■ Capítulo 0: A Família Shimizu

 

 

 

◆◆◆ Shimizu Kyouichirou

 

Há uma frase que ficou gravada em meus ouvidos.

Era uma frase que meu Oyaji, quando estava vivo, vivia dizendo para mim e para minha irmã como se fosse um lema: Tenha integridade no coração.

Ouçam bem, vocês! Podem mentir para as pessoas se quiserem! Afinal, vocês não vão conseguir subir na vida sendo apenas honestos sobre tudo! Mas, nunca mintam para os seus verdadeiros sentimentos dentro de vocês!

Meu Oyaji definitivamente não era um santo. Se eu fizesse algo ruim, ele me batia normalmente, e mesmo assim, se ele fizesse a mesma coisa, ele soltava um: Ah, eu posso fazer isso. Ele também se envolveu em problemas com mulheres mais de uma ou duas vezes.

Segundo minha Ofukuro, a maioria dessas vezes foi porque: Elas simplesmente se apaixonaram por conta própria, mas se quer saber a minha opinião, também havia um problema por parte do meu Oyaji que tentava “pagar de bonzão” para todo mundo.

Se acharem frustrante, frustrem-se com todas as suas forças. Se sentirem inveja, sintam tanta inveja a ponto de morrer. Por mais que esses sentimentos sejam feios e sujos, no momento em que vocês conseguirem encará-los de frente, a vitória é de vocês.

Tenham integridade no coração, Fumika. Kyouichirou. Se conseguirem apenas isso, vocês serão capazes de correr até o fim de suas próprias vidas. O Tou-chan garante isso para vocês.

Como esperado, é frustrante, mas provavelmente é porque aquele cara, Shimizu Kyoujirou, era muito legal.

Meu Oyaji era um Aventureiro. Eu me lembro dele contando com orgulho que o trabalho dele era empunhar uma espada enorme e caçar monstros maus.

Mais do que técnica, ele era do tipo que resolvia as coisas na força, e eu me lembro dele pregando frequentemente a importância do treinamento.

Ele tinha uma cara assustadora e era tão treinado que parecia intimidador, por isso era tratado como um gorila entre os companheiros, mas, mesmo assim, ele queria muito ser popular com as mulheres.

Eu tentava pagar de legal dizendo que nunca iria querer me tornar um humano como o meu Oyaji, sabe. Mas eu pensava que queria me tornar um Aventureiro quando crescesse. ……Não é mentira. É verdade.

Estar cercado por muitos companheiros como o meu Oyaji, ser alguém em quem muitas pessoas pudessem confiar, e com isso, quando eu me tornasse adulto um dia, ficar junto de uma pessoa maravilhosa como a minha Ofukuro; era isso que eu sempre admirei desde que era um pirralho.

Em total contraste com esse tipo de Oyaji, minha Ofukuro era uma pessoa muito calma e gentil. Ela estava sempre sorrindo, e por mais cansada que estivesse, ela sempre nos dava atenção.

Ela era uma pessoa que conseguia fazer todas as tarefas domésticas e cuidar das crianças. Especialmente em relação à comida, era uma obra-prima. Não importava o que ela fizesse, tudo era absurdamente delicioso. Nós, irmãos, nunca deixamos sobrar a comida que a Ofukuro preparou, nem uma única vez.

Kyouichirou, proteja a sua Onee-chan, ok?

Ela era muito alegre e, à primeira vista, parecia ser plácida, mas o seu núcleo era mais reto e forte do que o de qualquer um, e quando ela se irritava de vez em quando, era uma pessoa assustadoramente aterrorizante.

Quem a deixava com raiva era, principalmente, o meu Oyaji.

Quando o Oyaji exagerava na raiva comigo, ou quando ele fazia besteira com mulheres, ou quando ele agia de forma imprudente pelos companheiros e se machucava gravemente... nossa, era algo impressionante.

A lembrança com ela que mais me deixou impressão foi na época do Setsubun (Setsubun (節分) é um festival tradicional japonês que ocorre no dia anterior ao início da primavera (geralmente no dia 3 de fevereiro). O nome significa literalmente “divisão das estações”).

