Capítulo 3: O Dispositivo do Apocalipse Primordial — Himinglaeva Albion

 Quando dei por mim, o mundo havia sido tingido completamente de branco.

Um espaço de um branco puro, onde até a fronteira entre o céu e a terra era nebulosa.

No centro de tudo, uma única garota estava de pé.

É uma garota branca.

Da ponta dos pés até o último fio de cabelo, ela é quase inteiramente alva. Uma garota branca em um espaço branco. Em termos de cores, deveria ser difícil enxergá-la, mas, ainda assim, sua figura refletia com clareza nos meus olhos.

Porque ela não é comum. Eu poderia afirmar isso apenas com informações visuais: ela era especial, divina e belíssima.

Primeiro, o que chama a atenção é o seu armamento. Vestindo uma farda militar por cima de uma armadura(dress) de vestido(armor )  branco puro, com diversas espadas embainhadas na cintura, sua aparência é, sob qualquer perspectiva, a de alguém pronta para a batalha.

Uma existência feita para lutar”, foi a frase que me veio à mente.

Contudo, a garota carregava uma inocência que parecia contradizer essa impressão. Traços faciais perfeitos, um equilíbrio impecável como uma peça de haute couture criada por um artesão renomado. Seus lábios, tão vívidos que pareciam sugar a atenção, eram delicados como uma única rosa perdida em um mundo de neve.

O que merece destaque especial é o cabelo. Um corte curto impecavelmente cuidado, tingido de um branco absoluto. O brilho daqueles fios, como neve recém-caída que desconhece a impureza, era tão místico que apenas olhar para eles me fazia soltar um suspiro.

Era, verdadeiramente, uma beleza que transcendia a lógica humana.

Ah, essa divindade inviolável pertence, sem dúvida, ao Ura Boss.

O Ura Boss. O espírito mais forte do jogo base e um dos pilares de Ultima, uma categoria à parte em toda a série.

Confirmação. Foi você quem inicializou esta entidade intelectual?

A Ultima IV, o Dispositivo do Apocalipse Primordial, também conhecida como Himinglaeva Albion, me questionou com uma voz desprovida de entonação.

Sem dúvida... está correto. Fui eu quem chamou você.

Acabei falando em linguagem polida sem perceber, provavelmente porque ela exalava uma aura divina avassaladora. Sabe, a “vibe” de alguém de outro patamar é surreal.

Não vamos nem falar em sentir que posso ganhar, na verdade, não sinto vontade nem de lutar.

Caramba, o protagonista do jogo é mesmo incrível. Mesmo com o save no 100% e cheio de aliados, ele ainda encarou isso.

Isso! A luta!

Imediatamente, me joguei no chão na postura de prostração total, fazendo o maior apelo possível de que não tinha nenhuma intenção hostil contra a Ura Boss.

Como pode ver, não tenho a menor intenção de me opor a Vossa Senhoria! Por isso, imploro, dispense o Ritual de Provação!

O Ritual de Provação. Esse é o nome do evento em que a Ura Boss luta contra o grupo do protagonista.

Os detalhes são os seguintes:

Após completarem todos os elementos de completismo e finalmente libertarem a Himinglaeva, ela desperta, detecta um “acesso não autorizado” e entra em modo de combate sem direito a conversa, iniciando a batalha de Ura Boss sob o nome de Ritual de Provação.

Como introdução, é bem ortodoxo, né? Sim, eu também acho. É um fluxo super natural. Ela é a Ura Boss, então não tem jeito.

Mas, para o meu eu atual, esse “fluxo natural de batalha” é uma questão de vida ou morte. Nem preciso dizer que não ganharia dela só com a Laevateinn; ela é tão excepcional e absoluta que posso afirmar com certeza: não importa o quanto eu fique forte daqui para frente, nunca a alcançaria.

Por isso, implorei desesperadamente. Me humilhei com corpo e alma para evitar o conflito.

