■ Capítulo 9: A Fera do Trovão Negro e a Garota que Sonha


  

 

​◆◆◆ ????? : Shooter Jupiter

 

Quando a garota abriu os olhos, o que havia ali era um mundo prateado por todos os lados.

A neve branca que caía silenciosamente.

Mesmo olhando ao redor, não havia nada, apenas uma terra de um branco puro que se estendia infinitamente.

Sem pegadas.

Sem sombras de pessoas.

Não sentia cheiro nem frio.

Isso é um sonho, a garota entendeu.

Mas, por que um sonho?

Não se lembrava de ter ido dormir.

A última memória era, se não se enganava────

(No décimo andar. Fomos todos juntos, e EU fui cortada pela HARUKA. Não doeu, mas EU tomei um susto, e depois...)

A memória embaçada aos poucos foi ganhando contorno.

Naquela hora, fizeram a garota acreditar que havia sido cortada.

Aquele clarão desferido pela espadachim companheira deles era, provavelmente, um blefe para despertar a fera do trovão negro.

Usar uma ilusão para arrastar o Keraunos para fora; eles são atores e tanto.

(...Ou seja, quem ME convidou para um lugar como este foi...)

Sem dúvida alguma, o seu próprio espírito, a garota presumiu.

Após duas semanas de selamento, ela secretamente esperava que aquele monstro tivesse se acalmado um pouco, mas infelizmente parece que nada havia mudado.

Usando como gatilho o breve momento em que ela foi enganada por um blefe tão óbvio ──── embora fosse realista até demais para ser chamado assim ────, o seu espírito alcançou a sua Manifestação.

Levantando o pretexto de punir os canalhas que traíram a sua filha, a esta hora, aquele espírito maligno devia estar mostrando as presas para os preciosos companheiros da garota.

Uma sensação de vazio que não sentia há muito tempo lançou uma sombra no coração da garota.

Pensando bem, aquele espírito maligno sempre foi assim.

Mesmo sem ela pedir, ele exercia violência.

Não importa o quanto ela pedisse, ele não parava com a violência.

Ficando louco de raiva sob uma interpretação conveniente e mentindo que era para o bem da filha, na realidade, aquela fera apenas causava destruição como bem entendesse.

Você está errada, Jupiter. Todas as punições que eu aplico existem para proteger o seu corpo.

Um som grave e abafado fez os tímpanos da garota vibrarem.

KERAUNOS...

Desde quando ele estava ali?

O único “negro” derramado naquele mundo prateado fala de forma gentil em direção à garota.

Fique tranquila. Este mundo é seguro. Não há nada que vá machucá-la.

Fala essas asneiras depois de se olhar no espelho. Quem mais ME machuca, sempre, é VOCÊ.

Que coisa estranha de se dizer. Eu, sendo o seu único aliado e a sua verdadeira família, nunca a machucaria, não é verdade?

Às palavras ditas pela fera do trovão negro, a garota sentiu uma forte indignação.

Único aliado. Verdadeira família.

Nenhuma única palavra estava correta.

VOCÊ tem ideia de quantas pessoas a sua fúria egoísta já machucou?

Minha? Essa fúria é sua, não é?

Com um tom de quem está repreendendo gentilmente, a fera do trovão negro diz.

Eu estou assumindo o papel de vilão para protegê-la das emoções negativas que a fazem sofrer. Não tenho a menor intenção de lhe dar uma ordem condescendente exigindo gratidão, mas gostaria que você tivesse, pelo menos, a consciência de que está na posição de quem está sendo protegida.

Dizer que isso é que era condescendente; as palavras para repreender a fera chegaram até a garganta, mas ela se conteve no último momento.

Por mais irritante que fosse, havia uma certa justificativa na autoafirmação hipócrita do Keraunos.

...Com certeza, é verdade. O fato de VOCÊ aparecer, é sempre MINHA culpa. EU não tenho a intenção de fugir desse MEU pecado.

A fera diante de seus olhos é um monstro atroz ao extremo.

A forma como ele espalha uma fúria irracional e destrói os arredores por puro egoísmo é a coisa mais repulsiva que existe.

Mas, quem sempre liberta o poder dessa fera é, afinal de contas, o coração da garota.