Todo ano, na família Shimizu, o meu Oyaji colocava uma máscara de Oni (A figura do Oni (): Tradicionalmente, o pai da família (ou alguém mais velho) veste uma máscara de Oni (um demônio ou ogro do folclore japonês) para representar os maus espíritos. As crianças então jogam os feijões nele para “expulsá-lo”.) para fazer o papel do Oni e nós fazíamos o Mamemaki(Mamemaki (豆まき): É a tradição de jogar feijões (geralmente grãos de soja torrados). O objetivo é purificar a casa, afastando os maus espíritos do ano anterior e atraindo boa sorte para o ano que se inicia.), mas naquele ano, por causa de um trabalho inadiável, o Oyaji não pôde voltar para casa. Enquanto eu e minha Neesan estávamos nos sentindo solitários pensando: “Este ano não vai ter Mamemaki, né”, um Oni gritando Gaoー」 com uma voz adorável apareceu na nossa frente.

É o Oni-san. Punição de cócegas para as crianças másー」

Vou comer vocêsー」

Sabe, não combinava nem um pouco. A voz que dava para ouvir de dentro daquela máscara barata de vinil era da gentil Kaasan de sempre; não tinha nem impacto nem imponência, era apenas a Kaasan de avental, usando uma máscara de Oni, correndo atrás de nós com passos ajustados ao fôlego das crianças.

Aquela figura era tão engraçada que, eu e a Neesan jogamos feijões com toda a força na Kaasan Oni enquanto ríamos de doer a barriga.

Oni para fora, Fuku para dentro.(O Canto: Enquanto jogam os feijões, as pessoas gritam “Oni wa soto! Fuku wa uchi!” (鬼は外!福は内!). É exatamente a frase que o protagonista fala na novel: “Oni para fora, Fuku (Felicidade/Sorte) para dentro”.)

Toda vez que os feijões a atingiam, a Kaasan usando a máscara de Oni gritava Fui derrotada! com uma voz sussurrada, enquanto nos entregava saquinhos com doces.

Foi tão engraçado e divertido que foi um tempo maravilhoso, ao ponto de que, até hoje, às vezes eu me lembro e acabo rindo.

Ela foi a melhor mãe. Sinto do fundo do meu coração que foi bom ter nascido como filho dessa pessoa.

Não éramos particularmente ricos, mas tendo o Oyaji, a Ofukuro e a Neesan, só por estarmos os quatro sorrindo juntos, apenas isso já era a felicidade.

Tendo Shimizu Kyoujirou como pai, nascido como filho de Shimizu Madoka, e criado como irmão mais novo de Shimizu Fumika, Shimizu Kyouichirou era a criança mais feliz do mundo.

Sim, com certeza. Até aquele momento, sem dúvida.

 

 

Parece que foi um acidente de desabamento.

Durante uma expedição para “Kanagawa”, conhecida como a cidade produtora de Dungeons que rivaliza com “Ouka”, o Oyaji e os outros morreram.

Como resultado de uma combinação de um terremoto colossal, uma grande tempestade, um ato criminoso humano e o envolvimento de algo sobrenatural que não se sabe se é mentira ou verdade sobrepostos várias vezes, uma certa instalação de Dungeon em “Kanagawa” desmoronou. E, por azar naquele momento, o Oyaji e a Ofukuro, que estavam nos andares subterrâneos da instalação, foram esmagados sob o prédio junto com os seus companheiros de Party, terminando assim as suas vidas.

Fumika, Kyouichirou. Escutem bem o que a Ayaka-san disser e sejam boas crianças, ok?

Desculpem, Fumi-chan, Kyou-kun. Parece que uma pessoa que nos ajudou muito no passado está em grandes apuros, e a Kaasan também precisa correr para o local como uma Healer』」

Dizem que ela havia se aposentado da linha de frente depois que nós nascemos, mas a Kaasan já foi a parceira do Tousan, uma notória Healer que correu por inúmeras Dungeons. Eu ainda me lembro disso.

Logo antes da partida, o Tousan e a Kaasan, olhando com rostos preocupados para nós que choramingávamos pedindo para não irem, disseram com certeza o seguinte.

