■ Capítulo 10: Rumo ao Inexplorado

 

 

 

​◆ Primeiro Ponto Intermediário da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka – “Área de Entretenimento”

 

​Na manhã do segundo dia, saí da nossa casa alugada bem cedo e fui em direção à Área de Entretenimento.

O motivo, sendo direto, era fazer compras.

Ontem à noite, como eu fiquei empolgado e brinquei com a Haruka numa vibe de viagem escolar, a gente acabou esquecendo de comprar a comida de hoje.

Dizer que isso é bem típico de estudantes do fundamental até seria verdade, mas a minha idade quando eu estava no Mundo de Lá era... cof cof. ……Com certeza, como eu me fundi com o corpo de um garoto do fundamental, a minha mente deve estar sendo puxada para essa idade. Vamos deixar por isso mesmo.

E bom, para pagar a conta de ontem que sobrou para mim por um motivo tão infantil, eu estou no meio da minha solitária, porém divertida, missão de obter suprimentos.

O que aconteceu com a Haruka, você pergunta? Aquela lá ainda está enfiada na cama do quarto dela.

Ou melhor, como eram seis da manhã recém-completadas agora pouco, achei que seria mancada acordá-la de propósito, então deixei ela lá mesmo.

Bem, aquela garota movida a empolgação não vai ficar espumando de raiva por causa de uma ação isolada desse nível.

Por precaução, deixei um bilhete na sala de estar, então não deve rolar nenhuma confusão estranha.

Nessas horas, eu sinto na pele como seria fácil se pudéssemos usar smartphones.

Com exceção de casos como as Cinco Grandes Dungeons, itens que dependem de telecomunicação basicamente não servem de nada na exploração de Dungeons.

Porque não há torres de celular (estações rádio base).

A TV e os smartphones que tanto nos salvam no dia a dia, sem a fonte de transmissão mais essencial, rapidamente se transformam em meras caixas mudas cujo único mérito é acender uma luz.

Senti isso na pele e percebi que um mundo sem sinal de internet é bem difícil.

A revolução das comunicações utilizando o Compartilhamento de Pensamentos ainda é uma história para um futuro distante, e na situação atual não há o que fazer, mas mesmo assim sinto um leve estresse por não poder usar aquela caixa luminosa.

De uma forma que não tem remédio, eu sou mesmo um humano da geração do smartphone.

……Aaah, eu quero ler web novels. O cenário de entretenimento do mundo de cá também é divertido pra caramba e não perde em nada para o de Lá.

Enquanto me angustiava com os desejos materialistas que transbordavam de dentro de mim, atravessei a ponte com passos vacilantes.

Caminhando mais um pouco a partir dali, finalmente cheguei ao meu destino. Opa, tô vendo, tô vendo──── pera, que porra é essa?

Isso é um lugar completamente diferente, não é?

​Ruas calmas e tranquilas.

Nem sinal ou forma daquele monte de barracas de rua.

O movimento de pessoas era surpreendentemente baixo e, acima de tudo, ninguém estava fazendo barulho.

Parando para pensar, isso até que é óbvio, mas a Área de Entretenimento iluminada pelo brilho branco do amanhecer estava tão tranquila que era impossível imaginar a atmosfera que tinha à noite.

Abrindo o mapa e verificando o caminho, avancei por aquela rua que era limpa até de forma antinatural.

E, cinco minutos depois, cheguei são e salvo à loja que procurava.

Como indicavam as palavras Loja Oficial da Guilda de Aventureiros de Ouka escritas abaixo do logotipo em forma de pétala de cerejeira, aqui, o Sakuragi, é uma loja de descontos geral que a Guilda de Aventureiros de Ouka instala em cada Ponto Intermediário de Dungeon.

Desde os atendentes até os entregadores, a equipe inteira é formada por portadores de licenças de aventureiro, e graças ao seu vasto estoque e bom atendimento, é amada como uma presença indispensável para os aventureiros de Ouka... essa era a lore dentro do jogo.

Na realidade, para os clientes, deve ser mesmo uma loja bem aconchegante.

A fachada da loja, que tem o rosa-cerejeira como cor base, está impecavelmente limpa, e a organização dentro da loja mostra que eles se esforçam pra valer.

Os movimentos dos atendentes que andam apressadamente pela loja também são ágeis, e eu acho de coração que é uma loja fantástica para quem a visita como cliente.

……Mas, viu. Isso com certeza deve colocar um peso absurdo em cima da loja, sabe?

