Caverna da Provação -Provação das Estrelas -
O local para o qual retornamos foi o mesmo círculo de teletransporte pelo qual entramos.
「A estátua de pedra está a brilhar.」
Como Shion-san disse, a estátua atrás de nós estava envolta em uma luz branca suave. E então, essa luz se aproximou lentamente e foi absorvida em nossos corpos como se fosse Essência Mágica. A luz foi diminuindo aos poucos, até que eventualmente desapareceu por completo dentro de nós.
Alguns segundos depois, o círculo mágico do Desafio das Estrelas começou a emitir um brilho fraco.
「Aparentemente obtivemos Skills.」
Nanami murmurou. A Skill que você ganha aqui varia de personagem para personagem. Embora você possa receber habilidades relacionadas à sua própria velocidade, taxa de esquiva ou à furtividade, qualquer que seja a Skill, ela deve ser muito útil. Pelo que senti, parece que ganhei uma que aumenta a minha velocidade.
「Eu gostaria de testá-las, mas... o que faremos sobre o próximo desafio? Vamos seguir em frente?」
「Ainda não estamos muito fadigadas, então vamos prosseguir.」
Disse a Vice-Presidente Fran. Shion-san também pareceu concordar.
「Sob certa ótica, cansei-me apenas de tanto rir, decerto.」
Ela diz isso, mas na verdade acho que quase ninguém se cansou. Fui apenas eu que, de várias maneiras, acabei esgotado. A Senpai, talvez preocupada com isso, olhou para mim.
「Estou bem, vamos lá. Apenas fiquem atentas porque a partir de agora é que é a verdadeira provação.」
Ao meu aviso, Nanami assentiu.
「O Desafio das Estrelas possui mecanismos diferentes dependendo da pessoa, e precisamos desvendá-los para concluir os andares, não é mesmo?」
Isso mesmo. Pelas minhas estimativas, não será um desafio tão difícil para a Nanami e para mim. Afinal, esse é um desafio cruel contra os personagens que possuem traumas ou conflitos internos.
Dentre nós, será que a Shion-san não é quem terá a pior experiência?
「Acredito que, assim que pisarmos no círculo mágico, seremos separados imediatamente. Não haverá risco de vida, mas creio que será bem doloroso, então deem o seu melhor.」
Enquanto dizia isso, olhei para a estátua que segurava o cajado com a estrela. Ao lado dela, o círculo mágico emitia uma luz fraca.
「Quando estiverem preparadas e prontas mentalmente, vamos lá.」
————★ Ponto de Vista de Shion ★————
O local para o qual fui transportada após pisar no círculo mágico se assemelhava a uma mansão do Wakoku Japão.
『Olha para a tua própria fraqueza e segue pelo caminho correto. Desta forma, o caminho se abrirá para ti.』
Estas palavras ressoaram na minha mente. Presumo que esta seja a condição para concluir este andar.
Por ora, tentando avaliar a minha atual situação, abri a porta de correr mais próxima e deixei escapar um grande suspiro.
「Pelo visto, defrontei-me com o mais detestável dos cenários imagináveis.」
A minha pessoa suspirou, sentada em seiza num quarto tradicional que reconhecia muito bem. E, enquanto tentava acalmar o coração e observava os arredores, de repente, uma memória da minha infância me veio à mente em um flashback. A memória de quando eu era vista por aquele homem com olhos de quem avaliava uma mera ferramenta...
「Estarão a dizer-me para encarar isto de frente, porventura?」
Aquele tempo infernal que passei nesta casa que mais parecia um covil de demônios.
「Deveras, isso me desagrada profundamente.」
Levantei-me, abri a porta de correr e caminhei pelo corredor. Passei pelo pátio interno que tanto reconhecia, abri outra porta de correr em direção à entrada principal. Porém, o que se revelou diante de mim ao abrir a porta foi exatamente o mesmo quarto tradicional para o qual fui teletransportada no início. E ali mesmo também encontrava-se o círculo mágico de retorno.
『Olha para a tua própria fraqueza e segue pelo caminho correto. Desta forma, o caminho se abrirá para ti.』
Aquelas palavras ressoaram novamente. Mesmo que avance por outros cômodos, sou invariavelmente trazida de volta ao primeiro quarto. Ao que tudo indica, encontro-me aprisionada dentro desta casa.
「Não terei outra escolha senão ir aos lugares por onde ainda não passei?」
Não. Em vez de dizer que não passei, seria mais preciso dizer que os estava evitando propositalmente.
Após soltar um longo suspiro, a minha pessoa caminhou em direção àquele cômodo sem hesitar. Ao chegar em frente à porta, ouvi o som de alguém como que a bater numa mesa.
「Por que motivo dizes que não és capaz? Basta que tentes até que sejas. E mesmo assim ousas te chamar minha filha?」
Por um instante, o meu corpo paralisou. Aquela voz da minha memória era a de meu pai. A voz do pai que eu tanto repudiava. Embora a minha pessoa ouvisse sons de coisas sendo golpeadas ou de feitiços sendo ativados dentro do cômodo, o meu corpo endureceu, impedindo-me de adentrar.
Algum tempo após os sons cessarem, finalmente abri a porta à minha frente e entrei.
「Quanta nostalgia. É o aposento da minha pessoa, o qual sequer desejava rememorar.」
Vasculhei o quarto à procura de algo que me pudesse ser útil para escapar daqui. Entretanto, não encontrei absolutamente nada.
Sem opções e prestes a deixar o quarto, meu olhar se deparou com o espelho. Ao ver o meu próprio rosto, não pude conter um riso irônico.
「A minha única salvação é que as semelhanças que compartilho com aquele homem limitam-se, porventura, apenas à cor dos meus cabelos e dos meus olhos.」
Se o meu rosto fosse a imagem e semelhança do dele, quiçá até o ato de me olhar no espelho se tornaria algo repulsivo para mim. Ah, e suponho que o meu talento para a magia também seja uma herança dele.
