■Capítulo 3: Armamento de Combate Corpo a Corpo Multiuso com Lógica de Combate Variável Acoplável 『Eckesachs』

 

 

 

​◆ Oficina Romântica Rari Rari

 

Dvergr era o que estava escrito na placa da loja. A origem provavelmente vem dos anões ferreiros da mitologia nórdica.

É um nome de loja bem normal. Normal até demais, o que a torna ainda mais suspeita. Será que a palavra Dvergr tem algum significado obsceno que eu desconheço?

Aa, relaxa aê. O nome da minha loja não tem nenhum fetiche esquisito no meio não.

​A Guren-san, dona desta loja, riu com vontade. Pelo visto, a minha insegurança estava estampada claramente no meu rosto.

Foi mal. É que as lojas neste prédio são, bem... bem peculiares.

Pois é, né! Aquela galera meio que acha que ser pervertido é status, tá amarrado

​A Guren-san abriu a porta de enrolar da loja com movimentos ágeis, dando um sorriso amargo e dizendo: “O Kyouichirou-kun também passou sufoco, né”.

Um atendimento extremamente dentro do senso comum. Nem parece uma habitante daquele ninho de pervertidos, mas... será que eu posso mesmo confiar nela?

Bem, mas no fundo eles são gente boa. Se você conversar, até que são divertidos. São puros, ou melhor, idiotas amáveis, sabe? Bom, tenta interagir com eles dentro do seu limite, Kyouichirou-kun. Se você ficar amigo deles, a maioria é do tipo que dá uns bons descontos.

​A porta de enrolar se abriu completamente, revelando o interior da loja envolto na escuridão.

Enquanto eu observava a Guren-san desaparecer nos fundos da loja dizendo Espera só um minutinho, tá?, tive uma forte convicção.

Essa pessoa é normal de verdade!

Eu não consigo parar de comemorar mentalmente. É uma adulta. Existe uma adulta aqui que não é pervertida──── Por que um fato tão simples me deixa tão feliz?

Na moral, depois de ver um follow-up nota cem desses, não tem como o meu coração não dar uns pulinhos.

Uma adulta, apesar de ser gyaru... Isso já é uma arma de destruição em massa feita de gap moe[1], caramba!

…………

Que foi, Al?

Nada, só pensei que você parece um porco no cio.

​Um xingamento cem por cento puro jogou um balde de água fria no meu cérebro.

Ué, como é que essa garota sabe o que tá rolando na minha mente movida a moe? Eu tinha certeza de que tínhamos desligado o Compartilhamento de Pensamentos agorinha.

Mesmo sem ler a sua mente, esse tipo de delírio com cheiro de virgem do Master está inteiramente escrito nessa sua cara de vilão.

Sério isso!?

Seriíssimo. Está num nível em que qualquer conhecido conseguiria ler. ……Por acaso você não tinha consciência disso?

Não tinha não!

​O meu senso de vergonha e os meus instintos de defesa gritaram, e eu cobri o rosto por reflexo.

Isso é ruim, tô morrendo de vergonha.

Quer dizer, isso é um defeito perigosíssimo, não é?

Resumindo, é a versão reversa de ler mentes, certo? Que constituição física lixo é essa. O que eu faço? Será que se eu usar uma máscara não vão mais descobrir?

Um personagem que usa máscara por um motivo tão idiota seria inédito.

Para com isso! Não leia mais a minha mente!

​O quanto que eu tô vazando os meus pensamentos, meu Deus!

 

​◆

 

​Alguns minutos depois, a Guren-san voltou do interior da loja, que agora estava iluminada.

Foi mal a demoraaa. Prontinho, entra aí. Esta é a minha oficina.

​Acompanhando a Guren-san, que tinha uma leve expressão de orgulho, andei pela loja olhando tudo devagar.

A oficina da artesã gyaru adulta, iluminada por luzes de tons quentes, me passou uma impressão extremamente “rústica”, em contraste com a sua aparência festeira.

(Não, “rústica” talvez não seja a palavra certa.)