Por favor, tenha misericórdia! Eu, Shimizu Kyouichirou, sou um lixo de cara, pior do que qualquer chihuahua por aí. Se por um erro do destino eu lutar contra Vossa Senhoria, com certeza serei derrotado logo no primeiro movimento. Na verdade, tenho certeza de que só de sentir sua sede de sangue, eu vou me borrar todo e morrer. Se puder entender que a diferença de poder entre nós é assim tão unilateral, este Kyouichirou cagão ficaria imensamente feliz. Ah, se quiser, posso até lamber seus sapatos! Faço qualquer coisa para mostrar minha submissão à Deusa, He-he-he!

Ué? Do que eu estava falando mesmo?

Desnecessário / Resposta incorreta. Como você é um Adequado, o Ritual de Provação é dispensado. Adicionalmente, esta entidade intelectual informa que seu senso linguístico é catastrófico e incompreensível.

Parece que meu apelo desesperado surtiu efeito. A garota branca declarou claramente que não realizaria o ritual.

Senti um alívio enorme, mas, ao mesmo tempo, tive a sensação de que perdi algo muito importante como ser humano. Vou apenas fingir que não vi essa parte e seguir em frente.

Deveria focar em outros pontos. Tem uma palavra que me chamou muito mais a atenção do que o meu orgulho de lixo.

Adequado?

Em resposta à minha pergunta, a Ura Boss respondeu com um leve aceno de cabeça.

Resposta. Adequado é o termo que designa indivíduos de linhagens sanguíneas especiais que possuem direito de acesso exclusivo à Ultima. Detectamos o DNA de Shimizu em você. Portanto, esta entidade intelectual o identifica como um Adequado.

Sinto que um lore secreto, que nem eu, mesmo tendo jogado a série por anos, conhecia, acabou de ser revelado casualmente.

Mas isso resolve um mistério.

O fato de o evento da Nee-san levar ao caminho de libertação da Ura Boss tinha, afinal, um grande significado.

Para este mundo, era quase um evento inevitável que a minha Nee-san — aquele anjo gentil e belo — possuísse a chave que levava à Himinglaeva. E o fato de essa chave ser confiada ao protagonista também devia ser, de certa forma, o destino.

... Não que eu não tenha o que dizer sobre isso, mas, por ora, o Ritual de Provação foi evitado. Senti um alívio imenso.

Após suspirar fundo, me virei novamente para a garota branca e fiz uma dogeza.

Agradeço imensamente pela resposta detalhada. Diante disso, tenho o desplante de vir apresentar um pedido a Vossa Senhoria. Poderia, por favor, apenas ouvir o que tenho a dizer?

Afirmativo / Desnecessário. Não me importo. Adicionalmente, esta entidade intelectual sugere que você não precisa utilizar uma linguagem desnecessariamente servil. Por favor, fale na forma coloquial que lhe for mais natural.

Sou grato pela vossa consideração. Contudo...

Reiteração. Por favor, fale na forma coloquial que lhe for mais natural.

...... Obrigado......?

Conciso. Exijo um tratamento ainda mais franco.

Mais franco? Tipo... “foi mal”, “valeu”, essas coisas?

...... Aceito. Esta entidade intelectual sugere que esse modo de falar combina mais com você.

Não sei bem o porquê, mas fui forçado a falar de igual para igual.

Para mim, falar de forma polida parecia mais seguro para não ser desrespeitoso, mas foi a própria interessada quem pediu.

Vou seguir o que ela pede aqui.

Meu nome é Shimizu Kyouichirou. Pelo menos, é assim que as coisas estão agora.

Dúvida. Esta entidade intelectual informa que a parte “agora” é incompreensível. Posso processar isso como uma deficiência na sua capacidade de expressão linguística?

Pode não. Quero falar incluindo esses detalhes. Vai me ouvir?

Duplicidade / Solicitação. Já realizamos essa troca anteriormente. Esta entidade intelectual sugere que evite conversas inúteis para fins de otimização da comunicação.

Com aquele rosto de garota linda e adorável, a Ura Boss solta umas frases bem pesadas.

