■ Epílogo ~ As Cerejeiras que Caem em Ouka

  

​◆ Casa da Família ShimizuQuarto de Kyouichirou

 

Uma semana se passou desde a batalha contra o Mutante(Illegal) e, quando as cerejeiras da cidade de Ouka estavam em plena floração, uma mensagem chegou no meu smartphone.

〈・Haruka-san: Ei! Shimizu-kun! Vamos sair!

 

A remetente era Aono Haruka. Após aquela batalha, já que tivemos a chance, trocamos contatos, e felizmente ela me mandou uma mensagem primeiro.

“Até que eu subi na vida para receber uma mensagem de um personagem de DunMagi (e ainda por cima um convite de uma garota)”, pensei, sentindo uma profunda emoção enquanto enviava a resposta.

 

〈・Shimizu Kyouichirou: Entendido. Quando é melhor?

〈・Haruka-san: Uun... Então, vamos sair agora!

 

Que pressa, hein, ei.

 

〈・Shimizu Kyouichirou: Estou livre até a hora do jantar. Onde a gente se encontra?

〈・Haruka-san: Vamos na entrada da Dungeon Gesshoku! Pode ser às dez e meia?

Entendido.

Confirmei que apareceu o aviso de “lido” e fechei o aplicativo por enquanto.

A hora é oito e meia. Ainda tenho tempo para tomar um banho rápido.

 

​◆

 

Depois de lavar o suor no banho, enquanto eu secava o cabelo, uma Ura Boss bem conhecida apareceu.

Vai sair?

Ah, sim. Vou me encontrar com a Aono Haruka.

Eu expliquei a situação levemente para a Al.

Como eu enfatizei o fato de que fui convidado por ela, Al desconfiou de mim tão abertamente que não tive escolha a não ser mostrar o aplicativo de mensagens para ela.

Entendo. Ficou muito bem feita, essa montagem de imagens.

E então, dessa vez, fui suspeito de falsificação.

A relação de confiança entre mim e a Senhorita Ura Boss continua inabalável hoje também.

No entanto, isso é uma oportunidade, Master.

Al disse isso tirando do bolso interno da roupa um onigiri do tamanho de um punho. A combinação de uma linda garota pura e branca com um onigiri gigante era surpreendentemente desequilibrada.

Se formos acreditar no papo furado do Master, pelo menos Aono Haruka deve ter sentimentos positivos em relação ao Master.

Papo fura...! ...Ah, pois é.

Sendo assim.

Al engoliu o onigiri inteiro com seus lábios que pareciam pétalas de rosa e, com um rosto sereno, puxou mais um onigiri para repetir a dose.

Antes que ela seja recrutada por um Grande Clã, vamos puxá-la para a nossa facção.

Verdade.

Concordei prontamente com a proposta de Al.

Afinal, nós contorcemos o destino cruzando aquela linha entre a vida e a morte. Quero a todo custo evitar um final onde alguém passa a perna na gente e rouba a nossa presa enquanto estamos marcando bobeira.

Até pra mim, que era um zé-ninguém, estão chegando propostas de recrutamento. Sendo o gênio da prestigiosa família Aono, a essas alturas com certeza deve ser uma enxurrada sem fim.

Com certeza.

Sim. Para o nosso problema, neste exato momento, eu e Aono Haruka estamos sendo tratados um pouco... ou melhor, muito como celebridades.

Bem, considerando o que nós realizamos, não é nada estranho.

Derrotar um Mutante(Illegal) na sua primeira Dungeon (e ainda por cima com equipamentos de suprimento) é provavelmente um feito sem precedentes na história de DunMagi. Se um prodígio desses aparecesse no jogo, acho que até eu ficaria bastante surpreso.

Além disso, ter essas conquistas avaliadas e nós dois passarmos no Exame de Aventureiros com as melhores notas da história, bem, dá para entender.

────Dá para entender, mas.

 

Surge um Rookie de nível super monstruoso

O Newbie sem precedentes que derrotou um Mutante(Illegal) durante o Exame de Aventureiros

As novas crianças prodígios do Dungeon Dream

Será este o nascimento do detentor de Revelação Divina mais rápido da história, superando em muito o recorde daquela “Renge Kaika”?

 

Eles não precisavam nos exaltar de forma tão grandiosa assim, né?

Eu não queria chamar tanta atenção.