​Simplicidade e robustez, organização, tudo nos conformes──── Isso, “tudo nos conformes”.

As diversas armas enfileiradas nas vitrines não possuíam ornamentos extravagantes, e as placas de descrição dos produtos à venda estavam preenchidas com cuidado, uma a uma.

Como posso dizer? A atenção aos detalhes da Guren-san permeava a loja inteira.

No meu coração, que havia sido desgastado por aquele ninho de pervertidos, essa gentileza bateu fundo demais, de verdade.

Quem vai comprar hoje é só o Kyouichirou-kun, né?

Isso mesmo.

​A Al não pode entrar em Dungeons por causa daquela regra inútil chamada Barrier(Princípio da Inviolabilidade) Rule(de Outros Mundos). É uma pena, mas não tenho escolha a não ser dar a cara a tapa sozinho.

Tem algum tipo que você prefira? A gente trabalha com uma variedade bem grande aqui, então dá pra escolher bastante coisa.

Humm, deixe-me ver.

​O meu tipo preferido de arma, é?

Se eu fosse julgar por simples gosto, é claro que eu gosto das clássicas espadas e katanas, mas o “gosto” que ela está perguntando aqui é diferente, né.

Combina ou não combina──── ou seja, preciso pensar em uma arma que extraia o máximo da minha performance e aumente a minha contribuição na party.

Se for assim...

Eu gostaria de algo com um bom peso. Uma do tipo que esmaga com o peso em vez de usar o poder de corte seria o ideal. Uma arma de combate corpo a corpo, não de longa distância; voltada para um lutador focado em força bruta ou um breaker, e não para um atacante focado em agilidade. Se pudesse arranjar algo o maior possível, eu agradeceria... Isso serve de referência?

Uhum, uhum. Okemaru! Minha previsão acertou na mosca☆ Com esse tanto de músculo, não tem como não ir pra esse lado, né!

Ahaha, pois é, né.

​Afinal, mesmo num supino sem equipamento e sem usar poder espiritual, eu aguento uns duzentos quilos. Se fosse no meu mundo antigo, eu seria um estudante do fundamental completamente monstruoso.

A propósito, qual o orçamento que você tem em mente?

Depende do item, mas acho que gostaria de resolver tudo por até uns três milhões, mais ou menos.

E se, tipo, tivesse uma arma que valesse mais de três milhões e estivesse sendo vendida por um preço justo, você seria do tipo que desiste?

​Troco um olhar com a Al. O que seria isso? É uma pergunta meio estranha. Dá uma sensação desconfortável, como se ela estivesse usando essa sondagem como pretexto para descobrir o tamanho do nosso bolso.

O que você acha?

Desde que possamos obter um custo-benefício adequado, eu não me importo.

Pois é, né.

​Nós definimos um orçamento provisório para evitar gastos desnecessários, mas a verdade é que temos bastante dinheiro.

Se for para comprar algo bom por um bom preço, não há o que discutir. Estou preparado para afrouxar os cordões da bolsa.

……Isso se for uma transação honesta, claro.

Deixe-me ver. Uns cinco milhões... não, se for algo realmente bom, posso pagar até dez milhões.

​No instante em que ouviu essas palavras, a cor dos olhos da Guren-san mudou.

Não parecia que ela havia sido dominada pela ganância. Uma emoção mais primitiva e urgente ardia no fundo dos seus olhos.

Sério?! Você não vai voltar atrás no que disse?

Hã, eu não estou levando em conta o valor artístico nem nada do tipo, viu? É só que, julgando puramente pela praticidade, o valor máximo que posso dar é de dez milhões.

Com certeza! Isso eu garanto. Eu tenho um trunfo guardadinho que vale os oito dígitos puramente pela funcionalidade!

​A Guren-san disparou para a sala de trabalho exclusiva para funcionários com uma velocidade que faria até um Tengu passar vergonha. Sendo otimista, foi uma atitude revigorante; sendo pessimista, foi uma ação descarada.

Eu só espero que a situação não vire um “golpe da venda de quadros” versão loja de armas.

