■ Capítulo 8: Aono Haruka

 ​◆◆◆ Ano Imperial 1190Primavera: Cidade das Dungeons Ouka27ª Dungeon GesshokuEclipse Lunar Primeira Camada: Usuária de Arte da Espada: Aono Haruka

 

A vida de Aono Haruka era, em grande parte, feita de tédio e conformismo.

Nascida em uma família prestigiada, com talento e um futuro promissor.

Por causa disso, as pessoas ao seu redor criavam expectativas e, ao mesmo tempo, sentiam inveja, mas ela passava os dias lidando com isso de forma pragmática, pensando: “Bem, como sou privilegiada nessas áreas, não tem jeito”.

Privilegiada. Alvo de expectativas. E possuidora de capacidades.

Por isso...

Un, entendi. Eu vou me esforçar.

Por isso, a garota impunha a si mesma um esforço muito maior do que as outras pessoas, e continuava a apresentar resultados que superavam as expectativas ao seu redor.

Expectativas sem limites.

A pressão que aumentava dia após dia.

Em um ambiente que uma criança normal definitivamente não conseguiria suportar, ainda assim, Haruka não quebrou.

Não foi porque as pessoas esperavam isso dela.

Ela sentia que essa dor era um dever. Que, se ela era capaz de fazer, então ela deveria fazer.

Dessa forma, ela definiu e impôs a si mesma as regras de sua própria condição como alguém privilegiada.

Escrevendo dessa forma, pode parecer que Haruka é uma pessoa com um senso de responsabilidade extremamente forte, mas a realidade é um pouco diferente.

Tanto fazer um esforço acima do normal, quanto entregar resultados que superam as expectativas, do ponto de vista dela, são restrições que ela consegue cumprir com um nível de determinação que não passa de um: “Bom, acho que vou fazer só um pouquinho”.

Mesmo sem ter resoluções e determinações grandiosas e admiráveis como “para proteger a própria vida” ou “para ajudar a família”, ou até mesmo a “alegria de se tornar mais forte” peculiar àqueles que aspiram ao caminho das artes marciais, ela conseguia se esforçar e entregar resultados.

Do ponto de vista das pessoas ao seu redor, era um talento impossível de não se invejar, mas, para a própria pessoa em questão, não passava de rodinhas de treinamento que protegiam sua vida de forma superprotetora.

O fato de ter sido reconhecida como uma espadachim da prestigiada família da espada “Aono” com apenas cinco anos de idade; o fato de ter herdado Futsunomitama, um dos Três Espíritos Divinos da Espada, aos sete anos; ou mesmo quando, antes de completar dez anos, venceu todas as partidas contra mais de cem estilos diferentes e lhe foi concedida a posição de próxima chefe da família Aono tanto no nome quanto na prática... ela, apesar de jovem, deu um sorriso amargo e pensou:

As coisas estão perfeitas até demais.

Não diria que era apenas isso, mas sem dúvida era o seu sentimento mais forte.

Tudo estava dando certo até demais e, para dizer de forma direta, não havia empolgação.

Mas ela também sabia que esse seu problema, que não era nada pequeno, aos olhos das pessoas ao redor era algo extremamente luxuoso, arrogante e egoísta.

E justamente por saber disso, Haruka, eventualmente, passou a buscar satisfazer esse seu impulso insatisfeito no mundo lá fora.

Dungeon.

O outro mundo desconhecido que aguarda além do Portal Gate.

Dizem que lá dormem inimigos formidáveis que vão além da compreensão humana e tesouros extremamente misteriosos, e que os Aventureiros desafiam aventuras de vida ou morte dia e noite.

É isso, pensou Haruka. Esta sim é a minha verdadeira vocação.

O gatilho foi um especial sobre aventureiros na televisão.

A protagonista daquele programa, transmitido com o título de “A Jovem Gênio Aventureira que Desafia uma Dungeon Inexplorada”, era uma garota com uma idade não muito diferente da dela.

