Capítulo 2: Indo ao encontro do Boss Oculto mais forte
◆ Residência Shimizu · Quarto de Kyouichirou
Depois
de fazer Nee-san dormir, me tranquei no meu quarto e me perdi em pensamentos,
buscando algum plano viável.
Se eu
continuar deixando o tempo passar inutilmente, nós dois acabaremos morrendo
como meros degraus para o protagonista e personagens feitos apenas para gerar uma
comoção barata.
Isso é
inaceitável. Rejeito terminantemente. Merda.
「Eu vou salvar a Nee-san, custe
o que custar.」
Enquanto
forçava meu cérebro e minhas mãos, ia anotando no caderno os métodos para
salvar a Nee-san.
A
primeira estratégia que me veio à cabeça foi pedir para aquele habilidoso
“especialista em maldições” que aparece no jogo para quebrar a maldição dela.
Felizmente,
agora estamos três anos antes do início da história principal.
Os sintomas dela ainda parecem leves, então achei que era uma
excelente ideia, mas...
『Meu nome é Belphegi. Sou um
mestre de quebra de maldições errante. O motivo de eu estar aqui é o mesmo de
qualquer outro aventureiro. Prazer em conhecê-lo.』
Lembrando
bem, aquele cara só vai aparecer por aqui daqui a uns três anos.
Não dá. Assim não vai dar tempo de jeito nenhum.
A
Santa que possui o cheat de cura também só aparece no início do jogo, então
depender dos personagens da história original parece difícil.
... Se
depender de personagens não dá, que tal itens?
Se a progressão da maldição ainda estiver no estágio
inicial, ela deve poder ser curada completamente com o poder de um Elixir
Se
este é o mundo de DunMagi, o Elixir deve estar adormecido naquela Dungeon
específica. Como eu conheço as informações de estratégia do jogo, conseguir o
item é uma possibilidade real.
「(......Pensando
bem, eu sou o Kyouichirou, né?)」
Tinha
esquecido completamente que eu não sou o protagonista apelão, que já começa com
um espírito poderoso e habilidades de monstro, mas sim um sub-boss lixo de
tutorial. Pois é.
Sem
aliados. Sem talento. E, no estágio atual, nem sequer possuo um espírito.
Tô
ferrado.
「... Vou tentar mudar a minha
linha de raciocínio.」
Vou
analisar a situação atual não pela visão de um game de lindas garotas, mas sim
pela perspectiva de alguém que ama web novels.
Geralmente,
o protagonista de um Isekai de reencarnação possui alguma habilidade apelonaCheat.
Seja
uma benção recebida de um deus, ou uma quantidade colossal de poder mágico mana
adquirida através de treinamento desde a infância — varia muito.
O
talento “externo”. Esse é um dos temperos indispensáveis em histórias de
reencarnação e um dos grandes momentos do início da trama.
Então,
vamos revisar mais uma vez o meu próprio status.
Shimizu
Kyouichirou. Habilidades medíocres. Desempenho pífio. Um cara convencido que,
além de não ter aliados, provavelmente não tem nem amigos. O único ponto
positivo é que a Nee-san é linda e um anjo. Fim.
...... É patético demais, mesmo sendo sobre mim, mas essa é
a minha realidade agora.
Fraco.
Esmagadoramente fraco. Sou um lixo tão grande que até um Chihuahua por aí deve
ser mais útil.
O que
um representante de personagens fracos como eu deve fazer para ficar forte de
uma vez só?
「(No fim, acho que só resta
depender do poder dos espíritos mesmo, huuh)」
Espíritos.
O elemento de crescimento mais comum em DunMagi.
Neste
mundo, os humanos podem exercer poderes sobrenaturais ao tomarem emprestado a
força dos espíritos. Portanto, se for para atacar, o primeiro passo deve ser
por aqui. Mas o problema é...
「(Quem eu devo mirar?)」
O
número de espíritos que aparecem em DunMagi, apenas no jogo base, é de
aproximadamente centenas de tipos. Encontrar um espírito que combine com o meu
objetivo me baseando apenas na memória é uma tarefa extremamente difícil.
