■ Capítulo 6: Chuva
◆◆◆ Shimizu Kyouichirou
No
Grand Route de DunMagi, a Jupiter falava sobre o Sillard-san e os outros como
uma existência obscura.
Ela não os
chamava pelo nome, mas falava coisas como “Por algum motivo, olhar para eles me
irrita”.
Mas, por
outro lado, no Livro de Lore Oficial, havia uma menção que dizia: “Já pertenceu
à ‘Rosso&Blu”, e isso causou uma certa
repercussão na comunidade, ou melhor, virou alvo de muitas teorias.
Ou
seja, a Jupiter da obra original 【Apesar de ter pertencido à “Espada de
Gelo em Chamas” no passado, havia se esquecido de James Sillard】.
Na linha do
tempo original, ela não reconheceu o Sillard-san como “James Sillard” até o
final.
Por
outro lado, o lado do Sillard-san também nunca falou muito sobre o assunto.
Olhando para
a Eliza-san caída, ele apenas disse “Me perdoe”, e para a Jupiter, que soltava
gargalhadas enlouquecidas, ele disse “Mas eu tenho uma responsabilidade a
cumprir”, e foi só isso.
...Pois
é. Afinal, eles são humanos. É perfeitamente possível esquecer completamente as
memórias de um antigo chefe.
Mas na
época, eu pensei numa coisa.
Aquela frase
que ela costumava dizer em seus Monologues: “Eu sempre estive sozinha”.
Uma
Berserker digna de pena que quebrou no final de tudo, sem ser amada por
ninguém, passando por coisas cruéis e sempre isolada.
Não,
pera lá, é aí que a história não bate.
O que você
tá querendo me dizer? Quer dizer que o Sillard-san e os outros alienaram
completamente a Jupiter quando ela veio para Ouka, a isolaram e, no fim das
contas, a expulsaram sem a menor piedade? É isso que você quer me dizer?
Isso é
forçar muito a barra.
Eles podem
ter seus defeitos, mas são o Clã onde uma das heroínas e parte da facção aliada
do Game estava matriculada, sabia?
Considerando
a filosofia de administração deles como uma organização de ajuda mútua para
estrangeiros, tratar uma garota como a Jupiter de forma grosseira seria um Out
of Character (erro de interpretação) absurdo.
Lembre-se,
e tente pensar sobre isso.
A Jupiter
que nós conhecemos fala o idioma deste país perfeitamente. Ela se lembra das
regras como aventureira, não tem problemas na vida cotidiana e ama Galge do
fundo do coração.
Quem ensinou
essas coisas a ela? Quem foi que a criou para que ela pudesse se tornar
independente em um período de menos de dois anos?
A Jupiter
não fala sobre isso.
Mesmo quando
a Haruka elogia dizendo: “Jupi-chan, você é muito boa no idioma do Império,
né”, ela apenas bufa e diz: “EU ME ESFORCEI ESTUDANDO”.
E
sobre os Galge, a mesma coisa.
Dizem que,
para evitar que a Jupiter acumulasse estresse desnecessário, jogos
excessivamente depressivos (Utsuge) ou do tipo Gore eram proibidos, mas quem
estava testando o terreno para ela?
Os Galge, para
o bem ou para o mal, estão cheios de pacotes enganosos por aí. Você compra um
jogo porque tem um monte de garotas fofas de uniforme na capa, e quando vai
ver, é uma aventura investigativa pesada sobre uma série de assassinatos
bizarros... táticas de choque como essa são a especialidade dos criadores.
Tente entregar um negócio desses para a Jupiter, que ainda não tem o emocional
desenvolvido?
Com certeza
o Keraunos ia sair do controle e dar Boom, entendeu?
Alguém
precisava fazer o teste de veneno (provar o jogo antes). E esse
alguém, com toda a certeza, entendia de Galge, e também entendia a Jupiter.
Resumindo
a história: a Jupiter era devidamente amada.
Havia
pessoas que lhe ensinavam os estudos, e havia pelo menos uma pessoa que apoiava
os seus passatempos.
Apesar
disso, no entanto, a Jupiter acha que sempre esteve completamente sozinha. Ela
está convencida disso.
〝O 『Keraunos』, como
preço pelo seu poder, está sugando as memórias da Jupiter.〞
Provavelmente,
para manipulá-la a depender única e exclusivamente dele ──── essas foram as
palavras que o Sillard-san me disse pelo telefone.