Raiva, lamento, tristeza, angústia, sensação de impotência, melancolia, ciúme, desespero ──── a torrente de emoções que se resume em estresse se torna o ponto de partida para o Keraunos se manifestar neste mundo.

Por isso, se quiser parar o surto do Keraunos, basta que o coração da garota esteja estável.

Se ela não sentir nenhum estresse e continuar sempre positiva, a fera do trovão negro não aparecerá.

Espadas, feitiços espirituais e estratagemas, originalmente, seriam itens inúteis; contanto que apenas o coração da Jupiter não se machucasse, todos os problemas seriam facilmente resolvidos.

Por isso, o fato de as coisas terem chegado a esse ponto é culpa dela; a garota admite isso para si mesma enquanto segura as lágrimas do seu coração.

Não posso perturbar o meu coração.

Um forte estresse se torna a vitalidade da fera.

Para diminuir o fardo dos seus companheiros na realidade, nem que fosse um pouco, a Jupiter continuou apaziguando as ondas revoltas do seu coração.

Suprimir as emoções como sempre e manter um eu inabalável ──── dizendo a si mesma que essa era a única resistência que a garota podia oferecer no momento...

Ah.

E então a garota encontrou. Inúmeras esferas flutuando ao redor da fera do trovão negro. A cor delas não era preta. Eram transparentes, quase como bolhas de sabão. Claramente estavam flutuando. Tanto fisicamente quanto na própria paisagem.

As MINHAS... memórias.

A Jupiter entendeu intuitivamente. Que aquilo era o que ela havia perdido. Que aquilo era o que ela vinha pagando como preço pelo poder.

Não me entenda mal.

O Keraunos disse.

Não estou tirando nada indiscriminadamente. Eu apenas removi as coisas que causariam estresse a você.

Tinham muitas memórias divertidas também.

É exatamente isso que não se deve fazer. A felicidade temporária gera infelicidade quando é destruída. De fato, você quase quebrou quando machucou aquela mulher chamada Eliza, não foi?

“Com que cara ele diz isso”, a Jupiter pensou. Quem machucou a ELIZA e todo mundo foi VOCÊ e EU, não foi?

Devolva.

Isso é algo de que você não precisa.

Isso não é VOCÊ quem decide.

É algo que eu devo administrar. O contrato deveria ser esse, Jupiter. ...Ainda que, provavelmente, você já não se lembre mais disso.

Sangue escorre dos lábios da garota. Ela sente que vai enlouquecer de tanta pena de si mesma, de sua própria incapacidade e de raiva.

Será que ela estava sendo tão, mas tão roubada assim? A sua liberdade, as suas memórias, a sua segurança; tudo, absolutamente tudo, era administrado por essa fera que se dizia seu pai, e ela aceitava isso em parte. O quão distorcido isso era, agora ela entendia muito bem. É justamente porque agora, tendo vivido com todos da família Shimizu, ela havia recuperado a luz do passado, mesmo que vagamente, que ela entendia. Ela estava sendo mantida como um animal de estimação. Pelo Keraunos, ela estava sendo mantida como um animal de estimação.

A MINHA fraqueza fez VOCÊ passar dos limites. A MINHA estupidez machucou todo mundo.

Minha pobre e amada filha. Você sempre será odiada por todos. Mas, apenas eu sou o seu aliado. No passado, agora e no futuro, eu estarei sempre, sempre ao seu lado.

Não há conversa; não, não há diálogo.

Diante dessa fera, a ética nobre ou a lógica coerente não fazem o menor sentido.

Não importa o que ela dissesse, ele interpretava da maneira que lhe convinha e, no fim, sempre concluía com: “Então eu protegerei você, minha pobre criança”.

EU sou imatura. EU não consigo jogar fora a raiva, nem a tristeza, nem a dor que sinto.

Ah, minha filha, por favor, valorize a si mesma. O mundo que a odeia é que é o mal. As outras pessoas, que a fazem chorar, é que são os inimigos. Eu jamais, em hipótese alguma, perdoarei todas as existências que perturbarem o seu coração. Jamais, e digo jamais!

Tudo o que ele faz é pura satisfação egoísta.

A esta fera que se autoproclama pai, faltava de forma decisiva a função de considerar o próximo.