​Espero que seja só uma desconfiança babaca da minha parte, mas, no mínimo, é fato que a Guren-san foi buscar um produto com um preço absurdo de alto. Sinceramente, isso é perturbador.

Somos abordados de repente numa cafeteria. Somos convidados a ir à loja dela. Ela insiste em perguntar sobre o orçamento e, no fim, aparece um produto caríssimo que nem estava na vitrine ──── Entendo, parece que isso vai render um delicioso ensopado de trouxas, não é mesmo?

Você não tem um pingo de humanidade não!?

​Ou melhor, você não tem a ideia de tentar impedir o seu mestre antes que ele vire um ensopado de trouxa!?

Parece divertido, então vou tirar uma foto e espalhar na internet. Que tal o título 『【Triste Notícia O Super Novato dos rumores cai no golpe da arma superfaturada. ~A triste natureza de um garoto sem popularidade?

Sem um pingo de compaixão!

​Ela até colocou um subtítulo!

Beleza, se vai zoar tanto de mim, observe bem, Al. Eu vou avaliar com frieza e precisão se o item é verdadeiro ou falso e────

Foi maaal, foi mal~. Fiz vocês esperarem um tempão, né~!

────Não, imagina, não tem problema nenhum. Nós estávamos nos divertindo por aqui também!

​Mudei na mesma hora para a minha cara de “bom moço” e sorri para a Guren-san que havia retornado.

Ei, para com isso Al, não me lance um olhar como se eu fosse um lixo.

Um homem sempre quer ficar bem na fita na frente de uma garota!

O Kyouichirou-kun e a Al-chan se dão super bem, né~. Vocês dois são namorados ou algo do tipo?

Hah.

Uau~, que tenso, Al-chan. Só por essa reação já dá pra ver que não são.

​“Rir com desprezo” deve ser exatamente sobre esse tipo de expressão.

Mas que expressão mais odiável essa Ura boss faz.

Ou melhor, é isso, essa não é a mesma cara que ela faz quando está chutando os meus testículos, merda!!

Você se diverte ferindo a mente frágil do seu mestre com a mesma sensação de quando chuta o símbolo de um homem pra longe, sua super sádica!

Não estou me divertindo nem um pouco, e não sou super sádica. Muito pelo contrário, tem vezes que eu faço isso como um serviço para combinar com o fetiche do meu mestre.

​Cala a boca! Não leia a mente das pessoas com tanta naturalidade! E não chute o “garotão” dos outros com a mesma sensação de sempre!

……Aa, que saco. De qualquer forma, vamos mudar de assunto. Desse jeito não vamos chegar a lugar nenhum.

Hãã, o que é ISSO exatamente?

​Pergunto à Guren-san enquanto observo a caixa de contêiner com rodinhas onde, em noventa por cento dos casos, estaria a arma superfaturada.

Isso aqui? Fufuun, tá curioso~? Ehehe, aqui dentro, sabe~, está o trunfo que eu falei agorinha~.

​Faço uma reação exagerada de “Ooooh”, enquanto espio a situação.

Está coberto por um pano marrom-avermelhado e não consigo ver os detalhes, mas parece ser uma peça bem grande.

Maa, ficar enrolando não tem graça nenhuma, então já vou abrir loguinho~. Aaaqui vai, Tcharam☆

​E assim, através das mãos da Guren-san, o interior do contêiner é revelado.

O que repousava lá dentro era um bastão negro. Tinha um comprimento enorme de forma geral, e entre o cabo e a haste, era possível identificar o que parecia ser um gatilho e um carregador de munição.

Uma versão bastão de uma Gunblade, não, não, esse tipo de coisa só existe dentro do jogo────.

Hã?

​É. Esse formato. Eu me lembro dele.

A origem dessa memória é o jogo.

E não de qualquer lugar, mas sim do segundo título da série Guerra dos Espíritos Dungeon Magia.

Estocar como uma lança, balançar como uma espada, varrer como uma naginata──── a arma que realizava fisicamente essa versatilidade ilusória do boujutsu (arte do bastão) se sobrepõe ao bastão negro diante dos meus olhos.