Que frase mais vergonhosa, parece a personificação da carência por atenção. Cheira a virgem, então, por favor, pare com isso.

Não me chame de vergonhoso! Diga que é um clichê de bom gosto! E, aliás, que história é essa de ‘cheira a virgem’!? Eu afirmo categoricamente que não estou cheirando a nada!

Perdão. O Master era o próprio virgem em si, não é?

Ei, você conhece a palavra ‘tato’!?

A Al-san estava no auge de sua forma.

 

​◆

 

Cortando a conversa com a Ura Boss num momento adequado, segui direto para a cozinha.

Toc, toc, toc, o som rítmico e agradável de rabanete sendo cortado. Um cheirinho bom de missô também flutuava no ar, tornando aquele espaço realmente aconchegante.

Hum-hum-huhuhuum

A dona daquele espaço feliz, a minha irmã, estava cantarolando de forma muito bem-humorada.

É um anjo. Ali estava um anjo inquestionável.

Parece estar se divertindo, Nee-san.

Hyah!?

A Nee-san soltou um gritinho cômico.

Parece que eu a assustei. Apenas sinto vergonha da minha atitude precipitada de tê-la assustado, mas, deixando isso de lado, a Nee-san assustada também era muito fofa.

A-ah, não é isso, Kyou-kun. Eu só estava pensando em aumentar um pouquinho o meu repertório de refeições e resolvi fazer um Kenchin Udon, não é que eu estivesse tentando fazer um lanchinho escondida antes do almoço nem nada do tipo...

? Ah, sim. Entendi, eu acredito em você.

Como eu sou o Fiel número um da Religião da Nee-san, acreditei nas palavras dela sem nem pensar muito.

Se a minha irmã disser que é branco, mesmo que na verdade seja preto, para mim torna-se branco.

Humm, e então, Kyou-kun... nossa, você está um pouco arrumado. Vai sair para algum lugar?

Sim. Vou me encontrar com uma amiga.

Eh!?

Toton. A mão da Nee-san que movia a faca parou.

Kyou-kun, você fez um amigo?

Uma relação onde pelo menos sou convidado para sair───── espera, uwaaah!?

Antes mesmo de eu terminar de falar, o corpo macio da Nee-san envolveu todo o meu corpo. ......espera, eeeeeh!?

U-Umm, Nee-san, por que o abraço do nada!?

Mas, mas! O Kyou-kun, que até hoje não tinha feito um único colega para sair, conseguiu um amigo! Como sua irmã mais velha, como eu poderia não comemorar isso!?

Sério isso!?

Eu já tinha uma leve suspeita, já que não havia nomes de ninguém além de parentes no smartphone, mas então era isso mesmo, hein.

Kyouichirou, você é realmente...

Você foi muito bem, você se esforçou muito, Kyou-kun. A Onee-chan tem muito orgulho de você.

A-ah, obrigado, Nee-san.

A mão calorosa da Nee-san acariciava gentilmente a minha cabeça.

Me sentindo em paz com aquele calor, eu simultaneamente percebi uma coisa.

Um abraço apertado. A Nee-san, que é dona de um corpo com proporções encantadoras e muito abençoadas. E essa postura.

U-Umm, Nee-san. Eu sinto que isso é um pouco perigoso...

? O que tem de perigoso? Elogiar um irmão mais novo que cresceu esplendidamente é o dever da família! Yoshi-yoshi, você se esforçou muito, Kyou-kun.

A Nee-san afagava a minha cabeça com um nade-nade, como se estivesse me mimando.

Como eu já sou mais alto que ela, pelo fato de ela estar me acariciando enquanto fica um pouco na ponta dos pés, acaba encostando mais fundo... aquilo.

Ultimamente o Kyou-kun tem sido muito esforçado em várias coisas, não é? A Onee-chan está muito feliz.

Algo muito macio se apertava firmemente contra a área do meu peito.

Uma textura e elasticidade de marshmallow que era transmitida mesmo através das roupas. Aquilo era, sem dúvida, uma sensação digna de ser chamada de paraíso.

 

Cidade das Dungeons Ouka27ª Dungeon Gesshoku Entrada

 

Escapando aos prantos do paraíso, segui com passos incertos até o meu destino.

Sinceramente, não me lembro do caminho.