O que essa coisa possui é apenas um desejo distorcido de controle chamado de “amor paterno”, e um impulso violento polvilhado com o açúcar branco da “fachada”.

São linhas paralelas, em todos os sentidos.

Os sentimentos da garota não alcançam o espírito, e o “amor” do espírito tocar o coração da garota é algo que, agora, seria impossível por toda a eternidade.

Por isso, este é um monólogo feito a dois.

Uma comunicação sem compartilhamento, um diálogo sem compreensão mútua.

EU sempre odiei VOCÊ.

Eu certamente destruirei aqueles que arruinaram o seu coração.

ME deixe em paz.

Minha amada filha solitária, apenas eu não a abandonarei.

Alguém como VOCÊ... não é... MINHA família.

Eu e você estamos ligados pela alma. É um laço verdadeiro, muito mais profundo e denso que qualquer conexão de sangue. Não se compara nem de perto com aqueles parentes repugnantes que a abandonaram. Isso sim, é uma verdadeira família.

............ERRADO. A MINHA família é────

Em um instante, um trovão negro como piche perfurou a garota.

AH, GUH...

Caindo de joelhos ali mesmo, a Jupiter se encolheu.

Dói.

Dói.

Dói.

Dói.

Em um mundo onde não se sente nem frio nem calor, apenas a dor se torna realidade e devora o corpo da garota.

O que foi que você ia dizer agora?

Apenas o tom de voz era calmo.

Porém, a textura da atmosfera que envolvia a fera estava claramente diferente.

Não me diga que você tinha a intenção de declarar que aqueles hipócritas são a sua família?

............E SE EU DISSER QUE SIM?

Rugido do trovão.

O raio negro ataca a garota sem lhe dar o direito de resposta.

────UGH, UHH...

Isso não é bom, não é nada bom, Jupiter. Você está sendo enganada por aqueles hipócritas superficiais. No começo eles se aproximam fingindo ser bons e, depois de conquistar confiança o suficiente, com certeza pretendem te usar até não sobrar nada. Pobre Jupiter. Os humanos que se reúnem ao seu redor são, todos, tooodos movidos por segundas intenções. Neste mundo, o único que realmente se preocupa com você, sou eu.

...O RESULTADO DE SE PREOCUPAR COMIGO, É ESSE TROVÃO NEGRO?

Pela terceira vez, o raio queimou a Jupiter.

Contorcendo-se em uma dor que parecia capaz de levá-la à loucura, a garota continuava completamente inexpressiva.

É o chicote do amor, Jupiter. Para que você não siga pelo caminho errado, eu endureço o meu coração e lhe aplico essa dor.

Com uma voz que parecia triste do fundo do seu ser, o Keraunos lançou o quarto trovão negro.

AGUH, UH, AH, AAAAAH!

Dói? É difícil? Está sofrendo? Ah, para mim também. Para mim também dói, Jupiter. Ter que machucar a minha amada filha... por que será que eu tenho que passar por um sentimento tão triste como esse? Eu gostaria de parar agora mesmo, eu quero que você esteja sempre sorrindo. Não é mentira. Eu desejo a sua felicidade do fundo do meu coração.

Obstinadamente, obstinadamente, o autoproclamado pai repetia as palavras gentis e a tortura do trovão negro.

Sem poder fugir, sem poder se defender e sem poder nem sequer morrer, a garota continuava a receber os raios negros.

Não havia nada que pudesse ser feito.

Aquele é um mundo composto apenas por mente e memória, e quem detém o controle real é o Keraunos.

Tudo ocorre conforme a vontade da fera.

Enquanto o coração da garota não for quebrado, esse inferno provavelmente continuará para sempre.

(............ISTO É, A PROVAÇÃO.)

Em meio a uma consciência nebulosa, a Jupiter alcança a iluminação.

Classe Divina Keraunos; o símbolo negativo para a garota e, ao mesmo tempo, a fera do trovão negro que carrega a faceta de um protetor.

Ficar frente a frente com o seu espírito é, com certeza, a luta que ela deve travar.

A subjugação de um espírito é o meio para alcançar a renovação do contrato.

Mostrar poder e fazer com que ele mude a forma como enxerga a contratante──── ou seja, é um ritual de reavaliação, era o que o líder da Party havia dito.

