Capítulo 6: Exame de Aventureiro

  

​◆ Cidade das Dungeons OukaEntrada da 27ª Dungeon Gesshoku(Eclipse Lunar)

 

Dungeon.

Esse é o palco estrela em todos os jogos e Web Novels, o santuário dos sonhos e das aventuras.

Inimigos perigosos. Armadilhas assustadoras. E o poderoso boss aguardando nas profundezas.

É um Fantastic Wonderland (País das Maravilhas Fantástico) que sempre tem lutas e drama, e não para de fascinar quem assiste.

Isso é uma Dungeon!

...E dessa forma, se a cabeça de todos fosse um conveniente campo de flores, a história avançaria fácil e rapidamente, mas, infelizmente, “não é assim que a banda toca”.

Pense bem. Quem em sã consciência gostaria de ir de bom grado a um lugar tão assustador?

Tirando os heróis imprudentes que querem ver coisas assustadoras, ou os pervertidos para quem a “vida = batalha”, um lugar que é apenas perigoso assim não passa de um malefício.

Por isso, em muitos jogos e Web Novels, sempre há uma “razão” preparada de antemão para justificar que se deva conquistar a Dungeon.

Por exemplo, uma razão positiva, como enormes riquezas ou tesouros adormecidos nas profundezas da Dungeon.

Ou uma razão negativa, como o mundo estar em perigo se não exterminarem os monstros que brotam de lá.

Dependendo do tom da obra, as razões variam de mil maneiras diferentes, mas uma Dungeon é algo que só é conquistado se houver um motivo para isso, em primeiro lugar.

Então, como é a crucial série DunMagi? Basicamente, está no “lado positivo”.

A palavra-chave é Pedra Espiritual.

São belos cristais obtidos ao derrotar os espíritos inimigos dentro da Dungeon, e a configuração oficial é que são corpos astrais solidificados pela teoria fractal blá-blá-blá, mas, neste momento, essa parte não importa. O crucial é a sua utilidade.

Utilidade. Em outras palavras, como lidar com elas, sua aplicação, ou você também pode chamar de eficácia.

A possibilidade dessa coisa dentro do escopo de interpretação de definições do tipo “o que ela pode fazer” é quase infinita, sem exagero.

Acredite ou não, essa Pedra Espiritual pode ser convertida em qualquer tipo de energia.

E ainda por cima, funciona como uma fonte de energia extremamente excelente, com uma eficiência que supera de longe os combustíveis fósseis e sem causar impactos negativos ao ambiente.

Graças a isso, neste mundo, além da facção Anti-Espirito e afins que usa combustíveis fósseis, outras energias alternativas sequer foram devidamente desenvolvidas, para começo de conversa.

Em muitos sentidos, isso é cabuloso, né.

E, voltando ao assunto, claro que dentro da Dungeon também existem muitas coisas como armas valiosas e itens raros, que são a promessa dos RPGs.

No entanto, o que a sociedade moderna precisa não são armas mágicas, e sim uma energia mágica.

E ainda por cima, sendo de longe a líder absoluta de mercado, nem é preciso dizer.

A fonte de renda dos Aventureiros que se dedicam à exploração das Dungeons também é tratada como sendo, em sua grande maioria, proveniente dessas Pedras Espirituais.

Contudo.

O que nós desejamos não é uma energia onipotente limpa e de alta eficiência, nem tampouco a imensa recompensa financeira gerada por ela.

É o tesouro. A materialização de um milagre além da compreensão humana que repousa dentro da Dungeon.

Conseguir a “poção milagrosa onipotente que cura qualquer ferida ou doença” que existe lá dentro, isso sim é o nosso objetivo, a nossa missão, e também o nosso sonho.

E hoje, nós finalmente demos o primeiro passo para realizar esse sonho.

A profissão qualificada para mergulhar nas Dungeons, o Aventureiro. O exame de qualificação para obter essa licença será realizado hoje, neste lugar, na Gesshoku.

Master, finalmente chegou a hora, não é?

A voz de Al, que me é transmitida com a sensação de ecoar diretamente dentro do meu cérebro.

Através do efeito da permissão especial Compartilhamento de Pensamentos, que pode ser usada apenas entre o contratante e o espírito com quem firmou contrato, poder ouvir clara e distintamente a voz da minha aibou (parceira) que, no momento, está relaxando em nossa casa, era algo realmente encorajador.

Ah, finalmente chegou a hora.