Não sei se é a personalidade dela ou algo assim, mas é muita hipocrisia de alguém que usa termos duplicados em toda santa frase.

... Mas tudo bem. Vou me focar em manter a conversa de forma civilizada por enquanto.

Entendi. Pode ser um pouco longo, então se prepara. O que eu quero dizer primeiro é────

 

E então, contei tudo o que aconteceu até agora.

Que eu vim de outro mundo. Sobre o jogo chamado Seirei Taisen Dungeon Magia DunMagi. Sobre o destino de morte que aguarda a mim e à minha Nee-san, e que preciso da ajuda da Himinglaeva para evitar isso.

Acho que despejei toda a informação que eu tinha.

Não estou em posição de economizar detalhes, e esconder as coisas não faria o menor sentido.

──── Por isso eu preciso do seu poder, Himinglaeva.

Terminei de falar e abaixei a cabeça mais uma vez.

Então, a Ura Boss me respondeu com aquele tom de voz plano:

…… Compreendido. Processei a situação em que você se encontra em termos gerais. Levando em conta o fato de que mesmo sendo um mero humano, você obteve essa adaga Laevateinn e alcançou este domínio, esta entidade intelectual julgou que há lógica suficiente em suas alegações.

Parece que ela resolveu acreditar em mim. Obrigado, Laevateinn! Valeu a pena todo o sofrimento para te conseguir.

Dúvida. Contudo, diante do exposto, esta entidade intelectual possui tópicos que deseja questionar. Você permite?

Sem problemas. Pode perguntar o que quiser.

Aceitei o pedido dela de imediato. Se ela tem perguntas, significa que, no mínimo, há algum interesse. Nada mal. Na verdade, é um ótimo sinal.

Me apegando a essa pequena chama de esperança que se acendeu no meu peito, esperei pacientemente pela pergunta da Ura Boss.

Interrogatório. Questiono a você: quais seriam os benefícios obtidos por esta entidade intelectual ao firmar um contrato com você?

No entanto, o que saiu da boca da garota branca foi, de cara, uma pergunta de dificuldade máxima.

O benefício de a Ura Boss mais forte emprestar seu poder para o sub-boss mais fraco de todos. Pensando logicamente, tal coisa é inexistente. Não há como o “lixo” do Kyouichirou ter em mãos uma carta de negociação capaz de atraí-la.

Ah, eu tenho plena consciência disso. Eu sei muito bem.

Okay.

Levando isso em conta, forcei um sorriso destemido.

Sim. Eu sou o Kyouichirou, mas não sou apenas o Kyouichirou. Sou o Kyouichirou “um pouco problemático” que se reconhece como um gamer reencarnado viciado em DunMagi.

Dentro da minha cabeça, há uma montanha de informações preciosas que poderiam ser chamadas de “guia de estratégia” deste mundo. E, se eu fornecer esses dados, isso não seria uma ajuda para realizar o desejo de vocês?

A atmosfera em volta da Himinglaeva mudou. O ar que preenchia o mundo branco tornou-se visivelmente pesado, quase sufocante.

Essa reação... parece que você entendeu um pouco a credibilidade do que eu disse. Fique tranquila. Não é mentira nem blefe. Eu realmente sei da verdade.

Escolhendo as palavras com o máximo de cuidado para não soar como uma ameaça, usei um tom de voz propositalmente confiante para jogar minha carta de negociação na mesa diante da bela garota de branco.

Sinto o suor frio escorrendo pelas minhas costas. Sem dúvida nenhuma, este é o clímax da negociação.

O desejo de vocês. Ou seja...

Interrompi a fala por um instante. Inspirei, expirei lentamente e desenhei um mapa da conversa na minha mente.

(Tudo bem. Eu consigo. Eu com certeza, absolutamente, consigo.)

Com a preparação mental feita, anunciei as palavras para a Ura Boss suprema:

Ou seja: eu ofereço o encontro com todos os Ultima como pagamento pelo nosso contrato.

Ultima. Esse é o nome genérico da categoria de espíritos de classe mais alta no mundo de DunMagi.

