Capítulo 2: Indo ao encontro do Boss Oculto mais forte

  

 

Residência Shimizu · Quarto de Kyouichirou

 

Depois de fazer Nee-san dormir, me tranquei no meu quarto e me perdi em pensamentos, buscando algum plano viável.

Se eu continuar deixando o tempo passar inutilmente, nós dois acabaremos morrendo como meros degraus para o protagonista e personagens feitos apenas para gerar uma comoção barata.

Isso é inaceitável. Rejeito terminantemente. Merda.

Eu vou salvar a Nee-san, custe o que custar.

Enquanto forçava meu cérebro e minhas mãos, ia anotando no caderno os métodos para salvar a Nee-san.

A primeira estratégia que me veio à cabeça foi pedir para aquele habilidoso “especialista em maldições” que aparece no jogo para quebrar a maldição dela.

Felizmente, agora estamos três anos antes do início da história principal.

Os sintomas dela ainda parecem leves, então achei que era uma excelente ideia, mas...

Meu nome é Belphegi. Sou um mestre de quebra de maldições errante. O motivo de eu estar aqui é o mesmo de qualquer outro aventureiro. Prazer em conhecê-lo.

Lembrando bem, aquele cara só vai aparecer por aqui daqui a uns três anos.

Não dá. Assim não vai dar tempo de jeito nenhum.

A Santa que possui o cheat de cura também só aparece no início do jogo, então depender dos personagens da história original parece difícil.

... Se depender de personagens não dá, que tal itens?

Se a progressão da maldição ainda estiver no estágio inicial, ela deve poder ser curada completamente com o poder de um Elixir(Panaceia Universal )

Se este é o mundo de DunMagi, o Elixir deve estar adormecido naquela Dungeon específica. Como eu conheço as informações de estratégia do jogo, conseguir o item é uma possibilidade real.

(......Pensando bem, eu sou o Kyouichirou, né?)

Tinha esquecido completamente que eu não sou o protagonista apelão, que já começa com um espírito poderoso e habilidades de monstro, mas sim um sub-boss lixo de tutorial. Pois é.

Sem aliados. Sem talento. E, no estágio atual, nem sequer possuo um espírito.

Tô ferrado.

... Vou tentar mudar a minha linha de raciocínio.

Vou analisar a situação atual não pela visão de um game de lindas garotas, mas sim pela perspectiva de alguém que ama web novels.

Geralmente, o protagonista de um Isekai de reencarnação possui alguma habilidade apelonaCheat.

Seja uma benção recebida de um deus, ou uma quantidade colossal de poder mágico mana adquirida através de treinamento desde a infância — varia muito.

O talento “externo”. Esse é um dos temperos indispensáveis em histórias de reencarnação e um dos grandes momentos do início da trama.

Então, vamos revisar mais uma vez o meu próprio status.

Shimizu Kyouichirou. Habilidades medíocres. Desempenho pífio. Um cara convencido que, além de não ter aliados, provavelmente não tem nem amigos. O único ponto positivo é que a Nee-san é linda e um anjo. Fim.

...... É patético demais, mesmo sendo sobre mim, mas essa é a minha realidade agora.

Fraco. Esmagadoramente fraco. Sou um lixo tão grande que até um Chihuahua por aí deve ser mais útil.

O que um representante de personagens fracos como eu deve fazer para ficar forte de uma vez só?

(No fim, acho que só resta depender do poder dos espíritos mesmo, huuh)

Espíritos. O elemento de crescimento mais comum em DunMagi.

Neste mundo, os humanos podem exercer poderes sobrenaturais ao tomarem emprestado a força dos espíritos. Portanto, se for para atacar, o primeiro passo deve ser por aqui. Mas o problema é...

(Quem eu devo mirar?)

O número de espíritos que aparecem em DunMagi, apenas no jogo base, é de aproximadamente centenas de tipos. Encontrar um espírito que combine com o meu objetivo me baseando apenas na memória é uma tarefa extremamente difícil.

