■ Capítulo 2: Família

 

 

 

Casa dos Shimizu – Sala de Estar

 

No dia seguinte, o que nos aguardava quando voltamos para casa trazendo a Jupiter foi um interrogatório por parte da Grande Anja — digo, da Nee-san —, que estava com um olhar muito mais severo do que o normal.

Kyou-kun, explique de novo, por favor.

Na família Shimizu, a palavra da Nee-san é a prioridade absoluta.

Se a Nee-san disser que quer comer Acqua Pazza, o jantar vai ser Acqua Pazza; se a Nee-san se declarar da facção Takenoko (Brotos de Bambu), a partir daquele dia os doces de Kinoko (Cogumelos) são erradicados da prateleira de guloseimas.

Felizmente, a Nee-san ama tanto os cogumelos quanto os brotos de bambu, então uma tragédia dessas nunca aconteceria... mas enfim, isso não vem ao caso agora.

O que a Nee-san quer agora é uma explicação minha.

Nee-san, ah, Nee-san. Por que a Nee-san é tão parecida com um anjo?

Se fosse possível, eu queria ficar admirando esse rosto divino vinte e quatro horas por dia...

Kyou-san, foca aqui.

A garota do sistema estelar sentada ao meu lado deu um tapinha gentil no meu joelho, me trazendo de volta à sanidade. Dei uma pequena tossida para limpar a garganta e repeti a explicação que eu tinha acabado de dar.

Então, é que... sabe. Eu tava pensando em deixar essa baixinha que acabou de entrar pra nossa party morar aqui em casa... que que você acha?

…………

A Jupiter, sentada à minha esquerda, faz uma pequena reverência.

Será que ela está nervosa? Desde que chegou aqui, a garota das maria-chiquinhas não deu um pio.

Não tem jeito. É hora de eu assumir a bronca.

Como eu falei agora há pouco, aconteceu um monte de coisa com ela. Ela tá sem lugar pra morar agora.

Não é mentira.

Graças aos arranjos do Sillard-san, ela ainda consta como membro na Casa do Clã das Espadas de Gelo Flamejante, mas, infelizmente, parece que a Jupiter já saiu de lá por conta própria.

Quando perguntei o motivo, ela disse: “Porque eu não sou mais membro de lá”.

...É, realmente, o clima deve estar péssimo pra ela continuar lá.

Por enquanto, a gente garantiu um teto pra ela usando aquela casa alugada lá na Dungeon, mas ela não tem um lugar no mundo da superfície. Por isso eu pensei que, se fosse possível, a gente podia abrigar ela aqui em casa...

Entendi, a situação ficou clara. Mas e então, Kyou-kun? O que você pretende fazer depois de acolher a Jupiter-chan?

Como assim, o que eu pretendo fazer...

Eu só queria que ela vivesse num lugar confortável...

Vou tentar não te dar trabalho. O aluguel e as outras despesas eu tiro da minha grana...

Não é uma questão de dinheiro. Estou perguntando como qual posição você vai deixar ela morar aqui.

É... como uma agregada, acho.

Em termos de posição, seria a mesma coisa que a Al.

Por isso eu achei que, se resolvesse o problema do dinheiro, ia ser bem fácil dela aceitar, mas──── o clima tá meio estranho.

Parando pra pensar, a Deusa Maligna Al tem aquela habilidade apelona de “ser amada incondicionalmente pela linhagem Shimizu”, e foi por isso que ela conseguiu se infiltrar tão fácil.

Por maior que seja o coração da Nee-san — e ela tem uma misericórdia mais profunda que o oceano —, se eu chegar do nada pedindo pra abrigar uma criança estrangeira que ela acabou de conhecer, é claro que ela vai ficar confusa.

Ah, desculpa, Nee-san. Fui muito apressado, né. A gente pode conversar sobre a parte dela ser uma agregada com mais calma depois.

Não, eu não vou deixá-la ser uma agregada de jeito nenhum.

A Nee-san se levantou num movimento fluido.

Ela mandou essa na lata.

Hã? Sério? Eu sabia que ia ser difícil, mas ela não vai nem dar espaço pra negociar?

O que eu faço? É um desdobramento completamente fora do planejado.

Ei... Nee-san!

Esta criança...

O corpo cheio de curvas da Nee-san passou pela lateral da mesa.

Esta criança...