「Francamente, Kou. Disseste que seria doloroso, mas não imaginava que o seria deveras.」
Antecipando o que me aguardava mais adiante, soltei um longo suspiro.
Enquanto eu me indagava sobre o que fazer e deixava o aposento, desta vez ouvi vozes vindas do pátio interno. Eu reconhecia perfeitamente aquela voz.
「...Não pode ser.」
Dirigi-me ao pátio a passos rápidos. Chegando lá, vi duas garotinhas, exatamente como previ.
「Aquela, sou eu em minha tenra infância?」
A minha pessoa, e outra garota, ainda na infância.
「Hana-neesama...」
Enquanto eu observava as duas brincando animadamente, de repente, vozes puderam ser ouvidas do outro lado da porta de correr, na direção oposta.
「Se a família Kujou estiver disposta a se submeter à família Himemiya, eu talvez pudesse reconsiderar, sabe? Kuku.」
Aquela voz era a de meu pai. Não apenas o tom, mas também a maneira petulante e arrogante de falar, e a sua risada escarnecedora; indubitavelmente, era o meu pai.
「E por qual razão haveríamos de nos submeter!?」
Era o brado furioso do pai de Hana-neesama. Imediatamente, meus olhos se voltaram para Hana-neesama. Ela parecia tão triste, e ao vê-la assim, o meu eu de infância também se entristecia...
「Vamos, Shion. Desta vez, vamos brincar de usar magia.」
Ela disse, incentivando-me a mudar de lugar.
「Isso não passa de mais uma de vossas maquinações, decerto!」
Assim como antes, o pai de Hana-neesama gritava de dentro do cômodo. E o meu pai...
「A tua casa ou o teu orgulho. Não crês que deverias ponderar sobre o assunto?」
Retrucou ele, entre risos.
「Não preciso que me diga para saber disso!」
No mesmo instante destas palavras, uma espécie de névoa negra envolveu o meu eu de infância e a Hana-neesama. A névoa se tornou gradualmente mais densa até encobri-las por completo. E então, em poucos segundos, a névoa se dissipou. Porém, as duas haviam desaparecido completamente.
「Mandam que eu continue a avançar mesmo enquanto reabrem as minhas feridas emocionais, porventura? É, decerto, uma provação amarga.」
Dei um longo suspiro. E, ao caminhar até o centro do pátio interno, ergui os olhos para o céu.
Pelos padrões até agora, já compreendia vagamente os locais aos quais precisava ir. E se tentasse ir a qualquer outro lugar, decerto voltaria a estar presa no mesmo ciclo.
「Hana-neesama era, decerto, uma pessoa extraordinária. Para ela me tratar com tanta gentileza, mesmo à minha pessoa pertencendo, à uma família que para ela era como uma inimiga.」
A família Himemiya, um lar rodeado por constantes e incessantes rumores malignos até mesmo entre a nobreza de Wakoku, e, além disso, a minha pessoa ser filha de uma amante; foi ela a única pessoa que estendeu a mão a mim, que estava completamente isolada devido a tudo isso.
Graças a ela não estive só, e meu coração encontrou salvação.
「E apesar disso, a minha pessoa não pôde fazer absolutamente nada pela Hana-neesama.」
Pode-se argumentar que a culpa não foi da minha pessoa. Hana-neesama também o diria, indubitavelmente. Contudo, a inação da minha pessoa é o meu próprio pecado.
「...Suponho que seja o momento de prosseguir.」
Eu tinha ciência do local ao qual precisava ir. No entanto, aquele era o lugar que eu mais odiava. Não nutria qualquer desejo de avançar para lá. Mas não havia escolha, senão prosseguir. Tragicamente, como não havia círculo de teletransporte para recuar, não havia para onde retornar.
「Não há para onde retornar, não é? Tal como a atual situação da minha pessoa.」
Meus passos eram pesados, mas avançava um a um. Em direção ao escritório do meu pai.
「Shion, estás a escutar?」
Tal como o previsto, escutei vozes vindas de dentro do escritório de meu pai.
「Mas, pai...」
「Mas coisa nenhuma. Eis que finalmente chegamos a um ponto onde podemos subjugar aqueles Kujou.」
Ah, recordo-me destas palavras. Foi de quando consultei-o a respeito da Hana-neesama e da família Kujou.
「Não te deixes levar pelos sentimentos fraternos e criar laços afetuosos. Basta que ajas conforme a minha vontade. E caso decidas não me obedecer, não me importarei de te deserdar, compreendes?」
「...」
「Basta adotar outro filho e o assunto estará resolvido. Ainda assim, ter deixado a ti nas mãos daquele idiota foi, porventura, um erro?」
「Acaso estais a difamar os meus pais adotivos?」
Eu abri a porta de correr. Lá dentro estavam o meu pai e a minha versão criança. Eles aparentavam não ter notado a presença da minha pessoa.
「Não estou a dizer mentiras, estou?」
Ele continuou a falar, ignorando completamente a presença da minha pessoa.
Pouco tempo depois, os dois começaram a ser envoltos pela mesma névoa negra que vi antes. Quando a névoa sumiu, ambos desapareceram, e em seus lugares surgiu o círculo mágico de teletransporte.
「Forçam-me a reviver os traumas dos quais sequer desejava me lembrar, e a procurar uma saída através disso. Deveras, é um desafio árduo.」
O Kou tinha razão. É, decerto, uma provação bem penosa.
「Não me fales em piadas. Para a minha pessoa, isso foi um desafio digno do inferno.」
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————★ Ponto de Vista de Fran ★————
O lugar para onde fui transportada era muito familiar.
「Uma escola... à noite?」
Eu murmuro enquanto verifico os arredores. Não há ninguém aqui além de mim. Como Takioto-san havia dito, parece que fui enviada para um lugar diferente de todos os outros.
Enquanto eu ponderava sobre o que fazer, de repente ouvi uma voz ecoar na minha cabeça.