Quais são as condições de obtenção? Qual o nível de força? Onde está o objetivo que devo estabelecer?

Não basta ser forte, e não basta apenas conseguir usar.

O que eu preciso é de um espírito que se alinhe ao meu objetivo. Se eu não definir esse ponto, não tem conversa.

É uma tarefa árdua, mas pense como se sua vida dependesse disso, Kyouichirou. A única coisa que posso fazer agora é colocar a cabeça para funcionar. Não relaxe. Não aceite menos. Não desista.

Pense, pense, pense!

 

​◆

 

E assim, depois de muito, muito sofrimento mental, escrevi as seguintes frases no meu caderno:

 

O que é necessário: A existência de um espírito com força suficiente para completar a Dungeon onde se obtém o Elixir. Se for um espírito de nível capaz de realizar a quebra de maldição da Nee-san, melhor ainda.Como premissa absoluta, deve incluir a facilidade de obtenção, sendo algo que eu consiga adquirir mesmo no meu estado atual.

 

Ao terminar de escrever e reler, percebi que só escrevi coisas convenientes demais.

Um espírito ultra forte e, de quebra, fácil de conseguir... Se existisse algo tão conveniente assim, seria literalmente um Cheat.

(Cheat. Trapaça. Ótimo, perfeito. Se for para salvar a vida da Nee-san, esse tipo de xingamento não vale nem um peido.)

Mas uma existência tão conveniente não estaria por aí dando sopa assim tão fácil, né?

Ah, droga! Tanto faz se é cheat ou qualquer outra coisa, apenas salve a vida da Nee-san. Eu imploro—!

... Não, espera aí.

Foi então que eu percebi algo de repente.

Nee-san. Sim, a Nee-san.

Em DunMagi, a Nee-san inevitavelmente morre.

Seja sendo velada pelo protagonista e seus amigos ou morrendo na mais absoluta solidão, a morte de Shimizu Fumika era algo que nunca se revertia. Era exatamente por isso que não havia salvação para ela.

Por que razões a desenvolvedora quis submeter a Nee-san a esse destino? É de revirar o estômago, mas consigo pensar em dois motivos principais.

O primeiro é para dar impacto à história.

A morte da Nee-san exerce uma influência gigantesca na mentalidade que o protagonista e os outros adotam a partir dali.

Após experienciarem o evento da Shimizu Fumika, os protagonistas relembram a Nee-san em cada oportunidade, lamentando sua perda e fortalecendo sua determinação para lutar.

 

── Para que não haja mais vítimas como ela.

── Fumika-san, por favor, olhe por nós aí do céu.

 

Eles diziam coisas muito nobres, mas, trocando em miúdos, a Nee-san recebeu o papel de morrer para servir de escada para o amadurecimento emocional dos protagonistas.

Esse é o primeiro motivo da morte dela.

Na época, eu mesmo joguei essa parte em prantos, mas, do ponto de vista de quem é o “envolvido”, isso não passa de uma injustiça sem tamanho.

Morte para fazer o protagonista crescer? Por que diabos a Nee-san tem que ser sacrificada por um motivo lixo desses?

... Mas tudo bem. O importante é o que vem a seguir.

Não há dúvida de que a morte da Nee-san tinha um significado narrativo para o crescimento deles.

Contudo, não era apenas isso.

A morte da Shimizu Fumika também era retratada como algo que possuía um significado prático na progressão do jogo.

No estágio final do evento, deitada em seu leito de morte, a Nee-san usa suas últimas forças para confiar um certo item ao protagonista.

 

Por favor, ofereça flores a Deus. Eu... sinto que não conseguirei mais fazer isso.

 

Essa era a chave do pátio de um antigo santuário, agora caído no esquecimento, e o protagonista, após a morte da Nee-san, oferece as flores no local indicado.