Mesmo tendo o status de estudante, ela liderava uma party que contava até com adultos, e corria pela Dungeon repleta de inimigos poderosos, conquistando resultados de batalha espetaculares.

Um guerreiro que vale por mil. Uma força invencível. Quando viu a garota do outro lado da tela, a quem palavras como essas caiam tão bem, um sentimento de empolgação que há muito tempo não se mexia agitou o coração de Haruka.

Eu vou me tornar uma aventureira!

Foi apenas no mês passado que, com essa resolução tomada, ela implorou à sua mãe, que detinha todo o poder real da Família Aono, e de alguma forma conseguiu permissão para fazer o exame.

Desde então, Haruka se dedicou ao treinamento da Arte da Espada mais do que o habitual, ansiando pela chegada do dia de hoje.

O Exame de Aventureiro que ela enfrentou com uma expectativa incomum para si mesma, pensando que finalmente havia chegado a hora em que a empolgação e o frio na barriga que ela tanto desejava seriam satisfeitos.

Eh────?

No entanto, o que Haruka sentiu lá foi uma decepção nada pequena.

Os Seirei que brotavam da Dungeon eram apenas oponentes que podiam ser derrotados sem sequer precisar usar a espada ou jutsus, e, mesmo assim, os rivais ao seu redor estavam travando “boas lutas” contra eles.

As figuras deles lutando arduamente, brandindo armas e fazendo pleno uso de jutsus, embora fossem chamativas, não eram fortes nem legais.

O que havia ali era apenas uma “força” monótona; não havia nenhuma técnica, engenhosidade ou originalidade que chamasse a atenção.

Ou seja, usando as palavras dela, “não foi empolgante”.

E o golpe de misericórdia foi a existência do examinador.

O examinador. O excelente Aventureiro que supervisiona o exame de Haruka e os outros, e a grande parede que impõe as provações.

Haruka, que havia desafiado a provação com os olhos brilhando, pensando que poderia cruzar espadas com um mestre como aquela pessoa que apareceu na TV, acabou descobrindo a realidade menos de um minuto depois.

Ele, o examinador que se apresentou como Nikaidou, foi facilmente derrotado por Haruka.

É claro que ele estava na posição de examinador, e como não era um campo de batalha real, não se podia dizer que ele estava usando toda a sua força──── uma defesa inofensiva como essa, infelizmente, só trazia um consolo que não passava de uma ficção.

Afinal de contas, a própria garota também estava pegando leve.

E não era num nível de conversa como “para não matá-lo” ou “dentro dos limites do exame”.

Ela reduziu a própria habilidade até um nível em que uma luta com o examinador pudesse se estabelecer, e acreditou que estava se divertindo trocando golpes com ele enquanto selava muitas de suas técnicas.

Sim, ela acreditou.

Para dizer de forma gentil, foi para medir a habilidade do examinador; para dizer de forma ruim, o self-handicap (desvantagem autoimposta) que ela estabeleceu para o próprio divertimento estava, no entanto, fatalmente fora de sintonia.

A causa da vitória foi uma simples superestimação. Devido à sua admiração pela profissão de Aventureiro, a garota havia estimado o limite mínimo deles alto demais.

Eu me rendo. Pelo visto, você é muito mais forte do que alguém como eu.

A primeira impressão que Haruka teve diante das palavras de elogio que o examinador Nikaidou declarou enquanto ofegava pesadamente foi: “Hã?”.

Não. Não pode ser.

Desistir só com isso é estranho, não é?

Eu errei na dosagem da força? Não, não, ele conseguiria aparar algo daquele nível facilmente, eu achei.

Afinal de contas, você é um Aventureiro, não é? Um examinador, não é? Você é uma pessoa incrível que está no mesmo palco que aquela pessoa que eu admirei, não é?

Na teoria, ela entendia.

Que esse sentimento que ela abrigava não passava de uma expectativa e inveja terrivelmente infantis, arrogantes e impositivas.

Que empurrar seus ideais egoisticamente, decepcionar-se egoisticamente e depois se fazer de vítima estava fora de cogitação.

Mas. Esse Sonho.