Manter esse nível de qualidade no Ponto Intermediário de uma Dungeon onde a internet não pega é algo que realmente exige um trabalho escra... quer dizer, é muito difícil.

Eu sei porque já trabalhei meio período numa loja parecida na minha época de estudante no Mundo de Lá; lojas de departamento grandes são ocupadas pra caramba.

Pensando que ainda por cima eles operam vinte e quatro horas, os funcionários daqui talvez sejam muito mais casca-grossas do que um aventureiro meia-boca.

Oferecendo o meu respeito, gratidão e um tiquinho de empatia dentro do meu coração para eles, caminhei pela loja me preocupando em pisar de um jeito que não atrapalhasse o trabalho deles o máximo possível.

Coloquei algumas comidas em conserva clássicas, como enlatados, onigiris e até macarrão instantâneo, mas como só isso faz mal para a saúde, também coloquei alguns alimentos frescos na cesta.

Poder comprar carne e vegetais dentro de uma Dungeon é uma verdadeira bênção.

Fazendo jus aos boatos, a linha de produtos era rica em variedade; com isso, parece que vou conseguir montar um cardápio equilibrado para as três refeições.

Pois bem, agora indo para a parte dos temperos...

...Opa.

​Exatamente no momento em que eu tentava sair da seção de vegetais, quase bati de frente com um outro cliente que apareceu por azar.

Você está bem!?

​Acho que não chegamos a encostar, mas existe a chance do “vai que”.

Enquanto me virava, tentei formular palavras para verificar a situação e me desculpar...

Hã?

​Arregalei os olhos.

Maria-chiquinhas de cabelos prateados, um vestido gótico de cor preta, e característicos olhos carmesim.

Kyahahahahah, kyahahahahahah

​Eu a conheço. É claro que eu conheço aquele rosto.

Eu vou machucar tooodos vocês, vou ferir vocês! Vou fazer vocês sofrerem!! Vou apagar vooocêês!!!

​Por isso, o questionamento do “por que” cruzou a minha mente antes de tudo.

Por isso, ouviu, gritem e chorem com vontade. Mostrem essa figura patética e deixem esta ■■■■ se divertir. Essa é a única expiação permitida a vocês, inúteis e sem valor. Kyahah, kyahahahahah, kyahahahahahahahahah!

​Por quê? Por que ela está aqui?

Com licença, você...

…………Tudo bem, a desatenção foi minha. Não se preocupe.

​Dizendo apenas isso, a garota de cabelos prateados foi embora.

Uma conversa curta que não durou nem alguns segundos. O tipo de esbarrão trivial que qualquer um já vivenciou pelo menos uma vez ao levar a sua vida no dia a dia.

​Quase esbarramos, eu pedi desculpas, e ela assentiu dizendo que estava tudo bem ──── o meu cérebro julgou esse tipo de coisa “normal”, o fato de ter sido tão “normal”, como uma “anormalidade”.

Como assim? Não faz sentido. Não, para começo de conversa, se fosse a ela que eu conheço, não teria como ela agir com tanto bom senso.

O rosto, a voz e até o gosto para roupas eram idênticos, mas a personalidade era completamente diferente.

Gêmeas? Doppelgänger? Não, não, não deveria existir uma lore com algo desse tipo.

Então, quem diabos é aquela garota?

Mobilizei todo o material de design e os fluxogramas de rotas na minha cabeça, vasculhando exaustivamente cada possibilidade sobre a ela nesta linha do tempo, e então...

Não me diga que...

​E, diante da resposta com o maior grau de precisão a que cheguei, a única coisa que eu pude fazer foi ficar ali parado, completamente atônito.

 

 

 

 

 

 

 

 

​◆ Primeiro Ponto Intermediário da Dungeon Número 336 Tokoyami, Dungeon City Ouka – “Área Residencial”

 

É frustrante admitir, mas como esperado, as maravilhas da civilização são grandiosas~.

​Enquanto beliscava as torradas com manteiga e açúcar dispostas na mesa, a Haruka-san, que havia acabado de acordar, soltou essa.

Poder dormir numa cama, tomar um banho de banheira e, além disso, ainda receber um combo de café da manhã maravilhoso desses──── É tanto mimo e mordomia que eu sinto que vou acabar virando filha desta casa.

Para de pensar besteira e come log... não, no seu caso, trate de saborear e comer devagar.