Quais
são as condições de obtenção? Qual o nível de força? Onde está o objetivo que
devo estabelecer?
Não
basta ser forte, e não basta apenas conseguir usar.
O que eu preciso é de um espírito que se alinhe ao meu
objetivo. Se eu não definir esse ponto, não tem conversa.
É uma
tarefa árdua, mas pense como se sua vida dependesse disso, Kyouichirou. A única
coisa que posso fazer agora é colocar a cabeça para funcionar. Não relaxe. Não
aceite menos. Não desista.
Pense,
pense, pense!
◆
E
assim, depois de muito, muito sofrimento mental, escrevi as seguintes frases no
meu caderno:
『O que é necessário: A
existência de um espírito com força suficiente para completar a Dungeon onde se
obtém o Elixir. Se for um espírito de nível capaz de realizar a quebra de
maldição da Nee-san, melhor ainda.Como premissa absoluta, deve incluir a
facilidade de obtenção, sendo algo que eu consiga adquirir mesmo no meu estado
atual.』
Ao
terminar de escrever e reler, percebi que só escrevi coisas convenientes
demais.
Um
espírito ultra forte e, de quebra, fácil de conseguir... Se existisse algo tão
conveniente assim, seria literalmente um Cheat.
「(Cheat. Trapaça. Ótimo,
perfeito. Se for para salvar a vida da Nee-san, esse tipo de xingamento não
vale nem um peido.)」
Mas
uma existência tão conveniente não estaria por aí dando sopa assim tão fácil,
né?
Ah,
droga! Tanto faz se é cheat ou qualquer outra coisa, apenas salve a vida da
Nee-san. Eu imploro—!
「... Não, espera aí.」
Foi
então que eu percebi algo de repente.
Nee-san.
Sim, a Nee-san.
Em
DunMagi, a Nee-san inevitavelmente morre.
Seja sendo velada pelo protagonista e seus amigos ou
morrendo na mais absoluta solidão, a morte de Shimizu Fumika era algo que nunca
se revertia. Era exatamente por isso que não havia salvação para ela.
Por
que razões a desenvolvedora quis submeter a Nee-san a esse destino? É de
revirar o estômago, mas consigo pensar em dois motivos principais.
O
primeiro é para dar impacto à história.
A morte da Nee-san exerce uma influência gigantesca na
mentalidade que o protagonista e os outros adotam a partir dali.
Após
experienciarem o evento da Shimizu Fumika, os protagonistas relembram a Nee-san
em cada oportunidade, lamentando sua perda e fortalecendo sua determinação para
lutar.
── Para que não haja mais vítimas como ela.
── Fumika-san, por favor, olhe por nós aí do céu.
Eles
diziam coisas muito nobres, mas, trocando em miúdos, a Nee-san recebeu o papel
de morrer para servir de escada para o amadurecimento emocional dos
protagonistas.
Esse é
o primeiro motivo da morte dela.
Na época, eu mesmo joguei essa parte em prantos, mas, do
ponto de vista de quem é o “envolvido”, isso não passa de uma injustiça sem
tamanho.
Morte
para fazer o protagonista crescer? Por que diabos a Nee-san tem que ser
sacrificada por um motivo lixo desses?
... Mas tudo bem. O importante é o que vem a seguir.
Não há
dúvida de que a morte da Nee-san tinha um significado narrativo para o
crescimento deles.
Contudo, não era apenas isso.
A
morte da Shimizu Fumika também era retratada como algo que possuía um
significado prático na progressão do jogo.
No estágio final do evento, deitada em seu leito de morte,
a Nee-san usa suas últimas forças para confiar um certo item ao protagonista.
『Por favor, ofereça flores a
Deus. Eu... sinto que não conseguirei mais fazer isso.』
Essa era a chave do pátio de um antigo santuário, agora
caído no esquecimento, e o protagonista, após a morte da Nee-san, oferece as
flores no local indicado.