​Por que, como é que você está aqui?

……Não, acalme-se, Kyouichirou.

Não tem como aquela arma, aquela arma super especial que era tratada como o prêmio máximo do cassino clandestino, estar sendo vendida em uma loja de ferreiro underground na cidade de Ouka.

Com certeza é algum engano.

Para provar isso, vou lançar a pergunta decisiva agora.

Com licença. Qual é o nome dessa arma?

​Pode parecer meio estranho perguntar o nome logo de cara depois de colocar os olhos na arma, mas a Guren-san respondeu de bom grado.

O nome é Eckesachs. É a minha obra-prima suprema e mais forte☆

 

 

Eckesachs. O nome oficial parece ser Armamento de Combate Corpo a Corpo Multiuso com Lógica de Combate Variável Acoplável Eckesachs.

A parte incrível dessa criança, sabe~, é que ela pode mudar a própria forma. A forma básica é um Bastão, mas ela pode virar uma Espada, uma Lança ou até um Martelo. Não é metáfora não, ela vira de verdade.

​Mudança de forma do armamento.

O conceito básico da Eckesachs era, como esperado e por incrível que pareça, exatamente idêntico ao do equipamento com o mesmo nome que apareceu na época do jogo.

Impossível. A Guren-san fez aquela Eckesachs?

De acordo com o flavor text da época do jogo, a Eckesachs era tida como uma arma de criador desconhecido.

Por isso, a margem para esse tipo de interpretação não é zero.

Já que não se sabe quem a criou, mesmo que a criadora fosse uma artesã gyaru chamada Yashima Guren, que não aparece na obra original, logicamente isso faria sentido.

Mas, mesmo assim, eu não conseguia acreditar.

O motivo é simples. É absolutamente impensável que uma artesã mestre, que criou uma arma especial do nível da Eckesachs, fosse uma pessoa que não deixou sequer o seu nome na história futura.

A Eckesachs é um item cuja estrutura era tratada como uma caixa-preta até mesmo na linha do tempo do segundo jogo.

A característica única de mudança de forma do armamento. A compatibilidade de um poder de ataque esmagador e durabilidade através de superdureza e supermassa. Ao combinar essas duas coisas, ela exibia um efeito sinérgico que só pode ser descrito como algo que perdeu os parafusos da cabeça: “uma arma de super alto poder de ataque que permite atacar alternando livremente os atributos físicos entre contusão, perfuração e corte”. É um misterioso armamento de combate corpo a corpo multiuso. E a parte desse mistério agora────

O segredo para se transformar, sabe~, está em um metal chamado Aço Slime que eu criei com uma mistura exclusiva~ Resumindo de forma bem simples, é tipo uma liga de memória de forma super dura e super inteligente. Jogando Pedra Espiritual e poder espiritual nisso e embutindo um programa que padroniza algoritmos específicos, ela se transforma, mas... acho que é mais rápido experimentar na prática, então Kyouichirou-kun, segura isso aqui.

​────Fiquei um pouco tonto com a facilidade com que isso foi revelado, mas consegui me conter e agarrei a parte do cabo do bastão negro.

Pesado. Não é impossível de segurar e não parece que vai atrapalhar as ações de combate, mas é um peso que faz até mesmo eu, que tenho um corpo parecido com uma fortaleza de músculos, sentir a sua pesadez.

É uma boa resposta. Os meus bíceps também estão felizes.

Como esperado, você é incrível, Kyouichirou-kun~. Essa criança é super pesada, mas você levantou com a maior facilidade.

Hahahaha. É que eu tenho treinado!

​Eu dei adeus ao Kyouichirou-kun magricela de um ano atrás, afinal.

Quem está aqui agora é um monstro de bulk que nasceu depois de um ano sendo brutalmente treinado por uma instrutora demoníaca. A encarnação da tristeza que, por ser uma pessoa comum, não teve escolha a não ser se cobrir com uma armadura de músculos, heh.