Está tudo bem. O Tou-chan e a Kaa-chan com certeza vão voltar para vocês

Nós voltamos logo, ok? No aniversário do Kyou-kun, vamos todos comemorar juntos em família

No entanto, essa promessa não foi cumprida.

O Tousan não voltou, e a Kaasan não pôde comemorar o meu aniversário.

No meu aniversário de nove anos, éramos apenas eu e a Neesan, completamente sozinhos.

 

 

Depois que os dois se foram, tudo mudou.

A nossa casa, que devia estar cheia de felicidade, acabou ficando apenas com a Neesan e eu, tornando-se absurdamente espaçosa. Esse espaço era o espaço da ausência do Oyaji e da Ofukuro. Era um espaço apenas solitário, o tamanho de um buraco vazio que se abriu em nossos corações.

No primeiro mês, nós dois choramos o tempo todo. Quase não tenho lembranças da época do velório ou do funeral. Estávamos desesperados derramando lágrimas, dando tudo de nós apenas para fugir da realidade achando que aquilo com certeza era uma mentira, e não tínhamos a menor condição de nos acalmarmos para engolir a situação.

Para nós que estávamos assim, a tia materna, Ayaka-obasan, foi muito gentil conosco.

Para nós, cujos Jiichan e Baachan já haviam morrido há muito tempo, ela era a nossa única tábua de salvação.

Não se preocupem com nada, seus pirralhos. Esta casa que a Nee-san e o Kyoujirou deixaram, eu vou proteger não importa o que custe

O quanto as palavras dela naquele momento foram reconfortantes?

Para nós que estávamos desanimados e com medo de tudo, achando que talvez não pudéssemos mais ficar naquela casa, a Ayaka-obasan gentilmente segurou nossas mãos e disse: Vai ficar tudo bem.

Chorem bastante, e entristeçam-se com toda a força. Podem olhar para frente só depois disso

Mesmo olhando para trás agora, eu tiro o chapéu para ela. Naquela época, ela já tinha sido encarregada de uma grande empresa de comércio, estando em uma posição onde tinha a vida de muitos funcionários sob sua responsabilidade, mas mesmo assim, ela corria até nós todos os dias e criava tempo para ficarmos os três juntos.

Tanto os procedimentos na prefeitura, quanto as inúmeras burocracias necessárias para nós dois, irmãos, vivermos nesta sociedade, a Obasan nos acompanhou em tudo, tudo mesmo.

Quando ela tinha compromissos inadiáveis, enviava uma ajudante de confiança, garantindo acima de tudo que eu e a Neesan não passássemos por perigos, nos protegendo o tempo todo.

Por isso, pudemos chorar com tranquilidade. Pudemos lamentar a morte dos dois e mergulhar nas memórias dos tempos felizes.

Kyou-kun. A Onee-chan, sabe. Está pensando em tentar ir para a escola

No entanto, não podíamos ficar assim para sempre. Por mais que amássemos as memórias dos dias que se foram, os dois não iriam voltar.

Nós tínhamos que nos tornar adultos. Muito mais rápido do que os caras da nossa idade, nós tínhamos que nos graduar de sermos crianças.

Mesmo que o Otousan e a Okaasan não estejam aqui, nós temos que viver as nossas vidas. Não podemos ficar dependendo dos cuidados da Ayaka-obasama para sempre. Sabe, um pouco de cada vez já está bom, então vamos nos esforçar junto com a Onee-chan

A Neesan, eu acho que ela entendia. Que não podíamos continuar assim. Que não importava o quanto chorássemos e gritássemos, os dois não iriam voltar mais. Para continuarmos vivendo, tínhamos que encarar essa realidade dura e dolorosa, e se não vivêssemos o agora com todas as forças, o futuro continuaria escuro para sempre, ……por isso,

Está tudo bem, Kyou-kun. A Onee-chan com certeza não vai a lugar nenhum

Em resposta à Neesan que me disse palavras tão positivas para vivermos juntos nós dois, o eu daquela época sentiu-se terrivelmente traído.

 

――Mas o que é isso?

――A Neesan está dizendo que vai esquecer sobre o Oyaji e os outros e ser feliz?

――Nós somos uma família de quatro pessoas. Ninguém pode faltar.