Minha cabeça estava constantemente preenchida com os “atributos” macios da Nee-san, e para ser franco, quando dei por mim, já estava parado na frente da entrada da Dungeon.

Nee-san, ah, a Nee-san...

Fico aliviado por ela parecer bem, mas, ao mesmo tempo, tenho consciência da fragilidade disso.

A maldição da Nee-san ainda não foi quebrada.

Graças à arte de selamento da Al não há perigo imediato, mas a maldição letal continua no corpo da Nee-san.

Se por acaso eu fizer besteira e morrer, o contrato com a Al será desfeito, e inevitavelmente a maldição voltará a corroer a Nee-san.

Haa...

Um suspiro pesado escapou sem querer.

O problema é que eu mesmo também estou carregado de Death Flags.

Um cara que age com arrogância para cima do protagonista, acaba levando uma surra, e no final morre devorado por um boss que aparece do nada──── Shimizu Kyouichirou é o homem que tem à sua espera um fim patético e sem salvação como esse.

A segurança que depende da vida de um homem cujo destino é morrer com certeza absoluta em todas as rotas tem um valor de “só um pouco melhor do que nada”.

Por isso, é necessário um método de solução que não dependa da arte de selamento da Al──── ou seja, conseguir o Elixir da Cura Panaceia, mas isso também é uma tarefa dificílima do jeito que estou agora.

O boss da Dungeon Tokoyami(Trevas Eternas), onde o Elixir repousa, não é um inimigo ingênuo como aquele Shinigami.

Ele não tem presunção, não luta de uma forma que recebe os ataques inimigos à toa, e além disso, tanto o poder de fogo quanto a velocidade são specs de um patamar completamente diferente do desgraçado do Shinigami.

Se eu desafiasse um oponente desses sozinho, o máximo que conseguiria seria ser repelido com facilidade. Mas será que seria uma boa ideia envolver os personagens de DunMagi nisso? Não posso dizer que isso seja uma regra geral.

Por exemplo, se uma pessoa que originalmente tinha o papel de ajudar o protagonista na história original morresse por causa de um erro meu, o que aconteceria?

Ou, mesmo que não morresse, se sofresse um ferimento grave e fosse forçado a se aposentar como aventureiro?

O protagonista é a existência que salva o mundo. Eu também quero evitar──── não, devo evitar ações que atrapalhem, mesmo que indiretamente, a jornada dele.

Sim. E foi exatamente por isso que eu escolhi Aono Haruka.

Uma artista marcial de um nível que ultrapassa a excelência para se tornar uma super-mestre e, ao mesmo tempo, uma garota cujo destino original era a morte.

Sendo ela, além de ser um poder de combate imediato, mesmo que eu a adicione ao grupo, isso não afetará negativamente a história original──── essa operação de resgate cheia de segundas intenções, apesar de ter enfrentado alguns imprevistos, chegou ao fim(Happy End) com o resultado de um retorno seguro.

Porém, talvez eu deva chamar isso de preço do sucesso, nós acabamos chamando atenção demais.

Antes que ela seja recrutada por um Grande Clã, vamos puxá-la para a nossa facção.

As palavras da Al de agora pouco cravam no meu peito.

O aviso da Ura Boss não é de forma alguma um medo infundado.

Uma espadachim inigualável produzida pela prestigiada família de espadachins Aono, e uma super Rookie que ceifou um Mutante(Illegal) na sua primeira Dungeon.

Duvido que os Aventureiros deixariam um talento desses em paz por muito tempo.

Ou melhor, a possibilidade de ela já ter assinado um contrato com algum clã grande não é nem de longe pequena, diria até que é bem provável.

Ooooi.

Tipo, isso é extremamente ruim. Falhar em conseguir a Aono Haruka pode, em última instância, resultar em um Checkmate.

Ooooi, Shimizu-kuun!

Nas Lore de DunMagi, a Aono Haruka aparentemente admirava aquela “Renge Kaika” e queria se tornar aventureira por causa dela. Isso quer dizer que se houver um convite do clã liderado por “ela”, há uma alta probabilidade de ela aceitar facilmente...

Shimizu-kun?

Ué...? Ferrou. Será que eu demorei demais? Será que fiz uma burrada gigantesca?

Quanto mais eu penso, mais suo frio, uwa, o que eu faço?

 

Shi-mi-zu-kun!

Nuowaa!?