Quando eu
ouvi esse fato, muitas coisas fizeram sentido na minha cabeça.
E, ao mesmo
tempo, eu tremi de ódio daquele desgraçado.
Roubar
as memórias dela? Tirar o pilar de apoio emocional da Jupiter para fazê-la
depender só de si mesmo... onde caralhos isso é “amor paterno”?
『O problema é que ela não tem
consciência de que as suas memórias estão sendo diluídas. É apenas uma suposição,
mas aquele desgraçado deve ter roubado a memória de “ter feito o contrato” logo
de cara. Se ela não se lembra, não tem como resistir. É por isso que...』
Sem
que a própria Jupiter soubesse, o Keraunos continuou roubando as memórias
preciosas dela.
As memórias
felizes, a dívida de gratidão que com certeza existia; toda vez que ela usava o
poder, elas eram raspadas pouco a pouco, e então...
『Quando nós percebemos isso, ela já
havia chegado a um ponto sem volta.』
Um
acidente aconteceu.
Foi um
acidente durante a captura de uma Dungeon.
A Jupiter
foi atacada por um inimigo e, por causa do medo, despertou o 『Keraunos』, e a fera
do trovão negro esgotou todos os limites da atrocidade.
Esse
impulso de destruição não conhecia limites, e aquele maldito causou uma ferida
que jamais iria cicatrizar no rosto da benfeitora da Jupiter.
E, depois,
quando descobriu o que havia feito, a Jupiter desabou a chorar por três dias e
três noites.
Dizem que
ela continuou gritando seus sentimentos de profundo, profundo remorso repetidas
vezes.
Mesmo
estando em um estado onde colocaram restrições nela dentro de uma jaula
exclusiva para que ela não atentasse contra a própria vida, ela gritou até a
sua voz falhar ──── não, mesmo depois de falhar, dizem que ela continuou
emitindo sons o tempo todo.
Com
certeza, era um “Me desculpe”.
Com certeza,
era um “Eu quero morrer”.
Dizem
que o trovão negro correu solto por dentro da jaula.
Para poder
administrar os nutrientes nela, o próprio Clan Master, Sillard-san, teve que ir
pessoalmente.
E
então, na manhã do quarto dia, quando a mente dela finalmente recuperou a
calma, e o Sillard-san perguntou: “Você se lembra do que aconteceu há quatro
dias?”,
〝Quem... é a ELIZA?〞
Ela
havia esquecido da benfeitora que ela mesma havia machucado.
『No começo, achei que ela tivesse
desenvolvido sintomas de amnésia por causa do trauma de tê-la machucado.』
Mas,
estranhamente, ao ficar cara a cara com a própria Eliza-san e conversar por um
tempo, a Jupiter foi nitidamente recuperando suas memórias, e então,
novamente...
『Ocorreu um surto.』
Despertando
o 『Keraunos』 por causa da culpa e do
arrependimento, e, quando a fera se acalmava, ela havia se esquecido da Eliza
novamente.
『O apagamento de memórias do Keraunos
não rouba as lembranças dela como se fosse uma borracha. A restauração é
possível. Contanto que haja um gatilho, ela pode recuperá-las.』
Mas,
toda vez que a Jupiter se lembrava da Eliza-san, ela se culpava, o 『Keraunos』 aparecia,
e então ela se esquecia dela mais uma vez.
『Este é o motivo verdadeiro e sem
nenhuma mistura. Como Clan Master (Mestre de Clã) e como amigo da Jupiter, eu
não podia mais permitir que ela continuasse na “Rosso&Blu”.』
Isso
é distorcido. É podre. É absolutamente imperdoável. Só aquele desgraçado eu vou
subjugar com as minhas próprias mãos, definitivamente. Vou quebrar as presas
dele completamente, até não sobrar nada, e vou arrancar todas as tripas dele
pra que ele nunca mais cause problemas a nós, humanos.
No
momento em que eu fiz as chamas da minha fúria ferverem até o limite e jurei
novamente o extermínio daquele velho do trovão que não passa de um pedaço de
lixo...
『Mas, Kyouichirou. Ao fazerem com que
aquela fera adormecesse, mesmo que temporariamente, eu sinto que a “nossa
tragédia” se transformou em uma rota de fuga brilhante.』
O
Sillard-san disse.