É uma
cena bonita, né? Eu também me emocionei na época. Mas agora, só consigo pensar
que é a pior direção narrativa do mundo!
Acontece
que, sobre esse santuário, um fato absurdo é revelado mais tarde. No fundo do
pátio desse santuário abandonado e sem fiéis, adivinhem só: o Boss secreto
estava selado lá.
Esse
fato só é descoberto após derrotar o Last Boss, no pós-jogo clear after.
Existe um item chamado 《Manuscrito
Antigo da Superação》, que
apenas os jogadores que completaram todas as Dungeons e dominaram todos os
elementos de completismo conseguem obter. Ao ler o que está escrito ali naquele
pátio específico... Ora, que surpresa! O Boss secreto que estava dormindo ali
aparece. E foram felizes para sempre.
...
Não, vocês são demônios! Não tem nada de feliz nisso! Por que diabos vocês
estão usando a lembrança da Nee-san para lutar contra um Boss secreto? E vocês,
desenvolvedores, não transformem a morte da minha irmã na condição de
desbloqueio de um Boss secreto! Vão para o inferno!
「(Mas... que ódio, apesar de
tudo, eu posso usar essa configuração a meu favor.)」
Sim,
esse desenrolar cruel de dar náuseas, se visto pelo avesso, é uma brecha onde
posso me infiltrar.
Afinal,
as condições prévias para gerar o evento do Boss secreto, se formos direto ao
ponto, são apenas duas:
①Obter
a chave do pátio do santuário.
②Recitar
o conteúdo do 《Manuscrito
Antigo da Superação》.
Percebeu?
Não existe a obrigação direta de derrotar o Last Boss, nem a necessidade de
completar todas as Dungeons.
E
essas duas condições, eu consigo cumprir facilmente.
Basta pegar emprestada a chave com a Nee-san, que é a dona
original, e o conteúdo do manuscrito está gravado a fogo no meu cérebro de
gamer de galge, então o item físico é desnecessário.
O
problema é o que vem depois, mas... tudo bem, vai dar certo. Se eu
apostar todo o conhecimento que acumulei no jogo e uma ou duas das minhas
vidas, teoricamente deve ser possível.
「(Eu vou fazer isso. Vou
conquistar você de qualquer jeito, Boss
secreto-sama)」
Eu tinha plena consciência de que isso era uma loucura.
No entanto, decidi que iria encontrar o Boss secreto
porque, se fosse 『Ela』, acreditei que poderia dar um
jeito na maldição da Nee-san.
Nem eu
mesmo sei como consegui ficar tão desesperado a esse ponto. Mas, como um fato
concreto, naquela noite eu virei a madrugada acordado. Passei a noite inteira
arquitetando a estratégia de conquista contra o Boss secreto.
◆
No dia seguinte, após pegar emprestada a chave do pátio com
a Nee-san, segui imediatamente para o santuário enquanto esfregava meus olhos
sonolentos.
Graças
ao aplicativo de mapas do smartphone e ao guia que a Nee-san preparou para mim,
consegui chegar ao local de forma surpreendentemente tranquila.
「(Mas pensar que chegaria o dia
em que eu percorreria a cidade de ‘Ouka’ de bicicleta... eu nunca imaginei
isso.)」
Caminhos
onde as pétalas de cerejeira bailam. Edifícios modernos enfileirados. À
primeira vista, não deixa de parecer uma zona urbana, mas há árvores
gigantescas do tamanho de arranha-céus espalhadas por todo lado, e eu realmente
não canso de olhar.
Árvores
de cerejeira se erguendo entre os prédios quadrados. Não, está errado. Não é
que existam árvores entre os prédios, mas sim que os quarteirões da cidade
foram construídos tendo as cerejeiras como centro.
E não
são apenas uma ou duas. Só de olhar por cima, dá para ver mais de cem árvores
gigantescas e os edifícios de aço que as rodeiam.
Embora
seja uma paisagem distorcida demais para ser chamada de “harmonia com a
natureza”, ainda assim, a chuva de pétalas de cerejeira que caía sobre a cidade
era linda demais...