 

Quando dei por mim, o rosto da Aono Haruka estava ali do nada. O rosto dela, que me observava a uma distância que ignorava totalmente o espaço pessoal, era lindo e muito atraente──── espera, não é hora de pensar nisso.

Ehh, e aí, e aí, Aono Haruka-san. Parece que o tempo está bom hoje também. Ah, e o seu rosto está muito perto.

E aí, e aí, Shimizu-kun. A chuva de pétalas de cerejeira dança lindamente, é uma bênção para os olhos. ...Isso é porque o Shimizu-kun estava me ignorando, não é?

Por enquanto, peço desculpas por estar viajando na maionese e dou um passo para trás.

Foi mal. Eu estava viajando um pouco.

Hã, o quê? Estava imaginando como seriam minhas roupas casuais?

Ah, sim. Eu acho que combinou com você, esse look.

Eu olho para as roupas dela e digo a minha impressão sincera.

A combinação de bege com um azul opaco é bem legal, né. Dá um ar mais adulto, ou melhor, mais calmo. Graças a isso, os babados ombro a ombro não chamam atenção de um jeito ruim, tá tudo harmonizado e bem legal.

E, embora seja estritamente uma opinião pessoal, como eu imaginava, o “azul” combina com Aono Haruka. Não é um azul de tom frio que te faz sentir frio, mas sim um azul refrescante como um céu limpo. O azul adequado para Aono Haruka é esse tipo de azul.

Ugh, não achei que você ia me elogiar tão diretamente assim. Shimizu-kun, você é bom, hein.

Um cavalheiro de Galge de primeira linha sempre tem as antenas ligadas para esse tipo de coisa.

Galge? Cavalheiro?

Não é nada. Mais importante, o que vamos fazer? Quer tomar um chá em algum lugar, ou tem algum lugar que você queira ir? Escolha o que preferir.

E então, Aono Haruka soltou um “Aah” olhando para o céu.

Antes disso, posso falar rapidinho?

Ela fez essa afirmação com um sorriso como se estivesse mudando o clima.

Não tem problema, mas... o que foi?

Não, hahaha, não é nada demais. É que eu pensei em te agradecer direito uma vez.

Quando ouvi essas palavras, por um instante, não fiz a menor ideia do que ela estava falando.

Não me lembro de ter feito nada para ser agradecido.

Qual é? O Shimizu-kun me salvou, lembra?

Sendo apontado assim, soltei um “ah” e percebi.

Sinto que faz muito tempo, mas eu definitivamente salvei a Aono Haruka.

No entanto, aquilo foi uma operação de resgate com um olho nos nossos planos futuros e, mais do que isso, foi um ato extremo impulsionado pelo tipo mais sujo de raiva de um usuário, apenas porque eu não gostava do desenrolar da História Canônica.

Egoísta e com segundas intenções.

Por isso, esse não é de forma alguma um episódio pelo qual eu deva receber gratidão.

Você não precisa se sentir em dívida. Eu também fui salvo por você, estamos quites.

Não, não é verdade.

No entanto, Aono Haruka negou. Balançou a cabeça duas vezes com uma expressão cheia de convicção.

Saaa, a chuva de pétalas de cerejeira caiu da Grande Árvore do Gesshoku.

No centro de um mundo de fantasia que parecia ter apenas o conceito de beleza colado sobre ele, a garota da presilha azul falou com um tom gentil: “Sabe...”

A minha casa, sabe, é um lugar muito sufocante. Pela cidade dizem que é uma família prestigiosa e tal, mas na verdade, eles só se importam com tradições e amarras, e a cabeça de todos, de absolutamente todos, é só cheia de pensamentos sobre ‘Espada’.

Essa forma de viver era muito entediante, ela disse.

Eu... como eu posso dizer, eu pego o jeito das coisas razoavelmente rápido, sabe. Expectativas e a pressão daqueles ao meu redor? Eu conseguia corresponder juntando todas essas coisas problemáticas.

Uhum.

E quando eu fazia isso, todos ao meu redor esperavam mais e mais, e como eu sou uma criança, eu apenas me esforcei do jeito que me mandaram. ...E aí, um dia, de repente me disseram. ‘Não há mais nada que possamos ensinar a você.’

As palavras que ela falava não eram tão leves quanto as pétalas de cerejeira nadando no céu.