「...!」
『Olhe para a sua própria fraqueza e siga pelo caminho correto. Desta forma, o caminho se abrirá para você.』
Eu me virei bruscamente, e lá estava a estátua de pedra com o cajado em forma de estrela, a mesma que eu vi pouco antes de vir para este andar.
Além disso, há um círculo de teletransporte, pelo qual eu devo ter entrado.
A julgar pela situação, a voz de agora a pouco deve ser a condição para concluir isto aqui.
「Por enquanto, vou seguir em frente.」
Depois de caminhar um pouco pelo corredor, percebi de imediato onde estava. Esta é a escola onde estudei durante o ensino fundamental.
「...Por que este lugar?」
De qualquer forma, continuei avançando pelo corredor. Contudo, não sei por quê, mas o corredor parecia não ter fim. É apenas um palpite, mas devo estar em um daqueles corredores em Loop, sendo forçada a caminhar repetidamente pelo mesmo trecho.
Como caminhar na mesma direção parecia não surtir efeito, tentei caminhar na direção oposta. Assim fazendo, consegui encontrar o círculo de teletransporte pelo qual entrei e a estátua.
「Entendo, então é esse tipo de engenhoca.」
Existem tipos de Dungeons nas quais não se pode avançar sem antes resolver um enigma ou satisfazer certas condições. Pelo visto, não conseguirei progredir aqui a menos que faça alguma coisa. Sendo assim...
「Talvez eu deva entrar em alguma sala de aula.」
Os lugares para os quais eu posso ir a partir daqui são limitados. Portanto, em qual sala de aula eu deveria entrar?
E então, de repente, me recordei daquela voz.
「’Olhe para a sua própria fraqueza’, era assim, não é? Devo ir para um local que tenha a ver comigo?」
Se for este o caso, faz sentido o motivo pelo qual estou na minha antiga escola. Por enquanto, decidi confiar em minha memória e procurar a sala onde eu estudava. E logo a encontrei.
Espiando a sala pela janela, vi um cenário familiar. Aquele quadro, a estante e a posição das carteiras são exatamente como eu me lembrava.
Naquela sala, havia duas pessoas familiares. Uma delas era eu mesma no passado, e a outra, parada à minha frente, era a garota que foi minha amiga.
『Você é incrível, Fran.』
As palavras ditas a mim, exatamente com o mesmo tom de voz presente em minhas memórias, foram lançadas ali. E elas me apunhalaram, atravessando o meu peito de agora, do mesmo modo como atravessaram a mim mesma no passado.
「Então é disso que se trata...」
Quando murmurei isso, algo semelhante a partículas negras começou a flutuar ao redor delas dentro da sala de aula. Pouco a pouco, essa escuridão foi envolvendo as suas figuras até que, por fim, desapareceram.
Elas deveriam ter desaparecido. Entretanto, aquelas palavras continuavam cravadas em mim. Afinal, a garota que foi minha amiga e aquelas palavras foram o gatilho, o trauma que me fez “passar a me odiar”.
Será que este é um desafio que me obriga a recordar dos meus próprios traumas? O pior cenário possível cruza a minha mente. É por isso que Takioto-san disse que os desafios variavam dependendo da pessoa, mas eram dolorosos. De fato, isso varia de pessoa para pessoa. Das pessoas que vieram hoje, ninguém além de mim deveria conhecer esta escola.
Guiada por antigas lembranças, dirigi-me à entrada principal dos alunos. Pensei em tentar sair do prédio da escola, mas infelizmente não consegui chegar lá. Quando dei por mim, consegui retornar com facilidade ao ponto inicial. Ou melhor, talvez seria mais correto dizer que fui forçada a retornar. Se for assim.
「Fufu... então ‘Olhar para a própria fraqueza’ significa que devo caminhar com minhas próprias pernas através de meus próprios traumas? ‘Sinta-se livre para fugir se quiser’, huh」
Que provação de mau gosto. Bem, por ser uma provação, é de se esperar que seja dolorosa. Contudo, enquanto Yukine e os outros estiverem sendo submetidos a provações, eu não tenho o direito de fugir.
Por isso, decidi ir a um lugar onde ela pudesse estar em seguida. O ginásio de esportes. Diferente de mim, ela gostava muito de esportes e brincava com todos os tipos de pessoas. Na minha mente, a imagem dela é de alguém que não estudava quase nada e só queria saber de brincar. Lembro-me de mim mesma a ter acompanhado algumas vezes.
Consegui chegar ao ginásio sem dificuldades, mas não havia ninguém por lá. Por um momento, me alegrei de pensar que não teria de ver nenhum trauma, mas infelizmente ouvi sons vindos do depósito de equipamentos esportivos ao lado. Lá estavam ela e o meu eu do passado. O meu eu do passado puxou assunto com ela.
『Você está sempre brincando, mas você não vai estudar nem praticar magia?』
『Estudar é chato, e treinar magia não é entediante ficar repetindo as mesmas coisas o tempo todo? Há coisas muito mais divertidas do que isso, vamos brincar!』
A garota disse rindo, segurando uma raquete de badminton. Ela realmente só brincava o tempo todo. Mas, apesar de só brincar, suas notas eram as melhores logo atrás das minhas. E, acima de tudo, ela era a aluna mais popular da classe. Ela era querida até pelos professores.
『Por mim eu passo.』
O meu eu do passado recusou.
『Ah é? Vou brincar um pouco com o pessoal, então se quiser, pode vir também, Fran!』
Dizendo isso e agindo como se eu nem estivesse ali, ela passou por mim e correu em direção ao ginásio. A Fran do passado, que foi deixada para trás, a observou com um olhar complexo. E murmurou:
『Ela brilha tanto.』
Tudo o que ela fazia, fazia bem feito; era atlética e tinha muitos amigos; eu a invejava.