Quando eu vi, ela já tinha chegado na frente da Jupiter, que estava sentada na ponta esquerda, e de repente se inclinou.

Esta criança────!

E então, os dois frutos fartos e perfeitamente maduros da Nee-san cobriram completamente o rosto da garota de maria-chiquinhas prateadas.

Esta criança vai ser uma filha da nossa casa!!

Hã?

Diante dessa declaração bombástica, não só eu, mas até a garota(Ha) do sistema(ru ) estelar(ka) ficou sem palavras.

Ué... como assim?

Não tem ‘como assim’! A Onee-chan está dizendo que, se essa criança desejar, eu estou pronta para recebê-la como uma filha da família Shimizu!

Uma proposta forte, vinda do fundo do coração.

Com aquela única frase da Nee-san, todos na sala de estar foram arrebatados.

Como esperado da Fumika. Ela não tem medo de nada.

A bela voz da Al fluiu na minha cabeça através da Comunicação Telepática.

Como o corpo original dela estava bem na minha frente mastigando uma conserva de pepino e fazendo croc-croc, ela deve ter recorrido a esse método pra falar. Que folgada.

Olha pra Haruka, ela tá literalmente arregalando os olhos pra frase genial da Nee-san enquanto mastiga uma conserva de pepino, não tá? Isso que é uma verdadeira Yamato Nadeshiko──── uma ova!? Parem de comer agora mesmo, vocês duas!

Aliás, isso tava me incomodando desde agora há pouco, mas por que diabos tem uma montanha de conserva de pepino em cima da mesa? Sério, tem um monte de coisa errada nisso, não acham? Por acaso o pessoal da minha casa é algum tipo de criatura que morre se não tiver mastigando alguma coisa o tempo todo?

Kyou-kun, você está ouvindo direito o que eu estou dizendo?

Ah, sim. Foi mal, Nee-san. Tô ouvindo sim.

Parei de focar naqueles monstros famintos e decidi olhar só para a Nee-san.

Ah, que linda. Tudo nela é um anjo.

E então, Nee-san. O que você quer dizer exatamente com “fazer dela uma filha da nossa casa”?

Exatamente o que eu disse. Vamos pedir a ajuda da Ayaka-obasama para adicionar a Jupiter-chan legalmente como um membro da família Shimizu.

!?

Essa era uma ideia brilhante que superava, e muito, o desfecho que eu estava esperando.

Se ela se tornar não apenas uma agregada dividindo o mesmo teto, mas uma família de verdade, a situação dela com certeza vai melhorar.

O maior benefício de todos é que teremos um respaldo para protegê-la legalmente.

Um problema que não seria perdoado se ela fosse apenas a “Jupiter”, seria perdoado se ela for a “Shimizu Jupiter” ──── um estrangeiro conseguir usar um nome em kanji neste país tem esse nível de valor.

Existem algumas preocupações, como a avaliação rigorosa ou a responsabilidade dos responsáveis legais se ela aprontar alguma, mas vale a pena tentar.

E, acima de tudo────.

Nós temos o precedente da Al aqui em casa.

Exatamente.

Isso mesmo. Neste exato momento, o nome tridimensional (nome do mundo real) da Deusa Maligna que está mastigando pepino nesta sala é Shimizu Albion.

Legalmente, ela é filha adotiva da Ayaka-obasama.

Nós já conseguimos realizar o absurdo de fazer o país reconhecer a Himinglaeva Albion — cuja própria nacionalidade original era duvidosa, sob a desculpa de ser uma estrangeira com amnésia — como uma criança da família Shimizu.

Ou seja, se conseguirmos a ajuda da tia, há uma alta probabilidade de podermos acolher a Jupiter como um membro da nossa casa.

(Dá pra dizer que essa é a solução perfeita, não é?)

Enquanto saboreava a imensa sensação de empolgação que acendia no meu peito, ainda assim me atrevi a levantar um ponto que me preocupava. Para tornar esse plano brilhante ainda mais sólido, a coisa com a qual deveríamos ter mais cuidado era, afinal de contas:

Mas será que ela vai nos emprestar a força dela tão fácil assim?

Não é uma questão de probabilidade. Negociar e abaixar a cabeça até que ela nos ajude é o nosso trabalho.

O que me retornou foi uma resposta resplandecente dessas.

Ah, como esperado, a minha Nee-san é a irmã mais confiável do mundo.

