva.

Falar sobre o tempo é um assunto do qual qualquer um pode participar, não importa a idade ou o sexo. A minha escolha de que isso facilitaria a conversa provou estar certa, e a JUPITER acenou com a cabeça confirmando.

EU também... NÃO TÔ GOSHTANDO... de chuva.

É covardia o jeito como a existência inteira dela é desagradável, mas deixam passar só porque é indispensável para as atividades do planeta, né.

...Não é um papo tão Worldwide assim.

A fadinha redondinha embrulhada em uma capa de chuva amarela estava me encarando com aqueles olhos semicerrados de censura.

Droga. Será que eu espalhei muita intenção assassina no ar?

Quando chove, o trovão ronca... é isso, que EU não gosto.

A garota de cabelos prateados diz isso enquanto balança as pernas sob o beiral do telhado, fazendo pata-pata.

Não gosta porque o trovão ronca, é?

O trovão com certeza machuca alguma coisa. Toda vez que aquilo cai, algum lugar do planeta se machuca. A chuva traz bênçãos, mas o trovão só destrói... é O PIOR.

Isso é autodepreciação?

Uhum.

Sem hesitar, a garota acenou com a cabeça.

Para a Jupiter, que teve um poder indesejado implantado nela e que sempre foi manipulada por ele, o trovão deve ser o exato símbolo de um agressor.

Ao ouvir a voz dela, uma vontade repentina de contra-argumentar brotou no meu coração.

────Sabe, Jupiter. A verdade é que, pro planeta, os trovões até que têm um efeito positivo, sabia?

O ar estimulado pelo relâmpago flui junto com a chuva e enriquece a terra. Dito por mim, O Homem Que Vai Absolutamente Matar a Chuva, não tem muita credibilidade, então eu não vou falar isso em voz alta, mas até a pior das coisas tem uma parte que dá pra salvar.

Por isso, não odeie tanto o trovão──── e quando cheguei nesse ponto dos meus pensamentos, eu parei.

É melhor ficar quieto. Não acho que vomitar curiosidades inúteis num lugar desses vá aquecer o clima. É aquele negócio: o silêncio vale ouro.

……………………

……………………

A chuva caindo de leve, potsuri potsuri.

Não havia como ter uma canção sendo cantada para um mundo que não é gentil e é triste, então, por um tempo, nós continuamos apenas observando distraidamente a chuva que odiávamos.

Como foram essas duas semanas?

Tentei perguntar fingindo que não era nada demais. A resposta veio na mesma hora.

Foi DIVERTIDO como num SONHO.

Uma voz tranquila, porém sem hesitação, carregada com um calor certeiro e muito forte. O som da garota que ressoava além do barulho da chuva ecoou pelo pátio do santuário em plena luz do dia.

A FUMIKA fez a COMIDA pra MIM. A AL-NEE brincou COMIGO. A HARUKA ME tratou com carinho. O KYOUICHIROU ME animou. ...Naquela casa, EU pude ser uma criança normal.

Dizendo que isso a deixou absurdamente feliz, a JUPITER falou como se estivesse saboreando cada palavra.

EU não sabia que um mundo onde EU não precisava machucar ninguém era tão divertido. EU não sabia que os dias onde era permitido não esmagar os MEUS sentimentos eram tão quentinhos. ...Foi a primeira vez que EU achei que alguém como EU pudesse continuar vivendo.

Entendi...

Então, com certeza, trazê-la para a nossa casa foi a decisão certa.

Eu a trouxe meio que à força, então estava um pouco preocupado.

Mas...

Abaixando os olhos, escurecendo a voz, com um tom sofrido como se estivesse espremendo a própria alma.

EU... não tinha o direito de ser feliz daquele jeito.

O motivo desse arrependimento tão profundo; eu precisava perguntar isso a ela.

Como líder, como amigo, e também como família.

Por que você acha isso?

Houve um longo silêncio.

Inúmeras hesitações e interrupções que não podiam ser contadas nas duas mãos.