「(Eu realmente vim para o mundo
de DunMagi, eh?)」
Enquanto
saboreava esse sentimento profundamente, acabei chegando ao meu destino sem
perceber.
Um
antigo santuário onde a fé já havia se extinguido.
Antigamente, era um local administrado pelos ancestrais
distantes da família Shimizu, mas hoje não há ninguém ocupando cargos
sacerdotais. O lugar está tão desolado que a Nee-san, que recebeu a chave da
nossa mãe, vem apenas periodicamente para fazer uma limpeza.
É,
ninguém pensaria que um Boss secreto estaria num lugar desses.
Usando
a chave que recebi da Nee-san, tentei abrir a porta que levava ao pátio
interno.
Ouvi
um clique satisfatório e a tranca se soltou.
「(Vamos lá.)」
Retirei a lanterna de dentro da mochila e segui em frente,
atravessando o pátio mal iluminado do santuário.
O
clima era sombrio, como se algo estivesse prestes a aparecer a qualquer
momento, mas cheguei ao meu destino sem dar de cara com nada em particular.
「(É aqui.)」
A luz
da lanterna iluminou o centro da escuridão.
O que
repousava ali era um Goshintai.
Em meio ao amplo espaço, havia apenas uma estátua budista
de uma jovem.
Sentada
silenciosamente na postura Kekkafuza) sua figura era belíssima e, ao
mesmo tempo, transmitia uma sensação de fragilidade.
Uma
única estátua divina consagrada em um antigo santuário onde a fé se extinguiu.
Se eu recitar as palavras do manuscrito diante desta
imagem, o caminho para o Ura Boss deve se abrir, mas...
「Bom, vamos tentar.」
Recitei
as palavras do manuscrito que estavam adormecidas em minha memória.
「Vida
celestial que tudo ilumina
Cortina do tempo sem frestas de luz
O que se perdeu e o que foi morto já não existem
Pois então, guie-nos até o fim da causalidade」
Após
terminar de declamar esse poema digno de um Chuunibyou, que felizmente não era
longo, engoli em seco e observei atentamente a reação da estátua.
Provavelmente
está certo. Ou melhor, se não estiver, tudo vai por água abaixo.
「(Por favor, Ura Boss. Responda
à minha voz.)」
Eu
rezei. Rezei fervorosamente.
É patético demais chegar num Isekai e a primeira coisa que
eu faço é apelar para a “ajuda divina”, né?
Mas,
no momento, é tudo o que eu tenho.
O Kyouichirou não é forte o suficiente para viver com o
luxo de se prender a ética ou virtudes morais.
「Vida celestial que tudo
ilumina
Cortina
do tempo sem frestas de luz
O que
se perdeu e o que foi morto já não existem
Pois
então, guie-nos até o fim da causalidade!
Vida celestial que tudo
ilumina
Cortina
do tempo sem frestas de luz
O que
se perdeu e o que foi morto já não existem
Pois
então, guie-nos até o fim da causalidade!
Vida celestial que tudo
ilumina
Cortina
do tempo sem frestas de luz
O que
se perdeu e o que foi morto já não existem
Pois
então, guie-nos até o fim da causalidade……!」
Continuei
repetindo as palavras do manuscrito como quem se agarra a uma última esperança.
Apareça, o espírito mais forte de todos. Nós precisamos do
seu poder.
Por favor, salve a Nee-san (e, já que está aí, me salve
também)!
『Protocolo
de ativação confirmado / Biometria liberada / DNA de Shimizu detectado /
Reescrita da textura de fase concluída / Iniciando transição para o domínio
quadridimensional agora.』
Uma
voz inorgânica ecoou em meio à escuridão. Ao mesmo tempo, a estátua divina
diante dos meus olhos começou a emitir uma luz ofuscante.
Ah, é
isso. Era por isso que eu estava esperando.