Baixo, Médio, Alto, Paranormal, Semidivino, Divino Verdadeiro e, finalmente, Superdivino. Se fôssemos descrever de forma simples esses seres que ocupam o topo das sete classes (na verdade, a classe Semidivina se subdivide em quatro, então o correto seria dizer dez classes, mas enfim...), a expressão “algo que supera até os deuses” é a que melhor se encaixa para mim.

O Rei Dragão que governa todos os dragões, a encarnação do horror cósmico que age nas sombras desde tempos imemoriais, o administrador do tempo que manipula livremente o espaço-tempo... Todos eles são um grupo multidimensional com atributos e lore completamente insanos. São o sinônimo de endgame, posicionando-se no mínimo como boss finais ao longo de toda a série.

O que é aterrador sobre esses Ultima, no entanto, é que foi revelado que eles ainda estão em um estado incompleto.

A única coisa que posso dizer é que eles aumentam seu poder ao se encontrarem. Bem, dizer ‘aumentar o poder’ pode ser um pouco equivocado. Talvez seja mais fácil entender se eu disser que eles se aproximam da ‘conclusão’. Sim, os Ultima, mesmo sendo o que são, ainda estão incompletos.

 

Essas foram as palavras que o produtor de DunMagi disse certa vez em um evento offline.

Na época, nós, jogadores, fomos à loucura com a visão oficial de que os Ultimas eram incompletos e que se aproximariam da perfeição ao se encontrarem. Fanarts de artistas geniais imaginando esse “estado completo” nunca visto inundaram a internet, e as noites que passei em claro acompanhando tudo isso ainda aquecem meu peito só de lembrar. Ah, meus saudosos e belos dias de otaku... Eu achava que eram dias cinzentos, mas no fim das contas, foram realmente divertidos.

... Perdão. Acabei divagando um pouco no sentimentalismo. Voltando ao assunto: vamos retomar o tópico do benefício.

Bem, neste momento, existem três pontos cruciais:

 

①Os Ultimas na obra estão em um estado incompleto.

Os Ultimas se aproximam da perfeição ao se encontrarem.

Eu sei a localização e as condições de aparição de todos os Ultimas.

Com base nisso, o benefício que posso oferecer a ela é:

──── Por isso, minha Deusa, se a Nee-san for curada, prometo dar todo o suporte para a sua “conclusão”. Vou providenciar contratos excelentes, ajudar a cumprir as condições de aparição e, claro, te entregar todas as informações essenciais sobre os outros Ultima. Esse é o benefício de me emprestar seu poder. Vou pagar o preço equivalente a salvar uma vida humana, com toda a certeza.

…………

A reação da Himinglaeva à minha apresentação foi o silêncio.

Um silêncio inquietante que dominava o mundo de branco puro.

Não acredito que seja indiferença. Seria impossível não sentir nada diante de um homem que quebrou o selo e revelou os segredos dos Ultimas.

Seria ceticismo ou ela estaria processando as informações? Como não quero piorar a impressão que ela tem de mim me metendo onde não fui chamado, resolvi ficar calado.

Compreendido / Curiosidade / Dúvida. Informo que esta entidade intelectual desenvolveu um interesse considerável pelas condições que você apresentou. Contudo, simultaneamente, um novo problema foi detectado.

Posso entender que há algo que você queira perguntar?

Afirmativo / Interrogatório. Questiono a você.

Os olhos prateados da garota branca fixaram-se no centro das minhas pupilas.

O que senti vindo daqueles olhos límpidos como joias era uma vontade que não admitia nenhuma mentira ou enrolação.

Responda o motivo pelo qual você precisa salvar Shimizu Fumika.

Engoli as palavras que quase saltaram da minha boca perguntando “por que perguntar algo tão óbvio?”.

...Dizer que é porque sou o irmão dela não vai te convencer, né?

Afirmativo / Incompreensível. Embora Shimizu Kyouichirou seja irmão de Shimizu Fumika, você não passa de um estranho ocupando o corpo dele. Seu comportamento de arriscar a própria vida para salvá-la não pode ser chamado de biologicamente lógico.