Sabe de uma coisa, EU...

Mesmo assim, a Jupiter me respondeu.

Ela se esforçou muito para responder à minha pergunta.

Sobre o fato de que ela tinha sido aceita na “Rosso(Espada de Gelo)&Blu(Flamejante)”.

Sobre o fato de que, mesmo tendo muitas coisas divertidas e dias felizes, ela os esqueceu antes de perceber, e por algum motivo, acabou tendo a falsa memória de que sempre esteve sozinha. E também sobre a Eliza-san.

Você ouviu da ELIZA, não é? Sobre MIM.

Bom, eu já sei a maior parte da situação──── Que coisa terrível, viu. Se existia uma situação dessas, eles deveriam ter me contado desde o começo.

Porque se fizessem isso, talvez o KYOUICHIROU e os outros tivessem recuado.

“Isso não é verdade”, seria fácil negar gentilmente. Mas o que a Jupiter está procurando não é isso.

Sabe, Jupiter. Quantas lembranças você tem aí dentro agora?

Sobre o KYOUICHIROU e os outros, tudo. Sobre a ELIZA e os outros, EU consigo lembrar se ME esforçar. Mas, sobre antes de EU vir pra cá ──── não sinto que seja real.

Segundo a Jupiter, isso se parece mais com uma expressão em texto do que com imagens. O fato de ter sido abandonada pelos pais verdadeiros, os dias no “ORFANATO”, o encontro com o Keraunos──── ela só tem o conhecimento de que essas coisas aconteceram.

Mas não surge nenhum sentimento de realidade naquilo, e ela é dominada por um vazio como se estivesse lendo o resumo de uma novel barata que não deixa quase nenhuma impressão; a garota murmurou sem forças:

EU... sou uma INGRATA. EU machuquei a ELIZA que ME tratou com tanto carinho, e mesmo assim, esqueci até disso, e fiquei ME aproveitando do KYOUICHIROU e dos outros na maior cara de pau.

Errado

Não tem nada de errado. EU esqueci. Da ELIZA, de todo mundo, ──── e quem sabe, algum dia, até mesmo do KYOUICHIROU e dos outros.

A expressão da Jupiter congela. Como se tivesse se lembrado de algo e se desesperado. E esse algo, provavelmente, era...

...Quem é... VOCÊ?

EU, lá no décimo quinto andar...

...Você só estava meio dormindo.

Isso. Só estava meio dormindo. Afinal, na verdade, naquela hora, a Jupiter percebeu logo de cara que eu era o Kyouichirou, não é?

Então nada muda. Ela acordou, ficou meio grogue e percebeu logo em seguida. O que deve ser contado é o resultado, e não o processo. E pra começo de conversa, ninguém tem como provar se ela estava só sonolenta ou se tinha “esquecido”. Não precisa se atormentar com essa cara de dor, Jupiter. Você tem o direito de ser feliz, sim.

É impossível. Uma pessoa INGRATA como EU ser a única a ser feliz. Ninguém, ──── não. EU MESMA nunca ME perdoaria.

Soluços escapam.

Ouço o som dela fungando o nariz.

Em uma hora dessas, como será que a Haruka reagiria?

Ela abraçaria gentilmente a Jupiter, que estava desabando em lágrimas, e diria: “Vai ficar tudo bem”... ah, com certeza ela faria isso. Mesmo sem usar nenhuma lógica inteligente, para a Aono Haruka, só isso já bastaria. Com uma atitude mais eloquente que as palavras, ela com certeza salvaria a Jupiter.

Sabe, Jupiter.

Mas, para alguém desajeitado e sem jeito como eu, é impossível agir como ela, então...

Isso aqui, eu quero que fique só entre nós, tá?

Por isso, eu...

A verdade é que a minha Nee-san tá doente. E é um negócio bem grave.

Vou mostrar não com atitudes, mas com palavras.

Hã...?