O
brilho que invade o santuário sem luz, as palavras eletrônicas desprovidas de
emoção. Isso é, sem sombra de dúvida───
「O evento do Ura Boss!」
No
centro do santuário envolto por uma luz branca, fiz um “guts pose” frenético
sozinho. E então───
◆
Cidade-Dungeon Ouka ·
Dungeon Nº ???? 『Kuon Rinne』
Quando
despertei, uma paisagem familiar se estendia diante de mim.
Teto branco, chão de mármore. No centro, quatro escadarias
em espiral gigantescas. No andar superior, alguns patamares e portas e... Ah,
lá estava ele, o “Relógio Gigante”.
Uma
mistura de profunda emoção, uma empolgação estranha e uma convicção brilhante
começaram a dançar de alegria dentro da minha cabeça.
「(──── É a Dungeon do Ura
Boss!)」
Na
época do jogo, visitei este lugar centenas de vezes. Seria impossível esquecer.
Aqui é, sem dúvida, a Dungeon do Ura Boss.
Caramba, eu sou só um sub-boss de tutorial e acabei entrando
na Dungeon do mestre supremo. Que discrepância. É tão fora de lugar que chega a
ser emocionante.
「(... Mas que burro! Não é hora
de ficar sentimental!)」
No
centro do segundo andar dessa estrutura com pé-direito alto, está instalado um
relógio de parede colossal. Meus olhos captaram exatamente o momento em que o
ponteiro dos minutos, que estava sobreposto ao das horas às doze em ponto,
começou a retroceder lentamente em direção às onze.
O
ponteiro dos minutos movendo-se no sentido anti-horário. O ponteiro das horas
estático no topo, sem avançar. Se seguir as especificações da época do jogo,
quando o “Senhor Ponteiro dos Minutos” se reencontrar com a “Senhorita Ponteiro
das Horas” estática — ou seja, em menos de uma hora — se eu não chegar a ‘determinado
lugar’, ficarei impossibilitado de progredir.
「(Minha chance é apenas esta.
Se eu vacilar aqui, provavelmente nunca mais conseguirei encontrar o Ura Boss.)」
Enquanto
acalmava desesperadamente meu corpo que tremia de tensão e ansiedade, corri com
toda a velocidade pela escadaria em espiral da direita.
「(A resposta certa do Mapa 1 é
a porta no fundo à direita do terceiro andar!)」
Movendo
o corpo conforme a navegação na minha mente, cheguei ao destino em menos de um
minuto. Girei a maçaneta da porta de cor branca alva e entrei no próximo
estágio.
A Dungeon
do Ura Boss é o que chamamos de Dungeon de “formato warp”.
Sabe aquele tipo de fase em jogos onde, “se você não seguir
a rota correta, é mandado de volta ao ponto inicial”? Pois é, e o que torna
tudo realmente perverso é que, nesta Dungeon, há um total de doze opções de
escolha para cada área.
Além disso, cada uma dessas áreas é dividida em doze
setores (mais a sala do Ura Boss), então imagina o desespero! Ter doze opções
de escolha, onde qualquer rota que não seja a correta te joga para fora, e precisar
acertar esse “Amida-kuji(Jogo de sorte japonês com linhas, usado aqui como
metáfora para as rotas aleatórias)” infernal doze vezes seguidas em menos
de uma hora... é, no mínimo, um jogo impossível.
── E o pior: aqui também aparecem
“inimigos”.
「(... Estão ali. Os guardiões.)」
Após
seguir a rota correta e entrar na segunda área, o que surgiu diante de mim foi
uma sala estilo galeria de arte, com tapetes vermelhos e paredes brancas, e
cavaleiros de armadura de dois metros de altura, envoltos em trajes brancos
puros.
Eles
patrulhavam seus postos mecanicamente com um som metálico de gashari-gashari.
Obviamente, se me vissem, seria batalha na certa.
Se um
inimigo comum da Dungeon do Ura Boss lutar contra o sub-boss do tutorial, é
claro quem seria o perdedor.
Considerando
as especificações desta Dungeon, talvez eu até conseguisse lutar um pouco, mas,
no fim das contas, eu sou o Kyouichirou. Não ganho nada sendo ganancioso com um
personagem lixo. O plano é passar despercebido e seguir no “No Combat”.