​Dou essa bronca só de praxe, enquanto levo à boca a xícara de minestrone. Oh, tá gostoso. A acidez do tomate e a pimenta-do-reino em grãos da finalização estão combinando muito bem.

Me domesticando com um café da manhã super caprichado desses, você não tem o direito de falar isso~. Mas, mudando de assunto, você sabe cozinhar, hein, Kyou-san.

Ajudando a minha Nee-san, acabei aprendendo naturalmente.

​No começo, eu ia para a cozinha só para aliviar um pouco o peso das tarefas da minha Nee-san, mas, quando dei por mim, estava completamente viciado nisso, e hoje em dia acabou virando facilmente uma das minhas habilidades especiais.

Eu sou um zero à esquerda nessa área, então eu te respeito de verdade por isso~.

Sério? Mas a sua irmãzinha passa a impressão de que deve mandar muito bem nisso, no entanto.

? Por que você tá falando da Kanata de repente?

​Merda. O meu sangue de otaku de DunMagi reagiu sem querer.

Não, não tem nenhum significado oculto não. Foi só um palpite sem base nenhuma.

Humm... maa, tudo bem. Mas, na verdade, a sua dedução tá certa, Kyou-san. A comida da minha irmãzinha é super deliciosa. Num nível de abrir um restaurante, sem favoritismo de família.

​Pois é, eu sei. A Kanatan é a garota com a maior habilidade culinária entre todas as heroínas, afinal.

Se me lembro bem, na rota dela, ela dizia “É algo simples, mas...” e servia um banquete tradicional Kaiseki inteirinho para o protagonista. ……É, isso é meio pesado em vários sentidos, Kanatan.

E então, Kyou-san. Quais são os planos para hoje?

Ah, pois é. Por enquanto, seguindo o plano original, vamos quebrar o recorde de profundidade deste lugar.

​Ao ouvir as minhas palavras grandiosas, os lábios da Haruka se curvaram como uma lua crescente. Era para ser um sorriso maléfico, mas estava estragado pelo molho de salada no canto da boca dela.

A conquista do inexplorado, hein. Dá aquela sensação de que finalmente chegou a hora. Mas, viu, Kyou-san. Se a décima camada não foi conquistada por ninguém até hoje, tem um motivo para isso, não tem?

Sim. Claro que já contei com isso. ────E, contando com isso, vamos conquistar a décima camada ainda hoje.

Tem algum plano secreto?

Não chega a ser um plano secreto. É só usar a skill que acabei de aprender. Só com isso, já é possível passar daquela provação dos boatos.

​Engolindo uma fatia de ovo cozido que estava na salada, dou um sinal de positivo com o polegar dizendo que está tudo bem.

Afinal de contas, nas últimas semanas, eu venho sacrificando o meu próprio “filho” para a Deusa Maligna só para isso. Se não der resultados aqui, o que eu faço da minha vida?

Então, já que entramos no assunto, é um pouco cedo, mas vamos fazer o briefing[1] pra enfrentar a décima camada. Primeiro, sobre as características do boss────

​Com base nos “dados que todo mundo sabe” que eu recolhi com antecedência, expliquei o conteúdo da provação da décima camada para a Haruka.

O boss da décima camada é tão infame que tem até um cartaz de aviso colado na frente do portal de teletransporte para a sexta camada.

Por isso, não é nada estranho eu saber informações sobre ele e, mesmo que eu saiba um pouco demais, com certeza daria para disfarçar como margem de erro ou boatos.

Eu passei para a Haruka todas as informações sobre a vida, técnicas, características, padrões de ação, além das fraquezas e brechas da provação do boss sem deixar nada de fora, apresentando simultaneamente vários planos de contingência para a hora H.

Não querendo me gabar, mas o método de conquista da décima camada foi montado de forma extremamente segura e rápida. Além disso, não é uma conclusão arrogante só minha, mas uma excelente estratégia que até recebeu o selo de aprovação da Deusa Maligna.

Por isso, naturalmente achei que meu plano seria aceito de bom grado, mas...

Uau, o Kyou-san tem um péssimo gosto~.

​O que voltou para mim foi um olhar semicerrado e de julgamento, de quem estava meio horrorizada.

Ei, espera aí, Haruka. Você, que tá sempre fazendo um monte de absurdos, ficar horrorizada é golpe baixo, né.

 



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[1] Uma explicação curta e objetiva, é o  ‘’Mapa da mina’’ que alguém recebe antes de começar a trabalhar.

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