A refutação da Himinglaeva foi extremamente precisa.

Em suma, o que essa Ura Boss quer dizer é o seguinte:

Não faz sentido alguém que se tornou irmão da Shimizu Fumika apenas ontem vir aqui, bancando o “irmãozinho”, para uma negociação de vida ou morte.

Fala sério. Essa pergunta foi um golpe baixo.

Como um clichê de histórias de reencarnação em outro mundo, eu ficaria grato se ela deixasse esse detalhe passar batido, mas não...

Dito isso, se ela perguntou, eu tenho que responder.

Isso é uma negociação. Se eu não convencer o outro lado, não consigo o que quero.

... É, você tem razão. De cabeça, consigo pensar em três motivos.

Respondi enquanto erguia os dedos da mão direita, do indicador ao anular.

O primeiro é para confirmar uma coisa. Como eu disse antes, Shimizu Kyouichirou vai fazer uma besteira e morrer num futuro próximo. Não sei se isso é um destino impossível de mudar. Por isso, vou usar a Nee-san como prova.

Disparei as palavras tentando parecer o mais frio possível.

Sim. Na história principal de DunMagi, os irmãos Shimizu estão destinados a morrer, sem exceção.

Pode haver diferenças na forma como morrem, mas o desfecho trágico onde a linhagem Shimizu se extingue é comum a todas as rotas. E o motivo para termos que morrer assim é, provavelmente, quem está bem na minha frente.

Himinglaeva Albion. Um dos pilares do grupo de espíritos mais fortes do mundo, os Ultimas, e a Ura Boss do jogo original que possui ligações profundas com a família Shimizu.

Olhando de uma perspectiva meta, é como se morrêssemos apenas para ativar o evento que faz o protagonista lutar contra ela. Na verdade, a família Shimizu recebeu esse fardo logo no nível de roteiro do mundo.

Nosso pai e nossa mãe faleceram há alguns anos em um acidente de desabamento.

Nossos avós, tanto paternos quanto maternos, já faleceram. A única tia com quem temos algum vínculo (percebi quem era ontem, ao ouvir a história da Nee-san) também acaba se tornando uma “pessoa que não volta mais” em um certo evento da história principal. E quanto a nós dois, nem precisa falar.

... É. Sério mesmo. A família Shimizu é amaldiçoada demais.

Eu até entendo o lado dos desenvolvedores: se a linhagem Shimizu continuar existindo, o confronto contra a Himinglaeva simplesmente não aconteceria.

Mas, se fosse assim, era só terem mudado a configuração do mundo desde o início!

Poderiam ter mexido um pouco no lore da Himinglaeva e resolvido tudo com um “a família Shimizu era apenas de civis comuns que viveram felizes para sempre”!

Não exterminem uma linhagem inteira só para fazer o jogador lutar contra a droga de um Ura Boss, seus merdas!

... Ah, foi mal. Me exaltei e saí do assunto de novo. Enfim, o que eu quero que você entenda é que eu e a Nee-san compartilhamos o mesmo destino de morte.

O que significa que, se eu olhar pelo outro lado, se eu conseguir reverter o destino de um de nós...

Resumo. Ou seja, você acredita que, se puder evitar a morte de Shimizu Fumika, isso servirá como garantia de que a sua própria morte também pode ser anulada.

Isso. Por isso, eu também tenho um benefício bem claro nessa história.

……

A garota branca respondeu com um aceno silencioso.

Era o sinal para eu continuar.

O segundo motivo é extremamente pessoal, mas... eu amo este mundo.

Seirei Taisen Dungeon Magia. Sem exagero nenhum, foi o jogo que mudou a minha vida.

Foi o primeiro Galge que joguei e, mesmo agora, tendo jogado inúmeros “jogos divinos”, posso afirmar com certeza que este é o melhor de todos.

Isso é DunMagi.

Naquela época, quando eu estava deprimido por vários motivos, foi DunMagi que me salvou.

