■ Capítulo 4: Luar

  

 

​◆ Cidade Dungeon Ouka – Dungeon Número 336

Tokoyami

 

Depois de terminar o treinamento infernal com a Al, eu fui direto para a Tokoyami.

O objetivo era uma batalha simulada com o Sistema Estelar. As cabines em formato de casulo, indispensáveis para os Simulation Battles, estão espalhadas por quase todas as Dungeons. Bom, seria loucura não colocar um negócio conveniente desses por lá.

Como dá para aprender de forma eficiente os chamados pontos de experiência necessários para a batalha, é óbvio que isso é um item de necessidade básica pra quem tem a luta como profissão.

Usando um Simulation Battle, é possível provar da esgrima de um espadachim de talento nato sem colocar a vida em risco.

A Haruka é um gênio.

E não é como esses talentos incomuns que se vê por aí, o nível dela é outro.

Ela é o tipo de garota que conseguiu fazer um Perfect Copy da espada secreta de um homem considerado um dos cinco maiores espadachins entre todos os DunMagi Characters da história, apenas ouvindo as minhas descrições verbais.

Sério, naquela hora eu fiquei sem palavras.

Ela mesma estava proclamando com uma cara complicada sobre “taxa de reprodutibilidade” e coisas do tipo, mas, normalmente, aquela é uma técnica impossível de se realizar pra começo de conversa.

No momento em que ela consegue estabelecer aquilo como uma técnica, eu acho que ninguém deveria conseguir acertar, como se fosse um truque de malabarismo, um golpe grandioso o suficiente para mudar a história da esgrima.

E o pior é que ela ainda está no auge do seu crescimento. Eu não sei se tenho medo do futuro dela ou se estou ansioso para ver.

O resultado da batalha simulada com esse mestre de classe mundial foi, naturalmente, uma derrota total da minha parte.

Wahaa! Hoje foi muito divertido também, né!

Se espreguiçando com toda a energia sob o céu avermelhado do entardecer, o Sistema Estelar bebia sua bebida de lactobacilos com um rosto plenamente satisfeito. Hoje, como sempre, a Haruka-san estava em perfeita forma.

Bom trabalho. Hoje também me permiti estudar bastante.

Eu que o diga, aprendi muito com você, Kyouichirou-sensei.

Trocamos reverências com um tom solene, mas logo não aguentamos e caímos na risada.

Realmente, o tempo que eu passo com ela é especial.

Não importa por quanto treinamento duro eu tenha passado, se eu estiver com a Haruka, misteriosamente a minha energia volta.

Mas o Kyou-san estava meio mal hoje, né. Aconteceu alguma coisa?

A Haruka-san lançou essa observação afiada enquanto se sentava no banco do lado de fora.

...Dá pra perceber um negócio desses?

Sério? Eu perdi todas como sempre, não foi?

Não, não. O Kyou-san de sempre é muito mais duro na queda. ...Deixa eu ver, o Kyou-san de hoje estava mais ou menos em dois terços de um Kyouichirou!

Acertou na mosca.

Essa garota é uma Esper por acaso?

...Acertou. A minha Espírito não está muito bem hoje. A causa é clara, e eu vou deixá-la 100% recuperada até a próxima batalha, então fique tranquila.

Encaaaraando...

Que foi, encarando o rosto dos outros do nada ──── Ah, já saquei, você tá tentando ler as minhas verdadeiras intenções pela minha expressão facial de novo!

Pelo visto, parece que você não tá mentindo? Mas parece que tá escondendo alguma coisa.

Merda, como eu odeio essa minha constituição fácil de ler!

Da próxima vez, com certeza vou comprar um Item pra esconder o rosto!

A propósito.

Quando a nossa conversa fiada deu uma pausa e o canto dos passarinhos começou a dar lugar ao piar das corujas (tem corujas selvagens por aqui, sabia?), a Haruka trouxe o assunto à tona com um tom mais formal.

A Jupi-chan tá bem?

Hm? Ah, ela tá indo bem. Agora ela deve estar lá jogando um Game de boa com a Al.

Entendi... Isso é Esplêndido, néー」

Pois é.

Que estranho.

Ela foi meio evasiva. Ou melhor, não parece a Haruka.