O choro para, e um vazio toma conta. Quando viro o rosto em direção à garota de cabelos prateados, a Jupiter estava piscando várias vezes, como se quisesse dizer que não entendeu o que eu falei.

É MENTIRA. Afinal, a FUMIKA tá sempre tão bem e tão forte.

Ah, sim. Bom, é normal ter essa reação. ...Mas, é verdade, Jupiter. A Nee-san tá...

A Shimizu Fumika sofre de uma doença fatal, foi o que eu disse. Escondi apenas que a origem daquilo é uma Maldição e a verdadeira identidade da Al, e contei todo o resto, sem esconder nada, com total honestidade.

É a mesma coisa que você agora. Ela consegue ficar bem porque a força da Al está suprimindo a doença. Mas é um pouco difícil de curar com a medicina moderna. É uma doença tão perigosa que todos os médicos simplesmente jogaram a toalha.

Então, se a força da AL-NEE acabar...

...Pois é.

Com aquele único aceno de cabeça, parece que ela entendeu muita coisa.

Ela é uma boa garota. E muito inteligente.

Mas olha só, Jupiter. Na verdade, não é uma história tão ruim assim.

Como assim? A FUMIKA tá em perigo, não tá? O DODÓI não tem cura, não é?

Com certeza, os médicos dizem isso. Mas...

Mas a esperança existe, era isso que eu queria transmitir.

Isso também é a esperança para nós dois, irmãos, e...

É uma informação de uma fonte confiável: dizem que existe um Elixir Universal nas profundezas de Tokoyami(Trevas Eternas)

Elixir Universal. Uma poção milagrosa que transcende a inteligência humana, capaz de curar instantaneamente todas as feridas, maldições e doenças. E se tivermos isso...

Se tivermos isso, a Nee-san vai poder recuperar sua verdadeira liberdade e saúde de uma vez por todas. ...Eu... a verdade é que, contanto que a Nee-san esteja bem, só isso já me basta.

Por isso, Jupiter, você ainda...

O Elixir Universal que sobrar, você pode usar.

Você ainda pode recomeçar.

...Vai curar?

Eu acenei com a cabeça para as palavras dela.

O rosto da ELIZA vai curar e voltar ao normal?

Quando acenei de novo, por algum motivo, o fundo do meu nariz ardeu.

Se curar, ...então a ELIZA vai de novo COMIGO... hic, vai plantar flores COMIGO de novo?

A terceira vez, eu simplesmente não aguentei.

Minha visão embaçou, minha cabeça esquentou de vez, e eu já não entendia mais nada.

...Ah, que droga. É por isso que eu odeio a chuva. Quando começa a cair, não quer mais parar, e é chata pra caramba.

A chuva cai. Tanto do lado de dentro quanto do lado de fora.

A chuva cai. Uma tempestade imensa que equivale a nós dois, eu e ela.


 

A chuva cai. A chuva cai. A chuva, cai.

 

 

Depois disso, nós deixamos um pouco de tempo passar. O aspecto do céu foi mudando aos poucos, e a força da chuva começou a diminuir. O cheiro de chuva também suavizou bastante. As nuvens cinzentas foram se dispersando e, como se a sujeira do céu tivesse sido removida, o mundo se tornou brilhante e vibrante.

Amanhã, nós entraremos na Dungeon.

Eu não perdi o momento exato. O simples fato de o tempo melhorar é algo que não se pode subestimar.

A luz que atravessa, o ar que se aquece e a serotonina secretada acalmam o coração e o corpo.

UHUM.

A Jupiter assentiu. Balançando a cabeça devagar, com a lentidão habitual de sempre.

Lá, nós vamos acertar as contas com o Keraunos.

...UHUM.

Com certeza será uma batalha difícil. Talvez você sinta muita dor e sofrimento.

Não houve resposta. Pois é. Dá medo, né. Você quer fugir, né. Eu entendo o que você está sentindo.

Mas olha só, Jupiter. Vai ficar tudo bem. Agora, você tem um apoio sólido de verdade.