Foi DunMagi que me ensinou a maravilha de ser um otaku.

Foi DunMagi que me permitiu conhecer pessoas com os mesmos gostos e me ensinou a alegria de compartilhar o que se ama.

E eu reencarnei nesse mundo.

Pude conhecer pessoalmente a personagem que eu tanto amava.

E, de quebra, ainda fui presenteado com a comida caseira dela.

Para alguém que perdeu os pais cedo no outro mundo, o hambúrguer da Nee-san era tão quente e gostoso que me deu vontade de chorar.

Fui servido com uma refeição feita pelas mãos da personagem que eu adorava no mundo que eu tanto admirava.

Para um otaku, isso não é algo que se pague apenas com uma “dívida de hospitalidade”.

A raça dos otakus é absurdamente intensa. Nós gastamos fortunas em meros dados de jogo sem hesitar, e compramos produtos como idiotas só porque tem uma ilustração da nossa ‘waifu’ neles.

Haverá quem ria disso, chamando de tolice. Haverá quem nos olhe com desprezo, achando nojento.

Ah, sim. É uma tolice. Que se dane o senso comum; o que há de errado em apostar a vida em um hobby?

Vulgar? Infantil? Podem latir o quanto quiserem, seus imbecis. Infelizmente, não sou otaku para “parecer descolado”. Uma vida onde até o meu “gostar” precisa de aprovação alheia? Sinto muito, mas eu dispenso esse tipo de existência, seus idiotas.

Ela não é uma desconhecida. É uma personagem amada de uma obra que eu adoro. E essa pessoa está, agora, com a vida em perigo. Se eu não me levantar aqui, não vou conseguir me perdoar.

A lógica de custo-benefício não funciona com um otaku.

Se você acha que nos movemos por razões sensatas como “são apenas dados” ou “é só um pedaço de pano”, está redondamente enganada.

Além do mais, otaku é um bicho fácil de levar. Não seria estranho se existisse um idiota disposto a apostar a vida por um prato de comida feito pela sua amada.

Pasma. Você quer dizer que coloca a própria vida na mesma balança que suas preferências e gostos pessoais?

Com certeza.

Declarei do fundo do meu coração.

Um otaku bobo e tolo. Eu tenho orgulho de ser assim.

Mas, olha, nem eu sou tão pirado a ponto de tomar uma decisão dessa magnitude, de um dia para o outro, sozinho. Por isso, o terceiro motivo.

Sem dar brecha para interrupções, disparei a terceira razão:

Indo direto ao ponto: essa decisão não é só minha. O desejo de salvar a Nee-san é também a vontade do dono original deste corpo.

Shimizu Kyouichirou.

O sub-boss “lixo” e metido a vilão do primeiro DunMagi, um saco de pancadas que não servia nem como escada para os protagonistas. Para a maioria dos jogadores, ele era apenas um personagem piada, e eu mesmo não o via de forma diferente.

Mas, agora que reencarnei como o Kyouichirou e analisei todas as circunstâncias deste mundo, tem algo que ficou claro.

Provavelmente, o Kyouichirou original queria salvar a irmã.

A própria irmã definhando dia após dia devido a uma maldição.

Ele deve ter lutado do jeito dele para tentar resgatá-la. O fato de ele possuir dois espíritos — mesmo que de classe baixa — deve ter sido o resultado do esforço dele. Para um cara que não tinha talento nem para encostar no protagonista do tutorial, conseguir aqueles dois espíritos foi o máximo que ele pôde alcançar após tanto ralar.

E o motivo de ele ter atacado o grupo do protagonista do nada... agora eu começo a entender.

O que para os jogadores parecia um evento aleatório, do ponto de vista do Kyouichirou, revela uma hipótese que não sai da minha cabeça.

Hyahhaaaaaaaaaaaa! Curve-se diante da minha técnica espiritual e morraaaaa!

Ele atacou o grupo do protagonista... mas o objetivo não seria a Santa que estava ao lado dele?

“Curvar-se”. Ou seja, uma exigência de rendição.