Certamente havia muitos sentimentos complexos entrelaçados ali, e a própria Haruka provavelmente não conseguia separar tudo de forma lógica.

Por isso, concordei brevemente com a cabeça e recebi os sentimentos dela em silêncio. Esse não é o tipo de problema que tem uma resposta correta. O simples fato de ouvir é o necessário.

’Não temos o que ensinar’? A única coisa que se pode ensinar a uma criança é como cortar? ‘Adequada para ser a sucessora’? O que conseguir balançar muito bem um pedaço de ferro tem a ver com a humanidade que a pessoa cultiva? E por causa disso, pessoas que são muitos anos mais velhas do que eu se juntam para reconhecer que não conseguem fazer algo que eu faço e curvam as cabeças dizendo ‘Por favor, ensine-nos o caminho da espada, próxima chefe da família’. Sabe, isso é... será que isso é algo tão feliz assim para se comemorar?

O tom da voz dela escureceu um pouco.

Acho que ela não quer dizer que os adultos são patéticos.

Talvez a essência seja o oposto, ela deseja que os adultos, ou melhor, que o mundo, seja mais amplo.

O mundo é tão vasto que é impossível pisar em tudo, e os adultos são pioneiros e guias incríveis──── um ideal conveniente desses, em qualquer lugar do mundo, não passa de um sonho de criança.

Porém. No entanto. Crianças sonharem não deve ser algo ruim.

Mesmo sabendo que vão acordar, os adultos não teriam o direito de roubar os sonhos das crianças usando isso como desculpa, não é?

Porque eu consigo, porque eu posso, porque eu sou a mais forte──── usar lógicas tão egoístas como essas para quebrar os sonhos e admirações de uma criança e, no fim das contas, ainda pedir para ela guiá-los?

Uma coisa dessas, esse tipo de coisa é...

Egoísmo da parte deles, né.

É, tem razão.

A garota aperta os olhos ligeiramente. Ela também deve saber. Sabe que esse sentimento que guarda, que se assemelha a uma decepção, é uma lógica que só faria sentido na cabeça de uma criança.

Ou talvez, que essa seja a norma parecida com um imposto cobrado daqueles que são fortes.

Mas sabe, um dia eu encontrei. Algo em que até alguém como eu talvez conseguisse ser apaixonada.

Com um sorriso de quem apresenta seu próprio tesouro, ela me contou que isso era o especial de Aventureiros que viu na televisão.

Eu achei super legal. A figura dos aventureiros cooperando com os companheiros para derrotar inimigos gigantes e desbravando com todas as forças lugares que ninguém nunca pisou antes era muito deslumbrante, brilhante...

Ela disse que aquilo certamente foi uma salvação divina.

Foi muito empolgante. Fez meu coração bater super forte. Fiquei tão fissurada que conseguia afirmar do fundo do coração que ‘Eu nasci para ser uma aventureira~’, e quando percebi, estava assistindo vídeos todos os dias, participando de reuniões de clãs para fãs... sim, eu fui muito, muito feliz.

Era a coisa mais natural do mundo que alguém como ela começasse a aspirar se tornar aventureira também.

Eu implorei pra minha mãe, preenchi muitos papéis, cumpri ordens chatas... e quando finalmente consegui chegar até aqui, eu quase chorei um pouquinho.

Para onde ela olhava, a Grande Árvore do Gesshoku estava lá, parada com as suas portas abertas.

Parece que houve uma leve auditoria por causa do aparecimento do Mutante Illegal, mas ainda assim, a Dungeon Gesshoku operava normalmente como uma dungeon para iniciantes hoje também.

O milagre que nós agarramos estava, sem dúvida, aqui.

Eu fiquei feliz e, apesar de ter ficado um pouco decepcionada também, como imaginei, foi muito divertido. E aí, quando eu tava empolgada até demais, fui capturada por um monstro estranho que apareceu do nada. Ah, achei que ia dar ruim, mas então, dessa vez, apareceu um herói incrível.

E, um outro milagre, olhou para mim e sorriu.

 

────E ele é você, Shimizu-kun.

 

O vento sopra. Um vento gentil e quente de primavera que acaricia as bochechas.

Você me salvou. Ouviu meus caprichos e lutou junto comigo. Foi muito divertido e fiquei muito feliz. Um inimigo forte e companheiros confiáveis para enfrentá-lo──── lá estava, com certeza, o meu sonho.