――Não tente resolver as coisas com palavras positivas. Não tente se tornar adulta por conta própria.

――A Neesan não é a Kaasan. Ninguém pode substituir a Kaasan.

――Ei, não sorria. O Tousan e a Kaasan não estão aqui, e nós deveríamos estar tristes por causa dos dois para sempre.

――Não sorria. Não tente esquecer.

――Eu não vou esquecer. Como eu poderia esquecer?

――Vou ficar triste para sempre e sempre, e não vou esquecer dos dois por um segundo sequer.

――Porque, se eu não fizer isso, eles vão desaparecer, não vão?

――O Tousan e a Kaasan, vão acabar desaparecendo, não vão?

 

Uma forma de pensar inocente, pura e extrema.

Exatamente uma criança. A Neesan também era uma criança. Até um pouco antes, ela estava chorando aos prantos junto comigo.

E mesmo assim, a Neesan estava tentando se tornar adulta. Ela se esforçou para sorrir, começou a ir para a escola, e até começou a fazer coisas como imitar a Kaasan.

O que acha, Kyou-kun? Tentei fazer o hambúrguer que o Kyou-kun tanto adora

A Neesan já havia aceitado a realidade de que os dois não voltariam, e estava tentando seguir em frente.

A figura da Neesan, que aprendia os afazeres domésticos com a ajudante e crescia de forma constante, acumulando sucessos e fracassos igualmente, era radiante e me dava inveja.

Não quero. O que eu gosto é do hambúrguer que a Kaa-chan fazia

O eu de quando era pequeno, o eu que era um pirralho em todos os sentidos, ficou amuado sozinho o tempo todo.

Eu me sentia traído. Mesmo eu estando tão triste, mesmo eu pensando sobre o Oyaji e a Ofukuro o tempo todo, a Neesan estava sorrindo sozinha e tentando seguir em frente.

Me deixando para trás como criança, ela estava tentando se tornar adulta.

Se eu pensasse bem, deveria ter conseguido entender. Que a Neesan também deveria estar sofrendo de verdade.

Eu fiz uma cara como se apenas eu fosse o infeliz, e continuei rejeitando a mão que a Neesan me estendia. Fui a criança mais tola e egoísta do mundo. Eu era realmente um cara horrível.

 

 

A minha decisão de sair de casa foi tomada em dezembro daquele ano. Aproveitando a brecha enquanto a Neesan saía para fazer compras, saí de casa furtivamente.

Dentro da mochila de cor azul, havia doces que duravam bastante e um saco de dormir para crianças. Como disseram nas notícias da manhã que ia nevar, levei aquecedores portáteis só por precaução, além de suco e jogos, a mesada que eu estava guardando para emergências e meus mangás favoritos; e como a rua escura à noite dava um pouco de medo, também levei uma lanterna.

Colocar o smartphone no bolso foi como um seguro. O smartphone que a Ayaka-obasan comprou para mim. Dá para jogar, e como também pode ser usado como aplicativo de mapas ou meio de contato, é útil para várias coisas.

Chegando em dezembro, o pôr do sol estava ficando muito mais cedo, e o céu daquele dia, apesar de ainda ser antes das cinco da tarde, já estava levemente escurecido.

O vento cortante que batia na pele era um frio que ardia, e a respiração que eu soltava saía branca.

――Não é como se eu tivesse a intenção de causar problemas a ela ou algo do tipo.

Apenas, ultimamente, as vozes ao redor a elogiando com A Fumika-chan é realmente uma garota muito capaz, né estavam ficando barulhentas. Em contraste comigo, que ainda estava recluso, a existência da Neesan, que parecia cada dia mais adulta, estava me deixando enojado.

――Um pouco antes, sabe, o professor da escola veio aqui.

Ele tentou me aconselhar dizendo coisas como Eu entendo a situação, mas não é bom continuar assim, envolvendo tudo em palavras e sorrisos extremamente gentis. Ele teve o cuidado de não me machucar, de não me irritar. Era como se estivesse lidando com algo frágil. Para não me estimular, para não me machucar, afinal, essa criança é uma criança digna de pena――Ah, Sensei. Não sinta tanta pena de mim assim. Mesmo que você me desse uma bronca enérgica como antes dizendo Ei, Shimizu!, estaria tudo totalmente bem.