Era a Luz que Haruka finalmente havia conseguido encontrar.

Era a esperança pela qual ela, que estava sendo esmagada pelo tédio e pelo conformismo, finalmente conseguiu ficar fascinada.

Por isso, ei, Examinador-san.

Por favor, não destrua o meu Sonho.

Não me faça pensar que é só isso.

Não roube a minha admiração.

Gota a gota, o coração da garota se molhava em lágrimas.

Apesar de ela não estar machucada em lugar nenhum, a parte pura da garota estava, com certeza, clamando de dor.

Ah, de novo. É de novo.

Essa dor que sinto, assim que eu falar dela, vai machucar alguém.

Alguém sem rosto dentro do seu coração a xingava com palavras sujas, dizendo que isso era arrogância, que era egoísmo, questionando se ela entendia os sentimentos de alguém sem talento.

Eu sei. Eu já sei. O quão privilegiada eu sou, e que desejar mais do que isso não tem o menor cabimento.

Paciência. É só aguentar, né. Se eu desistir como sempre faço, tudo vai se resolver pacificamente, não é?

Mas, mas.

────Desejar sentir empolgação, é algo tão ruim assim?

Naquele momento em que a garota reprimiu desesperadamente a vontade de chorar e gritar, e tentou fingir que estava com a mente calma...

uuUUUUUUUUUUUUUUURUUUUAAaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaAAAAaaaaaa!!

 

Aquilo apareceu de repente.

Eh?

Sem querer, um som desprovido de calma escapou de sua boca.

Aquilo era, para dizer de forma direta, uma anomalia.

Anormal. Um bug.

Algo de natureza desconhecida, que num piscar de olhos dava para perceber que era uma existência que contrariava a lógica do mundo.

O monstro que surgiu rastejando de um buraco oval negro, que deveria ser chamado de fenda dimensional, começou a invadir o mundo azul com um rugido de ensurdecer os ouvidos.

Era um grande esqueleto.

Um corpo de ossos grande, robusto, mas onde sequer um pedaço de pele estava grudado.

A figura vestindo um manto negro e estagnado, fazendo jorrar um Poder Espiritual semelhante a chamas azul-pálidas de órbitas que não possuíam olhos, era verdadeiramente a própria definição de aberração.

Inesperadamente, a palavra “Shinigami” cruzou a mente de Haruka.

Shinigami. O mensageiro do inferno que ceifa as almas humanas.

Provavelmente, não haveria palavra mais adequada para descrever o monstro aberrante que apareceu diante de nós.

Com licença, Examinador-san. Vou perguntar só por precaução, mas aquilo ali também é alvo do exame?

A-a-absolutamente não. Por que haveria um Mutante(Illegal) num lugar como este!? Nunca, em lugar nenhum, houve qualquer relato de algo assim────

Haruka tentou perguntar ao examinador Nikaidou apenas para confirmar uma causa perdida, mas parece que a situação era muito mais grave do que ela pensava.

Nikaidou, que deveria ser um Aventureiro veterano e ocupar o cargo de examinador reconhecido pelo país, estava em pânico em um estado à beira do colapso funcional.

Haruka reprimiu no último segundo um suspiro que ameaçava escapar de sua garganta e, em vez disso, com uma voz o mais calma possível, deu instruções ao examinador.

Poderia chamar reforços, Examinador Nikaidou? Eu seguro esse cara aqui.

...Você está dizendo para eu fugir sozinho e deixar você para trás?

Não, não~. Eu quero que você vá chamar reforços. Divisão de tarefas, divisão de tarefas.

A voz de Haruka, mesmo nessa situação anormal, continuava tranquila.

Não é que ela não estivesse entendendo a situação.

Que tipo de existência era o monstro à sua frente, ela praticamente já havia entendido só de ver a sua aparência.

Você disse Mutante(Illegal)? Eu não entendo direito, mas aquilo ali é um bicho perigoso, não é? E não parece que está num clima para ouvir o que a gente tem a dizer.