Se você achar que está sofrendo, ou se estiver prestes a desistir achando que é impossível, nessas horas, tente se lembrar das memórias divertidas.

MEMÓRIAS... DIVERTIDAS?

Sim. Ter encontrado um Game interessante, ter comido algo gostoso, ou se tiver dificuldade em escolher um Pickup, pode ser apenas mergulhar nas memórias do tempo que passou na nossa casa. Uma grande vitória após um despertar com uma cena de Flashback no meio é o básico de um jogo de ação, não é?

MAS, TALVEZ EU ESQUEÇA.

Os olhos vermelhos da garota vacilaram com ansiedade.

Ah, verdade. Esse ponto faz todo o sentido. O Keraunos, como preço pela manifestação ou para quebrar o seu coração, pode tentar sujar as nossas memórias preciosas.

Contanto que ele apenas as roube, não há problema.

Elas não sumiram. Não foram destruídas. Apenas foram roubadas. E ontem, ela mesma as recuperou por conta própria.

Você conseguiu se lembrar da Eliza-san, não foi? Também se lembrou da gente na mesma hora. Por isso, vai ficar tudo bem, Jupiter. Nós não vamos desaparecer de dentro de você.

Além disso, eu já pensei em contramedidas adequadas. E até preparei um amuleto para o caso de uma emergência.

Vou te entregar isso aqui.

Coloquei um saquinho de pano com estampa de arabescos na mão da garota. Era de um tamanho consideravelmente grande e, além disso, era bem pesado.

...O QUE É, ISSO?

É um amuleto. Em vários sentidos. Se as coisas ficarem difíceis ao ponto de não ter mais jeito, tente abrir isso aqui. O que está dentro com certeza vai te dar forças.

OBRIGADA.

Sorri de volta para a garota que aceitou o presente obedientemente, dizendo “Não foi nada”, e...

E mais um conselho. Se o Velho do Trovão começar a resmungar alguma coisa, manda um soco com tudo no saco dele. A maioria dos machos cala a boca com isso.

...entreguei a ela mais um conselho, o meu trunfo especial.

Sim, eu sei. É vulgar. Mas, no fim das contas, é o que mais funciona.

Eu, que vivo levando chute no meu símbolo de homem daquela deusa maligna todo santo dia, sei bem do que estou falando.

O ponto fraco dos machos fica entre as pernas.

SERÁ QUE EU, CONSIGO...?

Você consegue, se for você──── Ah,

As nuvens de chuva sujas que cobriam o céu foram fugindo para longe.

Graças à remoção do filtro que atrapalhava, a luz quente do sol caiu sobre a cidade de Ouka, fazendo a cidade inteira refletir cores de prisma.

...INCRÍVEL.

Ouvi um pequeno, bem pequeno som de admiração vindo ao meu lado.

É uma vista espetacular, não é? Este é um lugar secreto que quase nenhum morador da cidade conhece.

A paisagem urbana brilhando sob a luz do sol.

Um cenário fantástico onde árvores gigantes e prédios se enfileiram.

A vista da cidade de Ouka observada do santuário é algo que nunca cansa, não importa quantas vezes eu olhe.

E, para completar, hoje temos um bônus especial.

...ARCO-ÍRIS.

Uma ponte celestial brilhando em sete cores refletia-se nitidamente na tela azul do céu.

Um arco-íris tão claro assim não é algo que se vê todo dia.

Fala sério, para uma chuva maldita, até que ela deixou um belo presente de despedida.

A chuva traz o trovão, mas também traz o arco-íris──── as coisas são bem feitas, né.

...REALMENTE, É VERDADE.

Ainda vestindo as capas de chuva que se tornaram desnecessárias, ficamos os dois lado a lado observando além do arco-íris.

Vamos vencer.

UHUM.

O pequeno punho fechado da garota, que encostou de leve no meu, estava molhado com gotas de chuva e ainda um pouco frio.

 



 

 


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