「(A rota correta é esquerda,
direita, reto pelo centro e depois duas viradas consecutivas à direita na porta
azul. E o guarda daqui vira para trás a cada três passos, então preciso
cronometrar o tempo... Certo, agora!)」
Controlei
a respiração e disparei em um sprint total.
Não
sei até onde os movimentos de esquiva contra inimigos que aprendi na época do
jogo vão funcionar, mas agora só me resta rezar para que os movimentos deles
sigam o manual e seguir em frente.
Uma
tensão percorria todo o meu corpo. O suor escorria como uma cachoeira. Cada vez
que passava perto deles, meu coração martelava tão forte que eu sentia que ia
morrer ali mesmo.
「(... Avistei, a segunda
resposta.)」
Com as
mãos ensopadas de suor, puxei a maçaneta da porta azul e avancei para a próxima
área.
◆
E então, usei todo o conhecimento de jogo que possuía para
avançar na “conquista” da Dungeon do Ura Boss.
A
estrutura dos mapas, o comportamento dos symbol enemies e os gimmicks
específicos preparados para cada área. Tudo ali era extremamente complexo,
penoso e, além disso, absurdamente maldoso.
Sério,
sou eternamente grato ao meu conhecimento de gamer. Se não fosse por isso (ou
se eu tivesse apenas um conhecimento superficial), eu estaria andando de um
lado para o outro na segunda área até o tempo esgotar.
Mas
não foi o que aconteceu.
「Consegui! Eu consegui, droga!」
Enquanto
limpava com um lenço o rosto todo bagunçado de suor e lágrimas, fixei o olhar
no baú de tesouro pintado de branco que repousava diante de mim.
Área
11. Um passo antes da área final.
Encontrado
num canto de uma paisagem mística coberta por vitrais coloridos, esse baú do
tamanho de um micro-ondas era a razão exata de eu ter me esforçado tanto até
aqui.
「(O relógio do smartphone
marca... ok, 12h45. Ainda tenho mais de dez minutos de folga até o tempo
limite. Deu tempo, consegui chegar até aqui.)」
Baús
de tesouro. Num jogo como DunMagi, onde a estrutura das Dungeons é basicamente
de geração aleatória (do tipo em que o mapa muda toda vez que você entra), um
baú que “certeza que está lá” é algo extremamente raro.
Ainda
por cima, estamos na Dungeon do Ura Boss. Naturalmente, o item lá dentro é algo
absurdamente poderoso e────
「ISSO!」
E o
“objeto” estava devidamente lá dentro do baú.
『Houken Laevateinn』. Um item raríssimo e lendário
que só aparece na primeiríssima tentativa de invasão da Dungeon do Ura Boss.
Nesta
Dungeon sádica que impõe a regra absurda de 【reduzir temporariamente a força dos
membros da party ao nível inicial】, obter a 『Laevateinn』 era, sem dúvida, o divisor de águas.
Afinal,
esta adaga nunca mais dropa se você não a pegar na primeira vez.
.......
Un, eu entendo o sentimento. Qualquer um pensaria: 「Que condição de obtenção é
essa? Ficou maluco?」, e eu
mesmo sinto essa indignação em tempo real aqui.
Mas, cara, a equipe de desenvolvimento de DunMagi adora
fazer esse tipo de coisa. É maldade pura, ou melhor, eles têm a alma podre────
bem, para nós, jogadores, isso até faz parte do charme, mas, deixando isso de
lado, a condição de obtenção da 『Laevateinn』 é masoquista demais.
Ter
que atravessar de primeira um mapa infernal de “Amida-kuji” 12x11, com inimigos
aparecendo e em nível inicial dentro de um limite de tempo, só para conseguir
uma “medida de salvamento”... eu acho que isso não salva ninguém, sério.