Eu solto um suspiro profundo e carregado de emoção enquanto olho para a imensa árvore de cerejeira que se ergue.

A Gesshoku, uma das inúmeras Dungeons existentes na cidade de Ouka.

A recuperação completa da Nee-san, que tem sido meu objetivo desde que fui transferido para este mundo.

Para dar um grande passo com o fim de alcançar isso, eu caminhei em direção à entrada da Dungeon.

Atravessando a faixa de pedestres, subo as escadarias gigantescas e meticulosamente limpas. Talvez pelo fato de ser o dia do exame, o tráfego de pessoas ao redor da Dungeon está estranhamente intenso.

Juujins(Homens-fera ) com orelhas de animais, estrangeiros de cabelos loiros e olhos azuis. Embora já seja uma paisagem à qual me acostumei a ver, os habitantes desta cidade são realmente ricos em variedade.

E assim, mesmo sendo espremido no meio da multidão barulhenta, consegui de alguma forma chegar à entrada.

Uma porta de empurrar de dez metros de altura, que se ergue na base da grande árvore de cerejeira (estimada em mais de cem metros de altura).

Quando dou um leve empurrão na borda com o meu braço direito envolto em Poder Espiritual, a porta abriu o caminho para o interior com uma leveza que não me fazia sentir o seu peso de forma alguma.

(Isso também é um teste, provavelmente.)

Para alguém que possui Poder do Espírito, ela pode ser aberta sem esforço, mas para alguém que não o possui, a menos que tenha uma força hercúlea excepcional, não será capaz de avançar.

(...Exatamente como nas configurações do game.)

Não sei dizer se isso é algo bom ou ruim, no entanto.

 

​◆

 

As Dungeons de Ouka ficam basicamente dentro de grandes árvores──── contando dessa maneira, pode-se ter uma impressão extremamente fantástica, mas, na realidade, a construção é bem moderna.

Piso de mármore e paredes claras com o branco como cor base. Elevadores e escadas rolantes estão instalados como se fosse a coisa mais natural do mundo e, no painel eletrônico colocado no centro, um personagem em modelo 3D apresenta animadamente a programação desta semana.

Durante o tempo em que não vi, a atmosfera do templo também mudou consideravelmente, não é?

A bela voz da Ura Boss ressoando dentro do meu cérebro.

Como, através do Compartilhamento de Pensamentos, o que eu estou vendo também deve estar sendo visto pela Al, provavelmente é uma opinião baseada nisso.

A propósito, ela não vai participar do exame de aventureiro. Ou melhor, ela é fisicamente incapaz disso.

É por causa da providência chamada de Barrier(Princípio da Inviolabilidade) Rules( do Outro Mundo ) .

Barrier(Princípio da Inviolabilidade) Rules( do Outro Mundo ).

É uma regra do lado de lá que proíbe que o corpo principal do espírito que reside neste mundo tridimensional entre diretamente na Dungeon.

Proibir que o corpo principal do espírito entre diretamente na Dungeon”. À primeira vista, isso pode parecer uma configuração de merda que ignora completamente o conceito de “lutar em cooperação com o espírito” de DunMagi, mas não é o caso.

O que essa regra proíbe é estritamente “adicionar o corpo principal do espírito como membro da party”, e não o poder do Espírito em si.

Por isso, a ativação de skills e o fornecimento de Poder Espiritual obviamente são permitidos, e se for uma participação na batalha através das skills de Invocação ou Manifestação, ou no formato de contrato chamado de Tipo Possessão Integrada, é possível interferir no combate sem problemas, então, na realidade, não é uma restrição tão rígida assim, sabe.

Um espírito não pode se tornar um Aventureiro.

Resumindo a história, a restrição do Barrier(Princípio da Inviolabilidade) Rules( do Outro Mundo ) é apenas isso.

É fácil de entender, mas tanto faz. Ou melhor, como isso quase não se envolve na história principal, não há nem como se dar conta de que isso existe──── para ser franco, o tratamento dessa regra entre os players é nesse nível.

Até porque o protagonista e as cinco grandes heroínas não entram em conflito com a regra. Não tem como isso ter alguma relevância.

É como o ar, esse tal Princípio da Inviolabilidade do Outro Mundo Barrier Rules.

Pessoalmente, acho que não há muitas regras em que a palavra “quem ganha com isso?” se encaixe tão bem assim (ou melhor, ao invés de “quem ganha”, para nós agora é apenas uma perda unilateral, mas eu não devo me importar com isso).