「...Quem dera eu tivesse tido talento como ela.」
Ela parecia uma Mahou Shoujo saída de um anime infantil.
A Mahou Shoujo do anime que eu costumava assistir usava a magia extremamente bem e derrotava os vilões inúmeras vezes. E, por ter muitos amigos, ser inteligente, e, ao tentar começar algo novo... como quando de repente começava a cozinhar, conseguia fazê-lo perfeitamente; ela tinha genialidade e versatilidade. Por isso eu a admirava, admirava-a profundamente. A vida pública e privada dela eram tão repletas que eu chamava isso de “brilho”, e eu também desejava ser “brilhante”.
Foi por isso que, querendo ser como uma Mahou Shoujo, dei o meu melhor praticando magia e estudando. Me esforcei muito... me esforcei o tempo todo. Naquela época, eu acreditava ter talento para a magia. Eu manipulava a magia melhor que as outras crianças e tinha notas excelentes. Somado à minha natureza competitiva que odiava perder, eu tenho a lembrança de sempre manter o primeiro lugar na minha série no que se tratava de magia.
Mas às vezes eles surgem.
Gênios incrivelmente fortes que, como aquela minha antiga amiga, sequer se esforçavam. Crianças brilhantes, como as Mahou Shoujo daquele anime.
A criança que era o meu eu do passado desapareceu à minha frente, como se tivesse cumprido o seu papel. Eu dei as costas a ela e saí dali.
Pensei se era uma boa ideia continuar avançando por este lugar. Aquelas palavras que eu jamais quis ouvir, especialmente vindas dela, somadas às minhas emoções negativas, começaram a transbordar suavemente dentro de mim.
Eu queria ir para casa. Há um caminho de volta. No entanto, não fui informada sobre o que aconteceria com os outros caso eu falhasse. Por isso, não há escolha a não ser seguir em frente.
Andei procurando o próximo lugar por onde eu poderia avançar. O lugar que consegui chegar desta vez, foi novamente uma sala de aula. Mas, dessa vez, era uma sala de um ano superior em relação à de antes.
Lá, o meu eu do passado e ela estavam comparando notas.
『Não é nada de mais...?』
『O que você está falando, as suas notas são maiores do que as minhas. Você é incrível, Fran.』
Ela elogiou. Ao ouvir isso, o meu peito apertou. Tanto a eu do passado quanto a eu de agora, escutaram as palavras dela como um sarcasmo.
No território em que eu, após horas, não, após dezenas de horas e muito tentar, treinar, revisar e quebrar a cabeça repetidamente cheguei, ela, com muito menos tempo, adentrou como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ela me alcançou levando tudo meio que na brincadeira. E, em momentos assim, ouvir ‘No fim, a Fran é incrível mesmo’, de alguém assim...
Talvez ela estivesse apenas fazendo um elogio. Não, ela com certeza estava me elogiando. Afinal, ela era uma criança pura e muito direta. Mas isso acabou soando como puro escárnio para mim.
Eu detestava isso. Eu odiava o fato de a minha própria mente ter interpretado as palavras dela como um sarcasmo, eu me odiei mais do que tudo por isso. Desde então, passei a me odiar. E até hoje eu me odeio. Há sentimentos malignos adormecidos nas profundezas do meu ser.
Esse evento foi o gatilho que me impediu de continuar a enxergá-la como uma amiga. A culpa não é dela. É que eu simplesmente passei a acreditar que não era digna de ser amiga dela.
As duas se desfizeram em partículas negras e sumiram. Enquanto observava a cena, dei um suspiro.
「Não deve ter mais, não é?..」
Meu coração não devia suportar nada além disto. Vou procurar a saída. Pensando nisso, procuro por algum lugar acessível. Logo o encontrei.
A entrada da academia, ou seja, o local onde se troca os sapatos. Saí por ali e fiquei boquiaberta com a paisagem.
「Mas por quê?」
O que se erguia diante de mim era o Gekkyuuden . Ou seja... um covil de gênios.
「O quanto você precisa atacar os meus complexos para se sentir satisfeito?」
Eu não sou um gênio como a Presidente Monika. A única coisa que eu consigo fazer é ir fazendo aos poucos, dedicando muito tempo. E, graças ao meu esforço implacável, finalmente consegui alcançar a posição de Vice-Presidente do Conselho Estudantil desta academia.
Contudo, ainda sim, lá no fundo do meu coração, eu vivia desesperada pelo fato de ser uma pessoa ordinária sem talentos. Desde que entrei no Conselho Estudantil, esse sentimento apenas se intensificou.
Atualmente, Yukine e Shion, que estavam no mesmo patamar que eu quando entraram na escola, cresceram a passos largos, e apenas eu fui deixada para trás.
Não é como se eu tivesse deixado de me esforçar. Mas a diferença só aumenta. E, como se não bastasse, na série logo abaixo de mim, há jovens aprimorando suas habilidades vorazmente.
Com esses pensamentos, adentrei a sala do Conselho Estudantil.
Lá estavam os prodígios mais jovens. Hijiri Iori, Hijiri Yuika, Gabriella, Ludivine, Nanami, Takioto Kousuke. Pessoas que estavam prestes a me superar sem a menor dificuldade.
Eles conversavam de forma alegre, como se a minha existência ali sequer fosse notada. Conversavam sobre as Dungeons, sobre doces, sobre o que os professores tinham feito, conversas corriqueiras.
「Dá a sensação de que estou sendo ridicularizada por nem sequer entrar no radar deles.」
Eles são eles, e eu sou eu. Isso eu já entendi. Eu sei que tudo o que posso fazer é fazer aquilo que está ao meu alcance. Mas, às vezes, meu coração parece estar à beira de ceder.
Iori e os outros, que conversavam animadamente, gradualmente se transformaram em partículas negras e finalmente desapareceram. No momento em que estavam desaparecendo, por um instante, meus olhos encontraram os de Takioto Kousuke. Ele sorriu levemente para mim e desapareceu como partículas negras.