Todo mundo elogia a Neesan.

Todo mundo me trata com distanciamento.

Apesar do Oyaji e da Ofukuro terem morrido, a Neesan que sorri alegremente é incrível, e eu, que estou sempre e sempre pensando nos dois, sou tratado como uma Criança digna de pena.

Tornar-se adulto é tão incrível assim?

Conseguir fazer várias coisas sozinho é tão impressionante assim?

Eu também consigo fazer pelo menos isso! Mesmo sem a Neesan cuidar de mim, eu consigo viver sozinho.

――Por isso, sim, essa fuga de casa era uma prova. Era um desafio para provar para todo mundo que eu sou um adulto que consegue viver sozinho, e para fazer com que as pessoas ao redor, e também a Neesan, não me olhassem mais daquele jeito.

Passar a noite lá fora em um dia tão frio não é algo que uma criança normal consiga fazer. Até para a Neesan seria impossível.

Sobreviver a uma noite de dezembro fria, escura e assustadora sem depender de ninguém. Isso, com certeza, é o que chamam de “um homem adulto”.

O lugar para onde eu me dirigi com essa forte determinação era um certo santuário.

Aquele era um prédio antigo que a família Shimizu administrava há gerações, e eu já tinha ouvido da Ofukuro há muito tempo a história de que um deus que cuidou dos nossos ancestrais no passado estava consagrado lá, ou algo do tipo.

Na época em que a Kaasan estava viva, às vezes íamos com a família àquele santuário e limpávamos todos juntos os arredores do recinto.

Lembro de que no fundo havia uma estátua de uma deusa muito bonita, e meu coração bateu muito rápido.

Achei que se fosse lá, com certeza ficaria tudo bem.

Dava para me abrigar da chuva e do vento, ninguém além de nós se aproximaria e, acima de tudo, a deusa com certeza iria me proteger.

Um plano onde tudo era infantil, desleixado e superficial.

 

 

Mas, naquele momento, eu estava de qualquer forma desesperado. A impaciência e o complexo de inferioridade se infiltraram nos destroços do meu coração que foi destroçado pela morte dos meus pais, e uma sensação de que um pus negro e viscoso escorria incessantemente tomou conta de todo o meu corpo, e a minha cabeça ficava piscando sem parar e era doloroso.

Eu queria ir para algum lugar que não fosse aqui. Não é justo que só a Neesan seja paparicada. De qualquer forma, eu sou apenas um incômodo por estar aqui. Traidora! Por que só eu tenho que passar por coisas tão difíceis!

De qualquer forma, eu, de qualquer forma, eu!

Subi a ladeira íngreme ofegante, e quando entrei no recinto, o céu já estava completamente escuro.

A cor da neve que caía aos poucos do céu era branca, e meus ombros tremiam naturalmente.

Deusa, por favor, perdoe a indelicadeza de passar a noite aos seus pés

O interior do salão era escuro, silencioso e, acima de tudo, muito espaçoso.

Fiz uma reverência para a estátua de madeira da deusa consagrada no fundo, coloquei a batata frita e a cola que eu havia preparado como oferenda na frente da estátua, e então abri o saco de dormir e acendi a lanterna.

Parecia de certa forma uma base secreta, e sentindo uma empolgação incomum para mim, tirei meu mangá favorito da mochila.

Será que a Neesan está preocupada?

Olhei para o smartphone desligado.

Se eu ligar o smartphone, com certeza devem ter chegado várias ligações da minha irmã. Se eu atender, com certeza levarei bronca. Ela vai gritar perguntando o que eu estou fazendo. Dá muito medo. Não tenho a menor coragem de ligar o smartphone. Mais do que isso――

(Será que eu não estou fazendo algo muito horrível agora?)

Naquele momento, meu coração se apertou. Os sentimentos de diversão e empolgação de agora a pouco desapareceram em um instante, e comecei a ter um medo insuportável de várias coisas.

Eu entrei no saco de dormir. Porque se eu dormisse, conseguiria esquecer de toda essa dor e de todas as preocupações.