É uma cena bonita, né? Eu também me emocionei na época. Mas agora, só consigo pensar que é a pior direção narrativa do mundo!

Acontece que, sobre esse santuário, um fato absurdo é revelado mais tarde. No fundo do pátio desse santuário abandonado e sem fiéis, adivinhem só: o Boss secreto estava selado lá.

Esse fato só é descoberto após derrotar o Last Boss, no pós-jogo clear after. Existe um item chamado Manuscrito Antigo da Superação, que apenas os jogadores que completaram todas as Dungeons e dominaram todos os elementos de completismo conseguem obter. Ao ler o que está escrito ali naquele pátio específico... Ora, que surpresa! O Boss secreto que estava dormindo ali aparece. E foram felizes para sempre.

... Não, vocês são demônios! Não tem nada de feliz nisso! Por que diabos vocês estão usando a lembrança da Nee-san para lutar contra um Boss secreto? E vocês, desenvolvedores, não transformem a morte da minha irmã na condição de desbloqueio de um Boss secreto! Vão para o inferno!

(Mas... que ódio, apesar de tudo, eu posso usar essa configuração a meu favor.)

Sim, esse desenrolar cruel de dar náuseas, se visto pelo avesso, é uma brecha onde posso me infiltrar.

Afinal, as condições prévias para gerar o evento do Boss secreto, se formos direto ao ponto, são apenas duas:

 

①Obter a chave do pátio do santuário.

②Recitar o conteúdo do Manuscrito Antigo da Superação.

 

Percebeu? Não existe a obrigação direta de derrotar o Last Boss, nem a necessidade de completar todas as Dungeons.

E essas duas condições, eu consigo cumprir facilmente.

Basta pegar emprestada a chave com a Nee-san, que é a dona original, e o conteúdo do manuscrito está gravado a fogo no meu cérebro de gamer de galge, então o item físico é desnecessário.

O problema é o que vem depois, mas... tudo bem, vai dar certo. Se eu apostar todo o conhecimento que acumulei no jogo e uma ou duas das minhas vidas, teoricamente deve ser possível.

(Eu vou fazer isso. Vou conquistar você de qualquer jeito,  Boss secreto-sama)

Eu tinha plena consciência de que isso era uma loucura.

No entanto, decidi que iria encontrar o Boss secreto porque, se fosse Ela, acreditei que poderia dar um jeito na maldição da Nee-san.

Nem eu mesmo sei como consegui ficar tão desesperado a esse ponto. Mas, como um fato concreto, naquela noite eu virei a madrugada acordado. Passei a noite inteira arquitetando a estratégia de conquista contra o Boss secreto.

 

No dia seguinte, após pegar emprestada a chave do pátio com a Nee-san, segui imediatamente para o santuário enquanto esfregava meus olhos sonolentos.

Graças ao aplicativo de mapas do smartphone e ao guia que a Nee-san preparou para mim, consegui chegar ao local de forma surpreendentemente tranquila.

(Mas pensar que chegaria o dia em que eu percorreria a cidade de ‘Ouka’ de bicicleta... eu nunca imaginei isso.)

Caminhos onde as pétalas de cerejeira bailam. Edifícios modernos enfileirados. À primeira vista, não deixa de parecer uma zona urbana, mas há árvores gigantescas do tamanho de arranha-céus espalhadas por todo lado, e eu realmente não canso de olhar.

Árvores de cerejeira se erguendo entre os prédios quadrados. Não, está errado. Não é que existam árvores entre os prédios, mas sim que os quarteirões da cidade foram construídos tendo as cerejeiras como centro.

E não são apenas uma ou duas. Só de olhar por cima, dá para ver mais de cem árvores gigantescas e os edifícios de aço que as rodeiam.

Embora seja uma paisagem distorcida demais para ser chamada de “harmonia com a natureza”, ainda assim, a chuva de pétalas de cerejeira que caía sobre a cidade era linda demais...