「O que foi aquilo no final...?」
Talvez tenha sido apenas coincidência ele olhar nesta direção. Mas algo ficou martelando na minha cabeça.
Enquanto eu refletia sobre aquilo, um círculo de teletransporte surgiu no centro da sala.
Se eu pisar ali, acho que conseguirei voltar. Eu conseguirei voltar, mas.
「Eu não quero que ninguém me veja com este rosto feio e cheio de inveja que eu tenho agora.」
Após esperar um tempo, eu entrei no círculo mágico.
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————★ Ponto de Vista de Yukine ★————
A primeira coisa que senti foi o cheiro de terra.
Não era o cheiro do andar onde eu estava há pouco, mas sim um cheiro que me fez sentir como se tivesse chegado a um lugar transbordando com a natureza. Eu olhei ao meu redor.
「Onde estou?」
Se eu fosse comparar, seria semelhante ao bosque da família Hanamura, onde sempre treino com Kousuke. Ao meu redor, havia flores e árvores em abundância, e uma estrada que se estendia.
「...Não tenho escolha a não ser seguir em frente?」
Após confirmar que o círculo mágico para retornar estava atrás de mim, segui o caminho. Caminhei por algumas dezenas de segundos e então descobri pegadas no chão.
「Tem mais alguém aqui além de mim, é isso?」
Eram pegadas do tamanho do pé de um homem adulto. Olhei ao redor, mas não havia sinal da presença de ninguém, nem parecia que algo fosse acontecer. Após pensar um pouco, decidi seguir essas pegadas.
Caminhei daquela forma por cerca de dez minutos e o caminho se dividiu em dois. Como as pegadas seguiam para a direita, eu segui na mesma direção.
Foi então que, à frente do caminho, senti sinais de combate. Me aproximei daquele local a passos rápidos, me mantendo alerta.
「Hã?」
Quem estava ali empunhando a sua naginata, era “eu”. Do lado oposto estava a Nee-san, e “eu” apontava a ponta da minha lâmina em direção a ela.
「A minha irmã e eu estamos lutando?」
No entanto, elas pareciam não ter notado que a verdadeira eu estava presente aqui. Mesmo com a minha presença, elas continuaram lutando.
A “eu” que estava em combate usava as mesmas técnicas que a eu de agora, repetindo os meus próprios movimentos na luta contra a minha irmã. Contudo, suas forças se igualavam.
E a luta chegou a um fim repentino. “Eu” acertei a minha irmã. Nee-san se transformou em partículas que brilhavam em tom de preto e desapareceu como areia levada pelo vento.
E então o que aconteceu em seguida? Uma figura que parecia uma sombra negra de forma humana se aproximou da “eu”. Quando foi que ela apareceu? Eu não senti a presença dela de forma alguma.
Essa sombra e a “eu” pareciam conversar de forma amigável e então começaram a caminhar juntas pela estrada. Contudo, após dar alguns passos, a “eu” se transformou em partículas e desapareceu da mesma forma que a minha irmã, que havia sido derrotada há pouco. A sombra negra, no entanto, continuou caminhando, como se nada tivesse acontecido.
Observando ela se afastar, senti uma dúvida repentina e verifiquei os arredores.
「Não há pegadas das duas, nem há sinais de combate. A única coisa que restou foi......... a pegada daquele homem adulto.」
Virei o rosto instantaneamente na direção para onde a sombra foi, mas não havia mais nenhuma sombra ali.
Tendo alcançado um patamar totalmente novo como High Elf e como realeza, Ludi lutava contra uma grande besta demoníaca usando magia.
Foi então que eu subitamente notei algo. Aqui não haviam sons de combate. E não se ouviam vozes. Em vez disso, apenas os sons da natureza, como o uivar do vento e o farfalhar das árvores roçando umas nas outras, preenchiam a área.
Quando Ludi derrotou o inimigo, ela abriu um sorriso para a sombra negra que estava ao seu lado. Então, ela começou a caminhar junto daquela figura sombria. Contudo, deram apenas alguns passos, e ela desapareceu, da mesma forma que ocorreu com a minha irmã e o “eu” do passado. Mas apenas a Ludi desapareceu.
「Sumiu de novo? E, de novo, apenas a Ludi.」
Aquela sombra negra continuava a caminhar cada vez mais para o fundo. E percebi que a cada passo que dava, apenas uma pegada ficava para trás.
Quando tentei segui-lo, Nanami e Ivy apareceram no mesmo lugar onde Ludi lutou há pouco.
Pensei que elas estavam falando sobre algo, e então as duas assentiram ao mesmo tempo. As duas deram um salto em uma direção diferente, não para a estrada, mas em direção à floresta repleta de árvores. Com movimentos dignos de um ninja, elas utilizaram os galhos das árvores para se deslocar.
Eu olhei para frente. À minha frente, restavam apenas pegadas.
「Eu não faço ideia do que isso está tentando insinuar.」
Por fim, decidi continuar seguindo as pegadas. Caminhando, me deparei com a sombra negra que falava com Ludi antes. A sombra negra estava enfrentando inimigos e parecia estar em apuros.
Observando a sua forma de lutar, ficou evidente logo de cara de quem era aquela sombra. Não, seria mais correto dizer que na hora que a Ludi sorriu eu já tinha certeza de quem era.
「Kousuke.」
Kousuke não respondeu à minha voz. Ele lutava uma batalha tão difícil que parecia que perderia a qualquer instante. Eu forcei minhas pernas a se moverem repetidas vezes tentando ir até lá, mas não conseguia avançar.
E foi no exato momento em que pensei que já não havia mais esperanças que isso aconteceu.
「Nanami e Ivy?」
Com a ajuda de Nanami e Ivy, Kousuke, que ainda era apenas uma sombra, derrubou os inimigos. Nanami e Ivy desapareceram do local no mesmo instante, como se tivessem cumprido a sua missão. E Kousuke começou a caminhar.