A garota de maria-chiquinhas prateadas, que estava espremida entre os montes gêmeos misericordiosos da Nee-san, arregalou os olhos como se estivesse vendo algo inacreditável e perguntou:

...Tudo bem mesmo?

Eu entendo a dor de não ter pais a ponto de doer em mim mesma.

Naquele momento, a Jupiter com certeza entendeu.

Que essa pessoa não estava tentando ajudá-la por causa de um idealismo liberal raso ou por um instinto de proteção barato, mas sim de todo o coração.

Se uma coisa de sonho dessas puder mesmo se realizar...

Por isso, as palavras que se seguiram foram:

EU quero que vocês ME façam uma filha daqui.

Foram palavras muito sinceras.

 

 

Depois que a conversa foi decidida, a Nee-san ligou na mesma hora para a Ayaka-obasama.

Surpreendentemente, a tia aceitou a ideia na hora.

É a chance de fazer a party Supernova, que é o assunto do momento, ficar me devendo um favor. Vou analisar a situação de forma muito positiva.

Como eu posso dizer isso... as mulheres da família Shimizu são todas brabas demais, né.

Tanto a Nee-san quanto a tia, a forma como elas agem é absurdamente legal.

Bom, ficar devendo um favor praquela mulher parece algo assustador pro futuro, mas essas coisas o “eu do futuro” com certeza vai se virar pra resolver.

Agora, há outras coisas que eu preciso fazer.

Por exemplo, colocar uma coleira no velho do trovão para que ele não saia surtando aqui na superfície.

 

Casa dos Shimizu – Quarto do Kyouichirou

 

A partir de hoje, sou a sua irmã mais velha, Shimizu Albion. Fique à vontade para me chamar de Al-nee.

A mulher que menos combina com o sobrenome Shimizu no mundo inteiro fez essa apresentação com um pedaço de lula defumada na mão.

Lula. Sério, lula?

E pra piorar, é daquelas com um cheiro forte pra caramba.

Eu não queria que ela empesteasse o meu quarto com cheiro de lula, mas como é inútil falar qualquer coisa pra essa mulher, decidi ir até a janela para abri-la em silêncio.

Espere.

Porém, inacreditavelmente, ela me mandou parar.

A culpada, segurando a lula defumada em uma mão e ostentando sua beleza com os músculos faciais completamente mortos, disse:

Master, por favor, considere a situação. Abrir a janela quando estamos prestes a realizar uma reunião secreta é inadmissível.

Então vai deixar essa comida com cheiro de lula na cozinha, pô.

Nião quero.

Mastigando a lula defumada, a Deusa Maligna se sentou como se fosse a dona do lugar.

Segurando desesperadamente a veia saltando na minha têmpora, me virei para a outra visitante.

Hahaha, Jupiter. Ela é bem zoeira, né? Mas por dentro, essa criatura é um mau exemplo ambulante que se afundou em todo tipo de atrocidade: bebedeira, comilança, xingamentos e violência. Então nunca, jamais imite ela, beleza?

Que falta de educação. Eu não bebo álcool.

Um chute na canela voou na minha direção junto com o protesto, mas como não doeu quase nada, eu ignorei.

Na época que eu era um magricela, um golpe desses me faria chorar.

Pensando bem, eu dei uma bela evoluída, hein.

KYOUICHIROU, ... não dói?

Comparado com o meu treino de sempre, isso aqui é igual a um gatinho se esfregando. Falando nisso, Jupiter, quer puxar um ferro comigo da próxima vez?

... EU recuso educadamente.

Que pena. Treinar os músculos é ótimo pro treinamento mental também.

Bom, deixa pra lá. O Projeto Jupiter Maromba a gente vai avançando aos poucos, agora bora fazer o que tem que ser feito. Al, posso contar contigo?

Deixe comigo.

A Deusa Maligna se levantou enquanto tirava o segundo pacote de lula defumada do bolso.

Assim mesmo, a Al foi até a Jupiter, que estava sentada no canto do quarto, e...

Pode ser um pouco ofuscante. Por favor, feche os olhos.

...colocou a mão que não estava com cheiro de lula na testa da garota de cabelos prateados.

O meu quarto brilhou intensamente.

Se não fosse o cheiro de lula defumada, teria sido um evento de fantasia e tanto, não é?

Quer dizer, um objeto que brilha em branco e tem cheiro de lula... isso já é literalmente uma lula, né?