Não é só perigoso. Aquilo é um monstro que devora Aventureiros indiscriminadamente. Além disso, as estatísticas mostram que ele possui uma anomalia que supera a de um guardião(Boss Enemy) da última camada de uma Dungeon de baixo nível e, hum, veja, o que eu quero dizer é que é um oponente contra o qual apenas nós dois, definitivamente, não somos páreos.

A explicação do examinador Nikaidou confirmou a intuição de Haruka.

Não é que ele desconhecesse a força de Haruka.

Durante a provação que ele mesmo impôs, Nikaidou vislumbrou um fragmento do talento natural da garota.

E, mesmo com base nesse fato, ele afirmou categoricamente que eles “não eram páreos”.

Porém, contudo, e exatamente por isso...

 

É exatamente por isso, Examinador-san.

 

Haruka abre um sorriso frouxo.

Naquele sorriso havia a consideração de uma garota de quatorze anos tentando aliviar, mesmo que um pouco, a tensão dele.

Se nós enfrentarmos um inimigo tão forte assim, seremos totalmente aniquilados, não é? Mas se nós dois fugirmos, ele vai vir atrás da gente.

Nikaidou contorce o rosto, como quem pensa “não me diga que...”. E, como ele suspeitava, as palavras saíram da boca de Haruka.

Então é mais eficiente se uma pessoa o segurar com todas as forças enquanto a outra vai chamar os companheiros. E além disso────

Ela olha para a monstruosidade com aparência de Shinigami à sua frente.

O olhar do enorme esqueleto, que não tinha menos de três metros de altura, estava claramente fixo em Haruka.

...Se a situação é essa.

Pelo menos um de nós tem sobrevivência garantida.

Ao mesmo tempo que terminava a frase, Haruka sacou sua própria arma, uma Watou.

Então, como se respondesse ao movimento de Haruka, o Shinigami abriu um buraco de outra dimensão e puxou uma arma condizente com a sua figura.

(Haha, com esse visual e você me vem com uma foice? Chega a ser tão clichê que acaba sendo inovador.)

Enquanto observava a foice enorme que o Shinigami empunhou, Haruka teve esse pensamento.

Manto negro, corpo de osso, a arma que manejava era uma foice gigante.

Diante da aparência de um monstro que só poderia ser chamado de Shinigami, Haruka sentiu certa artificialidade naquilo, mas, deixando isso de lado, entrou em posição de combate.

Sendo assim, Examinador-san. Deixo o resto com você.

────Tsk! Eu juro, eu juro que virei salvá-la. Portanto, por favor, aguente firme até lá!

Sim, siim~. Vou me esforçar o máximo que puder~.

Ela despachou o examinador Nikaidou, que abaixava a cabeça com uma voz dolorosa pedindo “perdão”, em um tom leve e descontraído.

Com a atitude mais leve possível, como se não fosse nada demais, Haruka acenou com a mão se despedindo do adulto que se afastava.

Pois bem, Shinigami-san. Eu não sei qual é o seu motivo, mas, de qualquer forma, obrigadinha por ter esperado~

............

Haruka tentou falar com o Shinigami, que havia deixado a fuga do examinador Nikaidou passar de forma assustadoramente fácil, mas a resposta que obteve foi, como esperado, o “Nada”.

Ele não pode falar, não quer falar, ou talvez ambos.

De qualquer forma, julgando que a comunicação com o monstro era impossível, Haruka se conformou dizendo “bom, que seja”, e...

Então, vamos começar logo com isso!

E assim, ela arrancou em uma velocidade impossível de ser acompanhada a olho nu.

Uma investida esplêndida desferida a partir da agilidade aprimorada pelo jutsu de Fortalecimento de Força(Str) nas Pernas(ide).

A investida em alta velocidade de Haruka, que encurtou a distância enquanto executava cinco fintas no trajeto, brincou de forma brilhante com o Mutante(Illegal).

Uru......!?

Após uma movimentação em alta velocidade na qual nem sequer a sua trajetória podia ser acompanhada, a espada da garota se aproximou da garganta do Shinigami.