Eu logo o segui também.
Depois disso, ele derrotou os inimigos mais algumas vezes. Eles eram sempre inimigos muito mais fortes que ele. Massacrando aqueles monstros que surgiam sob um esforço brutal, ele avançava, aos farrapos.
O lugar onde ele finalmente chegou era um lugar que eu conhecia bem. Era no meio do caminho para a cachoeira onde treinamos. E lá, ele se virou em minha direção.
Com um olhar como se pudesse me enxergar, ele fixou os olhos em mim. E então abriu a boca. Contudo, não proferiu nenhuma palavra. Talvez, neste lugar, ele não fosse capaz de falar.
Ainda assim, eu entendo o que ele queria me transmitir. Mesmo sem palavras, os seus sentimentos me alcançaram.
Aquilo era “Gratidão” e “Despedida”.
O rosto dele parecia que estava prestes a chorar, mas ao mesmo tempo ele parecia verdadeiramente feliz; era um sorriso que preenchia o meu peito só de olhar. Ao ver aquele sorriso e os seus olhos, lágrimas rolaram dos meus.
Eu saí correndo. E estiquei, estiquei os meus braços para ele... e quando cheguei a um ponto onde parecia que poderia alcançá-lo, onde a única coisa que faltava era segurá-lo, ele desapareceu.
Nos meus olhos, a sua última figura, aquele sorriso cheio da contradição entre felicidade e infelicidade, grudou na minha mente e se recusou a sair.
E de repente me dei conta.
「Fui obrigada a ver............ o futuro do Kousuke?」
Parecia que a Dungeon estava sugerindo que ele terminaria naquele estado triste com aquele sorriso.
Eu tinha a vontade de ficar mais forte por ele. No entanto, sentia que a Dungeon me dizia que continuar do jeito que estou não é o suficiente.
Mas o que eu deveria fazer? O que é que me falta agora? O que é que ele tem e eu não tenho? Ou talvez, qual é a diferença entre ele e eu?
Subitamente, lembrei do Kousuke enfrentando sem parar inimigos de nível superior há pouco. Pensando bem, ele sempre foi assim. Mesmo que a ação fosse perigosa e o inimigo fosse de um nível muito mais alto, ele o desafiava sem se dar por vencido.
「É determinação, é?」
A sua determinação devia ser diferente da minha. Mas por que as nossas determinações eram diferentes?
Não, se o seu objetivo fosse apenas ser o mais forte, as suas ações estariam repletas de contradições. Com toda certeza, o seu objetivo não é apenas ser o mais forte.
Eu quero descobrir o seu objetivo. Não, eu preciso descobrir.
Foi exatamente nesse momento. O círculo de teletransporte surgiu junto a um feixe de luz, e dele, Kousuke apareceu.
「Ai, ai!」
Expulso pelo círculo de teletransporte, ele não conseguiu amortecer a queda e caiu sentado. Aparentemente, havia uma pedra logo abaixo do seu quadril, e agora ele se contorcia segurando o traseiro.
「Kousuke.」
Apesar de ter surgido de uma forma tão repentina, eu tinha absoluta certeza de que aquele era o verdadeiro Takioto Kousuke. Como eu poderia descrever o Kousuke de antes... ele parecia faltar de um certo senso de realidade. Já o de agora me trazia uma sensação de conforto que aquecia o meu coração apenas de olhá-lo. Se me perguntassem o que era isso especificamente, eu poderia dizer que era simplesmente o meu instinto, mas.
「Essa voz... Yukine-senpai? Hã?」
Ele disse ao se virar.
「Sim, sou eu.」
Talvez por eu estar olhando fixamente para ele, ele fez uma expressão de quem não entendia nada.
「Ué, aqui é o Desafio das Estrelas, certo? Mas por quê? Não devia duas pessoas entrarem no mesmo lugar no Desafio das Estrelas...? Por que isso?」
A julgar pelo que ouvi, parece que algo inesperado está ocorrendo.
「Entendo」
Entretanto, de alguma forma, eu senti que entendia o motivo da vinda dele. Talvez esta Dungeon estivesse me dizendo para falar diretamente com ele. Que eu desse um passo adiante com coragem e perguntasse. Que essa seria a minha provação.
「Aconteceu alguma coisa?」
「Ah, é que desde que cheguei a este desafio, fiquei pensando em algumas coisas... Kousuke, você já concluiu esse andar?」
「Não, não tô entendendo absolutamente nada. Era pra eu ter sido teletransportado junto com todas, mas quando dei por mim, fui lançado pra cá.」
Eu assenti com a cabeça em sinal de compreensão. Provavelmente o meu desafio tinha a ver com ele. Mas eu não fazia a mínima ideia do que seria o desafio do Kousuke.
「Quer andar um pouco enquanto a gente conversa?」
Dito isso, eu olhei para frente. As pegadas que eu usei como guia até então haviam desaparecido.
Embora Kousuke parecesse ter perguntas a fazer, ele assentiu e começou a criar novas pegadas ao meu lado. Após caminhar um pouco, Kousuke aparentemente reconheceu onde estávamos.
「Isto aqui não é lá na família Hanamura?」
「Deve ser o caminho que leva à cachoeira... vamos continuar por aqui.」
Por ser um caminho por onde passamos quase todos os dias, ele também deve ter percebido logo. Aos poucos, o som da água foi se intensificando.
「É apenas uma teoria minha, mas...」
Comecei a falar.
「Kousuke, você era necessário para o desafio ser superado. Por isso você foi chamado pra cá.」
「...A possibilidade de ser isso é alta.」
「A solução para o desafio já está bem clara, mas eu queria acalmar o meu coração um pouco. Desculpa, Kousuke, mas você se importa de me fazer companhia?」
「Pra uma coisa dessas, eu faço companhia pro resto da vida.」
Ele respondeu rindo. Então, ao seguirmos por aquele caminho familiar, a cachoeira que bem conhecíamos apareceu à nossa frente. Aquele foi o lugar onde nós começamos, onde eu e o Kousuke nos encontramos pela primeira vez. Senti que não haveria outro lugar senão ali para perguntar sobre os seus verdadeiros sentimentos.