Se ela estivesse preocupada com a Jupiter, o Style do Sistema Estelar que eu conheço seria ir direto lá em casa pra conferir com os próprios olhos. Além disso, pra começo de conversa, a Haruka já veio em casa várias vezes ao longo dessa última semana pra cuidar da nossa baixinha de cabelo prateado.

Ela estava definitivamente cumprindo a promessa que fizemos naquela noite, e a devoção dela era clara o suficiente só de observar de fora...

(Não, espera aí.)

Foi um pequeno incômodo, algo tão sutil que nem daria para chamar de estranheza.

A última vez que a Haruka visitou a casa dos Shimizu foi anteontem. Naquele dia, ela passou o tempo brincando com a Jupiter e cozinhando juntas até o fim da tarde, e foi embora junto com a badalada do sino das cinco horas.

Sinceramente, acho que é algo super saudável. O horário, a frequência das visitas, e até a forma como ela passa o tempo com a Jupiter, é tudo suficiente, dentro do bom senso, e não é nada exagerado.

Não que eu estivesse esperando por isso, mas, no começo, eu apostava que ela viria na casa dos Shimizu quase todos os dias.

Mas, quando vendo na prática, a frequência das visitas dela foi de muito bom senso. Falando bem, foi algo moderado; falando mal ────

Fumu.

Fiquei encarando o perfil do Sistema Estelar sentada ao meu lado.

Aquele rosto lindo, que seria fácil de encontrar mesmo sob o céu do crepúsculo que escurecia, estava vacilando com um pouco de insegurança. Aliás, que cílios longos! É uma modelo por acaso?

Q-Que foi, Kyou-san, encarando o rosto dos outros assim. A Haruka-san aqui acha que esse tipo de coisa não é muito legal, viu.

Muito obrigado pelo magnífico Boomerang. Como é o meu troco de sempre, por favor, sofra a honra de ser observada por mim até eu me satisfazer.

Encarando fixamente, para aliviar a frustração acumulada até agora, observo a beleza da Haruka.

Entendo, como diz o ditado, “os olhos falam tanto quanto a boca”.

Observando o rosto do Sistema Estelar desse jeito, até eu, que normalmente não tenho uma capacidade de observação tão alta, consigo ler mais ou menos o que ela está pensando.

Ah, já saquei. Você tá cheia de reservas em relação à Jupiter, né.

A cabeça do Sistema Estelar deu um leve solavanco.

Que reação mais fácil de ler.

Qual é. Logo a Haruka-san aqui, fazer algo tão Sentimental...

Sentimental? Essa é uma expressão bem antiquada, hein.

Eh, mentira? A minha mãe disse que era um supersucesso com os Now e Young (jovens de agora)

É, acho que só com essa frase você já devia ter percebido que é uma gíria morta, né.

Sinto que o motivo da Kanatan(sua irmã mais nova) ficar falando de um jeito tão pomposo e antiquado ultimamente acabou de ficar claro para mim agora.

...Não, pera, não é sobre isso.

Não, a Haruka é muito boa em prestar atenção nos outros.

A gente tende a focar no lado louca por adrenalina e Psycho dela, mas na verdade, a Haruka tem um Communication Power (poder de comunicação) bem alto.

Ela puxa assunto ativamente e é ótima em desenvolver a conversa.

Além disso, o jeito que ela acena concordando, a naturalidade do sorriso, a forma como ela encurta o Personal Space (espaço pessoal), tudo isso é coisa de um Communication Master (mestre da comunicação). Resumindo de forma bruta, ela é uma pessoa extremamente capaz.

Ou talvez, seja exatamente por isso?

Ela se afasta justamente porque consegue ter consideração ──── ou seja, reserva.

Isso é me superestimar demais. Eu não sou uma mulher tão madura assim.

Bom, se a Haruka insiste nisso, tudo bem. ...Mas se você tiver algum problema, me conta. Se eu servir... eu te dou uma força.

Até eu acho que fui impecável em mandar a real direto ao ponto.

Mas, contra o Sistema Estelar, isso é muito mais eficiente do que tentar fazer rodeios desajeitados.

...Então, posso falar só um pouquinho?

Claro.

Viu, fisguei.

Sabe, eu mesma acho que talvez eu esteja pensando demais nisso, mas...

Aham.

Hesitante, e com uma voz um pouco esganiçada, a Haruka-san começou a falar.

Eu não odeio essa versão com um lado meio sombrio dela.