Contra o gênio da Arte da Espada que havia entrado na sua guarda em um piscar de olhos, a única jogada que o Shinigami fez foi descer um golpe com a sua enorme foice.

O golpe da foice do Shinigami, que não causa apenas dano físico, mas também fere e mata a alma, perdeu seu alvo como se tivesse tentado agarrar fumaça.

A figura da garota que mirava a garganta do Shinigami havia desaparecido sem que ele percebesse.

Bem... aqui!

A voz que ele ouviu vinha de trás.

Ao mesmo tempo em que sentiu a presença da garota que, até instantes atrás, deveria estar em sua guarda, o Shinigami percebeu uma dor aguda se espalhando por suas próprias costas.

────Ele havia sido cortado.

A garota que deveria ter pulado para dentro de sua guarda contornou-o e, no mesmo movimento, desferiu um corte limpo em suas costas, rasgando-o profundamente.

O fato demonstrado por essa única troca de golpes era, ou seja:

Hum, hum. Pelo jeito de agora, eu pareço ser mais rápida.

A rapidez da garota havia superado até mesmo a agilidade do Mutante(Illegal).

Emitindo uma luz azul-pálida a partir das costas cortadas, o Shinigami virou-se em direção à garota com movimentos lentos.

Em resposta, Haruka olhava cuidadosamente aos arredores enquanto posicionava sua espada na lateral do corpo novamente.

Enfrentando um Mutante(Illegal) sozinha e, ainda por cima, esmagando-o em termos de velocidade, quem acreditaria que aquela garota era uma existência inferior a um Rookie?

Se houvesse alguém profundamente conhecedor de Dungeons neste local, sem exceção, teria duvidado dos próprios olhos.

Contudo, não há sequer um espectador neste lugar para exaltar a sua existência ou aterrorizar-se com ela.

O que existe lá é apenas o monstro esquelético que não fala, e a própria garota em si.

Portanto, a batalha entre os dois foi retomada sem nenhuma aclamação ou teatralidade.

Haaaaaaah!!

URuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuruaaaAAA!!

Elevando uma aura feroz e incisiva, sem ceder um único passo, ambos brandiram suas armas contra o inimigo.

De um lado, uma foice gigante; do outro, uma espada curva.

O alcance e a força eram favoráveis ao Shinigami, e na técnica e velocidade, Haruka era superior.

Por isso, o feroz choque de armas entre os dois fazia parecer, à primeira vista, que a garota estava em vantagem.

Aproveitando a sua velocidade, Haruka disparava uma tempestade de cortes enquanto corria velozmente em todas as direções.

A incessante dança de espadas, como uma tempestade violenta, continuava a retalhar o Shinigami sem fim; em contraste, a enorme foice do Shinigami não conseguia sequer raspar na garota.

Rápida, afiada, bonita como se estivesse dançando.

A espada da Aono, brandida pela próxima chefe da família, com certeza estava oprimindo o Mutante(Illegal).

No entanto.

(Sinto o impacto, mas é como se ele não estivesse ferido. Hmmm. Que problemático.)

Era incompreensível. Apesar do monstro estar sendo devidamente retalhado por Haruka, ele continuava lutando como se não houvesse problema algum.

Não era como se os ataques não estivessem surtindo efeito.

A espada de Haruka estava com certeza cortando o corpo do Shinigami, mas o corte nunca chegava a ser uma amputação e, como se não bastasse, após uma breve pausa, a própria ferida desaparecia.

(Bloqueio de dor... não é isso, ele está reagindo. Pra ser algum tipo de ilusão, a sensação de impacto é real demais, então vou manter isso mais para rejeitado do que pendente. Sendo assim, será que é aquilo?)

Uma cambalhota para trás seguida de dois ataques falsos consecutivos para desestabilizar o centro de gravidade do inimigo, e um pesado corte diagonal.

Mesmo executando uma façanha sobre-humana dessas com facilidade, Haruka observava cuidadosamente o corpo do Shinigami.

Do corte na área que em um corpo humano seria o plexo solar (boca do estômago), jorrava uma luz semelhante a chamas azul-pálidas.

