■ Capítulo 3: Preparação

 

 

 

 

Já se passou uma semana inteira desde que, graças à ideia genial da Nee-san, a Jupiter foi acolhida como membro da família Shimizu.

No começo, por conta da vida nova com a qual não estava acostumada e da medida de selamento do Keraunos, dava pra ver uma sombra de preocupação em cada ação dela. Mas, com o passar do tempo, a atitude dela foi relaxando, e agora é super comum ver as duas jogando videogame de boa na sala.

Isso se deve, em grande parte, à atuação da Nee-san.

A Nee-san é uma gênia em fazer as pessoas se enturmarem. Não é só que ela não deixa ninguém de fora, mas quando ela está no ambiente, o grupo se une naturalmente.

Pensando bem, há um ano, quando a Al veio morar aqui, foi a mesma coisa. Eu sou esse cara neurótico que você tá vendo, e a Deusa Maligna é uma Deusa Maligna, então, para ser sincero, a nossa compatibilidade fora dos treinos não era lá essas coisas.

Mas a Nee-san deu um jeito de mediar a nossa relação perfeitamente.

Ela criou o hábito da gente conversar dentro de um limite razoável, e inventava uns eventos divertidos a cada estação, tipo a guerra de feijões do Setsubun ou campeonato de Nagashi Somen (macarrão escorregando no bambu). Graças a isso, hoje a minha relação com aquele bicho preguiça é como se fôssemos amigos de infância──── só que não. Mas, pelo menos, a gente consegue conversar de boa sem precisar botar treino ou batalha no meio do assunto.

Dá pra dizer que ela tá num nível acima de quem só tem uma boa skill de comunicação. A Nee-san é absurdamente boa em criar um clima onde não só ela, mas todo mundo em volta consegue interagir.

E a compatibilidade entre essa Nee-san e a Jupiter foi tão boa que chega a ser engraçado.

O jeito coruja da Nee-san deu um match perfeito com a carência da Jupiter, e as duas se deram bem rapidinho.

Pra você ter uma ideia de quão boa é a química: em menos de meio dia, a Jupiter já estava indo atrás da Nee-san por conta própria, e no segundo dia, elas já estavam até tomando banho juntas.

Como irmão mais novo, ou melhor, como um fã de carteirinha da Fumika, a relação das duas é tão boa que me dá vontade de ranger os dentes de ciúmes e soltar um “ugigi”.

E, por mais surpreendente que seja, a Jupiter também se apegou à Al.

E o mais inacreditável é que isso foi o resultado da própria Deusa Maligna tomar a iniciativa de se aproximar.

Como sempre, os músculos faciais da Al não se movem um milímetro (bom, nisso a Jupiter também não fica muito atrás), e de fora só parece que duas pessoas sem expressão estão tendo uma conversa monótona (falando a real, parece muito chato). Mas, segundo elas mesmas, “o feeling bateu”.

Bom, mesmo que seja uma relação só no papel, eu sou a irmã mais velha dela. Como filha mais velha, cuidar da irmãzinha é o mínimo.

Tinha uma rara faísca de motivação nos olhos da Deusa Maligna enquanto falava isso. ────Talvez ela tenha algum apego especial a esse lance de “irmãs”. Pensando nisso, perguntei pra Al: “Você tinha uma irmã mais nova ou algo assim?” e levei um “Isso é assédio sexual” seco na cara. Como sempre, a Deusa Maligna-sama é fria como uma geleira comigo.

Mas enfim, o ambiente da família Shimizu ao redor da garota de cabelos prateados já estava num ponto que não seria exagero chamar de ideal.

Deve ter também o alívio de não precisar mais ter medo da sombra daquele velho do trovão, mas a Jupiter está vivendo de forma muito leve e solta.

É um ótimo sinal.

Eu não tenho como agradecer o suficiente à Nee-san, que virou o porto seguro de uma garota que estava sempre sozinha.

“Que esses dias durem para sempre” ──── e é exatamente por querer isso que eu tenho coisas a fazer.

O problema que precisa ser resolvido agora, sem dúvidas, é o Keraunos.

A autoridade divina modificada do trovão negro, que teve apenas o sentimento de “paternidade” instalado por aquele grupo de pesquisadores hereges e malignos.

Se eu não parar o surto dele, a Jupiter nunca vai ter paz de verdade.

O inimigo é claro. O que tem que ser feito é a Subjugação. O objetivo final tá bem na nossa cara, mas, as cartas na manga que nós temos hoje são absurdamente insuficientes pra fazer isso acontecer.