Uma semana atrás, todo mundo foi lá na sua casa, né.

Sim.

Naquele momento, eu acabei percebendo. O quanto eu fui muito abençoada.

Abençoada, é.

Bom, com certeza eu acho que ela é alguém privilegiada em vários sentidos.

Porém.

Isso é algo que você já tinha percebido desde muito tempo atrás, não tinha?

Justamente por ter essa consciência, ela dedicou toda a sua infância à espada.

Sem se acomodar nas suas circunstâncias ou no seu talento, foi por ter se esforçado mais que qualquer um que a “você” de agora existe, não foi?

Sim. Eu sabia. Mas isso... eu só achava que sabia.

Como assim?

Os sentimentos que eu achava que eram difíceis ou dolorosos, eram tão leves e mimados que nem se comparavam aos das outras pessoas.

A Haruka provavelmente evitou falar todos os detalhes de propósito, mas eu consegui entender mais ou menos o conteúdo do que o Sistema Estelar queria dizer.

Resumindo a história, ela estava se sentindo em dívida com a gente.

A Jupiter, que era completamente sozinha no mundo. A Al, uma garota com amnésia (pelo menos essa é a história de fachada), e eu e a minha irmã, que perdemos os pais num acidente há alguns anos.

Numa reunião de pessoas com tão pouca sorte assim, será que alguém como ela, que viveu numa boa em um ambiente privilegiado até agora, poderia se envolver? ──── Provavelmente era esse o tipo de angústia que ela estava carregando.

Sinceramente, que mal-entendido mais engraçado ela foi arranjar.

Isso tá errado, Haruka.

Com a mesma suavidade de quem diz a resposta errada em um Quiz, eu rebati a opinião do Sistema Estelar.

Nós não somos tão infelizes quanto você pensa, e você, do seu próprio jeito, também sofreu e achou difícil.

Mas...

Não tem ‘mas’ nem meio ‘mas’. Escuta bem, não existe superioridade ou inferioridade na infelicidade.

A Pessoa A pegou uma epidemia, e a Pessoa B sofreu um acidente de trânsito.

Qual dos dois foi mais infeliz?

A resposta para esse problema é: “Cala a boca, seu lixo”.

Se aparecer algum desgraçado medindo o peso da doença ou dos custos médicos e falando merda tipo “Ah, esse aqui é mais infeliz!”, eu com certeza vou encher esses caras de porrada.

As feridas e os sofrimentos das pessoas não são algo que os outros podem ficar traçando linhas e comparando como bem entenderem.

Haruka. As feridas e as dores que você sentiu até hoje são só suas. Não precisa comparar com as dos outros. Você tem todo o direito de se machucar e sofrer com elas.

...Será mesmo?

Com certeza. Além do mais, se a gente aplicar essa porcaria de regra de ‘não posso lamentar porque existem pessoas mais infelizes do que eu’, ia acabar sobrando só uma pessoa no mundo inteiro com o direito de lamentar a própria infelicidade. E a lógica absurda de que ‘o resto das pessoas deve aguentar calado porque são mais abençoadas se comparadas àquela única pessoa’ jamais faria sentido, não é?

Tipo: Pessoas em países pobres bem distantes estão sofrendo de fome, e comparado a elas, eu sou privilegiado, então não posso pedir ajuda para ninguém por causa desse meu nível de pobreza.

“Eu estou sofrendo bullying, mas aquele cara da outra turma está sofrendo um bullying muito pior. Portanto, enquanto ele estiver aguentando, eu também tenho que aguentar.”

“Perdi meu amado parceiro num acidente. Mas o vizinho perdeu a família inteira em outro acidente. Ele está sofrendo mais do que eu, então como eu poderia reclamar e choramingar de dor?”

Eu dispenso totalmente um mundo assim.

Ficar se preocupando só com os outros e negligenciando a própria dor seria o cúmulo do absurdo.

A dor é um sinal de perigo.

Eu definitivamente não quero me tornar o tipo de santo que consegue reprimir o sinal de que o próprio coração está em perigo só porque existem pessoas mais infelizes por aí.

Você não tem nenhum motivo para se sentir inferior nem obrigação de ter reservas por nossa causa, Haruka.

...Uhum.

A nuca fina do Sistema Estelar balançou levemente.

Falta só mais um empurrãozinho.