Para mim, você só parece um narcisista iludido e nojento, mas tudo bem.

Cala a boca.

​Pra começar, quem me deixou com esse corpo foi você!

……Opa, a Guren-san está dando um sorriso amarelo. Preciso voltar ao assunto.

Desculpe, eu já segurei, mas o que eu devo fazer agora?

Eeh~, se quiser pode flertar mais um pouquinho com a Al-chan, sabe?

Não, está tudo absolutamente bem.

Sério mesmo?

Seríssimo mesmo.

Hah.

Para de fazer essa cara.

Então vou aceitar a sua palavra~

Disse a Guren-san, entregando um objeto pequeno com um sorriso malicioso no rosto.

Parecia que ela estava entendendo algo bem errado, o que me deixou um pouco preocupado, mas, por enquanto, ignorei os detalhes e baixei os olhos para o objeto colocado na minha mão.

​O que me foi entregue foi um cartucho de munição um tanto grande.

A parte da bala na ponta era excessivamente pontiaguda.

Dona da loja, para que serve este objeto peculiar?

​Surpreendentemente, a Al perguntou diretamente à Guren-san.

Será que ela ficou interessada por ser uma arma que não existia na sua época?

Mas, acho que isso não será usado da sua maneira original.

Isso aqui, sabe~, a gente chama de Lógica de Combate Acoplável. Explicando Cartridge em um segundo, tem um projeto de design aqui dentro para fazer a Eckesachs se transformar. É tipo um dispositivo de memória auxiliar exclusivo~.

E então. Indo direto ao ponto, Kyouichirou-kun, você poderia colocar essa bala com o kanji de Corte escrito nela no carregador?

Entendi.

​Insiro a bala que está rotulada com Corte na parte do cartucho.

Se bem me lembro, no jogo, depois disso...

E aí você abaixa o cão~

​É, faz sentido, penso enquanto levanto a peça de metal. Kachiri, um som metálico e agradável ecoa pela loja, e então... peraí, um momento.

Se você puxar o gatilho com um bam, ela se transforma☆

​Eu sabia! Sabia que ia ser assim.

Não, mas simplesmente mandar um “ah, beleza, bam” bem no meio da loja assim de repente é meio intimidador!

Com licença, não tem problema atirar aqui mesmo?

Tudo beeeem, tudo bem. Ela só pega emprestada a estrutura de uma arma, não dispara de verdade, então pode atirar sem se preocupar~

​Suspiro aliviado por ser exatamente igual às especificações do jogo.

Se for assim, parece que posso atirar com tranquilidade.

Entendi. Então...

​Tendo recebido a permissão da dona da loja sem problemas, coloco a mão no gatilho novamente. Aqui vou eu.

Um, dois, e três…………!

Pressiono o dedo indicador com força e libero o poder da bala.

A mudança que ocorreu foi um som agradável e uma vibração. O impacto de puxar o gatilho──── não, algo além disso começa a transformar o corpo gigante da Eckesachs em algo diferente a partir da base.

Se eu fosse comparar, era como a invasão de um slime.

Um slime negro rastejava se contorcendo a partir da ponta do cabo, amassando e manipulando a existência do bastão negro como bem entendia.

Une une une une. A ponta fica afiada.

Une une une une. O todo vai ficando anguloso.

Une une une une. Os ângulos logo se entrelaçam de forma complexa para formar uma lâmina e...

Une une une une.

Une une une une.

E assim, após esperar cerca de cinco segundos desse processo de contorção, a coisa que antes era um bastão negro em minhas mãos havia transformado a sua forma em uma magnífica espada negra.

Uma espada espessa e requintada. A lâmina é afiada e pontiaguda, como se tivesse sido amolada pelas mãos de um mestre artesão.

Não há mais espaço para dúvidas. Esta é a verdadeira Eckesachs.

E aí, incrível, né não!

​Concordo do fundo do coração com o autoelogio da Guren-san.

Não há o que fazer a não ser tirar o chapéu para ela.