Em suma, significa que não vai rolar um desenvolvimento do tipo “A Al-san faz musou (varre o chão com os inimigos sozinha) e limpa a Dungeon com facilidade”.

Ou talvez, se a Ura Boss-sama levasse a sério, haveria uma chance de que ela pudesse ignorar essa lógica toda e invadir a Dungeon... Não, não tem não. Pelo que me lembro, quem criou essa regra foi um espírito de classe Super Divina, o mesmo que a Al, e mesmo que uma invasão ilegal fosse bem-sucedida, é certeza absoluta que nós teríamos problemas incômodos depois disso, então obedecer quietinho é a atitude mais sensata aqui.

Até porque me arrepender porque quebrei as regras e não pude me tornar um Aventureiro seria um arrependimento que eu nunca superaria. A menos que eu caia numa situação onde não haja mais jeito, me permita dar o meu melhor com o meu próprio poder, sim.

No entanto, um templo, né. Um templo. ...Hm?

────Ah, é mesmo. Dungeons costumavam ser reverenciadas antigamente como santuários onde os deuses habitavam, não é?

Sim. Como lugares de grande poder milagroso, eles já foram utilizados por figuras de autoridade em um momento, e por pessoas ligadas à religião em outro.

É uma forma de falar com bastantes segundas intenções.

Com certeza deve ter acontecido alguma coisa no passado. Se fosse possível, eu adoraria ouvir sobre as circunstâncias daquela época, mas...

Mais importante do que isso, Master, tudo bem com o horário?

Hm, ah. Já tá quase na hora.

Ao olhar para o relógio do smartphone, notei que já havia se passado bastante tempo.

Corro para a recepção, recebo a placa de identificação com o meu número de candidato anotado e, seguindo as orientações da moça da recepção, me dirijo até o Portal Gate localizado no 15º andar.

Subindo confortavelmente por várias dezenas de segundos num elevador cujo som do motor mal se escutava.

As portas para o 15º andar se abriram junto com o sinal sonoro de chegada.

O... Ooh!?

A paisagem que vi no final do meu campo de visão que se abriu tinha uma aparência completamente diferente do que era até agora.

Uma superfície de parede rústica coberta por inúmeros tubos longos, finos e transparentes.

A forma como uma luz, que parecia uma corrente elétrica azul-clara, corria, era algo totalmente cyberpunk.

Ao seguir o destino dela com os olhos, vi a figura de um portão gigante que se erguia alto.

Portal Gate, o de verdade...

Portal Gate. A porta misteriosa que se conecta ao outro mundo.

No momento em que vi aquilo, a minha empolgação explodiu e foi parar nas alturas.

Uma paisagem fantástica a ponto de me deixar hipnotizado, o som estalando, o cheiro peculiar. Tudo isso é absolutamente maravilhoso. Se possível, eu gostaria de passar o dia inteiro explorando este andar.

Mas, infelizmente, esse desejo não vai se realizar. Afinal, a razão pela qual vim visitar aqui hoje não é por causa de uma peregrinação a um lugar sagrado, e sim────

Número de candidato e nome?

Uma multidão de pessoas reunida com o Portal Gate ao fundo, no centro. A mulher vestida com uma armadura que estava de pé no meio do grupo pediu com uma voz firme para que eu me apresentasse.

Os olhares dos participantes se reuniram naturalmente em mim. Isso é um pouco, não, é bem vergonhoso.

Candidato número vinte e seis, Shimizu Kyouichirou.

Eu consegui dizer sem gaguejar de alguma forma. Para um cara como eu, do tipo que fica nervoso quando é observado por um grupo, acho que me saí muito bem.

Muito bem. Vá para a fila ali.

Parece que a checagem acabou. O dedo indicador esquerdo da examinadora de armadura apontou para a última fila do grupo.

Enquanto movia minhas pernas para o local indicado, eu observava sorrateiramente os meus rivais.

O número de candidatos era de aproximadamente quatrocentas pessoas.

70% eram da raça humana e 30% eram de outras raças. Algumas pessoas de países estrangeiros também podiam ser vistas aqui e ali.

A faixa etária variava, mas os candidatos que podiam ser confirmados com certeza como sendo adolescentes eram de apenas uns 30%.

E, no meio desse grupo seleto de adolescentes, estava a figura dela.

Cabelos longos com a cor negra de asas de corvo, olhos em formato de amêndoa na cor azul, na franja havia um acessório decorativo esculpido no formato de um floco de neve e no cabelo de trás havia uma fita de uma cor semelhante amarrada.