…………

A língua enrola e não se move.

O rosto dela rindo de forma tão feliz era tão deslumbrante que...

Por isso, Shimizu-kun. Obrigada. Se você não tivesse vindo, com certeza eu não estaria aqui. Acho que eu teria ido para um lugar escuro e solitário sem nunca conhecer a verdadeira empolgação e frio na barriga.

Mas por alguma razão meu peito apertava────

Obrigada por me ajudar. Obrigada por me salvar. Agora, sabe, eu consigo pensar do fundo do meu coração: ‘Ainda bem que estou viva~’. Isso é, de verdade, de verdade mesmo, algo maravilhoso e que me deixa muito feliz.

Com essas palavras, eu não aguentei mais.

Eu olho para o céu. A minha visão embaçou, e eu não conseguia enxergar direito as pétalas de cerejeira balançando.

Ainda bem que estou viva... você disse?

Você, que pediu para a própria irmã mais nova te matar naquele mundo, está dizendo uma coisa dessas?

Isso... isso não é trapaça?

Porque se você me disser algo assim, eu vou ser obrigado a me orgulhar de mim mesmo.

Mesmo que haja futuros difíceis nos esperando pela frente, eu não vou poder desistir.

Se você me diz que está feliz por estar viva, eu vou conseguir me levantar quantas vezes forem precisas.

Eu estava com medo esse tempo todo.

Será que estava tudo bem mudar o futuro pelos meus próprios motivos?

Será que, para começo de conversa, o futuro sequer vai mudar?

E você, e você, destruiu tão facilmente essas minhas incertezas... Sério, é sério────

 

Muito obrigado... essa deveria ser a minha fala, sua grande idiota.

Com uma voz trêmula, carregada pela brisa de primavera, eu solto o meu blefe de durão com todas as forças.

Hã? Desculpe, você disse alguma coisa agora?

Quem sabe... mas mudando de assunto, Aono Haruka-san────

Só Haruka tá bom. Fica mais fácil de chamar, não é?

Então me chama de Kyouichirou também. E aí, Haruka-san.

Também não precisa do ‘san’. Nós temos a mesma idade, então vamos ser mais relaxados.

...Haruka.

O que fo-oi, Kyouichirou?

Nishishi, e a garota de cabelos pretos sorriu, mostrando seus dentes brancos.

O que é isso? O meu rosto está quente.

Consigo sentir as minhas bochechas corando com uma força tremenda.

...Não, aguenta firme, Kyouichirou. Se eu ficar com vergonha por uma coisinha dessas, isso não vai acabar nunca.

Na verdade, bom, eu tenho uma proposta, ou melhor, um pedido.

...Sim.

Segurando desesperadamente a coceira que me dava no coração, coloquei força no fundo da garganta.

Puxei o ar e, sentindo uma vergonha que parecia a de uma declaração de amor, fiz meus sentimentos vibrarem.

 

Sabe, faça, faça uma Party comigo, por favor!

 

O meu cérebro pega fogo. Uma tensão diferente da que senti quando falei com a Al pela primeira vez faz as minhas pernas quererem vacilar.

Não vai ter a segurança de um Grande Clã, e vai ser o início do zero em tudo. Com certeza, devem haver muitas coisas que vão acabar te dando trabalho.

Mesmo assim, mesmo assim, eu continuo a tecer as minhas palavras. Continuo a tecê-las.

Mas eu te prometo apenas isso. Eu jamais vou deixar você ficar entediada. Vou dedicar a minha vida inteira para continuar provando que este mundo está cheio de sonhos e esperanças. Por isso, por isso────

Antes que as próximas palavras pudessem sair, algo quente envolveu a minha mão direita.

......Sim. Conto com você.

As duas mãos de Haruka envolveram gentilmente a minha palma.

Ela estava sorrindo.

Sorria com uma expressão de extrema felicidade, mas com um rosto que parecia prestes a chorar só um pouquinho.

Como posso explicar... eu estou tão feliz agora.

Por isso, eu também acabei sorrindo, contagiado por ela.

É, eu também.

Sob as cerejeiras em plena floração, nós começamos a trilhar a Rota IF.

Uma jornada desconhecida que ninguém nunca viu.

Com certeza haverá muitas coisas difíceis e dolorosas pela frente.

Mas esse caminho, com certeza...

Capítulo 1 – Fim








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