Rezei uma vez para a estátua da deusa como se estivesse me agarrando a ela, e fechei os olhos lentamente.

A jornada para o mundo dos sonhos foi em um instante.

O que me fez perceber que era um sonho, foi porque o Oyaji e a Ofukuro estavam sorrindo.

O Oyaji estava vestindo um jinbei azul-escuro, a Ofukuro estava vestindo um yukata com estampa de flores, e eu e a Neesan estávamos usando yukatas nas cores preto e verde, respectivamente.

Não há como eu esquecer. É a memória da época dos fogos de artifício.

O verão da família Shimizu tinha como tradição ver os fogos de artifício sendo lançados no céu a partir do jardim.

Os fogos de artifício de várias cores desabrochando com orgulho no céu noturno.

O Oyaji bebia cerveja com gosto, e a Ofukuro sorria enquanto preparava comida na chapa e cuidava de nós, irmãos.

Um tempo onde tudo era caloroso e feliz.

Uma lembrança de verão, que não vai mais voltar.

Eu queria ficar aqui para sempre. Não queria voltar para a realidade de jeito nenhum. Por favor, que este sonho não acabe pelo resto da vida, e então,

Uma pequena sombra se aproximou a passos curtos de mim, que estava prestes a derramar lágrimas.

Nee, Kyou-kun! Vamos soltar fogos de artifício juntosー」

Era a Neesan. A Neesan, que tinha a estatura de mais de um tamanho menor do que a de agora, carregava um kit de fogos de artifício com as duas mãos enquanto me convidava para brincar junto.

Ah

――Isso mesmo. Era isso.

Para mim, ainda restava uma única família.

Só agora eu percebi isso.

Comparei o sorriso dela. O daquela época, e o de agora. Seriam realmente os mesmos?

(É diferente)

 

 

Isso. É diferente. O verdadeiro sorriso da Neesan, da Shimizu Fumika, é tão despreocupado e inocente assim――

Kyou-kun!

Quando percebi, o meu corpo havia recuperado completamente a gravidade da realidade.

Diante dos meus olhos, a figura da Neesan me abraçando. O rosto da Neesan de agora, que cresceu e é elogiada pelas pessoas ao redor dizendo “como você já é uma adulta”, estava,

Chorando. Enquanto deixava cair grandes lágrimas dos dois olhos,

O que…… o que você está fazendo!?

Nós somos uma família de apenas dois!

Ela estava chorando. Estava, chorando.

Eu não via as lágrimas da Neesan há um bom tempo. Ultimamente, a Neesan estava sempre sorrindo, como se tivesse esquecido do Oyaji e da Ofukuro…… não,

(Ela esteve, se esforçando demais o tempo todo)

Por que eu havia esquecido? Por que eu não consegui enxergar? O sorriso recente da Neesan, não importava como eu pensasse, era um sorriso forçado feito com muito esforço. Embora fosse doloroso, embora fosse difícil, era um sorriso como uma flor artificial que ela se esforçava para mostrar por causa de alguém.

……Por causa de quem era aquele sorriso? Isso era óbvio, não é?

Eu não tenho mais ninguém além do Kyou-kun. Se o Kyou-kun desaparecer, a Onee-chan vai ficar completamente sozinha

Minhas glândulas lacrimais tremiam. Meu peito se encheu de culpa e de calor, e quando percebi,

De, de, hic, desculpa. Me…… perdoa, desculpa, Neesan

Eu também estava chorando. No começo devagar, gradualmente deixando escapar soluços, e por fim chorando aos prantos sem me importar com mais nada, enquanto repetia “me perdoe” várias e várias vezes.

Eu, fiquei com medo. Achei que a Neesan iria para algum lugar longe, e que eu seria deixado para trás……

Não há como eu te deixar para trás. Você é minha única família

Isso mesmo. Não havia como ser assim. A gentil Neesan, a Neesan que sempre esteve ao meu lado, esquecer da família, ou me deixar para trás, não tinha como algo assim acontecer, absolutamente.