Provavelmente ela gosta de cores frias.

Todos os acessórios dela estavam unificados em um design baseado no azul.

Master, ela é...

Eu assenti em silêncio à dedução da Al.

 

É a primeira vez que vejo a figura dela ao vivo, mas seus belos traços faciais tinham algo em comum com uma certa heroína que apareceu em DunMagi.

 

Pois bem, a partir de agora começarei a explicação geral deste exame. O papel de mestre de cerimônias será desempenhado, com a devida licença, por mim, Akabane Kougyoku. A todos os candidatos, é um prazer conhecê-los.

Enquanto eu observava o estado dos candidatos dessa forma, parece que o horário da reunião já havia passado.

“Concentração, concentração”, dizendo isso para dar um choque de ânimo no meu eu interior, prestei atenção nas palavras da examinadora ruiva.

O local do exame é a primeira camada desta Dungeon. Vocês realizarão uma atividade de exploração de noventa minutos lá. No entanto, quanto aos equipamentos do tipo arma, usem os que preparamos de antemão aqui.

Em suma, significa que durante uma hora e meia, devemos mergulhar na primeira camada da Dungeon e nos esforçarmos em nossa aventura, é isso.

E aquele que lucrar uma certa quantia lá será aprovado sem contestações.

Além disso, pontos de bônus para os candidatos que concluírem as provações especiais preparadas pelos examinadores... sim, é exatamente igual ao game.

Permitirei atos de cooperação entre os candidatos apenas de forma limitada a ações de combate. No entanto, lembrem-se apenas de que a pontuação de avaliação nesse caso variará de acordo com o número de pessoas que cooperaram.

Devido à sua forma formal de falar, pode ser um pouco difícil de entender, mas, no fim das contas, a Examinadora Akabane está dizendo: “Vocês podem formar uma party, mas, nesse caso, os pontos ganhos serão menores do que quando derrotam um inimigo sozinhos”.

Bem, se ela não fizesse isso, corria o risco de todos os candidatos formarem uma party gigante e todos serem aprovados, não é?

Se formar uma party, as batalhas podem ser vencidas com facilidade, mas o fato de que, em compensação, terão que caçar muito mais do que os solo players (jogadores solo), eu acho que é um bom meio-termo.

Além disso, a transferência de Pedras Espirituais entre os candidatos está totalmente proibida. Naturalmente, atos de pilhagem e afins estão fora de questão. Se for descoberto qualquer ato que se enquadre nisso, o indivíduo será imediatamente desqualificado e o seu direito de tentar o exame será revogado pelos próximos seis meses. Entenderam, senhores? Pelo amor de Deus, não tenham ideias estranhas, ouviram?

Com o peso daquelas palavras e a pressão do olhar intimidador da examinadora, todo o local tremeu.

Assustador. É assustador, mas as exigências em si são extremamente “justas”, ou melhor, pautadas no bom senso.

Até porque o que ela está dizendo é, em suma, no mesmo nível de falar “não troquem as folhas de resposta da prova” ou “não tomem a prova dos outros à força para si”, certo?

Como penalidade para indivíduos que não conseguem seguir nem as regras mínimas, eu acho que é até um pouco brando demais.

Diz ele, mesmo sendo o Master que estava tentando contrabandear a Laevateinn ilegalmente até a noite do dia anterior.

Nada a ver. Eu só estava sofrendo e hesitando na linha tênue entre as regras e o fortalecimento do meu poder de combate!

 

​◆

 

Com isso, encerro a explicação do exame principal. Aqueles que tiverem perguntas, levantem a mão prontamente.

A explicação da examinadora terminou e a aguardada hora das perguntas chegou.

Do meio do grupo de candidatos, algumas mãos se ergueram, incluindo a minha. E quem acabou sendo nomeado como o glorioso primeiro a perguntar foi──── por incrível que pareça, eu.

Número vinte e seis, faça sua pergunta.

Sim. Tenho cerca de dois pontos que gostaria de perguntar. O primeiro é sobre a presença ou ausência de um Anel de Retorno neste exame. E o outro é sobre a situação da segurança por parte da administração do exame. Ficarei feliz se puder me informar na medida do possível.

...Hm.

Minha pergunta parece ter sido bastante peculiar.

A examinadora piscou os olhos por um momento e, em seguida, respondeu com um tom ligeiramente perplexo.

Quanto ao Anel de Retorno, sinto muito, mas não os preparamos. É uma questão de orçamento, peço que entenda.