Aquilo parecia até mesmo respingos de sangue emitidos por um corpo esquelético sem carne ou sangue, mas as propriedades do fenômeno que ocorria diante de seus olhos eram completamente o oposto.

Então ele tem habilidade de regeneração, hein. Que dureza.

Um sorriso amargo acabou escapando sem querer.

Um corpo que continua se movendo por mais que seja cortado e chamas azul-pálidas que queimam as feridas.

A dedução que Haruka montou com base nesses dois elementos estava, na verdade, na mosca.

Uma das skills especiais que o Shinigami possuía, a Regeneração(Re) do(ge) Corpo(ne) e(ra) Alma(te).

Uma skill de ativação(pas) contínua(siva) que purifica o corpo ósseo ferido com as chamas do Poder Espiritual, restaurando-o.

Um Shinigami imortal que se recupera não importa o quanto seja cortado e perfurado.

Pode-se dizer que essa é uma habilidade verdadeiramente digna de um Mutante(Illegal), a própria encarnação do absurdo.

Bom, se você vai vir com essa atitude, acho que eu também vou mudar um pouco o meu jeito de atacar.

No entanto, mesmo diante de uma habilidade de pesadelo, Haruka não desistiu.

Pelo contrário, os olhos da garota transbordavam de alegria, como se tivesse encontrado o tesouro que tanto buscava.

(O inimigo é forte e não há o menor sinal de que os reforços estão chegando. Lutando sozinha, todas as esperanças estão perdidas. ...Mas por que será, hein? Eu estou mega empolgada agora.)

Haruka estava sentindo um frio na barriga de empolgação diante de um inimigo formidável de um nível que ela nunca havia encontrado antes.

Um monstro imortal contra o qual os seus ataques não surtem efeito.

Olhando por outro lado, isso significa que é um oponente contra o qual não há a preocupação de se exagerar na força.

Sem precisar se conter por ninguém, poder lutar com todas as forças──── apenas isso era um acontecimento tão alegre para a garota que quase a levava às lágrimas.

Sendo assim.

Vamos lá! Futsunomitama!

Sendo assim, a garota invoca o Espírito da espada que reside em seu corpo.

O Cântico de Manifestação para extrair o poder inerente do Espírito, e não uma simples utilização de energia como o fortalecimento das capacidades físicas.

Aquilo sim era a alma e o corpo de Aono Haruka. A sua verdadeira essência como uma Usuária da Arte da Espada fazendo uso do espírito da espada Futsunomitama, agora é liberada aqui.

(Finalmente, finalmente.)

Ela corre pela terra. Para manifestar as características do espírito, a primeira coisa que fez foi tomar distância do inimigo.

Não havia sinais de que o Shinigami a estava perseguindo. Haruka voltou todos os seus nervos para o próprio interior, concentrando-se na geração da Espada.

(Finalmente eu posso lutar livremente!)

Saboreando uma alegria suprema e arrepiante, a garota imaginou a própria espada do fundo do coração, e então...

 

uuUUUUUUUUUUUUUUUUUUURUAaaaaaaaaaaaaaaaa!!

 

No entanto, o Shinigami não deixou passar essa brecha no coração da garota.

 

...Hã?

 

A mudança ocorreu repentinamente.

Os membros de Haruka, que até pouco tempo atrás eram leves como penas, tornaram-se pesados e rígidos, como se fosse mentira.

O que é isso?

A sua própria watou cai das mãos da garota, fazendo barulho.

Não há força. Ignorando as ordens do cérebro, os seus quatro membros balançam frouxamente.

Para buscar a causa disso, Haruka olhou para os dois braços──── Mentira, desde quando? ──── e então, a garota olhou para trás atônita.

No fim da sua linha de visão, havia quatro buracos.

Buracos negros de forma oval iguais aos de quando o Shinigami apareceu.

Alguma coisa que se estendeu dali estava amarrando os membros de Haruka.

(Isso é ruim. Não consigo colocar força nenhuma.)