Será que dá pra parar de brincar de molusco cefalópode da superordem dos decapodiformes aqui no meu quarto?

Enquanto eu pensava nessas besteiras, a luz branca sumiu, e a cena da Deusa Maligna mastigando a lula defumada e da Jupiter com a boca entreaberta refletiu nas minhas retinas.

Como... assim? Por que... Mentira...?

Eu lhe respondo. Aquele ser quadrúpede gigante, delirante e com complexo de pai que assombra você foi selado pelo meu poder.

Para uma Jupiter totalmente confusa, a Ura Boss-san conta essa história absurda com a maior cara de paisagem.

É, eu te entendo, Jupiter.

Normalmente a pessoa ficaria “Que diabos essa maluca tá falando?”, né.

Mas...

A história da Al é 100% verdade. O velho do trovão que tá dentro de você está agora num estado de selamento total.

Como assim?

Você tá perguntando dos meios ou do objetivo?

Os, dois.

Satisfeito com esse diálogo que parecia saída de um filme, passei a informação que a Jupiter com certeza queria saber usando as palavras mais simples possíveis.

A Al tem um poder muito misterioso. Pasme: ela consegue curar doenças e selar espíritos só de encostar.

Eu mesma não sei a verdadeira identidade desse poder, mas com certeza deve ser uma bênção concedida por Deus.

Concedida por um Deus Maligno, você quer dizer. Sua mulher-lula.

Quer que eu te mate?

Cai dentro.

Um soco direto voou zunindo em direção às minhas partes baixas, mas como eu já imaginava que isso ia acontecer, defendi com a perna na maior facilidade.

Você ficou bem espertinho, não é, Master?

Diferente de você que passa o dia inteiro comendo e dormindo, eu tô fazendo runs absurdamente hard na Dungeon, arriscando a vida. Hah, nesse ritmo, o dia que eu vou te ultrapassar tá chegando.

Deixe as piadas só para o seu rosto, por favor.

Olha aí o preconceito! Julgar os outros pela aparência é o fundo do poço como ser humano.

Enquanto a gente ficava nessa gritaria, a Jupiter começou a mandar uma pressão silenciosa na nossa direção.

... Isso ME cheira a mentira.

E é claro, já que quase tudo isso é uma invenção descarada... Mas como eu não podia falar a verdade, inventei uma desculpa qualquer pra enrolar ela.

Eu entendo como você se sente, Jupiter. Mas o fato é que o Keraunos tá quietinho, não é verdade?

Isso... é verdade, mas.

Bom, é o que a sociedade em geral chama de Usuária de Habilidades Especiais. Gente rara que possui poderes misteriosos, mesmo sem ter firmado contrato com um espírito ──── A Jupiter já deve ter ouvido falar disso pelo menos, não é?

Já.

Pelo visto, ela acreditou um pouquinho.

Boa, Usuária de Habilidades Especiais. É uma verdadeira palavra mágica.

E sobre o porquê de termos selado ele, acho que você já deve fazer uma ideia, né?

Para não deixar o KERAUNOS surtar.

Na mosca. Mas fica tranquila. O selamento pode ser desfeito a qualquer hora.

…………

Com a mão na bochecha, a Jupiter ficou pensando em algo por um tempo.

Mais do que ansiosa, ela devia estar perdida.

Para a Jupiter, o Keraunos era uma presença absoluta, pro bem ou pro mal.

E um monstro desses ficou dócil só porque uma mulher mastigando lula defumada deu um toquinho nele.

Alegria e apreensão.

Sentimentos opostos se misturavam de forma complexa, como uma textura de mármore.

Mesmo sendo pequena, a garota de cabelos prateados quebrava a cabeça, resmungando pensativa.

E depois de um longo conflito interno, a Jupiter finalmente abriu a boca.

Entendi. EU vou acreditar no KYOUICHIROU e nos outros.

O que voltou foi uma frase super simples.

Mas, ao mesmo tempo, uma palavra carregada de um peso enorme.

Acreditar na gente.

Isso é uma baita de uma responsabilidade.

Pode acreditar. Não importa o que aconteça, nós sempre vamos estar do seu lado.

Por isso, eu firmei a minha determinação e jurei também.

Que eu agarraria com unhas e dentes aquele cenário If em que ela não precisaria se tornar uma vilã.

 

 

 

 

 


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