Algumas pessoas que ouviram a resposta da examinadora começaram a dar risadinhas.

É extremamente vergonhoso, mas é uma reação natural, eu diria.

O conveniente item Anel de Retorno, que permite que você retorne ao nosso mundo ao usá-lo, custa facilmente na casa dos seis dígitos, por mais barato que seja.

Usar isso na primeira camada, que é a mais fácil, é um verdadeiro desperdício de dinheiro.

Eu perguntei ciente de que a chance era mínima, e o resultado foi ‘não’, como esperado.

Sobre a segunda pergunta, eu e meus dois subordinados atuaremos como supervisores. Será um dever desempenhado em paralelo com o papel de aplicar a provação, mas faremos o nosso melhor para que vocês possam enfrentar o exame com tranquilidade. Esta é a resposta às suas perguntas. Está satisfeito?

...Sim. Muito obrigado.

No meu íntimo hesitei e hesitei, mas parei de me aprofundar na pergunta no último segundo.

Estava na cara que, mesmo se eu pedisse para aumentarem a segurança porque estou ansioso, a ideia seria rejeitada de qualquer maneira.

Não é que as examinadoras sejam ingênuas. Elas provavelmente estão considerando a segurança ao máximo.

No entanto, isso é o máximo com base na dificuldade da primeira camada de uma Dungeon para iniciantes.

Não há o que fazer. A preocupação do Master é uma paranoia de um nível que, normalmente, seria descartada apenas com as palavras “ansiedade infundada”.

Eu sei. Não estou triste e nem desesperado. Só odiei a ideia de ficar sem fazer nada.

Se for assim, tudo bem. Desejo-lhe boa sorte nas batalhas.

Ah.

Recebendo as palavras de encorajamento daquele jeito peculiar dela, mudo o meu ânimo que estava tendendo a afundar um pouco.

(Eu vou fazer isso, Exame de Aventureiro. Não importa o que me aguarde, eu com certeza vou superá-lo.)

 

Cidade das Dungeons Ouka27ª Dungeon Gesshoku(Eclipse Lunar) – Primeira Camada

 

Terminados a explicação e o tempo de perguntas, nós, tendo escolhido nossas respectivas armas, passamos pelo Portal Gate em ordem e seguimos em direção ao “interior da Dungeon”.

A misteriosa porta que conecta o mundo real ao interior da Dungeon, que é um outro mundo: o portão de transferência.

Já experimentei esse warp transcendental em direção a outra dimensão em um instante mais de centenas de vezes, se incluirmos o território da Ura Boss, mas a minha impressão a respeito disso se resume à palavra “normal”.

Afinal, não há nenhuma daquelas experiências sensoriais típicas “desse tipo de meio de transporte”, como o corpo balançar ou sentir uma sensação estranha de flutuar. É algo como “era de se esperar”.

Realmente só passei por ele. Quando dei por mim, a paisagem havia mudado, pronto, acabou. É uma pena, mas com isso, o que deveria me empolgar acaba não empolgando...

Uooooooooooooooooooooooh!

...Não, desculpa. Não foi nada disso. O meu circuito de pensamento simples alcançou o seu clímax com um impulso de reflexo espinhal no instante em que vi aquela paisagem.

A paisagem do outro mundo onde tudo, desde o teto, o chão, até as paredes, era composto por corpos astrais de uma cor azul luminosa. Um corredor vasto com uma estrutura intrincada como se fosse um labirinto.

Acabo percebendo, quer queira ou não.

Eu estou dentro de uma Dungeon agora. E não é dentro daquela imitação de Dungeon que a Al criou. Eu estou dentro de uma Dungeon genuinamente verdadeira.

Map gerado aleatoriamente e comunicação com o Mundo dos Espíritos. Se eu derrotar os assassinos do lado de lá, as Pedras Espirituais vão cair e, dependendo da situação, eu posso até recrutar os espíritos que lutei para o meu grupo!

Isso é uma Dungeon, isso sim é uma Dungeon.

O conteúdo principal de DunMagi que eu só podia ficar olhando de fora enquanto ansiava por ele durante cerca de um ano desde a minha transferência.

É lá! Que eu! Estou! Agora!

O Master está super animado.

É óbvio! É a minha primeira Dungeon, a primeira Dungeon! É claro que isso ia me deixar empolgado!

Eu expressei meus sentimentos enquanto dava pulinhos de alegria ali mesmo.

Ora, ora, que bom para você, não é?