Uma sensação que se esvanecia a cada segundo. Como que inversamente proporcional a isso, a coisa que amarrava Haruka foi revelando o seu contorno.

A forma tornou-se visível, e em seguida a cor se refletiu.

(...Correntes?)

Eram correntes rubro-negras. Escuras, pesadas e obsessivas. Qualquer palavra que pudesse ser associada àquelas correntes era negativa.

Que situação, hein.

Suor escorre pelo pescoço da garota.

Resistir estava fora de questão. Os seus braços e pernas, amarrados pelas correntes, teimosamente não se moviam, como se tivessem sido fixados em gesso.

(Não são normais, essas correntes.)

A partir da sensação de estar sendo amarrada, Haruka deduziu que aquilo não era fruto de mera força física. No entanto, mesmo entendendo isso, não havia nada que pudesse fazer.

Não pode se mover, não pode fugir, não pode lutar.

A maior virtude da garota, que tinha a agilidade como arma, foi selada de forma completa.

Se houvesse alguma chance de virar o jogo, seria a existência do seu espírito contratado, Futsunomitama, mas por azar, “neste estado”, não poderia ser usado.

Agora, ela era literalmente uma Usuária da Arte da Espada que teve a sua espada roubada.

Diante de um Mutante(Illegal), um desastre que vai além da compreensão humana, essa restrição era grande demais.

Um passo, e mais um passo, o Shinigami se aproxima da garota.

O corpo de ossos envolto no manto negro, segurando a enorme foice, fazendo um som de “clac, clac”, o caçador de almas se aproximava.

Haha, esse desenvolvimento tem muito mais impacto do que um filme B barato.

Mesmo soltando uma piada fraca como se a tensão tivesse sumido, Haruka sentiu instintivamente que a situação estava muito perto do xeque-mate.

O corpo não se movia, e o estado do inimigo era quase ileso. A sua carta na manga, a sua última esperança, não podia ser usada agora.

(Que incrível, o mundo é tão grande assim.)

No entanto, mesmo colocada em uma situação dessas, ainda havia uma “alegria” inegável no coração da garota.

(No fim das contas, eu era apenas ignorante sobre o mundo. Bastou sair um pouquinho para fora, e já encontrei com tanta facilidade uma situação sem saída, em que não consigo levantar um dedo. Ah, isso é────)

Isso é tão alegre que dá vontade de chorar.

Aqui, Aono Haruka provavelmente vai encontrar o seu fim. Mas, no fim, ela pôde encontrar um oponente tão empolgante assim.

Arrependimentos, reflexões, se começar a contar não vai ter fim. Mas, ela perdeu. Ela conseguiu perder.

(Por isso, está bom. Do que ser morta pelo tédio e pela decepção, isso aqui é muito melhor.)

O circuito mental da garota, que se for dito de forma bonita é “nobre” ou “desprendido”, e se interpretado de forma ruim, “desiste fácil demais”.

No entanto, não há a figura de nenhum humano aqui para entender os sentimentos tão imaturos dessa garota na puberdade, tampouco a sombra de alguém para cuspir um “que estupidez”.

Em vez disso, aqui há um monstro. O monstro esquelético sem coração usando um capuz cheio de buracos.

Fazendo o corpo de ossos estalar com um “clac, clac”, o Shinigami ergueu a enorme foice, pronto para, antes de tudo, ceifar aquela vida incômoda.

A lâmina que corta almas desenhando uma curva. A morte certa que se aproxima em um segundo. Não havia mais nada que ela pudesse fazer──── não, não é verdade. Não tem ainda uma única coisa, só uma única coisa que dá para fazer?

Me desculpe, Kanata.

 

Uma última palavra, murmurou apenas isso e a garota fechou lentamente os olhos.

 

​◆◆◆

 

E assim, a curta vida de Aono Haruka chega ao fim.

A morte da garota, jovem e tão amada pelo talento, foi lamentada, sentida e pranteada por muitas das pessoas envolvidas.

No entanto, a história não acaba aqui.

As suas habilidades e talentos brilhantes, tragicamente, acabarão sendo herdados pela pior das existências.