Se for assim, a Jupiter deve forçar o monstro à sua frente a reconhecê-la. E deve pegar de volta todas as memórias que continuaram sendo roubadas até agora. EU DEVO ME TORNAR EU MESMA.

...VOU DIZER QUANTAS VEZES FOR PRECISO. EU não sou SUA filha. EU sou A SUA contratante.

Os relâmpagos que caem dos céus pisoteiam o corpo inteiro da garota.

Por ser dentro de um sonho, o seu corpo não quebra.

Porém, apenas a sensação de que a sua carne está desmoronando é real e, a cada golpe repetido, o coração da Jupiter se enfraquece.

Infelizmente, você ganha cinquenta pontos. A resposta correta é: filha e, também, contratante. Você se lembra, não é? Você fez este contrato comigo naquela instalação repugnante.

Já que EU vou ser SUA filha, por favor, ME proteja.

────UGH

A bolha de sabão de memória que flutuava ao redor do Keraunos estourou. Em um instante, o passado vergonhoso ressurgiu na mente da garota.

Para sobreviver, para não ser descartada; o contrato com o diabo que ela assinou.

Ser protegida em troca de se tornar a filha dele──── naquela época, naquele exato momento, a garota havia jogado a sua dignidade no lixo.

Mas, já era o limite.

Já chega disso. De ser a SUA filha, e da miséria de ser protegida por VOCÊ.

Um filho ser protegido pelo pai é uma obrigação natural. Até hoje e daqui em diante, você pode continuar sendo a minha frágil e amada filha. Não, você deve ser assim.

Então hoje, aqui, EU rasgo esse contrato... ugh.

Incentivando o seu corpo que range, a garota levanta o corpo que estava prostrado no chão.

De bruços para quatro apoios; de quatro apoios para de joelhos; de joelhos para em pé.

Despedindo-se aos poucos do chão de branco puro, a Jupiter finalmente se reergueu por completo.

Isso não me agrada.

Porém, a fera do trovão negro não reconhece essa independência.

Um ato egoísta como se levantar por vontade própria nada mais é do que uma rebelião contra o pai.

Por isso, ele esmaga o mal pela raiz.

Ele a massacra de forma absoluta.

Acha mesmo que eu vou perdoar um absurdo como desobedecer ao pai e andar com más companhias? Você é muito ingênua. Ou será que está zombando de mim? Isso não é bom, não é nada bom mesmo!

Gouuu, gouuu, gouuu, gouuu

Com uma força oculta capaz de transformar facilmente um corpo humano em carvão com um único golpe, o ataque de raios sopra ferozmente como uma tempestade.

Respeitar os pais, valorizar os pais e obedecer aos pais; se não consegue fazer isso, você não é humana! É um ser inferior, pior que um animal! Ah, Jupiter. Eu não me lembro de ter criado você dessa forma. Uma filha amada, pura e inocente, que obedece ao seu pai de bom grado; essa é você. Essa é a nobre figura que você originalmente deve ser! Ei, por acaso você se esqueceu de uma coisa tão simples assim? Se for esse o caso, lembre-se; lembre-se agora mesmo, pois essa é a sua obrigação e o seu contrato; o único papel que você, que não consegue fazer nada, sendo inútil e sem valor, pode cumprir. Vamos, vamos, vamos! A sua fase rebelde acabou, caia no sono da sua eterna infância────!

Gouuu, gouuu, gouuu, gouuu, gouuu, gouuu, gouuu, gouuu

Para que não restasse nem uma única pétala da flor que floresceu no campo, o Keraunos continuou tocando os seus trovões negros.

Um pai é alguém que tem misericórdia de seu filho e o protege com a própria vida.

Mas o que fazer se esse amado filho estiver prestes a cair no caminho do mal, digno de repulsa?

A resposta já está decidida.

Ele continuará a aplicar o castigo até que o filho se arrependa.

Bater, chutar, jogar para fora de casa sem dar comida.

Não é abuso. É educação.

Ele deve gravar uma lição para que a criança possa andar pelo caminho certo.

Tudo isso é por pensar em seu filho.

Mesmo sabendo que será odiado, mesmo carregando a resolução de ser detestado, o Keraunos empunha o chicote do amor.

AWOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

Eu a amo; mais do que tudo, mais do que qualquer um, para sempre.