Uma voz perplexa ressoou no meu cérebro. Mesmo entrando na Dungeon, a voz da Al continuava clara e fria, como sempre.

Porém, por favor, tome cuidado. Um comportamento desses costuma ser frequentemente visto com olhares estranhos. Especialmente no meio de um grupo, mais ainda.

Ah.

Quando prestei atenção no conselho de Al e recobrei a consciência de mim mesmo, já era tarde demais para várias coisas.

Os olhares de todos os envolvidos no exame desta vez, incluindo a examinadora, estavam focados na minha direção.

Err, sabe. Ser cheio de curiosidade é algo bom, mas tente ter discernimento do tempo e lugar.

A gentileza da examinadora, que foi ligeiramente atenciosa comigo, acabou acelerando ainda mais a minha vergonha.


 

​◆

 

Pois bem, declaro o início do Exame de Aventureiro da sessão de primavera a partir de agora. O prazo é de noventa minutos até o meio-dia; esforcem-se ao máximo para que nenhum de vocês deixe arrependimentos. Então... comecem!

E assim, começando com a palavra cheia de energia da examinadora vestida de armadura, o Exame de Aventureiro finalmente começou.

Os candidatos correram um após o outro pelo labirinto que tinha uma atmosfera um tanto cyberpunk.

Entre eles, também estava a figura daquela garota que vi antes.

Master, por favor, inicie o movimento ajustando-se à direção de avanço dela.

Entendido!

Seguindo as instruções de Al, persigo a garota que usa o prendedor de cabelo azul.

Tenho a consciência de que, se for olhar apenas para a minha atitude, estou tomando uma ação que não tem como não ser considerada a de um maldito stalker.

Mas, há uma razão crucial para isso, sabia.

O Exame de Aventureiro da Gesshoku realizado no início da primavera do Ano Imperial de 1190 (ou seja, este exame em questão), será repassado para as gerações futuras no mundo daqui a dois anos com um significado ruim. E não é exagero dizer que ela é a figura no centro desse turbilhão────

Eh?

De repente, o perfil dela correndo na minha frente se virou para mim.

Os olhos dela, que continham dignidade e charme, encararam fixamente a minha figura e, então...

(Ela sorriu?)

Sim. Ela olhou para mim e, com certeza, sorriu.

Por quê? No instante seguinte em que eu ia me afundar em pensamentos sobre isso, a garota subiu correndo pela parede com uma agilidade parecida com a de um gato e se moveu facilmente para o topo do labirinto.

Silenciosa e, ao mesmo tempo, levemente.

A garota do prendedor de cabelo azul que aterrissou na parte superior com movimentos que transcendiam a gravidade e a inércia.

O olhar daquela garota se voltou novamente para mim.

Nossos olhos se encontram. Uma fração de segundo de silêncio se fez presente, e logo em seguida, os seus belos lábios tecem palavras com uma elegância fluida, como se fossem pétalas de flores dançando.

(Venha até aqui, é? Ela tá brincando totalmente comigo aqui, né.)

Com certeza, aos olhos dela, a minha figura deve ter parecido a de um candidato que estava tentando sugerir uma cooperação.

Não sei dizer se ela achou isso incômodo ou se foi para avaliar se eu tenho qualificações para tal, mas de qualquer forma, é um fato que o lado de cá foi provocado.

Ou também podemos considerar a possibilidade de que foi uma ação de aversão profunda, odiando o Master como um maldito stalker nojento.

Não, algo assim normalmente daria vontade de morrer, mas isso não é verdade, né? Não é, né!?

Da minha boca eu não posso dizer nada. Mas, se uma pessoa de sensibilidade comum fosse repentinamente perseguida por uma montanha de músculos com uma cara assustadora como a do Master, eu acho que há uma alta probabilidade de que ela abrigasse sentimentos negativos.

Você não possui as funções de compaixão ou gentileza!?

Chorando lágrimas de sangue no meu coração, me esforcei na minha própria defesa pensando: “O rosto do Kyouichirou não é assustador, poxa”.

Espera, nada disso importa! Vou alcançá-la rapidinho!

Enquanto levanto a voz como se estivesse me dando um choque de ânimo, concedo a arte de Fortalecimento de Força nas Pernas Stride ao meu próprio corpo.

No momento em que, vestindo o exoesqueleto de armadura espiritual branco, coloquei força nas pernas e nos quadris para tentar recuperar a perda de alguns segundos que gastei na conversa inútil com a Al...