(Eu realmente vim para o mundo de DunMagi, eh?)

Enquanto saboreava esse sentimento profundamente, acabei chegando ao meu destino sem perceber.

Um antigo santuário onde a fé já havia se extinguido.

Antigamente, era um local administrado pelos ancestrais distantes da família Shimizu, mas hoje não há ninguém ocupando cargos sacerdotais. O lugar está tão desolado que a Nee-san, que recebeu a chave da nossa mãe, vem apenas periodicamente para fazer uma limpeza.

É, ninguém pensaria que um Boss secreto estaria num lugar desses.

Usando a chave que recebi da Nee-san, tentei abrir a porta que levava ao pátio interno.

Ouvi um clique satisfatório e a tranca se soltou.

(Vamos lá.)

Retirei a lanterna de dentro da mochila e segui em frente, atravessando o pátio mal iluminado do santuário.

O clima era sombrio, como se algo estivesse prestes a aparecer a qualquer momento, mas cheguei ao meu destino sem dar de cara com nada em particular.

(É aqui.)

A luz da lanterna iluminou o centro da escuridão.

O que repousava ali era um Goshintai(objeto de adoração).

Em meio ao amplo espaço, havia apenas uma estátua budista de uma jovem.

Sentada silenciosamente na postura Kekkafuza(lótus completa)) sua figura era belíssima e, ao mesmo tempo, transmitia uma sensação de fragilidade.

Uma única estátua divina consagrada em um antigo santuário onde a fé se extinguiu.

Se eu recitar as palavras do manuscrito diante desta imagem, o caminho para o Ura(secreto ) Boss deve se abrir, mas...

Bom, vamos tentar.

Recitei as palavras do manuscrito que estavam adormecidas em minha memória.

Vida celestial que tudo ilumina

Cortina do tempo sem frestas de luz

O que se perdeu e o que foi morto já não existem

Pois então, guie-nos até o fim da causalidade

 

Após terminar de declamar esse poema digno de um Chuunibyou, que felizmente não era longo, engoli em seco e observei atentamente a reação da estátua.

Provavelmente está certo. Ou melhor, se não estiver, tudo vai por água abaixo.

(Por favor, Ura Boss. Responda à minha voz.)

Eu rezei. Rezei fervorosamente.

É patético demais chegar num Isekai e a primeira coisa que eu faço é apelar para a “ajuda divina”, né?

Mas, no momento, é tudo o que eu tenho.

O Kyouichirou não é forte o suficiente para viver com o luxo de se prender a ética ou virtudes morais.

Vida celestial que tudo ilumina

 Cortina do tempo sem frestas de luz

 O que se perdeu e o que foi morto já não existem

 Pois então, guie-nos até o fim da causalidade!

 Vida celestial que tudo ilumina

 Cortina do tempo sem frestas de luz

 O que se perdeu e o que foi morto já não existem

 Pois então, guie-nos até o fim da causalidade!

 Vida celestial que tudo ilumina

 Cortina do tempo sem frestas de luz

 O que se perdeu e o que foi morto já não existem

 Pois então, guie-nos até o fim da causalidade……!

 

Continuei repetindo as palavras do manuscrito como quem se agarra a uma última esperança.

Apareça, o espírito mais forte de todos. Nós precisamos do seu poder.

Por favor, salve a Nee-san (e, já que está aí, me salve também)!

 

Protocolo de ativação confirmado / Biometria liberada / DNA de Shimizu detectado / Reescrita da textura de fase concluída / Iniciando transição para o domínio quadridimensional agora.

 

Uma voz inorgânica ecoou em meio à escuridão. Ao mesmo tempo, a estátua divina diante dos meus olhos começou a emitir uma luz ofuscante.

Ah, é isso. Era por isso que eu estava esperando.

O brilho que invade o santuário sem luz, as palavras eletrônicas desprovidas de emoção. Isso é, sem sombra de dúvida───

O evento do Ura Boss!