As centenas de trovões carregados de inúmeros sentimentos caíram sobre o corpo da garota sem errar um único golpe.

A neve explode.

Os relâmpagos dançam.

As nuvens voam.

Isso era verdadeiramente um cataclismo.

Raios capazes de alterar o clima e o terreno caíam incessantemente como uma tempestade torrencial.

Não importa que este seja o mundo espiritual.

Na verdade, é justamente por ser o mundo espiritual que é tão efetivo.

Esta é uma oportunidade única de matar apenas a mente da mestre sem correr o risco de matá-la fisicamente.

Para o Keraunos, é a chance de uma vida de criar uma “boa garota” conveniente e forjar essa relação.

Vamos, Jupiter. Você já refletiu devidamente sobre os seus erros? Se sim, que tal pedir desculpas com as suas próprias palavras? “Me desculpe. EU estava errada. A MINHA família é apenas o papai. Não preciso de mais nada. De agora em diante, EU vou mudar e fazer tudo o que o papai disser. EU só amo o papai. Contanto que EU tenha o papai, está tudo bem. O papai é tudo. EU vou me casar com o papai. Papapapapapapapapapapapapapapapa” ────Vamos, minha boa garota, faça o seu juramento sem errar uma única palavra. Se não me obedecer, continuarei com o castigo, entendeu?

Forçar a submissão logo após executar uma violência em escala sem precedentes.

Para o Keraunos, que conhece apenas a força e o amor paterno, esse era um xeque-mate que poderia ser considerado perfeito.

Porque, neste exato momento, o coração da Jupiter certamente estava prestes a quebrar.

(DÓI.)

O seu corpo estava chorando.

(É DIFÍCIL.)

Os seus sentimentos começavam a murchar.

(É SUFOCANTE.)

O saquinho de amuleto cai ao lado da garota caída. Ah, pensando bem, ela se lembrou.

Ele havia dito para ela abrir aquilo se o seu coração estivesse prestes a quebrar.

Inconscientemente, a garota estende a mão para aquele grande saquinho de pano e, mesmo sendo atingida pelos raios, ela o abre.

…………

Foi questão de um instante. Apenas por aquele instante, a garota até mesmo esqueceu que estava sendo banhada por raios de miasma e viu um espaço em branco.

O que havia lá dentro eram vários acessórios de resistência. Amuletos que todos prepararam para proteger a Jupiter.

Mas, o que tocou o coração da garota, não foi isso.

AH.

É papel. Havia uma carta dentro.

AH, AHH.

Era uma caligrafia que ela conhecia. Era uma promessa que ela não devia esquecer.

De novo

As lágrimas não paravam. Ah, entendi. Era isso mesmo.

Vamos cultivar flores juntas de novo.

Ela já havia sido, há muito tempo,

Vamos brincar juntas.

Perdoada por ela.

ELIZA.

As memórias perdidas falam com ela.

Os dias que passou junto dela, o tempo que passou na “Rosso(Espada de Gelo)&Blu(Flamejante)”.

E os seus companheiros de agora que a tratam tão bem.

A garota, ou melhor, EU não estava sozinha. Claro, aconteceram muitas coisas ruins e difíceis, mas ──── mesmo assim, EU era feliz.

EU era amada. Fui muito, muito amada por muitas pessoas. Ah, com certeza. Agora EU posso afirmar isso com orgulho.

────EU, EU sou a criança mais feliz do mundo.

............DE JEITO NENHUM.

O vento da nevasca enfraqueceu, e o que se revelou diante da visão que se abriu foi uma cena que fez até mesmo o Keraunos duvidar dos próprios olhos.

 

No centro do campo de neve onde centenas de trovões negros caíram, uma garota o encara de cima.

A sua respiração está por um fio.

 

Todo o seu corpo treme levemente, e as suas pernas não param de ter espasmos como um filhote de cervo recém-nascido.

Mas, mesmo assim, a garota não parou de ficar de pé.

Exposta à tirania do trovão negro equivalente a cem mortes, sem nunca se quebrar, de forma resoluta.

Um ponto de interrogação surge na cabeça da fera perguntando “por quê”.

Não tem como ela aguentar.

Não existe lógica que explique uma garota frágil sem nenhum poder suportar a sua fúria.

…………O que você fez?