「Não quer treinar uns golpes?」
Kousuke provavelmente ficou surpreso. E com razão. Afinal, nós estamos numa Dungeon. No entanto, o meu desejo era agir da mesma forma que fazemos todos os dias.
Talvez por ter percebido algo, ele assentiu com uma expressão séria. E assim, sem trocar palavras, nós fizemos o nosso menu de treino de sempre, mas pegando leve.
Assim que terminamos, dei uma toalha e nós dois nos sentamos numa rocha.
「Olha, Kousuke, eu preciso que você me conte.」
「...Por que essa mudança de assunto do nada?」
「Qual é o seu verdadeiro objetivo?」
Deve ter sido muito repentino. O rosto dele mostrava que ele tentava descobrir a que eu me referia.
「Você vivia dizendo que ia se tornar o mais forte. E eu acredito de verdade que isso seja verdade. Mas sempre achei que tinha alguma coisa estranha.」
「Pois é. Eu mesmo acho isso.」
Disse Kousuke, concordando com a cabeça.
「Mas, ao mesmo tempo, sinto que não é só isso. Você esconde segredos da gente, não é?」
「Sobre isso... pois é. Desde aquela vez, eu só disse que contaria algum dia.」
Aparentava estar constrangido. Devia estar se sentindo culpado.
「Fui eu que disse que ia esperar. Mas para eu continuar sendo eu mesma, preciso ouvir isso de você. Mesmo que seja egoísmo da minha parte...」
「Espera aí.」
Kousuke interrompeu as minhas palavras.
「A culpa é minha, então, Senpai, por favor, não peça desculpas. E não se culpe por nada.」
Dizendo isso, ele enxugou o suor com a toalha e continuou.
「...Você deve ter ficado cheia de dúvidas depois de quando eu resgatei a Ludi ou de quando ajudei a Sakura-san, né?」
「Sim.」
Kousuke soltou um leve suspiro, com uma expressão pensativa. Uns dez segundos depois, ele deu um sorriso sem graça. E a primeira coisa que disse foi:
「Me desculpa. Por ter ficado em silêncio durante todo esse tempo.」
Foi um pedido de desculpas dirigido a mim.
「Por essa razão é que forçar você a falar é que é o problema...」
Ao ouvir isto, Kousuke riu fracamente.
「Isso é tão a sua cara, Senpai. Mas você não tem absolutamente nenhuma culpa nisso. Então, por favor, eu peço que não se desculpe.」
「Kousuke...」
Ele respirou fundo.
「Eu obviamente vou contar. Mas como eu deveria fazer isso?」
「Como assim?」
「Tem muita coisa que é difícil de explicar, sabe? Então, tudo bem se eu resumir um pouco a história?」
「Claro.」
Ele baixou o olhar como se pensasse sobre alguma coisa. Pouco depois, levantou o rosto.
「A Senpai não joga muito videogame, né?」
Assenti levemente.
Ao ver isso, Kousuke começou a ponderar novamente. Provavelmente estava refletindo sobre como me explicar a situação.
「Sendo assim, bem. Indo direto ao ponto... eu conheço alguns futuros possíveis que ainda vão acontecer.」
「...Alguns futuros possíveis, é?」
Repeti as palavras, como que para absorvê-las.
「Isso. Por exemplo, quando a Ludi foi sequestrada antes de entrarmos para a academia, e também quando a Senpai me salvou. Eu já conhecia aquela Dungeon. Porque o futuro onde a Ludi era sequestrada também existia. O detalhe é que acabou acontecendo bem mais cedo do que eu imaginava.」
Eu também tinha dúvidas sobre aquele incidente. Era uma Dungeon que ele nunca havia visto, e ainda assim ele sabia de tudo o que havia lá dentro, conseguindo salvar a Ludi. Foi por isso que eu perguntei diretamente a ele na época, mas ele prometeu que contaria tudo quando o momento chegasse, e o assunto encerrou ali.
E não foi apenas no caso da Ludi que ele demonstrou saber demais. Para salvar a Sakura-san, ele reuniu antes tudo o que era necessário e se preparou totalmente, seguiu sem a menor hesitação por caminhos ocultos, e sabia tanto onde estavam os tesouros quanto as armadilhas.
Não apenas eu, como Ludi e Yuika também devem ter percebido vagamente que havia algo ali. Afinal de contas, era claramente estranho.
「No fundo eu já imaginava algo assim.」
De outra forma, as coisas não fariam sentido.
「Mas eu sabia de coisas demais, então fiquei com medo de que isso acabasse fazendo as pessoas desconfiarem de mim. Por causa disso, eu fingia que esse conhecimento vinha dos arquivos da família Hanamura e também pedi a ajuda da Nanami.」
「Isso quer dizer que a Nanami também sabe?」
Quando levantei a questão, ele desviou o olhar com uma expressão encabulada.
「Bom, eu acho que ela deve saber por cima, mas não entrei em detalhes com ela.」
Será que isso está certo...? Ela com certeza deve estar se sentindo muito mais aflita com tudo isso do que eu.
「Kousuke, é melhor você conversar com ela. A Nanami tá super envolvida nisso tudo.」
「A Senpai tem toda a razão. Eu estava me escorando na bondade da Nanami.」
Kousuke disse. No entanto.
「Bom... conhecendo você, imagino que já planejava contar de qualquer forma. Você sabe que tem que fazer isso o quanto antes, né?」
「Claro que sim.」
「Então tudo bem. Vamos voltar ao assunto principal.」
「Isso. Meu objetivo, né?」
Enquanto dizia aquelas palavras, o olhar que ele direcionava à bacia da cachoeira transbordava gentileza, semelhante ao de quem observa crianças ou animais brincando cheios de energia.