Ei, ei, aí já é sacanagem.

Uma névoa preta surgiu como se estivesse me cercando.

Isso nada mais é do que o presságio de quando eles descem para este lado de cá.

 

Sim. Eu acabei me deparando com um “inimigo” no pior momento possível, onde cada minuto e cada segundo importavam.

 

​◆

 

Espíritos inimigos confirmados. O número é cinco. O detalhamento é: três Goblins, dois Kobolds. Você está sem sorte, não é, Master.

Totalmente...

E ter que ser logo nesse momento, né. Não deve ser como se tivessem mirado de propósito, mas isso é o pior, caros clientes.

Se eu pedir pra fazerem vista grossa porque estou com pressa, será que eles me deixam passar?

Você acha que sujeitos que vieram de propósito para ganhar pontos de experiência deixariam sua presa escapar bem diante dos seus olhos?

Respondi à pergunta de Al, que continha um tom de negação, com um suspiro acompanhado de um sorriso amargo.

Em contraste com os humanos que miram nas Dungeons em busca de recursos e tesouros, a razão pela qual esses espíritos aparecem na Dungeon é puramente para o seu crescimento.

Crescimento. Falando no estilo RPG, Level up.

Para os espíritos, o ato de elevar a si mesmos a uma existência de dimensão superior é a missão suprema que supera qualquer prazer ou ética, é a sua essência e a sua prioridade.

Por mais que eu seja o descendente da família que ela favorecia, no plano de fundo de Al, a inigualável Ura Boss, emprestar seu poder tão facilmente, também está relacionado com essa faceta peculiar da raça dos espíritos de serem obcecados por crescimento.

Se os espíritos tiverem um meio de se aprimorarem, eles não conseguirão evitar tentar.

Ficar mais forte, ser reconhecido por muitas existências, e descobrir um valor que seja só seu.

Essa é a forma de ser da raça chamada Espírito.

Por isso, tanto o pequeno(gob) demônio(lin) de pele verde empunhando uma espada enferrujada bem diante dos meus olhos agora, quanto o homem-cão preparando o arco com um rosto cativante, têm como propósito, de forma igual e direta, o seu autotreinamento.

Aos olhos deles, a minha figura com certeza deve estar parecendo “deliciosa”.

(Apesar de que não tenho a intenção de ser um adubo dócil para vocês.)

Saco a arma da bainha presa nas minhas costas.

A categoria da arma liberada no labirinto azul é uma Espada de Duas Mãos. É uma espada grande com cento e setenta centímetros de comprimento, projetada para ser segurada com ambas as mãos.

Com o surgimento da grossa lâmina de aço processada de forma especial para uso contra espíritos, as expressões dos goblins mudaram de forma óbvia.

A configuração dos mobs que surgem na Dungeon é que eles são “corpos espirituais divididos, criados pelo corpo principal que está no Mundo dos Espíritos para fazer login(entrar) no mundo intermediário”.

Por isso, mesmo se perdesse aqui, não é como se a sua vida estivesse em perigo, não deveria ser um problema tão grave assim, mas, de acordo com o produtor de DunMagi:

Sempre que perdem o seu avatar, eles pagam um preço na forma de Pedras Espirituais. Nos nossos padrões de valor, seria o equivalente a cerca de um mês de salário. O fato de que inimigos mais fortes rendem Pedras Espirituais maiores é, bem, um sistema de tributação progressiva. Em suma, é um sistema onde eles pagam uma quantia que dói de forma igual para todos à administração da Dungeon, e uma parte dessa parcela é devolvida ao lado dos Aventureiros. Por isso, bem, é natural que eles também lutem desesperadamente (risos).

Ao que parece, é isso.

Não tenho a menor intenção de sentir pena deles, mas ter o salário de um mês inteiro roubado a cada Death Penalty é, para dizer o mínimo, um jogo de merda. Eu com certeza jamais jogaria isso, não.

No entanto, as senhoras e senhores espíritos, que são viciados em Level up na escala de raças inteiras, aparentemente estão obcecados por esse jogo de “penalidade de morte = perda da renda mensal”. Eles ficaram um pouco atônitos com o surgimento da arma gigante, mas rapidamente se recuperaram e começaram a formar a sua linha de frente.

A opção de fugir, para ser honesto, não é uma boa ideia.

Aquelas pontas de flechas roxas que os Kobolds seguram. Se for de acordo com a configuração da época do game, a verdadeira natureza daquilo é uma flecha envenenada. Se for atingido, obviamente não acabará apenas com uma dor passageira.