Força. Eu precisava de força. Atributos físicos, Táticas, Técnicas e Astral Skills. Se eu incluir até equipamentos e contatos(networking), essa operação vai exigir um poder muito mais amplo e diversificado.

E o que eu tenho que fazer pra conseguir esse poder é só uma coisa, como sempre.

Uma queima de estoque da própria dignidade que é tão lenta, tão absurdamente chata e acompanhada de um sofrimento físico e mental tão fora do normal, que não seria exagero chamar de uma nova modalidade de tortura.

Ou seja, isso mesmo, o bom e velho grinding de treinamento.

 

Pátio do Antigo Santuário Desolado

 

Iyaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!

Nove da manhã.

Um grito de agonia asqueroso ressoa pelo pátio do antigo santuário desolado.

Devido ao recuo da Defesa Quadridimensional e à dor suprema que atacou a minha virilha, eu soluçava de tanto chorar, enquanto “aquela” de sempre me olhava de cima com um saco de batata chips em uma das mãos.

Fumu. Por esse seu estado, parece que você ainda aguenta mais um pouco.

Aguentar o caramba, sua idiota!

O símbolo de um homem não dá pra ser treinado, porra!

Droga, logo agora que os meus vários specs(atributos) já caíram!

Não adianta ficar lamentando. Por conta da conveniência de eu estar aplicando a fórmula de parada temporal na minha irmã mais nova, a performance de output(saída) que posso repassar para o Master caiu. Aceite isso de bom grado.

Isso, eu... já sei... mas, poxa...

Eu me levanto, ofegando pesadamente.

Pois é.

Selamentos que aplicam a fórmula de parada temporal têm esse tipo de efeito colateral.

Diferente do tipo de disparo único que acaba assim que é lançado, como o Fim(End) da(of) Origem(Zero), a magia de parada temporal exige um pagamento contínuo de custos para a sua manutenção.

Para resumir a história, é o mesmo que adicionar mais uma torneira.

A energia espiritual para manter a materialização e a cota de energia repassada para mim. Além da energia para parar a maldição da Nee-san, tem a nova cota de energia para selar o Keraunos ──── Por mais que ela seja a Deusa do Tempo, pagar todo esse custo de forma constante acaba dando umas engasgadas(desgastando).

Aparentemente, essa capacidade também aumenta dependendo dos specs e do level do contratante, mas, de qualquer forma, não é um problema que dá para resolver imediatamente.

Portanto, a situação atual é que ela está segurando o gasto de energia reduzindo o meu suprimento, que é a área que causa menos problemas. Basicamente, se comparado a antes do selamento, o suprimento caiu para cerca de dois terços.

Sendo bem claro, é uma queda drástica no poder de combate.

Os specs do Kyouichirou, que por si só já são medíocres, agora viraram lixo a um ponto que não tem nem como dar desculpa.

Principalmente o enfraquecimento no tempo de ativação da Defesa Quadridimensional, que consome energia espiritual constantemente; dava até para dizer que isso é uma questão de vida ou morte.

E mesmo assim...

Tentar quebrar o recorde máximo de tempo nesse estado não é botar no Hard Mode demais, não!?

Claro, isso é uma pergunta retórica.

Apesar de vários specs terem caído para dois terços, me mandar quebrar o recorde é, sem sombra de dúvida, um treinamento Black(abusivo). A exigência absurda chegou ao limite aqui.

Eu já expliquei antes. É justamente agora que o suprimento caiu que esse treinamento fará efeito.

Mas a nossa instrutora demoníaca não cedia.

A justificativa da divindade maligna era a seguinte:

A “diferença decisiva” que separa os veteranos dos novatos na classificação de usuários de espíritos está na forma de manipular a energia espiritual.

Energia Espiritual. O termo geral para a “energia do lado de lá” que é fornecida através do espírito contratado.

A base de todas as artes(Astral) espirituais(Skills) é a existência dessa energia, e quanto maior a escala da fórmula mágica utilizada, maior será o consumo dessa energia que serve como combustível ──── Isso é o senso comum que qualquer usuário de espíritos conhece. E além desse senso comum, existe o “próximo passo” que nós buscamos.

O máximo de resultado com o mínimo de energia térmica. Processamento, refinamento, rotação, output ──── Se você conseguir operar de forma eficiente esses métodos necessários para tecer uma fórmula, o consumo da energia espiritual será drasticamente reduzido.

Quanto mais excepcional for o usuário, mais ele construirá magias com um output sem desperdícios; por outro lado, os novatos consomem energia em excesso porque as suas formas de output são ineficientes, disse Al.