『Um pouco já basta. Por favor, faça a
Eliza e a Jupiter se encontrarem. Não se preocupe. A Jupiter de agora, apoiada
por uma família como vocês, com certeza conseguirá encarar o passado que
esqueceu.』
◆ Casa dos Shimizu – Sala de Estar
No
entanto, naquele dia, no fim das contas, a Jupiter e a Eliza-san não trocaram
uma única palavra.
Ou melhor,
eu as impedi por conta própria.
Porque
era impossível, né. Segurá-la à força para fazê-la conversar, sendo que ela
mudou de cor e saiu correndo no meio da chuva forte assim que viu o rosto da
Eliza-san.
Ainda bem
que a Jupiter é um desastre extremo nos esportes, mas só de pensar no que teria
acontecido se ela tivesse uma agilidade no mesmo nível da Haruka, me dá
calafrios na espinha.
Depois
de agarrar a Jupiter, deixei o cuidado dela nas mãos da Nee-san e da Al, e fui
direto para a sala de estar pedir desculpas à convidada pela nossa falta de
modos.
「Não se preocupe com isso. O
Goshujin-sama e eu já imaginávamos que isso provavelmente aconteceria.」
A
Maid (empregada) de estilo ocidental, com cabelos prateados e olhos
vermelhos, bebe um gole de chá no quarto de tatame.
A quantidade
de informação visual era tão grande que eu quase fiquei confuso, mas aguentei
firme e, enquanto intercalava palavras de desculpas adequadas, fiz uma troca de
informações com a Eliza-san.
A
Eliza-san, ao contrário de sua aparência fria e inteligente, era uma pessoa que
falava bastante.
No Game, ela
agia de forma bem próxima a essa imagem, mas se agora ela deixou florescer uma
conversa tão graciosa quanto um riacho limpo, provavelmente foi porque era
sobre o passado e o assunto era muito fácil de falar.
Isso
incluía, por exemplo, a história das flores que ela e a Jupiter plantaram;
Ou talvez o
fato chocante de que o motivo da Jupiter ter viciado em Galge foi por
influência dela;
Às vezes,
rolavam episódios bobos bem a cara daquela baixinha;
Às vezes,
dava para ter um vislumbre do lado brincalhão da Eliza-san;
E, no fim
das contas, a conversa acabou chegando no assunto sobre o seu olho direito.
Ela
falou sobre a época do incidente em um tom indiferente.
Uma história
revoltante de “Classe Especial” que aperta o peito não importa quantas vezes
você a ouça; e a Eliza-san terminou de contá-la sem mudar a expressão do rosto
nem por um segundo.
────
Mesmo assim, houve apenas uma vez em que os olhos dela tremeram levemente.
Não
foi por causa da cicatriz que não curava e que ficou em seu rosto, nem mesmo
pelo fato da Jupiter ter se esquecido dela...
「Até hoje, ainda ecoa nos meus
ouvidos. Aquele tom de voz dela me pedindo desculpas repetidas vezes dentro do
quarto de confinamento à prova de raios.」
Com
certeza, aquilo sim era a bondade, a nobreza e a beleza dessa pessoa, e também
os seus verdadeiros sentimentos em relação à Jupiter.
「Kyouichirou-sama, por favor, aceite
isto.」
E
então, por fim, ela me entregou uma caixa de madeira do tamanho da palma da mão
e foi embora da casa dos Shimizu.
「Por favor, use o que está dentro no
momento apropriado.」
「Entendido.」
A
Eliza-san não disse “Cuide da Jupiter” nem uma única vez.
E eu também
não disse “Vou dar o meu melhor”.
No
mundo, existem coisas tão “óbvias” que a gente nem precisa se dar ao trabalho
de transformar em palavras.
Como o fato
de que os humanos não podem viver sem água e ar.
Ou que a
manhã sempre vem depois da noite; esse tipo de coisa.
Para nós, isso
era uma verdade óbvia.
◆ Santuário Antigo – Pátio
No
dia seguinte. Naquele dia, prestes a executar a nossa operação, eu levei a Jupiter
até o santuário de sempre.
Infelizmente,
como estava caindo uma leve garoa lá fora, nós precisamos de guarda-chuvas e
capas de chuva, mas: “Ah, que nada, isso também é elegante, de vez em quando
uma paisagem assim não é nada mal” ──── eu não penso nisso nem por um segundo.