No centro do santuário envolto por uma luz branca, fiz um “guts pose” frenético sozinho. E então───

 

Cidade-Dungeon Ouka · Dungeon Nº ???? Kuon(Samsara ) Rinne(Eterno)

 

Quando despertei, uma paisagem familiar se estendia diante de mim.

Teto branco, chão de mármore. No centro, quatro escadarias em espiral gigantescas. No andar superior, alguns patamares e portas e... Ah, lá estava ele, o “Relógio Gigante”.

Uma mistura de profunda emoção, uma empolgação estranha e uma convicção brilhante começaram a dançar de alegria dentro da minha cabeça.

(──── É a Dungeon do Ura Boss!)

Na época do jogo, visitei este lugar centenas de vezes. Seria impossível esquecer. Aqui é, sem dúvida, a Dungeon do Ura Boss.

Caramba, eu sou só um sub-boss de tutorial e acabei entrando na Dungeon do mestre supremo. Que discrepância. É tão fora de lugar que chega a ser emocionante.

(... Mas que burro! Não é hora de ficar sentimental!)

No centro do segundo andar dessa estrutura com pé-direito alto, está instalado um relógio de parede colossal. Meus olhos captaram exatamente o momento em que o ponteiro dos minutos, que estava sobreposto ao das horas às doze em ponto, começou a retroceder lentamente em direção às onze.

O ponteiro dos minutos movendo-se no sentido anti-horário. O ponteiro das horas estático no topo, sem avançar. Se seguir as especificações da época do jogo, quando o “Senhor Ponteiro dos Minutos” se reencontrar com a “Senhorita Ponteiro das Horas” estática — ou seja, em menos de uma hora — se eu não chegar a ‘determinado lugar’, ficarei impossibilitado de progredir.

(Minha chance é apenas esta. Se eu vacilar aqui, provavelmente nunca mais conseguirei encontrar o Ura Boss.)

Enquanto acalmava desesperadamente meu corpo que tremia de tensão e ansiedade, corri com toda a velocidade pela escadaria em espiral da direita.

(A resposta certa do Mapa 1 é a porta no fundo à direita do terceiro andar!)

Movendo o corpo conforme a navegação na minha mente, cheguei ao destino em menos de um minuto. Girei a maçaneta da porta de cor branca alva e entrei no próximo estágio.

A Dungeon do Ura Boss é o que chamamos de Dungeon de “formato warp”.

Sabe aquele tipo de fase em jogos onde, “se você não seguir a rota correta, é mandado de volta ao ponto inicial”? Pois é, e o que torna tudo realmente perverso é que, nesta Dungeon, há um total de doze opções de escolha para cada área.

Além disso, cada uma dessas áreas é dividida em doze setores (mais a sala do Ura Boss), então imagina o desespero! Ter doze opções de escolha, onde qualquer rota que não seja a correta te joga para fora, e precisar acertar esse “Amida-kuji(Jogo de sorte japonês com linhas, usado aqui como metáfora para as rotas aleatórias)” infernal doze vezes seguidas em menos de uma hora... é, no mínimo, um jogo impossível.

── E o pior: aqui também aparecem “inimigos”.

 

(... Estão ali. Os guardiões.)

Após seguir a rota correta e entrar na segunda área, o que surgiu diante de mim foi uma sala estilo galeria de arte, com tapetes vermelhos e paredes brancas, e cavaleiros de armadura de dois metros de altura, envoltos em trajes brancos puros.

Eles patrulhavam seus postos mecanicamente com um som metálico de gashari-gashari. Obviamente, se me vissem, seria batalha na certa.

Se um inimigo comum da Dungeon do Ura Boss lutar contra o sub-boss do tutorial, é claro quem seria o perdedor.