A concretização da economia de energia acompanhada pela melhoria técnica.

Na teoria, é um conceito bem próximo ao Sistema de Proficiência que aparecia no game Dunmagi daquela época.

Sistema de Proficiência.

É um fator de crescimento baseado em aprendizado, no qual você melhora o desempenho de uma arma ou Skill específica usando-a repetidamente.

Como é um sistema bem padrão em digital games, eu me acostumei naturalmente com ele quando jogava, mas... quem diria que, ao ser aplicado no mundo real, viraria uma mecânica tão rudimentar e penosa.

Teria sido fácil se a proficiência subisse só de derrotar inimigos mob igual num game, mas... segundo a Al, “não existe essa historinha conveniente”. A vida é dura.

Não, eu também não tenho a intenção de negar esse método de treinamento por completo. Enquanto eu dava meus pulos para conseguir construir magias com pouca energia espiritual, acabei pegando um pouco o jeito de tecer fórmulas de forma eficiente, e eu admito que é um método de treinamento válido justamente agora que o suprimento caiu. ......Mas, né.

Eu disse isso segurando a minha virilha com as duas mãos.

Toda santa vez que eu fico abaixo do time limite, você chuta o meu symbol de homem. Eu acho que isso é um baita de um absurdo, sabia!?

Se comparado ao treinamento de antes, onde eu aniquilava o seu ‘filho tolo’ independentemente de você alcançar a meta ou não, acredito que estou fazendo uma concessão considerável, Master.

Pra começo de conversa, eu tô falando pra você não chutar os meus testículos!?

No fim das contas, o ponto era esse.

Não é que eu odeie o treinamento em si.

Eu odeio ter os testículos chutados.

Logo agora que esse é, literalmente, o meu único ponto fraco, ela vem e pisa em cima sem dó.

Droga, ainda tá doendo. Tá latejando.

Vai vomitar fraquezas de novo, Master? O rumo da nossa próxima batalha depende de quanto tempo você conseguirá manter a Defesa Quadridimensional.

Guuh...

Acalme-se, Kyouichirou.

A opinião da Ura Boss é uma distorção de foco disfarçada de argumento correto.

Não existe relação de causa e efeito entre estender o tempo de manutenção da Defesa Quadridimensional e levar um chute no symbol masculino.

Não tem e ponto final.

Por favor, não desvie os olhos da realidade. Os nossos registros anteriores já comprovaram a tese de que o Master consegue extrair poder além do seu limite para fugir do terror de ter seu ‘filho tolo’ chutado.

E daí? Isso pode ser só uma coincidência de momento, não é?

Bom, falando em ‘coincidência de momento’ (tamatama), é bem nas bolas (tama) mesmo. Eu aprendi com a minha vasta base de data experimentais que o Master é de uma espécie que ganha motivação quando tem os testículos chutados.

Não fale de mim como se eu fosse um tarado!

Mesmo resmungando sem parar, o meu corpo já estava entrando em posição de treinamento.

Ora, ora, é o que chamam de ‘o corpo é honesto’, não é? Que bom garoto, Master.

Se eu fosse um bom garoto inteligente, já teria fugido desse inferno rapidinho.

Ah, que ódio, que ódio.

Eu sei que vai doer pra cacete, mas mesmo assim o meu corpo se move sozinho.

Eu não quero admitir, mas parece que, em algum lugar dentro de mim, existe um “eu” que prioriza a segurança dos meus companheiros em vez da segurança da minha própria virilha.

É esse “eu” que força o meu corpo relutante a se mover, correndo por vontade própria em direção à morte certa.

Mas que pensamento heroico. Sendo sobre mim mesmo, dá vontade de me dar uma florzinha de nota máxima e um soco na cabeça.

Eu vou me esforçar, então, se possível, por favor não chute a minha virilha.

Mesmo implorando de forma patética, essa sua determinação de tentar seguir em frente é excelente. Então, vamos começar sem mais delongas!

A garota de branco puro que é uma beldade perfeita apenas na aparência, corre a toda velocidade pelo pátio do santuário banhado pela luz do sol da manhã.

Se eu levar um chute com todo aquele impulso de corrida, não tenho dúvidas de que a minha virilha vai ter uma morte trágica e agonizante.

Sua desgraçadaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

É por isso que eu ativei a Defesa Quadridimensional para proteger a minha dignidade de homem.

Ah, quanta crueldade.

Para Shimizu Kyouichirou, não existem dias de paz.



 

 


Voltar|Menu Inicial|Proximo

Comentários