Dito
isso, ou talvez por causa disso, a alegria de ter conseguido esse item é algo
fora do comum... não, é incrível! Eu estou com a 『Laevateinn』 nas mãos! A combinação de um sub-boss de
tutorial com uma arma lendária super rara, se olhada objetivamente, não passa
de “dar pérolas aos porcos”, mas ainda assim, a empolgação é real.
Caramba,
estou feliz demais. Essa sensação de conquista e esse sentimento de
“transgressão” ao conseguir uma arma lendária logo no início da história... é
bom demais, fala sério!
「(…… É linda.)」
Soltei
um suspiro enquanto admirava minha nova adaga.
A
lâmina de cerca de quarenta centímetros guardada na bainha era extremamente
bela, mesmo sem ter nenhum ornamento luxuoso.
O
corpo da lâmina brilhava em branco, e o cabo tinha uma textura estranha que
unia flexibilidade e robustez. O material da bainha provavelmente é Pedra
Espiritual; aquela cor de pérola branca imaculada é muito elegante e agrada aos
olhos.
「(Com isso, finalmente posso
lutar contra aquele cara.)」
Superei
o desafio infernal do “Warp Amida” e consegui a arma lendária.
Agora, se eu conseguir derrotar o guardião que protege o
trono do Ura Boss...
◆ Dungeon 『Kuon Rinne』 · Área 12
Para
alguém como Shimizu Kyouichirou, um “boss lixo” de tutorial, a regra desta
Dungeon de 【retornar
o nível de combate ao estado inicial】 era, na verdade, um vento a favor.
Ter
que lutar no estado inicial significava que, por outro lado, esta Dungeon era
algo onde se “podia lutar mesmo no nível inicial”.
Além disso,
agora eu tenho a 『Laevateinn』.
A 『Laevateinn』, uma arma lendária e
raríssima, é uma espécie de medida de salvamento com uma habilidade especial
que reduz drasticamente a dificuldade desta Dungeon.
Somando
o conhecimento de jogo que eu já tinha e esse item apelão, o “eu” atual não era
mais uma “pérola aos porcos”, mas sim um “demônio com porrete de ferro”. Mesmo
que meus atributos fossem de um lixo equivalente a um sub-boss de tutorial, com
tudo isso reunido, vencer o “Guardião” deveria ser moleza... ou assim eu
pensava.
『Viiiiiiiiiiiiiiii!』
─── Ou melhor, era o que eu queria acreditar.
Área
12, o andar final que leva aos aposentos do Ura Boss.
Em uma sala com chão de mármore e vitrais que retratavam
anjos de belas aparências — um ambiente que poderia até ser chamado de solene —
erguia-se uma “aberração” colossal e totalmente fora de lugar.
Era um
pássaro branco. Sobre a cabeça, carregava uma coroa gigante. Tinha asas
imponentes, mas eram apenas enfeite. Aquele bicho não voa. E não precisa voar
para ser absurdamente forte.
「............ Se possível, eu
não queria ter te encontrado, Vidofnir.」
Ao
pronunciar esse nome, o galo de um branco puro soltou novamente um cacarejo
estridente enquanto começava a movimentar seu corpo de mais de cinco metros com
um gingado intimidador.
Naquele
instante, senti do fundo do meu coração uma vontade imensa de fugir.
Não tem como um humano com a altura média de um estudante
do ginasial vencer um monstro galináceo de cinco metros.
Afinal, eu sou o Shimizu Kyouichirou. Sou apenas um reencarnado
que chegou aqui ontem. “Demônio com porrete de ferro”? Não me faça rir. No fim
das contas, eu segurando a 『Laevateinn』 não passa de “pérolas aos
porcos”, merda!
Quero
fugir. Quero dar o fora daqui agora mesmo. Não importa se é um inimigo poderoso
inevitável ou não. Eu não quero morrer, eu quero viver! Já consegui a arma
lendária raríssima, já está bom, não? ... Ah, só surgem motivos para bater em
retirada. Seria mais fácil se eu simplesmente────
“Puxa, não adianta me bajular tanto, só vou te dar mais uma
porção, viu?”
Subitamente,
me lembrei da conversa de ontem com a Nee-san.