A Nee-chan estava se esforçando. Aprendendo a cozinhar, lavando a roupa, e se tornando como a Kaa-chan para que o pequeno eu não ficasse solitário

Com que tipo de sentimentos a Neesan estava interpretando ser uma adulta para mim? O quanto a Neesan, que é apenas dois anos mais velha que eu, acumulou de dificuldades e paciência para atuar como substituta da Kaasan?

Ela deve ter se sentido solitária. Deve ter sido doloroso. Sufocando a tristeza de perder os pais com uma máscara de sorriso, ……ah, olhe para isso. Aquelas mãos que eram tão brancas e bonitas, não estão cheias de rachaduras de frio?

Eu, não tinha entendido nada. Mesmo a Nee-chan se esforçando tanto por mim, eu achei que só eu estava sofrendo, e não fiz nada

Não, tudo bem. Está tudo bem. Só de ter o Kyou-kun aqui, só isso já faz a Onee-chan feliz

Não está! Não está tudo bem! Mesmo sendo uma família de apenas nós dois, eu fiz só a Nee-chan passar por coisas difíceis…… u, uh, me desculpe. Me desculpe por ser um irmão ruim

A estagnação de emoções sombrias que havia se solidificado, estava sendo levada pela correnteza turva de gotas de emoção. Ciúmes, sensação de alienação, e no fim das contas até autojustificativas egoístas como A Nee-chan é uma traidora. Ah, que estupidez. Realmente uma estupidez. Não culpe os outros pelos motivos das coisas não darem certo. Onde está o orgulho de manter uma teimosia até o ponto de fazer a pessoa que você tanto ama fazer uma cara tão triste? Se somos uma família de apenas nós dois, o que vamos fazer se não nos apoiarmos?

Eu, vou mudar. Vou me esforçar para me tornar um bom garoto. A partir de agora vou ajudar bastante também. Até para a escola eu vou. ……É muito doloroso, e solitário, mas até sobre as coisas do Tou-chan e da Kaa-chan, ……eu vou me, me esforçar, para conseguir encarar de frente

Lembro das palavras que a Ofukuro me disse uma vez.

――Kyouichirou, proteja a Onee-chan, ok?

Isso mesmo. Eu vou proteger essa pessoa. Para que ela possa sorrir sem precisar se forçar. Para que ela possa passar os dias sempre bem. Para que a vida da minha única e amada família seja preenchida com as flores da felicidade.

Nee-chan. Eu, amo muito a Nee-chan. Vou amar muito para todo o sempre

Obrigada. Obrigada, Kyou-kun. A Onee-chan também ama muito você

Um dia de inverno. Dentro do salão que a estátua da deusa observava, nós, irmãos, fizemos um juramento.

Que protegeríamos um ao outro. Que apoiaríamos um ao outro. Que como uma família de apenas nós dois, juntaríamos forças e nos esforçaríamos.

Para não perdermos para o frio da neve, enquanto nos abraçávamos com toda a força, nós certamente juramos.

 

 

 

Como a Neesan conseguiu me encontrar naquele dia, parece que a causa disso estava, pelo visto, na chave.

A chave que levava ao antigo santuário administrado pela família Shimizu há gerações. Aquela chave, que devia estar sempre guardada em um lugar importante, havia sumido junto com a figura do seu precioso irmão mais novo. A Neesan, que percebeu isso, correu a toda velocidade para aquele santuário e, ao espiar o interior do salão achando que não poderia ser, não é que o seu amado irmão tinha deixado a porta destrancada e estava dormindo profundamente e sem preocupações?

É claro que ela ficaria brava e choraria. Se o Oyaji estivesse vivo, sem sombra de dúvidas eu teria levado um tapa sem direito a perguntas.

No entanto, se deveria chamar isso de sorte no azar, ou se deveria ser dito como transformar o infortúnio em Bênção; de qualquer forma, é um fato inegável que, tendo esse incidente como ponto de partida, a atmosfera que envolvia a família Shimizu mudou drasticamente.

A Neesan parou de ter reservas comigo no bom sentido, e eu, como prometido, parei de ficar recluso e comecei aquele tal de esforço para me tornar adulto.