A Eckesachs, que era chamada de um amontoado de tecnologias misteriosas até mesmo na linha do tempo do futuro, foi criada por ela nesta época.

Sem sombra de dúvidas, a Guren-san realizou um grande feito que deixará o seu nome cravado na história das armas.

É incrível.

​Levanto a voz, com um tom de pura empolgação.

É meeeega incrível. Eu te respeito do fundo do meu coração.

Uau, dizer algo assim faz de você um cara muito gente boa, Kyouichirou-kun.

……Pois é, por isso mesmo.

​E é exatamente por isso que eu não conseguia deixar de achar estranho.

Por isso, por favor, me conte. Por que uma arma tão boa assim não está vendendo?

​Por que o nome Yashima Guren não está cravado na história do futuro?

A Eckesachs é considerada uma arma de criador desconhecido, e os pervertidos da Rari Rari não deixaram nem sombra nem rastro, e o local se transformou em uma loja de alto padrão onde apenas as técnicas e os preços continuaram de primeira linha.

Isso mesmo. No mundo do futuro, ou seja, no mundo de Dunmagi, a Rari Rari não possui nenhum dos residentes que estão aqui agora, incluindo a Guren-san.

O que aconteceu? Não, o que vai acontecer daqui pra frente?

Para conseguir uma pista sobre isso, eu preciso saber.

O que exatamente ela está carregando nas costas.

Tahaha~, você tocou na ferida agora, Kyouichirou-kun~

​A Guren-san olhou para o teto com uma expressão um tanto constrangida, soltou um suspiro e, com um sorriso que parecia zombar de si mesma, me contou a situação.

É meio estranho dizer isso da minha própria obra-prima suprema, mas essa garota fica num meio-termo complicado, sabe. Se você pensar nos custos de produção e em todas as outras coisas, não é algo que dê pra vender pra iniciantes, mas, por outro lado, a galera do topo geralmente tem Revelação Divina(Regalia), não é?

Pois é.

Revelação Regalia. Um espírito que não coloca um avatar, mas sim o seu corpo principal na Dungeon ──── ou seja, é um item exclusivo dropado quando um inimigo de classe chefe é subjugado.

Os seus formatos variam entre armas, armaduras e acessórios, mas não há dúvidas de que todos eles possuem um desempenho quebrado que transcende a compreensão humana.

Afinal, a Revelação Divina(Regalia) é a materialização das informações da Base Espiritual de um espírito chefe em forma de item. Ou seja, as habilidades e características exclusivas do chefe são reproduzidas de alguma forma.

Além de possuírem especificações de alto desempenho, são itens extremamente raros, peças únicas com habilidades especiais sem igual.

Se me perguntassem se um aventureiro que conseguiu um equipamento cheat desses usaria um equipamento feito por humanos, a resposta, naturalmente, seria não.

​Especialmente para os clãs de aventureiros do tipo chamados de “Grupo de Conquista”, é comum que toda a party principal possua Revelação Divina(Regalia), e quando se trata dos maiores clãs, eles até colocam a posse de uma Revelação Divina(Regalia) como requisito de recrutamento sem a menor cerimônia.

A Revelação Divina(Regalia) é a prova dos fortes e, ao mesmo tempo, o item mais importante para elevar a força de um aventureiro a níveis imensuráveis.

Portanto, quanto mais forte, mais se deseja a Revelação Divina(Regalia), enquanto, inversamente, aventureiros cujo objetivo é apenas ganhar o pão de cada dia não dão a mínima para produtos caros.

E pra piorar, essa garota é pesada, sabe~. Não tem demanda nem para a retaguarda, nem para os tipos focados em agilidade da linha de frente.

​Por isso a Eckesachs não vende, explicou a Guren-san com um olhar triste.

Pra mim também, eu meio que forcei a barra pra fazer essa garota, e acabei pegando dinheiro emprestado de um lugar bem tenso, então, sendo sincera, se eu não arranjar dinheiro logo, vai dar ruim.

​Pelo visto, era por isso que ela estava fazendo aquela abordagem forçada parecida com o “golpe da venda de quadros”. Embora o resultado pareça não ter sido muito bom.