Nee-san. Gentil, mestre na cozinha e um pouco gulosa... a
minha pessoa mais importante.
Não
sei o porquê, mas ao visualizar a figura dela na minha mente, sentimentos fortes
e profundos que, transcendem o simples fato de ela ser minha 『waifu』favorita, brotam infinitamente
de dentro de mim.
「(…… Ah, entendi. Então era
isso.)」
Por
mais que eu fosse um otaku fanático por DunMagi, eu achava estranho estar
arriscando a vida desse jeito por uma personagem que acabei de conhecer ontem.
Mas, se esse sentimento não pertence apenas a mim...
「Merda! Eu vou fazer isso,
Kyouichirou!」
Inspirei
profundamente, abandonei a opção de “fugir” e avancei.
O medo existe. Eu conheço o meu lugar. Mas, mesmo assim,
alguém dentro de mim está gritando com todas as forças que quer salvar a
Nee-san.
A
distância para a aberração galinácea é de aproximadamente vinte metros. Se
continuar assim, colidiremos em poucos segundos.
「(…… Pensando logicamente, a
única opção dele seria um ataque físico bruto. Mas...)」
Lembrei
do padrão de comportamento do Vidofnir na época do jogo.
A técnica que ele desfere como primeiro movimento não é um
ataque físico, mas sim...
『Viiiiiiiiiiiiiiii!』
No instante em que o cacarejo estridente ecoou pelo
recinto, uma luz espiritual de um branco puro explodiu de todo o corpo daquele
galo maldito.
《Oukun no Juuatsu》 ──── O efeito é a violação
permanente do poder espiritual armazenado (algo como a quantidade de mana em outros jogos).
Entendo,
é uma técnica terrível. Se você já foi rebaixado ao nível inicial e ainda tem
seu último recurso, a energia espiritual, drenada, normalmente não restaria
mais nada a fazer.
Mas
acontece que eu já era um lixo total desde o começo e, no momento, nem sequer
possuo um espírito.
Portanto,
na prática...
「ISSO NÃO ME CAUSA DANO NENHUM,
SABIA?!」
Junto
com uma exibição de “não surtiu efeito” vinda do fundo da alma, desferi um
corte que partiu a perna direita da aberração galinácea ao meio.
A
habilidade inerente da 『Laevateinn』, 《Inga Setsudan》 ──── O efeito é extremamente cruel: “Se o
objeto que tocar a lâmina desta adaga for classificado como uma forma de vida
inteligente, ele será obrigatoriamente cortado”.
A
lâmina divina branca, que na época do jogo era representada como “dano fixo que
ignora defesa”, dançava, dançava e dançava acompanhando o movimento das minhas
mãos.
Cortei
a perna, rasguei o tronco, perfurei a garganta e decepei as asas.
Não
dei a mínima chance de contra-ataque. No jogo, DunMagi era um RPG de turnos,
mas aqui, infelizmente, é o mundo real. É um jogo lixo onde o fraco se contorce
no chão e o forte continua sendo o dono do turno o tempo todo.
Cortar.
Retalhar. Serrar. Esfaquear, KILL, KILL. Simplesmente matar.
Não
pensei no depois.
Se eu
não liquidasse esse bicho aqui e agora, com certeza continuaríamos sendo
perdedores pelo resto da vida.
Vou
vencer, vou vencer custe o que custar. Vou te derrotar, encontrar o Ura Boss e
então eu... eu... nós...
「VAMOS, COM CERTEZA, SALVAR A
NEE-SAN────!!」
◆
Quando recobrei a consciência, o Vidofnir já estava morto.
Enquanto
nutria um misto de alívio e profunda emoção ao ver a figura do galo gigante se
transformando em partículas de luz e desaparecendo, caminhei em direção à
quarta porta a partir da esquerda.
「(Agora, Ura Boss-san. Vamos ao
nosso encontro, que tal?)」
Não
havia mais ninguém para me atrapalhar.
Tudo o que restava era abrir a porta.
E então, estendi a mão para a última porta e────
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