Entro em contato com um grupo inimigo que tem o potencial de ameaçar a minha vida.

Mas, estranhamente, meu coração estava calmo.

O treinamento de combate que fiz no território da Ura Boss, e a experiência de batalhas simuladas em espaço virtual selvagem que fiz contra aventureiros profissionais devem ter me tornado mais forte. Ah, eu realmente fiquei mais forte. Estou achando o meu eu atual um pouquinho confiável.

Master, agora não é a hora de assumir riscos. Faça uma interceptação rápida e cuidadosa.

Okay.

Respiro fundo e avalio o campo de visão.

Terreno prensado no corredor. A largura é de pouco menos de três metros. A distância entre nós é de cerca de quatro metros. Os inimigos são cinco à frente. Três para combate corpo a corpo. Dois para longa distância. O que deve ser evitado com cautela é a flecha venenosa do Kobold.

Sendo assim...

Toma essa!

Junto com um grito, desloco o meu centro de gravidade e o meu olhar para o lado direito.

No instante em que o inimigo, atraído pela minha voz e pelo meu olhar, direcionou a atenção para a direita, eu inclinei todo o meu corpo para a direção oposta e avancei direto.

A minha agilidade, que aumentou graças ao Fortalecimento de Força(Str) nas Pernas(ide), encurtou a distância entre o inimigo e eu num tempo mais curto do que um estalar de dedos.

Ainda mais rápido do que a mente deles levaria para perceber que era uma finta, eu invadi o centro do grupo inimigo e empalei o Kobold com uma estocada aproveitando esse ímpeto.

O humano-filhote-de-cachorro foi desaparecendo, tornando-se um corpo luminoso branco enquanto soltava um grito agonizante de “Gyah”. Infelizmente, não tenho tempo para ficar parado esperando ele sumir completamente. Por isso, balançando a Espada de Duas Mãos que tinha um Kobold quase desaparecendo espetado nela, eu cortei levemente o pescoço do outro que estava bem ali perto.

Silêncio, emissão de luz e, em seguida, dispersão como uma névoa. O que sobrou após uma encenação de saída tão cheia de um ar digital foram apenas duas pequenas Pedras Espirituais.

Será que sumir sem sequer jorrar uma gota de sangue é uma especificação do avatar? De qualquer forma, com isso o incômodo do papel de ataque à curta distância foi resolvido, então vamos considerar que deu tudo certo.

Eu me viro imediatamente e me concentro na vanguarda restante.

Gyaa, gyaa!

Gugyagyagya!

Gyahii! Giryaa!

Diante do fim inesperado dos Kobolds que desapareceram tão de repente, os goblins que sobraram soltaram gritos que podiam ser tomados tanto como lamentos quanto urros de raiva.

Mas isso foi fatal.

Numa situação dessas, onde a lâmina do inimigo está avançando contra as gargantas deles, esquecerem de si mesmos e apenas gritarem é a mais baixa de todas as estratégias ruins.

Foi mal, mas não tenho aquele instinto de guerreiro de encontrar valor na batalha em si, viu? Se vocês mostrarem uma abertura, vou apunhalar sem nenhuma hesitação.

「「「Gyagyagyagyaaaaaaa!!」」」

Um irritante trio de gritos que perfuram os ouvidos.

Amigavelmente partidos ao meio (corpo superior e inferior) pelo meu corte contínuo no abdômen, os goblins saíram de cena virando corpos de luz branca do jeito que estavam.

E assim, a primeira batalha do Exame de Aventureiro, que começou de forma abrupta, fechou as cortinas com facilidade.

Um começo excelente, não é, Master.

Bom, vamos encarar pelo lado positivo, serviu como um bom aquecimento.

Enquanto coloco na minha shoulder bag as Pedras Espirituais do tamanho de seixos que sobraram nas ruínas do campo de batalha, olho para o céu distante lá no alto.

A figura da garota que saiu saltando graciosamente antes, agora não deixou nem sombra nem forma.

O exame ainda está apenas no comecinho. Apesar desse contratempo inicial, ainda deve haver chance para se recuperar.

Pode esperar.

Enquanto me encorajo com as próprias palavras, retomo a perseguição.

Eu, com certeza, vou acabar te alcançando.

Se pegarmos apenas a parte escrita, você parece um maldito stalker por completo.

O meu grito vindo do fundo do coração ecoou pelo labirinto azul.





Voltar|Menu Inicial|Proximo  

Comentários