Considerando as especificações desta Dungeon, talvez eu até conseguisse lutar um pouco, mas, no fim das contas, eu sou o Kyouichirou. Não ganho nada sendo ganancioso com um personagem lixo. O plano é passar despercebido e seguir no “No Combat”.

(A rota correta é esquerda, direita, reto pelo centro e depois duas viradas consecutivas à direita na porta azul. E o guarda daqui vira para trás a cada três passos, então preciso cronometrar o tempo... Certo, agora!)

Controlei a respiração e disparei em um sprint total.

Não sei até onde os movimentos de esquiva contra inimigos que aprendi na época do jogo vão funcionar, mas agora só me resta rezar para que os movimentos deles sigam o manual e seguir em frente.

Uma tensão percorria todo o meu corpo. O suor escorria como uma cachoeira. Cada vez que passava perto deles, meu coração martelava tão forte que eu sentia que ia morrer ali mesmo.

(... Avistei, a segunda resposta.)

Com as mãos ensopadas de suor, puxei a maçaneta da porta azul e avancei para a próxima área.

 

 

E então, usei todo o conhecimento de jogo que possuía para avançar na “conquista” da Dungeon do Ura Boss.

A estrutura dos mapas, o comportamento dos symbol enemies e os gimmicks específicos preparados para cada área. Tudo ali era extremamente complexo, penoso e, além disso, absurdamente maldoso.

Sério, sou eternamente grato ao meu conhecimento de gamer. Se não fosse por isso (ou se eu tivesse apenas um conhecimento superficial), eu estaria andando de um lado para o outro na segunda área até o tempo esgotar.

Mas não foi o que aconteceu.

Consegui! Eu consegui, droga!

Enquanto limpava com um lenço o rosto todo bagunçado de suor e lágrimas, fixei o olhar no baú de tesouro pintado de branco que repousava diante de mim.

Área 11. Um passo antes da área final.

Encontrado num canto de uma paisagem mística coberta por vitrais coloridos, esse baú do tamanho de um micro-ondas era a razão exata de eu ter me esforçado tanto até aqui.

(O relógio do smartphone marca... ok, 12h45. Ainda tenho mais de dez minutos de folga até o tempo limite. Deu tempo, consegui chegar até aqui.)

Baús de tesouro. Num jogo como DunMagi, onde a estrutura das Dungeons é basicamente de geração aleatória (do tipo em que o mapa muda toda vez que você entra), um baú que “certeza que está lá” é algo extremamente raro.

Ainda por cima, estamos na Dungeon do Ura Boss. Naturalmente, o item lá dentro é algo absurdamente poderoso e────

ISSO!

E o “objeto” estava devidamente lá dentro do baú.

Houken(Adaga Selada) Laevateinn. Um item raríssimo e lendário que só aparece na primeiríssima tentativa de invasão da Dungeon do Ura Boss.

Nesta Dungeon sádica que impõe a regra absurda de reduzir temporariamente a força dos membros da party ao nível inicial, obter a Laevateinn era, sem dúvida, o divisor de águas.

Afinal, esta adaga nunca mais dropa se você não a pegar na primeira vez.

....... Un, eu entendo o sentimento. Qualquer um pensaria: Que condição de obtenção é essa? Ficou maluco?, e eu mesmo sinto essa indignação em tempo real aqui.

Mas, cara, a equipe de desenvolvimento de DunMagi adora fazer esse tipo de coisa. É maldade pura, ou melhor, eles têm a alma podre──── bem, para nós, jogadores, isso até faz parte do charme, mas, deixando isso de lado, a condição de obtenção da Laevateinn é masoquista demais.

Ter que atravessar de primeira um mapa infernal de “Amida-kuji” 12x11, com inimigos aparecendo e em nível inicial dentro de um limite de tempo, só para conseguir uma “medida de salvamento”... eu acho que isso não salva ninguém, sério.