O que ele queria fazer ao atacar o grupo e tentar forçá-los a obedecer...

Considerando a situação, só existe uma resposta.

Aquele idiota provavelmente queria pegar emprestado o “cheat” de cura da Santa para tratar a Nee-san.

Não sei o quanto dele ainda resta dentro de mim agora. Mas posso afirmar com certeza que este sentimento... essa vontade não pertence apenas a mim.

Enquanto falava, compreendi a verdadeira natureza daquela pulsação que brotava do fundo do meu peito.

Naquela luta contra o Vidofnir, quando eu estava cego pelo medo e prestes a fraquejar, foi você quem me deu forças, não foi, Kyouichirou?

Por mais que eu fosse um otaku fanático por DunMagi, se me perguntassem se eu jogaria minha vida fora por uma waifu que conheci ontem, a resposta provavelmente seria não.

Quero salvar minha irmã, alguém dentro de mim ainda grita com força.

Só com o conhecimento, eu não teria vencido. Só com o sentimento, eu não teria chegado aqui.

Nós somos dois em um, um único Kyouichirou. Por isso, definitivamente — e por mais que eu tente negar — isso não é o problema de outra pessoa.

Não sei por que as coisas terminaram assim. Mas, já que renasci como Shimizu Kyouichirou, quero realizar o desejo daquele cara. É assim que eu me sinto.

Confirmação, admiração e impulso.

Resumindo de forma seca, são apenas motivações comuns e triviais.

Mas qualquer grande feito, se analisado a fundo, não começa com sentimentos comuns?

Por isso, não há razão para ser criticado como “anormal”, nem necessidade de me humilhar chamando isso de “clichê”.

Querer viver, querer salvar, querer realizar.

Com a consciência de que esse acúmulo de coisas óbvias é o que me mantém de pé aqui agora, declarei para a Ura Boss:

Deixe-me dizer mais uma vez. Himinglaeva, por favor, empreste-nos o seu poder. Nós precisamos de você.

Curvei minha cabeça em um ângulo perfeito de quarenta e cinco graus.

Dediquei toda a cortesia que um ser impotente como eu poderia oferecer e esperei. Após alguns segundos, a voz cristalina dela ecoou pelo espaço branco.

Entendido. A determinação e a vontade foram demonstradas. Esta entidade intelectual o aceita como um contratante provisório.

Surpresa e alegria extrema brotaram simultaneamente.

Consegui... Eu consegui, droga! Tive sucesso em firmar um contrato com a Ura Boss mais forte de todas!

É sério mesmo, né? Nada de ser um sonho ou de me dar esperanças para depois me derrubar, hein, Deusa-sama?

Sem problemas. De origem, você já é um consanguíneo de Shimizu. Pela antiga aliança, o passe espiritual com esta entidade intelectual está validado. Adicionalmente, considerando a sua própria excepcionalidade e a validade da ordem de proteger a linhagem Shimizu, a conclusão do contrato é um ato necessário e apropriado.

As palavras da Himinglaeva eram metade incompreensíveis, mas o fato de que ela me reconheceu como contratante eu consegui entender perfeitamente.

Obrigado, Himinglaeva. E, de agora em diante, conto com você.

Entendido. Sim. De agora em diante, conto com você, Master.

E assim, minha primeira aventura chegou ao fim sem maiores problemas. Escapei por um fio, com a garganta seca de tanto falar. O que consegui foram o espírito mais forte de todos, uma arma mágica e um pouquinho de amor-próprio.

Tudo isso é algo desproporcional para um sub-boss de tutorial obter──── não, deixa para lá. Eu, nós, nos esforçamos. Pensamos desesperadamente, arriscamos a vida, agimos com coragem e jogamos todas as cartas que tínhamos. Não quero insultar os tesouros que conquistei chamando-os de “desproporcionais”.

Então, sim. Vamos manter as coisas simples.

 

Shimizu Kyouichirou, após uma aventura árdua, obteve seus tesouros. Esse é o resumo sem mentiras nem falsidades do que aconteceu hoje.




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