À pergunta feita pelo Keraunos, a garota levanta o saquinho de pano amarrado no pescoço e responde.

Aqui dentro, TÊM UM MONTE de acessórios QUE ESTÃO DENTRO. Os tipos são TODOS acessórios de concessão de resistência por conversão.

Ele sabe.

Aquela é a fonte daquele enfraquecimento espertinho que está amarrando o seu poder manifestado no mundo real.

“Como ousam, insetos insignificantes, me atraírem para uma armadilha”, o seu “eu” do outro mundo está atualmente louco de raiva, mas isso é apenas uma história da realidade.

No mundo espiritual onde as almas se cruzam, as algemas da realidade não têm significado.

Tudo é como o coração deseja.

Como o Keraunos define a si mesmo como estando em perfeitas condições, neste mundo ele é assim.

Portanto, o enfraquecimento não deveria funcionar────.

Espere.

Então a fera percebe.

O que a garota acabou de dizer?

Acessórios de concessão de resistência por conversão... você disse?

Não é enfraquecimento, é conversão.

Acessórios que ganham resistência elemental na mesma proporção dos Status reduzidos.

No mundo real, o poder do Keraunos está, neste exato momento, caindo aos pedaços.

Mesmo estimando o máximo possível, os seus Status agora são cerca de 40% do normal.

Aproximadamente mais da metade dos seus Status está sendo usada para uma melhoria insignificante de resistência.

...Sério?

Uma dúvida surge na alma da fera.

Será que os acessórios que ela tem foram realmente preparados apenas para enfraquecer o Keraunos?

...Não me diga que...

Antes que a mente da fera formulasse as palavras, a garota de cabelos prateados revela a verdade.

As resistências obtidas por UM MONTE DE acessórios aqui dentro, são TODAS contra Miasma e Trovão. Ou seja, são COISAS para defender do trovão negro.

A resposta esperada veio.

Miasma e trovão, juntos, concedem resistência contra o trovão negro.

Entendo, sendo assim, seria possível defender-se de seus ataques.

Isso serve como uma explicação de por que a mente da garota não quebrou.

Mas a resistência é, no fim das contas, sobre a Jupiter no mundo real.

Para você neste mundo, os efeitos de acessórios não deveriam funcionar────!

É EXATAMENTE POR SER NESTE MUNDO, viu.

Movendo os lábios que pareciam pétalas, a garota transformou a verdade que havia agarrado em palavras.

Aqui é o mundo da mente. Um espaço onde a força dos sentimentos decide como as coisas são.

Como o Keraunos definiu que o “ele” deste mundo estava em perfeitas condições, o ele de agora está perfeito.

Então, seguindo a mesma lógica, o que aconteceria se a garota à sua frente definisse que “o poder dos acessórios que possuo é absoluto”?

A resposta já está decidida.

É isso que acontece.

As joias do saquinho de pano exibiram um poder que superava de longe os seus efeitos no mundo real, e protegeram a sua mestre das centenas de trovões negros.

EU entendi errado achando que aqui era o mundo governado por VOCÊ.

────Não se pode fugir, nem se defender, e nem sequer morrer.

────Um inferno onde você tem que continuar recebendo a tirania irracional da fera.

Quem decidiu isso foi, ninguém menos, que ela mesma.

EU sempre tive medo de VOCÊ. EU sempre ME agarrei a VOCÊ. TUDO O QUE ERA MEU era dominado por VOCÊ.

Permitindo o egoísmo da fera, enquanto ela mesma apenas se encolhia no chão.

A sua figura de agora há pouco era exatamente o símbolo de tudo o que havia acontecido até hoje.

Já que EU vou ser SUA filha, por favor, ME proteja.

Daquele dia em diante, no instante em que fez aquele desejo, a garota havia sido, corretamente, uma escrava da fera.

Lembrando-se dos dias amargos em que ela jogou fora a sua forma de ser como humana para ser protegida pelo pai, acreditando que era impossível vencê-lo e que a única opção era ficar sozinha.

Ela suprimiu suas emoções.

Ela desistiu do calor humano.

Ela odiou a si mesma e aceitou a solidão por toda a vida.

EU não consegui parar de depender de VOCÊ. EU não consegui proteger as pessoas que eram MEUS companheiros da SUA violência. E mesmo assim, EU... acabei desejando viver.