Então é por isso, se vocês comprarem essa garota, ia me salvar muuuito. Vou falar uma parada bem patética, mas não é exagero dizer que a minha vida depende da decisão do Kyouichirou-kun. Então, por favor! Pensa que tá me ajudando e compra, por favor!

​A Guren-san abaixou a cabeça com a mesma força de quem vai fazer um dogeza. Como ela mesma disse, essa forma de falar é realmente patética ──── ou melhor, covarde.

Implorar dizendo que se eu não comprar coisas ruins vão acontecer com ela; se eu recusar, com certeza vou ficar com peso na consciência. É um método extremamente eficaz contra um cara com mentalidade de choroin como eu, não tem erro.

E, além disso, isso é algo que nem mesmo a própria Guren-san sabe, mas ela não deixará o seu nome no mundo do futuro.

Ela acabou de dizer que pegou dinheiro emprestado de um lugar tenso. Não sei se essa é a verdadeira causa do futuro onde a Guren-san desapareceu, e nem tenho como saber.

Mas, já que a dívida dela se ergue como um câncer visível, é absolutamente impossível para mim ignorar isso.

Ah, pra começar………… por que uma artesã do nível da Guren-san tem que passar por uma situação tão miserável, caralho!

Ela concluiu algo grande o suficiente para deixar o seu nome na história das armas da humanidade, sabia? Não deve ter sido um esforço comum. Deve ter havido muitos momentos difíceis e dolorosos.

E a maior obra que ela finalmente conseguiu concluir depois de tanto esforço não vende? Arruinada por dívidas? Fala essas merdas dormindo, seu destino de bosta.

Alguém que se esforçou, um ser humano que realizou um grande feito, desaparecer sem sequer poder se intitular como pai do seu próprio filho é algo que não deveria acontecer, e eu não tenho a menor intenção de deixar que aconteça.

Al.

​Minha aibou abaixou levemente o queixo, dando o seu consentimento. Apesar de normalmente só vomitar veneno, as atitudes dela em momentos como esse são absurdamente frias, inteligentes e legais.

O maior obstáculo desapareceu.

As especificações da arma também não têm problema nenhum.

Então, agora só falta eu pedir a ela.

Guren-san.

​A demanda e a oferta coincidiram, e tanto o cliente quanto a vendedora queriam a mesma coisa. Por isso, não há nem necessidade de detalhar o que aconteceu a seguir.

 

 

O que você acha?

​No caminho de volta da Rari Rari, a Al, caminhando ao meu lado, de repente me lançou uma pergunta misteriosa. Na mão direita um kebab, na esquerda um taiyaki. Combinado com o céu na hora do crepúsculo, me deu a leve ilusão de que estávamos passeando num festival.

O que eu acho... de quê?

De Yashima Guren. O fato de nós termos comprado aquele bastão longo deveria ser um evento impossível de acontecer na história original. Se for assim, o ambiente ao redor dela também mudará drasticamente, não?

Com certeza.

​Volto a minha atenção para o estojo de arma especial nas minhas costas. Parece um caixão super fino, mas é bem fácil de carregar. A minha nova arma ali dentro também está dormindo profundamente na sua forma básica de bastão negro.

Então, será que ela está salva com isso? Tendo pagado as suas dívidas e se tornado uma mulher livre, será que Yashima Guren conseguirá continuar criando produtos inovadores como uma revolucionária no mundo dos artesãos daqui para frente?

​Não há tom de preocupação ou afeto pela Guren-san na bela voz da Al.

Era, antes de mais nada, uma dúvida genuína, e o alvo dela parecia ser direcionado a mim.

Acho que vai ser difícil.

​Por isso, transmiti a minha impressão de forma honesta.

Pessoalmente, eu gostaria que terminasse com um final feliz. Mas provavelmente não será assim.

Por quê?

Tem futuros demais que não podem ser explicados só pelo problema de dívidas da Guren-san.

 

​Por exemplo, por que a Guren-san teve que ter o seu nome apagado?