Eu
odeio a chuva.
Odeio num
nível que entra fácil no top cinco de coisas que eu mais odeio neste mundo.
O som, a
umidade, o cheiro ruim; o fato de a existência dela ser um estorvo e ainda
pagar de “bênção dos céus”; tudo, absolutamente tudo nela me irrita.
Por isso,
inevitavelmente, eu também odeio esta estação.
Junho. A
estação das hortênsias tingida pela época das chuvas.
「O KYOUICHIROU... tá... NERVOSO?」
A
voz da JUPITER ecoa pelo pátio do santuário. Uma leve confusão e um pouquinho
de tensão. Envergonhado de mim mesmo por ter feito ela se preocupar, tentei
forçar uma voz alegre.
「Ah, foi mal. É que eu odeio a chuva.」
Falar
sobre o tempo é um assunto do qual qualquer um pode participar, não importa a
idade ou o sexo. A minha escolha de que isso facilitaria a conversa provou
estar certa, e a JUPITER acenou com a cabeça confirmando.
「EU também... NÃO TÔ GOSHTANDO... de chuva.」
「É covardia o jeito como a existência inteira dela é
desagradável, mas deixam passar só porque é indispensável para as atividades do
planeta, né.」
「...Não é um papo tão Worldwide assim.」
A
fadinha redondinha embrulhada em uma capa de chuva amarela estava me encarando
com aqueles olhos semicerrados de censura.
Droga. Será
que eu espalhei muita intenção assassina no ar?
「Quando chove, o trovão ronca... é
isso, que EU não gosto.」
A
garota de cabelos prateados diz isso enquanto balança as pernas sob o beiral do
telhado, fazendo pata-pata.
Não gosta
porque o trovão ronca, é?
「O trovão com certeza machuca alguma
coisa. Toda vez que aquilo cai, algum lugar do planeta se machuca. A chuva traz
bênçãos, mas o trovão só destrói... é O PIOR.」
「Isso é autodepreciação?」
「Uhum.」
Sem
hesitar, a garota acenou com a cabeça.
Para a Jupiter,
que teve um poder indesejado implantado nela e que sempre foi manipulada por
ele, o trovão deve ser o exato símbolo de um agressor.
Ao
ouvir a voz dela, uma vontade repentina de contra-argumentar brotou no meu
coração.
────Sabe, Jupiter.
A verdade é que, pro planeta, os trovões até que têm um efeito positivo, sabia?
O ar
estimulado pelo relâmpago flui junto com a chuva e enriquece a terra. Dito por
mim, O Homem Que Vai Absolutamente Matar a Chuva, não tem muita credibilidade,
então eu não vou falar isso em voz alta, mas até a pior das coisas tem uma
parte que dá pra salvar.
Por
isso, não odeie tanto o trovão──── e quando cheguei nesse ponto dos meus
pensamentos, eu parei.
É melhor
ficar quieto. Não acho que vomitar curiosidades inúteis num lugar desses vá
aquecer o clima. É aquele negócio: o silêncio vale ouro.
「……………………」
「……………………」
A
chuva caindo de leve, potsuri potsuri.
Não havia
como ter uma canção sendo cantada para um mundo que não é gentil e é triste,
então, por um tempo, nós continuamos apenas observando distraidamente a chuva
que odiávamos.
「Como foram essas duas semanas?」
Tentei
perguntar fingindo que não era nada demais. A resposta veio na mesma hora.
「Foi DIVERTIDO como num SONHO.」
Uma
voz tranquila, porém sem hesitação, carregada com um calor certeiro e muito
forte. O som da garota que ressoava além do barulho da chuva ecoou pelo pátio
do santuário em plena luz do dia.
「A FUMIKA fez a COMIDA pra MIM. A
AL-NEE brincou COMIGO. A HARUKA ME tratou com carinho. O KYOUICHIROU ME animou.
...Naquela casa, EU pude ser uma criança normal.」
Dizendo
que isso a deixou absurdamente feliz, a JUPITER falou como se estivesse
saboreando cada palavra.
「EU não sabia que um mundo onde EU não
precisava machucar ninguém era tão divertido. EU não sabia que os dias onde era
permitido não esmagar os MEUS sentimentos eram tão quentinhos. ...Foi a
primeira vez que EU achei que alguém como EU pudesse continuar vivendo.」
「Entendi...」
Então,
com certeza, trazê-la para a nossa casa foi a decisão certa.