Dito isso, ou talvez por causa disso, a alegria de ter conseguido esse item é algo fora do comum... não, é incrível! Eu estou com a Laevateinn nas mãos! A combinação de um sub-boss de tutorial com uma arma lendária super rara, se olhada objetivamente, não passa de “dar pérolas aos porcos”, mas ainda assim, a empolgação é real.

Caramba, estou feliz demais. Essa sensação de conquista e esse sentimento de “transgressão” ao conseguir uma arma lendária logo no início da história... é bom demais, fala sério!

(…… É linda.)

Soltei um suspiro enquanto admirava minha nova adaga.

A lâmina de cerca de quarenta centímetros guardada na bainha era extremamente bela, mesmo sem ter nenhum ornamento luxuoso.

O corpo da lâmina brilhava em branco, e o cabo tinha uma textura estranha que unia flexibilidade e robustez. O material da bainha provavelmente é Pedra Espiritual; aquela cor de pérola branca imaculada é muito elegante e agrada aos olhos.

(Com isso, finalmente posso lutar contra aquele cara.)

Superei o desafio infernal do “Warp Amida” e consegui a arma lendária.

Agora, se eu conseguir derrotar o guardião que protege o trono do Ura Boss...

 

Dungeon Kuon Rinne · Área 12

 

Para alguém como Shimizu Kyouichirou, um “boss lixo” de tutorial, a regra desta Dungeon de retornar o nível de combate ao estado inicial era, na verdade, um vento a favor.

Ter que lutar no estado inicial significava que, por outro lado, esta Dungeon era algo onde se “podia lutar mesmo no nível inicial”.

Além disso, agora eu tenho a Laevateinn.

A Laevateinn, uma arma lendária e raríssima, é uma espécie de medida de salvamento com uma habilidade especial que reduz drasticamente a dificuldade desta Dungeon.

Somando o conhecimento de jogo que eu já tinha e esse item apelão, o “eu” atual não era mais uma “pérola aos porcos”, mas sim um “demônio com porrete de ferro”. Mesmo que meus atributos fossem de um lixo equivalente a um sub-boss de tutorial, com tudo isso reunido, vencer o “Guardião” deveria ser moleza... ou assim eu pensava.

 

Viiiiiiiiiiiiiiii!

 

─── Ou melhor, era o que eu queria acreditar.

 

Área 12, o andar final que leva aos aposentos do Ura Boss.

Em uma sala com chão de mármore e vitrais que retratavam anjos de belas aparências — um ambiente que poderia até ser chamado de solene — erguia-se uma “aberração” colossal e totalmente fora de lugar.

Era um pássaro branco. Sobre a cabeça, carregava uma coroa gigante. Tinha asas imponentes, mas eram apenas enfeite. Aquele bicho não voa. E não precisa voar para ser absurdamente forte.

............ Se possível, eu não queria ter te encontrado, Vidofnir.

Ao pronunciar esse nome, o galo de um branco puro soltou novamente um cacarejo estridente enquanto começava a movimentar seu corpo de mais de cinco metros com um gingado intimidador.

Naquele instante, senti do fundo do meu coração uma vontade imensa de fugir.

Não tem como um humano com a altura média de um estudante do ginasial vencer um monstro galináceo de cinco metros.

Afinal, eu sou o Shimizu Kyouichirou. Sou apenas um reencarnado que chegou aqui ontem. “Demônio com porrete de ferro”? Não me faça rir. No fim das contas, eu segurando a Laevateinn não passa de “pérolas aos porcos”, merda!

Quero fugir. Quero dar o fora daqui agora mesmo. Não importa se é um inimigo poderoso inevitável ou não. Eu não quero morrer, eu quero viver! Já consegui a arma lendária raríssima, já está bom, não? ... Ah, só surgem motivos para bater em retirada. Seria mais fácil se eu simplesmente────

“Puxa, não adianta me bajular tanto, só vou te dar mais uma porção, viu?”

 

Subitamente, me lembrei da conversa de ontem com a Nee-san.