Não se pode fugir, nem se defender, e nem sequer morrer.

Ela não conseguia perdoar a si mesma, por ser tola, fraca e covarde, mais do que a qualquer um no mundo.

────Mas, aquelas pessoas aceitaram UMA PESSOA COMO EU.

Uma luz se acende em seu coração.

Uma emoção calorosa, que não perde o calor nem mesmo no mundo prateado da nevasca, impulsiona o corpo da garota.

A HARUKA, é a MINHA admiração. Forte, gentil e quentinha. Quando EU crescer, EU quero ser uma pessoa como ela.

────Vai ficar tudo bem, se é a Jupi-chan! Absolutamente, absooooolutamente vai ficar tudo bem!

Um passo.

Enquanto se lembra do rosto dela que se parece com o sol, ela começa a andar.

Keraunos está gritando alguma coisa, mas não importa.

Ansiando por aquela força de sempre olhar para frente não importa a situação, a garota deu um passo à frente.

A FUMIKA, foi a pessoa que se tornou a MINHA mãe. Ela ME fez uma comida gostosa. Ela tomou banho COMIGO. Quando EU ME sentia sozinha, ela dormia COMIGO NO MESMÍSSIMO Futon. Aquela pessoa, é mais gentil que qualquer um. ...EU fiz uma promessa com ela.

Não deixe de voltar para cá, viu. Estarei esperando com um monte daquelas comidas deliciosas que a Jupiter-chan tanto ama.

Dois passos.

Com a determinação de que com certeza retornaria para perto daquela pessoa que criou um lugar importante para ela, ela pisa firme na terra branca e prateada.

Pare.

Um trovão negro excepcionalmente grande voou em direção ao topo da cabeça da garota.

Uma fórmula mágica de grande escala capaz de distorcer o terreno ao redor.

Mas um truque barato desse nível, para a Jupiter de agora, não funcionaria nem um pouco.

A AL-NEE, é uma pessoa ESTRANHA. Apesar de ter um poder incrível, ela era MUITO fácil de se aproximar. O tempo que EU passo com ela é muito divertido. EU poderia ficar brincando com ela pra sempre.

Minha irmãzinha. A era atual não é de falsos dinossauros, mas sim de sapos. Afinal, diferente dos monstros dentro das máquinas de Game, sapos podem ser degustados com muito sabor.

Três passos.

Saboreando a conversa que teve com a sua irmã no papel enquanto pisa fundo no campo de neve onde caem os trovões negros.

O JAMES aceitou de bom grado o MEU pedido depois de sair do CLÃ. EU causei UM MONTE de problemas, mas até o fim... NÃO, mesmo depois disso, ele SEMPRE continuou se preocupando COMIGO.

Fez muito bem em me chamar! Eu, James Sillard, me juntarei às fileiras de vocês com muita alegria e coragem!

Quatro passos.

Colocando um sentimento de gratidão do fundo do coração ao líder de seu antigo lar que atendeu a um pedido tão absurdo.

A ELIZA, a ELIZA SEMPRE cuidou de MIM com muito carinho. Mesmo quando EU acabei esquecendo, ela continuou lembrando SEMPRE, SEMPRE.

Queria pedir desculpas a ela. Queria curar as feridas dela. E então plantar flores juntas de novo.

As duas iriam conversar muito, muito.

Pare, pare, pare.

A ordem da fera é emitida acompanhada de incontáveis trovões negros.

Porém,

NÃO OUÇO.

Não ouve, e não faz efeito.

Nem as centenas de trovões, nem a voz da fera cheia de pressão funcionam na garota de agora.

Ela tocou o brilho.

Ela conheceu o calor.

Ela achou divertido.

Ficou feliz que eles correram para ajudá-la.

E o motivo de ter conseguido dias de sonho como esses foi────

 

◆◆◆

 

Aquela garota era solitária.

Aquela garota estava presa.

Aquela garota estava sempre chorando.

Foi vendida pelos próprios pais de sangue e transformada em cobaia.

O novo pai que arranjou usava de violência não importava onde estivesse.

Machucou muitas pessoas.

Foi evitada por muitas pessoas.

Todos, sem exceção, negaram a garota.

A própria garota, também, odiava essa versão de si mesma.