Eu a trouxe
meio que à força, então estava um pouco preocupado.
「Mas...」
Abaixando
os olhos, escurecendo a voz, com um tom sofrido como se estivesse espremendo a
própria alma.
「EU... não tinha o direito de ser
feliz daquele jeito.」
O
motivo desse arrependimento tão profundo; eu precisava perguntar isso a ela.
Como líder,
como amigo, e também como família.
「Por que você acha isso?」
Houve
um longo silêncio.
Inúmeras
hesitações e interrupções que não podiam ser contadas nas duas mãos.
「Sabe de uma coisa, EU...」
Mesmo
assim, a Jupiter me respondeu.
Ela se
esforçou muito para responder à minha pergunta.
Sobre o fato
de que ela tinha sido aceita na “Rosso&Blu”.
Sobre o fato
de que, mesmo tendo muitas coisas divertidas e dias felizes, ela os esqueceu
antes de perceber, e por algum motivo, acabou tendo a falsa memória de que
sempre esteve sozinha. E também sobre a Eliza-san.
「Você ouviu da ELIZA, não é? Sobre
MIM.」
「Bom, eu já sei a maior parte da situação──── Que coisa
terrível, viu. Se existia uma situação dessas, eles deveriam ter me contado
desde o começo.」
「Porque se fizessem isso, talvez o KYOUICHIROU e os
outros tivessem recuado.」
“Isso
não é verdade”, seria fácil negar gentilmente. Mas o que a Jupiter está
procurando não é isso.
「Sabe, Jupiter. Quantas lembranças
você tem aí dentro agora?」
「Sobre o KYOUICHIROU e os outros, tudo. Sobre a ELIZA e
os outros, EU consigo lembrar se ME esforçar. Mas, sobre antes de EU vir pra cá
──── não sinto que seja real.」
Segundo
a Jupiter, isso se parece mais com uma expressão em texto do que com imagens. O
fato de ter sido abandonada pelos pais verdadeiros, os dias no “ORFANATO”, o
encontro com o 『Keraunos』──── ela
só tem o conhecimento de que essas coisas aconteceram.
Mas não
surge nenhum sentimento de realidade naquilo, e ela é dominada por um vazio
como se estivesse lendo o resumo de uma novel barata que não deixa quase
nenhuma impressão; a garota murmurou sem forças:
「EU... sou uma INGRATA. EU machuquei a
ELIZA que ME tratou com tanto carinho, e mesmo assim, esqueci até disso, e
fiquei ME aproveitando do KYOUICHIROU e dos outros na maior cara de pau.」
「Errado」
「Não tem nada de errado. EU esqueci. Da ELIZA, de todo
mundo, ──── e quem sabe, algum dia, até mesmo do KYOUICHIROU e dos outros.」
A
expressão da Jupiter congela. Como se tivesse se lembrado de algo e se
desesperado. E esse algo, provavelmente, era...
〝...Quem é... VOCÊ?〟
「EU, lá no décimo quinto andar...」
「...Você só estava meio dormindo.」
Isso.
Só estava meio dormindo. Afinal, na verdade, naquela hora, a Jupiter percebeu
logo de cara que eu era o Kyouichirou, não é?
Então nada
muda. Ela acordou, ficou meio grogue e percebeu logo em seguida. O que deve ser
contado é o resultado, e não o processo. E pra começo de conversa, ninguém tem
como provar se ela estava só sonolenta ou se tinha “esquecido”. Não precisa se
atormentar com essa cara de dor, Jupiter. Você tem o direito de ser feliz, sim.
「É impossível. Uma pessoa INGRATA como
EU ser a única a ser feliz. Ninguém, ──── não. EU MESMA nunca ME perdoaria.」
Soluços
escapam.
Ouço o som
dela fungando o nariz.
Em uma hora
dessas, como será que a Haruka reagiria?
Ela
abraçaria gentilmente a Jupiter, que estava desabando em lágrimas, e diria:
“Vai ficar tudo bem”... ah, com certeza ela faria isso. Mesmo sem usar nenhuma
lógica inteligente, para a Aono Haruka, só isso já bastaria. Com uma atitude
mais eloquente que as palavras, ela com certeza salvaria a Jupiter.