Nee-san. Gentil, mestre na cozinha e um pouco gulosa... a minha pessoa mais importante.

Não sei o porquê, mas ao visualizar a figura dela na minha mente, sentimentos fortes e profundos que, transcendem o simples fato de ela ser minha waifufavorita, brotam infinitamente de dentro de mim.

(…… Ah, entendi. Então era isso.)

Por mais que eu fosse um otaku fanático por DunMagi, eu achava estranho estar arriscando a vida desse jeito por uma personagem que acabei de conhecer ontem.

Mas, se esse sentimento não pertence apenas a mim...

Merda! Eu vou fazer isso, Kyouichirou!

Inspirei profundamente, abandonei a opção de “fugir” e avancei.

O medo existe. Eu conheço o meu lugar. Mas, mesmo assim, alguém dentro de mim está gritando com todas as forças que quer salvar a Nee-san.

A distância para a aberração galinácea é de aproximadamente vinte metros. Se continuar assim, colidiremos em poucos segundos.

(…… Pensando logicamente, a única opção dele seria um ataque físico bruto. Mas...)

Lembrei do padrão de comportamento do Vidofnir na época do jogo.

A técnica que ele desfere como primeiro movimento não é um ataque físico, mas sim...

Viiiiiiiiiiiiiiii!

No instante em que o cacarejo estridente ecoou pelo recinto, uma luz espiritual de um branco puro explodiu de todo o corpo daquele galo maldito.

Oukun(Pressão) no(da) Juuatsu(Coroa) ──── O efeito é a violação permanente do poder espiritual armazenado (algo como a quantidade de mana(MP) em outros jogos).

Entendo, é uma técnica terrível. Se você já foi rebaixado ao nível inicial e ainda tem seu último recurso, a energia espiritual, drenada, normalmente não restaria mais nada a fazer.

Mas acontece que eu já era um lixo total desde o começo e, no momento, nem sequer possuo um espírito.

Portanto, na prática...

ISSO NÃO ME CAUSA DANO NENHUM, SABIA?!

Junto com uma exibição de “não surtiu efeito” vinda do fundo da alma, desferi um corte que partiu a perna direita da aberração galinácea ao meio.

A habilidade inerente da Laevateinn, Inga(Corte) Setsudan(da Causalidade)  ──── O efeito é extremamente cruel: “Se o objeto que tocar a lâmina desta adaga for classificado como uma forma de vida inteligente, ele será obrigatoriamente cortado”.

A lâmina divina branca, que na época do jogo era representada como “dano fixo que ignora defesa”, dançava, dançava e dançava acompanhando o movimento das minhas mãos.

Cortei a perna, rasguei o tronco, perfurei a garganta e decepei as asas.

Não dei a mínima chance de contra-ataque. No jogo, DunMagi era um RPG de turnos, mas aqui, infelizmente, é o mundo real. É um jogo lixo onde o fraco se contorce no chão e o forte continua sendo o dono do turno o tempo todo.

Cortar. Retalhar. Serrar. Esfaquear, KILL, KILL. Simplesmente matar.

Não pensei no depois.

Se eu não liquidasse esse bicho aqui e agora, com certeza continuaríamos sendo perdedores pelo resto da vida.

Vou vencer, vou vencer custe o que custar. Vou te derrotar, encontrar o Ura Boss e então eu... eu... nós...

 

VAMOS, COM CERTEZA, SALVAR A NEE-SAN────!!

 

 

Quando recobrei a consciência, o Vidofnir já estava morto.

Enquanto nutria um misto de alívio e profunda emoção ao ver a figura do galo gigante se transformando em partículas de luz e desaparecendo, caminhei em direção à quarta porta a partir da esquerda.

(Agora, Ura Boss-san. Vamos ao nosso encontro, que tal?)

 

Não havia mais ninguém para me atrapalhar.

Tudo o que restava era abrir a porta.

 

E então, estendi a mão para a última porta e────



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