Quanto aos afazeres de casa, nos esforçamos dividindo as tarefas entre nós dois. Para vivermos apenas como duas crianças, obviamente era muito difícil, e houve muitas dificuldades, mas nos esforçamos juntando as forças nós dois, às vezes pegando emprestada a força da Ayaka-obasan e dos vizinhos, e fomos superando as dificuldades e as barreiras pouco a pouco, um passo de cada vez.

Tudo isso também, foi graças ao Oyaji e à Ofukuro no paraíso terem nos deixado uma quantia nada pequena de dinheiro.

O Tousan era um Aventureiro de extrema habilidade em quem todos confiavam.

A sensata Kaasan havia guardado dinheiro de forma sólida para uma emergência, preparando para que ficássemos bem caso qualquer coisa acontecesse.

Um pai grandioso, e uma mãe excelente. Mesmo após a morte, o amor dos nossos pais estava nos protegendo.

Graças a isso, nós, irmãos, não fomos separados e estamos conseguindo viver de alguma forma nós dois, sem precisarmos abrir mão da casa que tanto amamos.

A vida apenas com crianças, honestamente, não falta ansiedade e sofrimento, mas mesmo assim, ultimamente, conseguimos voltar a sorrir como antigamente.

Kyou-kun, vamos continuar nos esforçando juntos nós dois a partir de agora também, ok?

Tudo foi porque a Neesan esteve ao meu lado.

A Neesan. Minha única família.

Se fosse possível, eu desejava que essa vida pacífica continuasse assim para sempre; agora, vivo meus dias verdadeiramente apenas desejando isso.

 

◆◆◆ Calendário Imperial, 25 de março de 1189

 

Ultimamente, o estado da Neesan está estranho.

Ela tem parecido não se sentir bem o tempo todo, e tem faltado bastante à escola também.

O médico diz que não sabe a causa. Mesmo a Neesan sofrendo dizendo que o corpo todo dói, ele faz uma cara de quem está em apuros dizendo que não há inflamação e nem sinais de que ela contraiu alguma doença estranha, e dá um nome de doença qualquer com cara de que faz sentido só para disfarçar.

No começo, achei que o médico que nos atendeu era só um charlatão por acaso. Mas, não importa a qual hospital fossemos, todos faziam a mesma cara de apuros e diziam que não parecia haver nada de errado em lugar nenhum. Exames de sangue, exames que olham o corpo todo minuciosamente com máquinas, de qualquer forma tentamos tudo o que era possível, mas o resultado era sempre o mesmo. Entre eles, havia até alguns caras que nos olhavam com olhos como se a Neesan estivesse mentindo, e foi tão frustrante a ponto de quase me fazer chorar.

A Neesan é muito paciente. Além disso, pelo que eu saiba, ela era uma pessoa tão saudável até agora que daria para dizer que não conhecia o que era ficar doente.

E então, desde perto do final do ano passado, ela de repente começou a dizer que o corpo todo doía, às vezes sofrendo a ponto de até derramar lágrimas. O que diabos é isso, se não for uma doença?

Desde que o Oyaji e a Ofukuro faleceram, já estão prestes a se passar cinco anos. Superamos uma época muito difícil e nos esforçamos até aqui nos apoiando como uma família de apenas nós dois. Por isso,

Neesan

Por isso, Deus, por favor, eu imploro. Não tire mais nada de nós, não mais que isso. Se não for possível, por favor, salve pelo menos a vida da Neesan.

Para mim, não importa o que aconteça comigo. Não importa pelo quão difícil eu tenha que passar, eu suporto. Mas apenas a Neesan, por favor, perdoe-a. Aquela pessoa não pode não ser feliz. Eu quero que ela sorria para sempre, e sempre.

Apenas a Neesan……

Se você quer tanto a vida de alguém, por favor, tire de mim. Se com isso a vida da Neesan for salva, eu morrerei com prazer.

Se você gosta tanto da infelicidade das pessoas, por favor, me destrua completamente e ria com escárnio de mim.

Eu oferecerei qualquer coisa. Farei qualquer coisa que eu puder fazer.

Por isso, por favor, apenas a Neesan, por favor não faça a família mais preciosa do mundo para mim passar por mais sofrimento do que isso.

Apenas esse é o meu desejo.

 

 

 

 

 


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