「Sabe, Jupiter.」
Mas, para
alguém desajeitado e sem jeito como eu, é impossível agir como ela, então...
「Isso aqui, eu quero que fique só entre nós, tá?」
Por isso,
eu...
「A verdade é que a minha Nee-san tá doente. E é um
negócio bem grave.」
Vou mostrar
não com atitudes, mas com palavras.
「Hã...?」
O choro
para, e um vazio toma conta. Quando viro o rosto em direção à garota de cabelos
prateados, a Jupiter estava piscando várias vezes, como se quisesse dizer que
não entendeu o que eu falei.
「É MENTIRA. Afinal, a FUMIKA tá sempre tão bem e tão
forte.」
「Ah, sim. Bom, é normal ter essa reação. ...Mas, é
verdade, Jupiter. A Nee-san tá...」
A
Shimizu Fumika sofre de uma doença fatal, foi o que eu disse. Escondi apenas
que a origem daquilo é uma Maldição e a verdadeira identidade da Al, e contei
todo o resto, sem esconder nada, com total honestidade.
「É a mesma coisa que você agora. Ela
consegue ficar bem porque a força da Al está suprimindo a doença. Mas é um
pouco difícil de curar com a medicina moderna. É uma doença tão perigosa que
todos os médicos simplesmente jogaram a toalha.」
「Então, se a força da AL-NEE acabar...」
「...Pois é.」
Com
aquele único aceno de cabeça, parece que ela entendeu muita coisa.
Ela é uma
boa garota. E muito inteligente.
「Mas olha só, Jupiter. Na verdade, não
é uma história tão ruim assim.」
「Como assim? A FUMIKA tá em perigo, não tá? O DODÓI não
tem cura, não é?」
「Com certeza, os médicos dizem isso. Mas...」
Mas
a esperança existe, era isso que eu queria transmitir.
Isso também
é a esperança para nós dois, irmãos, e...
「É uma informação de uma fonte
confiável: dizem que existe um Elixir Universal nas profundezas de 『Tokoyami』 」
Elixir
Universal. Uma poção milagrosa que transcende a inteligência humana, capaz de
curar instantaneamente todas as feridas, maldições e doenças. E se tivermos
isso...
「Se tivermos isso, a Nee-san vai poder
recuperar sua verdadeira liberdade e saúde de uma vez por todas. ...Eu... a
verdade é que, contanto que a Nee-san esteja bem, só isso já me basta.」
Por isso, Jupiter,
você ainda...
「O Elixir Universal que sobrar, você pode usar.」
Você ainda
pode recomeçar.
「...Vai curar?」
Eu acenei
com a cabeça para as palavras dela.
「O rosto da ELIZA vai curar e voltar ao normal?」
Quando
acenei de novo, por algum motivo, o fundo do meu nariz ardeu.
「Se curar, ...então a ELIZA vai de
novo COMIGO... hic, vai plantar flores COMIGO de novo?」
A
terceira vez, eu simplesmente não aguentei.
Minha visão
embaçou, minha cabeça esquentou de vez, e eu já não entendia mais nada.
...Ah, que
droga. É por isso que eu odeio a chuva. Quando começa a cair, não quer mais
parar, e é chata pra caramba.
A chuva cai.
Tanto do lado de dentro quanto do lado de fora.
A chuva cai.
Uma tempestade imensa que equivale a nós dois, eu e ela.
A chuva cai.
A chuva cai. A chuva, cai.
◆
Depois
disso, nós deixamos um pouco de tempo passar. O aspecto do céu foi mudando aos
poucos, e a força da chuva começou a diminuir. O cheiro de chuva também
suavizou bastante. As nuvens cinzentas foram se dispersando e, como se a
sujeira do céu tivesse sido removida, o mundo se tornou brilhante e vibrante.
「Amanhã, nós entraremos na Dungeon.」
Eu
não perdi o momento exato. O simples fato de o tempo melhorar é algo que não se
pode subestimar.
A luz que
atravessa, o ar que se aquece e a serotonina secretada acalmam o coração e o
corpo.
「UHUM.」
A Jupiter
assentiu. Balançando a cabeça devagar, com a lentidão habitual de sempre.
「Lá, nós vamos acertar as contas com o
『Keraunos』.」
「...UHUM.」
「Com certeza será uma batalha difícil. Talvez você
sinta muita dor e sofrimento.」
Não
houve resposta. Pois é. Dá medo, né. Você quer fugir, né. Eu entendo o que você
está sentindo.