Essa existência é a causa original e a raiz de todos os males que assassinou a garota e, em seguida, devorou a sua alma──── ou seja, o próprio Mutante Illegal que Haruka chamou de Shinigami.

O monstro aberrante que assimilou o poder de um Mutante(Illegal), as técnicas de Haruka e até o seu espírito contratado, Futsunomitama, obteve posteriormente o nome de Kengoku(O Demônio da) Rasetsu(Prisão de Espadas), devorando e matando inúmeros Aventureiros.

Não termina com a morte; ter o seu talento abusado como uma ferramenta para assassinar pessoas, e ter a sua dignidade e orgulho sendo continuamente pisoteados: os atos do inferno.

Isso era um pesadelo tão grande que nem mesmo Haruka, que pôde aceitar a própria morte, seria capaz de suportar.

 

POR FAVOR. ACABE COMIGO.

 

A tortura cruel e pavorosa sobre a garota jamais terminaria, até o momento em que o Shinigami fosse abatido pelas mãos de ninguém menos que sua irmã de sangue.

Esse é o destino de Aono Haruka.

Essa é a providência de Aono Haruka.

Esse é o final de Aono Haruka.

 

Não se pode anular, não se permite resistir. Aono Haruka morre aqui, e a sua alma e talentos continuarão sendo usados pelo monstro aberrante como ferramentas para assassinar pessoas.

Uma tragédia, ou um nobre sacrifício para fazer com que alguma outra pessoa pudesse brilhar.

Que ela fosse tratada como a arma letal do Shinigami era uma inevitabilidade escrita no curso da história, e um papel pré-determinado.

Portanto, a roda do destino mataria Haruka corretamente hoje também.

E aquele encontro deveria ser algo absoluto.

 

​◆◆◆

 

DÁ UM TEMPO COM ESSA ROTA DE MERDAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

 

Um impacto. Um estrondo. O instante da morte sendo apagado.

Alguém rugiu. E alguma coisa voou longe. A quantidade de informações que chegam aos ouvidos é exageradamente grande.

Pensando “O que está acontecendo?”, a garota rapidamente arregala os olhos, e lá havia um homem enorme de pé com um rosto sedento por sangue, segurando uma espada grande. E, muito distante dali à frente, o tal Shinigami estava agachado.

Parece que ele a salvou de uma situação de perigo. Pelo menos isso, Haruka também conseguiu entender.

Yo, esqueleto de merda. Você parece de muito bom humor aí capturando garotinhas inocentes, hein.

O misterioso homem da espada grande encara o Shinigami que estava de joelhos, cuspindo insultos que pareciam algo que um aluno das séries iniciais do ensino fundamental diria.

A aparência dele era intimidadora e perigosa como a de um deus-demônio, e não há muitos homens a quem a expressão “firme e imponente” caísse tão bem.

Era um rosto que ela conhecia.

Ou melhor, Haruka tem a lembrança de ter sido perseguida silenciosamente por este homem um pouco antes.

...Hum, o que é você?

A pergunta que escapou da sua boca sem pensar não foi “quem”, mas “o que”.

Como resultado, acabou sendo uma forma rude de falar, mas, para alguém que havia sido perseguida em silêncio, ter pelo menos um pouquinho de cautela é algo natural. ...Bem, não era nada além de uma “colher de chá” de cautela.

Humm...

A resposta do homem para isso foi de alguma forma hesitante.

Se me perguntar ‘o que’ eu sou, pra ser honesto nem eu mesmo sei muito bem, mas, sabe como é. Acho que responder assim seria o mais correto.

E o homem disse. Parecendo de alguma forma envergonhado, mas com orgulho do fundo do coração pelo fato de ser aquilo, ele declarou o nome.

 

Eu sou o Kyouichirou. Shimizu Kyouichirou. Por acaso eu ouvi a história do examinador Nikaidou agora há pouco e vim correndo, sou um candidato ao exame que nem você.

 

────E, na roda do destino, a rachadura de um “Se(if) começa a correr.











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