Você não tem culpa de nada. Quem está errada é esta sociedade.

Com o tempo, a garota foi caindo.

Se matasse alguém, a elogiavam aos montes; se quebrasse alguma coisa, ganhava o que queria.

Os valores se transformando, o senso de ética se perdendo.

A boneca vazia, que entregou sua mente e alma, afundou na loucura conforme o desejo dos adultos.

Por isso, ei, CHOREM bem alto. Exponham a SUA desgraça para DIVERTIR essa JUPITER-sama. Essa é a única EXPIAÇÃO permitida para VOCÊS, INCOMPETENTES e SEM VALOR. KYAHA, KYAHAHAHAHA, KYAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

Machucarei na mesma medida que fui machucada.

Destruirei na mesma medida que fui destruída.

Quanto mais eu odiar, mais forte serei.

Quanto mais eu enlouquecer, mais fácil será.

Odeie, odeie, odeie, odeie.

Enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça.

Odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie.

Enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça.

Odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie, odeie.

Enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça, enlouqueça.

EU ODEIO TUDO, EU ESTOU mais LOUCA que QUALQUER UM! KYAHA, KYAHAHAHAHA, KYAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

“Trovão Negro da Ira” Jupiter.

Vendida, usada, controlada, uma patética boneca dançante que apenas interpretava a “boa garota” conveniente para os adultos.

A garota, que continuou se matando por dentro, continua dançando um pesadelo do qual não pode acordar.

Até o momento em que alguém a mate, o teatro da loucura não acabará.

Esse era o destino da garota.

Essa era a providência da garota.

Esse era o fim da garota.

E esse roteiro deveria ser absoluto.

 

◆◆◆

 

E mais um conselho. Se o Velho do Trovão começar a resmungar alguma coisa, manda um soco com tudo no saco dele.

SIM, VOU TENTAR, KYOUICHIROU.

Apertando o seu pequeno punho, ela entra na guarda da fera bem diante dos seus olhos.

Não está ouvindo eu mandar você paraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar────────────────!

Ela não escuta.

O motivo é que a Jupiter estava ocupada.

Chegou a hora de colocar em prática os ensinamentos do seu grande benfeitor, que a levou para debaixo do sol.

Não há tempo para se importar com a histeria de uma fera barulhenta.

Trovões negros jorram do chão ──── não faz efeito.

O Keraunos enlouquece de raiva sem aprender a lição ──── não tem significado.

As garras e presas da fera voam mirando na garota ──── não alcançam.

EU não tenho mais medo de VOCÊ. Para provar isso, EU vou CASTRAR VOCÊ.

Proferindo o que é uma sentença de execução para os MACHOS, a garota abaixa bem a cintura e decola.

SOCO na virilha do MACHO barulhento. Ou seja, EU estou dizendo pra VOCÊ calar a boca.

Como esperado, aquilo estava lá na parte inferior do abdômen.

Com certeza, porque a Jupiter decidiu que ia socar, aquilo apareceu.

Este é o mundo dos sonhos.

Um espaço onde a existência muda conforme a vontade.

Não importa se o Keraunos na vida real tem ou não tem aquilo.

Pois, na virilha dele, que está aqui e agora, aquilo com certeza está pendurado.

Não brinque comigo, uma rebelião como essa, jamais permitirei! Ouça o que o seu pai diz, Jupiter!

DE JEITO NENHUM. A MINHA vida, sou EU quem decido. EU não serei o cachorrinho de ninguém, NUNCA MAIS.

O punho fortemente fechado é mais duro que um diamante.

Por isso, o SOCO também é nível DIAMANTE.

O MEU SOCO é de DIAMANTE. A SUA coisinha minúscula, EU vou destruir e esmagar em mil pedaços.

Pare, pare, pareeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!

EU NÃO──── PARO!

O uppercut disparado com um turbilhão de emoções é a prova absoluta da despedida e de um novo começo.

A roda do destino imposta sobre a garota desmorona a partir deste exato momento.

CASTRAÇÃO, CONCLUÍDA.

O órgão masculino explodindo.

A relação de poder se invertendo.

E assim, a rachadura da rota IF começa a se espalhar.

O perfil daquela garota, que mandou o símbolo da fera pelos ares com apenas um soco, era 100% “humano”.



 

 


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