Por exemplo, por que os pervertidos da Rari Rari sumiram?

 

​E...

Será que a Eckesachs realmente ficou encalhada?

​A Guren-san tinha dito que era um meio-termo complicado.

Cara demais para não vender para iniciantes e para o grupo de trabalhadores que buscam o dinheiro do dia a dia, e um trambolho inútil para aventureiros que possuem Revelação Divina(Regalia)──── Entendo, certamente há certa lógica nisso.

Mas essa é uma lógica que ignora a existência dos aventureiros que estão em uma posição entre o topo e a base, a chamada classe média.

Existem muitíssimos aventureiros no mundo de DunMagi. Entre eles, devem existir vários com origem na classe nobre que não têm problemas de dinheiro, ou figurões que possuem um bom nível de renda e habilidade, mas que estão a um passo de conseguir derrotar um boss.

Em primeiro lugar, a Rari Rari é um complexo de lojas voltado para a classe média. Ter feito uma arma que se encaixa perfeitamente no resultado de seleção e foco e chamá-la de “meio-termo complicado” é uma autodepreciação exagerada.

Se você direcionar o seu olhar para o mundo dos aventureiros como um todo, o argumento da Guren-san está correto.

Mas se você observar do ponto de vista interno da Rari Rari, é difícil dizer que a opinião dela reflete a realidade.

O significado do que é “certo” muda dependendo da perspectiva. É um clichê, mas é como um caleidoscópio.

Ou seja, o Master está dizendo que a Yashima Guren estava mentindo?

Não é isso, sabe

​Embora eu suspeite que ela ainda esteja escondendo alguma outra situação.

Ela é humana. Deve ter uma ou duas coisas que ela não quer contar. Ficar fuçando nisso e encurralando a garota, chamando de traidora ou mentirosa, não é algo que um cavalheiro faria.

Então, o Master não vai culpá-la?

Culpar pelo quê? Eu não sofri nenhum prejuízo. Só acabei encontrando a melhor arma assim e comprei pelo preço que ela pediu.

​E, de quebra, nós até trocamos contatos. Mandei bem demais.

Por isso, eu só sinto gratidão, não tenho nada parecido com antipatia pela Guren-san.

​Humu, a Al assentiu e mastigou o resto do kebab. O que ela está fazendo é apenas comer e beber compulsivamente, mas como a sua aparência parece a de uma deusa, vira uma cena absurdamente pitoresca.

Entendi a postura ‘gado’ e ingênua do Master. Por mim, no momento, também não tenho a intenção de fazer nada em relação a isso.

Fazer o que...

No entanto...

​Os olhos como obras de arte da Al se voltaram para mim.

No futuro, quando um incidente que se conecta com o futuro que o Master conhece... não, quando problemas caírem sobre ela ou sobre aquela loja, o que você pretende fazer?

​Interpreto arbitrariamente que ela está me dando um aviso tipo: “Pode estar tudo bem agora, mas vai dar dor de cabeça depois”. Pois é.

Nessa hora ────

Nessa hora, eu vou chegar metendo a marra e me intrometer por conta própria. Numa vibe bem ‘O que caralhos vocês tão fazendo com a minha loja de sempre, porra?!’.

Isso exala uma vibe total de zé-ninguém, não é.

Pois é. Sou um zé-ninguém, por isso favoreço os meus conhecidos, e, como sou um zé-ninguém, dou prioridade às minhas próprias conveniências.

​Eu não sou o protagonista. Não consigo ter uma atitude heroica de salvar qualquer um sem me importar com quem seja.

Mas, pelo menos uma hipocrisia como ajudar a felicidade de alguém com quem me envolvi dentro do meu próprio alcance, até um zé-ninguém deveria conseguir fazer.

Não é estender a mão para alguém de um mundo distante, mas sim apenas para os conhecidos próximos. Sim. Como eu esperava, esse nível de superficialidade é a medida exata para Shimizu Kyouichirou.











[1] É o famoso ‘’quem não vê cara, não vê coração’’

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