Além disso, quando você se sentir sufocada em casa, venha para a casa dos Shimizu quando quiser. Se você disser que é uma reunião para a nossa próxima exploração, os seus pais também não vão te impedir.

Tudo bem por você?

Aham, tem quarto sobrando à beça lá. Se você vier, tenho certeza de que a Jupiter vai ficar feliz. A Nee-san, e provavelmente a Al também, devem te receber de braços abertos.

E, erguendo a minha cara de vilão — que já estava prestes a corar — em direção à lua, acrescentei de forma brusca:

E eu também... ficaria feliz se você viesse.

Hoo, hoo, o som de uma coruja ecoou.

...Pera aí.

Só percebi depois que terminei de falar, mas eu não acabei de dizer um negócio vergonhoso pra caramba?

Ou melhor, isso não faz parecer exatamente que eu tô dando em cima dela?

Não, não é isso, Haruka. Quer dizer, não é que não seja, mas é diferente. Tipo, eu definitivamente não disse isso com segundas intenções, sabe!

Gesticulando desesperadamente com as mãos, a cara de vilão tenta de todo jeito provar que não é um conquistador barato.

O Sistema Estelar continuou observando aquela dança tola de palhaço com o olhar completamente vago.

E mais, o rosto dela estava incrivelmente corado.

A mente dela estava em outro lugar.

Haruka-san?

Ah, desculpa, desculpa! Meu cor... o ar tava tão quente que a minha cabeça voou longe! Aham, não tem com o que se preocupar! Os sentimentos do Kyou-san chegaram direitinho em mim! Desculpa te fazer ouvir essas bobeiras!

A-Ah.

É verdade, já estamos em junho.

Mesmo sendo à noite, ficar conversando muito tempo do lado de fora pode ser perigoso.

Foi mal. Faltou consideração da minha parte. Desculpa ter feito você aguentar até o seu rosto ficar vermelho desse jeito.

Eh? O meu rosto tá vermelho?

Aham. Parecendo um polvo cozido. Pode até ter a chance de ser insolação (necchuushou)...

Ei, me dá um beijo (ne, chuu, shiyo) ──── pera, ehh!?

Haruka-san?

Por que ela se assustou aí?

Insolação é uma doença perigosa que qualquer um corre o risco de pegar.

Você tá bem mesmo?

T-t-t-t-tô super de boa, a Haruka-san tá super de boa. Provavelmente não é algo do tipo que coloca a vida em risco nem nada assim, então, é sério, eu tô de boa!

(Nota: o autor mandou um trocadilho genial aqui que só funciona no idioma de fábrica. O Kyouichirou falou “necchuushou” (insolação). Só que a Haruka tava com a cabeça tão nas nuvens que escutou “ne, chuu, shiyo” (Ei, vamos nos beijar )!)


 

Tomara que seja só isso mesmo, mas essa garota tem mania de se fazer de durona em umas horas bem esquisitas.

Só por precaução, vamos comprar uma água no quiosque antes de ir. E, depois, hoje eu te levo até em casa.

! N-não, eu fico muito feliz com o convite, mas é sério, não é isso, é que... como eu posso dizer, como eu posso dizer...!

O Sistema Estelar começa a bagunçar a própria cabeça freneticamente do nada.

Ela está sendo uma garota agitada demais já faz um tempo.

Já sei! Então, aproveitando a chance, eu quero dormir na casa do Kyou-san hoje!

O-opa.

Bem repentino, hein.

P-pode ser?

Não, por mim tudo bem. Ah, mas me deixa só mandar uma mensagem pra Nee-san primeiro, por precaução.

U-uhum.

Quando avisei no aplicativo de chat do celular que a Haruka ia dormir lá, ela respondeu na mesma hora: “Por favor, traga ela!”.

Ela deu o OK. Então, vamos?

...Legal!

Sob a luz do luar, o sol azul floresce com o seu melhor sorriso do dia.

Que bom.

No fim das contas, o rosto sorridente combina muito mais com você, Haruka.

O que foi, Kyou-san?

Estava pensando que o sol está lindo.

? Mas agora é noite, sabia?

É verdade. Pois é, a lua também está linda.

Não tive segundas intenções.

Porque a luz do luar que olhei naquele momento estava brilhando de forma verdadeiramente bela.

 


 

 


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