Mas olha só,
Jupiter. Vai ficar tudo bem. Agora, você tem um apoio sólido de verdade.
「Se você achar que está sofrendo, ou
se estiver prestes a desistir achando que é impossível, nessas horas, tente se
lembrar das memórias divertidas.」
「MEMÓRIAS... DIVERTIDAS?」
「Sim. Ter encontrado um Game interessante, ter comido
algo gostoso, ou se tiver dificuldade em escolher um Pickup, pode ser apenas
mergulhar nas memórias do tempo que passou na nossa casa. Uma grande vitória
após um despertar com uma cena de Flashback no meio é o básico de um jogo de
ação, não é?」
「MAS, TALVEZ EU ESQUEÇA.」
Os
olhos vermelhos da garota vacilaram com ansiedade.
Ah, verdade.
Esse ponto faz todo o sentido. O 『Keraunos』, como
preço pela manifestação ou para quebrar o seu coração, pode tentar sujar as
nossas memórias preciosas.
Contanto que
ele apenas as roube, não há problema.
Elas não
sumiram. Não foram destruídas. Apenas foram roubadas. E ontem, ela mesma as
recuperou por conta própria.
「Você conseguiu se lembrar da
Eliza-san, não foi? Também se lembrou da gente na mesma hora. Por isso, vai
ficar tudo bem, Jupiter. Nós não vamos desaparecer de dentro de você.」
Além
disso, eu já pensei em contramedidas adequadas. E até preparei um amuleto para
o caso de uma emergência.
「Vou te entregar isso aqui.」
Coloquei
um saquinho de pano com estampa de arabescos na mão da garota. Era de um
tamanho consideravelmente grande e, além disso, era bem pesado.
「...O QUE É, ISSO?」
「É um amuleto. Em vários sentidos. Se as coisas ficarem
difíceis ao ponto de não ter mais jeito, tente abrir isso aqui. O que está
dentro com certeza vai te dar forças.」
「OBRIGADA.」
Sorri
de volta para a garota que aceitou o presente obedientemente, dizendo “Não foi
nada”, e...
「E mais um conselho. Se o Velho do
Trovão começar a resmungar alguma coisa, manda um soco com tudo no saco dele. A
maioria dos machos cala a boca com isso.」
...entreguei
a ela mais um conselho, o meu trunfo especial.
Sim, eu sei.
É vulgar. Mas, no fim das contas, é o que mais funciona.
Eu, que vivo
levando chute no meu símbolo de homem daquela deusa maligna todo santo dia, sei
bem do que estou falando.
O ponto
fraco dos machos fica entre as pernas.
「SERÁ QUE EU, CONSIGO...?」
「Você consegue, se for você──── Ah,」
As
nuvens de chuva sujas que cobriam o céu foram fugindo para longe.
Graças à
remoção do filtro que atrapalhava, a luz quente do sol caiu sobre a cidade de
Ouka, fazendo a cidade inteira refletir cores de prisma.
「...INCRÍVEL.」
Ouvi
um pequeno, bem pequeno som de admiração vindo ao meu lado.
「É uma vista espetacular, não é? Este
é um lugar secreto que quase nenhum morador da cidade conhece.」
A
paisagem urbana brilhando sob a luz do sol.
Um cenário
fantástico onde árvores gigantes e prédios se enfileiram.
A vista da
cidade de Ouka observada do santuário é algo que nunca cansa, não importa
quantas vezes eu olhe.
E, para
completar, hoje temos um bônus especial.
「...ARCO-ÍRIS.」
Uma
ponte celestial brilhando em sete cores refletia-se nitidamente na tela azul do
céu.
Um arco-íris
tão claro assim não é algo que se vê todo dia.
Fala sério,
para uma chuva maldita, até que ela deixou um belo presente de despedida.
「A chuva traz o trovão, mas também
traz o arco-íris──── as coisas são bem feitas, né.」
「...REALMENTE, É VERDADE.」
Ainda
vestindo as capas de chuva que se tornaram desnecessárias, ficamos os dois lado
a lado observando além do arco-íris.
「Vamos vencer.」
「UHUM.」
O
pequeno punho fechado da garota, que encostou de leve no meu, estava molhado
com gotas de chuva e ainda um pouco frio.
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