「Eu quero proteger」
「Proteger?」
Quando repeti a palavra, ele continuou olhando para a bacia da cachoeira e confirmou acenando com a cabeça.
「A verdade é que eu amo este mundo. Eu amo as pessoas que estão aqui.」
Dizendo isso, ele deu um pequeno sorriso. Parecendo um pouco envergonhado.
「Passar um tempo juntos, falar sobre coisas bobas, às vezes brigar, e ir todo mundo pra Dungeons. Fui gostando cada vez mais e passei a pensar que quero que todo mundo seja feliz, não importa como.」
Eu assenti. Isso era algo que eu também pensava. Se todos estivessem sorrindo felizes, isso seria o melhor.
「É por isso que eu estou agindo para garantir que absolutamente todos possam ser felizes.」
Entendi, eu assenti.
「Só que, daqui pra frente, eu sei o que vai acontecer. Para conseguir guiar todo mundo para a felicidade, eu vou ter que superar vários obstáculos e derrotar inimigos. Mas esses inimigos são bem poderosos.」
Então é por isso que ele é tão obcecado por poder.
「Eu preciso de força de qualquer jeito. Para conseguir que todos sejam felizes. Foi por isso que eu vim para esta Dungeon.」
Dizendo isso, ele apertou as mãos com força.
「......Falando a verdade, eu não dou a mínima pra ser o mais forte.」
Ele continuou.
「É que eu precisava ser o mais forte para garantir a felicidade de todo mundo, por isso eu dizia que queria ser o mais forte. É só isso.」
De repente, me lembrei do sorriso daquele falso Kousuke que desapareceu chorando e rindo ao mesmo tempo.
「Entendi o motivo de você querer ser forte.」
A minha intuição dizia que, se as coisas continuassem assim, não ia acabar bem.
「Né, Kousuke.」
「O que foi?」
「No pior dos casos, o que vai acontecer?」
Kousuke ficou em silêncio. Com uma expressão séria. Ele olhou na minha direção, nossos olhos se encontraram, mas logo ele desviou o olhar.
Deu para perceber que era algo tão terrível que ele até hesitava em dizer em voz alta. Eu apenas fiquei olhando fixamente para ele, esperando as suas palavras.
「Se as coisas forem pro lado ruim, eu e os amigos da Senpai provavelmente vamos morrer. O pior de verdade é... a academia e a cidade serem destruídas e muita gente morrer. Embora eu ache que as chances de ir por esse caminho são bem baixas.」
Fiquei chocada. Isso não era como lutar carregando o peso da vida de várias pessoas? Ele estava carregando um fardo tão pesado assim sozinho?
「Queria te perguntar uma coisa...... entre essas pessoas que você quer que sejam felizes...... eu também tô inclusa?」
「Mas é claro. Por isso, se você não for feliz, eu vou estar numa baita encrenca.」
Dizendo isso, ele suavizou um pouco a expressão séria de antes e riu. Mas era um sorriso meio complicado.
「Entendi.」
E então, de repente, lembrei do falso Kousuke de antes. Várias pessoas, inclusive eu, apareceram ao redor dele. Mas só tinha um par de pegadas no chão.
「Escuta, Kousuke. Até agora, parecia que você não estava sozinho, mas você estava.」
Mas agora é diferente. No caminho até chegar aqui, ali mesmo, as pegadas molhadas não são apenas de uma pessoa.
「Mas agora somos dois.」
Há pegadas de duas pessoas.
「Eu também quero realizar esse desejo junto com você. Não quero perder as pessoas que são importantes pra mim.」
E isso inclui você, claro.
Porém, eu sei muito bem que não posso continuar do jeito que estou agora para lidar com isso. Só que ele com certeza sabe o que seria melhor fazer.
「Kousuke, você também sabe o meu futuro, né?」
「Sei sim.」
「Você sabe um jeito de eu conseguir crescer ainda mais do que agora, não sabe?」
Eu também preciso ficar mais forte. Se for para alcançar o objetivo dele, eu tenho que ficar forte com a mesma determinação que ele.
「...... Sei. Mas é muito perigoso.」
「Eu não ligo.」
Pra começo de conversa, você não tem se importado nem um pouco com o perigo. E de qualquer forma...
「Você iria mesmo se fosse perigoso, não iria? Além disso, a gente já passou por isso várias vezes, não é?」
Kousuke deu um sorriso amargo, como quem se dá por vencido.
「Tem razão. Caramba. Sério mesmo, a Senpai nunca liga pra si mesma quando é pelo bem dos outros, né?」
「O que você tá falando? Logo de você que eu não quero ouvir isso.」
「...É, você deve ter razão.」
Haha, fufu; sem que nenhum de nós dois tomasse a iniciativa, nós começamos a rir. Foi uma risada estranha que me aqueceu o fundo do coração.
「A verdade é que tem uma Dungeon muito importante mais pra frente que é necessária para a gente crescer. Eu tava na dúvida se a gente devia ir agora ou não, mas vamos lá. Mas vá preparada.」
「Preparada?」
「Para o fato de que, assim como neste desafio, as coisas vão ser bem difíceis de agora em diante.」
「É o que eu mais quero.」
E então, o que teria sido isso? Um círculo de teletransporte apareceu sob os nossos pés.
「Eh, um círculo de teletransporte? A gente nem fez desafio nenhum...? Será que as coisas ficaram doidas porque eu vim pra cá?」
Kousuke disse isso parecendo confuso.
Mas pra mim, eu acho que isso foi um desafio, sim. Afinal, eu poderia ter sido rejeitada por alguém importante para mim, mas eu precisei criar coragem para dar um passo à frente de qualquer forma. Bem, talvez chamar de “desafio" seja um pouco de exagero.
Sem que tivéssemos a chance de dizer nada, nós fomos teletransportados pelo círculo mágico que apareceu.


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